Conversar com quem não entende nem um pouco de jornal não é problema. Desde que essa pessoal não trabalhe em um e muito menos se intrometa em assuntos jornalísticos. Minha tímida experiência como jornalista já me ensinou a sempre brigar por minhas pautas. E brigar pra que elas sejam publicadas da melhor maneira possível. O problema é quando alguém, que não entende de jornal e só pensa em dinheiro, atravessa nosso caminho com a irredutível vontade de puxar o saco de um terceiro.
Outro dia tive um embate saudável com um dos gerentes da empresa para qual trabalho. Fiz, junto com um repórter do Correio Braziliense, uma entrevista com o governador do Maranhão, em visita dele ao jornal, em Brasília. Depois do papo, tentamos (eu e o gerente) acertar os ponteiros para publicar a entrevista no domingo, no Imparcial. O Correio publicaria um texto. Sugeri que cada um saisse com o seu, dando o enfoque que quisesse. Afinal, são dois jornais extremamente diferentes.
Por ser uma entrevista recomendada, já fiz meio puto, explorando sempre os assuntos mais polêmicos pra não parecer um informe publicitário. As perguntas foram feitas por mim e pelo outro repórter. Tudo bem até ai. O problema foi que o senhor gerente encasquetou que queria publicar o texto do Correio. Na cabeça dele, o jornal (O Imparcial) teria muito mais peso se publicasse a entrevista do Correio, tudo no mesmo dia, igualzinha.
Ai, lá vai eu explicar pra ele que era melhor publicarmos o nosso texto, explorando os assuntos que mais interessam aos nossos leitores. Eu, como trabalho como um correspondente do jornal em Brasília, estou mais por dentro dos temas de lá, os regionais, principalmente. O Correio produziria uma boa matéria. Mas por integrar a grande imprensa, está pouco se lixando para os problemas regionais lá do Maranhão. E com razão.
Pois bem. Dei uma explicação quase didática. Disse que escreveria um texto com assuntos locais e que o Correio daria outro enfoque. E ainda perguntei: se temos um correspondente em Brasília, por que usar a matéria do Correio? Não deu muito certo. Ele decidiu, então, que queria publicar o texto do Correio no domingo e de O Imparcial na quarta. “Mas o senhor não acha que duas entrevistas com o governador em menos de cinco dias não é exagero?”, perguntei. Além disso, algumas respostas seriam as mesmas nas duas entrevistas. Resolvemos então colocar nosso texto. E apenas uma matéria. O crédito seria dado para os dois repórteres.
Falamos sobre eleições municipais e a dívida do estado. O Correio falou sobre Chiquinho Escórcio e outras coisas nacionais. Cada um deu o peso e o espaço justo, sem exageros e sem enganação. Acho que no fim valeu a briga. Me senti melhor por estar sendo mais honesto com os leitores.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
3 comentários:
Rapaz;
isso é que é ir atrás de sua razão!
É de profissionais assim que o Brasil precisa!
Parabéns!
O dia em que empresários cheios da grana para investir em jornasi forem também ótimos jornalistas com visão editorial sem nenhum rabo preso, aí sim teremos um nível de excelência utópia no jornalismo brasileiro.
abs!!!
Esse gerente deve ser um medroso, porque queria comprometer a qualidade do jornal repetindo entrevistas, na tentativa de tentar arrancar mais dinheiro do governo...Se ele conseguisse, não sairia perdendo apenas o leitor, mas o próprio jornalista e, principalmente, o jornal!
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