19 setembro 2006

Um romance...

Por Pedro Henrique Freire

Quando comecei na faculdade, escrevia pouco. Não trabalhava. Portanto, não tinha pautas para apurar e escrever. Mas logo no primeiro ano de curso comecei a trabalhar em redação – no Maranhão – e senti na pele o que era ter que escrever todos os dias. Era comum eu chegar na redação e falar de lado: “Pô, hoje eu estou sem inspiração”.

Inspiração, pra mim, na época, era a certeza de um bom texto. Era a certeza que iria tirar das profundezas da minha mente as palavras ideais para um bom texto – aquelas que eu estava longe de usar no dia-a-dia.

Lembro que comentei isso até com um escritor maranhense que entrevistei para um trabalho da faculdade. Não me recordo o nome dele. Sei que perguntei: “O senhor escreve todos os dias?”. Ele disse que sim e eu emendei: “Mas o senhor escreve bem todos os dias?”. Ele me disse que não, mas que escrever era sua profissão, então não tinha tempo ruim, tinha que escrever.

Mesmo assim, era comum duas semanas depois ele jogar fora o que tinha produzido e começar de novo.

Foi quando caí na real que, na nossa profissão, não importa como você esteja, você tem que escrever e não pode ser de qualquer jeito: as pessoas precisam entender sua mensagem. E é pra já! Clareza, precisão e simplicidade. É tudo que devemos ter na hora de sentar a bunda na frente do computador e mexer os dedos para mandar algum recado. Isso, amigos jornalistas, requer uma concentração “filha-da-pauta”... literalmente.

É dela – da pauta – que surge toda a inspiração do jornalista. Quando você acorda, toma banho, e pensa que, quando chegar ao trabalho, a primeira coisa que fará é procurá-la. E, partir daquele momento, ela irá guiar seu dia. Tudo que ela quiser, você fará. Ela é a musa, dona da inspiração, chefe do seu dia (às vezes da noite). Por isso, é fácil amá-la e odiá-la, tudo ao mesmo tempo.

Continuando essa metáfora em clima romântico, me arrisco a dizer que o casamento entre jornalista e pauta não é perfeito, mas é um ótimo processo reprodutivo. Quando você apura a pauta, é fácil pensar logo em outra. Bingo! Está ai o fruto do casamento entre você, jornalista, e sua pauta. É assim que o jornalismo se renova.

Nos últimos dias, estou longe de ter grandes sacadas para os textos que escrevo. Está me faltando um pouco de concentração. Percebo que estou de mal com a pauta. Ela vem, me inspira, eu a admiro, mas por não pretender viver um grande romance com ela, acabo saindo de fininho, pegando o caminho mais fácil e escrevendo uma matéria “feijão com arroz”.

Pauta é o alicerce do jornalismo. Sem ela, nada funciona. Por isso, pense nela com carinho, sempre “discutindo a relação” e a melhor forma de deixá-la em perfeita sintonia com você. Afinal, ela irá lhe acompanhar pelo resto da vida. Quanto a mim, é nessas horas que gostaria de ser escritor e ter a possibilidade de escrever mal os dias que não encontro o amor pela pauta. Mas não posso. Escrever é minha profissão.

5 comentários:

DB disse...

Grande Predo, acho que os sintomas relatados no teu texto é como um vírus. Na semana passada, estava totalmente sem inspiração e disposição para criar matérias ou até fazer um texto legal para nosso blog.
Passei o final de semana pensando em coisas novas e, nesta semana, tomei uma vacina contra essa virose que me rendeu algumas pautas legais.
Falta só uma idéia para manter este blog aualizado...
mas ela vem. Até domingo ela!!

Anônimo disse...

Certamente esse é um paradigma que intriga todo e qualquer profissional de imprensa: escrever, e bem, todos os dias; ou melhor, três ou quatro vezes por dia se assim "AS PAUTAS" o obrigarem.Pensando nisso, lembro-me de um antigo, mas incontestável conselho proferido por um de meus professores de Faculdade. Ele repetia:"Leiam e escrevam muito,depois releiam e reescrevam novamente. Ao terminar, ..."

Léo Alves disse...

Não é fácil estar inspirado todos os dias. Mas já dizem que um bom trabalho, um bom texto sai de 90% de transpiração e 10% de inspiração. Talvez seja por isso que muitas vezes estamos sem inspiração e mexemos aqui, ajeitamos ali, cortamos uma parte, e por fim, o texto acaba saindo legal. Às vezes até melhor que num dia de inspiração. Escrever dá trabalho. E escrever um bom texto ainda mais. Mas como disse Pedro, escrever é o nosso ofício.

Anônimo disse...

Escrever, todo mundo escreve, porém, escrever bem feito, são outros "quinhentos", ainda mais quando se tem três pautas para cumprir todos os dias, e mais a especial para o domingo....Acredito que a pauta (quando bem feita) nos orienta, nos guia, facilita nossa vida. Dela surge outras pautas, e outras e outras....contudo, ficar preso a ela é terrível, talvez um dos piores erros do jornalismo diário.
Há várias formas de dizer a mesma coisa, mesmo que vc se depare com assuntos batidos, aparentemente feijão-com-arroz. A grande sacada é pegar mais detalhes extra-release, descobrir algo novo, um bom foco e a inspiração chega!

Enfim, nosso ofício é cumpri-las no final do dia e manter um bom relacionamento com ela.

Anônimo disse...

Escrever, todo mundo escreve, porém, escrever bem feito, são outros "quinhentos", ainda mais quando se tem três pautas para cumprir todos os dias, e mais a especial para o domingo....Acredito que a pauta (quando bem feita) nos orienta, nos guia, facilita nossa vida. Dela surge outras pautas, e outras e outras....contudo, ficar preso a ela é terrível, talvez um dos piores erros do jornalismo diário.
Há várias formas de dizer a mesma coisa, mesmo que vc se depare com assuntos batidos, aparentemente feijão-com-arroz. A grande sacada é pegar mais detalhes extra-release, descobrir algo novo, um bom foco e a inspiração chega!

Enfim, nosso ofício é cumpri-las no final do dia e manter um bom relacionamento com ela.