Recebi um email no jornal que caiu como uma luva (de boxe) para o que estava pensando em escrever ultimamente. Trata-se de uma espécie de clipping de notícias sobre jornalismo/jornalistas na América Latina. Vem do Instituo Knights de Jornalismo das Americas.
Dê uma olhada nas manchetes da semana que passou abaixo:
ANTÍGUA E BARBUDA:
Ativista é preso com base em documentos relacionados a carreira como jornalista (Antigua Sun)
ARGENTINA:
Organização presta homenagem a 98 jornalistas vítimas da ditadura militar
CHILE:
Irmão de vítima pede a jornais que se desculpem por charges publicadas durante ditadura (La Nación)
COLÔMBIA:
SIP pede investigação de assassinato de jornalista em 2002 (PR Noticias)
CUBA:
Manifestantes fazem cadeia de jejum em solidariedade a jornalista em greve de forme (Cubanet)
Jornalista presa por desobediência e resistência ganha liberdade condicional (Cubanet)
Jornalista costura a boca em protesto contra maltratos na prisão (Cubanet)
GUATEMALA:
Rádios comunitárias indígenas são atacadas e fechadas (IFEX)
MÉXICO:
Jornalista perde processo por difamação e deverá corrigir livro (Milenio)
PARAGUAI:
Oficiais se contradizem ao responder se jornalista desaparecido tinha proteção policial (La Nación)
Chefe da polícia perde cargo por caso de repórter desaparecido (PPN)
PERU:
Jornalista é ameaçada pela terceira vez por investigar narcotráfico (IPYS)
Jornalista é agredido e ameaçado de morte após informar sobre assassinato de colega (Committee to Protect Journalists)
PORTO RICO:
Repórter de rádio é atacado ao cobrir demonstração (El Vocero de Puerto Rico)
Uso de gás lacrimogênio pelo FBI em repórteres gera preocupação (Committee to Protect Journalists)
REPÚBLICA DOMINICANA:
Polícia prende suspeito de assassinar jornalista de rádio (Associated Press/El Nuevo Herald)
Definitivamente, quem quer levar uma vida tranqüila não deve escolher jornalismo como profissão.
Casos de briga, espancamento, ameças de jornalistas são famosos nas redações de qualquer veículo. Algumas chegam a ser engraçadas, outras, perigosas.
Eu nunca sofri com nada disso. Uma vez fui fazer matéria de um velho que estuprava garotas num bairro em Campina Grande. Quando estava na delegacaia, a família do véi me ameaçou. Levantei o nariz e passei por eles como se nada estivera acontecendo. No fundo, estava gelado de medo de levar um pontapé nas costas do filho do velhote. Fora as conversas de torcedor bêbado que tive que agüentar nos estádios. Nada fora do normal.
Tem o caso de dois repórteres do Correio Braziliense que descobriram e divulgaram para o Brasil o esquema de corrupção de Luiz Estevão, primeiro senador cassado do país. Ele levou só para o bolso dele R$ 200 milhões na construção do famoso prédio do TRT de São Paulo, há quase sete anos.
Não trabalhava no CB na época, mas todos lembram, ainda temerosos, quando os repóteres estavam chegando ainda mais fundo nas investigações. De repente, os filhos dos jornalistas (eram dois repórteres, um homem e uma mulher) começaram a sofrer ameaças, eles passaram a ver a mesma pessoa com cara ameaçadora na portaria do prédio delas, na porta da escola do garoto e coisas do tipo. Teve uma repórter que pediu demissão do jornal por causa disso. Tirando o susto, nada aconteceu a eles, felizmente. E o nosso Lulu perdeu o "emprego". (Mas não o dinheiro).
Em Campina Grande, tem o folclórico caso de Humberto de Campos. Com sua língua afiada, Humberto falou mal de algum time de Patos, quando comentava pela TV Borborema. Algumas semanas depois, a equipe da TV voltou a Patos para cobrir um jogo do tal time criticado. Humberto não havia ido.
Na entrada do José Cavalcanti, um torcedor interpelou o motorista da TV:
- Você trabalha com Humberto de Campos?
- Sim, trabalho sim, respondeu animado o pobre do motorista.
- Você poderia repassar um recado para ele?
- Diga lá...
Antes mesmo de falar o "lá" o motorista levou um murro na cara do torcedor que ainda estava revoltado com os comentários de Humberto. O funcionário da TV, claro, não repassou o recado para Humberto.
Meu pai também passou por um aperto em 1983 ou 1984, não me lembro a data. Ele foi repórter de jornal no começo da década de 1980 e escreveu um artigo em O Norte e no Diário da Borborema com o título "Festa no Interior".
Treze e Botafogo fariam a final do Paraibano em Campina e meu pai quis apenas fazer um trocadilho com a música de Elba Ramalho.
Acabado o jogo, acho que o Galo havia vencido, e os jornalistas foram para Manoel da Carne de Sol. Chegando lá, meu pai entrou no banheiro. Um cara o seguiu e o ameaçou.
- Que história é essa de festa no interior, hein? Campina não é interior, reclamou o cara para o meu pai. O ameaçador estava com a mão na cintura, como quem tem alguma arma guardada.
Por sorte, alguém entrou no banheiro na hora e a conversa se encerrou por aí. Devia ser torcedor do Treze mesmo...
Outro lance curioso aconteceu na China. Lá, como em Cuba, jornalistas não são bem-vindos. Recentemente, um jornalista denunciou corrupção na polícia de determinada cidade. Ele passou a ser perseguido por policiais, mas coincidentemente teve forte crise de rins e foi internado.
Ele pensou que a perseguição acabaria. Pensou errado. Logo que retornou aa redação, o chefe de polícia acusado invadiu a redação e cobriu o camarada na porrada. A última notícia que li desse chinês é de que ele estava internado em estado grave justamente porque as pancadas foram mais fortes na região dos rins do chinesinho.
A polícia já matou um jornalista aqui em Brasília. Ele é famoso até hoje. Mário Eugênio, assassinado na porta da Rádio Planalto AM por policiais que faziam parte do grupo de extermínio, tipo Mão Branca, que assombrou CG há duas décadas.
Ainda em Brasília, tem o caso do General Newton Cardoso, ex-chefe do Serviço Nacional de Informação e comandante militar do presidente João Batista Figueiredo. Ele foi entrevistado pelo radialista Honório Dantas, também da Rádio Planalto, na rampa do Palácio do Planalto e ouviu uma pergunta do repórter que não o deixou satisfeito.
Sabe o que o general fez?
Pegou o gravador da mão do repórter, torceu braço do pobre coitado e gritou:
- Peça desculpas ao general agora!!!!
- Desculpa.
- Mais alto...
- Desculpa, general!
Parece piada, mas está no livro Ministério do Silêncio, sobre o serviço secreto do Brasil, escrito por Lucas Figueiredo.
Depois que li essa história, fiquei pensando o que faria se estivesse no lugar desse repórter. Afinal, acertar um murro na cara de um militar em pleno palácio do Planalto durante a Ditadura poderia até ser recompensador, mas não seria nada bonito.
Trem bala (cover)
Há 9 anos
3 comentários:
Putz, que profissão essa nossa hein? Mas é correr o risco por amor à ela, e é claro, ter cuidado onde nos metemos =)
Bjssssss
Gostei do texto, sabia que estava escolhendo uma profissão perigo, mas não sabia que em alguns casos se chegava por tão pouco as "vias e fato"
Quem um dia pensou quando ciança: "Quero trabalhar muito, ganhar pouco e, ainda ser ameaçado". Nossa profissão é um pouco assim, todo jornalista tem um pouco de masoquista.
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