Daniel Brito
A coisa que mais me impressionou no Correio Braziliense, na primeira vez que entrei lá para escrever um texto, foram as aspas.
Em agosto de 2002 fui passar as férias no CB. Era repórter da TV Borborema, em Campina Grande-PB, estudante de jornalismo da UEPB, e queria preparar terreno para uma contratação após o curso.
Passei uns 30 dias dentro do CB enchendo o saco de todo mundo, conversando, conhecendo, trabalhando e me apresentando. A primeira reportagem fiz foi no Brasiliense. Apurei uma história lá que o atacante Túlio (aquele mesmo, campeão brasileiro em 1995 com o Botafogo) não foi ao primeiro treino no time porque ficou no meio da rua sem gasolina.
Colhi o que tive oportunidade de colher com as pessoas envolvidas na história, menos Túlio, com quem não consegui conversar. Não anotei exatamente a frase que as pessoas diziam para mim. Anotei tópicos. Tipo:
- Faltou gasolina no carro de Tulio, porque está chegando de viagem de Goiânia, e só treinará aqui amanhã
Anotei algo como:
"Faltou gasolina"
"Viagem goiânia"
"treino amanhã"
Na hora de escrever a matéria, escrevi qualquer frase lá que encaixasse esses três tópicos e estava tudo resolvido.
Achei estranho, porque todo mundo me perguntou se era exatamente daquela maneira que fulano de tal que eu havia entrevistado tinha falado. Quando trabalhava na Paraíba, não fazia muita questão de reproduzir a frase ipsis literis (tá certo isso?).
Nesse caso de Túlio, acho que não errei!
Essa foi só uma pequena história, porque não quero me prolongar muito (mas acho que não vou conseguir).
Hoje, exatamente quatro anos depois das férias na redação do Correio, tenho a ligeira impressão que não aprendi direito a lição.
Quarta-feira passada, fui à embaixada da França fazer a cobertura do jogo contra Portugal. Então estava toda colônia francesa de Brasília reunida e aquela conversa furada toda de Copa do Mundo. Entre as pessoas, estava um embaixador brasileiro torcendo para França.
Achei estranho, porque é difícil encontrar algum brasileiro torcendo para a França nesta Copa (nem a minha irmã, que namora um francês). Na conversa ele me explicou que morou na França e que gosta muito de lá. No meio da comemoração do resultado era difícil anotar a frase da maneira que o camarada dizia. Então, adotei o estilo "tópicos".
Ele falou uma frase interessante que eu anotei pela metade em meu bloquinho e saiu assim na edição de quinta-feira no Correio:
"Aposto que se o Brasil jogasse contra Cuba, José Dirceu não torceria para a Seleção".
No dia seguinte, o danado do embaixador me liga revoltado. Segundo ele, disse que ele estava torcendo contra o Brasil e fez questão de que o Correio Braziliense publicasse um "erramos". Na ediçao de hoje, sexta, saiu o seguinte "erramos":
Na matéria “Tempo de fazer amigos” (6/7, pág. 35), saiu errada uma frase do embaixador brasileiro Fernandes Vieira Guilbaud, quando defendia sua preferência pela França no jogo contra Portugal, pelas semifinais da Copa do Mundo. O correto é: “Se Portugal enfrentasse Cuba, aposto que José Dirceu não torceria para os portugueses”.
Achei que o embaixador estava sendo estrela em reclamar de uma coisa dessas, mas depois percebi que fiz realmente besteira. Fiquei até envergonhado, admito!
Não que pudesse mudar o destino da carreira diplomática dele, mas incomoda ver pessoas errando com coisas suas, no caso, as aspas.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
Quando DB voltou de do CB lembro que a gente discutiu esse lance das aspas. Lembro que na época, era editor de esportes do Diário da Borborema, e seguia a linha de alguns reporteres esportivos da cidade. Gostava de inventar as aspas de jogadores. Seguia a linha de que na maioria das vezes eles diziam a mesma coisa. Só que depois me dei conta do crime que estava comentendo. Parei. Porém alguns colegas continuaram a inventar as aspas. E ouvi muitas reclamações de jogadores em relação à eles. Quer dizer não dá pra inventar aspas. O problema é que nem sempre dá pra anotar tudo do mesmo jeito. Na tevê temos a vantagem da entrevista ser gravada. Só que as reclamações também acontecem. Os entrevistados reclamam de uma parte que não foi colocada, que era para ter colocado outra. E também do pouco tempo de tevê. Tem que se ter muito cuidado na hora de colocar aspas e na hora de editar. Mas valeu a lição DB.
É verdade. Nem sempre dá para colocar as aspas da maneira correta. A idéia, no entanto, consegue ser passada. Mesmo assim ainda há risco de reclamação do entrevistado, como aconteceu com DB. Essas coisas nos provam que o melhor mesmo é colocar a coisa como foi dita. Ou colocar no discurso indireto.
Pedro
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