27 dezembro 2005

Jornalista também é gente

Primeiro quero me desculpar com nossa meia dúzia de leitores pela falta de atualização do blog. No final de ano o tempo fica mais escasso. Para jornalistas é a hora de antecipar edições. E no meu caso, que sou professor também, final de ano é tempo de divulgar notas e participar de bancas de monografias. Passada essa “turbulência” estamos de volta. Fica a promessa de que o blog não ficará mais tanto tempo sem atualização. Então, vamos a história.
Nos meus tempos de faculdade ouvi de alguns professores e de jornalistas veteranos que o jornalista não pode se emocionar, que deve ser frio diante dos acontecimentos. Essa afirmação me preocupava. Primeiro porque achava (e ainda acho) que a partir do momento que não me emocionar com os fatos serei menos humano. Certa vez ouvi um psicólogo dizer que a diferença do homem e dos animais está no fato de o homem ter a capacidade de sentir a dor do próximo. Pode soar piegas, mas não consigo ser insensível diante de uma matéria triste ou alegre. Acho até que fica difícil pro jornalista passar emoção numa matéria se ele não a sente. Nesses meus cinco anos de jornalismo, incluindo rádio, jornal e tevê consegui me emocionar várias. Mas duas reportagens me deixaram abalados nos três últimos meses. A primeira foi no presídio do Serrotão, o maior de Campina Grande. Fui lá fazer um VT sobre a transferência de 20 presos para o presídio de Guarabira, uma cidade que fica no Brejo paraibano a mais de 80 quilômetros de CG. Eles eram acusados pela direção do Serrotão de ter armado um motim há cerca de quatro meses. Transferência de presos é algo corriqueiro na vida de um repórter. Quando estava observando os vinte presos com mochilas e colchões nas mãos, percebi que um deles me olhava mais que os outros. Não há repórter que não fique cismado numa situação dessa. Somente quando os presos saíram em fila indiana em direção ao ônibus consegui entender porque aquele apenado me olhava tanto. Era um colega meu. Ele é uns cinco ou seis anos mais novo que eu, mas jogávamos futebol juntos nos campos de pelada do bairro. Sabia que depois que ele tinha ido morar em outro bairro (há uns seis anos) tinha se envolvido com drogas e roubos. Havia sido preso uma vez. Os amigos pagaram advogado, ele saiu, mas voltou pro crime. O fato de ver aqueles vinte presos sem perspectiva já tinha me feito refletir como eles haviam acabado com suas vidas. Fiquei ainda mais abalado quando percebi que um colega estava no meio deles. Esse rapaz que estou falando tinha tudo para não seguir o caminho do crime. Estudioso, trabalhador e ainda por cima um excelente jogador de futebol. É tanto que uma vez fizemos uma campanha para que ele pudesse ir a São Paulo fazer testes nos times de lá. Outra coisa que me deixou triste foi o fato de não tê-lo reconhecido, pois estava muito diferente. Fiquei imaginando que ele pensou que eu não lhe cumprimentei por discriminação, vergonha ou algo do tipo. Apesar de ter passado o resto do dia triste, essa matéria deixou uma grande lição: que o nosso destino depende das escolhas que fazemos.
No início deste mês também não consegui ficar insensível. Por volta de uma hora da tarde, recebemos uma ligação informando que um homem estava num prédio abandonado no Centro ameaçando se jogar. Todo jornalista sabe que na maioria das vezes matéria de suicídio não vai ao ar. Pesquisas revelam que quando se noticia suicídio incentiva outros. Cheguei no Centro e vi o homem no último andar (14º) ameaçando se jogar. Era um catador de lixo que por causa da situação financeira precária estava desesperado. A rua estava lotada de curiosos. No prédio em frente pessoas gritavam para “Daniel” (é o nome dele) descer. Mas a todo instante ela ameaçava pular. Os bombeiros trouxeram mulher e filhos para tentar demovê-lo da idéia, mas não teve jeito. Ele só conseguiu ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros depois de mais de duas horas. Nesse tempo vi o quanto muita gente não tem sentido do valor da vida humana. As pessoas brincavam com a situação dizendo que aquilo “era chifre e que ele deveria pular logo”. Uma mocinha de uns dezesseis anos ao meu lado comentava: “ele deveria pular logo pra gente ir embora”. “Pula, pula”, gritou. Aliás, incentivos para ele pular foi o que mais ouvi. É como se a vida daquele homem não tivesse nenhum valor, como se fosse um papel que cairia de cima de um prédio depois seria amassado e jogado no lixo. Boa parte dos curiosos queria mesmo era ver a queda, ouvir o barulho de um corpo se espatifando no chão. Quando aguardávamos o homem ser retirado um senhor de mais de 50 anos de idade fez uma piada com uma colega repórter de outra emissora:
- Pergunta a ele se o chifre já foi curado.
- O senhor gostaria que eu fizesse essa pergunta se fosse para algum irmão, amigo ou alguém da sua família?, perguntou ela.

O senhor ficou mudo, sem ação, com cara de quem poderia ter ficado calado. Resposta melhor minha colega não poderia ter dado. Saí daquela matéria (que não foi ao ar) com a certeza de que cada vez mais as pessoas dão menos valor a vida.
Para os jornalistas que condenam a postura do repórter que se sensibiliza com os fatos digo que prefiro ficar com a afirmação de alguém bem mais experiente que eu. Ricardo Kotscho em seu livro “A Prática da Reportagem” diz:

“Tristeza e alegria. Estes sentimentos se alternam nos trabalhos de cobertura, e não há como o repórter ficar insensível – e nem deve. Afinal, ele é antes de mais nada um ser humano igual aos leitores, e precisa transmitir não só informações, mas também emoções do que está cobrindo. Informação e emoção são as duas ferramentas básicas do repórter, e ele terá que lutar consigo mesmo para saber dosá-las na medida certa em cada matéria”

Se a insensibilidade é um pré-requisito para ser um bom jornalista, confesso que ainda estou longe disso.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Profesor Leonardo.
Lendo sua crônica sobre a emoção do jornalista, imagino a quem deve interessar a insensibilidade.
Claro que aos donos do poder é mais interesante que o jornalista trabalhe a "imparcialidade" imposta pela função, para que possa reproduzir ideologias.
Mas concordo com suas sábias palavras, não havia como um ser "humano" passar incólume por uma situação de suicídio, por exemplo.