Daniel Brito
Recebo uma ligação de Ana Dubeaux no meu celular no último dia 17 de maio. Estava preocupada comigo, queria saber se estava tudo bem e se eu, por acaso, me encontrava em condições de escrever sobre a situação que passara na noite anterior.
Era a primeira vez que Ana Dubeaux ligava no meu celular. Ela é a segunda pessoa mais forte na redação do Correio Braziliense. É editora-chefe e, apesar de ser uma pessoa receptível, lida mais com os chefes da redação (editores).
Eu estava em Franca, cidade no interior de São Paulo, para fazer a cobertura da semifinal do Campeonato Brasileiro de basquete. Passara 12 horas dentro de um ônibus no trajeto de Brasília até o interior paulista. Apenas 20 minutos dentro dessas 12 horas motivaram a ligação de Ana Dubeaux para mim.
Ela queria saber se poderia escrever o que se passou nestes 20 minutos comigo.
Como era a primeira vez que ele conversava comigo sobre jornalismo, claro, concordei na hora.
Tá curioso, né, para saber pelo que passei?
Leia o "tistimunho" abaixo:
Uma fração de segundos diante de um assaltante armado é suficiente para decidir ser honesto, malandro ou herói. Até onde pude, tentei ser honesto, na madrugada de terça-feira para quarta-feira, em algum lugar no interior de Minas Gerais.
Conversava sobre filmes de terror com o jornalista Bruno Moraes, do Jornal de Brasília, quando ouvi um disparo. O pior é que não era filme de terror. O tiro saiu de dentro de um Tempra de cor vinho, acertou de raspão o retrovisor esquerdo do ônibus da Real Expresso e o forçou a parar.
O ônibus saíra de Brasília na noite de de terça com destino a Franca, no interior de São Paulo e tinha exatamente 20 passageiros. Bruno correu para a última poltrona do veículo enquanto eu olhava três bandidos entrarem encapuzados. Um deles "cuidou" do motorista e os demais fizeram o rapa nos viajantes.
Até os marginais chegarem ao meu assento, próximo ao fundo do ônibus, vi todas as opções possíveis passarem pela minha cabeça: Quebrar a janela e sair correndo;partir para a briga e desarmar um dos assaltantes;entregar tudo;esconder tudo.
As duas primeiras idéias foram descatardas tão logo me deparei com uma pistola prateada a um metro do meu nariz. Eu estava disposto a entregar dinheiro, celular, cartões de crédito e até o laptop que levara na mochila para escrever as reportagens sobre o Hexagonal Semifinal do Campeonato Brasileiro de Basquete, que começou ontem, em Franca. O mais nervosinho dos assaltantes intimidava senhores de idade avançada nas poltronas da frente do ônibus colocando a arma na cara deles. Às vezes, passava uma orientação ou outra ao "Truta".
Truta era o ladrão resposável pelos assentos dos fundos, onde eu e Bruno estávamos. Visivelmente inexperiente, ele virava as costas com freqüência para as vítimas. Foi em um desses momentos de desatenção que decidi ser (um pouco) malandro. Escondi cartões de crédito na bermuda e joguei a carteira com apenas R$ 6 na sacolinha de Truta.
"Você tem celular", perguntou o marginal, em tom até educado para um assaltante. Disse que sim e emendei uma conversa. "Será que eu posso pegar minha carteira de habilitação, pelo menos? Vocês não vão precisar dela...". Em uma resposta surpreendentemente amistosa, o marginal ainda me deu conselhos: "Faça o seguinte, pegue teus cartões, documentos e ticket alimentação porque a gente não quer isso mesmo".
Depois disso, Truta foi recolher relógios e alianças dos passageiros, coisa que esperava-se que fosse feito logo no começo do assalto. Aproveitei mais um momento de desatenção para esconder também o meu relógio. O nervosinho na frente do ônibus me viu de mão abaixada e apontou a arma para minha cara aos gritos. Mas ficou só na ameaça.
Na hora de ir embora, Truta e seu comparsa levaram todas as bolsas que estavam no bagageiro, sem ferir nem atirar em ninguém. Entre as mochilas, estava a minha, com laptop, óculos, livro sobre a Copa do Mundo, e meu inseparável bloquinho de anotações. O curioso é que 30 segundos antes de embarcar no ônibus em Brasília, ainda no início da noite de terça-feira, tirei o laptop da mala -- que seguiu viagem no compartimento de bagagem -- e coloquei na mochila. Pensava que ali, o computador estaria mais seguro.
Se tivesse a oportunidade de ser honesto com Truta de novo, pediria, pelo menos, meu bloquinho de volta. Mas nem todas as verdades podem ser ditas, principalmente para um assaltante com a arma apontada para seu nariz.
Esse texto foi publicado no Correio Braziliense de sexta-feira, 18 de maio de 2006. Fui assaltado e fiz um relato do que aconteceu dentro do ônibus.
O repórter da editoria de Cidades que ficou encarregado de escrever a reportagem sobre a onda de assaltos nas estradas próximas ao DF, Leandro Bisa, gostou do texto, mas disse que eu precisava dar um tom mais dramático à narrativa.
Meu chefe, Paulo Rossi, disse que gostou (!?!), mas mudou o lide e o desfecho (Será que gostou mesmo?). No Correio Braziliense do dia seguinte, o início do meu texto saiu dessa maneira:
Uma fração de segundos, diante de um assaltante armado, para decidir como reagir. tempo que tive, na madrugada de terça para quarta-feira, dentro de um ônibus, em algum lugar no interior de Minas Gerais.
O final do relato ficou da seguinte maneira:
Se tivesse a oportunidade de conversar com Truta de novo, pediria, pelo menos, meu bloquinho de volta. Mas nem tudo pode ser dito, principalmente para um assaltante com a arma apontada para seu nariz. Numa fração de segundos, uma decisão errada pode ser fatal.
Rossi editou meu artigo porque disse que eu parecia complacente (é assim que se escreve essa palavra) com a ação dos bandidos. Tentei argumentar, mas minhas explicações não lhe pareceram convincentes.
Honestamente, gostei do meu texto. Estou abrindo o jogo aqui. Sempre tive a ilusão de que poderia escrever crônicas, artigos, sei lá, qualquer coisa fora do Hard News. Este blog mesmo é um dos maiores professores que tive no ato de contar histórias. Quando escrevia o relato do assalto, só pensava em contar essa história aqui para os Filhos da Pauta, mesmo sem saber direito quem lê isso aqui, se lê, como lê e o que acha dos meus textos, do Grande Pedro e de Da Silva.
Sim, deixando o sentimentalismo de lado (quase eu choro escrevendo o parágrafo acima). Eu discordo (aprendi, Sombra!) que tenha parecido complacência minha, mas manda quem pode e obedece quem tem juízo. Principalmente quando você tem certeza absoluta que o texto será lido pelos chefes da redação.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
8 comentários:
Seu tetxo ficou legal mesmo, tens jeito mesmo pra cronica...um abraço
DB sempre teve vontade de contar histórias do dia a dia. Tinha dúvida se realmente conseguiria descrever bem cada situação. Acredito que o primeiro artigo foi um desafio grande, mas você passou. Apesar de tudo que aconteceu você pôde escrever. Pior são aquelas pessoas que não podem contar o assalto porque acabam mortas. Espero que o próximo artigo ou crônica seja sobre algo mais relax. Quem sabe sobre o que aconteceu na palestra sobre jornalismo esportivo que fosse dar em Ribeirão Preto.
Ola Daniel Brito!
Acabo de sair da sua palestra (Faculdades COC) e me deparo com seu triste, porém, bem redigido texto.
Parabens pela palestra ministrada, que misturou trabalho e humor, como devem (ou deveriam) ser as redações, seja qual fosse o setor de atuação.
Lamentável a situacao vivida, e muito corajosa suas atitudes diante de um momento de total insegurança e apreensao!
Abraços,
Cleber Akamine
Daniel, sou de Santa Cruz do Capibaribe - PE e viajo todosos dias pra Campina-PB principalmente na segunda por motivo dos feirantes compradores temos esse medo.
Foi você ms pderia ter sido eu. Um bom texto faz com que nós nos vejamos nele.
Ei esperamos uma palestra sua na Faculdade, graças ao Blog, e a Léo, vc é um "pop star".
realmente a experiência q a violência nos traz é sempre forte e marcante. o imprtante é sabermos extrair disso algo de bom para nossas vidas. Graças a Deus o pior foi evitado. e quanto às crônicas, convido vocês a entrar no meu universo literário, onde a vida cotidiana tem uma outra visão...
abraço.
sucesso!
Olá Daniel, sou de Ribeirão Preto e também assisti sua palestra... muito bem descrita pelo nosso amigo Cléber...como leitora posso "palpitar" dizendo que se você quiser escrever crônicas acho que seria de grande sucesso, pelo menos pra mim, que gosto de textos "leves" de ler. Sua ironia discreta dá um humor inteligente ao texto. Espero anciosa para que ponha em prática a sugestão do Léo Alvez...boa sorte
Um beijo,
Maria Carolina
Looks nice! Awesome content. Good job guys.
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olha, eu não leio o corrreio. cheguei aki pro acaso tbm. mas vc tem razão. vai fugindo do formato. as vezes tds cansamos. e no fim, eh a opinião de alguem de qq jeito.
abraços
elô
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