04 maio 2006

Você não sabe nada!!

Pedro Henrique Freire*

Jornalismo é uma profissão como qualquer outra. O que muda são as ferramentas. O administrador, por exemplo, mexe com contas, o nadador com os braços e pernas, o jogador com a bola.

Nós, jornalistas, utilizamos dois saberes básicos: ler e escrever. Depois que você adquire algum tempo de experiência, a escrita cede o quadro de importância à apuração. Saber perguntar, portanto, torna-se fator imprescindível.

Duro é quando sabemos perguntar, mas não sabemos sobre o quê estamos perguntando. É extremamente comum a correria do dia-a-dia nos pregar emblemas de "burros" e "desinformados".

Comigo aconteceu algumas vezes.

Todas elas foram constrangedoras, claro. Mas me atentaram para responsabilidade da profissão e ajudaram a evitar muitas gafes futuras. Uma delas eu relato aqui.

Sou repórter de cultura do CorreioWeb, página na internet do Correio Braziliense. Numa entrevista, liguei para Simoninha, filho de Wilson Simonal, há cerca de 10 meses. Ele faria um show em Brasília e eu faria a matéria.

O cara estava gravando no estúdio, mas falou comigo na hora do almoço, ainda com comida na boca. Eu apenas havia ligado. Não me dei ao luxo nem de ler o release do show. Já conhecia o som dele, tinha acompanhado algumas entrevistas suas na TV e nos jornais, acumulava informação sobre seu CD, além de conhecer também o trabalho de seu pai.

Me achei, portanto, suficientemente pronto para pegar o telefone e começar a conversar.

O papo começou fluindo bem. Falamos sobre várias coisas: disco, som, instrumentos, estúdio, sobre seu irmão, Max de Castro... etc. Queria finalizar a entrevista falando a amizade com Jorge Ben Jor e, claro, sobre a amizade do seu pai com o então Jorge Ben.

As perguntas foram boas, não fosse uma informação básica que destruiu a entrevista e a imagem de bem informado que eu deixara até aquele momento. Eu perguntei: "Bom, essa amizade você também aprendeu com seu pai, né? Simonal também é muito amigo do Jorge, desde os tempos da ditadura...".

Ele foi até paciente: "É verdade. Na época que meu pai ainda estava vivo eles eram bem amigos. Ele morreu há dois anos", respondeu

A lição

Depois da resposta, pairou aquele minuto de silêncio típico de partidas de futebol, que não é nada para a maioria da torcida, mas uma tragédia para poucas pessoas. Passados alguns segundos de choque, me recuperei e emendei alguma questão banal:

"O que acha do público de Brasília?".

Passado o constrangimento, eu só conseguia pensar no Google e no que ele poderia ter feito por mim. Bastava uma busca rápida e eu saberia disso

Não me perdoei pela falha. Mas tirei uma lição do ocorrido: se você é jornalista, pergunte, mas leia antes de perguntar, se inteire do assunto, saiba até mais do que o necessário. No entanto, se você acha que já sabe exatamente o que perguntar... é melhor desistir! Você não sabe!

* Pedro Henrique Freire é maranhense e é jornalista formado no IESB, em Brasília, em 2005. Trabalha como repórter do site Divirta-se do CorreioWeb, braço on-line do Correio Braziliense, e passará a colaborar para os Filhos da Pauta sempre que quiser.

4 comentários:

Léo Alves disse...

O execesso de confiança é dos piores defeitos do jornalista. É nesse ponto que a gente se arrebenta. Não custa nada sempre ler um pouco mais. Por achar que estava por dentro do assunto já fiz algumas besteiras. Ainda bem que fica a lição.

DB disse...

O Grande Predo tocou em um assunto interessante: a apuração. Mais para a frente, escreverei algo sobre isso. Mas o teu deslize com Simoninha, Predo, foi muito mais acrescentador ao teu conhecimento do que constrangedor...

Marcelo Soares disse...

Ser jornalista é sempre procurar informação, as vezes essas armadilhas nos surgem mesmo. O importante é aprender coma situação.

Anônimo disse...

É exatamente isso, Grande Léo. As vezes estamos submetidos ao que muitos chamam de Complexo de Deus. Nos achamos o máximo sem perceber que fazemos o mínimo que deve ser feito.
Naturalmente, um erro desse foi inofensivo, mas de grande ajuda na minha profissão. Valeu, companheiros.

Obrigado pelo espaço

Pedro