A persistência é uma das características dos repórteres mais conceituados. Por outro lado, a preguiça é a marca registrada do repórter fraco. Confesso que alterno entre persistente e preguiçoso. Claro, quando o assunto me interessa, vou até São José da Lagoa Tapada para apurar o caso.
Aconteceu ontem (segunda-feira) comigo. Tinha a insólita missão de entrevistar o técnico da Seleção Brasileira de vôlei masculino, Bernardinho. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ele é um cara chato. Não gosta de muita conversa fiada com jornalistas. Principalmente os que não são expert em vôlei. Como eu vou perguntar para ele se o oposto está fazendo bem a transição para a ponta com o líbero na cobertura se eu não sei decifrar o que ele vai responder? Como? Complicado... Mas confesso que já tô aprendendo algumas coisas sobre vôlei. Até porque, minhas áreas de cobertura aqui no Correio Braziliense são basquete, vôlei, tênis e natação. basquete eu realmente gosto e entendo. Vôlei eu acompanho, mas não entendo. Tênis e natação idem...
Muito bem, entrevistei Bernardinho em quatro ou cinco oportunidades aqui em Brasília. Duas vezes com a Seleção Brasileira de vôlei, duas vezes com o Rexona Ades, time que ele dirige e participa do nacional feminino (Superliga). Teve uma outra oportunidade que não me recordo agora. Acontece que em todas as vezes ele foi irônico comigo e com os demais repórteres.
Quando está no exercício de sua profissão, Bernardinho é um dos caras mais diretos possíveis no contato com a imprensa. Não fica de conversinha, não esconde o jogo sobre os assuntos, e evita intimidades. É direto e fala sempre o que os jornalistas querem ouvir.
No domingo passado ele desembarcou em Brasília para participar do lançamento de um projeto social numa cidade vizinha a Brasília. Na segunda-feira, ontem, ele fez uma série de palestras sobre auto-estima, espírito de liderança e tudo mais. Ele veio para cidade ao lado de Fernanda Venturini, uma das melhores levantadoras do vôlei mundial de todos os tempos, e extremamente antipática. Ela é mulher de Bernardinho.
Recebi a pauta do meu chefe de bater um papo com o treinador e dar uma página para ele. Sabia que seria muito difícil. E foi...
Vamos lá. Cheguei no jornal no início da tarde e liguei para a pessoa responsável pelo lançamento do projeto social na cidade vizinha a Brasília. Eu havia conversado com ela no meio da semana prometendo que iríamos tirar fotos e fazer uma matéria sobre o projeto social dela no domingo. Não fomos.
Na cara de pau, liguei e perguntei sobre Bernardinho. A pessoa, claro, me atendeu muito mal e disse que só sabia que ele estava no hotel Kubitscheck Plaza, um dos mais importantes de Brasília. Só figurões ficam lá. Agradeci, mais uma vez prometi fazer uma reportagem com o projeto social e dei tchau rapidamente.
Liguei no hotel e peguei o número do quarto em que Bernardinho e a mulher estavam hospedados. Nesse caso, é melhor não se identificar como repórter. Só ligue e pergunte pela pessoa como Bernardo Rezende. A recepcionista nem desconfiou que era repórter (claro!) e passou para o quarto 623. Ele não estava mais lá.
Não gosto de falar para meu chefe que minha pauta caiu. Ainda mais porque haviam me dado uma página para o vôlei na edição desta terça-feira (13/12). Liguei na assessoria do tal do time Rexona Ades, que fica no Rio de Janeiro. Atendeu uma estagiária da assessoria que havaia assumido o lugar da assessora porque esta está de licença maternidade. Ela fez pouco caso para meu pedido de bater um papo com Bernardinho e disse que me retornaria.
Percebi que não poderia confiar na estagiária e continuei perseguindo Bernardinho. Liguei, então, para ninguém menos que Fernanda Venturini (sim, a antipática). Quando ela atendeu, me apresentei como repórter e antes de perguntar sobre Bernardinho, ela soltou:
- Olha aqui, eu já o que você quer. O Bernardo está muito ocupado fazendo palestras hoje, brasília inteira está me ligando tentando entrevistá-lo.
- Mas me diga apenas aonde é a palestra de agora à tarde?, insisti.
- No Quartel General do Exército. Tchau...
Sensacional a informação que a antipática, ou melhor, Fernanda me passou. Vou lá no Quartel General e pego Bernardinho na saída da palestra. Acontece que me informaram que só entram militares no QG. Esse local recebe o nome de Forte Apache de tão seguro que é. Todos os generais brasileiros (a maioria dos tempos da ditadura). Tive que ligar para a assessoria do Minsitério da Defesa para perguntar se podia falar com o único civil que estava no forte Apache naquela tarde de ontem. Após 45 minutos um coronel me liga me autorizando a entrar.
Comecei a caçada às 13h15, hora que cheguei no jornal. Só parei às 16h45, hora em que me tornei o segundo civil a entrrar no Forte Apache segunda-feira à tarde.
Bernardinho estava no final da palestra. Estava totalemente diferente das outras vezes que o encontrei aqui em Brasília. Esperei cinco minutinhos após o término da apresentação e pude conversar com ele.
Como sempre faço, separei alguns tópicos sobre os principais assuntos a perguntar para ele e comecei a conversa. Olha a íntegra da matéria publicado no Correio Braziliense de terça-feira abaixo:
VÔLEI
Aposta no ouro
De passagem por Brasília, o campeão olímpico Bernardinho elogia a Seleção feminina
Daniel Brito
Da equipe do Correio
Em Brasília para o lançamento de um projeto social das medalhistas olímpicas Leila e Ricarda, o técnico da Seleção Brasileira masculina de vôlei, Bernardo Rezende, o Bernardinho, esbanjou simpatia. Bateu bola com as crianças em Taguatinga, no domingo, no Ginásio Serejinho. Ontem, fez palestras para mais de três mil pessoas. A primeira, no Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, para militares. À noite, para empresários, na Academia de Tênis. Entre uma apresentação e outra, o treinador, que também comanda o Rexona Ades, do Rio, uma das forças da Superliga feminina deste ano, conversou com o Correio.
Bernardinho acredita que está surgindo uma geração de ouro também no vôlei feminino. Para ele, jogadoras como Mari, Sheilla e a brasiliense Paula Pequeno foram inspiradas pela geração de bronze das Olimpíadas de 1996 e 2000. “É mais ou menos como aconteceu com o pessoal que foi campeão olímpico em 1992, no masculino. Eles cresceram vendo a geração de prata de 1984”, disse, animado com a safra.
O treinador tem motivos para se animar. Um ano após o fatídico quarto lugar nos Jogos de Atenas, as meninas do Brasil, comandadas por José Roberto Guimarães, ganharam os seis torneios de que participaram, dentre eles o Grand Prix e a Copa dos Campeões, no Japão. Foram 38 jogos e apenas duas derrotas na temporada. “Até as Olimpíadas de Pequim, em 2008, essas jogadoras estarão amadurecidas o suficiente para conseguir o ouro”, confia Bernardinho.
Ciclo
A China, aliás, deve ser o ponto final do grupo que Bernardinho dirige atualmente na Seleção masculina. “Muitos dos jogadores que trabalham comigo encerram o ciclo na Seleção daqui a três anos. Para 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, haverá uma safra nova e muito boa, tenho certeza”, disse. Ele não adiantou se estará na Inglaterra comandando a equipe. Antes de se preocupar em representar o Brasil nas maiores competições do planeta, Bernardinho se preocupa com a Superliga feminina de 2005-2006. Pela segunda temporada consecutiva, ele dirige o Rexona Ades.
No campeonato passado, a equipe chegou à final contra o Finasa Osasco com apenas uma derrota em 22 jogos. Surpreendentemente, perdeu três jogos consecutivos e terminou em segundo lugar. Com a presença de seis jogadoras da elogiada Seleção Brasileira, o Rexona entra na Superliga com o mesmo status de favorito da competição passada. “Nesta temporada, as coisas estão mais equilibradas. Brasília, Minas, Pinheiros e Macaé estão muito fortes. É muito bom que seja assim. Não prometo que seremos campeões, mas vamos chegar forte”, avisou Bernardinho.
Futebol
Se pudesse fazer uma palestra para os jogadores que tentarão o hexacampeonato, em junho, na Alemanha, Bernardinho daria o conselho: “Os grandes campeões crescem no desafio”. O técnico medalha de ouro nas Olimpíadas de Atenas chegou a conversar com Carlos Alberto Parreira na semana passada sobre a possibilidade de falar aos jogadores que disputarão a Copa do Mundo.
“Os jogadores têm a oportunidade de entrar para a história se forem campeões, mesmo sendo apontados como favoritos. Eu tenho certeza que eles terão sucesso na Alemanha”, previu. O técnico de vôlei fez questão de ressaltar seu lado torcedor. “Se me chamarem, vou levar minha camisa do Brasil para pegar o autógrafo de todos eles.”
Conversamos sobre tudo que era pertinente para aquele momento. Aliás, só faltou uma pergunta sobre o projeto social que ele veio visitar no domingo aqui em Brasília. Mas não deixei de citá-lo no lide.
Nesta terça, chego na redação ciente que não seria elogiado pelo chefe (elogios são difíceis por aqui) e vejo na minha caixa de email. "Levamos furo da Folha de S. Paulo, Jornal de Brasília e O Globo. Vamos correr atrás dessa história do basquete". Era meu chefe escrevendo. A tal "história do basquete" é uma guerra jurídica entre a confederação e o Mão Santa Oscar Schmidt para disputar o Campeonato Nacional. Assunto que aconteceu no Rio de Janeiro, portanto longe domeu alcance para evitar um furo.
Respondi ao email dizendo que foi uma falha minha porque passei a tarde de segunda perseguindo Bernardinho, que nenhum outro jornal deu. Na mesma hora, me lembrei de uma lição que Ricardo Noblat (ex-Diretor de Redação do Correio Braziliense) passa em um dos seus livros. "A glória de um repórter não vai além do meio-dia do dia seguinte à publicação de sua matéria. Se ele não conseguir fazer outra matéria de nível no dia seguinte, a matéria sensacional perdeu a validade".
Trem bala (cover)
Há 8 anos
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