09 julho 2006

Questão de estilo

Daniel Brito

De Roberto Pompeu de Toledo nunca li nada além da tradicional coluna na última página da revista Veja, mas me impressionei com um livro que acaba de lançar. Acho que o nome do livro é Leda, baseado numa entrevista que ele leu de um biógrafo inglês no jornal The Guardian, se não me engano.

Qualquer coisa desse tipo.

Na madrugada seguinte à derrota da Seleção Brasileira para a França na Copa, fiquei sem sono e assisti a entrevista de Pompeu na GloboNews sobre esse livro. Fiquei imaginando o quão difícil deve ser para um jornalista criar uma história que caiba em 500 páginas, por exemplo.

O pior é que nesse livro, o protagonista é um escritor e escreve um livro sobre algum louco lá. O engraçado nesta história é que, por algum erro de impressão, o primeiro capítulo do livro que o personagem principal escreve dentro do livro de Pompeu sai após o segundo capítulo.

O primeiro capítulo virou o segundo. Este, o primeiro.

O protagonista, que se chama numseidasquantas Dopolobo, fica revoltado com o erro, mas nos dias seguintes ao lançamento do livro vê comentários positivos à jogada de "trocar os capítulos".

No final das contas, ele acertou errando.

Curioso, né? Não está no livro do livro de Pompeu, mas de repente, se o tal Dopolobo tentasse fazer essa "brincadeirinha", não teria dado certo.

É uma questão de estilo.

Eu, por exemplo, admiro pessoas que conseguem amarrar o texto do primeiro ao último parágrafo e aquelas que sabem ir e voltar no tempo sem perder a linha de raciocínio.

Esta segunda parte é muito difícil, por isso nem me atrevo muito. Por outro lado, todos os dias tento fazer algo parecido com esse lance de começar com um assunto, contar a história principal, e encerrar com o mesmo assunto que começou .

Senão, vejamos:

Correio Braziliense
Quarta-feira, dia 4 de julho

Conversar com Michele Valensise, embaixador da Itália no Brasil, após o jogo da Azzurra é uma tarefa complicada. Grudado ao telefone celular, ele quase não parou para conversar com os jornalistas ao final da semifinal de ontem. Nem no intervalo da partida, quando o placar ainda apontava 0 x 0, Valensise quis dar entrevistas. O jogo que garantiu a vaga italiana para mais uma decisão de copa do mundo foi acompanhada de forma curiosa na embaixada, na Asa Sul.

Cinqüenta pessoas reuniram-se, em silêncio, na Sala Nervi. Um grande salão escuro no térreo da bonita sede da representação italiana no país, que serve como cinema em outras ocasiões. A manifestação em Brasília resumiu-se a aplausos nas jogadas mais emocionantes contra os alemães. Durante 118 minutos, a torcida italiana ficou quieta diante do telão. Nada dos tradicionais gritos de guerra, cânticos ou palavras de incentivo.

Apesar de a partida ter sido eletrizante, a semifinal de ontem chegou a dar um pouco de sono para quem a acompanhou no escuro e no silêncio. O protocolo foi quebrado por Guido Grattapaglia, funcionário da embaixada. No momento em que o volante Pirlo recebeu a bola na entrada da área, antes dos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, Grattapaglia puxou o coro de “Itália! Itália!”.

Alguns segundos se passaram até que o lateral-esquerdo Fabio Grosso recebesse um passe dentro da área e fizesse o primeiro gol do jogo. Enquanto um bandeirão nas cores vermelho, verde e branco era desenrolada por um dos filhos de Grattapaglia, Alessandro Del Piero fechava o caixão alemão. “A colônia italiana no Brasil está em festa, mas aqui temos que ser reservados por motivos óbvios”, explicou Guido Grattapaglia, morador de Brasília há 32 anos.
Otimismo
Abraços, comentários sobre a atuação da Azzurra, planos para assistir a final no domingo de novo no salão escuro da embaixada. Tudo muito discreto, bem diferente do que acontecia em Roma naquele momento. “Liguei para meus amigos em Roma, estão todos nas praças, bêbados, comemorando a vitória”, contou Pietro Sferra Carini, secretário comercial da embaixada.

Diferentemente das duas copas anteriores,quando a Itália caiu antes de chegar às semifinais, os torcedores do time de Marcello Lippi previam uma boa campanha na Alemanha. “Em 2002 não sentia a Itália tão forte como neste ano”, comparou Gianfranco Favara, que está no Brasil há quatro anos. “Nosso futebol mistura arte com concreto. Temos uma zaga forte, um goleiro excelente e um contra-ataque muito rápido”,exemplificou Edoardo Lando, torcedor da Juventus de Turim.

Com um largo sorriso, o professor de italiano Giuseppe Benedini lembrou que sua seleção nunca conquista as coisas com facilidade. “A Itália gosta de um drama”, brincou, sobre a partida de ontem. Ele aproveitou para alfinetar os alemães e chamá-los de freguês em legítimo italiano. “Somos a bestia nera da Seleção Alemã”, provocou Benedini. Em 29 duelos, esta foi a 14ª vitória da Azzurra sobre os germânicos, a segunda só neste ano.

Quando, finalmente, o telefone celular deu uma trégua, o embaixador Michele Valensise opinou sobre a Seleção de Lippi.“Sempre tivemos valores individuais, desta vez não é diferente. Mas, agora, eles jogam de forma conjunta. Um ajuda ao outro”, definiu.

Pode não parecer, mas tentei amarrar o primeiro parágrafo ao último. Ninguém veio reclamar que faltou informação ao primeiro parágrafo ou que coloquei a informação inicial no último parágrafo. Coisa que os jornalistas iniciantes, como eu, costumam fazer.

Há uns quatro meses escrevi alguma coisa parecida com isso que tento me especializar e acho que fui mal interpretado. Olha só:

Primeiro parágrafo:

A conquista de uma medalha no Mundial de piscina curta (25m), que começa na quarta-feira, em Xangai, na China, renderá à brasiliense Rebeca Gusmão um jantar inesquecível. Se quebrar o tabu de 33 anos sem uma brasileira subir ao pódio em mundiais— a primeira competição aconteceu em 1973 —, a única representante do Distrito Federal na Ásia promete traçar um prato de gafanhotos para comemorar. A iguaria é um dos mil pratos típicos da cozinha chinesa. Ela garante que não é exagero. Já está prometido. Basta nadar de igual para igual com a recordista mundial dos 50m nado livre em piscina de 25m, a sueca Therese Alshammar, e a australiana Lisbeth Lenton, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas.

O último parágrafo:

Até hoje, nenhuma nadadora do país faturou medalhas em campeonatos mundiais, seja em piscina curta ou não. “O Brasil voltará com seis, sete medalhas da China. Se eu trouxer uma, como prato de gafanhoto, carne de cachorro, papagaio, o que tiver paracomemorar”, finalizou Rebeca Gusmão.


Pelo que soube dos jornalistas concorrentes (que não costumam elogiar), esse meu texto foi taxado como de "iniciante". Ou seja, lide-no-pé-do-texto.

Quem sabe lendo o livro de Roberto Pompeu de Toledo eu não consiga amarrar as histórias no meus futuros textos?

(Amarrei?)

2 comentários:

Anônimo disse...

Também gosto de usar este estilo. Sobretudo quando escrevo textos de cultura. Não acho que seja de iniciante. Pelo contrário. Este é o maior indício de como a literatura ainda está viva dentro do jornalismo.

Se você analisar um livro do Garcia Marquez, por exemplo, perceberá que ele faz isso muitas vezes ao longo da história. É uma forma de prender o leitor. De deixá-lo curioso. De incentivá-lo a ler seu texto até o final. É um grande estilo.

Abçs, filhos da pauta

Pedro

Léo Alves disse...

Não é fácil colocar esse estilo em prática. Corre o risco de se perder no meio da história. Quando escrevia para jornal sempre sentia dificuldade. Por isso muita gente prefere o "básico". Mas esse estilo de texto é agradável.