11 junho 2006

Até 2026...

Se amanhã eu deixar de escrever neste blog, ficar analfabeto, mudar de ramo de atividade ou fizer qualquer outra coisa que me tire da cabeça o que vou escrever agora, peço a alguém que me lembre em 2026 o que está nas linhas abaixo.

Estou com a certeza que esta é apenas a primeira de uma série de quatro copas do mundo que NÃO assistirei. Tá, tudo bem, eu vi a vitória da Alemanha, da Inglaterra, Equador e Argentina. Até o empate da Suécia contra Trinidad e Tobago. Sorte de principiante (minha e dos trinitenses).

Mas nunca esqueço uma frase que meu pai me falou em 1998. "Depois de 20 anos, posso assistir a uma copa do mundo sem me preocupar com o trabalho". Fiz as contas. Desde a Argentina, em 1978, até a França, passando por Espanha (1982), México (1986), Itália (1990) e Estados Unidos (1994), meu pai trabalhou.

Na Espanha e na Itália ele esteve lá (pé frio!!). Nas demais, ficou no Brasil fechando o jornal, organizando a equipe de repórteres fosse do Jornal O Norte, em João Pessoa, fosse do Correio Braziliense, em Brasília. Depois disso, o destino o levou para outra ramificação do jornalismo.

Tinha 17 anos quando ouvi a tal frase de "vinte anos sem assistir a uma copa". Estou com 25 e SEI que só na Copa de 2026, que eu acho que deve ser na Europa, eu nao devo mais estar trabalhando. De repente, assim como Marcondes Brito, posso estar em outra ramificação da profissão, ou até desempregado mesmo. Quem sabe milionário? Não, quem faz jornalismo não fica milionário... É mais fácil estar desempregado (Nesse caso, é melhor trabalhar na Copa de 2026 mesmo).

Anyway, é uma tortura chinesa trabalhar em plena Copa do Mundo. Não é só por causa do Brasil. É pelo clima, pelas histórias, pelas conversas e pelas partidas, que costumam ter alta carga de emoção. Quando se é repórter jovenzinho assim, com 25, 30 anos, você geralmente é pautado para fazer as piores coisas no exato momento do jogo do Brasil, ou de outras partidas sensacionais.

Alemanha e Costa Rica, por exemplo. Lá estava eu na Embaixada da Alemanha em Brasília. Aqui vai até uma confissão: de tanto insistirem, acabei tomando cerveja com eles e torcendo para Alemanha. Da Silva, anote este nome: Paulaner. Esta é a cerva alemã...

Hoje, domingo, tem Portugal e Angola. Será um jogão, eu presumo, porque é um duelo histórico. Coincidentemente será disputado na cidade de Colônia. Não verei porque estarei em algum lugar de Goiás.

Para escapar de outras furadas em jogos importantes, como embaixadas ou bares para fazer matéria sobre as torcidas, bolei uma série de pautas justamente para o momento em que o Brasil estiver em campo. Terça-feira, por exemplo, estarei no povoado de Diadema, no município de Teresina de Goiás, a 380km de Brasilia.

Esse povoado nunca assistiu a Copa do Mundo pela televisão. A energia elétrica só chegou lá em novembro de 2005. VOu lá contar como essa galerinha, descendente de escravos, chamados de Kalungas, verá a Seleção Brasileira pela primeira vez na vida em um Mundial na TV.

Entre as idéias que apresentei à chefia de redação, havia um lugar muito especial: uma plataforma de petróleo. Queria muito saber o que fazem as pessoas que trabalham lá no exato momento em que a Seleção Brasileira está em campo na Alemanha.

Trabalham? Assistem ao jogo?

Vou continuar em dúvida. A assessoria da Petrobras informou que não nos deram autorização para ir a qualquer uma das 50 plataformas de petróleo que o Brasil possui no oceano.

Não tem problema. No próximo domingo, passarei o dia em um mosteiro. Dia 18, o próximo domingo, tem Brasil e Austrália. E é dia sagrado para padres, bispos ou monges que vivem em mosteiros. O que eles farão? Assistirão ao jogo ou continuarão isolados??

Gostaria de assistir em um presídio também. Com tantos problemas que um presidiário tem, será que ele ainda se preocupa com uma vitória da Seleção?

Há algumas outras idéias, mas prefiro não antecipá-las. O Brasil pode até perder a Copa se eu disser antes do tempo.

É estranho pensar que lamento por não puder acompanhar a Copa do Mundo como fiz nas últimas cinco edições, quando ainda era um estudante -- em 2002, já trabalhava na TV Borborema, em Campina Grande (PB), mas não tinha absolutamente nada a ver com Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, me empolgo com as pautas para os dias de jogos da Seleção.

Quero chegar em 2026 e pensar que valeu à pena trabalhar vinte anos para usufruir dos vinte anos seguintes sem ter que me preocupar com trabalho em pleno dia do jogo do Brasil na Copa do Mundo.
(Me lembre disso, por favor)

3 comentários:

Léo Alves disse...

Éééééé a amigo, a vida do jornalista é esta. Quando todos estão envolvidos com quem vai ganhar ou perder nós estamos preocupados com a melhorar maneira de contar essa história. Mas no fundo é muito gostoso poder mostrar outro ângulo às pessoas. Por aqui na TVPB também estamos buscando pautas diferentes. No final poderemos - quem sabe - contar como foi fazer cada uma dessas matérias. Boa Sorte nas pautas.

Marcelo Soares disse...

ë bom ter jornalistas q se preocupam em mostrar algo difreente dentrod e umtmea tao batido, a midia acaba fazendo sempre o lugar comum, e isos é horrivel..

Gilberto Silva disse...

É Daniel essa é a vida que sonho para a róxima Copa, espero que eu esteja igual a você, trabalhando e muito. Pense numa vida essa de jornalista!!!!