Poucas coisas são tão angustiantes no jornalismo como a concorrência. Os seus concorrentes estão sempre de olho em você e você de olho neles, claro. Há quase dois anos eu vivo essa concorrência em parâmetros infinitamente mais elevados do que quando trabalhava na Tv Borborema, em Campina Grande.
No Correio Braziliense minhas matérias podem alcançar repercussão nacional facilmente. Até agora, duas ou três reportagens que escrevi foram repercutidas pela "grande imprensa". Três ou quatro vezes em uma semana eu lido com personagens nacionalmente conhecidos. Foi o que aconteceu na última quarta-feira comigo, em Florianópolis.
A assessoria de Gustavo Kuerten convidou o Correio para acompanhar o lançamento da grife de roupas masculinas GUGA KUERTEN. Isso é prática comum no jornalismo impresso. O repórter designado pelo jornal para cobrir o evento sugerido pela assessoria tem todas as mordomias possíveis. Passagem de aviâo, transporte dentro da cidade para onde vai, alimentação, melhores hotéis e sempre tem aqueles presentinhos.
Pois bem, fui a Florianópolis na noite de terça-feira. O lançamento da grife foi na quarta. Voltei para Brasília na quinta pela manhã. Claro que naõ fui para lá para escrever matéria sobre as roupas de Guga (que, por sinal, são bem legais e caras - R$ 80 uma camiseta de algodão). Eu não era o único jornalista convidado no local.
Tinha gente do Diário de São Paulo, Lance!, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo (foi por conta própria, porque não aceita convites de assessorias), Isto É, Amaury Júnior, Meio & Mensagem, Portal Terra... Muita gente. Alguns eram repórteres de esportes, outros de moda.
Depois da apresentação da loja e das roupas de Guga, a entrevista coletiva. Primeira meia hora sobre moda e a outra meia hora sobre esporte.
Gustavo Kuerten não tá bem no ranking mundial do tênis. Em abril fez a segunda cirurgia no quadril e há mais de dois anos não ganha duas partidas seguidas. Ainda está se recuperando da cirurgia.
Fui para Floripa com a pauta sobre a próxima temporada dele, que começa dia 30 de janeiro, no Chile. "O que ele espera da próxima temporada?"
Na entrevista coletiva, Guga falou mais que o normal. Às vezes, ele tem aquele tradicional discurso de jogador de futebol: "vou continuar trabalhando, se Deus quiser, com a ajuda de meus companheiros, vou me recuperar e ser campeão". Aquela velha história que também mencionei no texto sobre Parreira, abaixo.
Pois o nosso "Gugão" falou muito bem. Contou sobre a cirurgia, sobre o Aberto da Austrália (um dos maiores torneios do ano, em janeiro, que ele não vai participar), sobre aposentadoria e sobre os rankings mundial e brasileiro.
Não foi nada bombástico, mas foi bem interessante. Talvez porque Guga soubesse que se ele não falasse nada, nós, os jornalistas convidados, não tínhamos nenhuma obrigação de fazer matéria sobre a grife dele. Sim, porque eles convidam, e nós damos o destaque que quisermos para a reportagem. Já houve caso de eu ir ao Rio de Janeiro falar sobre o barco de Torben Grael (esse mesmo que está dando a volta ao mundo) e escrever só sobre o barco da ABN AMRO Bank (que lidera a prova de volta ao mundo que Torben Grael tá disputando atualmente).
Voltando ao assunto sobre a concorrência nacional. Os jornalistas saíram animados da coletiva com Guga e cada um buscou seu ponto quente na história.
Vamos às manchetes:
Lance!
Guga muda discurso
(dizia que após a cirurgia ele pretendia ficar no top ten do mundo e agora está contente se figurar entre os 30, 50)
Diário de S. Paulo
Guga quer esticar carreira
(dizia que Guga não pensa em se aposentar)
Gazeta Esportiva
Guga afasta rumores de aposentadoria
(Ele disse que pensa em jogar três anos tranquilamente, mas no final de 2006 pode rever o assunto)
O Globo
Guga pára de pressionar a si mesmo
(sobre a história do ranking dos 30 ou 50 melhores do mundo)
Diário Catarinense
Guga volta a sorrir
(sobre a fase de treinamentos e o lançamento da loja)
Quer saber como foi minha matéria?
Correio Braziliense:
Estilo Guga à venda
Pois é. O título parece que eu tô "vendendo" o peixe de Guga, mas foi o melhor que encontrei para contar tudo que havia apurado sobre Guga. Minha matéria poderia muito bem ter um título sobre a aposentadoria. Mas olha só o lide da matéria que foi publicada na edição de quinta-feira (30), no Correio:
Florianópolis (SC) — Entrevista coletiva com Gustavo Kuerten. O assunto principal deveria ser o lançamento de sua grifede roupas, ontem, na capital catarinense. A primeira pergunta,entretanto, não teve muito a ver com moda: “Guga, você está encerrando a carreira de tenista?”.
Depois de uma seqüência de maus resultados obtidos após sua segunda cirurgia no quadril,na primeira metade deste ano, asdúvidas quanto à permanência no circuito profissional do maiortenista brasileiro só aumentaram.
Ainda mais depois de lançar um empreendimento de R$ 6 milhõesem sua terra natal. Com bom humor, Guga explicou que não planeja largar o esporte agora. “O lançamento da minha grife só me anima mais a mostrar bons resultados em quadra. Quanto melhor eu estiver, mais produtos serão vendidos na minha loja”, brincou o tenista.
Porém, por mais duas vezes na mesma entrevista, o tricampeãode Roland Garros teve que falar mais sobre aposentadoria. “Se até o final de 2006 eu não tiver resultados satisfatórios nocircuito, eu começo a pensar em parar”, confessou. “Mas tenho planos de jogar por mais três anos tranqüilamente”, emendou.
Guga está empenhado em concretizar esses planos. Após a apresentaçãooficial da marca Guga Kuerten,o tenista era esperado no almoço de lançamento com a imprensa e donos de lojas que revenderão sua grife pelo país. Não apareceu. “Foi treinar”, informou uma das assessoras de imprensa do evento. Detalhe: sem almoçar.
Esse é o problema de ter a concorrência do Brasil inteiro nas costas. De repente o meu texto abordou mais coisas que os do Diário de SP, O Globo, mas eles foram mais diretos ao assunto. Para quem acompanha as coisas de Guga diariamente, é mais interessante ler as mate´rias dos jornais como Diário de SP, O Globo, por exemplo, do que o Correio. Eu não cubro Guga diarimanente. Pelo menos uma vez por mês escrevo alguma coisa sobre ele, o que é diferente de ser diariamente. Quem lê uma vez ou outra sobre Guga pode até ter ficado mais bem informado com a minha matéria do que com a dos outros jornais... Eu, por exemplo, gostei! Meu chefe não reclamou e até fez comentários interessantes sobre os assuntos que abordei no texto!
Mas é assim mesmo. Dois anos nesse ambiente de concorrência altíssima ainda acredito que seja pouco para azeitar meu tino jornalístico em assuntos de repercussão nacional...
Trem bala (cover)
Há 8 anos
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