Léo Alves
Terça-feira, 13 de junho de 2006.
Dia da estréia do Brasil na Copa do Mundo.
Local: Seminário São João Maria Vianey, Campina Grande-PB.
Foi neste local que acompanhei o jogo contra a Croácia. A idéia da produção (muito boa, por sinal) era mostrar se a rotina dos seminaristas também mudava com os jogos da Seleção.
Toda a equipe da TVPB está tentando fazer matérias com abordagens diferentes, locais inusitados. Fugir do tradicional pessoas-num-bar-torcendo-pelo-Brasil. Neste aspecto, a produção estreou melhor que a Seleção Brasileira. Mesmo empolgado com a matéria, tinha receio de como os seminaristas nos receberiam.
Cheguei às 15h. Fui recebido por um deles disposto a contar a rotina das pessoas que moram lá. O seminarista disse que todos os dias acordam cedo, fazem oração, tomam café e vão para a universidade, que fica dentro do próprio seminário. À tarde dividem o tempo entre estudo pessoal e serviços domésticos.
Têm folga uma vez por mês. Sempre aos domingos. A quarta-feira é o único dia livre, que eles podem sair para passear. Como muitos dos 37 seminaristas são de outras cidades só vão em casa nas férias do meio e do fim do ano. No dia do jogo do Brasil a rotina do seminário mudou totalmente.
Para ter a tarde livre, os serviços foram antecipados. A água da fonte recebeu um corante azul. A sala de tevê (usada para assistir filmes e telejornais) foi decorada em verde-amarelo. O detalhe era que por trás de um crucifixo na parede foi colocado um tecido verde e amarelo. Até Yuri, um cachorrinho poodle, também estava no clima da Copa.
Os funcionários estavam ajudando na decoração, mas ganharam folga na hora da partida. Já tinha as informações para a minha matéria. Faltava escrever a passagem (para quem não tinha muita intimidade com os termos técnicos de televisão, passagem é quando o repórter aparece na matéria para dar a informação).
Imaginei fazer a passagem dentro da sala, falando que a expectativa dos seminaristas iria acabar com o início do jogo. Mas quando comecei a pensar, um seminarista perguntou se a gente queria filmar o toque do sino, que naquele dia iria avisar a proximidade do jogo.
Nos dias normais, quando o sino toca é para acordar os seminaristas, para avisar que as refeições estão na mesa ou para chamar para alguma reunião. Bingo. Estava aí minha passagem. Quando voltei, a sala de tevê estava cheia de seminaristas e dois padres. Entrevistei dois deles sobre a expectativa (de praxe). Acompanhei toda a partida no seminário. Os seminaristas torcem (e sofrem) como qualquer brasileiro.
Claro que não chamam palavrão.
Mas não vi muita coisa de diferente na maneira de torcer deles. Tinha até pipoca e refrigerante (eu também comi). Procurei escrever a matéria dando destaque às mudanças na rotina do seminário. Contei o que faziam, o que estavam fazendo naquele dia. Coloquei entrevistas dos seminaristas contando a antecipação dos serviços, do corante na água. Tudo muito rápido, mas que era essencial para complementar o texto.
Só para exemplificar. Um trecho que escrevi ficou assim: “Os seminaristas são brasileiros, mas não deixam tudo para última hora”. Aí deveria entrar a entrevista do seminarista dizendo apenas: “nós antecipamos os serviços ontem para estarmos livres hoje”.
Terminei de escrever a matéria por volta de 18h15 porque trouxe o texto quase pronto. Fiz só alguns retoques. O jornal entra no ar às 19h. O editor não tinha tempo de colocar tudo que pedi. Até por uma questão do tempo do jornal, que naquele dia estava com apenas nove minutos (em média são doze). Mas a idéia era reeditá-la maior para o Bom Dia Paraíba.
Não tive tempo de assistir a matéria. Só cheguei a vê-la no início da tarde do dia 14. O texto que escrevi foi cortado pela metade. Das entrevistas que pedi só entraram as duas do final, que avaliavam o desempenho da Seleção. A matéria não foi reeditada. Saiu no Bom Dia do mesmo jeito da noite anterior. Quem assistiu em casa pode até ter gostado.
Mas não sabe a quantidade de informações que ficou de fora. Detalhes que enriqueceriam a matéria. Não sei se errei ao não conseguir enxugar mais o texto e obriguei o editor a cortar muitas coisas. Ou a culpa foi do tempo.
Só sei que a matéria não foi ar como eu imaginava. Pela primeira vez tive saudades do jornal impresso, onde poderia ter contado melhor os detalhes do que foi assistir ao jogo do Brasil num seminário.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
O grande desafio desta Copa, para mim, é fazer pautas diferentes das que já foram feitas em copas anteriores.
Essa do mosteiro terá um repeteco aqui por brasília também, hein...
Ei, rapaz, isso dá até uma tristeza, não é? Esse desnível de interesses entre o que o repórter percebeu in loco e o que o editor aferiu do que ele deixou é um dos grandes problemas a serem resolvidos, principalmente no nosso telejornalismo local. Abraçuuuuuuuuusssssss
Ohw Leozinho, fica assim não, vai acabar gerando outra polêmica: repórter x editor! kkkkkkkkkkkkkk
Mas no fim das contas deu tudo certo, valeu nossa idéia e valeu seu esforço de ter que assistir a copa num ambiente tão recatado! =)
SE vc estava com receio de como seria recebido, imagina eu, que produzi e tive que ligar bem constrangida fazendo um questionário. affffy! E quer dizer q o senhor andou comendo pipoca ne?!?!? =)
Ah, aproveitando... parabéns Leozinho pelo aniversário de um ano aqui na tv! É muito bom trabalhar com vc! Um xero
Esse é um problema muito grande no jornalismo, em especial na TV. Mas na próxma gravação do tipo será diferente, uma vez que você já irá saber do risco de ter parte da matéria cortada.
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