Pedro Henrique Freire
Reflexões sobre a capa*
As últimas capas do jornal foram extremamente chapas-brancas. A edição dessa página está fraca e as chamadas pouco atraentes. É preciso descolar a imagem deste veículo com a do governo do estado e prefeitura. Mas parece que trabalhamos para promovê-los.
Exemplo:
A entrevista com Julião Amim (presidente regional do PDT no MA) tratava de um possível racha no partido. A matéria sobre ele vinha com essa tônica. Ele negava o racha e disse que procuraria a unidade. A melhor manchete seria: “Amim nega racha entre prefeito e governador”. Mas colocaram a manchete da pior forma possível. Não lembro os termos exatos. Mas saiu alguma coisa assim: “Julião Amim afirma que PDT sairá unido nas eleições de 2008”.
Esse não era o tom da matéria. Está eleitoreiro e parece um aviso aos adversários do governador. Além disso, ele falou em unidade em alguns momentos, mas apenas como retórica política. Nós sabemos que a unidade como ele quer será difícil. Com a manchete dessa forma, tiramos toda a malícia que um jornal precisa ter para ser respeitado. Está, simplesmente, oficial demais.
Exemplo 2:
Outro exemplo, também recente, de manchete chapa-branca foi a sobre os cadeiões. “Jackson busca entendimento com a população”. Quem lê isso com um pouco mais de crítica, imagina que o próprio governador escreveu e mandou por e-mail para o editor de capa.
A capa é o local mais nobre do jornal. Merece muita atenção. Dentro do jornal, podemos até pecar por excesso de parcialidade – já que não tem outro jeito. Mas na capa, não. É preciso resistir às pressões das assessorias e construir uma imagem mais imparcial. É uma questão vital. Se hoje somos desrespeitados por algum membro do governo, é porque não soubemos resistir às pressões e acabamos cedendo demais. Estamos fracos.
Sugiro, então, algumas mudanças básicas:
1 – Deixarmos de usar o nome Jackson Lago como sujeito da ação. Ou seja, em vez de chamarmos “Jackson inaugura escolas”, colocaremos: “Governo entrega tantas escolas”. O mesmo vale para a prefeitura.
2 – Evitarmos fotos do governador todos os dias na capa. Como as fotos são publicadas sem crivo ou interesse jornalísticos, podemos estabelecer um teto: fotos do governador apenas duas vezes na semana. Do prefeito, só quando o assunto for muito relevante.
3 – As manchetes devem evitar o tom oficial. É preciso isenção, clareza e objetividade. Vamos ser imparciais ao menos na capa.
4 – É comum o governador aparecer em duas e até três chamadas na capa. Podemos evitar esses excessos. Só uma chamada para ação do governo basta.
Com essas pequenas mudanças, acho que podemos livrar o jornal – ao menos um pouco – da pecha de oficial. Afirmo que, hoje, não é preciso ler com profundidade este veículo para saber como ele se comporta em relação ao governo.
No Maranhão, há uma tradição ao avesso de outros estados e da grande imprensa. Ai, apoio jornalístico se dá com elogios. É errado. Os governos devem anunciar para não serem criticados e não para serem elogiados. Não defendo uma postura extremamente imparcial, até porque não se pode fazer isso no universo em que vivemos. Defendo apenas que façamos um jornalismo menos oficial e justo com o leitor.
* Sugestões enviadas ao diretor de redação.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
Sem querer me meter no trabalho dos outros jornalistas que fazem a capa deste jornal aí citado no post, mas as manchetes, realmente, estavam horríveis.
Não acredito que dê para estipular quantas vezes sairá a foto desse ou daquele personagem. Tem que ser feito a partir de informações importantes. Até por que, de que adianta agradar o governo e não agradar ao leitor?
Tudo bem que a verba oficial é quem sustenta a maioria das redacoes atualmente, mas nem por isso as empresas devem abrir as pernas para qualquer pressão governamental.
Essas considerações (observações) serviriam para qualquer jornal aqui da Paraíba. É interessante observar como se faz festa com qualquer ação do governo. O governante asfalta uma rua (que é obrigação dele) e inaugura. No outro dia está nos jornais. E assim caminha o jornalismo paraibano...
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