16 junho 2006

Apurando o faro

Por Pedro Henrique Freire*

Outro dia eu descia a escada do Correio Braziliense depois das normais sete horas de trabalho e encontrei meu companheiro de muitas outras horas Daniel Brito. Ele chegara de Ribeirão Preto há pouco onde palestrou sobre jornalismo para estudantes. Desenvolveu sua apresentação em três tópicos. O último deles tratava do faro jornalístico. Minha inspiração para este artigo é, portanto, o terceiro tópico usado por "Briba", o simpático apelido de Daniel em Brasília.

Ao final da conversa na escada ele me pediu que colaborasse com mais um texto para o blog Filhos da Pauta. Com muita honra, claro, topei na hora, como sempre. "Vou falar da cobertura da Câmara Legislativa do Distrito Federal", respondi. Aqui estou eu pensando no que falar.

Quando resolvi falar da Câmara Legislativa não estava inventando nada. Usei a natural inspiração do ser humano para unir a convivência com aquele antro legislativo e o último tópico da palestra do Daniel em Ribeirão. Daí me veio, naturalmente, a idéia de escrever sobre faro jornalístico em matérias de política. Sacal, até... Ter faro é saber onde há matéria, onde dá artigo, onde há importância para o leitor. Isso é ter faro. Farejar é outra coisa.

Na teoria, faro jornalístico é o que há de mais sensível na relação notícia repórter. É justamente essa linha que une os dois objetos e que nunca deve ser rompida. Na prática, é tirar a notícia debaixo do tapete. Na Câmara é assim. Existem as notícias do dia, as que todos dão. O difícil é deixar o óbvio de lado e partir pro ataque sozinho, sem marcação. Quando isso acontece, amigo... é bola na rede!

Numa terça-feira qualquer fui fazer uma matéria sobre um projeto em tramitação que expulsaria os alunos de escolas particulares depois de dois meses de inadimplência. Haveria um protesto dos estudantes. Cheguei lá e não tinha nada. Entrei na casa e comecei a farejar o tal projeto. Se ele existisse, seria, no mínimo, polêmico. Rodei em três comissões. Peguei a pauta de votações do dia, conversei com deputados, assessores e nada. Bom, se não está tramitando nas comissões obrigatórias e nem um deputado sabia, então não tem projeto, pensei.

"Estou sem matéria? Não, não posso!"

Retornei à pauta de votações do dia e dei uma olhadela em cada projeto. Só coisas "mambas". As mais importantes não tinham acordo para serem votadas. Apelei para o Plano B. Lembrei que na semana anterior projetos importantes tinham sido aprovados em dois turnos, mas ainda estavam emperrados na Câmara.

Um deles - o mais polêmico, que precisou de um mês de intensas discussões para ir à plenário – trata da política habitacional do DF e atinge diretamente 50 mil pessoas que concorrem a lotes.

Descobri que uma deputada havia entrado com o requerimento que anulava a votação de uma sub-emenda de sua própria autoria e, portanto, travava o projeto de lei ainda na assessoria de plenário para mudança de texto. Somou-se a isso uma sessão sem quorum no dia.

Pronto, pensei, salvei minha pauta!

Ai foi só administrar o jogo para partir pro ataque sem marcação. Eis o que escrevi.

Mesmo aprovado em dois turnos há 20 dias, a tramitação do projeto de lei que regulamenta o programa habitacional está emperrada na Câmara Legislativa. O PL já deveria ter ido para sanção da governadora Maria de Lourdes Abadia. No entanto, ainda aguarda a apreciação do plenário de requerimento da distrital Eliana Pedrosa (PFL), que pede a anulação da votação da subemenda Nª 5. O item deveria ter sido avaliado nesta terça, mas o quorum foi suficiente para sustentar apenas 30 minutos de sessão.

Como meu veículo é a internet, a publicação ainda serve de colher-de-chá para jornal que não quiser levar furo no outro dia. Cheguei na redação e passei as informações para minha editora. Ela gostou e disse que eu escrevesse.

Mas, antes, me informou: "O protesto dos estudantes era na Câmara Federal e não na legislativa". Lamentei o erro de comunicação, mas fiquei feliz por driblar a ordem do dia e praticar o meu "subdesenvolvido" faro jornalístico. Numa apuração, saía da rotina e sempre fareje mais uma vez.

* Pedro Henrique Freire é a favor da barração de Ronaldo no time titular da Seleção Brasileira

2 comentários:

Léo Alves disse...

Já disse em outro comentário que "apurar o faro" é um dos maiores desafios dos jornalistas. Não é todo dia que você consegue ver além do que está à sua frente. Pedro, apesar do erro de comunicação, conseguiu trazer uma matéria para a redação. Por que? Porque não se acomodou. Conheço muitos profissionais que no lugar de Pedro teriam voltado para redação dizendo "que a matéria caiu". Já pensou. Certamente não seria perdoado pelo erro de comunicação. Como trouxe algo mais, a editoria deixou passar.

DB disse...

O faro jornalístico é uma das principais características dos maiores jornalistas do Brasil.
Talvez, depois da Copa, quando eu parar de fazer matérias sobre futebol, eu escreva alguma experiência minha neste aspecto.
Grande Predo teve atitude em não voltar "para casa" de mãos abanando...