28 abril 2006

Salários

Minha intenção era escrever o texto da atualização desta sexta-feira (28/04), mas acabei mudando de idéia. Navegando pela Internet encontrei no site Comunique-se (www.comuniquese.com.br) um texto que interessa a todos os jornalistas. Serve também aos estudantes do jornalismo. Já escutei muita gente dizer que o salário aqui da Paraíba é péssimo e que em outros locais se paga muito bem. O levantamento feito pelo Comunique-se mostra que não é bem assim. Até porque se deve levar em conta o custo de vida de cada Estado. O texto é grande, mas vale a pena dar uma olhada para saber qual o piso de jornalista em cada estado.

A dura realidade dos salários de jornalistas

Da Redação

O assunto é constante nas rodas de conversa dos jornalistas por todo o Brasil: o mercado paga mal. Mas será esta a realidade? Para tirar essa dúvida, o Comunique-se fez um levantamento em todos os Estados brasileiros (mais o Distrito Federal). O resultado é realmente preocupante. A média geral do salário do jornalista brasileiro pouco ultrapassa a cifra dos mil reais (R$ 1.077,10) por cinco horas de trabalho.
Paraná e Alagoas têm, hoje, os maiores pisos salariais desbancando São Paulo, que tinha os melhores índices em 2002. A base comparativa foi um levantamento feito também pelo C-se na época.
A pior média salarial é do Piauí e o piso único mais baixo é o de Roraima. Os jornalistas do Rio de Janeiro, um dos Estados de maior peso econômico no cenário nacional, ainda não conquistaram o direito ao piso. A situação se repete no Espírito Santo.

Confira os dados do levantamento, considerando o piso básico relativo a cinco horas de trabalho.

*ACRE
Piso: Único - R$ 1.210,00

O sindicato iniciará, em maio, a campanha salarial. Segundo o presidente da entidade, Raimundo Afonso Gomes, “este ano, vamos pedir aumento de 15%”.
Em 2002, o piso salarial do jornalista acreano era de R$ 850,00, o que significa que, nesses quatro anos, o reajuste foi de 42,35%.

*ALAGOAS
Piso: Único - R$ 1.666,45

Quatro anos atrás, o Estado não tinha nem piso salarial. Hoje, a média em Alagoas é uma das melhores do Brasil.
Neste ano, desde 11/04 o sindicato iniciou as reuniões de negociação na Delegacia Regional do Trabalho. A entidade está pedindo a reposição das perdas salariais de maio de 2005 a abril de 2006, como também um resíduo salarial de 2,07% referente a 2002/2003. Fora isso, o sindicato quer um aumento real de 5%. Para os profissionais que ganham acima de R$ 2.500,00, a proposta é de uma reposição de 8%. Por enquanto, as empresas não apresentaram contraproposta. “Esperamos fechar acordo até final de junho. Geralmente temos uma boa negociação e dificilmente entramos em dissídio”, informa o presidente Carlos Roberto Pereira Leite.

*AMAPÁ
Piso: Único - R$ 800,00

O sindicato também está em negociação salarial com proposta para subir o piso para R$ 1.200,00. A entidade quer encerrar o processo até maio. “Acreditamos que vai dar certo porque temos empresas aqui que pagam bem mais”, diz Volney de Jesus Oliveira, presidente da entidade.

*AMAZONAS
Piso: Único - R$ 800,00

O sindicato está em meio à campanha salarial. A proposta é de um reajuste de 10% e a contraproposta patronal é de pagar 7%. No Amazonas, o valor do piso salarial está parado há seis anos e, segundo um estudo da Fenaj, esse valor deveria estar em R$ 1.320,00. “Se eles oferecerem aumentar o piso, nós aceitamos o reajuste de 7%. Caso contrário, entraremos em dissídio”, informa o presidente da entidade, César Augusto Wanderley.

*BAHIA
Piso: não tem

O Estado não tem um piso definido porque não existe um sindicato patronal. Os acordos são realizados diretamente com cada veículo. O baixo valor do piso em rádio e TV derruba a média salarial do jornalista baiano para R$ 1.025,00 (nesse cálculo não foi considerado o piso referência do assessor de imprensa que é de R$1.800,00).
- Jornal A Tarde - R$ 2.281,00 (7h)
- Jornal Correio da Bahia - R$ 1.070,00
- Tribuna da Bahia - R$ 801,00
- Rádio e TV - R$ 720,00 (6h)

A campanha salarial está pedindo um aumento de 12% para cada um dos veículos. “Ano passado conseguimos muitas reivindicações e, por isso, acredito que este ano vai ser mais tranqüilo”, informa a presidente Kardelícia Mourão Lopes.
Comparado a 2002, os salários sofreram um leve aumento. Na época, um repórter da Tribuna da Bahia ganhava R$ 600. No Correio da Bahia o salário podia chegar a R$ 860 e no A Tarde o profissional recebia R$ 1.260 (5h).
Há quatro anos, os pisos de Rádio e TV baianos foram os mais baixos registrados pelo Comunique-se. O valor era de R$ 473,25.

*CEARÁ
Piso: variável de acordo com o cargo.

- Assessor de Imprensa e editor de impresso - R$ 1.845,84
- Repórter, redator e fotógrafo de impresso - R$ 1.050,00

Segundo informa Deborah Lima, presidente do sindicato dos jornalistas do Ceará, o Estado sempre teve uma enorme quantidade de "falsos" profissionais. “O sindicato começou uma campanha contra isso e, como retaliação, de 2001 pra cá todos os jornalistas de rádio e TV foram obrigados a se registrar na DRT como radialistas. Quem não se filiou foi demitido”. Até hoje, o sindicato luta para representar esses profissionais, mas a categoria patronal não reconhece a entidade. “Foi uma estratégia feita para tentar legalizar o ilegal. Todo ano entramos com dissídio coletivo. Ganhamos em primeira instância e o sindicato patronal recorre ao TRT. Até agora, não conseguimos nenhuma resposta definitiva”, relata Deborah.
De acordo com a sentença normativa de 2004, o piso desses profissionais deveria ser de R$ 1.155,40 para repórter, produtor e repórter-cinematográfico, e de R$ 1.502,02 para editor.
Segundo apurado pelo Comunique-se em 2002, o piso do jornalista cearense na época era de R$ 780,00.

*DISTRITO FEDERAL
Piso: variável de acordo com a mídia.

- Impressa - R$ 1.371,87
- Eletrônica - R$ 1.154,52

A campanha salarial do sindicato este ano está pedindo um piso único no valor de R$ 1.400,00. A contraproposta é de R$ 1.200,00 para mídia eletrônica e R$ 1.400,00 para impressa. O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Romário Schettino acredita que a negociação estará concluída em breve.
A tentativa de unificar o piso salarial já é antiga. “As negociações com os patrões são sempre difíceis”, declarou o então presidente, Edgard Tavares, em 2002. Na época, os valores eram de R$ 912,00 para mídia eletrônica e R$ 1.106,00 para impressa.

*ESPÍRITO SANTO
Piso: não tem

O SJES estabeleceu um salário referência no valor de R$ 1.200,00. A entidade iniciou este mês as negociações para conseguir fixar o piso salarial. A presidente informou que eles vão tentar ao máximo negociar porque a Justiça no Estado é morosa. “Para você ter uma idéia, os funcionários da TV Capixaba receberam ano passado um dissídio de 1992”, alega a presidente do SJES, Suzana Tatagiba Fundão.

*GOIÁS
Piso: Único - R$ 1.068,62

A campanha salarial ainda não começou. Mas o sindicato já tem pronta uma das propostas. “Vamos pedir reposição do valor do INPC + 5%. Ainda não decidimos o valor de aumento para o piso”, diz Luiz Antonio Spada (presidente). O piso salarial há quatro anos era de R$ 800,00, o que, em pontos percentuais, significa um aumento de 33,57.

*MARANHÃO
Piso: Único - R$ 864,18

As negociações salariais de 2006 começam em setembro.

*MATO GROSSO
Piso: variado

- Jornalista – R$ 1.050,00
- Assessor – R$ 1.575,00

O presidente do sindicato, Jonas Leite, informa que, apesar do salário-base ser de pouco mais de mil reais, a média salarial dos três maiores jornais gira em torno de R$ 1.800,00.
A entidade está em meio à campanha salarial. A proposta é aumentar o piso do jornalista para R$ 1.800,00 e do assessor para R$ 2.500,00. “Sou positivo e acho que vai dar tudo certo. Acredito que até setembro teremos uma posição”.

*MATO GROSSO DO SUL
Piso: não tem

O Estado não tem piso por não ter sindicato patronal. Existem acordos com três veículos:

- Correio do Estado – R$ 1.200,00
- TV Morena – R$ 1.200,00
- Jornal Progresso – R$ 900,00

A campanha salarial de 2006 já começou. O presidente Clayton Wander Nascimento espera estar com isso resolvido até o fim de maio.
Os jornalistas de Dourados também têm um sindicato. Na negociação salarial de 2006, já foi fechado um acordo. “É uma vitória porque nunca tivemos piso nenhum. Estamos em negociação com outros três veículos: Diário MS, TV Morena (local) e TV Rit. O Diário estava se recusando a negociar, então tivemos que levar o caso ao Ministério Público do Trabalho. Já tivemos três audiências e ainda não chegamos a um acordo. Nestes três veículos não abrimos mão de menos de R$ 900,00”, diz o presidente da entidade, Luís Carlos Luciano.

*MINAS GERAIS

Piso: variável de acordo com a mídia.

Rádio - R$ 900,00
TV - R$ 1.000,00
Jornais/Revistas - R$ 1.179,00

A reivindicação deste ano é unificar o valor do piso em R$ 1.230,00, acabando com a diferenciação. No item reajuste/aumento real, os jornalistas pedem 10% e também tíquete-refeição (poucas empresas o fornecem). O sindicato também está negociando com outros segmentos, como assessorias, jornais e emissoras do interior. Os acordos seguem as mesmas bases.
Segundo informações do SJPMG, as empresas alegam que não têm condições financeiras de atender as reivindicações da categoria. “Vamos começar nos próximos dias a fazer contato com anunciantes dos principais veículos, mostrando a situação dos jornalistas. Por último, estamos buscando promover ações conjuntas de jornalistas com radialistas e empregados na administração e ainda com os jornalistas de Brasília, que têm a mesma data-base de BH”, alega o presidente da entidade, Aloisio Soares Lopes.
Há quatro anos, o piso salarial para veículos impressos era de R$ 830,00. Rádios pagavam R$ 648,00 para iniciantes, enquanto as emissoras de TV pagavam R$ 724,00.

*PARÁ
Piso: variável de acordo com o tempo de trabalho.

A - R$ 1.242,80
B - R$ 1.547,70
C - R$ 1.632,17
A - Repórteres, Rep. Fotográficos, Rep. Cinematográficos e Diagramadores com menos de 1 ano de trabalho.
B - Repórteres, Rep. Fotográficos, Rep. Cinematográficos e Diagramadores com mais de 1 ano.
C - Repórteres, Rep. Fotográficos, Rep. Cinematográficos e Diagramadores com dois anos de trabalho.
O piso para produtores de TV é de R$ 900,00.

O sindicato já iniciou a campanha salarial e vai pedir 20% de aumento (com o INPC incluído). Em 2002, o Estado não tinha piso salarial.

*PARAÍBA
Piso: não tem.

A média dos salários dos jornalistas paraibanos fica em R$ 850,00. O presidente do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba, Land Seixas, informou que as negociações são diferenciadas por veículo e cargo. “O piso salarial do editor de página chega a R$ 1.800,00”.

*PARANÁ
Piso: Único - R$ 1.698,28

As negociações salariais começam em julho. Em 2002, esse valor era de R$ 1.184,63.

*PERNAMBUCO

Piso: não tem piso

O sindicato estabeleceu um salário-referência no valor de R$ 1.150,00. A categoria até tinha um piso salarial, mas, há 10 anos, em assembléia, os jornalistas resolveram deixá-lo de lado. Na época, a categoria era unificada com os radialistas, fato que acabava puxando para baixo o valor do piso. Segundo o presidente da entidade, Ayrton Barbosa Maciel Júnior, “talvez não tenha sido a melhor decisão. Hoje, tentamos voltar com o piso e não conseguimos”.

*PIAUÍ
Piso: variado por região.

- Capital - R$ 900,00
- Parnaíba, Picos e Floriano - R$ 630,00
- Demais cidades - R$ 450,00

Segundo informações do sindicato, o jornalista de Teresina tem o piso básico de R$ 900,00 e a cada ano trabalhado ele tem 2% de aumento sobre o salário. Esses 2% são progressivos, o que eleva o salário médio para R$ 1.000,00. “Esse nosso acordo faz a diferença no valor final do salário. Algumas pessoas ganham 30% a mais”, diz o presidente Luiz Carlos de Oliveira. A campanha foi encerrada em fevereiro.
Segundo o levantamento realizado pelo Comunique-se em 2002, os salários no interior do Piauí despencaram 24%. Há quatro anos, a média salarial era de R$ 590,00. Na capital, o piso era de R$ 670,00.

*RIO GRANDE DO NORTE

Pisos: diferenciado por níveis

- Nível 01 - R$ 640,68
- Nível 02 - R$ 678,90
- Nível 03 - R$ 829,07

O sindicato informou que a diferenciação dos níveis fica a cargo do empregador. No entanto, eles garantem que ninguém é contratado com piso inferior ao primeiro nível. No levantamento do C-se de 2002, o piso salarial do RN era unificado e no valor de R$ 524,00.

*RIO GRANDE DO SUL
Pisos: variável por região

- Capital - R$ 1.135,00
- Interior - R$ 960,00

Em quatro anos, o salário do jornalista de Porto Alegre subiu 37,92% (R$ 822,93) e o do interior, 43,57% (R$ 668,63). O sindicato vai iniciar a campanha salarial em junho. “Infelizmente o reajuste que pediremos será pequeno, em torno de 8%”, diz o presidente José Carlos de Oliveira Torves.

*RIO DE JANEIRO
Piso: não tem

O sindicato estabelece um salário mínimo profissional no valor de R$ 3.233,00. No entanto, a realidade é bem diferente e são poucas as empresas que adotam esse valor.
O presidente da entidade, Aziz Filho informa que a principal reivindicação da campanha salarial de 2006 é estabelecer o piso único da categoria no valor de R$ 1.500,00.
O patronato já apresentou uma contraproposta. Eles oferecem:

Jornal e Revista (para empresas com até 50 jornalistas) - R$ 750,00 (5h) e R$ 1.200,00 (7h)
Jornal e Revista (para empresas com mais de 50 jornalistas) – R$ 1.000,00 (5h) e R$ 1.600,00 (7h)
Rádio – R$ 800,00 (5h) e R$ 1.312,00 (7h)
TV – R$ 900,00 (5h) e R$ 1.476,00 (7h)

O Rio de Janeiro não possui sindicato patronal para assessor de imprensa. As assessorias que têm qualquer tipo publicação podem seguir o padrão salarial de jornal e revista.

*RONDÔNIA

Piso: variável

Faixa 01 – R$ 975,00
Faixa 02 – R$ 840,00
Faixa 03 – R$ 795,00
Faixa 1 – Repórter, Diagramador, Redator, Rádio Repórter, Noticiarista, Repórter de Setor, Repórter Fotográfico e Cinematográfico.
Faixa 2 – Revisor
Faixa 3 – Arquivista, Ilustrador, Arquivista Pesquisador e Chargista

O sindicato acaba de iniciar a campanha salarial. Eles pedem o aumento da inflação (5,48%) mais ganho real de 2%. No ano passado, a negociação durou mais de seis meses. “Esperamos que este ano consigamos resolver isso em menos tempo”, diz o presidente Marcos Antônio Grutzmacher. “Acreditamos que vamos a dissídio com rádio e TV porque eles não reconhecem o sindicato como representante dos profissionais”, completa.

*RORAIMA

Piso: Único – R$ 700,00

A campanha salarial deste ano quer o aumento do piso para R$ 1.100,00. O presidente Humberto de Andrade e Silva espera que a negociação esteja finalizada até maio.

*SANTA CATARINA
Piso: Único - R$ 918,72

Em quatro anos, o piso salarial do Estado subiu 22,49%. O valor na época era R$ 750.

*SÃO PAULO
Piso: variado por veículo e região

Jornais e Revistas da Capital - R$ 1.500,00 e R$ 2.400,00 (por 5h + 2 extras)
Jornais e Revistas do Interior e Litoral - R$ 1.250,00 e R$ 2.000,00 (por 5h + 2 extras)
Rádio e Televisão da Capital - R$ 1.134,00 e R$ 1.984,50 (por 5h + 2 extras)Rádio e Televisão do Interior e Litoral – R$ 723,00 e R$ 1.265,25 (por 5h + 2 extras)
Assessoria de Imprensa - R$ 1.667,00 e R$ 2.667,20 (por 5h + 2 extras)
Este piso está valendo até novembro de 2006. A exceção é o piso de assessor, que vai ser reavaliado em setembro.

O levantamento feito pelo Comunique-se em 2002 mostrava o Estado como tendo as melhores média salariais do Brasil. Hoje, com média de R$ 1.254,80, São Paulo perde para Alagoas, que tem o piso de R$ 1.666,45. Fred Ghedini, atual presidente do SJPSP, avalia a situação: “Alagoas é um caso à parte. É uma cidade pequena e onde jornalistas e patrões valorizam o sindicato, que, por sinal, tem uma direção lutadora, além dos profissionais serem muito unidos, o que não acontece no restante do País. No caso de São Paulo, embora hoje não estejamos mais na liderança nacional, nós tivemos, ao longo desses anos, consideráveis aumentos salariais”.
Há quatro anos, os pisos já eram diferenciados por veículo e por região. Veja os valores da época:

Para a capital:
Assessorias – R$ 1.287,50/ R$ 2.060 (7h)
Jornais e revistas – R$ 1.000,00 / R$ 1.600 (7h)
Rádio e TV – R$ 765 / R$ 1.338,75 (7h)

Para o interior:
Assessorias – o mesmo que a capital
Jornais e revistas – R$ 853,00 / R$ 1.365 (7h)
Rádio e TV – R$ 490,00 / R$ 857,50 (7h)

*SERGIPE
Piso: Único – R$ 750,00

O sindicato encerrou este mês a negociação. Eles conseguiram um reajuste linear de 7% e de 9,6% para o piso salarial. O valor do piso subiu de R$ 684,00 para R$ 750,00. Há quatro anos, esse valor era R$ 519,04, 44,5% menor do que o valor atual. Apesar do salário do jornalista sergipano não estar entre os melhores, os jornalistas do Estado têm o que comemorar. Há quatro anos, eles eram o Estado com o menor piso salarial.

*TOCANTINS
Piso: Único - R$ 1.100,00

O sindicato já enviou ofício para a DRT para iniciar a negociação. A proposta é de reajuste de 16%, com piso subindo para R$ 1.500,00.
No entanto, o presidente do sindicato reclama da dificuldade de negociar com a Organização Jaime Câmara. “Eles bateram o pé e fixaram um piso próprio de R$ 850,00. É complicado negociar com as retransmissoras da TV Globo. Elas amarram, acham que são as diferentes, as melhores. Mas vamos tentar acabar com isso na campanha deste ano”, informa a presidente Socorro Loureiro.

Fonte: Comunique-se (
www.comuniquese.com.br)

26 abril 2006

Relação com a imprensa

O texto foi publicado segunda-feira (24/04) no Correio Braziliense. O colunista Eumano Silva faz uma análise da relação entre o presidente Lula e a imprensa. Ele relata que os jornalistas são acusados de muito rigor na cobertura do governo Lula. Porém aponta elementos que mostram que as acusações contra a imprensa parecem ser falta de habilidade dos integrantes do governo em não saber lidar com as críticas.

Lula e a imprensa

Eumano Silva
Correio Braziliense

As relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a imprensa nos primeiros 40 meses de governo revelaram-se uma decepção. Ficaram muito distantes da expectativa criada em torno da primeira experiência de um trabalhador no Palácio do Planalto. Em vez de contatos amigáveis e respeitosos, os brasileiros assistiram a seguidas demonstrações de intolerância.

Em defesa de Lula, deve-se dizer que a imprensa erra. Erra muito. Na maioria das vezes, por pressa em publicar uma informação mal checada. Outras, por dar crédito a investigações em andamento, nem sempre confirmadas. A mentira proposital, felizmente, é um dos caminhos mais curtos para o fim de carreira de um jornalista. Para todos os casos, a legislação brasileira prevê punição, como acontece também com as autoridades envolvidas em irregularidades.

As falhas, muitas vezes graves, não justificam as freqüentes acusações de que a imprensa abusa do rigor na cobertura do governo Lula. Quem diz isso ignora o papel dos jornalistas na descoberta da rede de corrupção no governo Fernando Collor de Mello. Também não se lembra quando Eliseu Resende, o então ministro da Fazenda de Itamar Franco, caiu por manter relações indevidas com um empreiteira depois de uma denúncia publicada por uma revista semanal.

Nos oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, a imprensa divulgou uma série inquestionável de escândalos. O primeiro, sobre tráfico de influência na licitação de implantação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Muitos outros vieram em seguida. Foi o caso, por exemplo, da denúncia de compra de votos na emenda da reeleição. Teve também a divulgação das gravações relacionadas com irregularidades no processo de privatização das empresas estatais.

Quem conviveu com Lula em campanhas acostumou-se com um político informal e brincalhão. Demonstrava boa vontade diante das perguntas dos repórteres e sabia muito bem usar o poder da mídia para levar propostas e opiniões aos eleitores. Numa viagem de dez dias pelo rio São Francisco, por exemplo, na eleição de 1994, Lula dedicou boa parte do tempo a prolongadas e informativas conversas com os jornalistas que acompanhavam a caravana.

Em novembro do ano passado, repórteres responsáveis pela cobertura diária do Palácio do Planalto conheceram um outro lado do presidente enquanto aguardavam a chegada do primeiro-ministro da Jamaica, Percival Patterson, para uma solenidade. Os jornalistas quiseram saber a opinião de Lula sobre a denúncia, publicada pela revista Veja, de uso de dinheiro proveniente de Cuba na campanha eleitoral de 2002. "Que falta de educação", reagiu o presidente.

Na ocasião, Lula reclamou de inconveniência do autor da pergunta. Considerou o tom de voz muito alto e inadequado. Em outras circunstâncias, poderia ter razão, mas entrevistas improvisadas, mesmo no Itamaraty, eram prática corriqueira até aquele dia. Com a reação inesperada, ficou a impressão de que o presidente não queria responder a pergunta.

As origens da dificuldade de relacionamento remontam ao tempo do sindicalismo. O então líder operário acostumou-se a enxergar a imprensa como um bloco homogêneo e uniforme a serviço da burguesia. Não se pode negar que os donos dos meios de comunicação são patrões, mas também foi por meio de jornais, revistas, rádios e canais de TV que Lula tornou-se conhecido em todo o país ainda durante a ditadura militar.

A primeira crise relacionada à imprensa no governo aconteceu quando Lula resolveu expulsar do Brasil o jornalista Larry Hotter, do The New York Times, autor de uma reportagem exagerada sobre o hábito do presidente de tomar bebidas alcoólicas. A reação mostrou-se autoritária, despropositada e ineficaz. O assunto virou notícia em jornais dentro e fora do país e o presidente ainda teve de recuar da intenção de mandar Hotter de volta para os Estados Unidos.

As críticas ao comportamento da imprensa seriam menores se os integrantes do governo levassem em conta o fato de jornalistas hoje envolvidos nas investigações terem feito o mesmo nos governos anteriores, quando o PT era oposição. Alguns parlamentares petistas se notabilizaram pela quantidade de denúncias produzidas para alimentar as páginas da imprensa burguesa contra os poderosos daqueles tempos. Os jornalistas profissionais que aprenderam a trabalhar dentro daqueles parâmetros não têm por que mudar os critérios agora.

A resistência à imprensa, porém, não é uma característica comum a todos os petistas. Mesmo durante a crise, muitas relações entre repórteres e fontes de informação foram criadas e, em alguns casos, se fortaleceram. Um bom conselho para Lula sobre como se comportar diante de jornalistas poderia ser a comparação bem-humorada feita pelo presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP): "Imprensa é como dentista, pois ninguém gosta, mas todos precisam dela".

20 abril 2006

Ainda sobre 'herros'

Léo Alves

Acredito que não exista nenhum jornalista na face da terra que nunca tenha cometido um erro na profissão. Eu já cometi e sei que ainda vou cometer. Por mais que tente não errar, a profissão exige pressa. É nesse ponto que a gente se ferra.
Existem dois casos para mim inesquecíveis.
O primeiro foi logo que comecei a trabalhar na rádio. Inexperiente, lá fui eu apresentar uma resenha noturna sozinho. Cheguei um pouco atrasado. Entrei no estúdio em cima da hora. Na abertura do programa li algumas manchetes do jornal. Em seguida, li as notícias (achando que estava abafando). Veio o intervalo. E um monte de ligações dizendo que vários jogos já tinham acontecido. Foi aí que vi que o jornal era do dia anterior. Desde então passei a olhar as datas dos jornais antes de ler alguma coisa.

A outra gafe foi mais recente. Num final de ano, estava apresentando o Esporte no 9, na TV Borborema. Quando programa terminou, pelo som interno, o pessoal da técnica começou a gritar (nem me lembro porquê) e eu, achando que já havia encerrado, passei a bater na bancada de apresentador. Quando a galera me avisou que ainda estava no ar tive vontade de desaparecer. Olhei a gravação e quase entro em depressão. Mas não tinha mais o que fazer. O pior foi ter que explicar a um monte de gente porque eu estava parecendo um doido no fim do programa.

Os erros que podem parecer bestas pra gente têm muita importância para o leitor, telespectador e ouvinte. Lembro que recebi inúmeras ligações, na época que trabalhava no Diário da Borborema, de pessoas reclamando que o horóscopo estava repetido (tem gente que se preocupa muito com isso), que o capítulo da novela estava errado e até de pessoas que reclamavam da programação das tevês que estavam publicadas erradas. Tem uma história (que não sei se é mito) que um cara queria processar um jornal porque a programação de tevê estava errada e ele havia perdido o programa que queria assistir.

O caso de erro mais clássico aqui de Campina Grande é o que resultou na quebra do parque gráfico do Diário da Borborema, em 1968. Segundo me contaram, o empresário Edson Gaudêncio era casado com a Secretária de Educação de Campina Grande. Na época, a Prefeitura tinha comprado uma “Vaca Mecânica” (aquele equipamento que transforma grão de soja em leite).
No dia seguinte, estavam na capa do DB as fotos da Vaca Mecânica e da Secretária de Educação. Porém, na hora de colocar a legenda alguém se enganou ou fez por maldade. A foto da secretária saiu com a legenda: “A vaca leiteira da Prefeitura de Campina Grande”. O marido se revoltou.
Dizem que ele tomou umas e outras num bar perto do jornal. Depois, pegou uma marreta, arrombou a porta e quebrou o parque gráfico. Quando voltou para o bar contou o feito. Alguém perguntou: “quebrasse a redação também?”. Tem sempre alguém que quer a desgraça maior.
Não deu outra, Edson Gaudêncio voltou e quebrou a redação. Até hoje o DB não é mais impresso em Campina Grande. Atualmente o jornal é rodado em Recife.

A preocupação em acertar deve ser de todas as pessoas envolvidas no processo jornalístico. Já trabalhei (trabalhei, não trabalho mais, viu?) com pessoas na produção de tevê que não se preocupavam muito com o que escreviam na pauta.
Certa vez recebi uma pauta sobre um filme que seria exibido na Sexta-feira Santa no Parque do Povo. Era Jesus de Nazaré. A produção pedia para que fosse até o local para saber a programação. E quando foi se referir ao filme escreveu que o diretor era Zé Firelli. Eu sei que é difícil de entender logo de cara.
Deixe-me explicar.
O filme é dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Eu imagino (nunca vou ter certeza) que o organizador da sessão deve ter dito. “vamos exibir o filme Jesus de Nazaré de Zefirelli”, supondo que a produção sabia de quem se tratava.
Enganou-se.
Eu tive que decifrar o que a produção queria. Ainda bem que era Semana Santa, tempo de silêncio.

18 abril 2006

"Herrar é umano"

Daniel Brito

É impossível não errar nunca no jornalismo. Principalmente quem está em universidades, ou profissionais ultrapassados, sem espaço no mercado, tem a ridícula mania de enumerar os erros de quem está na ativa.

É horrível errar, realmente. Principalmente quando é um erro besta que acaba fazendo um estrago grande, o que não é o caso do que aconteceu com os caracteres da matéria de Da Silva no Globo Rural.

Um jornalista de Joinville me disse que lá no jornal onde ele trabalha já criaram até uma seção: ACERTAMOS

Seria exatamente o contrário do tradicional ERRAMOS da Folha de S.Paulo, Correio Braziliense e outros jornais por aí. Segundo esse jornalista, eles fazem tanta cagada que dá para contar nos dedos os acertos do jornal dele.

Mas baseado nessa história do errinho no crédito da matéria de Da Silva, resolvi contar algumas histórias de erros que tenho na cabeça agora.

O erro que está mais presente em minha memória neste momento é um do Correio Braziliense de duas semanas atrás. Era final de semana de decisão nos principais campeonatos estaduais no Brasil. Por coincidência, Botafogo, Santos, Figueirense, Ceará (todos alvinegros) foram campeões.

Na hora de fechar a primeira página do jornal, decidiram colocar uma foto do Botafogo comemorando o título. Na pressa para fechar o jornal em cima da hora, colocaram a foto do Ceará e a legenda do Botafogo. Por engano, claro.

Resultado: choveu emails, ligações e reclamações de torcedores botafoguenses na redação e na editoria de esportes, que é onde trabalho. O que o leitor não sabe, é que a editoria de esportes fecha só esportes. Quem fecha a primeira página são os chefes da redação. Ainda bem, porque se tivesse sido eu, poderia ser demitido. Os chefes que fecharam aquela página pegaram seis dias de suspensão.

O pessoal de Minas conta um caso interessante. Existe um jornal chamado Diário da Tarde, em Belo Horizonte. Pelo que me contaram, eles são especialistas em vacilar. O auge foi na divulgação do resultado do vestibular da UFMG de qualquer ano desses aí.

Quando eles receberam a lista dos aprovados em um disquete e a dos alunos que ficaram para segunda chamada em outro disquete. Acontece que eles divulgaram os nomes da galera que tava para segunda chamada como aprovado, por algum engano nos disquetes.

Será que teve confusão?

Um diagramador do Correio Braziliense foi demitido porque colocou os números da Mega-Sena trocados. Imagine a frustração do cara que pensou que tava milionário ao checar os números no Correio?

É engraçado dar uma olhada no ERRAMOS da Folha de S.Paulo. Acho que eles fazem aquilo só para sacanear. Um dia eu vi algo assim:

Diferentemente do que foi publicado na edição do dia TAL desta Folha de S.Paulo, o Brasil não tem 160.574.234 habitantes e sim 160.576.234.

Eles esqueceram dois mil brasileiros nessa contagem. Alguém deve ter sentido falta e eles corrigiram.

O grande diferencial da internet para jornal, TV ou rádio é o poder da correção. Eu, por exemplo, já corrigi esse texto aqui três vezes e ninguém percebeu que eu tinha errado antes. Se bem que ainda tem os tradicionais erros de vírgula que vão me acompanhar até o dia que eu parar de escrever.

Da Silva, por exemplo, sempre dá uma revisada nos meus textos e eu no dele. Ele mais do que eu, confesso (foi mal, Sombra!).

Errar no jornal ou na TV é terrível porque fica gravado para sempre na fita, no papel ou qualquer outro lugar. É o erro perpetuado...

Ainda bem que eu não escolhi ser médico, caso contrário já tinha matado muita gente com os errinhos que cometo diariamente no jornal...

15 abril 2006

Sem crédito

Por Léo Alves

Decididamente eu não confio mais em todos os créditos nas reportagens de televisão. Todas as vezes que aparecer o nome do repórter ou do entrevistado ficarei desconfiado. Lógico que essa desconfiança vai se limitar a repórteres dos estados que não aparecem com freqüência em rede nacional. Até porque ninguém vai errar o nome de Poliana Abrita, Cristina Serra, José Roberto Burnier, Marcos Uchoa, Patrícia Poeta, Marcos Losekan e de tantos outros que aparecem diariamente na telinha da Globo. Deixe-me explicar o porquê dessa minha desconfiança.

Há duas (quase três) semanas o pessoal da produção da tevê enviou minha reportagem sobre “Flores de Pilões” para o Globo Rural. ‘Minha’ é só força da expressão. Nenhum repórter faz matéria sozinho. A reportagem é minha, da produção, do cinegrafista, do iluminador e do editor. Trabalho de equipe. Pois bem depois do envio passei a aguardar qual o dia que a matéria seria veiculada. A equipe do Globo Rural fez uma previsão de data, mas alertou que a matéria poderia “cair”, pois era fria. Poderia ser exibida a qualquer dia.

Desde então passei a acompanhar o Globo Rural, que começa às 6h15min. Queria ver a matéria em rede nacional. Antes uma matéria com meu crédito havia ido pra rede. Era sobre o sacrifício dos porcos, em Cuitegí. Nessa reportagem eu apenas gravei o ‘off’. Toda a reportagem foi feita por um estagiário nosso, o Wanderley Filho. Como o texto ficou bom eu apenas emprestei minha voz. O mérito é todo de Wandy.

Logo que soube da previsão de data comuniquei ao meu amigo e parceiro deste blog Daniel Brito, que mora em Brasília. Lá na capital federal 6h15min é madrugada. DB me alertou sobre o fato de ter que madrugar para ver o amigo em rede nacional. E ele (e eu também) madrugou por quase duas semanas. Ficou tão íntimo do Globo Rural que chegava a dizer que “a Pri (Priscila Brandão, a apresentadora) estava me sacaneando e não anunciava minha matéria”. Além disso, passava o dia cochilando pelos cantos por causa do sono. Eu também não estava gostando muito dessa história de acordar muito cedo.

Finalmente terça-feira passada, a Pri (depois de tantas manhãs acordando com ela acabei ficando íntimo) anunciou a matéria na escalada. Liguei para DB para avisar da matéria. O pior era que ele na noite anterior tinha ficado até de madrugada fazendo o guia do Campeonato Brasileiro do Correio Braziliense.

A reportagem começou a ser exibida. Ia tudo direitinho, quando de repente aparece a passagem com o seguinte crédito: Juliano Sousa (Pilões-PB). Na hora dei uma gargalhada e pensei: “tem coisas que só acontecem comigo”. Foi terminar a matéria para DB ligar me chamando de “Jú Sousa”. Todo mundo da tevê tirou onda. Na verdade Juliana Sousa é outra repórter da tevê, que já fez um monte de matérias para o Globo Rural. Na maioria das vezes é ela quem faz. Aí o que aconteceu foi que na hora de enviar os créditos para a rede, a produtora lá de João Pessoa, mandou o nome de Juliana. Quando a matéria chegou, o pessoal deve ter pensado que tinha sido erro de digitação e meteu um “Juliano Sousa” na tela.

Quando fui falar com minha mãe sobre o erro, ela respondeu: “e foi? Nem percebi”.
Tive a certeza que muita (muita mesmo) gente nem presta atenção nos créditos das matérias. Tem um colega de DB, no Correio, que é revoltado com essa história dos leitores nem prestarem atenção no nome de quem escreveu a reportagem. Isso DB conta em outro post. Na faculdade, apenas duas alunas minhas perceberam que o nome tinha saído errado. O restante comentou a matéria, mas nem se ligou no crédito. Fiquei mais surpreso pelo fato deles acordarem cedo e assistir o Globo Rural.

O pior é que em dezenove anos de TV Paraíba essa foi a primeira vez que aconteceu um erro desses. Tinha que ser logo comigo. Espero que tenha sido também o último. Para não correr o risco de na próxima vez que Juliana fizer a matéria, alguém querer compensar o erro e enviar o crédito dela como “Leonarda Alves”. Vai ser muito pior.

12 abril 2006

"Deu no jornal..."

O projeto “Deu no Jornal”, da Transparência Brasil, inaugura nesta semana um novo serviço: o blog “Deu no
Jornal”. O endereço é http://deunojornal.blogspot.com

O blog traz a síntese e o contexto da principal notícia do dia sobre corrupção, compilando as principais
informações das 63 publicações que alimentam o banco de dados. Diariamente, o blog também apresenta outras
notícias sobre corrupção publicadas em jornais e revistas brasileiros. Os leitores podem fazer comentários
sobre as notícias. O blog “Deu no Jornal” é editado pelo jornalista Marcelo Soares, coordenador do projeto.

Criado em 2004, o “Deu no Jornal” monitora casos de corrupção noticiados em todas as regiões do Brasil.
Atualmente, o banco de dados dispõe de mais de 90 mil notícias, que podem ser pesquisadas por assunto, por
jornal e por palavra-chave. A partir desses dados, são feitas análises sobre os padrões de cobertura do
noticiário sobre corrupção nos diversos Estados e publicações do país. O projeto é financiado pela Ford
Foundation.

11 abril 2006

A arte da Entrevista

Existe um livro chamado "A arte da entrevista". Já tem até dois volumes. O primeiro é de 1995 e o segundo de um ou dois anos atrás. Não é nenhum livro didático nem nada. São apenas coletâneas de entrevistas históricas no Brasil e no mundo. É uma excelente leitura para quem é jornalista e para quem gosta de história. Tem entrevistas com Oscar Wilde, Gilberto Freire, Winston Churchill, Ullisses Guimarães e por aí vai.

Mas entrevistar, realmente, é uma arte.

Nem todo mundo consegue respostas sensacionais. Dia desses, soube que a Globo fez uma matéria sacaneando os jogadores de futebol que só respondem "com certeza", independentemente da pergunta.

- O jogo vai ser fácil?
- Com certeza...
- E se for difícil?
- Ah, com certeza...

Tudo bem que repórter de esporte tem a horrível mania de fazer sempre as mesmas perguntas. Já viu entrevista após conquista de um título?

- Estamos ao lado do jogador Zé Galego. Zé Galego, é muita emoção?
- Com certeza, é muita emoção...

É ridículo, mas é a realidade.

Tem um narrador de rádio aqui em Brasília que chega ao cúmulo de pedir para os repórteres de pista fazerem a seguinte pergunta:

- Você agradece a Deus por esse título?
- Agradeço a Deus todo poderoso, criador do céu e da terra...

Parece aqueles programas da TV Record que passam de madrugada.

A arte da entrevista, na minha modesta, opaca e pálida opinião, está na malícia do entrevistador. No post "Um dia de paparazzi", sobre a visita de Maradona a Brasília, comentei algo sobre isso. Eu não sou nada malicioso, mas gosto de fazer mais ou menos assim.

1 - Converso amenidades com o entrevistado;
2 - faço perguntas óbvias (tipo: "é muita emoção?");
3 - Tento conquistar a "amizade" do entrevistado;
4 - Dou a "facada", ou seja, entro no assunto espinhoso.

Aconteceu quando fui falar com a mala-sem-alça da Daiane dos Santos. Ela é uma excelente atleta, mas péssima de entrevista. Por meio da assessoria de imprensa do patrocinador dela, tivemos uma rápida entrevista com ela pelo telefone, minutos antes de ela conversar com Condoleezza Rice, secretária de estado dos EUA. A Sr. Rice estava de visita em Brasília e queria conhecer "young winners from Brazil". Entre eles, Daiane.

Bom, a história é muito longa, mas deixa eu tentar resumir pq ainda tenho duas histórias para contar. A ginástica brasileira estava no meio de um furacão porque DAnielle Hipóllyto acabara de brigar com o técnico da Seleção Brasileira de ginástica. Claro que a conversa com DAiane seria sobre isso e não sobre o aperto de mão e a troca de sorrisos amarelos que teria com a Sr. Rice.

Tinha que conquistar Daiane em três minutos, o tempo que me deram para entrevistá-la. Comecei dando os parabéns pelos resultados, contando que assisti às apresentações dela com minha família (mentira!) e queria saber como ela se sentia como grande exemplo para jovens atletas brasileiros.

- Normal. Faz parte do trabalho, respondeu ela

Puxei outra pergunta sobre o calendário dela para a temporada, se os brasileiros poderiam vê-la no pódio outra vez, se as competições eram difíceis ou o quê:

- Normal, cortou

Sabendo que meu tempo estava esgotando, parti -- com raiva -- para a pergunta que me renderia tudo que queria.

- Daiane, o que você achou da confusão entre DAnielle Hipóllyto e o técnico da Seleção Brasileira de Ginástica?

SAbe o que ela respondeu?

- Normal, faz parte do trabalho....

piiiiii
piiiiii
piiiiii

fim de "conversa"

Ainda tive que escrever 40 centímetros sobre esse acrescentador bate-papo para edição do jornal do dia seguinte.

Nessa história de "conversar amenidades" no começo, quase que eu arrumo uma confusão com auxiliar técnico do time do Chelsea, campeão inglês de futebol. Isso está contada no post "Ficha Extensa", de janeiro, neste blog.

Dizem que Romário e Bernardinho são da mesma família: objetivos. Nunca entrevistei Romário. Mas sei (um pouco) como é Bernardinho. É bom você ter todas as perguntas na ponta língua, porque ele está sempre um passo à frente para sair da entrevista o mais rápido possível. Responde tudo com objetividade, sem firulas, nem piadas.

Robert Scheidt, velejador brasileiro, bicampeão olímpico, é o segundo cara mais chato que já entrevistei. Se o repórter demonstrar que não entende de vela, ele fecha a cara e não responde direito mais...

O presidente da Confederação Brasileira de Futsal, um senhorzinho de 80 e muitos anos chamado Aércio de Borba, me parecia simpático. Mas ele entrou em uma briga política na Confederação e fui entrevistá-lo pelo telefone.

Usei da minha tática. Não deu certo.

Depois de quase 45 minutos de briga no telefone (ele reclamando que as perguntas estavam muito bestas e eu insistindo), a conversa se encerrou assim:

- Olhe, se você não tem pergunta inteligente para fazer, não tem a mínima condição de a gente manter um diálogo....

piiii
piiii
piiii

Acontece que o véi tava se sentindo perseguido. Uma das denúncias dos opositores dele era de que ele tava na confederação a contragosto da família. Então fiquei perguntando o que a família achava de ele ainda estar no batente já na casa dos 80 anos de idade. Ele pensou que fosse provocação e respondeu no tom irônico:

- Eles querem que eu morra trabalhando...

Sabia que jamais poderia publicar tal coisa, por mais que fosse uma "aspa" sensacional!

Mas o cara mais chato que já entrevistei na minha vida é, sem sombra de dúvida, Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele esteve na semana passada em Brasília para se encontrar com o presidente Lula.

Lá fui eu entrevistá-lo.

Me lembro que meu pai havia me contado uma célebre história entre eles (meu pai e Teixeira).

Aconteceu em uma entrevista coletiva em Brasília, lá para as bandas de 1992, 1993. Meu pai tinha feito algumas críticas a Ricardo Teixeira no Correio Braziliense. Ele, certamente, deve ter lido e guardado o nome do meu pai (que não é um nome comum: marcondes).

Meu pai se dirigiu ao microfone para fazer a primeira pergunta, mas antes se identificou, como é de praxe em coletivas:

- Marcondes Brito, Correio Braziliense
- Peraí... De onde?
- Correio Braziliense!
- PAra este jornal eu não falo

Ah, tá...

Ricardo Teixeira é um chato.

Já de volta a 2006, veja o que aconteceu comigo.

Em Brasília, ele veio entregar uma carta que o presidente da Fifa mandou a Lula. Sabia que ele não era muito adedpto de respostas bombásticas, então formulei duas perguntas intrigantes:

1 - Qual a opinião do senhor sobre a idéia da Argentina de querer sediar a Copa de 2014 conjutamente com o Brasil, conforme foi noticiado em Buenos Aires?

2 - Parreira disse a uma revista inglesa que liberaria o sexo para os jogadores antes do jogos da Copa de 2006, o senhor concorda?

Veja o que eu escrevi no Correio Braziliense do último dia 4:

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, não acredita na imprensa internacional. Principalmente a argentina e a inglesa. Publicações dos dois países divulgaram na última semana notícias sobre o Brasil que Teixeira classificou como mentirosas. O dirigente esteve em Brasília ontem para visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
(...)
Teixeira falou rapidamente com a imprensa antes de deixar o local e classificou como mentirosa a notícia segundo a qual a Argentina proporia ao Brasil a divisão da sede da Copa do Mundo de 2014. A informação foi divulgada em sites de esportes da Argentina e republicada no Brasil. A proposta teria partido de Julio Grondona, presidente da Associaçãodo Futebol Argentino (AFA).
“É mentira. O próprio Grondona anunciou que o Brasil fazia por merecer o direito de sediar o Mundial de 2014”, rebateu Teixeira, no saguão de entradado Palácio do Planalto.
(...)
Sobre a entrevista concedida pelo técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, à revista inglesa Maxim — o treinador teria afirmado que o sexo será liberado para os jogadores antes dos jogos na Copa da Alemanha —, Teixeira reagiu da mesma maneira. “Parreira já afirmou que era mentira. Minha opinião é a mesma dele”, disse.

Engraçado nessa história é que quando fiz a segunda pergunta, sobre o sexo, ele ficou vermelho e nervoso e me desafiou:

- Você só faz perguntas baseadas em mentira???
- Mas, presidente, não fui eu que disse. Foram os ingleses
- Os ingleses mentiram
- Então tá. Vai sair assim no jornal amanhã. Qual a opinião do senhor sobre essa história do sexo?
- A mesma do Parreira.

Teixeira, definitivamente, não tem o dom da "Arte da Resposta".

07 abril 2006

Profissão perigo II

Como bem descreveu Daniel no post anterior, a profissão de jornalista tornou-se perigosa. Se é que um dia ela deixou de ser. Basta olhar um pouco para história.

Muitos colegas foram agredidos, torturados, mortos. Wladimir Herzog, Tim Lopes, que foi assassinado por traficantes, Verônica Guerin, repórter irlandesa vítima de traficantes depois de publicar uma série de reportagens que denunciava os criminosos.

Os exemplos são muitos. Prefiro parar por aqui para não assustar ninguém.

Não é apenas a cobertura policial que oferece riscos. Quem trabalha no esporte sabe bem o que é ter que encarar torcedores apaixonados e enfurecidos. Para o repórter de tevê (o meu caso) é ainda pior. Nunca cheguei a ser agredido. Mas já perdi as contas das vezes que me chamaram de filho da puta, fresco, ‘viado’, safado, marginal, ladrão e b...

Basta ter um lance polêmico no jogo que todo mundo se vira pra cabine de tevê e diz logo: “mostre o lance viu seu safado senão a gente te pega”. É assim mesmo. Como se o repórter fosse culpado de o time dele perder. Nessas minhas andanças pelos caminhos do esporte na Paraíba, tive que me fingir de surdo várias vezes.

Domingo passado fui a Sousa. O Treze ganhou por 3 a 0. No final, quando nossa equipe saía, uns torcedores gritaram: “mostra o roubo da arbitragem viu”. Quase que eu dizia: “meu amigo, o Sousa perde por 3 a 0 e ainda teve roubo da arbitragem?”.

Certamente teria levado pelo menos um pontapé. Em certos momentos é melhor ficar calado (e eu era doido de falar pra apanhar?). Por aí você sente como tudo recai sobre a imprensa.

Historicamente, onde os torcedores criam mais problemas com a imprensa é em Patos. Daniel relatou no post anterior a raiva da torcida com Humberto de Campos. Um outro cara que não tinha nada a ver com a história acabou levando um soco, como forma de recado pra Humberto.

Por falar nele, o comentarista esteve em Patos pela Rádio Tabajara (ou foi Caturité?) para transmitir a primeira partida da semifinal do turno. No comentário do outro dia disse que passaria pelo menos mais vinte anos sem voltar lá. O clima nesse jogo (Nacional 3 x 3 Treze) foi quente.

No intervalo uns torcedores se viraram pra cabine e ameaçaram nossa equipe. A mesma história de sempre: “o roubo da arbitragem”. Pior para os colegas da TV Correio que foram cercados por torcedores. A coisa só se acalmou quando a polícia apareceu. Nem por isso eles deixaram de levar uns empurrões.

Há uns quinze dias, o companheiro Marcos Vasconcelos foi fazer o jogo entre Esporte de Patos e Treze. Voltou com a mesma história. Foi ameaçado por torcedores que prometeram “pegá-lo” se não mostrasse "o roubo da arbitragem" . O interessante é que nesse jogo o Treze é que foi roubado. O árbitro marcou um pênalti contra o Galo que não existiu. Quando o Esporte vencia por 2 a 0 ninguém se lembrava da imprensa. Mas quando o Treze empatou no final (o jogo foi 2 a 2) começou tudo novo. Haja xingamento.

Em Campina Grande, a paixão (o fanatismo) dos torcedores também chega ao extremo. Se o repórter é setorista de um clube é odiado pela torcida rival. Ninguém entende que o cara está fazendo seu trabalho. Hoje ele cobre o Treze, amanhã pode estar cobrindo o Campinense. Quando o repórter muda de lado, o ódio da torcida também muda.

Outro problema é quando você faz uma reportagem que não agrada. Se for contra o Treze, é tachado de raposeiro. Se for o contrário, é trezeano. A paixão do torcedor não o deixa enxergar que o compromisso do jornalista é com a verdade. A besteira (não encontro outro termo para definir a atitude do torcedor) é tão grande que enche o saco.

Em dias de treino, a alegria dos torcedores nas arquibancadas é descobrir quem é trezeano e quem é raposeiro. O que mais escuto é: “qual o time que você torce?”, “você é trezeano ou raposeiro?. A resposta é a mesma: “sou profissional”. E deixo a dúvida no ar.

Aliás, evito até falar de futebol fora do trabalho. Quando estou tomando uma cerva com os amigos e a galera puxa pro futebol eu me calo. Fico só ouvindo. Quando alguém insiste em ouvir minha opinião, educadamente, eu digo: “não gosto de falar de futebol fora do trabalho porque aquele é um momento de lazer pra mim”. Tenho certeza que muita gente me acha chato. Prefiro assim. É melhor que comentar algo que desagrade um fanático que está à mesa e inicie uma discussão. Pode parecer radical.

Mas é assim mesmo, o cara quer ouvir minha opinião à espera de um elogio do time e do jogador preferido dele. Se for diferente não vai gostar. Às vezes eles querem que eu fale pra descobrir se sou trezeano ou raposeiro. Até em momentos de lazer a profissão se torna perigosa.

Há uns dois anos, ouvi o narrador Luciano do Vale dizer, em entrevista, que não é feito nada para proteger os jornalistas. Não sei se é verdade, mas dizem que Luciano havia deixado de transmitir jogos por causa das constantes ameaças que sofria nos estádios. Ele disse que o torcedor tem seu Estatuto, o Tribunal de Justiça está de olho nos jogadores brigões, a polícia protege os árbitros quando eles saem. E nós jornalistas?

Luciano tem razão. Quando os jornalistas saem do trabalho, em quase todos os estádios, são obrigados a passar no meio dos torcedores. A polícia (muitas vezes) nem está por perto. A preocupação dela é proteger as delegações dos times e os árbitros. Os jornalistas que se virem.

Nos locais que dão acesso às cabines de rádio e tevê não existe policial. Às vezes não tem nem porteiro, entra quem quiser. É comum na hora do trabalho aparecer um desconhecido na cabine. Da mesma forma pode aparecer por lá torcedores revoltados.

E se isso acontecer “quem irá nos defender?”

Só se for o Chapolin Colorado.

03 abril 2006

Profissão perigo

Recebi um email no jornal que caiu como uma luva (de boxe) para o que estava pensando em escrever ultimamente. Trata-se de uma espécie de clipping de notícias sobre jornalismo/jornalistas na América Latina. Vem do Instituo Knights de Jornalismo das Americas.
Dê uma olhada nas manchetes da semana que passou abaixo:

ANTÍGUA E BARBUDA:
Ativista é preso com base em documentos relacionados a carreira como jornalista (Antigua Sun)

ARGENTINA:
Organização presta homenagem a 98 jornalistas vítimas da ditadura militar

CHILE:
Irmão de vítima pede a jornais que se desculpem por charges publicadas durante ditadura (La Nación)

COLÔMBIA:
SIP pede investigação de assassinato de jornalista em 2002 (PR Noticias)

CUBA:
Manifestantes fazem cadeia de jejum em solidariedade a jornalista em greve de forme (Cubanet)
Jornalista presa por desobediência e resistência ganha liberdade condicional (Cubanet)
Jornalista costura a boca em protesto contra maltratos na prisão (Cubanet)

GUATEMALA:
Rádios comunitárias indígenas são atacadas e fechadas (IFEX)

MÉXICO:
Jornalista perde processo por difamação e deverá corrigir livro (Milenio)

PARAGUAI:
Oficiais se contradizem ao responder se jornalista desaparecido tinha proteção policial (La Nación)
Chefe da polícia perde cargo por caso de repórter desaparecido (PPN)

PERU:
Jornalista é ameaçada pela terceira vez por investigar narcotráfico (IPYS)
Jornalista é agredido e ameaçado de morte após informar sobre assassinato de colega (Committee to Protect Journalists)

PORTO RICO:
Repórter de rádio é atacado ao cobrir demonstração (El Vocero de Puerto Rico)
Uso de gás lacrimogênio pelo FBI em repórteres gera preocupação (Committee to Protect Journalists)

REPÚBLICA DOMINICANA:
Polícia prende suspeito de assassinar jornalista de rádio (Associated Press/El Nuevo Herald)


Definitivamente, quem quer levar uma vida tranqüila não deve escolher jornalismo como profissão.

Casos de briga, espancamento, ameças de jornalistas são famosos nas redações de qualquer veículo. Algumas chegam a ser engraçadas, outras, perigosas.

Eu nunca sofri com nada disso. Uma vez fui fazer matéria de um velho que estuprava garotas num bairro em Campina Grande. Quando estava na delegacaia, a família do véi me ameaçou. Levantei o nariz e passei por eles como se nada estivera acontecendo. No fundo, estava gelado de medo de levar um pontapé nas costas do filho do velhote. Fora as conversas de torcedor bêbado que tive que agüentar nos estádios. Nada fora do normal.

Tem o caso de dois repórteres do Correio Braziliense que descobriram e divulgaram para o Brasil o esquema de corrupção de Luiz Estevão, primeiro senador cassado do país. Ele levou só para o bolso dele R$ 200 milhões na construção do famoso prédio do TRT de São Paulo, há quase sete anos.

Não trabalhava no CB na época, mas todos lembram, ainda temerosos, quando os repóteres estavam chegando ainda mais fundo nas investigações. De repente, os filhos dos jornalistas (eram dois repórteres, um homem e uma mulher) começaram a sofrer ameaças, eles passaram a ver a mesma pessoa com cara ameaçadora na portaria do prédio delas, na porta da escola do garoto e coisas do tipo. Teve uma repórter que pediu demissão do jornal por causa disso. Tirando o susto, nada aconteceu a eles, felizmente. E o nosso Lulu perdeu o "emprego". (Mas não o dinheiro).

Em Campina Grande, tem o folclórico caso de Humberto de Campos. Com sua língua afiada, Humberto falou mal de algum time de Patos, quando comentava pela TV Borborema. Algumas semanas depois, a equipe da TV voltou a Patos para cobrir um jogo do tal time criticado. Humberto não havia ido.

Na entrada do José Cavalcanti, um torcedor interpelou o motorista da TV:

- Você trabalha com Humberto de Campos?
- Sim, trabalho sim, respondeu animado o pobre do motorista.
- Você poderia repassar um recado para ele?
- Diga lá...
Antes mesmo de falar o "lá" o motorista levou um murro na cara do torcedor que ainda estava revoltado com os comentários de Humberto. O funcionário da TV, claro, não repassou o recado para Humberto.

Meu pai também passou por um aperto em 1983 ou 1984, não me lembro a data. Ele foi repórter de jornal no começo da década de 1980 e escreveu um artigo em O Norte e no Diário da Borborema com o título "Festa no Interior".

Treze e Botafogo fariam a final do Paraibano em Campina e meu pai quis apenas fazer um trocadilho com a música de Elba Ramalho.

Acabado o jogo, acho que o Galo havia vencido, e os jornalistas foram para Manoel da Carne de Sol. Chegando lá, meu pai entrou no banheiro. Um cara o seguiu e o ameaçou.

- Que história é essa de festa no interior, hein? Campina não é interior, reclamou o cara para o meu pai. O ameaçador estava com a mão na cintura, como quem tem alguma arma guardada.

Por sorte, alguém entrou no banheiro na hora e a conversa se encerrou por aí. Devia ser torcedor do Treze mesmo...

Outro lance curioso aconteceu na China. Lá, como em Cuba, jornalistas não são bem-vindos. Recentemente, um jornalista denunciou corrupção na polícia de determinada cidade. Ele passou a ser perseguido por policiais, mas coincidentemente teve forte crise de rins e foi internado.

Ele pensou que a perseguição acabaria. Pensou errado. Logo que retornou aa redação, o chefe de polícia acusado invadiu a redação e cobriu o camarada na porrada. A última notícia que li desse chinês é de que ele estava internado em estado grave justamente porque as pancadas foram mais fortes na região dos rins do chinesinho.

A polícia já matou um jornalista aqui em Brasília. Ele é famoso até hoje. Mário Eugênio, assassinado na porta da Rádio Planalto AM por policiais que faziam parte do grupo de extermínio, tipo Mão Branca, que assombrou CG há duas décadas.

Ainda em Brasília, tem o caso do General Newton Cardoso, ex-chefe do Serviço Nacional de Informação e comandante militar do presidente João Batista Figueiredo. Ele foi entrevistado pelo radialista Honório Dantas, também da Rádio Planalto, na rampa do Palácio do Planalto e ouviu uma pergunta do repórter que não o deixou satisfeito.

Sabe o que o general fez?

Pegou o gravador da mão do repórter, torceu braço do pobre coitado e gritou:

- Peça desculpas ao general agora!!!!
- Desculpa.
- Mais alto...
- Desculpa, general!

Parece piada, mas está no livro Ministério do Silêncio, sobre o serviço secreto do Brasil, escrito por Lucas Figueiredo.

Depois que li essa história, fiquei pensando o que faria se estivesse no lugar desse repórter. Afinal, acertar um murro na cara de um militar em pleno palácio do Planalto durante a Ditadura poderia até ser recompensador, mas não seria nada bonito.

29 março 2006

Ergonolepticamente falando

Tinha a idéia de escrever sobre isto que você vai ler abaixo quando nosso humilde blog completou mil acessos únicos (mil computadores diferentes), no início do mês de março. Mas como outros assuntos surgiram, fica para este post a missão de nos fazer alcançar o acesso número 1.300.

Queria "responder" a um comentário feito ainda no post "Suave Veneno", quando a leitora Karin Maria disse que o texto sobre as armadilhas de ser jornalista estava "interessante para adolescentes, mas para pessoas bem resolvidas não passava de razoável".

Tive várias certezas na minha vida/carreira desde que criei este blog ao lado do Da Silva. As duas únicas dúvidas que tive foram as seguintes:

1) Conseguiríamos mantê-lo atualizado?
2) Quem o leria?

A primeira pergunta acho que tá fácil de responder. Eu achei, simplesmente, sensacional escrever um blog. Além de acordar, tomar banho, dirigir e ficar pensando só na pauta do dia no jornal, fico formulando um texto na cabeça para escrever aqui. Como aprendi na minha própria monografia na UEPB que a leitura na internet é 25% mais lenta que em uma folha impressa, ainda não acertei a mão nos tamanhos do textos. Afinal, internet não me dá limite de tempo e espaço. Escrevo um bilhão de parágrafos no texto pelo simples fato de estar gostando de estar escrevendo sobre aquilo e, posteriormente, lendo o que eu mesmo penso sobre eu mesmo.

Posso escrever quanto quiser, a hora que quiser e, principalmente, corrigí-los quando bem entender (a correção é assunto para outro post. Me cobre!).

Já a segunda pergunta ("Quem lê?") é a dúvida que não consegui tirar. Acho que nunca conseguirei. Só sei que Da Silva repassa o endereço do blog para os alunos da UEPB e alguns outros amigos nossos.

Só.

Além de Campina Grande, João Pessoa e Brasília, nosso medidor de acessos registra presenças de internautas do Rio de Janeiro, Manaus, Natal, México, Japão, Estados Unidos, Itália.

Não sei se esses gringos estão querendo aprender português (aqui não parece ser o site ideal). Só que tá registrada a presença deles lá. Devem fazer parte dos 76% dos acessos que não passam mais que cinco segundos no Filhos da Pauta. Baseado nisso, fica difícil saber se o texto "Suave Veneno" foi mais interessante do que razoável, como avaliou a leitora Karin.

O que eu acho mais intrigante nisso tudo é que as informações que a gente coloca aqui ficam soltas no espaço sem fim.

Não é filosofia barata.

Se você entrar lá no Google (aliás, o Google é meu melhor amigo no trabalho) e digitar FILHOS DA PAUTA você vai encontrar lá nosso blog. Vai ver foi assim que a "bem resolvida" Karin Maria encontrou o texto Suave Veneno.

Ele tá rondando pela internet até que alguém como eu, que gosto de digitar palavras estranhas no Google, digite alguma coisa bem diferente para ver o que existe na internet sobre isso.

Por exemplo, ergonolepticamente. Vem de ergonoléptico, que nada mais é que o teste que se faz para saber a qualidade de um vinho.

Que tal digitar claudicante, ou licergia, hermenêutica ou concomitantemente?

Sei lá...

Acho sensancional o fato de qualquer besteira que eu escrever aqui estar flutuando em algum lugar para que qualquer outra pessoa possa ler. Diferentemente do jornal. Porque, quando escrevo sobre basquete -- é óbvio -- estou me dirigindo aos amantes/admiradores daquele esporte.

O mesmo acontece com os demais assuntos, economia, política externa, carnê do IPTU e assim vai.

Só posso dizer que, ergonolepticamente falando, viciei em blogs e já penso em criar outros para deixar boiando pela "rede mundial de computadores".

Como disse acima, ainda não acertei a mão no tamanho dos textos no blog. Agora mesmo tive que apagar dois parágrafos porque já estava dando outro motivo pelo qual quero fazer outros blogs. Não sobre jornalismo, mas sobre pedaços de histórias da vida dos outros, minhas matérias na íntegra, piadas, autobiografia...lo que sea!

26 março 2006

Você já leu o ombudsman?

Para quem está com preguiça de ler, por achar o texto "grande demais", é preciso dizer que jornalista é, por obrigação, uma pessoa bem informada -- ou pelo menos deveria tentar ser. O texto abaixo pode até ser "grande demais", mas é uma aula de jornalismo.

Primeiro, porque situa, na primeira parte do texto, o leitor na confusão em que está metido o governo federal neste momento. Depois (público x privado), por fazer uma análise jornalística do que a GRANDE IMPRENSA divulgou na semana que passou. O ponto cinco dos comentários do ombudsman mostra o que um pouco do que já foi escrito aqui sobre vaidade e parcialidade.

Vale a pena ler, refletir e comentar...

OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo - domingo, 26 de março

O caso do ministro e do caseiro

MARCELO BERABA

A semana foi dominada por um escândalo, a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Francenildo foi apresentado pelo "Estado de S. Paulo" na edição do dia 14 de março, e a manchete do jornal resume a importância de seu testemunho: "Caseiro desmente Palocci e diz que ministro visitava mansão".

A "mansão" era uma casa alugada no Lago Sul de Brasília por ex-colaboradores de Antonio Palocci da época em que foi prefeito de Ribeirão Preto e teria sido utilizada para lobby. O ministro da Fazenda garantiu, em diversas ocasiões, que jamais esteve na casa. Francenildo foi a segunda testemunha a aparecer, depois do motorista Francisco das Chagas Costa.O depoimento do caseiro criou uma situação ainda mais difícil para Palocci, já acuado por várias acusações referentes, principalmente, aos períodos em que foi prefeito. No dia 16, uma quinta-feira, Francenildo reafirmou, na CPI dos Bingos, que vira o ministro na tal casa, mas uma liminar do STF, concedida a um senador do PT, suspendeu a sessão.

Na sexta-feira à noite, a revista "Época" inaugurou o seu "Blog Brasil" (www.blogbrasil. globolog.com.br) com uma informação exclusiva e de repercussão imediata: "Extratos revelam depósitos para caseiro". A informação antecipava a reportagem que seria publicada na edição em papel que estava sendo concluída.

Os repórteres da "Época" tiveram acesso aos extratos da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal e decidiram publicá-los, mesmo sabendo que tinham sido obtidos ilegalmente, por os considerarem "jornalisticamente relevantes". O título da revista é uma pergunta: "Quem está dizendo a verdade?".

A revista levantou a hipótese de o caseiro ter recebido dinheiro para testemunhar contra o ministro Palocci. O caseiro negou. Informou que o dinheiro tinha sido depositado por um empresário do Piauí que não o reconhece como filho. A história é confirmada pelo empresário.

Mesmo assim, a revista cravou que "os extratos põem em dúvida a credibilidade do caseiro". Por quê? Mais adiante a revista afirma que "o caseiro pode até não ter mentido [em relação ao ministro Palocci], mas escondeu de todos que tinha tanto dinheiro". E por que teria de revelar que tinha o dinheiro?A reportagem da "Época" deslanchou dois movimentos. Do lado do governo, uma operação para preservar o ministro e desmoralizar o caseiro, antes testemunha e agora investigado pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda. Do lado da oposição, da imprensa e de várias instituições e personalidades, uma onda de repúdio pela violação criminosa do sigilo bancário.

Público x privado

Pouco se discutiu a respeito da decisão da "Época" de publicar os extratos obtidos ilegalmente. Meu ponto de vista sobre a reportagem da revista:

1 - A violação do sigilo bancário é um crime grave e justifica a indignação estampada nos editoriais dos jornais e nas cartas de leitores. Além dos prejuízos pessoais provocados ao caseiro, é um atentado à democracia.

2 - O fato de a revista ter publicado o extrato não significa que ela também tenha cometido o crime. No caso, a responsabilidade pela manutenção do sigilo era da CEF. Há, a meu ver, um fator fundamental que pode justificar -como já ocorreu inúmeras vezes- a publicação de informações verdadeiras de origem ilegal que chegam às mãos dos jornalistas: o interesse público.A Folha tinha ciência de que as fitas do BNDES que gravavam conversas sobre o escândalo da privatização das telefônicas, em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, tinham sido feitas ilegalmente. Verificada a autenticidade delas, decidiu publicar as partes que tinham interesse público (e nunca revelou os trechos com intimidades dos grampeados).

3 - No caso dos extratos de Francenildo, a revista "Época" cometeu, na minha opinião, os erros de ação e de omissão. Explico.

4 - A revista foi precipitada ao tornar pública a história familiar do caseiro. Naquela sexta-feira, dia 17, a publicação não tinha nenhum indício para colocar em dúvida a credibilidade da testemunha. O que ela tinha em mãos eram suposições, e deveria ter se dado mais tempo para investigar antes de publicar. A relação de Francenildo com o empresário que ele diz ser seu pai faz parte da sua vida particular. É até possível que o caseiro esteja mentindo e que o dinheiro tenha outra origem. Mas até agora nada foi provado.

5 - A revista estava, no entanto, com uma grande história e não deu atenção: os extratos foram obtidos através da violação criminosa do sigilo bancário do caseiro dentro da CEF, banco subordinado ao ministro Palocci. Este, por enquanto, é o grande escândalo. A revista ignorou o crime e, mesmo diante da falta de provas contra Francenildo, decidiu expor publicamente sua vida familiar. Uma completa inversão de critérios jornalísticos.

Sem comparação

Muitos leitores escreveram questionando a indignação manifestada pelos jornais com a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Procuraram comparar o caso com o do ministro Palocci, que teria tido a sua intimidade violada quando foi revelado que freqüentava a casa do Lago Sul. Acho que não tem comparação. O ministro é um homem público e ele sempre informou que nunca esteve na casa. Se for provado o contrário, terá cometido uma mentira grave.Também não vejo como comparar o que ocorreu com o caseiro com o vazamento de informações sigilosas, obtidas legalmente, de acusados de estarem envolvidos com o valerioduto. São homens públicos investigados por terem se beneficiado de esquemas ilegais de levantamento de recursos para o enriquecimento pessoal ou para uso político.

Marcelo Beraba é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

23 março 2006

Parcial (mas nem tanto)

Quer queira, quer não, atletas, treinadores, dirigentes, até políticos e pessoas que costumamos entrevistar diariamente são nossos companheiros de trabalho. Precisamos dos serviços deles para fazer o nosso.

Se eles não quiserem falar com a imprensa, temos uma única alternativa: descer o cacete no jornal, na TV, na rádio ou no espaço que temos, como o blog, por exemplo.

Veja o caso do Brasiliense, time de futebol de Brasília. Criado há cinco anos pelo senador cassado (é com dois S mesmo) Luiz Estevão, o clube é odiado por todos os repórteres esportivos do Distrito Federal.

Como se não bastasse o fato de Lulu (Luiz Estevão) acreditar cegamente e divulgar sempre que tem a oportunidade que repórter de esporte "é o mais burro da editoria. Porque ninguém em uma redação de respeito quer trabalhar com futebol, só os que não entendem sobre nenhum outro assunto", ele proibiu a imprensa de assistir aos treinos lá no campo do time (que por sinal, é público).

Ou seja, além de termos um excelente motivo para dar porrada em Lulu diariamente no jornal, tem o agravante do desrespeito pessoal mesmo. Então, ele é o caso de "companheiro de trabalho non grata" (termo criado por mim agora).

Mas há casos como os dos jogadores de basquete. Acompanho de perto o Campeonato Nacional masculino de basquete em viagens pelo Brasil e acabei me tornando ligado a alguns atletas. Alguém se lembra de Pipoka? Ele é de Brasília, tem 40 anos, participou de três Jogos Olímpicos ao lado do Mão Santa Oscar Schmidt, mas continua jogando profissionalmente.

Ele é o oposto de Lulu. Qualquer matéria que eu faça sobre ele será tedenciosa. Primeiro, porque, assim como Estevão, ele merece um texto tendencioso (só que o senador cassado merece o outra tendência). Segundo, porque Pipoka é uma figura da cidade de Brasília, querida e ovacionada.

Acontece que, dia desses descobri que o time dele não paga salários há dois meses. No futebol, isso é assunto corriqueiro, mas no basquete não. O time de Pipoka, o Universo BRB, é o braço forte de um grupo nacional que engloba seis ou sete universidades pelo país, cujo dono é senador da república (não, não é Lulu), Wellington Salgado de Oliveira. Em outras palavras, não há motivos para atrasos.

Por ser novidade no basquete, corri atrás das fontes para detonar o tal senador no jornal. A primeira pessoa que fui conversar foi Pipoka. A matéria é de interesse dos jogadores. Para minha surpresa, Pipoka reconheceu o atraso nos pagamentos, mas pediu desculpa e disse que não falaria, temendo represálias. Minha matéria dando porrada no senador "companheiro de trabalho" dono do Universo BRB nasceu morta.

Eu tenho todas as informações para detonar a diretoria do time de basquete. Quando foi o último pagamento, quanto é folha salarial, o que foi combinado e o que foi feito pela diretoria. Mas como Pipoka, um dos beneficiados com a publicação da matéria, pediu para não falar, abortei a missão. Nada de salários atrasados no Universo BRB.

Podem dizer que sou parcial, mas, convenhamos, você conhece alguém imparcial?

Eu não.

Veja um caso do estagiário de esportes de um jornal concorrente ao meu. De tanto cobrir os treinos do time de vôlei feminino de Brasília, o camarada passou a sair na night com as jogadoras, e receber ligações a cobrar das atletas.
Ao final da temporada, ele traçou duas grandalhonas (no mal sentido mesmo).

Vamos ser companheiros de trabalho, mas daí a virar amante já é exagero, né?

PS - não estou fazendo apologia à parcialidade do repórter. Só me refiro ao sentimento que o repórter tem na hora de escrever ou apurar uma matéria. Porque antes do espírito profissional, existe um sentimento na pessoa que escreve uma reportagem. É este sentimento que me referi neste post, OK?

21 março 2006

A arte de ser chefe

Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu passei a odiar todos os chefes. Tudo bem, todos não, vai. A maioria, o meu chefe atual, Paulo Rossi, é extremamente gente boa. Nem parece chefe, por isso não conta. Passei a odiar os chefes dos outros, então.

Um companheiro de redação, o experiente repórter Roberto Naves, soltou uma frase sensacional sobre a "A Arte de Ser Chefe":

"Chefe não quer saber quantos problemas você vai enfrentar para fazer a matéria pedida. Quer apenas dar a ordem e ponto final".

Neste momento que estou escrevendo esse post me veio à cabeça três tipos de chefe:

1 - Autoritário;
3 - Inexperiente;
2 - Rei sem coroa.

1 - O autoritário é famoso. É a figura mais horrenda que existe. Ele aparenta estar sempre sob pressão por parte do próprio chefe dele. Veja bem, se em uma guerra, um pelotão perde, a culpa do fracasso não vai para os soldados, mas para o capitão do pelotão. Esse chefe aproveita para descarregar toda a pressão proporcionada pelos superiores dele nos pobres e humildes soldados. O chefe autoritário tem vida longa, porque todos têm medo dele. Mas como o mundo dá muitas voltas, ele pode acabar sendo demitido e o autoritário estará, como se diz em Brasília, "fudido e mal pago". Se esse camarada estiver desempregado ele estará mal visto no mercado e sem nenhum amigo a quem recorrer. Só os babões de plantão, que mesmo levando porrada diariamente, fazem questão de agradar o mandão.

2 - A carreira jornalística arma algumas armadilhas aos mais novos (aos mais velhos também, mas como sou novo, não posso falar pelos mais velhos). Muitas vezes, por corte de gastos, por uma prova de competência precoce, ou por um golpe da sorte, focas acabam se transformando em chefes. Como citei no post "Suave Veneno", é inevitável que a alta dose de veneno tome conta do espírito do recém-formado. Às vezes o cara é totalmente gente boa, toma cervas com você enquanto é repórter, troca idéias, mas basta ser promovido para o sucesso subir à cabeça. Queimar etapas dentro de uma redação é uma das piores coisas que pode acontecer a um jornalista novato, os chamados focas. O que agrava a situação é que ele vai se tornar um chefe autoritário no futuro, porque ele pensa que você, por ter mais ou menos a mesma idade dele, está querendo derrubá-lo, justamente por saber que talvez não tenha o conhecimento necessário para estar na posição de chefe. No final das contas, o cara acaba se tornando uma figura odiada na editoria.

3 - Como eu disse, tenho a sorte de ter um chefe extraordinário. Gente boa, compreensivo, e inteligente. As falhas dele eu não conto aqui, porque ele pode acabar lendo. Anyway, ele é um pequeno exemplo de "Rei sem Coroa". É o cara que manda sem precisar ter o direito de mandar. É um líder natural. Rei sem coroa é o cara que te pede para fazer tal tipo de matéria complicadíssima e que não tem nada a ver com o que você trabalha, mas você faz mesmo assim pelo simples fato de ajudar aquele chefe. Porque ele merece. Ele é quase um amigo do peito. É aquele tipo de pessoa que cobra as coisas mostrando teu potencial para fazer coisas interessantes.
É dificílimo encontrar uma pessoa desse naipe. Sorte de quem tem um desses.

E você, qual tipo de chefe é o seu?

17 março 2006

Sorte de principiante

Na sexta-feira passada fui informado pela produção que deveria chegar na segunda às 11h30. Meu horário normal de trabalho é a partir das 14h. Estava escalado para ir a Boa Vista, uma cidade que fica a uns 50 quilômetros de Campina Grande, no cariri paraibano. O assunto era “denúncia no Bolsa Família”. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais denunciava que 15 pessoas - em extrema pobreza - tinham sido cortadas do programa. Na pauta que recebi tinha entre parênteses que se pudesse, investigasse a denúncia de que uma esposa de vereador recebia o benefício na cidade. A produção ajeitou tudo direitinho. Marcou com o presidente do Sindicato, que me levaria a uma mulher que foi cortada, e com o Secretário de Ação Social da cidade para explicar o motivo dos cortes. A matéria era interessante, mas necessitava cuidados para não entrar numa briga política, Afinal é ano de eleições.

Quando cheguei em Boa Vista, por volta de 12h30, tive que andar mais 14 quilômetros em estrada de terra até chegar à casa de Rosa Maria. Seguimos o carro do presidente do sindicato. Dona Rosa, 49 anos, um filho pra criar, separada do marido, vive da venda do carvão que faz no quintal da casa, onde mora de favor. Ganha no máximo 70 reais por mês. Quando ganha. Tem meses que o dinheiro não dá nem pra comprar comida. Quando isso ocorre depende da ajuda de vizinhos para comer. Essa era a minha personagem. Há três meses, Dona Rosa não recebia mais o benefício do Bolsa Família.

Depois de entrevistá-la fui até a casa de outra personagem, que logo de cara vi que não renderia pra matéria. Mesmo assim peguei todas as informações e a entrevistei. Estava tranqüilo. Dona Rosa era a personagem perfeita. De volta à cidade, conversei com o presidente do sindicato. Comecei a sondar para confirmar algo que já sabia: ele é adversário político da atual administração de Boa Vista. Na conversa perguntei se ele sabia o nome da mulher do vereador. Disse que não. Pedi para descobrir e me ligar dizendo. Queria mesmo era denunciar esse favorecimento. Com o nome da mulher tentaria conseguir junto ao Ministério do Desenvolvimento Social a lista de beneficiários da cidade. Imaginava que o Secretário de Ação Social fosse esconder o nome a todo custo. Lembrei logo do livro de Lúcio Vaz (A Ética da Malandragem). Nele o jornalista diz que quando for investigar uma denúncia não fale logo dela com a fonte. Essa seria minha estratégia com o secretário. Pensava em perguntar quantas pessoas eram beneficiadas na cidade, os critérios de escolha, sobre o recadastramento e o caso de Dona Rosa. Só depois falaria sobre a denúncia.
Por volta das 15h30, o secretário chegou a Prefeitura de Boa Vista. Veio só atender a nossa equipe. A prefeitura só funciona pela manhã. Perguntou se eu queria ser atendido ali ou na Secretaria. Preferi a segunda opção. Sabia que lá estavam todos os dados. Antes de eu começar a explicar o motivo da minha ida à cidade o secretário me interrompeu.
- Já estou sabendo que você veio aqui por causa das denúncias. Vou lhe mostrar tudo. Minha administração é transparente.
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Vi que a matéria iria render melhor que esperava. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo. E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
Bingo de novo. O cara já estava me mostrando a lista de favorecidos. Na cidade, cerca de 380 pessoas recebem o benefício. As 35 representam quase 10% do total, um número considerável. Fiquei até sem jeito de perguntar algo. Mas fui em frente. Peguei o primeiro nome da lista, que ganhava R$ 329,00 e perguntei por que ele recebia o Bolsa Família. O secretário explicou mostrando um documento do Ministério do Desenvolvimento Social, onde afirma que 14% dos beneficiados têm emprego formal. O critério, segundo o documento, é se a pessoa tem renda per capita de até R$ 100,00. O meu personagem tinha cinco pessoas na família, o que dá uma renda per capita de R$ 65,00. Foi a justificativa dele. Esperto, meu cinegrafista começou logo a filmar a lista e eu discretamente anotando os nomes, olhando os valores. Quando passei a folha, vi que uma mulher com renda de R$ 2.655,00 estava na relação. Essa não tinha explicação. O secretário admitiu.
- Eu sou transparente na minha administração (essa era a frase preferida dele, parênteses meu). Realmente essa mulher está irregular, mas só posso fazer alguma coisa depois do recadastramento.
Ainda consegui mais alguns nomes, com valores dos salários e quanto recebe do Bolsa Família. No meio das confirmações, o secretário sai com essa:
- Sim, não adianta você vir aqui e a gente não falar da mulher do vereador. Já estou sabendo disso e vou me defender.
Eu nem havia perguntado. Mais uma vez estava recebendo a denúncia de bandeja. Ele mostrou um ofício onde solicitava desde agosto a exclusão dela, o que não aconteceu. Eu tinha mais um elemento importante para matéria. Tudo isso foi numa conversa em off. Meu medo era de que na hora de gravar, ele não quisesse. Estaria ferrado. Pelo tempo que passamos conversando pedi ao cinegrafista para mudar de fita. Não deu outra. Gravei vinte minutos de entrevista, nos quais ele confirmou tudo que havia me dito em off. É claro que eu não esqueci do caso de Dona Rosa. O secretario explicou que ela foi cortada porque havia informado uma renda de R$ 120,00. Tinha todos os elementos para a minha matéria.

Depois da entrevista fiquei pensando na sorte que tive. Esperava encontrar um monte de dificuldades. Mas em nenhum momento o secretário foi chato. Pelo contrário foi solicito até demais. No final ainda nos trouxe um pedaço de bolo de seu aniversário, que havia sido no dia anterior. Lanchei e voltei pra Campina não só de barriga cheia. As duas folhas de ofício estavam cheias de informações. Quando contei a história na redação ninguém acreditou que tivesse conseguido tudo de bandeja e ainda por cima ter comido do bolo do secretário. Não lembro quem foi que saiu com uma piada sarcástica:
- E se o bolo tivesse envenenado?
Na hora nem me lembrei desse detalhe. Comer um pedaço de bolo era uma atitude política (como gosta de dizer Daniel), de cordialidade.

Cheguei com o texto montado na cabeça. Comecei a matéria com a história de Dona Rosa, depois passei para a denúncia (não usei essa palavra no off) do sindicato, em seguida coloquei a versão do secretário para o caso de Dona Rosa. Depois disso, disse que enquanto Dona Rosa não recebia o dinheiro, outras pessoas que não precisavam estavam no Bolsa Família. Denunciei tudo que sabia. E o melhor: com a entrevista do secretário que disse “que sabia das irregularidades”. A matéria foi ao ar na terça-feira ao meio dia (JPB1) e à noite (JPB2). E repercutiu. Ontem o Ministério do Desenvolvimento Social mandou uma nota, na qual diz que o benefício da mulher do vereador foi cortado. O último saque foi em janeiro. Porém o secretário me mostrou que o cartão novo dela chegou no início do mês. Outro ponto: o marido dela assumiu o mandato em janeiro do ano passado e só agora se toma uma providência. Hoje também o secretário foi procurar uma rádio para pedir direito de resposta da matéria veiculada na TV Paraíba, afirmando que a matéria não foi verdadeira. Não teve o direito porque foi no lugar errado. Ele Deve ter levado um esporro de alguém mais experiente (você sabe de que experiência estou falando né?) da prefeitura por ter falado demais. Ficou tão desorientado que nem foi na tevê. Também se for não vai ter muito o quê argumentar. Temos os vinte minutos de entrevista gravados.

Foi a minha primeira denúncia fora do âmbito esportivo. Dessa vez foi fácil. Agora é se preparar pras bombas que vêm pela frente. Não posso mais contar com a sorte de principiante.

12 março 2006

Vaidade FC

A classe de políticos é a mais difícil para o jornalista lidar. Pelo menos é o que escuto meus amigos dizerem. Como nunca trabalhei diretamente na editoria de política não posso afirmar nada. A única coisa que posso dizer é que se os políticos são difíceis de lidar, jogadores de futebol não ficam atrás. Aliás, jogadores, dirigentes e treinadores. Uma turma muito vaidosa. Com algumas raras exceções. Independente do time, a maioria dos jogadores tem escalação garantida no ‘Vaidade Futebol Clube’. Basta uma notícia sobre a má fase de um atacante para ele ficar chateado com o jornalista. Como se existisse uma outra forma de dizer algo a respeito de um atacante que há dez jogos não faz gol. Na época em que trabalhei no Diário da Borborema (2001/2005) a coluna Binóculo FC colecionou alguns desafetos. Não desafetos declarados. Mas jogadores, dirigentes e treinadores que me olhavam com ‘cara feia’ a cada notinha venenosa que era publicada.

Esse pessoal tem a mania de só querer ouvir elogios. Se for atacante adora ser chamado de ‘matador’, ‘artilheiro’. Competente é o adjetivo preferido dos treinadores e dirigentes. O pior é que quando time vai mal, a culpa é sempre da imprensa “que está trabalhando contra”. Como se nós jornalistas entrássemos em campo. Quando a imprensa divulga algo errado que o jogador fez, a raiva é maior ainda. Semana passada, o zagueiro Antonio Carlos, do Juventude, foi acusado de atitude racista contra Joevânio, Grêmio. Em entrevista, Antonio Carlos disse que “a imprensa se deveria se preocupar com outras coisas”. O cara comete um crime e acha ruim quando é divulgado. Se não quer virar notícia, não faça besteira. Ano passado, no Campeonato Paraibano, o meia Maurício do Treze, que já passou pelo Brasiliense, agrediu o árbitro no final de um jogo realizado em João Pessoa. Todas as televisões filmaram. Quando fui ao Presidente Vargas (estádio do Treze) fazer uma matéria, ele estava puto com a imprensa por ter divulgado as imagens. Soltou algumas indiretas, mas não dei crédito. Até porque sempre o achei meio estrela. Toda as vezes que alguém o convida para entrevista, ele demonstra má vontade. Pelo jeito, Maurício (os colegas de Brasília podem me esclarecer isso) não gosta muito da imprensa. Talvez a sua cisma seja só comigo. Também se for, não estou nem um pouco preocupado.

Para aumentar meu conceito de “estrela” a respeito de Maurício, semana passada ele veio questionar o porquê da tevê só passar poucos lances de uma partida. Ele se referia ao jogo do Treze contra o Nacional de Patos. O problema não foi o questionamento. E sim as insinuações de que a imprensa trabalha contra o Treze.
Cheguei ao Presidente Vargas e fui chamar um jogador, acho que um zagueiro para entrevistá-lo. De repente, Maurício pergunta:
- Quem edita os jogos na televisão?
- Sou eu quem escolhe os lances.
- Do jeito que você editou parece que o Nacional deu um sufoco na gente. A imprensa só que lascar a gente. Até parece que é coisa direcionada.
- Maurício não é bem por aí não.
Disse e fui entrevistar o zagueiro, que já me esperava no banner. Também não queria polemizar. Mas o meia queria mesmo discutir depois foi em minha direção. Nessa hora estava perto do banco da comissão técnica. Ele chegou logo pedindo para falar:
- Deixa eu falar, eu explicar.
Depois de escutar suas reclamações pelo fato de os “melhores momentos” (o nome já diz tudo) ter tão poucos lances fiz uma pergunta:
- Maurício você entende como funciona uma televisão, quais são os critérios de edição? É impossível você exibir todos os lances.
- Mas é que parece que vocês querem prejudicar a gente.
- Olha, antes de você criticar alguma coisa você precisa entender como é o jornalismo. E outra coisa. Não me vem com essa história de conspiração contra vocês. Além disso você nem conhece, não conhece a minha postura, o meu caráter. Você me conhece daqui (do estádio) de dar boa tarde a vocês e nada mais. Procure me conhecer.
Como ele ainda insistiu com as reclamações eu disparei:
- Me diz uma coisa eu já disse como você deve bater um pênalti, bater na bola? Se você deve jogar com meião baixo ou alto?

- Não, não.
- Então cara, não se mete no meu trabalho.
Depois dessa ele ainda retrucou algumas coisas, eu argumentei outras. Mas foi o fim da discussão. Poderia ter sugerido a inversão de papéis. Ele iria fazer a matéria e eu jogar no lugar dele.
Foi a segunda vez que aconteceu algo desse tipo comigo. A outra foi com o técnico Celso Teixeira, na época em que estava no Treze. Ele pediu para o assessor de imprensa ligar dizendo que não havia gostado de uma matéria publicada no Diário da Borborema.
- Fala pro Celso que eu também não estou gostando do time que ele está botando em campo. Então diz pro Celso que a gente faz o seguinte: ele vem fazer o jornal e eu coloco o time em campo. Assim, está tudo resolvido.

Os dirigentes não ficam atrás. Quando se publica atraso de salário, problemas na administração dos clubes, eles ficam puto. Certa vez eu tive que dizer a um dirigente que eles eram muito melindrosos, cheios de frescura.

Jogador de futebol, técnico, dirigentes são pessoas públicas. E como pessoas públicas estão sujeitas a críticas e elogios. O problema é que ainda vai demorar muito tempo para essa turma entender isso. Talvez nunca entendam. E nós jornalistas continuaremos sofrendo com as crises de vaidade deles. São os “ossos do ofício”.

06 março 2006

Suave veneno

Tem gente que quer ser jornalista para substituir Glória Maria no Fantástico. Tem gente que prefere ser o novo Galvão Bueno. Tem gente que sonha em substituir Marcos Losekan como correspondente internacional. Outras pessoas fazem vestibular para Comunicação para ser reconhecido na rua e dar autógrafo.

Se você se encaixou em uma dessas três opções acima, me desculpe, mas você está errado! Você não quer ser jornalista. Quer apenas aparecer, quer ser mais importante do que a notícia. Mas se você leu este texto e conseguiu substituir Gloria Maria ou Galvão Bueno, me avise porque quero dar os parabéns pessoalmente. (Afinal, Gloria Maria e Galvão Bueno existem mesmo?)

Na minha singela opinião, jornalista é aquela pessoa que gosta de escrever, de contar e ouvir histórias. De imaginar o que os leitores, ouvintes ou telespectadores, querem saber ou gostam de ver. Eu, apesar de estar iniciando minha carreira, acredito que me encaixo neste estilo.

Nada me deixa mais feliz do que ver um texto meu impresso em uma página de jornal. Não precisa nem ter meu nome (a não ser que o texto seja uma obra prima - o que é raro, admito), só em ver um trabalho meu ali me deixa realizado. É como o grande amigo/professor Ribamildo Bezerra me falou uma vez:

"Se você escreve para um universo de 100 pessoas e apenas uma delas entendeu sua mensagem, ela repassará para outras 100. Se uma dessas 100 entender a mensagem, repassará mais uma vez sua idéia. Está formado um ciclo".

Nem sei se ele se lembra que me falou isso em 1999.

Anyway, me sinto mais realizado vendo um texto meu no jornal do que minha imagem na TV. Não sei dizer porquê. Talvez porque eu não assista TV com freqüência. Só telejornais e futebol. É claro que se fosse chamado para trabalhar em TV novamente, voltaria, com certeza, mas acho o caminho do jornalismo impresso mais interessante para mim do que qualquer outro. Talvez internet se igualaria em interesse.

Além do fato de poder escrever mais, contar mais histórias e me especializar em algum assunto -- em TV você cumpre a pauta diária e tchau --, chega a ser venenoso ser interpelado na rua por alguém que você não conhece para falar sobre seu trabalho. Poucas são as pessoas que não gostam disso.

Quando morei em Campina Grande (1999-2002), acontecia com alguma freqüência isso comigo. Confesso, me envenenei. Felizmente, o veneno não se espalhou pelo corpo. Felizmente. Não achava ruim, mas não achava bom. Só sentia falta de ter um público mais seleto. Não tenho pretensão de ser escritor das grandes massas, nem ter o alcance de Truman Capote, Ruy Castro ou Monteiro Lobato.

Como disse William Bonner em uma declaração inteligente (e mal interpretada), só é exibido na TV o que Homer Simpson consegue entender. Homer Simpson, nesse caso, é o pai-de-familia comum, trabalhador, sem regalias em casa, pagador de imposto, CPMF e coisas do tipo. Alienado, até meio burro. Na TV, ele terá a informação superficial: "A bolsa de valores de tóquio está em queda".

No jornal, Homer também pode ter acesso àquelas informações transmitidas pela TV e mais alguma coisa específica, um diferencial. Por causa dele (diferencial), Mr. Burns, o dono da indústria que Homer trabalha, milionário, proprietário da maior parte das terras do mundo, também lê o jornal. Lisa Simpson, estudante, esforçada, dedicada e atualizada, idem.

Usei os personagens de desenho animado para ilustrar os tipos de leitores e telespectadores. Quando trabalha em TV, era constantemente abordado por Homers campinenses. Apesar de eu trabalhar com futebol, aquelas pessoas mal sabiam do que estavam falando e ainda diziam de qual maneira eu deveria trabalhar, como se fossem experts. Nesses Homers, estão incluídos alguns colegas de trabalho, diga-se! (Da Silva conhece bem)

O tempo passou, comecei a trabalhar em jornal impresso e acabei por parar no jornal de maior circulação da capital do país. Público totalmente diferente. Ministros, embaixadores, juízes, deputados, atletas olímpicos, até Homers e Mr. Burns lêem o jornal diariamente e opinam sobre ele (há esse serviço no Correio Braziliense).

Como não mostro minha cara em lugar nenhum, a não ser na redação do jornal, ninguém mais me importunou no meio da rua. Mas nos lugares que freqüento por causa do trabalho, percebo que o nível dos comentários sobre minhas reportagens é outro.

Não quero dizer que me sinto melhor ou pior com isso. Muito pelo contrário, a dose do veneno nas veias do jornalista aumenta. Ele passa a sentir mais importante, dono da verdade absoluta, e conhecedor de todas as realidades. É aí que mora o perigo.

Se por um lado, o jornalista de TV quer aparecer mais que notícia, quer que o cabelo seja notado, a roupa, o batom, a gravata sejam percebidos, o jornalista de impresso se considera a fonte inesgotável de sabedoria, lido por todos, comentado por poderosos, e procurado por pessoas influentes.

É no dia-a-dia do trabalho que eu consigo encaixar melhor uma frase dita quase que automaticamente por todos, mas que se encaixa como uma luva nas armadilhas que o jornalismo coloca no nosso caminho a cada texto escrito:

"Não nos deixei cair em tentação"

Amém