23 maio 2006

O outro lado

O último post que escrevi foi sobre a relação entre produtor e repórter. Ficou claro (inclusive nos comentários) que vez por outra a relação fica estremecida. São os problemas de uma redação de tevê. Os repórteres têm suas queixas da produção. E vice-versa. Isso talvez não mude nunca. Pois bem, achei interessante dar continuidade a história mostrando o outro lado. Para que não fique a idéia de que o produtor é sempre o culpado de a matéria dar errado. Muitas vezes a culpa é do repórter. Fiz o convite a quatro produtores (Manuella, Wanderley, Jurani e Cristina Laura) para que um deles pudesse escrever a respeito da rotina da produção e os motivos que contribuem para que uma pauta não fique bem amarrada. Em tempo recorde, Jura escreveu o texto abaixo.

Vida de produtor

Jurani Clementino*

O imaginário de um produtor muitas vezes é desprezado pelo repórter que já sai da redação dizendo “que pauta merda”. Nem sabe ele muitas vezes que passamos horas e horas tentando encontrar um personagem. Não imagina ou finge não imaginar que os dados foram conseguidos muitas vezes com fontes relapsas, preguiçosas e despreparadas.

Tem horas que o que mais parece é que eles só sabem dizer que a pauta é uma bobagem. Nada, além disso. Nem justificar. Dificilmente os repórteres reconhecem a pauta que fazemos com tanta dificuldade. Eu sei que é nossa obrigação. Mas...

Não conheço a experiência do jornalismo impresso que acredito não ser muito diferente. Mas em televisão tem muita estrela. Narciso anda a solta. O espelho está em toda a parte. E quando não reflete a imagem desejada, quem paga é o produtor. Como bem lembrou Cristina Laura (um beijo pra tu coisinha) nos comentários do post anterior, o repórter muitas vezes esquece que o “pobre” do produtor tem que atender aos pedidos do editor. Esquece que esse profissional, escravo da redação, precisa ouvir as críticas dos telespectadores que reclamam da edição, que contestam as matérias, que sugerem vts de denúncias como se o jornalismo fosse uma espécie de “Salvador da Pátria”, remédio para as mazelas sociais.

Outro dia passei uma hora escutando um rapaz sobre irregularidades numa prefeitura de um município próximo a Campina Grande. Eu ainda tinha que agendar uma entrevista para o ‘ao vivo’ do Bom dia Paraíba, elaborar as perguntas, marcar uma pauta também para o dia seguinte e dar atenção as perguntas de Carlos Siqueira (apresentador do JPB1) e aos pedidos de Clarice Albuquerque (editora do JPB1). Dificilmente atendemos um telefonema de alguém que teve a bendita idéia de reconhecer a repercussão de uma matéria que a gente fez. O melhor seria, ou menos cômodo, se colocássemos um repórter na rua e ficássemos, religiosamente a sua inteira disposição: orientando, pedindo para descer do carro, bater na porta, (e Rômulo Azevedo, Editor chefe, que o diga) ir pra direita, esquerda etc... O produtor ainda tem que correr atrás daquelas pautas rec, rec, rec, sob o risco de perder o emprego. E as tais matérias recomendadas (rec, rec, rec) só são “matérias” porque são recomendadas. Do contrário não entraria nem no “jornal do condomínio”.

Para os produtores que trabalham nas emissoras afiliadas da Globo, têm ainda os vts que a “rede” pede. Os produtores do Globo Rural, Mais Você, Fantástico, Jornal Nacional etc, dizem assim: “Olha a gente queria um vt assim assado. Vocês mandam quando?” E ai de quem não mandar. É claro que lutamos contra um tempo opressor, que se passa sem que percebamos. Que nos sufoca e quando pensamos que não, nos devora, já era passou.

Mas como bem disse a nossa colega Cristina Laura boa parte do produto final compete também ao repórter que pode no momento da matéria mudar, acrescentar, descobrir algo novo, dar outro charme a matéria. Vivemos sim num ambiente frio, longe, muitas vezes desfocado da realidade. Acompanhamos os fatos a distância quando não usando um binóculo na posição invertida. Quem está lá presenciando, vendo, sendo testemunha da realidade é o repórter. É ele que tem acima de tudo liberdade para criar, colocar os personagem, dar uma direção ao vt.

*Jurani Clementino, começou como estagiário e hoje é produtor da TV Paraíba, além de editar matérias. É quem responde, em Campina Grande, pelo Bom Dia Paraíba.

7 comentários:

Coisas do Brejo Bistrô e Mercearia Gourmet. disse...

Esse texto mostra uma verdade que já sabemos de cor. Uma luta incansavel entre produtor e reporter. Ainda estou "saindo do ovo" mas já sinto na pele cobranças desse tipo por causa do estágio que é numa assessoria), no meu caso os interesses políticos influem diretamente no que vai pra imprensa ou não. Casta um pouco a sede do jornalista de fazer materias para informar o público. Mas de um todo o texto é maravilhoso, já que me interessa a área que ele aborda.

DB disse...

Nessa história entre repórter e produtor, tem a tradicional história do circo.
O produtor pauta o repórter para cobrir um espetáculo de circo. O circo pega fogo e o repórter volta para a TV sem a matéria, reclamando da produção. Quando na verdade, o palhaço da história é o próprio repórter, que não sabe o que é notícia. Mesmo quando ela está borbulhando aa sua frente...

Léo Alves disse...

É muita coisa para pouco produtor. Não tem como sobrecarregar o pessoal. Concordo com Daniel, no comentário do post anterior, que sugere uma setorização. Mas isso é difícil por conta do pequeno número de produtores. Além de que, em tevê, o tempo é reduzido. Não tem como entrar todos os assuntos diariamente. Quer dizer, com a setorização existiria o risco de alguém ficar sem fazer nada. Hoje em dia o que acontece é que cada produtor se preocupa com sua pauta. Não que esteja errado. Mas deveria também ficar por dentro da pauta do outro. Para não acontecer de quando alguém perguntar (editor ou repórter) sobre a pauta responder: "num sei direito, não fui eu que marquei, foi sicrano". Certamente estar bem inteirado da pauta do outro ajuda, pois qualquer problema ficará mais fácil de resolver.

Anônimo disse...

Oi gente, olha eu de novo. Pois é Jura, coisas de uma profissão suada que adoro, independente de qlq mazela. Outro dia, um vereador da oposição, em Curaçá, cidade que fica 92Km daqui ligou para sugerir pauta sobre nepotismo na pref. Pedi que ele conseguisse: provas (papéis c/ nomes, cargos e saláros dos parentes do prefeito), alguém que falasse e aceitasse firmar a denúncia. Nunca recebi resposta e matéria, claro ñ foi feita. Meses depois, ele ligou soltando todos os bichos e dizendo que: 'se tivesse pago teria saído, pois os outros jornais são comprados pelas pref. etc, etc'. Quem me conhece sabe o que esse coitado ouviu (rs). Essa história é só p/ lembrar o que produtor, repórter, editor, assessor e qlq outra espécie de criatura jornalística está sujeita a ouvir. Somos ameaçados, hostilizados, criticados por uma série de profissionais que culpam a tal da 'mídia' (eles adoramesse termo)e ganhamos uma miséria! E ainda tem que sorrir e aguentar o porre dos próprios colegas? Um pouco demais não é? Minha trajetória c/ jornalista tem identificações no 'Mercador de Veneza' ou 'O Auto da Compadecida': tiras de minhas costas já foram arrancados por incompetentes que recheiam as redações e ñ se firmam p/ compromisso, s/caráter, têm medo do novo,da disciplina e acreditam realmente que são 'ma-ra-vi-lho-sos'. A minha sorte é que tenho o couro nordestinamente duro e a deles é que parei de beber e fumar, estou mais zen e agora minha ira é jogada numa esteira e numa bicicleta apesar de a língua continuar ferinamente a mesma!(rs) Entrem em www.atarde.com.br - (estou geralm. em Bahia, Polícia, Rural, Economia, Política, Salvador, Esporte). Qlq coisa o e-mail é claura@grupoatarde.com.br Bjos a todos

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anderson Morais disse...

É dificil conviver com essa realidade.
Passei por 7 dias numa seleção em uma TV e vi o quanto sofre.
Mas quando você ver o resultado final, que você planejou e saiu do jeito que tu querias. Agradeça a Deus. Ele concedeu essa graça. Tem muita estrela , que nem o Jurani falou. Mas depois elas acabam se apagando e o berço do nascimento continua ali, gerando outras .
Jura - Parabéns pelo Texto.
Preciso seguir seus passos,tu és o Kara !