*Comunique-se (www.comuniquese.com.br)
Futebol e amadores. Assim fica dividida a editoria de Esportes nos meios de comunicação brasileiros. Mesmo já bastante profissionalizados, todos os outros esportes recebem este rótulo. Não que a intenção seja concorrer diretamente com a paixão nacional do brasileiro, mas o simples apelido dentro das redações demonstra a importância dada a estes esportes e o espaço dedicado a eles.
Sempre dissociados, os profissionais que cobrem futebol têm uma rotina diferenciada dos que noticiam os amadores. “Os repórteres que cobrem futebol normalmente adaptam sua rotina à do clube. Repórteres de outros esportes ficam mais na redação, cumprindo um horário mais regular. Repórteres que cuidam de bastidores trabalham por telefone no horário de expediente e contatam as fontes pessoalmente fora desse horário”, explica o editor do jornal Lance, Marcelo Damato.
Quando os outros esportes recebem destaque é sinal de que alguma coisa extraordinária aconteceu ou foi criado um novo pop star. “Foi o que aconteceu com a Daiane dos Santos”, lembra Martha Esteves, repórter especial de O Dia.
Não só especialista em futebol, os jornalistas dos grandes meios de comunicação ainda são mais especializados. Chamado de setorista, cada profissional fica responsável por noticiar apenas um clube durante um longo período. Esta sazonalidade varia de empresa a empresa, mas é de, geralmente, um ano. E o resultado disso é: acomodação. O jornalista já sabe para onde vai todo dia, quem vai encontrar, com quem vai falar. “Alguns repórteres setoristas – que cobrem o dia-a-dia (e, em alguns casos, até a madrugada-madrugada dos elencos) –, não raro ficam de costas para os treinos e coletivos dos times. Não vêem as movimentações, as alterações táticas. Ou, quando vêem, não enxergam. Não prestam atenção. Ou não têm a atenção devida para visualizar a formação das equipes. Para não dizer que não têm cultura tática para interpretá-la. Não têm porque não querem. Porque o chefe não cobrou. E nem vai pagar para tanto”, critica o comentarista da Rádio Bandeirantes Mauro Beting.
O desafio, para Martha, é tirar leite de pedra e buscar fazer algo novo todos os dias. Para ela, nessa tarefa rotineira de clubes, as mulheres têm vantagem. “Nós somos observadoras e isso faz a diferença. Por exemplo, na semana passada o Renato do Flamengo fez o gol da vitória. Quando fui entrevistá-lo notei que o cabelo dele estava maior. Resolvi perguntar se ele ia deixar crescer, se era seu novo estilo. E ele me confessou que tinha feito uma promessa de só cortar o cabelo se o Flamengo fosse campeão. Só eu tive esta informação”.
Fontes
Basta observar a realidade de hoje. Todo atleta tem assessor, todo clube, federação, confederação, dirigente tem também. Se o jornalista optar por somente ouvi-los, não vai conseguir uma informação diferente de qualquer outro profissional. O desafio é não virar refém. “No futebol, as grandes fontes não são as estrelas. Não adianta, eles não vão te dar um furo se você não for da Globo. O ideal é colar no terceiro goleiro. Na hora de uma confusão é ele que vai te soltar alguma bomba”, conta Martha.
Mercado
Para uns, está em crescimento. Para outros, estagnado. Nem mesmo os profissionais que trabalham com jornalismo esportivo todos os dias sabem ao certo definir. O fato é que de duas décadas para cá surgiram mais meios especializados, como o SporTV e o Lance, para mexer com o mercado. “O mercado é um dos que mais tem crescido no Brasil. Mas a qualidade média dos jornalistas poderia ser bem melhor. Os jovens repórteres tendem a repetir as práticas dos mais experientes sem questioná-las, o que nem sempre é a melhor escolha. Por exemplo, embora a legislação esportiva seja muito reduzida e seja muito importante para o funcionamento do esporte, não mais do que meia dúzia de jornalistas no Brasil dedicou-se a conhecê-la”, alerta Damato.
O público
Escrever sobre a paixão nacional do brasileiro é uma missão trabalhosa. Erros nunca passam despercebidos. “O único jeito é não esquecer que o torcedor é um ser irracional e, portanto, passional. Não tentar convencê-lo é fundamental”, alerta o colunista Juca Kfouri. “Eles não aturam informação errada, e estão sempre a corrigir eventuais falhas da redação. São muito bem informados. E odeiam clubismos”, conta Maurício Ribeiro Barros, editor da Placar.
Fora que os leitores estão sempre questionando a imparcialidade do jornalista. Kfouri nunca negou que é corinthiano roxo, mas ele respeita os profissionais que optam por não divulgar seu time de coração. “Diante da ferocidade que tomou conta dos torcedores nas últimas duas décadas, respeito. E quem deixa o coração influenciar a cabeça é ruim dela".
"Em um velório, o torcedor já me encosta no caixão perguntando qual o meu time, ou já vai me vestindo uma camisa de um clube, e cobrando aquele pênalti que achei que foi, há dois anos e meio. O problema é que o nosso cliente é torcedor. Devemos ser isentos, imparciais e objetivos. Mas o nosso público é parcial, passional e subjetivo. Não tolera deslizes e não quer ouvir o que falamos. Ou lê já com partido tomado”, conta Beting, que também não esconde que é palmeirense de coração.
Grandes eventos
No Jornalismo Esportivo, existem pelo menos duas grandes coberturas de nível mundial: a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. Para os jornalistas que vão e para os que ficam a rotina é de trabalho 24h por dia.
“Para quem não vai é muito ruim. As folgas são suspensas e só restam as pautas mais chatas de cobrir, normalmente a família do atleta ou os torcedores nas ruas. Quem fica trabalha tanto quanto, mas não ganha diária”, conta Martha.
Imagem x conteúdo
O trabalho do repórter-fotográfico esportivo é de não perder um lance. Ver a partida através da lente e estar ligado em tudo que acontece. Uma preparação que exige técnica e feeling. Para cada tipo de jogo é necessário utilizar uma lente específica. Na opinião do fotógrafo do Estadão Jonne Roriz o tênis é o esporte que exige mais técnica. “Imagine que uma bola de tênis está a 170 km/h. Se bem me lembro o chute mais rápido é do Roberto Carlos e não chega a 80km/h”.
A integração entre o repórter e o fotógrafo nem sempre é como deveria ser. Já que um depende do outro é mais do que esperado que eles interajam sempre durante a partida. “É o ideal, mas nem sempre acontece”, conta Roriz.
*O site ainda traz uma entrevista com Clayton Conservani, da Rede Globo.
Futebol e amadores. Assim fica dividida a editoria de Esportes nos meios de comunicação brasileiros. Mesmo já bastante profissionalizados, todos os outros esportes recebem este rótulo. Não que a intenção seja concorrer diretamente com a paixão nacional do brasileiro, mas o simples apelido dentro das redações demonstra a importância dada a estes esportes e o espaço dedicado a eles.
Sempre dissociados, os profissionais que cobrem futebol têm uma rotina diferenciada dos que noticiam os amadores. “Os repórteres que cobrem futebol normalmente adaptam sua rotina à do clube. Repórteres de outros esportes ficam mais na redação, cumprindo um horário mais regular. Repórteres que cuidam de bastidores trabalham por telefone no horário de expediente e contatam as fontes pessoalmente fora desse horário”, explica o editor do jornal Lance, Marcelo Damato.
Quando os outros esportes recebem destaque é sinal de que alguma coisa extraordinária aconteceu ou foi criado um novo pop star. “Foi o que aconteceu com a Daiane dos Santos”, lembra Martha Esteves, repórter especial de O Dia.
Não só especialista em futebol, os jornalistas dos grandes meios de comunicação ainda são mais especializados. Chamado de setorista, cada profissional fica responsável por noticiar apenas um clube durante um longo período. Esta sazonalidade varia de empresa a empresa, mas é de, geralmente, um ano. E o resultado disso é: acomodação. O jornalista já sabe para onde vai todo dia, quem vai encontrar, com quem vai falar. “Alguns repórteres setoristas – que cobrem o dia-a-dia (e, em alguns casos, até a madrugada-madrugada dos elencos) –, não raro ficam de costas para os treinos e coletivos dos times. Não vêem as movimentações, as alterações táticas. Ou, quando vêem, não enxergam. Não prestam atenção. Ou não têm a atenção devida para visualizar a formação das equipes. Para não dizer que não têm cultura tática para interpretá-la. Não têm porque não querem. Porque o chefe não cobrou. E nem vai pagar para tanto”, critica o comentarista da Rádio Bandeirantes Mauro Beting.
O desafio, para Martha, é tirar leite de pedra e buscar fazer algo novo todos os dias. Para ela, nessa tarefa rotineira de clubes, as mulheres têm vantagem. “Nós somos observadoras e isso faz a diferença. Por exemplo, na semana passada o Renato do Flamengo fez o gol da vitória. Quando fui entrevistá-lo notei que o cabelo dele estava maior. Resolvi perguntar se ele ia deixar crescer, se era seu novo estilo. E ele me confessou que tinha feito uma promessa de só cortar o cabelo se o Flamengo fosse campeão. Só eu tive esta informação”.
Fontes
Basta observar a realidade de hoje. Todo atleta tem assessor, todo clube, federação, confederação, dirigente tem também. Se o jornalista optar por somente ouvi-los, não vai conseguir uma informação diferente de qualquer outro profissional. O desafio é não virar refém. “No futebol, as grandes fontes não são as estrelas. Não adianta, eles não vão te dar um furo se você não for da Globo. O ideal é colar no terceiro goleiro. Na hora de uma confusão é ele que vai te soltar alguma bomba”, conta Martha.
Mercado
Para uns, está em crescimento. Para outros, estagnado. Nem mesmo os profissionais que trabalham com jornalismo esportivo todos os dias sabem ao certo definir. O fato é que de duas décadas para cá surgiram mais meios especializados, como o SporTV e o Lance, para mexer com o mercado. “O mercado é um dos que mais tem crescido no Brasil. Mas a qualidade média dos jornalistas poderia ser bem melhor. Os jovens repórteres tendem a repetir as práticas dos mais experientes sem questioná-las, o que nem sempre é a melhor escolha. Por exemplo, embora a legislação esportiva seja muito reduzida e seja muito importante para o funcionamento do esporte, não mais do que meia dúzia de jornalistas no Brasil dedicou-se a conhecê-la”, alerta Damato.
O público
Escrever sobre a paixão nacional do brasileiro é uma missão trabalhosa. Erros nunca passam despercebidos. “O único jeito é não esquecer que o torcedor é um ser irracional e, portanto, passional. Não tentar convencê-lo é fundamental”, alerta o colunista Juca Kfouri. “Eles não aturam informação errada, e estão sempre a corrigir eventuais falhas da redação. São muito bem informados. E odeiam clubismos”, conta Maurício Ribeiro Barros, editor da Placar.
Fora que os leitores estão sempre questionando a imparcialidade do jornalista. Kfouri nunca negou que é corinthiano roxo, mas ele respeita os profissionais que optam por não divulgar seu time de coração. “Diante da ferocidade que tomou conta dos torcedores nas últimas duas décadas, respeito. E quem deixa o coração influenciar a cabeça é ruim dela".
"Em um velório, o torcedor já me encosta no caixão perguntando qual o meu time, ou já vai me vestindo uma camisa de um clube, e cobrando aquele pênalti que achei que foi, há dois anos e meio. O problema é que o nosso cliente é torcedor. Devemos ser isentos, imparciais e objetivos. Mas o nosso público é parcial, passional e subjetivo. Não tolera deslizes e não quer ouvir o que falamos. Ou lê já com partido tomado”, conta Beting, que também não esconde que é palmeirense de coração.
Grandes eventos
No Jornalismo Esportivo, existem pelo menos duas grandes coberturas de nível mundial: a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. Para os jornalistas que vão e para os que ficam a rotina é de trabalho 24h por dia.
“Para quem não vai é muito ruim. As folgas são suspensas e só restam as pautas mais chatas de cobrir, normalmente a família do atleta ou os torcedores nas ruas. Quem fica trabalha tanto quanto, mas não ganha diária”, conta Martha.
Imagem x conteúdo
O trabalho do repórter-fotográfico esportivo é de não perder um lance. Ver a partida através da lente e estar ligado em tudo que acontece. Uma preparação que exige técnica e feeling. Para cada tipo de jogo é necessário utilizar uma lente específica. Na opinião do fotógrafo do Estadão Jonne Roriz o tênis é o esporte que exige mais técnica. “Imagine que uma bola de tênis está a 170 km/h. Se bem me lembro o chute mais rápido é do Roberto Carlos e não chega a 80km/h”.
A integração entre o repórter e o fotógrafo nem sempre é como deveria ser. Já que um depende do outro é mais do que esperado que eles interajam sempre durante a partida. “É o ideal, mas nem sempre acontece”, conta Roriz.
*O site ainda traz uma entrevista com Clayton Conservani, da Rede Globo.
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