Confesso que sou meio cismado com essa história de ‘fala povo’ em reportagem. Quando eu escuto “Léooo, vai ali fazer um fala povo pro seu VT” é um martírio. Acho que a opinião de um especialista dá mais peso a matéria. E o pior que nem sempre o povo está informado sobre o assunto da enquête. Aí você corre o risco de ouvir: “o que é isso?”, “Não sei de que você está falando”. E por aí vai. Outro problema é que o repórter fica no meio da rua (com cara de bobo) observando as pessoas passarem, com um microfone na mão, conversando com cinegrafista, dizendo: “é aquele de camisa verde” ou “aquela de óculos”, escolhendo os possíveis entrevistados. Em muitos casos as pessoas não falam. E chegam até a fugir da câmera como o diabo foge da cruz. Tem outra coisa que deixa o repórter de tevê chateado – já ouvi depoimentos de vários colegas – é quando a produção usa o diminutivo para pedir uma matéria num dia imprensado, cheio de coisa. “Léo vai ali fazer um ´registrozinho’, coisinha rápida, faz só umas ‘imagenszinhas’, pega uns ‘informaçõeszinhas’ e quando chegar faz um textinho. Coisa rápida”.
Como se desse pra fazer uma matéria desse jeito. É preciso tempo. Daniel já ouvi muitas vezes: “Danieuuuuuuu (sic), vai ali dá só uma passadinha, só pra fazer um registrozinho e quando chegar você faz um textinho”.
Voltando a história do fala povo, há umas duas ou três semanas vi minha produtora (Adriana Mota) preparando uma pauta sobre câncer de próstata para o outro repórter, Marcos. Pra não perder a piada sugeri logo a Marcos que a “passagem deveria ser feita com ele fazendo exame de próstata. Você vai incentivar os homens a fazerem também”. Não é que no outro dia a pauta acabou caindo para mim. Feitiço contra o feiticeiro. Marcos, claro devolveu a piada. Quando li a pauta vi que tinha um fala povo. Adriana queria que eu fosse ao centro de Campina Grande entrevistar alguns homens para saber se eles tinham preconceito em fazer o exame de próstata.
- Adriana, esse negócio não vai dar certo. Os caras vão pensar que é alguma piada. Vão tirar onda da minha cara.
- Não Léo, não vai ter problema. É pra ver se ainda existe preconceito, disse ela.
Tentei usar como argumento uma matéria que fiz há uns três anos, na época da TV Borborema.
- Isso não vai dar certo. Uma vez lá na Borborema eu fui fazer uma enquête sobre o Nordeste não ter horário de verão e sabe qual a resposta que ouvi de um senhor de uns 60 anos de idade? “Pra mim tanto faz meu filho. Eu trepo toda hora mesmo”. Você imagina como eu fiquei em pleno Calçadão.
Mas não teve jeito. Adriana não mudou de idéia. E lá fui eu pro Calçadão da Cardoso Vieira, onde passa muita gente e outras se reúnem para passar o tempo dando informações sobre a vida alheia. Não é a toa que o Calçadão é chamado de DIVA (Departamento de informações da vida alheia).
Quando cheguei vi dois senhores (perto dos 60 anos de idade) que escolhi como meus primeiros entrevistados. Imaginei que eles eram sérios e não iriam fazer qualquer tipo de piada.
- Boa tarde, o senhor já fez exame de próstata?
- Já sim, respondeu o primeiro.
- Teve preconceito?
- De jeito nenhum, completou.
A primeira opinião já tinha conseguido. Só teve um trabalho de me virar para o segundo que estava no mesmo banco.
- E o senhor já fez exame de próstata?
- Já, respondeu o segundo com a carinha de safado.
- Teve preconceito?
- Não... ele fez um silêncio. E eu continuei com o microfone como se esperando mais alguma coisa. E não é que veio.
- Não, não tive preconceito. Ele só colocou um ferro no meu ‘furico’, disse o senhor se referindo ao exame de toque retal.
Depois da resposta, eu fiquei todo sem jeito. Meu cinegrafista e os dois senhores rindo da minha cara. Pronto tinha acabado minha enquête. Não iria correr o risco de ouvir outras respostas daquele tipo ou até piores. Imediatamente liguei pra redação.
- Adriana, o fala povo caiu.
- Por que Léo? Perguntou com uma voz bem inocente.
- Simplesmente porque na segunda pergunta o cara veio me dizer que colocaram um ferro furico dele. Eu disse a você que não dava certo. Adriana caiu na gargalhada, contou pro resto da redação e todo mundo ficou rindo.
Eu fui concluir minha matéria com a entrevista de um especialista. Quando cheguei na redação todos queriam ver a fita com a resposta do senhor. E ainda ficaram tirando onda da minha cara. Pois é, quando o repórter está na rua corre o risco de encontrar algum engraçadinho pra zombar da sua cara. Esse é um dos lados divertidos do jornalismo.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
essa foi boa, hein, sombra... MB já tá sabendo aqui!!
Pois é, Leo. Osso do ofício. A gente que fica na produção não imagina que na rua role tanta baixaria, principalmente com um assunto tão pouco comentado como o exame de próstata. Mesmo assim, acho interessante sempre ouvir a opinião do povo na rua, um fala povo nas nossas matérias é sempre bem vindo. É isso aí, jornalismo é estressante mas também tem diversão.
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Eu ri bem pouquinho nesse dia!!! Muita onda, e essa sonora ficou registrada nos arquivos da TV... Mas é isso mesmo Leo, vc imagina qd é reporter mulher, pq eu qd quebrava galho na reportagem já tive que ouvir cada engraçadinho...
Mas concordo com dri, o fala povo humaniza mais a matéria, aproxima mais o telespectador, que adooooora se ver na tv =)
Bjsssssss
Rapaz,essa do exame de próstata foi engraçada demais.O repórter deve parar,olhar e pensar assim:"mas né foda mermo?" E a solução é rir junto com todo mundo porque não tem quem aguente uma situação dessas sem rir.Isso deve ocorrer em todo lugar,mas o nordestino tem essa veia humorística:respostas pra tudo sempre na ponta da língua.Achei muito legal o blog e vou sempre dar uma olhada.Abraço a todos.
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