29 setembro 2006

Sobre a verdade...

Pedro Henrique Freire

Enquanto eu lia o novo livro o teólogo-militante-socialista Frei Betto, A Mosca Azul, escutava o Jornal da Globo escarrar notícias sobre a crise do governo Lula. No livro, Betto falava dos cinco F´s do brasileiro: fé, festa, futebol, feijão e farinha. Contava que, nos quatro anos que esteve na prisão, resolveu escrever para parentes e amigos. Suas cartas, tempos mais tarde, viraram livro.

Enquanto isso, o Jornal da Globo apontava os “chegados” do Lula metidos em falcatruas das mais “brabas”. Comecei a refletir sobre o registro dos dois momentos: o da prisão (lá nos tempos idos) e a crise política atual. Em todos os períodos existiam pessoas dispostas a registrar aquilo que acontece no momento em questão. É o papel da imprensa. Frei Betto comentou a história do Brasil da prisão (já que a ditadura não permitia que ele o fizesse fora dela). Nós, jornalistas, escrevemos de fora para dentro.

Não estamos metidos em nada daquilo. Temos um olhar crítico e isento sobre a prisão que sufoca os políticos e os faz decair moralmente. Estamos escrevendo a história, falando a verdade.

Talvez não percebamos, mas o que ocorre hoje pode ter um significado definitivo na formação dos nossos filhos e netos. Eles irão aprender na escola quem é o Lula e seus comparsas. Enquanto tudo isso não passa, vamos registrando, apurando, discutindo, criticando, escrevendo.

Estamos numa posição privilegiada.

O pior é quando registramos tudo de dentro para fora. Dou um exemplo clássico: Maranhão. No momento, o registro político não existe por lá. Explico o motivo:

Os dois principais jornais, concorrentes naturais, defendem grupos políticos opostos. Quando um diz uma coisa o outro publica outra totalmente diferente. É como se eu dissesse: Roseana Sarney lidera as pesquisas de intenção de voto. No outro dia, o concorrente diz que nada daquilo é verdade. São duas versões absurdamente diferentes para a mesma história.

Eu pergunto: qual o registro histórico teremos? Nenhum. Qual a importância do leitor numa circunstância como essa? Nenhuma. Que responsabilidade ética tem o jornalista que faz isso? Nenhuma. Daqui a 10 anos, se resolver consultar os jornais para saber como estava a política do estado, não saberemos o que é verdade ou mentira. Isso é um boicote à necessidade de informação do povo.

É esse o mal de enxergar a notícia de dentro, de se envolver muito com ela. Somos automaticamente influenciados.

Depois que apanhou muito da ditadura, Frei Betto, que não é jornalista, registrou os horrores das inconseqüentes atitudes de milicos irresponsáveis. Foi influenciado por isso. Mas ele não tinha responsabilidade nenhuma com o grande publico: escreveu para parentes e amigos.

Os jornalistas não. Temos a responsabilidade com o envolvimento e a construção crítica de nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. Podemos dar-lhes, aos poucos, uma visão diferenciada de qualquer coisa.

Só assim, conseguiremos que a filosofia da maioria do povo brasileiro não continue como a do final dos anos 60: feita de fé, festa, futebol, feijão e farinha.

4 comentários:

DB disse...

Na Paraíba, existe um jornal chamado A UNIÃO. Ele pertence ao estado. Quem assume o governo, coloca o que quiser nele. Por isso, o jornal é um fracasso há décadas e se transformou num cabide de empregos. Há 16 anos, quando o então governador da Paraíba deu um tiro em um adversário político, A UNIÃO foi o único períodico do país a não noticiar o fato. Só publicou uma entrevista-esclarecimento com o governador dando razão ao tiro desferido por ele no adversário.
Em Brasília, poderemos dizer que a cidade e o governo local melhoraram de uns anos para cá, desde que mudou a direçao do jornal mais influente da cidade.
Quem perde é a cidade...e o leitor!

Toty Freire disse...

Por favor, entrem em www.oimparcial.com.br, leiam a capa e depois entrem em www.oestadoma.com.br e leiam a capa (ou só a manchete). O que escrevi ontem está demonstrado hoje nos dois jornais.. É lamentável...

Abraço a todos

Léo Alves disse...

O comprometimento político dos jornais não é privilégio só da Maranhão. Na Paraíba acontece a mesma. O que um jornal diz, o outro desmente. O que você coloca Pedro é muito pertinente porque estão assassinando a história sem falar a verdade. Ou falando apenas o que interessa. No caso nacional, livros serão publicados sobre tudo que está acontecendo. Mas imagine no caso dos estados. Se alguém consultar os jornais no futuro não saberá qual a verdade. Abs

Toty Freire disse...

Com certeza, grande Léo... Acho que por vezes jornalistas não têm noção da importância de seu veículo para construção da história.. Estão, de fato, "assassinando a história". Muito bem colocado..
Grande abraço, amigo..