Por Daniel Brito
A melhor definiçao sobre o trabalho de um jornalista na Fórmula 1 me foi dada por um repórter do Estadão:
- Aqui, a gente conta os dias que faltam para acabar e vai cortando os riscos na parede, igual presidiário.
Para mim, que estou em um hotel a 20km do autódromo de Interlagos, realmente é de se contar os dias que faltam. Todo dia, tenho que sair do Paraíso, atravessar a avenida mais congestionada de São Paulo (23 de maio) e chegar no local da corrida. De táxi...
Meu recorde foram 90 minutos no trânsito. Vinte quilômetros em uma hora e meia....
Para nào ficar preso nas alamedas paulistanas, hoje, domingo, dia da prova, acordei às 4h45 e saí do hotel às 5h30. Cheguei em meia hora. Com trânsito um pouco menor.
Nenhum jornalista internacional falou bem de São Paulo até agora. A insegurança, a sujeira e o trânsito fazem qualquer um odiar esta cidade. Mas como experiência jornalística, a Fórmula 1 é algo comparável a Copa do Mundo, Olimpíada, talvez Jogos Pan-Americanos e/ou Grand Slam de tênis.
Como ainda faltam sete horas para o início da corrida e estou sozinho na sala de imprensa, sem ter o que fazer, resolvi colocar alguns tópicos do que já vivi por aqui desde quinta-feira.
* Os jornalistas espanhóis têm um jeitào de preguiçosos. Nunca são vistos andando pelo paddock (regiào atrás dos boxes, destinado a repórteres e convidados das escuderias). Na sala de imprensa de quase 200m de extensão, com mais de 230 jornalistas de impresso instalados, escolhi ficar ao lado dos espanhóis. Queria pegar alguma repercussão de Fernando Alonso, que será campeão hoje. Para meu azar, os caras do La Vanguardia, ABC e El Mundo não saem de frente dos telòes com estatíticas da corrida na sala. Quando são vistos próximos aos boxes da Renault, estão tomando café com um mecânico, batendo um papo com um desconhecido. Fico me perguntando, será que eles não têm chefes não?
* Os gringos não gostam que outros jornalistas peguem carona na entrevista deles. Se não for coletiva, cada um tem que esperar a sua vez. Fui entrevistar o bicampeào Niki Lauda ao lado de dois britânicos. Ele falou coisas legais sobre Schumacher, sobre Fórmula 1... várias coisas. Anotei tudo, estava quase ligando para a redação para abrir uma página com essa entrevista, mas os ingleses me interpelaram: "Meu nome é fulanodetal e este é meu companheiro Sicranodetal, nós somos do Sunday Telegraph e nós havíamos agendado esta entrevista com Niki anteriormente, por isso ele falou tantas coisas interessantes. Como só a publicaremos no domimgo (a entrevista foi quinta), gostaríamos de pedir para você não publicar nada antes disso, por favor. alguém pode traduzir e perdermos nosso material". Obedeci em parte. Dei destaque a uma declaração de Lauda na edição de sexta-feira sobre a aposentadoria de Michael Schumacher. Ninguém traduziu...
* Todos os pilotos têm o ar blasè. Metidos, arrogantes e mal humorados. Nào tente conversar com eles se não fora hora de entrevistas. Nas entrevistas, contudo, eles respondem com respeito, ainda que eles preferissem que você falasse a língua dele. Até Rubinho responde o feijão-com-arroz em inglês.
* Não convidem os companheiros de equipe Mark Weber e Nico Rosberg para a mesma mesa de entrevistas. Rodeado por ingleses, franceses e brasileiros, os pilotos da Williams trocaram farpas antes que qualquer jornalista formulasse alguma pergunta. "Não quero ficar na mesma mesa dele (Weber)", determinou Nico à assessoria de imprensa da equipe. Weber tentou levar na esportiva, mas o novato insistiu. "Me chateia dar entrevista com você aqui", repetiu duas vezes em voz alta. Logo, Mark Weber foi chamado por um repórter de tevê para uma entrevista em separado.
* A palavra mais falada pelos jornalistas no centro de imprensa em Interlagos, fora Fórmula 1, claro, é caipirinha. São mais de 200 profissionais, a maioria da Europa instalados em uma sala com mais de 100m de extensão, em frente à linha de chegada do circuito.
* "Está pensando que eu vou falar com a primeira pessoa que aparece na minha frente com bloquinho e caneta na mão". Esta foi a simpática maneira de Flávio Briatore, chefão da Renault, negar entrevista para mim.
* Entrevista coletiva após treino é um grande empurra-empurra. Na Espanha, por exemplo, eram tantos jornalistas em cima de Fernando Alonso, que o piloto caiu no chão empurrado por um cinegrafista desequilibrado. Ontem, durante a entrevista de Rubens Barrichello, um repórter brasileiro empurrou um italiano, que começou a gritar. Rubinho interrompeu a resposta e ordenou: "dá para você sair deste lugar, ô?". O jornalista obedeceu.
* Com três idiomas é possível fazer qualquer coisa no paddock da Fórmula. O primeiro é o inglês. Todos falam inglês, como eram de se esperar. Até Felipe Massa deu entrevistas em inglês aos brasileiros, na quinta-feira. Em seguida, o alemão, idioma em que Michael Schumacher dá as melhores respostas aos jornalistas. Por último, o italiano, língua da Ferrari, da maioria dos funcionários da Renault. Há quem diga que o jornalista que falar italiano para Flávio Briatore é muito bem recebido.
Será?
PS - Alguns dos asteriscos já foram publicados no Correio Braziliense desta semana.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
opa!!! Ainda bem que você fez a ressalva: eu já li isso aí no Correio. A do Briatore é foda. Bloqueio triplo da Renault!!!
Cara, essa história dos ingleses pedindo pra você não publicar antes é o cúmulo do profissionalismo ne? Eles podem até estar certos, mas certamente imagino que o Niki Lauda (que, aliás, é TRI e não BI campeão) não tenha feito nenhma revelação bombástica na entrevista aos aras do Sunday Telegraph.
Abraç]ão e parabéns pelo bom trabalho aí!!!
Como não entendo muito de F1, achei que o Felipe tinha sido campeão, afinal ele GANHOU a corrida, mas aí descobri que a F1 é mais complicada do que eu achava! Deve ser por isso que os homens tem essa identificação com ela!
Mas agora já entendi (pelo menos, eu acho) e sei que o Alonso foi o campeão.... mas quem ganhou foi o Felipe!
é isso mesmo?????
eheheh
Felipe é fera!!!
Felipe é massa!!!
Pô... você deve tá numa correria sem fim ai, hein? Bom, mas é isso. Acompanhei a cobertura e não preciso mais dizer que ficou "duka..lho". É isso... Um grande abraço...
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