11 maio 2006

Desigualdade editorial

Pedro Henrique Freire*

O Brasil é cheio de discrepâncias. Muito se fala em desigualdade social. Isso é, de fato, um problemão. E está longe de ser resolvido. Depois de muito investimento e pouca lenga-lenga irá se chegar a uma solução. Mas quem quiser assunto para mesa de bar, lá vai um: a Desigualdade Editorial.

Esse mal ataca muitos veículos de comunicação país afora. Assim como a desigualdade social, a pobreza editorial está localizada, penso eu, mais firmemente no Nordeste. Por muitas razões: oligarquias, carência de verba, de profissionalismo, de boas escolas, entre outras coisas.

De toda maneira, não posso generalizar. Até porque desconheço a situação de todos os jornais dessa região. Superficialmente, vejo veículos do Piauí, Salvador, Recife e outros (infelizmente não conheço nenhum da Paraíba).

Mas, do Maranhão, um dos estados mais pobres do país, posso falar com propriedade. Morei lá e trabalhei n´O Imparcial, jornal do grupo Associados, com 80 anos de existência. Até hoje acompanho de perto o comportamento dos jornais locais e o forte alinhamento político.

De um lado, o estado do Maranhão, de propriedade do velho Sarney. Ele também comanda a filial da Rede Globo e um mundaréu de rádios em todo o estado, transformadas comumente em aparelho político, que ajuda a eleger seus aliados e filhos. De outro, o Jornal Pequeno. Com uma tiragem pífia (5 mil exemplares, no máximo), é um jornal 'preto e branco', mal feito, impresso artesanalmente ainda em papel vegetal. É historicamente contra a família Sarney.

Com uma proposta “imparcial”, o jornal O Imparcial tenta se sustentar em cima do muro. Mas não consegue. Depende muito da verba publicitária do governo, que representa cerca de 30% do faturamento mensal.

Por isso, não publica nada contra o governo. Só contra seus adversários. A dependência financeira é tanta, que se o governo quiser que seja publicado o release na íntegra, o jornal publica. Mas essas submissão vergonhosa não é “luxo” apenas desse veículo, e sim de todos.

Em números, eis o retrato da desigualdade editorial. Irei comparar esse ao Correio Braziliense, um jornal com forte característica local, mas com uma abordagem nacional, sobretudo na área política:

O Imparcial: Tiragem média de 11 mil exemplares
Correio: Tiragem média de 70 mil exemplares

O Imparcial: Faturamento mensal de cerca de 400 mil
Correio: Faturamento mensal de cerca de 10 milhões

O Imparcial: Salário repórter júnior 1000 reais
Correio: Salário repórter júnior 2300 reais

O Imparcial: Redação com pouco mais de 20 jornalistas
Correio: Redação com quase 100 jornalistas

O Imparcial: Três carros para a reportagem
Correio: Nunca contei, mas tem mais de 25, com certeza

O Imparcial: São freqüentemente publicados releases
Correio: Não se publica release de jeito nenhum

O Imparcial: Contra o governo, não se publica nenhuma linha
Correio: Contra o governo, que também é um grande anunciante, se publica, mas nada de postura denuncista

Bom, é isso. Aí estão as duas realidades. São dois pesos e duas medidas. Dois estados, dois jornais e dois tipos de jornalistas. Um dia, todos entenderão, ao menos, o sentido básico do jornalismo: os dois lados. Pois em muitos cantos, isso tem que ser rechaçado em função de alinhamento político.

*Repórter do CorreioWeb e quase um Filho da Pauta

3 comentários:

Anônimo disse...

Esse é realmente um assunto que rende muuuita conversa! imagina se o quase filho da pauta conhecesse os jornais daqui da Paraíba hein?!?! =)

Gilberto Silva disse...

Cara é "fácil" se fazer quando se tem toda uma estrutura, lógico que por consequencia aumentam-se as cobranças, mas para quem é bom, isso torna-se um combustível.
Valeu "quase filho da pauta"

Anônimo disse...

Esse sim é um texto que diz algo inteligente e que me ajudou em algumas questões!!!