10 outubro 2007

Na minha opinião...

Por Daniel Brito

Na minha opinião, eu não sei dar opinião. Estou há tempos para escrever sobre os vícios das editorias de política, mas paro no primeiro parágrafo pela metade. Confesso que tenho um sério problema para sustentar minha opinião.

Não sei, pode ser um problema (como gostam de dizer os treinadores de futebol) da base. Não sou acostumado a entrar em grandes dicussões, muito menos debates. É até um caso de preguiça, mesmo. Se alguém discorda de mim, deixo a conversa para lá. Tem tanta gente teimosa neste mundo. Eu não quero fazer parte deste rol...

Fora das redações, isso pode até ser uma virtude, mas quando passamos para o lado profissional, "não ter uma opinião" é uma falha grave. Não é o caso de ter 0% de opinião sobre 100% dos assuntos, mas de 50% sobre 50%.

Recentemente, recebi a missão de escrever uma resenha crítica sobre um livro do New York Times. "As melhores histórias do New York Times" foi lançado em português recentemente e, em conversa com um de meus editores, contei que acabara de ler o Reino e o Poder e me interessara com as histórias da redação do maior jornal do planeta.

Sabendo disso, dias depois, ele me entregou "As melhores histórias...". Li com um olhar crítico. Mas, na hora de escrever, não conseguia me expressar. O texto saía algo como:

- O livro é meio piegas, com umas histórias forçando a barra, mas tem uns textos curiosos.

Se eu entregasse uma linha da resenha para meu editor, já não estaria mais aqui para contar essa história. Então, recorri aos formulários de opinião que repousam nos rincões do meu cérebro. Trouxe de volta palavras que há tempo não utilizava nos meus textos de hard news, não hesitei em dar opiniões abertas e tentei dar uma pitada de criatividade ao lide.

O editor corrigiu os tradicionais erros de digitação, pontuação e concordância e disse que queria conversar comigo pessoalmente no dia seguinte. Confesso que dormi mal. Estava me sentindo como nos tempos da 5ª série, quando reprovei de ano. Levaria uma bronca do professor, no caso, do editor.

Ele me disse que faltava conteúdo, ou cancha, para fazer uma crítica. Faltavam vocabulário, argumentos. "A idéia é boa, mas está solta". Fiz, novamente, as alterações pedida por ele a minha primeira resenha foi publicada há quatro dias.

É provável que o editor demore a me entregar outro livro para ler e resenhar.

Segurança
É muito comum comentarista de futebol dizer: "Tudo pode acontecer". Isso é típico de um cara que não tem o que falar.

Crítico, colunista, comentarista, tem que ser um cara com personalidade. Um cara segura de suas idéias e coerente com seus princípios. Tem que ir direto ao assunto, sem subterfúgios. Quer ver exemplos de quando um jornalista está enrolado para dar opinião:

- Quando conta histórias antigas na tentativa de encaixá-la no contexto atual;
- Quando se utiliza muito mais de informações do que da própria opinião. Só na base da informação, por exemplo, qualquer um pode dizer que Hitler foi eleito pelo povo.
- Quando exagera nos adjetivos.

Lógico, uma boa opinião contém histórias, informações e adjetivos. Mas é preciso saber dosá-los, pois quando não estão juntos no texto, o comentário perde em qualidade.

PS - Se alguém discordar, eu não farei minha réplica. Não gosto de discussão!

4 comentários:

João Paulo Medeiros disse...

Muito bom o texto do Daniel. O tema escolhido é muito coerente...

Daniel 'toca' num ponto importante, que é uma ferida aberta no meio jornalístico. Na verdade são muitos os que pensam e expressam opiniões variadas sobre os diversos assuntos, mas um número pequeno deles consegue, realmente, defender com segurança o que acabaram de raciocinar...

Certamente, como Daniel frisou, esse problema está na base. Não me lembro, por exemplo, de ter sido cobrado mais do que três ou quatro vezes para escrever um texto opinativo durante o ensino médio; muito menos nos quatro anos de Faculdade.

Em inúmeras ocasiões ouvi falar em lead e em título de matéria, no entanto não encontro em minha lembrança uma aula que tenha tratado da forma como o autor de tal artigo desenvolveu seu raciocínio, ou se o comentário de 'fulano' estava focalizado na razão ou nos fatores emocionais que envolvem os acontecimentos.

Enfim, opinar é de certo muito difícil...

Soninha Francine disse...

Concordo. E não é só pra não discutir :o)
Engraçado é jornalista querer fingir que não tem opinião; que é só um observador isento, como se fosse um muro, um poste ou um passarinho pousado no galho.
E se aula de jornalismo tinha de discutir como se combinam fatos e opiniões em um texto de maneira honesta, aula de português devia ensinar e ler de verdade texto jornalístico, em vez de ficar tentando descobrir as intenções ocultas em uma crônica do Fernando Sabino (acho que era ele que se divertia lendo "interpretações" de textos seus em livros escolares).

Anônimo disse...

Se quer emitir opinião, que vire articulista, não jornalista. É claro que o repórter não é "um muro, um poste ou um passarinho pousado no galho". Se usarmos o sentido estrito da palavra, usamos opinião na maneira de escrever uma frase, de escolher um verbo, de encadear as informações. Opinião, nesse sentido, não é ruim, como já dizia Adelmo Genro Filho. O problema é quando se confunde um lead e um texto mais solto com opinião. Lembro de uma palestra do Caco Barcellos, onde um estudante de jornalismo perguntou como ele fazia para colocar, de "maneira tão elegante", opinião no texto. O Caco só virou e disse: "Nos meus textos não têm opinião". Bravo.

Felipe disse...

É tudo muito relativo. Se está fazendo uma resenha, ela é, por definição, um resumo acompanhado de crítica (positiva ou negativa). Não tem como ser informativo. Senão seria relatório, e não resenha.

Mas sobre o fato de você "ter de ter" opinião sobre tudo, eu sipmlesmente ach oisso pedante para burro. Quando não sei sobre algo, me calo. Ou faço alguma piada para diminuir a importância da discussão daquele tema ("nossa, não tenho o menor saco pra ver filme francês" ou "essas matérias de políticas são desnecessariamente gigantes. Não tenho saco para lê-las").

Abs!!!