Daniel Brito
Jornalista adora personagem. Uma história curiosa, um lance fora do comum, um caso diferente. Tudo, para os jornalistas de Brasília, é matéria. E merece destaque.
Sabe aquelas materinhas típicas do Fantástico, que mostram historinhas interessantes de pessoas comum? Por exemplo, domingo passado eles (a galera do Fantástico) abriram uma discussão sobre ciúmes. Para personalizar o assunto e não deixar apenas psicólogos falando, eles (a galera do Fantástico) encontraram dois casais. Um ciumento e outro não.
A partir da história deles, a matéria se desenrolou.
Pois bem. Serve para ajudar as pessoas a se identificarem com a reportagem. Principalmente nas editorias de economia, até cidades mesmo. Aqui em Brasília é assim.
Matéria sobre CPMF: encontrar um personagem que reclame e outro que elogie a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira.
Matéria sobre a queda do IPC: encontrar pessoas que estão comemorando o longo período de compras por causa da baixa no Índice de Preços para o Consumidor.
Algumas vezes pode ser legal ler essas histórias, mas fazê-las ou encontrar os personagens ideais é um problema grande. Sempre cai nas costas do repórter.
Com alguma freqüência, eu tenho recebido essa pauta.
Por exemplo: maratona de revezamento de 100KMs. Um personagem tem que ter história louca, tipo um velhote que corre muito. Uma mulher grávida, um deficiente físico.
Domingo passado recebi essa missão de novo:
"Fazer um 'duelo de torcidas' do Vasco e do Flamengo".
Tive sorte desta vez.
Arrumei um casal de amigos meus que é vascaíno e flamenguista. A irmã da flamenguista também é flamenguista e o namorado dela é também é vascaíno. Deu tão certo, que eles foram a capa do jornal de segunda-feira e destaque nas páginas internas do caderno de esportes.
No outro dia, pessoas que não conhecem casal de amigos meus me ligaram reclamando da pauta. O casal de amigos meus gostou. As pessoas que conhecem eles também.
Contar histórias de torcedores para torcedores não é muito interessante. A repórter Cida Barbosa, que cobriu a Copa do Mundo para o Correio Braziliense, tinha por obrigação contar histórias dos torcedores brasileiros na Alemanha.
Acho que poucas pessoas leram, a não ser os chefes.
Me lembro quando ainda tinha 13 anos, comecei a assistir e me vestir como jogador de basquete da NBA. O então repórter do Correio Braziliense Paulo Rossi -- hoje, meu editor -- me entrevistou. Contei porque estava me vestindo e vendo jogos de basquete. Meu irmão também. Fomos o lide do texto dele.
(Até hoje, tiro onda com Rossi dizendo que ele escreveu os nomes dos jogadores que citei tudo errado. É brincadeira, mas é verdade)
No jornalismo da Paraíba, onde me formei e trabalhei por seis anos, os "pauteiros" (ô nome feio!) não costumam utilizar esse recurso. É só release e ponto final. Meu amigo Da Silva tá aí para provar isso. Manu, nossa leitora assídua, também.
Até o Grande Predo pode contar que o que acontece no Maranhão. Não acredito que seja diferente da pequenina, porém heróica, Paraíba.
Fazer jornais só por relesases é muito pior do que contar histórias de personagens, disso eu não tenho dúvida. Só gostaria de encontrar outra maneira de escrever reportagens sem ter que depender tanto do (quase) já batido recurso dos personagens.
Malditos personagens.
Trem bala (cover)
Há 9 anos