Léo Alves
Na vida devemos fazer coisas que valham a pena, que nos torne um pouco melhor.
A expressão “valer a pena” era muito usada por mim e Daniel, na época em que o grande DB morava em Campina Grande. Nas segundas ou terças-feiras quando saímos para lanchar, acabávamos tomando uns chopes e alongando a conversa. Sempre surgia aquela preocupação: “amanhã temos que acordar cedo pra trabalhar”.
“Esquenta não Da Silva, vale a pena esticar a conversa”. Realmente ele tinha razão.
Profissionalmente falando, sempre soube que valia a pena ser jornalista. Decidi seguir a profissão, espelhando-se no meu tio radialista, no segundo ano do Redentorista, onde fazia curso de eletrônica.
Desde então, tive dúvida em relação à profissão apenas duas vezes na vida. Quando fiz o primeiro vestibular para Direito e Engenharia Mecânica. Não passei. No ano seguinte acabei sendo aprovado em Comunicação Social (Jornalismo) e Engenharia Mecânica. Cursei os dois por um bom tempo.
A outra vez foi quando passei no concurso do Banco do Brasil. Tinha seis meses de Diário da Borborema e fui convocado pelo BB. Fui ser bancário porque ouvia muita gente dizer que jornalista não ganha dinheiro. A dúvida me levou à certeza. Em onze meses de BB, pedi demissão.
Senti falta do jornalismo.
Lembro bem do dia que pedi pra sair. Meus dois gerentes queriam a todo custo que eu mudasse de idéia. Perguntaram sobre salário, eu menti. Disse que o Diário iria me pagar melhor.
Em OFF: saí para ganhar a metade. Só pararam de tentar me seduzir quando disse que poderia chegar a ser presidente do BB, mas toda vez que lesse uma notícia no jornal que não fosse eu que tivesse escrito, ficaria triste.
Vou parando por aqui porque esse post não é uma autobiografia. Só que os três primeiros parágrafos eram fundamentais o entendimento.
Semana passada reencontrei um colega que terminou Jornalismo comigo. Ele foi vereador em Serra Branca (a 120 km de CG). Candidatou-se a prefeito e perdeu. Nunca exerceu a profissão. Pelo menos que eu saiba. Ao me cumprimentar, soltou:
- Rapaz, tu saísse do Banco do Brasil para ganhar essa mixaria em jornalismo? Tu é doido, é?
Um comentário no mínimo indiscreto.
Primeiro porque ele não sabe se meu salário é de três, quatro ou cinco dígitos. Segundo, porque se não exerce a profissão não bote gosto ruim. A conversa durou mais alguns minutos, mas não tive como perguntar o que ele estava fazendo da vida. Porém questionou como eu tinha entrado na UEPB.
Encerrei a conversa dizendo que “dinheiro não é tudo na vida”.
Realmente não é.
Poder trabalhar no que você gosta não tem preço (não é propaganda de cartão de crédito). Confesso que o comentário do colega me deixou intrigado. É chato ver pessoas que escolheram o jornalismo só para ter um curso superior. O pior é ouvi-las esculhambar com a profissão, sem nunca ter provado.
Em menos de uma semana de ter escutado o comentário do colega revoltado com o jornalismo, reencontrei um jornalista apaixonado pela profissão, Gil Campos. Certamente muito mais que eu. Quando entrei na faculdade Gil já era repórter policial do Jornal da Paraíba.
Há nove anos Gil saiu de Campina Grande. Hoje trabalha num jornal do grupo Folha e é assessor da Prefeitura de Guarulhos. Está em CG fazendo uma matéria sobre o Maior São João do Mundo.
Não tive muito contato com ele na época de faculdade porque estávamos em níveis diferentes.
Eu estudante, ele jornalista.
Segunda-feira (19/06) estava na UEPB, quando Gil apareceu. Imediatamente convidei-o para uma palestra informal com a minha turma de Técnica de Entrevista e Reportagem, do terceiro ano. Ele aceitou. À noite apareceu como combinado.
A palestra foi uma lição, uma demonstração de amor pela profissão.
Antes, disse que Gil tinha saído de CG. Na verdade foi obrigado a sair. Ele (eu sabia da história por alto) contou que denunciou vários crimes praticados por policiais civis e militares em Campina Grande, na década de 90. Foi o suficiente para começar a receber ameaças de morte. Não se intimidou. Sofreu um atentado. Continuou firme nas denúncias. Foi aí que assassinaram uma irmã e prima dele (certamente por vingança). E ainda o avisaram no jornal onde estavam os corpos. Em seguida, depois do segundo atentado, teve que deixar CG para não morrer.
As denúncias são lembradas até hoje pelos policiais. Ainda na semana passada, um deles o encontrou num bar e disse que “ele merecia ser assassinado por um profissional. E que tomasse cuidado ao andar só”. Mesmo com a ameaça, Gil confessou que tem vontade de voltar para Campina. Mas teme (e com razão) ser assassinado.
O mais interessante da palestra foi a pergunta se tinha valido a pena tudo que passou.
- Valeu! Valeu a pena. E faria tudo de novo, respondeu Gil.
Não tenho bem certeza se essas foram as palavras dele. Notei que os alunos ficaram em silêncio, se entreolhando, como sem entender tamanho amor pelo jornalismo.
O único comentário que fiz foi: “E eu pensava que gostava de jornalismo”.
Foi inevitável não comparar com a conversa da semana anterior com o jornalista formado, mas que não exerce a profissão. Quando olhei pra Gil vi um jornalista apaixonado pelo que faz, idealista, que apesar de tudo que passou não desistiu, não mudou de profissão e hoje é lembrado em CG como exemplo de grande jornalista policial.
Isso não se compra, se conquista.
No outro colega vi apenas alguém preocupado com o salário do final do mês. Está aí o principal motivo de terem seguido caminhos diferentes.
A vida, a carreira, não deve ser pautada pelo dinheiro. É preciso ter amor pelo que se faz. O dinheiro é conseqüência de um trabalho bem feito. E o trabalho só será bem feito se tiver amor na sua realização.
É por isso que sempre digo que VALE A PENA SER JORNALISTA.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
Um companheiro de trabalho me contou a seguinte história:
No final da década de 1980, os jornalistas de brasília decidiram entrar em greve. O diretor de redaçào do Correio BRaziliense na época reuniu os jornalistas na redação e disse para quem quisesse ouvir:
- Há algum tempo, me deram a oportunidade de ganhar dinheiro ou fazer jornalismo. Eu escolhi a primeira opção. Essa greve não vai levar a nada...
Esse diretor deve ter algum parentesco com o candidato derrotado a prefeito de Serra Branca.
Vale a pena sim fazer o que se gosta, até porque quando se faz gostando, faz bem feito.
Conheço bem a figura serra-branquense: filhinho de papai, nascido e criado pra dá sequência a uma trajetória política familiar no município. Só que também na política (apesar dos pesares) a liderança também é conquistada.
Fiquei surpreso ao ver o cadastro do então candidato, no cartório eleitoral constando como formação, jornalista/editor. Passei uma semana conferindo as placas de colação de grau, expostas nos corredores da faculdade, procurando em que turma o jornalista tinha se "formado".
Com relação ao Gil, a paixão pela profissão é tanta, que nos alunos de sua turma comentamos com um certo receio.
Mas é isso. Realmente "Tem que valer a pena".
Léo, eu pensava ter uma opinião apaixonada e radical pelo amor ao jornalismo, por isso já fui chamado de "louco" encontrei um mais "louco" que eu.
Valeu, vale e sempre valerá a pena.
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