25 junho 2006

Quem faz a pressão

Daniel Brito

Está difícil escrever sobre qualquer coisa atualmente que não seja futebol. Passei a semana procurando assunto para tratar aqui, mas não vi nenhum tão pertinente (na minha opinião, claro!) quanto o que vou relatar abaixo.

O Correio Braziliense de sexta-feira estampou em sua capa uma foto do atacante Ronaldo comemorando um dos gols na vitória sobre o Japão e a manchete:

Viva o Gordo!

No Jornal de Brasília, a foto foi a mesma e a manchete foi a seguinte:

Beijo do Gordo!

No jornal popular de Belo Horizonte, o Aqui BH, que pertence ao mesmo grupo do Correio Braziliense, o título para a vitória da Seleção foi:

Valeu, Gordo!

É engraçado que após aqueles gols ninguém mais martelou no assunto do peso de Ronaldo. Fizeram essas manchetes, mas ficou nisso mesmo. Manchetes, aliás, contestada por vários leitores mais antenados.

Como o próprio jogador costuma dizer:

"Quando faço gols emagreço. Quando não faço, estou gordo".

Como digo sempre, não sou o dono da verdade e estou longe de ser (se é que existe a possibilidade de alguém ser o dono da verdade).

Mas a imprensa levanta a bola de uma pessoa e exige que ela se mantenha àquela altura por quanto tempo a imprensa quiser. Poucas são as pessoas fora de série no planeta (em qualquer área de conhecimento e atuação). Pessoas que estão em evidência sempre com conteúdo para quem quiser ouví-la.

Para não ficar dando voltas até contar o que quero mesmo, vou me concentrar no caso de Ronaldo.

Na minha modesta, opaca e pálida opinião existe uma diferença visível entre estar acima do peso e estar gordo. O camisa 9 da Seleção assinala a opção 1. Mas jogou mal duas partidas e ficou gordo.

Foi decretada morte ao gordinho, numa total demonstração de falta de respeito e de memória.

Esqueceram que ele não é infalível.

O que para mim parece mais uma fase nebulosa (e que vai passar, afinal ele tem só 29 anos), para a imprensa que acompanha de perto a rotina da Seleção é o ocaso de uma estrela.

Essa forcação de barra me fez lembrar uma situação que li no livro de Garrincha.

Quando a Seleção Brasileira voltou da Suécia, em 1958, com a Taça Jules Rimet, o presidente Juscelino Kubistcheck (que a Globo insiste em querer canonizá-lo) ofereceu casas e carros aos campeões.

Membros da Força Aérea Brasileira e integrantes do Exército do país se revoltaram. Eles queriam ter esse direito, afinal, eram os verdadeiros heróis da pátria porque lutaram na II Guerra Mundial.

O nosso JK (traidor do movimento esquerdista do país nas décadas de 1950 e 1960) encerrou com a polêmica sem dar carros para ninguém. Muito menos casas.

Por que Juscelino queria homenagear os atletas e não os combatentes?

Primeiro, porque o tão batido "Pão & Circo" já era uma prática comum.

Segundo, porque a imprensa elevou Didi, Gilmar, Pelé, Garrincha, Zagallo e os demais membros da Seleção Brasileira da época à condição de heróis. Na época, o povo achava, realmente, que os jogadores mereciam casa. Já os combatentes não fizeram mais do que a obrigação...

O povo acha, atualmente, que Ronaldo está emagrecendo. Se marcar contra Gana, ficará mais magro ainda. Se vomitar em campo (como fez Beckham e como o próprio Ronaldo queria fazer contra a Croácia, eu imagino), é um gordo, maldito e acabado.

Eu mesmo já fiz o que estão fazendo com Ronaldo no meu círculo de atuação. Aconteceu com um jogador de basquete chamado Kenya.

Ele é um norte-americano muito gente boa e bom de bola. Atua pelo Universo BRB, equipe de basquete profissional do Distrito Federal. Nos playoffs do Campeonato Brasileiro deste ano, o negão mudou de cor. Amarelou ...

Errava bandeja, errava lance-livre, errava arremessos fáceis. Deu branco. Foi feio!

Eu, que sou um produto do meio que estou detonando neste texto, fiz uma série de matérias pressionando o pobre do Kenya. Disse que ele estava com medo de acertar justamente nas finais e coisas do tipo. E busquei declarações de companheiros e do treinador repercutindo o baixo rendimento dele.

Kenya não ficou chateado (aparentemente), mas eu sabia o mal que estava causando ao trabalho dele cada vez que o pressionava nas entrevistas. O campeonato acabou (aliás, tá na Justiça, não acabou) e Kenya não voltou a jogar bem, coitado. Na última partida se recusou a sair de quadra e xingou o treinador para os repórteres.

Eu tenho uma parcela de culpa nessa história...

Um comentário:

Gilberto Silva disse...

A imprensa, em especial a esportiva, mostrou-se viver mais de crises do que de bonanzas. Afianl vende mais dizer que uma "baleia" salvou a seleção do que um jogador, mesmo que esse seja o fenômeno.