Por Pedro Henrique Freire
Quem é jornalista, escreve e quer ser lido. Claro, todos nós queremos.
Mas nem sempre é assim.
Em época de eleição, o medidor que indica o "ibope" dessa ou daquela matéria parece estar mais aguçado. O resultado é o seguinte: a gente escreve, escreve, escreve e parece que meia-dúzia-de-gatos-pingados leram o que nos esforçamos para colocar na TV, no papel ou na Internet.
O feed back é quase zero.
Quer sentir isso nas ruas? É só sair perguntando para quem aparecer pela frente sobre as últimas novidades de política. Aquelas com menor grau de formação – que deveriam ser vítimas das propagandas eleitorais ou jornais da TV – são as mais desinformadas.
Um outro dia perguntei a empregada daqui de casa:
- Em quem você votará para governador (do DF)?
- Heloísa Helena, respondeu ela.
- Mas ela é candidata a presidente, corrigi.
- Ah, é? Então eu vou votar no (Joaquim) Roriz.
- Tá, mas Roriz é ex-governador. Agora ele é candidato a senador.
Ela não soube dizer em quem iria votar porque não conhecia os candidatos. Quando disse um a um quem são os concorrentes ao Governo do Distrito Federal, as coisas começaram a clarear e ela soube dar sua preferência.
A reflexão que fiz foi a seguinte: as pessoas até conhecem alguns candidatos, a biografia, as coisas boas (ou ruins) que eles tenham feito. Mas só sabem de ouvir fulano ou sicrano comentar. Os meios de comunicação, para este caso, passam longe dos ouvidos e olhos do povo pobre.
É uma pena.
Agora você imagina a Internet, um veículo com pouca penetração em massa?
Por isso, as vezes acabo achando que não escrevo para ninguém. As minhas matérias, por exemplo, só ouvi comentários dos próprios jornalistas. Nessas eleições, ainda não senti orgulho de ver uma informação dada por mim modificando a vida de alguém. Mesmo trabalhando num site com 40 milhões de acessos únicos por mês, o retorno do público ainda é raso demais, embora tantas coisas polêmicas sejam publicadas.
O que devo fazer?
O melhor é continuar escrevendo na esperança que estou sendo lido.
Engavetadores gerais
Hoje, os jornais padecem de um enorme mal: o engavetamento. Dentro da ordem de preferência da alta cúpula da empresa, estão os anunciantes e, só depois, os leitores. Por isso, muitas matérias de política são engavetadas ou tiradas do ar numa decisão unilateral com o único objetivo de proteger esse ou aquele grande anunciante. Em época de eleição, o que já não era lido, aí que não será mesmo. Simplesmente por não ter sido publicado.
Ricardo Noblat diz:
"Hoje, os jornais ganham mais pelo que não publicam do que pelo que publicam".
Apesar de achá-lo um jornalista irresponsável, nascido para escrever em blogs – espaço onde poderá publicar somente o que bem entender – considero o comentário certíssimo.
Mesmo em época de eleição, quando todos deveriam abolir a censura para proteger o povo dos políticos corruptos, os jornais não estão nem aí para o leitor. Querendo ou não, o resultado é o seguinte: o leitor também não está nem ai para os jornais.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
5 comentários:
A realidade que você pintou é tão verdadeira quanto lamentável. Jornalismo isento e Democracia concreta são objetos com relação direta, vínculos umbilicais, uma indissolúvel simbiose. Ou seja, a coisa anda mal, muito mal. Aliás, sobre um tema desse mesmo mote postarei amanhã matéria no blog Jornalismo Paraibano. Abraços
E alguém quer sair perdendo na história?
Não, é por isso que estamos onde estamos!
E os veículos que atingem a 'grande massa' também sofrem do mesmo mal!
Propagandas Eleitorais? Horário político? Virou piada! Saiu hoje no Correio uma matéria contando justamente isso:
"Show de horror na televisão
Candidatos exóticos se expõem ao ridículo no horário eleitoral gratuito e têm os programas reproduzidos em sites na Internet"
Quem assiste?
Quem aguenta?
Me pergunto como conseguiremos mudar esse cenário político com todas essas 'barreiras'!?!Conseguiremos?
Pedro continue com seu trabalho de escrever, poucos podem ler, mas é um trabalho de formiguinha, acredite!Acredito que assim você está plantando algumas sementinhas em alguns terrenos férteis... o que é muito importante! Um dia a gente chega lá!
Beijos!
Quem lê jornal ou internet é a classe média. Elas são mais ou menos esclarecidas, ficam indignadas com a corrupção e se sentem os principais prejudicados pelos desmandos dos políticos. Mas essa mesma classe média, pelo pouco que entendo de política, não decide eleição. Eleição se ganha da maneira que tua emprega, Pedro, acha.
Ah, eu vou votar na Heloisa Helena.
tanto faz se é deputado, presidente, governador... Quero votar em fulano de tal apenas porque tenho que votar mesmo.
Portanto, as pequisas de opinião, nada mais é que ilustração falsa da realidade para a classe média. Como eu, como você, como tu que tá lendo aí, como o americano que fica colocando vírus nos posts aqui do blog... (americano S.O.B.)
Acho que a falta de interesse por política tem relação com a descrença em deputados, senadores e presidente. Entra ano, sai ano, as promessas e os resultados continuam sem alterações. Isso enche o saco. Incomoda o leitor e o eleitoral. Enfim, dá preguiça.
Vivemos momento de completa apatia eleitoral. Sou aluno de jornalismo e a mim muito incomoda quando não vejo o debate político transcorrer entre os corredores da Universidade em que estudo (a Federal de Goiás).
Penso se a culpa é realmente desse sistema político corrupto e praticamente imutável ou se é nosso, população, que nada fazemos para modificar esta estrutura.
Pior é ver presidente, governadores, senadores e deputados serem (re)eleitos por pessoas sem informação e que não pensem um novo modelo a ser praticado pelo Brasil. E não só sua empregada, Pedro. Mas também toda uma classe intelectual desligada do processo.
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