12 setembro 2007

A realidade do jornalismo no Nordeste

Pedro Henrique Freire

Reflexões sobre a capa*

As últimas capas do jornal foram extremamente chapas-brancas. A edição dessa página está fraca e as chamadas pouco atraentes. É preciso descolar a imagem deste veículo com a do governo do estado e prefeitura. Mas parece que trabalhamos para promovê-los.

Exemplo:
A entrevista com Julião Amim (presidente regional do PDT no MA) tratava de um possível racha no partido. A matéria sobre ele vinha com essa tônica. Ele negava o racha e disse que procuraria a unidade. A melhor manchete seria: “Amim nega racha entre prefeito e governador”. Mas colocaram a manchete da pior forma possível. Não lembro os termos exatos. Mas saiu alguma coisa assim: “Julião Amim afirma que PDT sairá unido nas eleições de 2008”.

Esse não era o tom da matéria. Está eleitoreiro e parece um aviso aos adversários do governador. Além disso, ele falou em unidade em alguns momentos, mas apenas como retórica política. Nós sabemos que a unidade como ele quer será difícil. Com a manchete dessa forma, tiramos toda a malícia que um jornal precisa ter para ser respeitado. Está, simplesmente, oficial demais.

Exemplo 2:
Outro exemplo, também recente, de manchete chapa-branca foi a sobre os cadeiões. “Jackson busca entendimento com a população”. Quem lê isso com um pouco mais de crítica, imagina que o próprio governador escreveu e mandou por e-mail para o editor de capa.

A capa é o local mais nobre do jornal. Merece muita atenção. Dentro do jornal, podemos até pecar por excesso de parcialidade – já que não tem outro jeito. Mas na capa, não. É preciso resistir às pressões das assessorias e construir uma imagem mais imparcial. É uma questão vital. Se hoje somos desrespeitados por algum membro do governo, é porque não soubemos resistir às pressões e acabamos cedendo demais. Estamos fracos.

Sugiro, então, algumas mudanças básicas:

1 – Deixarmos de usar o nome Jackson Lago como sujeito da ação. Ou seja, em vez de chamarmos “Jackson inaugura escolas”, colocaremos: “Governo entrega tantas escolas”. O mesmo vale para a prefeitura.

2 – Evitarmos fotos do governador todos os dias na capa. Como as fotos são publicadas sem crivo ou interesse jornalísticos, podemos estabelecer um teto: fotos do governador apenas duas vezes na semana. Do prefeito, só quando o assunto for muito relevante.

3 – As manchetes devem evitar o tom oficial. É preciso isenção, clareza e objetividade. Vamos ser imparciais ao menos na capa.

4 – É comum o governador aparecer em duas e até três chamadas na capa. Podemos evitar esses excessos. Só uma chamada para ação do governo basta.

Com essas pequenas mudanças, acho que podemos livrar o jornal – ao menos um pouco – da pecha de oficial. Afirmo que, hoje, não é preciso ler com profundidade este veículo para saber como ele se comporta em relação ao governo.

No Maranhão, há uma tradição ao avesso de outros estados e da grande imprensa. Ai, apoio jornalístico se dá com elogios. É errado. Os governos devem anunciar para não serem criticados e não para serem elogiados. Não defendo uma postura extremamente imparcial, até porque não se pode fazer isso no universo em que vivemos. Defendo apenas que façamos um jornalismo menos oficial e justo com o leitor.

* Sugestões enviadas ao diretor de redação.

2 comentários:

DB disse...

Sem querer me meter no trabalho dos outros jornalistas que fazem a capa deste jornal aí citado no post, mas as manchetes, realmente, estavam horríveis.
Não acredito que dê para estipular quantas vezes sairá a foto desse ou daquele personagem. Tem que ser feito a partir de informações importantes. Até por que, de que adianta agradar o governo e não agradar ao leitor?
Tudo bem que a verba oficial é quem sustenta a maioria das redacoes atualmente, mas nem por isso as empresas devem abrir as pernas para qualquer pressão governamental.

Léo Alves disse...

Essas considerações (observações) serviriam para qualquer jornal aqui da Paraíba. É interessante observar como se faz festa com qualquer ação do governo. O governante asfalta uma rua (que é obrigação dele) e inaugura. No outro dia está nos jornais. E assim caminha o jornalismo paraibano...