04 outubro 2007

Mãos ao alto!

Por Mário Coelho*

Há três semanas, um colega do jornal - Amaury Ribeiro Jr. - foi baleado em Cidade Ocidental (GO), cidade distante 45km de Brasília. Ele vinha fazendo uma série de matérias sobre o tráfico de drogas na região. Inicialmente, dizia-se que era um atentado, uma represália, já que o repórter tinha mostrado a identidade do principal traficante da região. A polícia goiana não entendeu assim. Mesmo sem ouvir o depoimento dele, afirmou que houve uma tentativa frustrada de roubo. Antes do criminoso atirar, Amaury reagiu. Contrariar todas as regras de segurança é que salvou o colega da morte.

Dias antes, eu tinha entrado nessa cobertura também. Estava em Cidade Ocidental, cobrindo uma manifestação dos pais de duas meninas mortas por traficantes. Na parte da tarde, acompanharia o resto do protesto deles. Ainda apuraria para uma matéria de domingo que fazia junto com uma outra colega. Almoçamos e dividimos a equipe. O fotógrafo que estava comigo saiu com Amaury; foram correr atrás de mais personagens vítimas de violência. Eu e o motorista, sem ter o que fazer, procuramos uma sombra para ficar. Eu disse para irmos a um lugar movimentado; não dava para dar mole em situação alguma.

Paramos em frente a uma área comercial. Era pouco depois das 12h. Muita gente na rua, entrando e saindo das lojinhas, crianças em uniformes escolares passando nas calçadas. Ficamos dentro do carro. Eu lia o jornal mais uma vez e o motorista reclinou o banco para tirar um cochilo. Ao fazer isso, ele ajeitou o retrovisor para poder ver o que acontecia na rua, às nossas costas. Foi nesse momento que ele me alertou: três rapazes pararam as bicicletas próximas ao nosso carro. Um ficou bem atrás, enquanto os outros dois estavam do outro lado da rua. O primeiro abriu a pochete e colocou alguma coisa embaixo da camisa.

O motorista me avisou e falei para sairmos dali o mais rápido possível. Saímos da cidade e paramos em um posto de gasolina próximo à entrada de Cidade Ocidental. Não ficamos lá para ter que pagar para ver o que o rapaz tinha tirado da pochete. Apesar do aperto, essa não foi a situação mais bizarra que enfrentei em seis anos de profissão. Isso aconteceu bem no primeiro dia de trabalho no saudoso jornal O Estado, em Santa Catarina. Meu primeiro dia como estagiário de polícia.

Fazia a ronda por telefone como o editor de polícia tinha me ensinado no dia anterior. Não tinha nenhuma ocorrência de destaque, até mais ou menos 17h. Apareceu um caso de tiroteio dentro do maior supermercado de Florianópolis. Quatro homens tentaram roubar o estabelecimento, os seguranças reagiram e houve tiro para tudo quanto é lado. Um dos vigilantes ficou ferido. Os quatro assaltantes fugiram. Aí começa minha experiência. No jornal, não tinha carro para me levar até o local do crime. Aí, um dos colunistas se levantou da cadeira e disse que me levaria até o local.

Os assaltantes já tinham saído do supermercado. A última informação que eu tinha era de que o grupo tinha sido encurralado pela polícia no cemitério da cidade. A redação do jornal era próxima do local. Mas chovia, e o trânsito de fim de tarde estava mais infernal ainda. O colunista fez uma série de manobras arriscadas - para não dizer barbeiragens -, chegou até a subir em uma calçada. Tínhamos que passar por um viaduto. Ele perdeu a entrada, deu ré na via mesmo e entrou na contra-mão. Quando ele endireitou o carro e entrou na mão correta, pára um Palio branco ao nosso lado.

- Parados, mãos para o alto, é a polícia!

Eram dois policiais militares à paisana, os populares P2, empunhando pistolas .40 em nossa direção. Até explicarmos que éramos jornalistas, e estávamos ali para cobrir a matéria, foi um bom tempo de pura tensão. Carro descaracterizado, sem crachás ou qualquer tipo de identificação. A sorte foi que um dos policiais reconheceu o colunista do programa de tv que ele tinha na época. Foi um batismo de fogo. Minha mãe, apavorada quando soube, queria que eu desistisse. Foi perigoso, mas eu gostei da sensação de correr atrás da notícia.

O problema é que, na grande maioria das vezes, a gente só conta com a gente mesmo para proteção. As empresas ainda não têm estrutura para proteger seus funcionários em matérias investigativas com maior periculosidade. Então, fica-se entre a cruz e a espada: arriscar mais e conseguir mais informações, ou colocar a segurança em primeiro lugar? Nessas horas, é o bom senso da equipe que tem que prevalecer. Agora, se ele não existir, a possibilidade do jornalista virar notícia é muitro grande.

* Mário é o único torcedor do Avaí fora da Ilha, repórter do Correio Braziliense, dono do blog http://micjunior.zip.net/ de onde este texto foi retirado, e ainda vai escrever sobre New Journalism para o Filhos da Pauta.

3 comentários:

Anônimo disse...

Demorou, mas a contribuição chegou! Daqui a três anos vem o texto sobre o novo jornalismo. Pode confiar!

Felipe disse...

Mário também é DJ nas horas vagas. Isso é, quando ele consegue ligar o som.

Léo Alves disse...

Grande Mário seja bem-vindo. Continuaremos no aguardo da contribuição sobre novo jornalismo. A respeito da tensão que vc passou me lembrou um fato que aconteceu com uns amigos. Eles foram cobrir o assalto ao Banco do Brasil e vários estabelecimentos comerciais em Areia, cidade próxima a Campina Grande. Quando chegaram os bandidos já tinha ido embora. Só que quando estavam apurando, veio a notícia que os bandidos tinham voltado. Foi uma correria. Teve um fotográfo que perdeu a máquina. Pense num medo.