14 maio 2006

Futebol investigativo

Nunca imaginei que ser repórter de futebol exigisse tanta investigação como aqui em Brasília.

O Brasil é o único país campeão mundial de futebol cuja capital não tem times na primeira divisão. Por outro lado, Brasília tem apenas 46 anos de existência, então ainda está gerando sua cultura, história e hábito. Diferentemente de Buenos Aires, Paris, Berlim, Londres, Roma que são até seculares.

Mas o grande problema do futebol de Brasília é que ele se resume a pessoas e não a instituições. De um lado, temos Luiz Estevão de Oliveira, sócio-proprietário do Brasiliense. Do outro, Wagner Marques, superintendente do Gama.

Costumo dizer que se os dois morrerem, não existirá mais futebol em Brasília. O Gama está no cenário nacional desde 1992, então tem mais simpatizantes. Passou por várias dificuldades, sofreu com golpes fora de campo (em 1999) para tirá-lo da primeira divisão mas continua vivo, porém não muito bem das pernas.

O Brasiliense tem cinco ou seis anos de existência. Teve ascenção meteórica, chegou aa primeira divisão nacional em 2005, mas hoje quebra a cara na segundona mesmo. É um clube rico, paga bem e em dia seus funcionários. Tem uma torcida pequena, alguns simpatizantes. Mas não conquistou os amantes do futebol de Brasília. Serve apenas como hobby para quem mora no Distrito Federal e não como paixão.

Talvez pela duvidosa história de vida de seu mandatário, o senador cassado Luiz Estevão. Ele foi acusado no início desta década de ter desviado mais de US$ 100 milhões da construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, ao lado do Juiz Nicolau dos Santos Neto, o famoso Lalau.

Luiz Estevão é carismático. Conversa bem com os repórteres até onde a entrevista interessa a ele. Depois, faz questão de tratar mal, até humilhar. Como aconteceu em outubro do ano passado, quando soltou esta pérola:

"Repórter de esportes é o cara mais burro de uma redação de jornal. É o tipo de pessoa que não foi aceita em nenhuma editoria do jornal e acabou tendo que fazer futebol mesmo"

Não é difícil encontrar histórias de confusão dele com repórteres. Volta-e-meia, ele distribui comunicados aa imprensa sobre determinado repórter ou texto publicado em algum jornal.

Entre os jornalistas que cobrem o Brasiliense diariamente, o time não é bem visto. Muitos torcem contra.

Eu, inclusive!

Já o Gama não tem um histórico de confusões com repórteres, mas não deixa de aprontar bobagens.

Diferentemente da crônica esportiva do Rio de Janeiro, que tinha um pacto de não-agressão a ídolos, os repórteres de Brasília são muito críticos. Trabalho com duas cobras criadas: Roberto Naves e Cida Barbosa.

São duas feras do jornalismo. Posso dizer que têm conteúdo para trabalhar em Folha de S. Paulo, New York Times, Revista Placar ou qualquer outro veículo de grande porte. Eles estão há quase dez anos cobrindo o futebol da capital federal e não deixam passar nenhum deslize de dirigentes ou jogadores.

Por isso, os cartolas tentam esconder tudo que podem para evitar serem destaque nas páginas do Correio Braziliense. Além dos dirigentes, os repórteres novatos sofrem com isso.

Quem vai cobrir o futebol de Brasília e se depara com Cida ou Naves sentem-se intimidados. Algumas pessoas acham os dois (ou um deles -- na maiorida das vezes, Roberto Naves) arrogantes. Primeiro porque têm TODOS os contatos do futebol local e também por não ter medo de escrever nada contra ninguém da área.

Na ausência de um dos dois na cobertura diária, o noticiário de um dos clubes sobra para mim. Nesta semana que passou, por exemplo, cuidei de Gama e Brasiliense ao mesmo tempo.

Nunca investiguei tanto na minha vida como nos últimos sete dias.

Se você está no treino do Brasiliense, é bom ligar a cada meia hora para o Gama. E vice-versa.

Um jogador pode estar saindo, o treinador pode estar xingando a imprensa, um diretor pode ter passado cheque sem fundo para funcionário.

Olha o que aconteceu no noticiário de segunda a sexta passada no futebol de Brasília:

Segunda-feira
Gama: O meio-campista Rodriguinho, estrela do time, transfere-se para o Brasiliense
Brasiliense: apresenta documentos pedindo a paralisação da Copa do Brasil

Terça-feira
Gama: O atacante Maia (paraibano, por sinal) abandona o time reclamando da diretoria
Brasiliense: Rodriguinho se apresenta ao Brasiliense e se recusa a beijar a camisa do time na apresentação aa imprensa

Quarta-feira
Gama: O goleiro do time e o atacante soltam os cachorros para cima da diretoria e da comissão técnica
Brasiliense: Por causa da chegada de Rodriguinho, Iranildo (camisa 10 do time) reclama do treinador por ter que jogar no ataque (posição em que não está acostumado)

Quinta-feira
Gama: Diretores explicam porque sustaram três cheques ao ex-jogador Bruno Soares
Brasiliense: Técnico Lula Pereira reclama que a Globo não divulga nacionalmente o futebol de Brasília

Sexta-feira
Gama: Treinador Vitor Hugo reclama que a imprensa só cria polêmica e não fala de futebol
Brasiliense: Jogador vaiado por Luiz Estevão vai para o banco de reservas

Você deve ter percebido que o Gama pegou fogo nesta semana, né?

Explica-se: para evitar uma cobertura diária de qualidade (e polêmica), Luiz Estevão fechou os portões do Brasiliense no dia de treinos para imprensa e torcida. Por isso, não dá para fazer muito além do que chamamos de rame-rame ao final dos treinos. Mas no ano passado, o Brasiliense era pior que a Faixa de Gaza.

O detalhe é que essas informações nunca vêm de graça. Se você ligar para o treinador, para um dirigente ou supervisor, não obterá a notícia do dia. É preciso estar lá, porque jogador de futebol também adora fugir da raia.

Como em jornal não se costuma fazer entrevista com gravador, apenas anotando em um bloquinho, fica mais fácil ouvir respostas diferentes (isso é assunto para outro post). Por telefone também é complicado arrancar declarações diferenciadas. Por isso, é preciso suar muito para não ficar divulgando uma falsa realidade ("O time treinou ontem em dois períodos. Fulano saiu para entrada de sicrano...").

No meio deste furacão que eu acompanhei na semana passada, escrevi dois lides que sempre quis escrever.

O primeiro, no jornal de terça-feira, dizia o seguinte:

"Com campanhas discretas na Série B do Campeonato Brasileiro, os melhores lances da atual temporada de Gama e Brasiliense acontecem fora de campo."

Já no jornal de quinta-feira, depois de tanta bagunça, não resisti e comecei minha matéria com a seguinte frase:

"Não existe dia tranqüilo no futebol de Brasília"

Não existe mesmo.

Tanto que após oito ou nove anos nesta luta diária, Cida Barbosa vai fazer a cobertura da Copa do Mundo pelo Correio Braziliense. Quando voltar, ficará na redação fazendo matéria "via Embratel" e ajudando no fechamento do caderno de esportes. Eu não me candidatei a substituí-la no cargo de repórter de futebol no jornal.

Apesar de emocionante, não é saudável tratar com bandidos diariamente!

4 comentários:

Gilberto Silva disse...

Daniel, realmente aqui no Nordeste não chegam informações sobre o futebol de Brasília, o Esporte espetacular por exemplo, em sua edição nacional é só RJ. Ei se um é a Faixa de Gaza, o outro é Bagdá!!! Valeu cara, bom trabalho, e acessa o meu blog também!!!!

Anônimo disse...

O texto do Briba prova a arrogância de dirigentes do futebol de Brasília e, pior, como ele nasceu torto e continuará assim por muito tempo. É um ótimo debate e muito esclarecedor. Parabéns, meu brother... Seu texto tá uma beleza!

Abçs

Anônimo disse...

Belo texto, meu amigo Daniel. O que você descreveu é a pura realidade do futebol brasiliense. Infelizmente, não vejo muito como isso mudar em pouco tempo. Mas como um fanático por futebol, torço por dias melhores no cenário local. Ah, e o final do seu texto fechou com chave de ouro o que você descreveu ao longo do pensamento. Parabéns pela bela crônica!
Abraço

Anônimo disse...

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