09 junho 2006

Bom apetite

Léo Alves

Em época de eleição o candidato topa tudo que aparecer pela frente. Anda de jegue (Geraldo Alckmin pretendia fazer isso aqui na Paraíba), cumprimenta todo mundo, toma uma dose de cana e, quando o assunto é comida, o candidato não rejeita nada. Vai logo colocando na boca. Por aqui o cara come buchada de bode (para quem não conhece é feita com as vísceras do animal), picado (segue e mesma linha) e um monte de coisa que ele não sabe nem o que é. O importante é fazer média. Tem uns que até exageram. Num encontro com Lula, o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), começou a mastigar mamonas, que tinham sido oferecidas pelo presidente. Só parou quando soube que a mamona é tóxica.

De vez em quando jornalista tem que dar uma de político. Não digo que o repórter vá aceitar comer alguma coisa só pra “ser político”. Afinal não estamos atrás de votos. Mas temos que ser diplomáticos (Daniel adora essa expressão). Acho que todo jornalista já passou por uma situação em que chega num local e as pessoas querem agradar. E acabam agradando demais. Oferecem café, chá, refrigerante e um monte de outras coisas que o repórter fica até sem jeito de não aceitar. Primeiro para não passar a impressão de mal educado. Depois pra não pensarem que você “se acha” e não quer se misturar (como aquele nosso amigo Manu).

Eu já aceitei lanchar várias vezes. Mas também já recusei um monte. “Não tomo café”, “acabei de lanchar”, “Almocei agora há pouco”, “não tenho costume de comer à tarde” foram algumas das dezenas de desculpas que usei para recusar “um lanchinho”. O pior é quando a matéria envolve comida. Não tem jeito. O repórter é sempre convidado a provar. Mesmo assim, como disse, recusei várias vezes. É melhor que vomitar na frente de quem me ofereceu o prato. Como dizem por aí: “eu tenho o estômago fraco”. Bateu lá dentro, não aceitou, é retorno certo.

Na época em que trabalhava na TV Borborema tinha uma produtora (não digo o nome em respeito) que adorava pautar pra mim matérias que envolviam gastronomia. Era receita disso, daquilo e de num sei lá o quê. Não é à toa que os colegas do jornal diziam que eu bem que poderia estrear um programa: “Leozinho em destaque”. Por aí dá pra imaginar o tipo de matéria. Numa dessas fui escalado para ensinar a receita de doce de mocotó. É um doce feito das patas de animais bovinos devidamente preparadas. Pois bem, lá estava eu, 14h30, calor, e a mulher cozinhando as patas do boi. Depois começou a tirar, a separar a carne (não sei se era nervo) do osso. Em seguida “a carne” foi colocada no numa panela com açúcar para ferver. Alguns minutos no fogo e o doce estava pronto.
- Agora vamos provar, disse a cozinheira.

Não tive nem muito tempo de pensar, mas ainda saiu uma desculpa:
- Nãooo, nãooo! Doce não é o meio forte, respondi.

Não estava a fim de comer um docinho feito de patas de vaca naquela tarde. O cinegrafista Wilton, que gosta de tomar umas cachaças brabas, estava de ressaca e aceitou. Não passou dois minutos e o cara estava suando.
- O doce é forte né?, perguntou ele pra disfarçar.
- É meu filho é muito forte.

Wilton não parava de suar. Eu morrendo de vontade de rir. Ainda bem que escapei do tal doce.

Já na era TV Paraíba fui escalado para ensinar a receita de Acarabode. Um acarajé feito de bode. Para quem morou seis meses em Cabaceiras (a terra do Bode Rei), na época em que trabalhava no Banco do Brasil, bode passa a ser um prato dispensável. Ele não falta no cardápio dos restaurantes da cidade. No almoço tinha que ter um “bodinho”. Minha cota de bode está no limite. Voltando ao acarabode, a primeira coisa que ‘chef ’ disse ao me cumprimentar foi que eu teria que provar seu prato. Ainda resisti, mas no final acabei provando do tal acarabode. Confesso. É até gostoso. Quase não dá pra sentir o gosto do bode. O acarabode fez sucesso. Um monte de gente ligou para tevê pedindo a receita. Tive até que imprimir uma e levar para o preparador físico do Treze. Também recebi algumas ligações de amigos - tirando onda - perguntando se eu seguiria os passos de Edu Guedes, aquele que ensina receitas no programa matinal da maravilhosa Ana Hickman. O acarabode foi a única matéria de receita que fiz até agora na TVPB (atenção produtores não estou reclamando! ).

Semana passada fui escalado para mostrar uma cooperativa de produtos naturais. Fomos eu e Manuella (produtora e quase nova repórter da tevê). Chegando lá vi logo uma mesa pronta, cheia de empadinhas, bolo, pasteis, coxinhas - todos feitos com soja e gergelim – e duas jarras de um suco verde. Não sabia de que era, mas imaginei que pudesse ser de “limão misturado com capim santo”. Parece que foi esse que tomei uma vez na Embrapa e passei a tarde enjoado.

- Manu, tá vendo essa mesa? Quando terminar a matéria vão chamar a gente para lanchar. Te prepara.
- Não, Léo, vão não.
- Esperemos pra ver, disse e comecei a pensar numa desculpa.

Não deu outra. No final fomos convidados a lanchar. O pior que não tive como recusar. A presidente da cooperativa tinha dito na entrevista que “as pessoas tinham medo dos produtos naturais”. Quando comecei a dizer que estava sem fome, ela me interrompeu.

- Eu não disse. As pessoas têm medo de provar coisas naturais. É gostoso. Coma para você ver.

Peguei uma empadinha de queijo com uma cobertura de gergelim. Estava gostosa. Fiquei só nela. Não quis arriscar o pastel, que depois soube que era de carne de soja. Pronto achei que a missão estava cumprida. Engano.

- Não, vocês vão ter que tomar um ‘suquinho’ de limão com couve, ofereceu.
Eu ia recusar, mas Manu passou na frente.

- Tá bom obrigado. Léo, eu pego um copo pra nós dois. ,
- Okaai, Manu.
- Tá gostoso. Prova, disse logo depois do primeiro gole, querendo me passar o copo.
- Então se tá gostoso pode tomar mais, bem mais. Quero só um pouquinho.

Sabia que Manu não ia recusar na frente das pessoas. Ela não disse nada. Só que olhou de um jeito como quem diz “valeu amigão”. Provei do suco. Não é ruim. Só dá pra sentir o gosto do limão. Porém a mistura com couve me deixou enjoado o resto da noite. Pode até ter sido psicológico.

Efeito psicológico ou não, só sei que no dia-a-dia, além de pegar todas as informações, muitas vezes o repórter tem que estar com o apetite aberto. E disposto a servir de cobaia para provar novos pratos que inventam por aí. Mas não esqueça:
O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE:
"COMER O QUE VOCÊ NÃO SABE O QUE É PODE CAUSAR MAL À SAÚDE"

3 comentários:

Anônimo disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
FOI MUITO ENGRAÇADO LEO. E EU COM RAIVA PQ AINDA QUERIA FAZER UMA PASSAGEM E NÃO QUERIA BORRAR O BATOM! PENSE! ÔH SUCO RUIM...
EU TENHO É QUE ME PREPARAR, PQ SENDO A ÚNICA REPÓRTER MULHER E TRABALHANDO A TARDE (TURNO DE MATÉRIAS LEVES) VOU FAZER BASTANTE COISAS DO TIPO. MAS DO JEITO QUE EU ADORO COMER, NUM VAI SER MUITO SACRIFÍCIO NÃO!

Geraldo Moura disse...

Esse post de Léo, mostra sua fraqilidade estomacal.......ô cabra do buxo sensível...rsrsrrs. Em minhas peripécias jornalísticas nunca passei por experiência semelhante,contudo, na época que era agente de saúde..meu Deus!!!! Tejú(sic), Péba, Cobra, Rã,tudo tive de encarar,principalmente qdo trabalhava na zona rural, mas sobrevivi e até ganhei uns quilinhos.

DB disse...

Doce de carne de tornozelo de vaca é f*da... Já imagino quem pautou!
Eu mesmo ja passei por uma situação dessa com um suco de goiaba, logo o suco que mais gosto. Aceitei, maas na hora que vi o suco que deveria ser de cor meio alaranjada, meio vermelha, estava amarelo, falei que tava prestes a regorjitar o almoço e me livrei dessa furada.
Se bem, né, sombra, que a gente ja tomou coisa pior aí por esse mundo...