11 setembro 2006

Eu (também) tenho que pagar a hipoteca

Por Daniel Brito

Imagino como deve ser a vida dos jornalistas comunistas ou esquerdistas nos Estados Unidos. Pensam uma coisa e passam outra todos os dias nas matérias que escrevem. Dia desses, li que o Miami Herald bancava jornalistas "espiões" em Cuba para contar os podres da ilha.

Eles viviam escondidos no meio dos cubanos, alguns eram até cubanos. E o jornal detonava o regime de Fidel. Imagino que alguns deviam ter a mesma inclinação política do "ditador", mas, para sobreviver, entregavam tudo.

Como foi muito bem dito no filme "Obrigado por fumar", a frase que mais se encaixa em situações como esta é a seguinte:

- Tenho que pagar minha hipoteca

O protagonista é o Relações Públicas da indústria do tabaco nos Estados Unidos e participa de programas de auditório, entrevistas, debates sobre o uso do cigarro. Tem sempre uma pancada de gente reunida para falar mal do cigarro e ele TEM que falar bem.

Ele tem a OBRIGAÇÃO de defender o cigarro. Ficou famoso nos EUA fazendo isso, de acordo com o filme (que não história real). Ela (a história), inclusive, deixa a entender que ele fuma, apesar de não mostrá-lo tragando.

Até que uma jornalista do Washington Post o pergunta em um jantar:

- Por que você defende o cigarro?
- Tenho que pagar minha hipoteca, responde, desligando o gravador da bonita repórter.

Tem um outro lance sobre essa frase no filme, mas não vou contar para não fazer como minha namorada fez comigo. Me contou e, quando fui ver, não achei graça nenhuma.

Mas o nosso protagonista de "Obrigado por fumar" emendou a seguinte frase ainda neste jantar da entrevista para o WP:

- Noventa e nove por cento das pessoas do planeta trabalham, para o bem ou para o mal, para pagar a hipoteca.

Acho que neste ano não ouvi frase tão perfeita para o momento que vivo como esta.

Nunca tive ideologias.
Nunca fui defensor de fracos e oprimidos.
Sempre achei que tinha que trabalhar porque todos os 6 bilhões de habitantes do planeta têm que ter alguma ocupação.

De uns tempos para cá vinha pensando na minha profissão não apenas como maneira de subexistir, recebendo o salário todo mês, fazendo oito ou nove textos por semana... Mas como um conjunto de idéias que não precisa se preocupar com as necessidades econômicas ou até mesmo materilistas tanto minhas quanto da empresa em que trabalho.

Confesso que demorei para pensar desta maneira. Geralmente, essa ideologia vem nos primeiros anos de faculdade, quando se tem a nítida impressão que é possível mudar o mundo. Nos meus tempos de estudante (não foi há tanto tempo assim), condenava quem tinha essa idéia na cabeça.

Claro, sempre soube que todas as empresas têm interesses. Mas, pelo contexto em que estou inserido hoje (bem maior do que quando era um estudante na UEPB), observei o jornalismo de uma maneira muito mais decisiva.

Até a semana passada, quando descobri que o contexto em que eu estou inserido nada mais é que uma falsa realidade.

Levei um choque da realidade e entendi que o meu contexto é puramente comercial e capitalista (redundância??). Eu penso de uma maneira e terei que escrever de outra. Sou um objeto, praticamente.

Como já aconteceu com:
os cubanos do Miami Herald;
com os jornalistas brasileiros na época da ditadura (não tô me incluindo em uma ditadura, hein!?!?!?!)...

Vou até mais longe:
com os professores de universidades particulares;
com os juízes de direito comprometidos com organizações criminosas...

É essa a realidade.

Afinal, todos temos que pagar a hipoteca!!!

7 comentários:

Toty Freire disse...

A verdade é que somos mesmo prisioneiros do capitalismo. Infelizmente isso se reflete no nosso texto. Mas não desanime, caro amigo DB. Afinal de contas, nós jornalistas passamos boa parte de nossa existência burlando sistemas que insistem em colocar palavras na nossa boca. Ou melhor, no nosso texto. Mas, acho eu, mesmo com todos os obstáculos, ainda somos parte importante na formação da sociedade.

Abçs

Léo Alves disse...

Pois é grande DB, tem horas que a gente fica se sentindo "menos gente", menos profissional. O grande é problema é que as empresas se vendem e querem vender a gente junto. Mas elas nunca vão vender os nossos valores pessoais e morais. E o resto a gente vai tirando de letra. DB, vamos em frente.

Lenildo Ferreira disse...

Putz!!! Eis, amigo, a encruzilhada cotidiana da existência humana... Os dilemas, questionamentos, profundas reflexões... Como diria shakespeare, "ser ou não ser...?", como diria um zé qualquer, "puta merda"!!!! (ps: pode dizer 'puta merda' aqui???)

Gilberto Silva disse...

Passamos por questionamentos desse tipo todos os dias. Somos humanos!!!

Anônimo disse...

gostei bastante do nome do blog, bem criativo, o encontrei em um dos comentario do comunique-se

Anônimo disse...

farinha pouca...meu pirão primeiro né?
é a vida...

Anônimo disse...

a necessidade de se trabalhar é um grande azar para quem faz o que não gosta. e já que vc é uma das pouquissimas pessoas neste mundo que faz o que gosta, aproveite. livre-se das poucas desilusões que te afligem e viva o profissional competente e satisfeito que vc é!