23 outubro 2006

Luto na imprensa da PB

Por Léo Alves

Neste final de semana, o jornalismo esportivo da Paraíba perdeu um de seus grandes nomes: Humberto de Campos. Tive o prazer de trabalhar com Humberto durante três anos e meio no Diário da Borborema. Meu amigo Daniel Brito também o conheceu. Aliás, Humberto foi um dos primeiros a acolher o grande DB, em Campina Grande. Abaixo republico minha coluna que escrevi para o Agora Esportes (www.agoraesportes.com.br)

Adeus a Humberto de Campos

Desde criança gostei de escutar jogos pelo rádio. Talvez surgisse nessa época minha inclinação para o jornalismo esportivo. Cresci ouvindo Humberto de Campos, Joselito Lucena, Edvaldo Gouveia e outros grandes profissionais da radiofonia esportiva.
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Quando decidi seguir o jornalismo esportivo, inspirado por meu tio Gutemberg Simões (Rádio Borborema), essa turma da “velha guarda” me servia de modelo. A história e o respeito que eles tinham junto aos ouvintes era algo com que sonhava qualquer um “aspirante” a jornalista como eu.

O primeiro contato que tive com Humberto de Campos foi 1999, quando trabalhei pela primeira vez no Diário da Borborema. Foi coisa rápida. Durante os seis meses que passei no DB (depois fui para o Banco do Brasil) não conversei com Humberto nada além do profissional.

Em 2001 retornei ao Diário da Borborema. Na época, o jornal mudava o projeto gráfico e criava a coluna Binóculo F.C, que era feita por mim com a colaboração de Severino Lopes, Daniel Brito e, por fim, Luceildo Carvalho. Humberto viria a se torna leitor assíduo da coluna. Prova disso era que vez por outra citava algum tópico do Bin F.C em sua coluna. Lembro que fiquei muito alegre quando vi pela primeira vez a referência de Humberto ao Bin F.C.

Comentei à época (com Daniel Brito) que era um reconhecimento ao meu trabalho. Por inúmeras vezes Humberto elogiou ou se inspirou em algum tópico do Bin F.C para citar em sua coluna. Perdoe-me a vaidade, mas sempre me sentia lisonjeado. Sentia que estava conquistando meu espaço (e respeito) junto aos grandes profissionais da imprensa esportiva. É lógico que também aumentava responsabilidade.

Nos três anos e meio que passei no Diário da Borborema, quase todos os dias da semana, encontrava com Humberto na redação. Era a mim que ele entregava suas colunas preparadas em casa. Chegava sempre com o porta-disquete nas mãos. Tirava um deles e pedia para copiar a coluna nos arquivos da redação. Vez por outra me pedia para “formatar” seus disquetes.

Quem o conhecia sabe que Humberto não tinha muita afinidade com a informática. Porém, sobrava-lhe habilidade com as palavras. Dizia o que precisava ser dito, sem preocupar em agradar “A” ou “B”. Criticava com classe, com estilo, em alto nível. Tão alto que muitas vezes as pessoas que eram criticadas por ele não compreendiam.

Com a convivência descobri que por trás daquela aparência sisuda, chata, daquele “vozerão” existia um homem que gostava de brincar. De preferência,brincadeiras inteligentes. E foi assim que passei a maior parte do tempo convivendo (os poucos minutos) diariamente com Humberto.

Adorava brincar com o fato de ele vez por outra citar em sua coluna a nebulosa “venda de Ruiter”, sua preocupação com o uso inadequado do verbo “reverter” e com sua raiva com denominação (segundo ele) errada de “Penta”, “Hexa”. Isso sem se falar nas famosas expressões “colóquio flácido para acalentar bovinos”, para não dizer conversa para boi dormir, ou “pequenina e heróica”, quando se referia à Paraíba.

Ainda tinham aquelas coisas que ele adorava dizer que não serviam pra nada (não tinham futuro): dançar com irmã, chover no molhado, muro em cemitério e peito em homem.

Foram expressões como essas que ficaram famosas junto à sua “meia dúzia de leitores”, como costumava brincar.

Humberto era um apaixonado por cinema, por futebol, pela vida e, claro, pelo português bem escrito.

Odiava quando alguém (as revisoras do DB) inventavam de mudar suas colunas. Lembro uma vez que ele escreveu uma coluna intitulada “Ao Sul do Equador”. Uma das revisoras inventou de trocar o ‘Sul’ por ‘sul’. Foi motivo para em outra coluna Humberto solicitar que ninguém mexesse nos seus escritos.

A partir de então, eu e o Moranquinho (era assim que Humberto também chamava Luceildo Carvalho, do DB, numa referência à semelhança dele com Lairton dos teclados, o Morango do Nordeste) passamos a chamá-lo de “Ao Sul (com a língua dobrando) do Equador”.

Desde que saímos do Diário da Borborema, eu e Humberto sempre nos encontrávamos nos estádios em dias de jogos. Não dava tempo para nada além de um ‘oi’, afinal estavámos na correria do trabalho.

É difícil para mim (ou para qualquer outro) definir Humberto de Campos em apenas uma coluna. Até porque estou longe de ser um colunista como ele. Ainda me falta habilidade com as palavras.

Mas para quem conheceu Humberto é dispensável dizer que abriu-se uma lacuna na crônica esportiva paraibana. ‘O mais discutido’ sempre foi exemplo de profissional. Como ele mesmo gostava de dizer: se Humberto “não existisse merecia ser inventado”.

3 comentários:

DB disse...

Aposto que dezenas de jornalistas de Campina Grande estão elogiando Humberto de Campos após a morte. Agora é fácil falar dele. A verdade é que ele era o clássico exemplo de jornalista amado e odiado ao mesmo tempo. E pelo mesmo motivo: as críticas.
Mais curioso ainda é que a maioria delas eram fundamentadas. Assimilei um pouco da acidez dos textos de humberto de campos e hoje utilizo quando tenho oportunidade. Tenho certeza que com Da Silva acontece o mesmo.
Humberto serviu de inspiração para várias pessoas.
Numa terra em que as pessoas se gabam por ser puxa saco dos outros, Humberto de Campos fará MUITA falta, justamente por se contrapor aa realidade local.

Anônimo disse...

Eu, na qualidade de filha do "mais discutido", infelizmente não herdei de meu pai o brilhantismo com as palavras e a facilidade de expressão. Mas gostaria de deixar registrado o meu agradecimento pela crônica e pela excelente descrição da absoluta incompetência de meu pai quando se referia a utilizar um computador. Sofri muito para tentar ensinar alguma coisa no que diz respeito ao "bicho" - como ele costumava chamar. Desisti. Acredito que sua mente brilhante tinha outras prioridades.
Agradeço pela verdade escrita e pelo respeito dado aos familiares, pois creio que agora o momento é doloroso e não propício para ler artigos sobre seus defeitos. Que atire a primeira pedra quem não os tem. Mas, viva à liberdade de impresa onde cada um escreve o que quer e eu, na minha liberdade, agradeço a quem me interessa.
Meu muito obrigada a Leonardo Alves

Lenildo Ferreira disse...

Como um apaixonado por futebol, cresci ouvindo rádio, particularmente a rádio Borborema. Admirava Humberto, por seu sarcasmo inteligente, sua coragem, e sua falta de receio em ofender os nomes intocáveis de nossa região. Os comentários do "mais discutido" iam muitooooo além das efemeridades das táticas utilizadas pelos clubes em campo. Muito mesmo. Por isso gostaria de ter visto Humberto comentando política. Aqui na Paraíba, onde cada qual amarra o rabo em algum poste, acredito que, nessa editoria, Humberto não conseguiria emprego, ou, se conseguisse, tão logo soltasse os cachorros tanto pra amarelos quanto pra vermelhos, laranjas, rosas e descoloridos, seria convidado a retirar-se. Aliás, por falar em retirar-se,volto à minha adolescência, desde onde ficará em minha mente, indelével, a despedida cotidiana de Humberto de Campos, quase ao meio-dia em ponto, ao fim do Jogo duro, com sua voz firme e grave, que soa agora triste: "Bom dia, e até amanhã". Até, Humberto...

LeNildo Ferreira