Extraído do blog de André Kfouri
http://blogol.blig.ig.com.br/
09/02/2007
"Rocky Balboa" estréia hoje nos cinemas brasileiros. Um amigo meu, ex-atleta, já viu e disse que o (sexto) filme faz uma abordagem interessante dos problemas de um esportista aposentado.
Eu parei em "Rocky IV", no já distante ano de 1985 (dá pra acreditar nisso?), mas acho que vou conferir. Soube que Mike Tyson faz uma ponta, e é por causa dele que a entrevista de hoje é sobre boxe.
Na verdade, não é exatamente sobre boxe. É sobre jornalismo, e sobre histórias que estão por trás de grandes entrevistas. Histórias, às vezes, tão boas quanto.
O jornalista Eduardo Ohata, da Folha de S. Paulo, conseguiu uma entrevista exclusiva com Iron Mike, durante sua rápida (e agitada) passagem por São Paulo, em novembro de 2005.
Já seria sensacional, mesmo que os bastidores não fossem tão surreais.
BLOGOL - O que o Tyson veio fazer em São Paulo mesmo?
EDUARDO OHATA - Ele foi à Buenos Aires participar daquele programa do Maradona na televisão, e resolveu conhecer a cidade. Não tinha nenhum compromisso aqui.
BLOGOL - Era uma pauta obrigatória, lógico...
EO - Uma pessoa que eu conheço, um amigo do Tyson, me passou a informação de que ele viria, o nome do hotel e tudo. Eu não achei que era verdade, à princípio, mas fui para o hotel esperá-lo.
BLOGOL - Tinha outros jornalistas lá?
EO - O pessoal do Diário de S. Paulo, que tinha recebido a informação de uma garota brasileira com quem o Tyson se envolveu nos Estados Unidos. A informação era quente.
BLOGOL - Você ficou surpreso ao vê-los?
EO - Não, porque o Diário tinha feito uma matéria com essa menina, então eu logo liguei os pontos. Mas a situação não era ruim, não. Dois repórteres, só. Estava bom.
BLOGOL - E o que aconteceu?
EO - Eu estava no lobby e, de repente, o Tyson apareceu. Eu saí correndo na direção dele. Ele ficou meio assustado e, quando cheguei perto, ele falou "se você der mais um passo, eu vou te socar". Eu recuei, tentei me proteger, enquanto falava "eu sou amigo do Mario! Sou amigo do Mario!". O Tyson entrou no elevador e subiu. Um tempo depois, a informação vazou e um monte de gente foi pra lá. Era uma cena curiosa, porque quando ele aparecia, ninguém tinha coragem de chegar perto. Mas eu me aproximei outra vez, novamente citando o Mario.
BLOGOL - Quem é esse Mario? (pergunta perigosa...)
EO - O Mario é dono de uma lanchonete e de uma academia de boxe em Nova Jérsei (EUA), e é amigo do Tyson. Eu o conheci quando fui cobrir a luta do Tyson contra o (sul-africano) Franz Botha, em Las Vegas, em 1998. O Tyson frequenta a lanchonete e a academia do Mario. Nós mantivemos contato e ele me ligou para avisar sobre a chegada do Tyson a São Paulo.
BLOGOL - Voltando à cena no lobby...
EO - Ele me olhou e disse "você não sabe que eu sou uma pessoa violenta?", eu falei "sei", e ele "então o que você está esperando para dar o fora?". Nessa hora juntou um monte de gente, e ele ficou bem irritado. Foi aí que ele resolveu dar uma entrevista coletiva, desde que ninguém o seguisse depois.
BLOGOL - Você ficou satisfeito com a coletiva?
EO - Não. Foi aquela coisa de "o que você acha do Brasil?", "você lembra do Maguila?"... Eu fiquei revoltado, liguei pro Mario e disse que além de o Tyson ter ameaçado me bater, ele ainda falou com todo mundo. Eu fui lá para ter uma exclusiva, quase apanhei e ele ainda deu uma coletiva. O Mario disse que ia falar com o Tyson, mas eu já tinha perdido a esperança.
BLOGOL - Mas continuou por lá?
EO - Continuei. No dia seguinte, o Tyson saiu de carro e todo mundo foi atrás dele. Quando estávamos no carro, o fotógrafo que estava comigo disse que nós teríamos que voltar ao hotel, porque ele tinha esquecido de carregar a bateria da câmera. Eu falei que ele estava maluco e que não iria voltar, mas não teve jeito. Voltamos e eu fiquei lá, torcendo para que nada acontecesse. Para minha surpresa, um pouco depois o Tyson voltou, sozinho.
BLOGOL - E o que você fez?
EO - Eu fiquei meio receoso, ele é imprevisível. Quando me aproximei, ele perguntou o que eu estava fazendo lá. Eu disse que estava o incomodando um pouco mais. Ele perguntou se eu era o amigo do Mario, e eu falei que era. Aí ele disse "então vamos subir que eu vou falar com você".
BLOGOL - Você ficou com medo?
EO - Não, por causa do Mario. Mas depois eu conto uma coisa que aconteceu e me deixou com medo. Ainda no elevador, eu disse que ele tinha que tratar as pessoas com mais respeito, porque ele era um campeão mundial, uma pessoa pública. Ele falou que isso era besteira, que ele não era importante. Ele é muito depressivo. Eu disse que ele influenciou a vida de muita gente, e até citei o meu caso. Eu era muito tímido, não falava com ninguém, e me transformei em uma pessoa completamente diferente depois que comecei a praticar o boxe, e só comecei por causa dele. Falei das crianças, dos fãs, de outros lutadores, que ele deveria levar isso em conta, ter mais auto-estima. Ele disse que eu estava falando do passado, que não era mais assim, que ele ia morrer pobre e sozinho, o mesmo destino de outros campeões mundiais. Nessa hora ele ficou visivelmente emocionado.
BLOGOL - Por quê você teve medo?
EO - No começo da entrevista, já no quarto, ele se aproximou de mim e tirou meus óculos. Disse que também usava óculos quando era menino, e que era ridicularizado pelos outros. Eu achei estranho, mas o gesto estava num contexto. Depois, quando estávamos conversando, sentados numa mesa, ele pegou minha mão e perguntou se eu era gay. Eu disse que não era, e ele quis saber se eu gostaria de ter filhos. Nessa hora eu fiquei amedrontado, e estudei uma rota de fuga caso ele viesse para cima de mim. Pensei em pular da janela, apesar de estarmos acima do décimo andar. Mas não houve mais nada, logo depois um amigo dele chegou no quarto, e eu fiquei mais tranquilo.
BLOGOL - Não teve um episódio no final?
EO - Teve. Ele ficou emocionado ao falar do passado, da solidão, virou para mim e disse que eu tinha de ir embora. Eu quis fazer mais uma pergunta, mas ele não deixou, me mandou embora. Quando eu me levantei, ele falou "se você contar para alguém que me viu chorando, eu te mato". Eu saí do quarto e liguei pro Mario. Quando eu disse que ia publicar a história do choro, ele começou a me chantagear. Disse que tinha confiado em mim, e que agora eu iria denegrir a imagem de um campeão mundial, que eu não era uma pessoa confiável. Ele estava incomodado com o fato de eu publicar que vi o Tyson chorando, como se isso fosse chamá-lo de maricas.Foi um dilema pra mim, porque ele tinha me ajudado e ficaria decepcionado comigo. Mas era a coisa mais importante da entrevista, eu tinha que publicar. Eu até entendo por que ele não queria que eu publicasse, mas não concordo em absoluto. Eu tinha a obrigação de publicar, e publiquei.
BLOGOL - O Tyson ficou sabendo?
EO - Ficou, e ficou puto. Mas não me matou (risos). Eu voltei a encontrá-lo, no último dia, e ele não teve nenhuma reação violenta. Apenas falou que nós (repórteres) estávamos o prejudicando. Mas aí eu disse que ele também estava nos prejudicando, porque eu tinha uma namorada nova e não conseguia vê-la, porque meu editor tinha me mandado ficar de plantão no hotel enquanto ele estivesse lá. Ele fez uma cara de espanto, não disse nada.
BLOGOL - Você voltou a falar com o Tyson?
EO - Nunca mais.
BLOGOL - E com o Mario?
EO - Continuamos mantendo contato. Ele me perdoou.
Link para a matéria da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u95350.shtml
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
Do jeito que eu sou medroso, depois da primeira ameaça, não sei se seguiria na cola dele. Se fosse obrigado pelos chefes e chegasse a subir no elevador com Tyson, faria de tudo para nao contraria-lo!!!
Se o contrariasse e ele me chamasse de gay, dava um murro na boca do estomago dele e sairia correndo do apartamento...
Fácil assim.
Que nada DB tu já encarou Almir Conceição e Celso Teixeira (por telefone) kkkk
Bicho eu ficaria com medo do murro e do bicho querer me 'torar' apartamento de Tyson. kkkk
Pense num 'caba' corajoso.
Postar um comentário