Pedro Henrique Freire*
No artigo sobre meu contato com o roqueiro Supla prometi contar outro causo sobre o lado gratificante de ser jornalista. Pois bem. Aqui estou para relembrar a matéria que fiz com o sambista Moacyr Luz, parceiro de nomes do alto escalão da MPB e do samba. Irei descrever a maneira interessante que se deu minha breve conversa por telefone e a forma como escrevi a matéria.
Era uma segunda-feira de setembro de 2005. Moacyr Luz faria um show em Brasília na terça-feira. Consegui o celular dele e disquei para o Rio de Janeiro.
Ele atendeu: “Alou! Alou!”, respondeu.
Eu tentava fazer com que ele me ouvisse. Mas, ao fundo, uma insistente harmonia de instrumentos eliminava todas a chances de nos entendermos. “Moacyr, é o Pedro, do CorreioWeb. Você pode falar agora?”, perguntei. “Espera só um momentinho, por favor”, respondeu, delicadamente.
Aos poucos, os sons do pandeiro, cavaquinho, tamborim, violão e outros instrumentos de samba foram se distanciando. Esse “momentinho” foi suficiente para refletir sobre a boemia carioca.
Naquela segunda-feira, 14h, o sambista estava tocando e cantando na Lapa. “Olá, Pedro. Me desculpe. É que toda segunda eu faço o samba do trabalhador aqui na Lapa. Não vai ter como falar hoje. Me desculpe mesmo. Você tem como pegar meu material com o Melck?”, disse, referindo-se ao assessor.
Não conhecia quase nada do som dele. Tinha visto uma entrevista sua certa vez no Multishow e sabia, basicamente, que Luz era parceiro de gente como Aldir Blanc, Nei Lopes, Martinho da Vila e outros. E também que é um cara de voz rouca, cabelos grisalhos amarrados em rabo-de-cavalo e gordo. Bom, sem consegui falar com ele para informações precisas e mais quentes, comecei meu texto assim:
“Perdoe-nos caro leitor. Na tarefa cotidiana de contatar entrevistados, neste caso o cantor e compositor Moacyr Luz, para ilustrar com suas palavras a matéria do show e o lançamento do livro que fará na noite desta terça-feira, no Feitiço Mineiro, não fomos bem sucedidos. Tentamos uma ligação por telefone. Mas ele estava ocupado. Chegou a atender. De fundo, podia-se ouvir os batuques de tantans, pandeiros, o som do cavaquinho e o falatório geral. Eram 14h de segunda-feira. “Desculpe, não posso falar. É que eu faço o samba do trabalhador toda a segunda-feira aqui. Desculpe de verdade. Mas estou no meio do trabalho”, justificou-se do Rio de Janeiro”
Ainda bem que eu estava em Cultura e podia experimentar os mais inusitados tipos de lides. Com o material da assessoria, reuni o máximo de informação possível sobre o compositor e, de quebra, ilustrei o texto com algumas declarações de músicos famosos sobre o trabalho dele. Não ficou ideal. Mas ficou tragável.
No dia seguinte, estava aqui na redação e quem me liga? Moacyr Luz. “Ô, Pedro, é o Moacyr, tudo bem? Olha, queria dizer que foi genial a saída que você usou na matéria. Cheguei na cidade agora. Se você quiser mais alguma informação pode me ligar. Ontem não pude falar mesmo, me desculpa”. Agradeci a atenção dispensada e prometi ir ao show naquela noite.
Não fui.
Mas fiquei feliz por ter sido elogiado pelo “ilustre-quase-entrevistado”.
* Pedro Henrique é repórter do CorreioWeb e mantém-se firme na tentativa de se tornar um Filho da Pauta
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
Por sorte o Pedro estava numa editoria que podia ousar na construção do lide. Até justificar o fato de não ter falado com o entrevistado (apesar da tentativa). Em outro editoria o leitor não aceitaria uma justificativa dessas. Mas gostei da criatividade e principalmente da ousadia.
Essa saída do Pedro me fez lembrar das aulas de Técnicas de Entrevistas, ministradas pelo filho da pauta, Léo Alves.
Da criatividade do repórter diante de situações desse tipo. A matéria tem que saí, independente da situação.
É isso aí Pedro. Valeu, principalmente pelo desenrolar da matéria.
Quanto a ser um filho da pauta, não desista, com a insistência chegarás lá.
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