15 abril 2006

Sem crédito

Por Léo Alves

Decididamente eu não confio mais em todos os créditos nas reportagens de televisão. Todas as vezes que aparecer o nome do repórter ou do entrevistado ficarei desconfiado. Lógico que essa desconfiança vai se limitar a repórteres dos estados que não aparecem com freqüência em rede nacional. Até porque ninguém vai errar o nome de Poliana Abrita, Cristina Serra, José Roberto Burnier, Marcos Uchoa, Patrícia Poeta, Marcos Losekan e de tantos outros que aparecem diariamente na telinha da Globo. Deixe-me explicar o porquê dessa minha desconfiança.

Há duas (quase três) semanas o pessoal da produção da tevê enviou minha reportagem sobre “Flores de Pilões” para o Globo Rural. ‘Minha’ é só força da expressão. Nenhum repórter faz matéria sozinho. A reportagem é minha, da produção, do cinegrafista, do iluminador e do editor. Trabalho de equipe. Pois bem depois do envio passei a aguardar qual o dia que a matéria seria veiculada. A equipe do Globo Rural fez uma previsão de data, mas alertou que a matéria poderia “cair”, pois era fria. Poderia ser exibida a qualquer dia.

Desde então passei a acompanhar o Globo Rural, que começa às 6h15min. Queria ver a matéria em rede nacional. Antes uma matéria com meu crédito havia ido pra rede. Era sobre o sacrifício dos porcos, em Cuitegí. Nessa reportagem eu apenas gravei o ‘off’. Toda a reportagem foi feita por um estagiário nosso, o Wanderley Filho. Como o texto ficou bom eu apenas emprestei minha voz. O mérito é todo de Wandy.

Logo que soube da previsão de data comuniquei ao meu amigo e parceiro deste blog Daniel Brito, que mora em Brasília. Lá na capital federal 6h15min é madrugada. DB me alertou sobre o fato de ter que madrugar para ver o amigo em rede nacional. E ele (e eu também) madrugou por quase duas semanas. Ficou tão íntimo do Globo Rural que chegava a dizer que “a Pri (Priscila Brandão, a apresentadora) estava me sacaneando e não anunciava minha matéria”. Além disso, passava o dia cochilando pelos cantos por causa do sono. Eu também não estava gostando muito dessa história de acordar muito cedo.

Finalmente terça-feira passada, a Pri (depois de tantas manhãs acordando com ela acabei ficando íntimo) anunciou a matéria na escalada. Liguei para DB para avisar da matéria. O pior era que ele na noite anterior tinha ficado até de madrugada fazendo o guia do Campeonato Brasileiro do Correio Braziliense.

A reportagem começou a ser exibida. Ia tudo direitinho, quando de repente aparece a passagem com o seguinte crédito: Juliano Sousa (Pilões-PB). Na hora dei uma gargalhada e pensei: “tem coisas que só acontecem comigo”. Foi terminar a matéria para DB ligar me chamando de “Jú Sousa”. Todo mundo da tevê tirou onda. Na verdade Juliana Sousa é outra repórter da tevê, que já fez um monte de matérias para o Globo Rural. Na maioria das vezes é ela quem faz. Aí o que aconteceu foi que na hora de enviar os créditos para a rede, a produtora lá de João Pessoa, mandou o nome de Juliana. Quando a matéria chegou, o pessoal deve ter pensado que tinha sido erro de digitação e meteu um “Juliano Sousa” na tela.

Quando fui falar com minha mãe sobre o erro, ela respondeu: “e foi? Nem percebi”.
Tive a certeza que muita (muita mesmo) gente nem presta atenção nos créditos das matérias. Tem um colega de DB, no Correio, que é revoltado com essa história dos leitores nem prestarem atenção no nome de quem escreveu a reportagem. Isso DB conta em outro post. Na faculdade, apenas duas alunas minhas perceberam que o nome tinha saído errado. O restante comentou a matéria, mas nem se ligou no crédito. Fiquei mais surpreso pelo fato deles acordarem cedo e assistir o Globo Rural.

O pior é que em dezenove anos de TV Paraíba essa foi a primeira vez que aconteceu um erro desses. Tinha que ser logo comigo. Espero que tenha sido também o último. Para não correr o risco de na próxima vez que Juliana fizer a matéria, alguém querer compensar o erro e enviar o crédito dela como “Leonarda Alves”. Vai ser muito pior.

12 abril 2006

"Deu no jornal..."

O projeto “Deu no Jornal”, da Transparência Brasil, inaugura nesta semana um novo serviço: o blog “Deu no
Jornal”. O endereço é http://deunojornal.blogspot.com

O blog traz a síntese e o contexto da principal notícia do dia sobre corrupção, compilando as principais
informações das 63 publicações que alimentam o banco de dados. Diariamente, o blog também apresenta outras
notícias sobre corrupção publicadas em jornais e revistas brasileiros. Os leitores podem fazer comentários
sobre as notícias. O blog “Deu no Jornal” é editado pelo jornalista Marcelo Soares, coordenador do projeto.

Criado em 2004, o “Deu no Jornal” monitora casos de corrupção noticiados em todas as regiões do Brasil.
Atualmente, o banco de dados dispõe de mais de 90 mil notícias, que podem ser pesquisadas por assunto, por
jornal e por palavra-chave. A partir desses dados, são feitas análises sobre os padrões de cobertura do
noticiário sobre corrupção nos diversos Estados e publicações do país. O projeto é financiado pela Ford
Foundation.

11 abril 2006

A arte da Entrevista

Existe um livro chamado "A arte da entrevista". Já tem até dois volumes. O primeiro é de 1995 e o segundo de um ou dois anos atrás. Não é nenhum livro didático nem nada. São apenas coletâneas de entrevistas históricas no Brasil e no mundo. É uma excelente leitura para quem é jornalista e para quem gosta de história. Tem entrevistas com Oscar Wilde, Gilberto Freire, Winston Churchill, Ullisses Guimarães e por aí vai.

Mas entrevistar, realmente, é uma arte.

Nem todo mundo consegue respostas sensacionais. Dia desses, soube que a Globo fez uma matéria sacaneando os jogadores de futebol que só respondem "com certeza", independentemente da pergunta.

- O jogo vai ser fácil?
- Com certeza...
- E se for difícil?
- Ah, com certeza...

Tudo bem que repórter de esporte tem a horrível mania de fazer sempre as mesmas perguntas. Já viu entrevista após conquista de um título?

- Estamos ao lado do jogador Zé Galego. Zé Galego, é muita emoção?
- Com certeza, é muita emoção...

É ridículo, mas é a realidade.

Tem um narrador de rádio aqui em Brasília que chega ao cúmulo de pedir para os repórteres de pista fazerem a seguinte pergunta:

- Você agradece a Deus por esse título?
- Agradeço a Deus todo poderoso, criador do céu e da terra...

Parece aqueles programas da TV Record que passam de madrugada.

A arte da entrevista, na minha modesta, opaca e pálida opinião, está na malícia do entrevistador. No post "Um dia de paparazzi", sobre a visita de Maradona a Brasília, comentei algo sobre isso. Eu não sou nada malicioso, mas gosto de fazer mais ou menos assim.

1 - Converso amenidades com o entrevistado;
2 - faço perguntas óbvias (tipo: "é muita emoção?");
3 - Tento conquistar a "amizade" do entrevistado;
4 - Dou a "facada", ou seja, entro no assunto espinhoso.

Aconteceu quando fui falar com a mala-sem-alça da Daiane dos Santos. Ela é uma excelente atleta, mas péssima de entrevista. Por meio da assessoria de imprensa do patrocinador dela, tivemos uma rápida entrevista com ela pelo telefone, minutos antes de ela conversar com Condoleezza Rice, secretária de estado dos EUA. A Sr. Rice estava de visita em Brasília e queria conhecer "young winners from Brazil". Entre eles, Daiane.

Bom, a história é muito longa, mas deixa eu tentar resumir pq ainda tenho duas histórias para contar. A ginástica brasileira estava no meio de um furacão porque DAnielle Hipóllyto acabara de brigar com o técnico da Seleção Brasileira de ginástica. Claro que a conversa com DAiane seria sobre isso e não sobre o aperto de mão e a troca de sorrisos amarelos que teria com a Sr. Rice.

Tinha que conquistar Daiane em três minutos, o tempo que me deram para entrevistá-la. Comecei dando os parabéns pelos resultados, contando que assisti às apresentações dela com minha família (mentira!) e queria saber como ela se sentia como grande exemplo para jovens atletas brasileiros.

- Normal. Faz parte do trabalho, respondeu ela

Puxei outra pergunta sobre o calendário dela para a temporada, se os brasileiros poderiam vê-la no pódio outra vez, se as competições eram difíceis ou o quê:

- Normal, cortou

Sabendo que meu tempo estava esgotando, parti -- com raiva -- para a pergunta que me renderia tudo que queria.

- Daiane, o que você achou da confusão entre DAnielle Hipóllyto e o técnico da Seleção Brasileira de Ginástica?

SAbe o que ela respondeu?

- Normal, faz parte do trabalho....

piiiiii
piiiiii
piiiiii

fim de "conversa"

Ainda tive que escrever 40 centímetros sobre esse acrescentador bate-papo para edição do jornal do dia seguinte.

Nessa história de "conversar amenidades" no começo, quase que eu arrumo uma confusão com auxiliar técnico do time do Chelsea, campeão inglês de futebol. Isso está contada no post "Ficha Extensa", de janeiro, neste blog.

Dizem que Romário e Bernardinho são da mesma família: objetivos. Nunca entrevistei Romário. Mas sei (um pouco) como é Bernardinho. É bom você ter todas as perguntas na ponta língua, porque ele está sempre um passo à frente para sair da entrevista o mais rápido possível. Responde tudo com objetividade, sem firulas, nem piadas.

Robert Scheidt, velejador brasileiro, bicampeão olímpico, é o segundo cara mais chato que já entrevistei. Se o repórter demonstrar que não entende de vela, ele fecha a cara e não responde direito mais...

O presidente da Confederação Brasileira de Futsal, um senhorzinho de 80 e muitos anos chamado Aércio de Borba, me parecia simpático. Mas ele entrou em uma briga política na Confederação e fui entrevistá-lo pelo telefone.

Usei da minha tática. Não deu certo.

Depois de quase 45 minutos de briga no telefone (ele reclamando que as perguntas estavam muito bestas e eu insistindo), a conversa se encerrou assim:

- Olhe, se você não tem pergunta inteligente para fazer, não tem a mínima condição de a gente manter um diálogo....

piiii
piiii
piiii

Acontece que o véi tava se sentindo perseguido. Uma das denúncias dos opositores dele era de que ele tava na confederação a contragosto da família. Então fiquei perguntando o que a família achava de ele ainda estar no batente já na casa dos 80 anos de idade. Ele pensou que fosse provocação e respondeu no tom irônico:

- Eles querem que eu morra trabalhando...

Sabia que jamais poderia publicar tal coisa, por mais que fosse uma "aspa" sensacional!

Mas o cara mais chato que já entrevistei na minha vida é, sem sombra de dúvida, Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele esteve na semana passada em Brasília para se encontrar com o presidente Lula.

Lá fui eu entrevistá-lo.

Me lembro que meu pai havia me contado uma célebre história entre eles (meu pai e Teixeira).

Aconteceu em uma entrevista coletiva em Brasília, lá para as bandas de 1992, 1993. Meu pai tinha feito algumas críticas a Ricardo Teixeira no Correio Braziliense. Ele, certamente, deve ter lido e guardado o nome do meu pai (que não é um nome comum: marcondes).

Meu pai se dirigiu ao microfone para fazer a primeira pergunta, mas antes se identificou, como é de praxe em coletivas:

- Marcondes Brito, Correio Braziliense
- Peraí... De onde?
- Correio Braziliense!
- PAra este jornal eu não falo

Ah, tá...

Ricardo Teixeira é um chato.

Já de volta a 2006, veja o que aconteceu comigo.

Em Brasília, ele veio entregar uma carta que o presidente da Fifa mandou a Lula. Sabia que ele não era muito adedpto de respostas bombásticas, então formulei duas perguntas intrigantes:

1 - Qual a opinião do senhor sobre a idéia da Argentina de querer sediar a Copa de 2014 conjutamente com o Brasil, conforme foi noticiado em Buenos Aires?

2 - Parreira disse a uma revista inglesa que liberaria o sexo para os jogadores antes do jogos da Copa de 2006, o senhor concorda?

Veja o que eu escrevi no Correio Braziliense do último dia 4:

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, não acredita na imprensa internacional. Principalmente a argentina e a inglesa. Publicações dos dois países divulgaram na última semana notícias sobre o Brasil que Teixeira classificou como mentirosas. O dirigente esteve em Brasília ontem para visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
(...)
Teixeira falou rapidamente com a imprensa antes de deixar o local e classificou como mentirosa a notícia segundo a qual a Argentina proporia ao Brasil a divisão da sede da Copa do Mundo de 2014. A informação foi divulgada em sites de esportes da Argentina e republicada no Brasil. A proposta teria partido de Julio Grondona, presidente da Associaçãodo Futebol Argentino (AFA).
“É mentira. O próprio Grondona anunciou que o Brasil fazia por merecer o direito de sediar o Mundial de 2014”, rebateu Teixeira, no saguão de entradado Palácio do Planalto.
(...)
Sobre a entrevista concedida pelo técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, à revista inglesa Maxim — o treinador teria afirmado que o sexo será liberado para os jogadores antes dos jogos na Copa da Alemanha —, Teixeira reagiu da mesma maneira. “Parreira já afirmou que era mentira. Minha opinião é a mesma dele”, disse.

Engraçado nessa história é que quando fiz a segunda pergunta, sobre o sexo, ele ficou vermelho e nervoso e me desafiou:

- Você só faz perguntas baseadas em mentira???
- Mas, presidente, não fui eu que disse. Foram os ingleses
- Os ingleses mentiram
- Então tá. Vai sair assim no jornal amanhã. Qual a opinião do senhor sobre essa história do sexo?
- A mesma do Parreira.

Teixeira, definitivamente, não tem o dom da "Arte da Resposta".

07 abril 2006

Profissão perigo II

Como bem descreveu Daniel no post anterior, a profissão de jornalista tornou-se perigosa. Se é que um dia ela deixou de ser. Basta olhar um pouco para história.

Muitos colegas foram agredidos, torturados, mortos. Wladimir Herzog, Tim Lopes, que foi assassinado por traficantes, Verônica Guerin, repórter irlandesa vítima de traficantes depois de publicar uma série de reportagens que denunciava os criminosos.

Os exemplos são muitos. Prefiro parar por aqui para não assustar ninguém.

Não é apenas a cobertura policial que oferece riscos. Quem trabalha no esporte sabe bem o que é ter que encarar torcedores apaixonados e enfurecidos. Para o repórter de tevê (o meu caso) é ainda pior. Nunca cheguei a ser agredido. Mas já perdi as contas das vezes que me chamaram de filho da puta, fresco, ‘viado’, safado, marginal, ladrão e b...

Basta ter um lance polêmico no jogo que todo mundo se vira pra cabine de tevê e diz logo: “mostre o lance viu seu safado senão a gente te pega”. É assim mesmo. Como se o repórter fosse culpado de o time dele perder. Nessas minhas andanças pelos caminhos do esporte na Paraíba, tive que me fingir de surdo várias vezes.

Domingo passado fui a Sousa. O Treze ganhou por 3 a 0. No final, quando nossa equipe saía, uns torcedores gritaram: “mostra o roubo da arbitragem viu”. Quase que eu dizia: “meu amigo, o Sousa perde por 3 a 0 e ainda teve roubo da arbitragem?”.

Certamente teria levado pelo menos um pontapé. Em certos momentos é melhor ficar calado (e eu era doido de falar pra apanhar?). Por aí você sente como tudo recai sobre a imprensa.

Historicamente, onde os torcedores criam mais problemas com a imprensa é em Patos. Daniel relatou no post anterior a raiva da torcida com Humberto de Campos. Um outro cara que não tinha nada a ver com a história acabou levando um soco, como forma de recado pra Humberto.

Por falar nele, o comentarista esteve em Patos pela Rádio Tabajara (ou foi Caturité?) para transmitir a primeira partida da semifinal do turno. No comentário do outro dia disse que passaria pelo menos mais vinte anos sem voltar lá. O clima nesse jogo (Nacional 3 x 3 Treze) foi quente.

No intervalo uns torcedores se viraram pra cabine e ameaçaram nossa equipe. A mesma história de sempre: “o roubo da arbitragem”. Pior para os colegas da TV Correio que foram cercados por torcedores. A coisa só se acalmou quando a polícia apareceu. Nem por isso eles deixaram de levar uns empurrões.

Há uns quinze dias, o companheiro Marcos Vasconcelos foi fazer o jogo entre Esporte de Patos e Treze. Voltou com a mesma história. Foi ameaçado por torcedores que prometeram “pegá-lo” se não mostrasse "o roubo da arbitragem" . O interessante é que nesse jogo o Treze é que foi roubado. O árbitro marcou um pênalti contra o Galo que não existiu. Quando o Esporte vencia por 2 a 0 ninguém se lembrava da imprensa. Mas quando o Treze empatou no final (o jogo foi 2 a 2) começou tudo novo. Haja xingamento.

Em Campina Grande, a paixão (o fanatismo) dos torcedores também chega ao extremo. Se o repórter é setorista de um clube é odiado pela torcida rival. Ninguém entende que o cara está fazendo seu trabalho. Hoje ele cobre o Treze, amanhã pode estar cobrindo o Campinense. Quando o repórter muda de lado, o ódio da torcida também muda.

Outro problema é quando você faz uma reportagem que não agrada. Se for contra o Treze, é tachado de raposeiro. Se for o contrário, é trezeano. A paixão do torcedor não o deixa enxergar que o compromisso do jornalista é com a verdade. A besteira (não encontro outro termo para definir a atitude do torcedor) é tão grande que enche o saco.

Em dias de treino, a alegria dos torcedores nas arquibancadas é descobrir quem é trezeano e quem é raposeiro. O que mais escuto é: “qual o time que você torce?”, “você é trezeano ou raposeiro?. A resposta é a mesma: “sou profissional”. E deixo a dúvida no ar.

Aliás, evito até falar de futebol fora do trabalho. Quando estou tomando uma cerva com os amigos e a galera puxa pro futebol eu me calo. Fico só ouvindo. Quando alguém insiste em ouvir minha opinião, educadamente, eu digo: “não gosto de falar de futebol fora do trabalho porque aquele é um momento de lazer pra mim”. Tenho certeza que muita gente me acha chato. Prefiro assim. É melhor que comentar algo que desagrade um fanático que está à mesa e inicie uma discussão. Pode parecer radical.

Mas é assim mesmo, o cara quer ouvir minha opinião à espera de um elogio do time e do jogador preferido dele. Se for diferente não vai gostar. Às vezes eles querem que eu fale pra descobrir se sou trezeano ou raposeiro. Até em momentos de lazer a profissão se torna perigosa.

Há uns dois anos, ouvi o narrador Luciano do Vale dizer, em entrevista, que não é feito nada para proteger os jornalistas. Não sei se é verdade, mas dizem que Luciano havia deixado de transmitir jogos por causa das constantes ameaças que sofria nos estádios. Ele disse que o torcedor tem seu Estatuto, o Tribunal de Justiça está de olho nos jogadores brigões, a polícia protege os árbitros quando eles saem. E nós jornalistas?

Luciano tem razão. Quando os jornalistas saem do trabalho, em quase todos os estádios, são obrigados a passar no meio dos torcedores. A polícia (muitas vezes) nem está por perto. A preocupação dela é proteger as delegações dos times e os árbitros. Os jornalistas que se virem.

Nos locais que dão acesso às cabines de rádio e tevê não existe policial. Às vezes não tem nem porteiro, entra quem quiser. É comum na hora do trabalho aparecer um desconhecido na cabine. Da mesma forma pode aparecer por lá torcedores revoltados.

E se isso acontecer “quem irá nos defender?”

Só se for o Chapolin Colorado.

03 abril 2006

Profissão perigo

Recebi um email no jornal que caiu como uma luva (de boxe) para o que estava pensando em escrever ultimamente. Trata-se de uma espécie de clipping de notícias sobre jornalismo/jornalistas na América Latina. Vem do Instituo Knights de Jornalismo das Americas.
Dê uma olhada nas manchetes da semana que passou abaixo:

ANTÍGUA E BARBUDA:
Ativista é preso com base em documentos relacionados a carreira como jornalista (Antigua Sun)

ARGENTINA:
Organização presta homenagem a 98 jornalistas vítimas da ditadura militar

CHILE:
Irmão de vítima pede a jornais que se desculpem por charges publicadas durante ditadura (La Nación)

COLÔMBIA:
SIP pede investigação de assassinato de jornalista em 2002 (PR Noticias)

CUBA:
Manifestantes fazem cadeia de jejum em solidariedade a jornalista em greve de forme (Cubanet)
Jornalista presa por desobediência e resistência ganha liberdade condicional (Cubanet)
Jornalista costura a boca em protesto contra maltratos na prisão (Cubanet)

GUATEMALA:
Rádios comunitárias indígenas são atacadas e fechadas (IFEX)

MÉXICO:
Jornalista perde processo por difamação e deverá corrigir livro (Milenio)

PARAGUAI:
Oficiais se contradizem ao responder se jornalista desaparecido tinha proteção policial (La Nación)
Chefe da polícia perde cargo por caso de repórter desaparecido (PPN)

PERU:
Jornalista é ameaçada pela terceira vez por investigar narcotráfico (IPYS)
Jornalista é agredido e ameaçado de morte após informar sobre assassinato de colega (Committee to Protect Journalists)

PORTO RICO:
Repórter de rádio é atacado ao cobrir demonstração (El Vocero de Puerto Rico)
Uso de gás lacrimogênio pelo FBI em repórteres gera preocupação (Committee to Protect Journalists)

REPÚBLICA DOMINICANA:
Polícia prende suspeito de assassinar jornalista de rádio (Associated Press/El Nuevo Herald)


Definitivamente, quem quer levar uma vida tranqüila não deve escolher jornalismo como profissão.

Casos de briga, espancamento, ameças de jornalistas são famosos nas redações de qualquer veículo. Algumas chegam a ser engraçadas, outras, perigosas.

Eu nunca sofri com nada disso. Uma vez fui fazer matéria de um velho que estuprava garotas num bairro em Campina Grande. Quando estava na delegacaia, a família do véi me ameaçou. Levantei o nariz e passei por eles como se nada estivera acontecendo. No fundo, estava gelado de medo de levar um pontapé nas costas do filho do velhote. Fora as conversas de torcedor bêbado que tive que agüentar nos estádios. Nada fora do normal.

Tem o caso de dois repórteres do Correio Braziliense que descobriram e divulgaram para o Brasil o esquema de corrupção de Luiz Estevão, primeiro senador cassado do país. Ele levou só para o bolso dele R$ 200 milhões na construção do famoso prédio do TRT de São Paulo, há quase sete anos.

Não trabalhava no CB na época, mas todos lembram, ainda temerosos, quando os repóteres estavam chegando ainda mais fundo nas investigações. De repente, os filhos dos jornalistas (eram dois repórteres, um homem e uma mulher) começaram a sofrer ameaças, eles passaram a ver a mesma pessoa com cara ameaçadora na portaria do prédio delas, na porta da escola do garoto e coisas do tipo. Teve uma repórter que pediu demissão do jornal por causa disso. Tirando o susto, nada aconteceu a eles, felizmente. E o nosso Lulu perdeu o "emprego". (Mas não o dinheiro).

Em Campina Grande, tem o folclórico caso de Humberto de Campos. Com sua língua afiada, Humberto falou mal de algum time de Patos, quando comentava pela TV Borborema. Algumas semanas depois, a equipe da TV voltou a Patos para cobrir um jogo do tal time criticado. Humberto não havia ido.

Na entrada do José Cavalcanti, um torcedor interpelou o motorista da TV:

- Você trabalha com Humberto de Campos?
- Sim, trabalho sim, respondeu animado o pobre do motorista.
- Você poderia repassar um recado para ele?
- Diga lá...
Antes mesmo de falar o "lá" o motorista levou um murro na cara do torcedor que ainda estava revoltado com os comentários de Humberto. O funcionário da TV, claro, não repassou o recado para Humberto.

Meu pai também passou por um aperto em 1983 ou 1984, não me lembro a data. Ele foi repórter de jornal no começo da década de 1980 e escreveu um artigo em O Norte e no Diário da Borborema com o título "Festa no Interior".

Treze e Botafogo fariam a final do Paraibano em Campina e meu pai quis apenas fazer um trocadilho com a música de Elba Ramalho.

Acabado o jogo, acho que o Galo havia vencido, e os jornalistas foram para Manoel da Carne de Sol. Chegando lá, meu pai entrou no banheiro. Um cara o seguiu e o ameaçou.

- Que história é essa de festa no interior, hein? Campina não é interior, reclamou o cara para o meu pai. O ameaçador estava com a mão na cintura, como quem tem alguma arma guardada.

Por sorte, alguém entrou no banheiro na hora e a conversa se encerrou por aí. Devia ser torcedor do Treze mesmo...

Outro lance curioso aconteceu na China. Lá, como em Cuba, jornalistas não são bem-vindos. Recentemente, um jornalista denunciou corrupção na polícia de determinada cidade. Ele passou a ser perseguido por policiais, mas coincidentemente teve forte crise de rins e foi internado.

Ele pensou que a perseguição acabaria. Pensou errado. Logo que retornou aa redação, o chefe de polícia acusado invadiu a redação e cobriu o camarada na porrada. A última notícia que li desse chinês é de que ele estava internado em estado grave justamente porque as pancadas foram mais fortes na região dos rins do chinesinho.

A polícia já matou um jornalista aqui em Brasília. Ele é famoso até hoje. Mário Eugênio, assassinado na porta da Rádio Planalto AM por policiais que faziam parte do grupo de extermínio, tipo Mão Branca, que assombrou CG há duas décadas.

Ainda em Brasília, tem o caso do General Newton Cardoso, ex-chefe do Serviço Nacional de Informação e comandante militar do presidente João Batista Figueiredo. Ele foi entrevistado pelo radialista Honório Dantas, também da Rádio Planalto, na rampa do Palácio do Planalto e ouviu uma pergunta do repórter que não o deixou satisfeito.

Sabe o que o general fez?

Pegou o gravador da mão do repórter, torceu braço do pobre coitado e gritou:

- Peça desculpas ao general agora!!!!
- Desculpa.
- Mais alto...
- Desculpa, general!

Parece piada, mas está no livro Ministério do Silêncio, sobre o serviço secreto do Brasil, escrito por Lucas Figueiredo.

Depois que li essa história, fiquei pensando o que faria se estivesse no lugar desse repórter. Afinal, acertar um murro na cara de um militar em pleno palácio do Planalto durante a Ditadura poderia até ser recompensador, mas não seria nada bonito.

29 março 2006

Ergonolepticamente falando

Tinha a idéia de escrever sobre isto que você vai ler abaixo quando nosso humilde blog completou mil acessos únicos (mil computadores diferentes), no início do mês de março. Mas como outros assuntos surgiram, fica para este post a missão de nos fazer alcançar o acesso número 1.300.

Queria "responder" a um comentário feito ainda no post "Suave Veneno", quando a leitora Karin Maria disse que o texto sobre as armadilhas de ser jornalista estava "interessante para adolescentes, mas para pessoas bem resolvidas não passava de razoável".

Tive várias certezas na minha vida/carreira desde que criei este blog ao lado do Da Silva. As duas únicas dúvidas que tive foram as seguintes:

1) Conseguiríamos mantê-lo atualizado?
2) Quem o leria?

A primeira pergunta acho que tá fácil de responder. Eu achei, simplesmente, sensacional escrever um blog. Além de acordar, tomar banho, dirigir e ficar pensando só na pauta do dia no jornal, fico formulando um texto na cabeça para escrever aqui. Como aprendi na minha própria monografia na UEPB que a leitura na internet é 25% mais lenta que em uma folha impressa, ainda não acertei a mão nos tamanhos do textos. Afinal, internet não me dá limite de tempo e espaço. Escrevo um bilhão de parágrafos no texto pelo simples fato de estar gostando de estar escrevendo sobre aquilo e, posteriormente, lendo o que eu mesmo penso sobre eu mesmo.

Posso escrever quanto quiser, a hora que quiser e, principalmente, corrigí-los quando bem entender (a correção é assunto para outro post. Me cobre!).

Já a segunda pergunta ("Quem lê?") é a dúvida que não consegui tirar. Acho que nunca conseguirei. Só sei que Da Silva repassa o endereço do blog para os alunos da UEPB e alguns outros amigos nossos.

Só.

Além de Campina Grande, João Pessoa e Brasília, nosso medidor de acessos registra presenças de internautas do Rio de Janeiro, Manaus, Natal, México, Japão, Estados Unidos, Itália.

Não sei se esses gringos estão querendo aprender português (aqui não parece ser o site ideal). Só que tá registrada a presença deles lá. Devem fazer parte dos 76% dos acessos que não passam mais que cinco segundos no Filhos da Pauta. Baseado nisso, fica difícil saber se o texto "Suave Veneno" foi mais interessante do que razoável, como avaliou a leitora Karin.

O que eu acho mais intrigante nisso tudo é que as informações que a gente coloca aqui ficam soltas no espaço sem fim.

Não é filosofia barata.

Se você entrar lá no Google (aliás, o Google é meu melhor amigo no trabalho) e digitar FILHOS DA PAUTA você vai encontrar lá nosso blog. Vai ver foi assim que a "bem resolvida" Karin Maria encontrou o texto Suave Veneno.

Ele tá rondando pela internet até que alguém como eu, que gosto de digitar palavras estranhas no Google, digite alguma coisa bem diferente para ver o que existe na internet sobre isso.

Por exemplo, ergonolepticamente. Vem de ergonoléptico, que nada mais é que o teste que se faz para saber a qualidade de um vinho.

Que tal digitar claudicante, ou licergia, hermenêutica ou concomitantemente?

Sei lá...

Acho sensancional o fato de qualquer besteira que eu escrever aqui estar flutuando em algum lugar para que qualquer outra pessoa possa ler. Diferentemente do jornal. Porque, quando escrevo sobre basquete -- é óbvio -- estou me dirigindo aos amantes/admiradores daquele esporte.

O mesmo acontece com os demais assuntos, economia, política externa, carnê do IPTU e assim vai.

Só posso dizer que, ergonolepticamente falando, viciei em blogs e já penso em criar outros para deixar boiando pela "rede mundial de computadores".

Como disse acima, ainda não acertei a mão no tamanho dos textos no blog. Agora mesmo tive que apagar dois parágrafos porque já estava dando outro motivo pelo qual quero fazer outros blogs. Não sobre jornalismo, mas sobre pedaços de histórias da vida dos outros, minhas matérias na íntegra, piadas, autobiografia...lo que sea!

26 março 2006

Você já leu o ombudsman?

Para quem está com preguiça de ler, por achar o texto "grande demais", é preciso dizer que jornalista é, por obrigação, uma pessoa bem informada -- ou pelo menos deveria tentar ser. O texto abaixo pode até ser "grande demais", mas é uma aula de jornalismo.

Primeiro, porque situa, na primeira parte do texto, o leitor na confusão em que está metido o governo federal neste momento. Depois (público x privado), por fazer uma análise jornalística do que a GRANDE IMPRENSA divulgou na semana que passou. O ponto cinco dos comentários do ombudsman mostra o que um pouco do que já foi escrito aqui sobre vaidade e parcialidade.

Vale a pena ler, refletir e comentar...

OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo - domingo, 26 de março

O caso do ministro e do caseiro

MARCELO BERABA

A semana foi dominada por um escândalo, a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Francenildo foi apresentado pelo "Estado de S. Paulo" na edição do dia 14 de março, e a manchete do jornal resume a importância de seu testemunho: "Caseiro desmente Palocci e diz que ministro visitava mansão".

A "mansão" era uma casa alugada no Lago Sul de Brasília por ex-colaboradores de Antonio Palocci da época em que foi prefeito de Ribeirão Preto e teria sido utilizada para lobby. O ministro da Fazenda garantiu, em diversas ocasiões, que jamais esteve na casa. Francenildo foi a segunda testemunha a aparecer, depois do motorista Francisco das Chagas Costa.O depoimento do caseiro criou uma situação ainda mais difícil para Palocci, já acuado por várias acusações referentes, principalmente, aos períodos em que foi prefeito. No dia 16, uma quinta-feira, Francenildo reafirmou, na CPI dos Bingos, que vira o ministro na tal casa, mas uma liminar do STF, concedida a um senador do PT, suspendeu a sessão.

Na sexta-feira à noite, a revista "Época" inaugurou o seu "Blog Brasil" (www.blogbrasil. globolog.com.br) com uma informação exclusiva e de repercussão imediata: "Extratos revelam depósitos para caseiro". A informação antecipava a reportagem que seria publicada na edição em papel que estava sendo concluída.

Os repórteres da "Época" tiveram acesso aos extratos da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal e decidiram publicá-los, mesmo sabendo que tinham sido obtidos ilegalmente, por os considerarem "jornalisticamente relevantes". O título da revista é uma pergunta: "Quem está dizendo a verdade?".

A revista levantou a hipótese de o caseiro ter recebido dinheiro para testemunhar contra o ministro Palocci. O caseiro negou. Informou que o dinheiro tinha sido depositado por um empresário do Piauí que não o reconhece como filho. A história é confirmada pelo empresário.

Mesmo assim, a revista cravou que "os extratos põem em dúvida a credibilidade do caseiro". Por quê? Mais adiante a revista afirma que "o caseiro pode até não ter mentido [em relação ao ministro Palocci], mas escondeu de todos que tinha tanto dinheiro". E por que teria de revelar que tinha o dinheiro?A reportagem da "Época" deslanchou dois movimentos. Do lado do governo, uma operação para preservar o ministro e desmoralizar o caseiro, antes testemunha e agora investigado pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda. Do lado da oposição, da imprensa e de várias instituições e personalidades, uma onda de repúdio pela violação criminosa do sigilo bancário.

Público x privado

Pouco se discutiu a respeito da decisão da "Época" de publicar os extratos obtidos ilegalmente. Meu ponto de vista sobre a reportagem da revista:

1 - A violação do sigilo bancário é um crime grave e justifica a indignação estampada nos editoriais dos jornais e nas cartas de leitores. Além dos prejuízos pessoais provocados ao caseiro, é um atentado à democracia.

2 - O fato de a revista ter publicado o extrato não significa que ela também tenha cometido o crime. No caso, a responsabilidade pela manutenção do sigilo era da CEF. Há, a meu ver, um fator fundamental que pode justificar -como já ocorreu inúmeras vezes- a publicação de informações verdadeiras de origem ilegal que chegam às mãos dos jornalistas: o interesse público.A Folha tinha ciência de que as fitas do BNDES que gravavam conversas sobre o escândalo da privatização das telefônicas, em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, tinham sido feitas ilegalmente. Verificada a autenticidade delas, decidiu publicar as partes que tinham interesse público (e nunca revelou os trechos com intimidades dos grampeados).

3 - No caso dos extratos de Francenildo, a revista "Época" cometeu, na minha opinião, os erros de ação e de omissão. Explico.

4 - A revista foi precipitada ao tornar pública a história familiar do caseiro. Naquela sexta-feira, dia 17, a publicação não tinha nenhum indício para colocar em dúvida a credibilidade da testemunha. O que ela tinha em mãos eram suposições, e deveria ter se dado mais tempo para investigar antes de publicar. A relação de Francenildo com o empresário que ele diz ser seu pai faz parte da sua vida particular. É até possível que o caseiro esteja mentindo e que o dinheiro tenha outra origem. Mas até agora nada foi provado.

5 - A revista estava, no entanto, com uma grande história e não deu atenção: os extratos foram obtidos através da violação criminosa do sigilo bancário do caseiro dentro da CEF, banco subordinado ao ministro Palocci. Este, por enquanto, é o grande escândalo. A revista ignorou o crime e, mesmo diante da falta de provas contra Francenildo, decidiu expor publicamente sua vida familiar. Uma completa inversão de critérios jornalísticos.

Sem comparação

Muitos leitores escreveram questionando a indignação manifestada pelos jornais com a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Procuraram comparar o caso com o do ministro Palocci, que teria tido a sua intimidade violada quando foi revelado que freqüentava a casa do Lago Sul. Acho que não tem comparação. O ministro é um homem público e ele sempre informou que nunca esteve na casa. Se for provado o contrário, terá cometido uma mentira grave.Também não vejo como comparar o que ocorreu com o caseiro com o vazamento de informações sigilosas, obtidas legalmente, de acusados de estarem envolvidos com o valerioduto. São homens públicos investigados por terem se beneficiado de esquemas ilegais de levantamento de recursos para o enriquecimento pessoal ou para uso político.

Marcelo Beraba é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

23 março 2006

Parcial (mas nem tanto)

Quer queira, quer não, atletas, treinadores, dirigentes, até políticos e pessoas que costumamos entrevistar diariamente são nossos companheiros de trabalho. Precisamos dos serviços deles para fazer o nosso.

Se eles não quiserem falar com a imprensa, temos uma única alternativa: descer o cacete no jornal, na TV, na rádio ou no espaço que temos, como o blog, por exemplo.

Veja o caso do Brasiliense, time de futebol de Brasília. Criado há cinco anos pelo senador cassado (é com dois S mesmo) Luiz Estevão, o clube é odiado por todos os repórteres esportivos do Distrito Federal.

Como se não bastasse o fato de Lulu (Luiz Estevão) acreditar cegamente e divulgar sempre que tem a oportunidade que repórter de esporte "é o mais burro da editoria. Porque ninguém em uma redação de respeito quer trabalhar com futebol, só os que não entendem sobre nenhum outro assunto", ele proibiu a imprensa de assistir aos treinos lá no campo do time (que por sinal, é público).

Ou seja, além de termos um excelente motivo para dar porrada em Lulu diariamente no jornal, tem o agravante do desrespeito pessoal mesmo. Então, ele é o caso de "companheiro de trabalho non grata" (termo criado por mim agora).

Mas há casos como os dos jogadores de basquete. Acompanho de perto o Campeonato Nacional masculino de basquete em viagens pelo Brasil e acabei me tornando ligado a alguns atletas. Alguém se lembra de Pipoka? Ele é de Brasília, tem 40 anos, participou de três Jogos Olímpicos ao lado do Mão Santa Oscar Schmidt, mas continua jogando profissionalmente.

Ele é o oposto de Lulu. Qualquer matéria que eu faça sobre ele será tedenciosa. Primeiro, porque, assim como Estevão, ele merece um texto tendencioso (só que o senador cassado merece o outra tendência). Segundo, porque Pipoka é uma figura da cidade de Brasília, querida e ovacionada.

Acontece que, dia desses descobri que o time dele não paga salários há dois meses. No futebol, isso é assunto corriqueiro, mas no basquete não. O time de Pipoka, o Universo BRB, é o braço forte de um grupo nacional que engloba seis ou sete universidades pelo país, cujo dono é senador da república (não, não é Lulu), Wellington Salgado de Oliveira. Em outras palavras, não há motivos para atrasos.

Por ser novidade no basquete, corri atrás das fontes para detonar o tal senador no jornal. A primeira pessoa que fui conversar foi Pipoka. A matéria é de interesse dos jogadores. Para minha surpresa, Pipoka reconheceu o atraso nos pagamentos, mas pediu desculpa e disse que não falaria, temendo represálias. Minha matéria dando porrada no senador "companheiro de trabalho" dono do Universo BRB nasceu morta.

Eu tenho todas as informações para detonar a diretoria do time de basquete. Quando foi o último pagamento, quanto é folha salarial, o que foi combinado e o que foi feito pela diretoria. Mas como Pipoka, um dos beneficiados com a publicação da matéria, pediu para não falar, abortei a missão. Nada de salários atrasados no Universo BRB.

Podem dizer que sou parcial, mas, convenhamos, você conhece alguém imparcial?

Eu não.

Veja um caso do estagiário de esportes de um jornal concorrente ao meu. De tanto cobrir os treinos do time de vôlei feminino de Brasília, o camarada passou a sair na night com as jogadoras, e receber ligações a cobrar das atletas.
Ao final da temporada, ele traçou duas grandalhonas (no mal sentido mesmo).

Vamos ser companheiros de trabalho, mas daí a virar amante já é exagero, né?

PS - não estou fazendo apologia à parcialidade do repórter. Só me refiro ao sentimento que o repórter tem na hora de escrever ou apurar uma matéria. Porque antes do espírito profissional, existe um sentimento na pessoa que escreve uma reportagem. É este sentimento que me referi neste post, OK?

21 março 2006

A arte de ser chefe

Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu passei a odiar todos os chefes. Tudo bem, todos não, vai. A maioria, o meu chefe atual, Paulo Rossi, é extremamente gente boa. Nem parece chefe, por isso não conta. Passei a odiar os chefes dos outros, então.

Um companheiro de redação, o experiente repórter Roberto Naves, soltou uma frase sensacional sobre a "A Arte de Ser Chefe":

"Chefe não quer saber quantos problemas você vai enfrentar para fazer a matéria pedida. Quer apenas dar a ordem e ponto final".

Neste momento que estou escrevendo esse post me veio à cabeça três tipos de chefe:

1 - Autoritário;
3 - Inexperiente;
2 - Rei sem coroa.

1 - O autoritário é famoso. É a figura mais horrenda que existe. Ele aparenta estar sempre sob pressão por parte do próprio chefe dele. Veja bem, se em uma guerra, um pelotão perde, a culpa do fracasso não vai para os soldados, mas para o capitão do pelotão. Esse chefe aproveita para descarregar toda a pressão proporcionada pelos superiores dele nos pobres e humildes soldados. O chefe autoritário tem vida longa, porque todos têm medo dele. Mas como o mundo dá muitas voltas, ele pode acabar sendo demitido e o autoritário estará, como se diz em Brasília, "fudido e mal pago". Se esse camarada estiver desempregado ele estará mal visto no mercado e sem nenhum amigo a quem recorrer. Só os babões de plantão, que mesmo levando porrada diariamente, fazem questão de agradar o mandão.

2 - A carreira jornalística arma algumas armadilhas aos mais novos (aos mais velhos também, mas como sou novo, não posso falar pelos mais velhos). Muitas vezes, por corte de gastos, por uma prova de competência precoce, ou por um golpe da sorte, focas acabam se transformando em chefes. Como citei no post "Suave Veneno", é inevitável que a alta dose de veneno tome conta do espírito do recém-formado. Às vezes o cara é totalmente gente boa, toma cervas com você enquanto é repórter, troca idéias, mas basta ser promovido para o sucesso subir à cabeça. Queimar etapas dentro de uma redação é uma das piores coisas que pode acontecer a um jornalista novato, os chamados focas. O que agrava a situação é que ele vai se tornar um chefe autoritário no futuro, porque ele pensa que você, por ter mais ou menos a mesma idade dele, está querendo derrubá-lo, justamente por saber que talvez não tenha o conhecimento necessário para estar na posição de chefe. No final das contas, o cara acaba se tornando uma figura odiada na editoria.

3 - Como eu disse, tenho a sorte de ter um chefe extraordinário. Gente boa, compreensivo, e inteligente. As falhas dele eu não conto aqui, porque ele pode acabar lendo. Anyway, ele é um pequeno exemplo de "Rei sem Coroa". É o cara que manda sem precisar ter o direito de mandar. É um líder natural. Rei sem coroa é o cara que te pede para fazer tal tipo de matéria complicadíssima e que não tem nada a ver com o que você trabalha, mas você faz mesmo assim pelo simples fato de ajudar aquele chefe. Porque ele merece. Ele é quase um amigo do peito. É aquele tipo de pessoa que cobra as coisas mostrando teu potencial para fazer coisas interessantes.
É dificílimo encontrar uma pessoa desse naipe. Sorte de quem tem um desses.

E você, qual tipo de chefe é o seu?

17 março 2006

Sorte de principiante

Na sexta-feira passada fui informado pela produção que deveria chegar na segunda às 11h30. Meu horário normal de trabalho é a partir das 14h. Estava escalado para ir a Boa Vista, uma cidade que fica a uns 50 quilômetros de Campina Grande, no cariri paraibano. O assunto era “denúncia no Bolsa Família”. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais denunciava que 15 pessoas - em extrema pobreza - tinham sido cortadas do programa. Na pauta que recebi tinha entre parênteses que se pudesse, investigasse a denúncia de que uma esposa de vereador recebia o benefício na cidade. A produção ajeitou tudo direitinho. Marcou com o presidente do Sindicato, que me levaria a uma mulher que foi cortada, e com o Secretário de Ação Social da cidade para explicar o motivo dos cortes. A matéria era interessante, mas necessitava cuidados para não entrar numa briga política, Afinal é ano de eleições.

Quando cheguei em Boa Vista, por volta de 12h30, tive que andar mais 14 quilômetros em estrada de terra até chegar à casa de Rosa Maria. Seguimos o carro do presidente do sindicato. Dona Rosa, 49 anos, um filho pra criar, separada do marido, vive da venda do carvão que faz no quintal da casa, onde mora de favor. Ganha no máximo 70 reais por mês. Quando ganha. Tem meses que o dinheiro não dá nem pra comprar comida. Quando isso ocorre depende da ajuda de vizinhos para comer. Essa era a minha personagem. Há três meses, Dona Rosa não recebia mais o benefício do Bolsa Família.

Depois de entrevistá-la fui até a casa de outra personagem, que logo de cara vi que não renderia pra matéria. Mesmo assim peguei todas as informações e a entrevistei. Estava tranqüilo. Dona Rosa era a personagem perfeita. De volta à cidade, conversei com o presidente do sindicato. Comecei a sondar para confirmar algo que já sabia: ele é adversário político da atual administração de Boa Vista. Na conversa perguntei se ele sabia o nome da mulher do vereador. Disse que não. Pedi para descobrir e me ligar dizendo. Queria mesmo era denunciar esse favorecimento. Com o nome da mulher tentaria conseguir junto ao Ministério do Desenvolvimento Social a lista de beneficiários da cidade. Imaginava que o Secretário de Ação Social fosse esconder o nome a todo custo. Lembrei logo do livro de Lúcio Vaz (A Ética da Malandragem). Nele o jornalista diz que quando for investigar uma denúncia não fale logo dela com a fonte. Essa seria minha estratégia com o secretário. Pensava em perguntar quantas pessoas eram beneficiadas na cidade, os critérios de escolha, sobre o recadastramento e o caso de Dona Rosa. Só depois falaria sobre a denúncia.
Por volta das 15h30, o secretário chegou a Prefeitura de Boa Vista. Veio só atender a nossa equipe. A prefeitura só funciona pela manhã. Perguntou se eu queria ser atendido ali ou na Secretaria. Preferi a segunda opção. Sabia que lá estavam todos os dados. Antes de eu começar a explicar o motivo da minha ida à cidade o secretário me interrompeu.
- Já estou sabendo que você veio aqui por causa das denúncias. Vou lhe mostrar tudo. Minha administração é transparente.
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Vi que a matéria iria render melhor que esperava. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo. E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
Bingo de novo. O cara já estava me mostrando a lista de favorecidos. Na cidade, cerca de 380 pessoas recebem o benefício. As 35 representam quase 10% do total, um número considerável. Fiquei até sem jeito de perguntar algo. Mas fui em frente. Peguei o primeiro nome da lista, que ganhava R$ 329,00 e perguntei por que ele recebia o Bolsa Família. O secretário explicou mostrando um documento do Ministério do Desenvolvimento Social, onde afirma que 14% dos beneficiados têm emprego formal. O critério, segundo o documento, é se a pessoa tem renda per capita de até R$ 100,00. O meu personagem tinha cinco pessoas na família, o que dá uma renda per capita de R$ 65,00. Foi a justificativa dele. Esperto, meu cinegrafista começou logo a filmar a lista e eu discretamente anotando os nomes, olhando os valores. Quando passei a folha, vi que uma mulher com renda de R$ 2.655,00 estava na relação. Essa não tinha explicação. O secretário admitiu.
- Eu sou transparente na minha administração (essa era a frase preferida dele, parênteses meu). Realmente essa mulher está irregular, mas só posso fazer alguma coisa depois do recadastramento.
Ainda consegui mais alguns nomes, com valores dos salários e quanto recebe do Bolsa Família. No meio das confirmações, o secretário sai com essa:
- Sim, não adianta você vir aqui e a gente não falar da mulher do vereador. Já estou sabendo disso e vou me defender.
Eu nem havia perguntado. Mais uma vez estava recebendo a denúncia de bandeja. Ele mostrou um ofício onde solicitava desde agosto a exclusão dela, o que não aconteceu. Eu tinha mais um elemento importante para matéria. Tudo isso foi numa conversa em off. Meu medo era de que na hora de gravar, ele não quisesse. Estaria ferrado. Pelo tempo que passamos conversando pedi ao cinegrafista para mudar de fita. Não deu outra. Gravei vinte minutos de entrevista, nos quais ele confirmou tudo que havia me dito em off. É claro que eu não esqueci do caso de Dona Rosa. O secretario explicou que ela foi cortada porque havia informado uma renda de R$ 120,00. Tinha todos os elementos para a minha matéria.

Depois da entrevista fiquei pensando na sorte que tive. Esperava encontrar um monte de dificuldades. Mas em nenhum momento o secretário foi chato. Pelo contrário foi solicito até demais. No final ainda nos trouxe um pedaço de bolo de seu aniversário, que havia sido no dia anterior. Lanchei e voltei pra Campina não só de barriga cheia. As duas folhas de ofício estavam cheias de informações. Quando contei a história na redação ninguém acreditou que tivesse conseguido tudo de bandeja e ainda por cima ter comido do bolo do secretário. Não lembro quem foi que saiu com uma piada sarcástica:
- E se o bolo tivesse envenenado?
Na hora nem me lembrei desse detalhe. Comer um pedaço de bolo era uma atitude política (como gosta de dizer Daniel), de cordialidade.

Cheguei com o texto montado na cabeça. Comecei a matéria com a história de Dona Rosa, depois passei para a denúncia (não usei essa palavra no off) do sindicato, em seguida coloquei a versão do secretário para o caso de Dona Rosa. Depois disso, disse que enquanto Dona Rosa não recebia o dinheiro, outras pessoas que não precisavam estavam no Bolsa Família. Denunciei tudo que sabia. E o melhor: com a entrevista do secretário que disse “que sabia das irregularidades”. A matéria foi ao ar na terça-feira ao meio dia (JPB1) e à noite (JPB2). E repercutiu. Ontem o Ministério do Desenvolvimento Social mandou uma nota, na qual diz que o benefício da mulher do vereador foi cortado. O último saque foi em janeiro. Porém o secretário me mostrou que o cartão novo dela chegou no início do mês. Outro ponto: o marido dela assumiu o mandato em janeiro do ano passado e só agora se toma uma providência. Hoje também o secretário foi procurar uma rádio para pedir direito de resposta da matéria veiculada na TV Paraíba, afirmando que a matéria não foi verdadeira. Não teve o direito porque foi no lugar errado. Ele Deve ter levado um esporro de alguém mais experiente (você sabe de que experiência estou falando né?) da prefeitura por ter falado demais. Ficou tão desorientado que nem foi na tevê. Também se for não vai ter muito o quê argumentar. Temos os vinte minutos de entrevista gravados.

Foi a minha primeira denúncia fora do âmbito esportivo. Dessa vez foi fácil. Agora é se preparar pras bombas que vêm pela frente. Não posso mais contar com a sorte de principiante.

12 março 2006

Vaidade FC

A classe de políticos é a mais difícil para o jornalista lidar. Pelo menos é o que escuto meus amigos dizerem. Como nunca trabalhei diretamente na editoria de política não posso afirmar nada. A única coisa que posso dizer é que se os políticos são difíceis de lidar, jogadores de futebol não ficam atrás. Aliás, jogadores, dirigentes e treinadores. Uma turma muito vaidosa. Com algumas raras exceções. Independente do time, a maioria dos jogadores tem escalação garantida no ‘Vaidade Futebol Clube’. Basta uma notícia sobre a má fase de um atacante para ele ficar chateado com o jornalista. Como se existisse uma outra forma de dizer algo a respeito de um atacante que há dez jogos não faz gol. Na época em que trabalhei no Diário da Borborema (2001/2005) a coluna Binóculo FC colecionou alguns desafetos. Não desafetos declarados. Mas jogadores, dirigentes e treinadores que me olhavam com ‘cara feia’ a cada notinha venenosa que era publicada.

Esse pessoal tem a mania de só querer ouvir elogios. Se for atacante adora ser chamado de ‘matador’, ‘artilheiro’. Competente é o adjetivo preferido dos treinadores e dirigentes. O pior é que quando time vai mal, a culpa é sempre da imprensa “que está trabalhando contra”. Como se nós jornalistas entrássemos em campo. Quando a imprensa divulga algo errado que o jogador fez, a raiva é maior ainda. Semana passada, o zagueiro Antonio Carlos, do Juventude, foi acusado de atitude racista contra Joevânio, Grêmio. Em entrevista, Antonio Carlos disse que “a imprensa se deveria se preocupar com outras coisas”. O cara comete um crime e acha ruim quando é divulgado. Se não quer virar notícia, não faça besteira. Ano passado, no Campeonato Paraibano, o meia Maurício do Treze, que já passou pelo Brasiliense, agrediu o árbitro no final de um jogo realizado em João Pessoa. Todas as televisões filmaram. Quando fui ao Presidente Vargas (estádio do Treze) fazer uma matéria, ele estava puto com a imprensa por ter divulgado as imagens. Soltou algumas indiretas, mas não dei crédito. Até porque sempre o achei meio estrela. Toda as vezes que alguém o convida para entrevista, ele demonstra má vontade. Pelo jeito, Maurício (os colegas de Brasília podem me esclarecer isso) não gosta muito da imprensa. Talvez a sua cisma seja só comigo. Também se for, não estou nem um pouco preocupado.

Para aumentar meu conceito de “estrela” a respeito de Maurício, semana passada ele veio questionar o porquê da tevê só passar poucos lances de uma partida. Ele se referia ao jogo do Treze contra o Nacional de Patos. O problema não foi o questionamento. E sim as insinuações de que a imprensa trabalha contra o Treze.
Cheguei ao Presidente Vargas e fui chamar um jogador, acho que um zagueiro para entrevistá-lo. De repente, Maurício pergunta:
- Quem edita os jogos na televisão?
- Sou eu quem escolhe os lances.
- Do jeito que você editou parece que o Nacional deu um sufoco na gente. A imprensa só que lascar a gente. Até parece que é coisa direcionada.
- Maurício não é bem por aí não.
Disse e fui entrevistar o zagueiro, que já me esperava no banner. Também não queria polemizar. Mas o meia queria mesmo discutir depois foi em minha direção. Nessa hora estava perto do banco da comissão técnica. Ele chegou logo pedindo para falar:
- Deixa eu falar, eu explicar.
Depois de escutar suas reclamações pelo fato de os “melhores momentos” (o nome já diz tudo) ter tão poucos lances fiz uma pergunta:
- Maurício você entende como funciona uma televisão, quais são os critérios de edição? É impossível você exibir todos os lances.
- Mas é que parece que vocês querem prejudicar a gente.
- Olha, antes de você criticar alguma coisa você precisa entender como é o jornalismo. E outra coisa. Não me vem com essa história de conspiração contra vocês. Além disso você nem conhece, não conhece a minha postura, o meu caráter. Você me conhece daqui (do estádio) de dar boa tarde a vocês e nada mais. Procure me conhecer.
Como ele ainda insistiu com as reclamações eu disparei:
- Me diz uma coisa eu já disse como você deve bater um pênalti, bater na bola? Se você deve jogar com meião baixo ou alto?

- Não, não.
- Então cara, não se mete no meu trabalho.
Depois dessa ele ainda retrucou algumas coisas, eu argumentei outras. Mas foi o fim da discussão. Poderia ter sugerido a inversão de papéis. Ele iria fazer a matéria e eu jogar no lugar dele.
Foi a segunda vez que aconteceu algo desse tipo comigo. A outra foi com o técnico Celso Teixeira, na época em que estava no Treze. Ele pediu para o assessor de imprensa ligar dizendo que não havia gostado de uma matéria publicada no Diário da Borborema.
- Fala pro Celso que eu também não estou gostando do time que ele está botando em campo. Então diz pro Celso que a gente faz o seguinte: ele vem fazer o jornal e eu coloco o time em campo. Assim, está tudo resolvido.

Os dirigentes não ficam atrás. Quando se publica atraso de salário, problemas na administração dos clubes, eles ficam puto. Certa vez eu tive que dizer a um dirigente que eles eram muito melindrosos, cheios de frescura.

Jogador de futebol, técnico, dirigentes são pessoas públicas. E como pessoas públicas estão sujeitas a críticas e elogios. O problema é que ainda vai demorar muito tempo para essa turma entender isso. Talvez nunca entendam. E nós jornalistas continuaremos sofrendo com as crises de vaidade deles. São os “ossos do ofício”.

06 março 2006

Suave veneno

Tem gente que quer ser jornalista para substituir Glória Maria no Fantástico. Tem gente que prefere ser o novo Galvão Bueno. Tem gente que sonha em substituir Marcos Losekan como correspondente internacional. Outras pessoas fazem vestibular para Comunicação para ser reconhecido na rua e dar autógrafo.

Se você se encaixou em uma dessas três opções acima, me desculpe, mas você está errado! Você não quer ser jornalista. Quer apenas aparecer, quer ser mais importante do que a notícia. Mas se você leu este texto e conseguiu substituir Gloria Maria ou Galvão Bueno, me avise porque quero dar os parabéns pessoalmente. (Afinal, Gloria Maria e Galvão Bueno existem mesmo?)

Na minha singela opinião, jornalista é aquela pessoa que gosta de escrever, de contar e ouvir histórias. De imaginar o que os leitores, ouvintes ou telespectadores, querem saber ou gostam de ver. Eu, apesar de estar iniciando minha carreira, acredito que me encaixo neste estilo.

Nada me deixa mais feliz do que ver um texto meu impresso em uma página de jornal. Não precisa nem ter meu nome (a não ser que o texto seja uma obra prima - o que é raro, admito), só em ver um trabalho meu ali me deixa realizado. É como o grande amigo/professor Ribamildo Bezerra me falou uma vez:

"Se você escreve para um universo de 100 pessoas e apenas uma delas entendeu sua mensagem, ela repassará para outras 100. Se uma dessas 100 entender a mensagem, repassará mais uma vez sua idéia. Está formado um ciclo".

Nem sei se ele se lembra que me falou isso em 1999.

Anyway, me sinto mais realizado vendo um texto meu no jornal do que minha imagem na TV. Não sei dizer porquê. Talvez porque eu não assista TV com freqüência. Só telejornais e futebol. É claro que se fosse chamado para trabalhar em TV novamente, voltaria, com certeza, mas acho o caminho do jornalismo impresso mais interessante para mim do que qualquer outro. Talvez internet se igualaria em interesse.

Além do fato de poder escrever mais, contar mais histórias e me especializar em algum assunto -- em TV você cumpre a pauta diária e tchau --, chega a ser venenoso ser interpelado na rua por alguém que você não conhece para falar sobre seu trabalho. Poucas são as pessoas que não gostam disso.

Quando morei em Campina Grande (1999-2002), acontecia com alguma freqüência isso comigo. Confesso, me envenenei. Felizmente, o veneno não se espalhou pelo corpo. Felizmente. Não achava ruim, mas não achava bom. Só sentia falta de ter um público mais seleto. Não tenho pretensão de ser escritor das grandes massas, nem ter o alcance de Truman Capote, Ruy Castro ou Monteiro Lobato.

Como disse William Bonner em uma declaração inteligente (e mal interpretada), só é exibido na TV o que Homer Simpson consegue entender. Homer Simpson, nesse caso, é o pai-de-familia comum, trabalhador, sem regalias em casa, pagador de imposto, CPMF e coisas do tipo. Alienado, até meio burro. Na TV, ele terá a informação superficial: "A bolsa de valores de tóquio está em queda".

No jornal, Homer também pode ter acesso àquelas informações transmitidas pela TV e mais alguma coisa específica, um diferencial. Por causa dele (diferencial), Mr. Burns, o dono da indústria que Homer trabalha, milionário, proprietário da maior parte das terras do mundo, também lê o jornal. Lisa Simpson, estudante, esforçada, dedicada e atualizada, idem.

Usei os personagens de desenho animado para ilustrar os tipos de leitores e telespectadores. Quando trabalha em TV, era constantemente abordado por Homers campinenses. Apesar de eu trabalhar com futebol, aquelas pessoas mal sabiam do que estavam falando e ainda diziam de qual maneira eu deveria trabalhar, como se fossem experts. Nesses Homers, estão incluídos alguns colegas de trabalho, diga-se! (Da Silva conhece bem)

O tempo passou, comecei a trabalhar em jornal impresso e acabei por parar no jornal de maior circulação da capital do país. Público totalmente diferente. Ministros, embaixadores, juízes, deputados, atletas olímpicos, até Homers e Mr. Burns lêem o jornal diariamente e opinam sobre ele (há esse serviço no Correio Braziliense).

Como não mostro minha cara em lugar nenhum, a não ser na redação do jornal, ninguém mais me importunou no meio da rua. Mas nos lugares que freqüento por causa do trabalho, percebo que o nível dos comentários sobre minhas reportagens é outro.

Não quero dizer que me sinto melhor ou pior com isso. Muito pelo contrário, a dose do veneno nas veias do jornalista aumenta. Ele passa a sentir mais importante, dono da verdade absoluta, e conhecedor de todas as realidades. É aí que mora o perigo.

Se por um lado, o jornalista de TV quer aparecer mais que notícia, quer que o cabelo seja notado, a roupa, o batom, a gravata sejam percebidos, o jornalista de impresso se considera a fonte inesgotável de sabedoria, lido por todos, comentado por poderosos, e procurado por pessoas influentes.

É no dia-a-dia do trabalho que eu consigo encaixar melhor uma frase dita quase que automaticamente por todos, mas que se encaixa como uma luva nas armadilhas que o jornalismo coloca no nosso caminho a cada texto escrito:

"Não nos deixei cair em tentação"

Amém

23 fevereiro 2006

Um dia de Paparazzi

Pelo menos no Correio Braziliense funciona assim. Quando ocorre uma reunião de pauta e um repórter diz:
- Tenho uma materinha legal...
Hummmm!!
O editor nunca dá a atenção devida. Quando você tem uma sugestão e ela não é sensacional, mas interessante, ou até legal, o grande lance é "vendê-la" desta maneira:
- Tenho uma matéria sensacional para esta semana!!!
O chefe presta mais atenção e até sugere informações complementares para a matéria se tornar sensacional.
Fiz esse nariz-de-cera todo porque me lembrei que começaria este texto dizendo:
- Tenho uma historinha interessante...
Bem, é interessante, mas por quê não vendê-la como sensacional? Alguém, além de mim, pode achar sensacional a "historinha"!
Vamos ao lead.

Quem esteve final de semana passado em Brasília foi ninguém menos que Don Diego Armando Maradona. Veio participar de um jogo de confraternização com ex-craques do Brasil em Brasília. Como esse camarada é polêmico, mais que divulgar a presença dele no jogo, o fato de ele passar duas noites na capital do Brasil já rende uma ou duas páginas inteira de notícias. Todo mundo quer saber o que Maradona fez em Brasília. Pelo menos os moradores de Brasília querem.

Eu queria também. Deixei de querer quando descobri que EU seria um dos responsáveis por informar ao público de Brasília o que cargas d'água Maradona fez em Brasília.

Humildemente, fui lá fazer vigília a partir de 9h30 da manhã de sábado passado (dia 18, se não me engano) em frente ao Hotel Kubitscheck Plaza, um dos melhores do DF. Na verdade, eu já estava rendendo um repórter do jornal, Afonso Morais, que ficou a madrugada inteira lá. Um fotógrafo já estava no local desde 6h30, quando substituiu o da madrugada.

Quando desembarquei no hotel, recebi as seguintes informações:

1- Maradona NÃO saiu do hotel na noite de sexta para sábado;
2 - Maradona encheu a cara de cachaça até 3h30 da manhã no bar da piscina.
3 - Um hospede reclamou da barulheira e os argentinos que acompanhavam Maradona, e que iriam jogar contra o Brasil no dia seguinte, foram para o quarto de Dieguito;
4 - Na suíte, Maradona pediu sete champanhes e um cara comprou 120 reais de energéticos no supermercado;
5 - Por volta de 6h da manhã, Maradona deu chilique porque queria que alguém comprasse cigarros para ele
6 - Por volta de 6h30, apagou-se a última luz do apartamento no décimo andar, onde Maradona estava hospedado.

Ciente da bagunça comportada do craque argentino, já estava pensando no título da minha matéria como "Maradona decepciona a imprensa". Brincadeiras à parte, assimilei essas informações de que ele teria ficado no hotel enchendo a rabiola de cana como verdades absolutas. Até porque, Goycochea, Basualdo, Careca e o próprio gerente do hotel deram a mesma versão. Só tive o trabalho de perguntar que horas ele sairia do quarto e o que comeu no café da manhã, almoço e jantar.

Acontece que às 17h, dez minutos antes de Maradona sair do hotel para ir jogar (sim, ele não veio para Brasília apenas para cachaçar), um cabeleireiro (néééé?!?!) que trabalha em um salão de beleza dentro do shoppingzinho do hotel chegou com a seguinte conversa:

- Arrumei quatro amigas (amigas mesmo. Popularmente chamadas de PUTAS PAGAS) para Maradona. Foi o chefe da delegação quem pediu. Eles foram no Gates Pub e na Boate Trend ontem à noite e voltaram depois das 4h da manhã...

Eu estava ao lado da minha concorrente, Camila Valadares, do Jornal de Brasília. Ficamos doidos com essa informação. Pô, um repórter passou a madrugada inteira no hotel e não viu Maradona sair pelo único elevador do recinto? Não era possível.

O cabeleireiro (néééé?!?!?!?) fez questão de mostrar que era, sim, possível que ele pudesse ter saído na noite de sexta para sábado. Acontece que o Gates e a Trend são locais concorridíssimos de públicos diferentes. Se ele tivesse ido com quatro putas pagas, Brasília inteira (a cidade só tem 16km de extensão, é pequena mesmo) já estaria comentando.

Pois o cabeleireiro (néééé?!?!?!?) sacou o celular do bolso e ligou para a amiga. Quem conversou com ela foi Valadares. A amiga estava nervosa porque a profissão dela é sigilosa, se é que você me entende. Mas deu a mesma versão do rapazinho do salão de beleza. Entramos em desespero. Eu e Valadares.

Quanto ele pagou pelas putas? Elas viram sinal de cocaína com Maradona? Ele usa viagra? Ele pediu alguma delas em casamento? Ele tem ejaculação precoce? Coisas do tipo. Ridículo...

Bom, são coisas fúteis, mas que qualquer edição do Manual de Redação da Caras ou Contigo dá muito valor. Era para isso que eu estava ali. Quer queria, quer não, o público quer ler essas coisas. Tanto que foi a matéria mais lida no Correio Braziliense e no Jornal de Brasília no domingo.

Pois muito bem, para confirmar a história, procuramos um coadjuvante. Huuuummm... Um segurança de Maradona! Ninguém melhor que ele para comprovar se El Diez fora no Gates e na Trend na noite de sexta para sábado.

Quem abordou um deles foi Camia Valadares.
- Oi amigo, tudo bem? Já estamos sabendo que Maradona saiu ontem à noite, foi para o Gates, Trend e voltou depois das 4h da matina com quatro prostitutas, pode confessar...

O cara, segurança, todo de preto, cara de poucos amigos, fechou ainda mais o rosto e não respondeu.

Naquele momento, eu e Valadares começamos a discutir. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ela deveria primeiro, tirar a cara de poucos amigos do segurança com perguntas amenas. Such as:

- Como é pra você trabalhar com um astro da grandeza de Maradona?
- As pessoas pedem muito autografo?

Assim, você ganha a simpatia do entrevistado. Essa é a minha opinião. Depois que o entrevistado tá do seu lado, cai matando. O livro de Lúcio Vaz (Ética da Malandragem), que Da Silva citou em post passado, ensina mais ou menos isso.

Acontece que eu fiquei sem a informação e tive que voltar correndo para redação para escrever meu texto, porque o jornal já estava fechando. Somado a isso, o jogo entre Brasil e Argentina, o motivo pelo qual Maradona esteve em Brasília, estava começando e eu precisava estar lá.

Voltei para redação, contei a história para o meu chefe. Ele não engoliu muito bem. Liguei no Gates e Trend. Nenhuma das boates confirmou a presença de Maradona lá. Porém, Valadares conseguiu confirmar com um dos seguranças que Maradona teria passado por esses lugares. E mais: teria pago 1,8 mil reais para as gatas o acompanharem.

Escrevi a matéria sobre a noitada no hotel mesmo.

O Jornal de Brasília (Camila Valadares) escreveu alguma coisa tipo: "Noite misteriosa". O que Maradona fez, afinal? Ficou trancado bebendo no hotel ou pagou quatro putas? Esse foi o tom da matéria.

Tenho humildade para reconhecer que gostaria de ter feito a mesma matéria, mas meu chefe pediu para divulgar apenas a versão que Afonso Morais, o repórter que passou a noite de sexta para sábado lá, havia apurado.

Em conversa com meus colegas de redação, eles também acham que o correto foi o que fiz. Sinceramente, ainda estou na dúvida.

A única certeza que tenho é que quem lê Caras não vê o coração de quem escreve aquelas abobrinhas.

Haja sofrimento (e falta do que escrever)

15 fevereiro 2006

Sugestão

O site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) , - www.anj.org.br - ainda em fase de construção, está implementando um projeto para disponibilizar diariamente aos internautas as capas de todos os 123 jornais filiados à entidade.

Por enquanto, o site já permite que! o usuário acesse as primeiras páginas de 43 periódicos do país. O acesso é feito através de um banner situado à esquerda do site, que registra: "As primeiras páginas dos jornais de hoje.

Já o site Newspaper Direct - http://newspapperdirect.com - oferece na íntegra edições de importantes jornais do mundo todo. Disponíveis em formato online, os periódicos muitas vezes chegam antes ao site do que nas bancas dos respectivos paíse! s. Entre os títulos brasileiros estão Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Gazeta Mercantil e Agora.

Nenhum jornal gaúcho e diários importantes como Correio Braziliense e O Globo constam na página.

14 fevereiro 2006

O futuro dos jornais

Em 1998, o dono e fundador da Microsoft previu, Bill Gates, previu que no ano de 2000 não existiriam mais jornais e revistas. Gates certamente acreditava que a Internet (o jornalismo on line) iria acabar com o impresso. O empresário errou na previsão, mas não se pode negar que as novas tecnologias estão obrigando os jornais a repensarem seu papel. É a respeito disso que republico um artigo de O Globo.

Repensando os jornais

Carlos Alberto Di Franco (*)

Fonte:
O Globo

As fraudes praticadas por jornalistas norte-americanos do “New York Times” deram o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do “Times” — “uma instituição que está no negócio há mais de cem anos”— Talese, crítico competente e arguto, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal norte-americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa.
“Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazos, cicatrizes na credibilidade.
Um amigo gozador costuma me dizer que a expressão “jornalismo de qualidade” é contraditória em si mesma. Outro dia, quis me exemplificar esta sua opinião: “Veja”, dizia, “boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominada pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas.” O desinteresse crescente dos leitores com as páginas de política, por exemplo (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está se passando pela cabeça do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.
O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito. Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora. São chuvas de verão. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.
Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business . Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento. Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão reclamando.
Os jornalistas precisam escrever para os leitores, e não para os colegas. O jornal precisa ter a sábia humildade de moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às autênticas necessidades do público. O lugar de repórter é a rua, garimpando a informação, apurando, prestando serviço ao leitor. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

(*) Diretor do Master em Jornalismo.

12 fevereiro 2006

Quando falta o mais importante

Uma das coisas que me deixa frustrado é quando chego na redação, começo a escrever e percebo que se tivesse colhido determinada informação a reportagem ficaria melhor. Acho que todo jornalista já passou por isso. Não é nem que você tenha colhido poucas informações. É que se “tivesse perguntado ‘tal coisa’ poderia dar outro foco a notícia”. O pior é quando o editor pergunta por essa ‘tal coisa’ que você tem que dizer desconfiado: “não perguntei”. A sensação é de ‘falta de competência’.
Com o tempo o faro de repórter vai sendo aguçado e as falhas vão desaparecendo. É claro que vai ter um dia ou outro que você vai perceber que faltou o mais importante. As informações que você tem até dá para fazer a matéria, mas ela poderia ficar muito melhor se não tivesse esquecido de perguntar sobre a ‘tal coisa’. Sempre costumo dizer aos meus alunos que o nosso contato com a fonte (entrevistado) é uma oportunidade é única. Em alguns casos dá até pra fazer uma nova entrevista, mas o entrevistado perde a espontaneidade. Quem já teve que fazer isso sabe do que eu estou falando.
Em televisão é ainda pior. Depois que a câmera é desligada e você pede pro cinegrafista ligar novamente porque esqueceu de fazer uma pergunta, o entrevistado fica todo sem jeito. Ele até responde. Mas responde sem graça. Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista. Ele é que tem que estar atento às imagens que farão a diferença na matéria. Se o cinegrafista não filmar, sua matéria vai ficar comprometida.
Semana passada vivi essa experiência. Estava trabalhando no clássico Campinense x Treze, no Amigão. Quando a bola saiu pra lateral, o técnico do Treze deu uma cotovelada no lateral-esquerdo do Campinense. O nariz do jogador sangrou e começou a confusão. “Você filmou a cotovelada”, perguntei ao meu cinegrafista. “Não sei”, respondeu ele pra minha tristeza. E realmente não tinha filmado porque assim que a bola saiu pra lateral, ele desligou a câmera. A cotovelada foi o assunto do outro dia no meio esportivo. Sem a imagem não pude fazer muita coisa. Tinha até boas sonoras com os envolvidos no caso. Não pude usá-las porque não dava pra fazer um VT sobre algo que não tinha a imagem. Esses casos chegam até a comprometer a credibilidade. O telespectador pode pensar que houve omissão, que não foi o caso.
Eu já havia passado por outra situação em janeiro de 2005, quando trabalha na TV Borborema. Posse do novo prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo. Teatro Municipal lotado. Depois de entrevistar o novo chefe do executivo da cidade fomos (os jornalistas) entrevistar a ex-prefeita Cozete Barbosa. Quando estava na sexta pergunta resolvi tirar o microfone. Achei que com as sonoras que tinha dava pra fazer a matéria. E não é que na oitava pergunta, a ex-prefeita dá uma declaração bombástica. Na mesma hora, minha ex-editora Neide Nascimento me ligou perguntando se eu tinha a entrevista. Pense numa frustração. Ela ainda tentou me convencer a entrevistar novamente a ex-prefeita, num ato desesperado de conseguir a declaração. Sabia que seria quase impossível. Ela poderia até dizer algo parecido, mas nunca com a mesma raiva que disse. Fiquei pensando que aquilo era como se um prédio tivesse caído e eu tivesse perdido a imagem. Não teria como erguer o prédio, fazê-lo cair de novo para que eu pudesse filmar. A entrevista que perdi apontou um grande defeito nosso (de alguns repórteres de tevê como eu) de não ficar até o fim da entrevista, quando ela é feita por muitos jornalistas. Na maioria das vezes, na terceira ou quarta pergunta o cara já vai tirando o microfone. E foi por causa dessa mania que perdi a declaração da ex-prefeita, o fato mais importante da posse. Não foi bom, mas pelo menos serviu pra ensinar algo.

08 fevereiro 2006

Há vida além do esporte

Definitivamente, existe mais coisas no mundo jornalístico do que as matérias de esporte ou qualquer outra coisa relacionada ao que eu e Da Silva costumamos escrever neste espaço. Isso é óbvio.

Diante da mobilização internacional para tentar entender a reação dos islamicos após a publicação das charges do profeta Maomé ligado ao terrorismo por um jornal dinamarquês, me vejo na obrigação de colocar alguma coisa sobre o assunto no nosso blog.

Entendo que o assunto é extremamente complicado. Poucas pessoas gostam de ler sobre o assunto. Principalmente em Campina Grande, onde as pessoas fazem questão de pensar que o mundo gira em torno da cidade, e não o contrário. Mas o texto abaixo foi publicado no Washington Post e foi escrito por um jornalista do semanal alemão Die Zeit.

Além de cutucar os americanos, o jornalista dá mostras de quais são os critérios de edição nos jornais da europa.

Abaixo:


Thomas Kleine-Brockhoff
Tolerância para com os intolerantes

--> --> -->Na semana passada, a publicação na qual trabalho, o semanário alemão Die Zeit, divulgou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Era a coisa certa a fazer. Quando as charges foram tornadas públicas pela primeira vez, em setembro, na Dinamarca, ninguém comentou o assunto na Alemanha. Se os desenhos tivessem sido oferecidos à minha revista na época, certamente teríamos declinado.

Pelo menos um deles equipara o islã ao extremismo. É exatamente o tipo de coisa que devemos evitar no debate sobre fundamentalismo — embora a charge política tenha o exagero na sua essência.

Não teríamos publicado por moderação e respeito à minoria muçulmana no nosso país. O bom senso da mídia é posto à prova toda hora. Não mostramos fotos de sexo explícito nem de pedaços de corpos após ataques terroristas. Procuramos manter o racismo e o anti-semitismo longe das nossas páginas. A liberdade de imprensa exige responsabilidade. Mas os critérios mudam quando o material tido como ofensivo adquire valor noticioso.

Por isso vimos corpos despencando das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Por isso vimos imagens dos abusos na prisão de Abu Ghraib. Nessas ocasiões, publicamos o que normalmente não sairia. A natureza desse pensamento é encontrar parâmetros sobre o que é culturalmente aceitável.

Quantas vezes não mencionamos os seios da cantora Janet Jackson em discussões sobres os limites da diversão familiar na TV? Quantas vezes publicamos coisas que os judeus consideram agressivas? Parece inacreditável que os jornais americanos tutelem seus leitores, deixando de publicar charges que o mundo comenta. Publicar não significa aprovar. O contexto importa muito.

Vale lembrar que a polêmica começou com um bem-intencionado projeto de livro infantil sobre a vida do profeta Maomé, escrito para promover a tolerância religiosa. Mas o autor se deparou com a rigidez religiosa no momento em que buscou um ilustrador para a obra. Impossível encontrar um.

Os artistas dinamarqueses pareciam temer pela própria vida, lembrando o destino do cineasta holandês Theo van Gogh, assassinado por um fundamentalista islâmico depois de fazer duras críticas ao extremismo. Quando a história chegou ao Jyllands-Posten, o editor de cultura resolveu bancá-la. Ele queria ver quais cartunistas se submeteriam à autocensura por medo dos muçulmanos radicais. Até então, a mídia européia ignorava o caso.

Foram precisos meses, o boicote de produtos dinamarqueses no mundo árabe e a intervenção de campeões da liberdade religiosa — como os governos de Síria, Kuweit, Arábia Saudita e Líbia — para que, finalmente, despertasse o interesse de alguns jornais europeus. Na semana passada, o assunto virou manchete em todo o Velho Continente.

Já na maior parte dos relatos na imprensa americana, os europeus pareciam estar errados, novamente. Eles não sabem como lidar com a imigração, a religião e o respeito às minorias. Afinal, suas cidades estão queimando, como ficou claro, meses atrás, na França.

O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, detectou um “preconceito antiislâmico” e o comparou ao “preconceito anti-semita” de outrora. Nessa jihad (guerra santa) contra o humor, a tolerância é desdenhada por quem a prega para os outros. Os governos autoritários que dizem falar em nome das supostamente oprimidas minorias islâmicas na Europa reprimem implacavelmente as suas próprias minorias. Eles não pedem mais respeito, mas submissão. E querem que os não-muçulmanos na Europa vivam regras muçulmanas.

Será que Clinton defende a tolerância para com a intolerância? Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado norte-americano achou apropriado intervir e condenou a publicação das charges como um inaceitável incentivo ao ódio religioso. Esse é um momento curioso, em que o governo dos EUA, que se gaba de ser o ninho da livre opinião, sugere aos jornalistas europeus o que eles não devem publicar.

O autor, chefe da sucursal do semanário alemão Die Zeit, escreveu para o jornal The Washington Post

07 fevereiro 2006

Ensaio sobre a soberba

Estou longe do jornalismo literário. Muito longe mesmo. Só coloquei esse título "Ensaio sobre a soberba" porque, na verdade, queria escrever sobre a soberba. Confesso que esse é o pecado que mais me intriga. Tenho certeza que a meu amigo Da Silva também. (NR - Acostume-se, porque eu só chamo Leonardo Alves de Da Silva). Este "Ensaio sobre a soberba" tem alguns lances que me ocorreram na semana que passou.

Pois bem, há um ditado maravilhoso que diz o seguinte:

"A soberba bota praça na ante-sala do fracasso".

Traduzindo para a linguagem manjada dos jogadores de futebol:

"O jogo só acaba quando termina".

Ou seja, não adianta contar vantagem antes de ter feito alguma coisa.
Fim do nariz-de-cera.

Vamos ao lide.

No post "Ficha Extensa", relatei uma confusão que criei no time de vôlei de Brasília, a Brasil Telecom, que disputa a Superliga Feminina (o nome dado ao Campeonato Brasileiro de vôlei). Pois bem, passei três semanas sem pisar nos treinos desse time de vôlei. Por coincidência, após minha reportagem em que o treinador ventilou a possibilidade de sair do time, a equipe desandou a perder. Tudo de três sets a zero.

Na segunda-feira da semana passada, coloquei na minha cabeça que voltaria aos treinos normalmente, mas tinha que ter um assunto muito bom para não encarar as jogadoras e o treinador sem nenhum argumento. Antes de dizer qual era, preciso esclarecer que não fui ao treino antes porque tive outras (muitas) pautas diversas.

Anyway, na mesma segunda-feira, encontrei Rodrigo Ferreira, estagiário da editoria de Esportes do jornal Tribuna do Brasil, em uma pauta sobre golfe. Conversa vai, conversa vem, contei que tinha um "assunto bomba" para estourar na quadra do time de vôlei de Brasília. Ele tava muito a fim de perguntar o que era, mas quando um repórter dá uma dica dessa, os concorrentes já ficam loucos para descobrir o que é e se esforçam ainda mais para dar outra bomba.

Meu assunto não era bomba, era apenas inconveniente. É o seguinte: descobri que o time da Brasil Telecom era a segunda equipe que mais errava no Campeonato Brasileiro. Por partida, entregava uma média de 24 pontos. Ora, se um set tem 25 pontos de duração, então as candangas entregavam um set de bandeja para as adversárias. Tudo baseado nas estatísticas da Confederação Brasileira de Vôlei.

Tive que gastar uma tarde inteira calculando esses números. E olha que sou péssimo em contas. Mas esta estava certa.

Agora, veja a situação. O repórter solta a aspa de um treinador dizendo que pode pedir para sair do time. O treinador nega que tenha dito isso. O repórter passa três semanas sem pisar nos treinos, e quando já chega com os "pés nos peitos" dos entrevistados. Não era um bom retorno. Por isso, vendi meu peixe como "assunto bomba" para a concorrência.

Não sei se o nosso Rodrigo Ferreira ficou instigado para correr atrás da bomba que eu teria ou se ele deu sorte. Acontece que ele se aproveitou de minha soberba ("tenho um "assunto bomba") e deu o furo da semana em mim e no Jornal de Brasília.

Ele simplesmente descobriu que a pessoa que mantinha o time de vôlei vivo dentro da Brasil Telecom (leia-se: diretora de esportes) fora demitida dois dias antes do jogo da semana passada. Furo. Muito melhor que meu "assunto bomba". Com a demissão da diretora, o futuro do time de vôlei em Brasília era obscuro. Poderia, inclusive, acabar no meio do campeonato, o que seria uma verguenza.

Descobri, em seguida, que ele estivera em todos os treinos do time após meu rasgo de prepotência e ainda foi jogar bola com os funcionários da empresa Brasil Telecom (e não as jogadoras) para tentar ofuscar meu "assunto bomba". Mas acredito que o futebol tenha sido por acaso.

Reconheci o furo tomado. Meu chefe não deu muita trela. Afinal, após quase duas décadas, ele entende que furos são feitos para dar e para levar. Eu já dei alguns. Levei vários. Semana passada levei mais outro. Amanhã posso dar algum. Acontece. Merdas acontecem. Desde que eu saiba fazer algo diferente de apenas tomar furos e me conformar.

Agora, me responda, não seria muito melhor ter guardado esse danado desse "assunto bomba" só para mim?

(NR - Os ânimos das jogadoras para cima de mim estão exautados. Elas me espancam com um olhar. Dão entrevista por obrigação. Vôlei, basquete, natação ou qualquer outro esporte que não seja futebol, no Brasil, não tem a rotina de ser cobrado diariamente. Mas isso é assunto para um outro post)

01 fevereiro 2006

Sugestões de leitura

Não é muito fácil encontrar livros de jornalismo. Pelo menos aqui em Campina Grande. Na maioria das vezes que vou a livraria vejo os mesmos títulos. São poucas as novidades que chegam ao mercado campinense. Pra minha sorte Daniel mora em Brasília e, sempre que surge alguma novidade, ele me manda de presente. Aliás, na passagem relâmpago por aqui, ele me prometeu enviar (mais um) um livro. O novo da Folha de São Paulo. Não lembro bem do que se trata. Só sei que é interessante. Daniel me falou, mas já estávamos acima do sexto chope, então é difícil lembrar. Como DB estava no mesmo nível que eu, estou apenas relembrando a promessa.

Pois bem, o último presente que recebi via Brasília foi o livro de Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional. Só pelo título dá pra perceber o que encontrei nele. Se o “mundo do Congresso” – esse que a gente conhece – não é lá essas coisas, não tem credibilidade, imagine o submundo. São 26 reportagens investigativas do jornalista gaúcho, que há 20 anos mora em Brasília. Passou treze na Folha de São Paulo e agora trabalha no Correio Braziliense. O livro é uma lição para todo jornalista, principalmente para aqueles que são atraídos pelo jornalismo investigativo. Lúcio conta os bastidores de cada reportagem, a maioria publicada na Folha de São Paulo. São denúncias de aluguel de mandato, nepotismo exagerado, compra de votos e, acredite, tráfico de drogas no Congresso. Tinha até o “teledrogas”. Como este é um ano de eleição, o livro também serve de reflexão para olharmos em quem pretendemos votar. Se bem que eu acho que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”. É um bando de picareta. Estão pouco se lixando pros nossos interesses. Eu já tinha essa impressão e depois do livro aumentou ainda mais. É nojento você saber que a maioria (pra não dizer todos) faz com nosso dinheiro. Como Daniel, disse eu outro post: “políticos? Esses nunca são inocentes”. Os caras só se interessam em aprovar alguma coisa se forem beneficiados.

Sempre tentam se locupletar de alguma forma. Entre as reportagens aparecem nomes de políticos paraibanos. Na intitulada “Compra de votos”, Lúcio relata o episódio da convenção do PMDB em 1998, na Paraíba. Na época o agora deputado federal Ronaldo Cunha Lima queria ser indicado pelo partido como candidato a governador. Porém, José Maranhão pretendia concorrer à reeleição. A denúncia era de que Maranhão estava comprando votos dos convencionais. O jornalista veio a Paraíba, fez a matéria, mas ficou tudo “por isso mesmo”. Nessa mesma linha, Lúcio conta que um político de Mato Grosso denunciava o adversário por compra de votos. Ele prometia gravações. Depois de alguns meses sem resposta, o jornalista liga pro denunciante e ele diz que fez um acordo com o adversário. É mole?

Aprendi e estou aprendendo muitas coisas com o livro. Fiquei imaginando como seria um jornalista daqui fazendo reportagem investigativa. Possivelmente ele encontraria irregularidades. O problema seria onde publicar. No caso de Vaz, ele tinha o apoio do jornal. Por aqui, acho que o jornalista poderia até publicar algumas denúncias. Mas só aquelas dos adversários do grupo político que o veículo está “ligado”.

O que me chamou atenção também foi a orelha do livro, escrita pelo editor Luiz Fernando Emediato, que afirma existir “dois Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos esclarecer, é aquele que faz uma Constituição, luta pela liberdade, vigia o Estado e até depõe um presidente. Vale a pena apostar que um dia será este o Congresso – e não o outro – que prevalecerá”. Concordo com ele, mas não posso negar que o outro Congresso (os das falcatruas) vem levando vantagem, se sobressaindo há muito tempo. Isso cansa. E não tem essa que “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

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Outro leitura recente foi o novo de Fernando Morais, Cem Quilos de Ouro [e outras histórias de um repórter]. O autor dispensa apresentações. O livro traz uma coletânea de doze reportagens. Grandes reportagens na verdade, algo que anda esquecido na maioria dos jornais. Hoje em dia não se investe tanto. As empresas não estão dispostas a pagar caro por uma boa história. O melhor é que todas as reportagens são precedidas do “making-off”, no qual os bastidores são relatados. Entre as histórias de Morais, três me chamaram a atenção: “O sonho da transamazônica acabou”, “O Napoleão do Planalto” e “O solitário da Dinda”. Na primeira, o jornalista conta os resultados da Transamazônica. Fernando havia feito a primeira reportagem sobre a estrada em 1970, percorrendo 5296 quilômetros em cima de uma promessa de desenvolvimento. Quatro anos depois voltou a fazer o percurso, atravessando “136 rios em seis balsas e cruzando 130 pontes” ao lado do fotógrafo para ver se o sonho do desenvolvimento tinha se tornado realidade. Foram vários dias na estrada num jipe Xavante da Gurgel para comprovar que tudo não passou de promessa.

Na “O Napoleão do Planalto” o jornalista traça um perfil da vida de Collor na época de presidente. A rotina, os contatos, os “amigos” (do poder, é claro). A reportagem “O solitário da Dinda” é sobre a vida do ex-presidente depois da queda. O interessante é fazer um paralelo entre as duas. Depois de sair do poder, Collor perdeu os amigos. Poucos lhe telefonavam. O ex-presidente revela toda a sua mágoa. E Morais consegue descrevê-la muito bem. O livro não deixa de ser uma aula de jornalismo ministrada por quem entende muito bem do assunto.

Os livros de Lúcio Vaz e Fernando Morais são certezas de boas leituras para este início de ano.