23 fevereiro 2006

Um dia de Paparazzi

Pelo menos no Correio Braziliense funciona assim. Quando ocorre uma reunião de pauta e um repórter diz:
- Tenho uma materinha legal...
Hummmm!!
O editor nunca dá a atenção devida. Quando você tem uma sugestão e ela não é sensacional, mas interessante, ou até legal, o grande lance é "vendê-la" desta maneira:
- Tenho uma matéria sensacional para esta semana!!!
O chefe presta mais atenção e até sugere informações complementares para a matéria se tornar sensacional.
Fiz esse nariz-de-cera todo porque me lembrei que começaria este texto dizendo:
- Tenho uma historinha interessante...
Bem, é interessante, mas por quê não vendê-la como sensacional? Alguém, além de mim, pode achar sensacional a "historinha"!
Vamos ao lead.

Quem esteve final de semana passado em Brasília foi ninguém menos que Don Diego Armando Maradona. Veio participar de um jogo de confraternização com ex-craques do Brasil em Brasília. Como esse camarada é polêmico, mais que divulgar a presença dele no jogo, o fato de ele passar duas noites na capital do Brasil já rende uma ou duas páginas inteira de notícias. Todo mundo quer saber o que Maradona fez em Brasília. Pelo menos os moradores de Brasília querem.

Eu queria também. Deixei de querer quando descobri que EU seria um dos responsáveis por informar ao público de Brasília o que cargas d'água Maradona fez em Brasília.

Humildemente, fui lá fazer vigília a partir de 9h30 da manhã de sábado passado (dia 18, se não me engano) em frente ao Hotel Kubitscheck Plaza, um dos melhores do DF. Na verdade, eu já estava rendendo um repórter do jornal, Afonso Morais, que ficou a madrugada inteira lá. Um fotógrafo já estava no local desde 6h30, quando substituiu o da madrugada.

Quando desembarquei no hotel, recebi as seguintes informações:

1- Maradona NÃO saiu do hotel na noite de sexta para sábado;
2 - Maradona encheu a cara de cachaça até 3h30 da manhã no bar da piscina.
3 - Um hospede reclamou da barulheira e os argentinos que acompanhavam Maradona, e que iriam jogar contra o Brasil no dia seguinte, foram para o quarto de Dieguito;
4 - Na suíte, Maradona pediu sete champanhes e um cara comprou 120 reais de energéticos no supermercado;
5 - Por volta de 6h da manhã, Maradona deu chilique porque queria que alguém comprasse cigarros para ele
6 - Por volta de 6h30, apagou-se a última luz do apartamento no décimo andar, onde Maradona estava hospedado.

Ciente da bagunça comportada do craque argentino, já estava pensando no título da minha matéria como "Maradona decepciona a imprensa". Brincadeiras à parte, assimilei essas informações de que ele teria ficado no hotel enchendo a rabiola de cana como verdades absolutas. Até porque, Goycochea, Basualdo, Careca e o próprio gerente do hotel deram a mesma versão. Só tive o trabalho de perguntar que horas ele sairia do quarto e o que comeu no café da manhã, almoço e jantar.

Acontece que às 17h, dez minutos antes de Maradona sair do hotel para ir jogar (sim, ele não veio para Brasília apenas para cachaçar), um cabeleireiro (néééé?!?!) que trabalha em um salão de beleza dentro do shoppingzinho do hotel chegou com a seguinte conversa:

- Arrumei quatro amigas (amigas mesmo. Popularmente chamadas de PUTAS PAGAS) para Maradona. Foi o chefe da delegação quem pediu. Eles foram no Gates Pub e na Boate Trend ontem à noite e voltaram depois das 4h da manhã...

Eu estava ao lado da minha concorrente, Camila Valadares, do Jornal de Brasília. Ficamos doidos com essa informação. Pô, um repórter passou a madrugada inteira no hotel e não viu Maradona sair pelo único elevador do recinto? Não era possível.

O cabeleireiro (néééé?!?!?!?) fez questão de mostrar que era, sim, possível que ele pudesse ter saído na noite de sexta para sábado. Acontece que o Gates e a Trend são locais concorridíssimos de públicos diferentes. Se ele tivesse ido com quatro putas pagas, Brasília inteira (a cidade só tem 16km de extensão, é pequena mesmo) já estaria comentando.

Pois o cabeleireiro (néééé?!?!?!?) sacou o celular do bolso e ligou para a amiga. Quem conversou com ela foi Valadares. A amiga estava nervosa porque a profissão dela é sigilosa, se é que você me entende. Mas deu a mesma versão do rapazinho do salão de beleza. Entramos em desespero. Eu e Valadares.

Quanto ele pagou pelas putas? Elas viram sinal de cocaína com Maradona? Ele usa viagra? Ele pediu alguma delas em casamento? Ele tem ejaculação precoce? Coisas do tipo. Ridículo...

Bom, são coisas fúteis, mas que qualquer edição do Manual de Redação da Caras ou Contigo dá muito valor. Era para isso que eu estava ali. Quer queria, quer não, o público quer ler essas coisas. Tanto que foi a matéria mais lida no Correio Braziliense e no Jornal de Brasília no domingo.

Pois muito bem, para confirmar a história, procuramos um coadjuvante. Huuuummm... Um segurança de Maradona! Ninguém melhor que ele para comprovar se El Diez fora no Gates e na Trend na noite de sexta para sábado.

Quem abordou um deles foi Camia Valadares.
- Oi amigo, tudo bem? Já estamos sabendo que Maradona saiu ontem à noite, foi para o Gates, Trend e voltou depois das 4h da matina com quatro prostitutas, pode confessar...

O cara, segurança, todo de preto, cara de poucos amigos, fechou ainda mais o rosto e não respondeu.

Naquele momento, eu e Valadares começamos a discutir. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ela deveria primeiro, tirar a cara de poucos amigos do segurança com perguntas amenas. Such as:

- Como é pra você trabalhar com um astro da grandeza de Maradona?
- As pessoas pedem muito autografo?

Assim, você ganha a simpatia do entrevistado. Essa é a minha opinião. Depois que o entrevistado tá do seu lado, cai matando. O livro de Lúcio Vaz (Ética da Malandragem), que Da Silva citou em post passado, ensina mais ou menos isso.

Acontece que eu fiquei sem a informação e tive que voltar correndo para redação para escrever meu texto, porque o jornal já estava fechando. Somado a isso, o jogo entre Brasil e Argentina, o motivo pelo qual Maradona esteve em Brasília, estava começando e eu precisava estar lá.

Voltei para redação, contei a história para o meu chefe. Ele não engoliu muito bem. Liguei no Gates e Trend. Nenhuma das boates confirmou a presença de Maradona lá. Porém, Valadares conseguiu confirmar com um dos seguranças que Maradona teria passado por esses lugares. E mais: teria pago 1,8 mil reais para as gatas o acompanharem.

Escrevi a matéria sobre a noitada no hotel mesmo.

O Jornal de Brasília (Camila Valadares) escreveu alguma coisa tipo: "Noite misteriosa". O que Maradona fez, afinal? Ficou trancado bebendo no hotel ou pagou quatro putas? Esse foi o tom da matéria.

Tenho humildade para reconhecer que gostaria de ter feito a mesma matéria, mas meu chefe pediu para divulgar apenas a versão que Afonso Morais, o repórter que passou a noite de sexta para sábado lá, havia apurado.

Em conversa com meus colegas de redação, eles também acham que o correto foi o que fiz. Sinceramente, ainda estou na dúvida.

A única certeza que tenho é que quem lê Caras não vê o coração de quem escreve aquelas abobrinhas.

Haja sofrimento (e falta do que escrever)

15 fevereiro 2006

Sugestão

O site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) , - www.anj.org.br - ainda em fase de construção, está implementando um projeto para disponibilizar diariamente aos internautas as capas de todos os 123 jornais filiados à entidade.

Por enquanto, o site já permite que! o usuário acesse as primeiras páginas de 43 periódicos do país. O acesso é feito através de um banner situado à esquerda do site, que registra: "As primeiras páginas dos jornais de hoje.

Já o site Newspaper Direct - http://newspapperdirect.com - oferece na íntegra edições de importantes jornais do mundo todo. Disponíveis em formato online, os periódicos muitas vezes chegam antes ao site do que nas bancas dos respectivos paíse! s. Entre os títulos brasileiros estão Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Gazeta Mercantil e Agora.

Nenhum jornal gaúcho e diários importantes como Correio Braziliense e O Globo constam na página.

14 fevereiro 2006

O futuro dos jornais

Em 1998, o dono e fundador da Microsoft previu, Bill Gates, previu que no ano de 2000 não existiriam mais jornais e revistas. Gates certamente acreditava que a Internet (o jornalismo on line) iria acabar com o impresso. O empresário errou na previsão, mas não se pode negar que as novas tecnologias estão obrigando os jornais a repensarem seu papel. É a respeito disso que republico um artigo de O Globo.

Repensando os jornais

Carlos Alberto Di Franco (*)

Fonte:
O Globo

As fraudes praticadas por jornalistas norte-americanos do “New York Times” deram o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do “Times” — “uma instituição que está no negócio há mais de cem anos”— Talese, crítico competente e arguto, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal norte-americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa.
“Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazos, cicatrizes na credibilidade.
Um amigo gozador costuma me dizer que a expressão “jornalismo de qualidade” é contraditória em si mesma. Outro dia, quis me exemplificar esta sua opinião: “Veja”, dizia, “boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominada pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas.” O desinteresse crescente dos leitores com as páginas de política, por exemplo (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está se passando pela cabeça do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.
O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito. Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora. São chuvas de verão. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.
Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business . Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento. Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão reclamando.
Os jornalistas precisam escrever para os leitores, e não para os colegas. O jornal precisa ter a sábia humildade de moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às autênticas necessidades do público. O lugar de repórter é a rua, garimpando a informação, apurando, prestando serviço ao leitor. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

(*) Diretor do Master em Jornalismo.

12 fevereiro 2006

Quando falta o mais importante

Uma das coisas que me deixa frustrado é quando chego na redação, começo a escrever e percebo que se tivesse colhido determinada informação a reportagem ficaria melhor. Acho que todo jornalista já passou por isso. Não é nem que você tenha colhido poucas informações. É que se “tivesse perguntado ‘tal coisa’ poderia dar outro foco a notícia”. O pior é quando o editor pergunta por essa ‘tal coisa’ que você tem que dizer desconfiado: “não perguntei”. A sensação é de ‘falta de competência’.
Com o tempo o faro de repórter vai sendo aguçado e as falhas vão desaparecendo. É claro que vai ter um dia ou outro que você vai perceber que faltou o mais importante. As informações que você tem até dá para fazer a matéria, mas ela poderia ficar muito melhor se não tivesse esquecido de perguntar sobre a ‘tal coisa’. Sempre costumo dizer aos meus alunos que o nosso contato com a fonte (entrevistado) é uma oportunidade é única. Em alguns casos dá até pra fazer uma nova entrevista, mas o entrevistado perde a espontaneidade. Quem já teve que fazer isso sabe do que eu estou falando.
Em televisão é ainda pior. Depois que a câmera é desligada e você pede pro cinegrafista ligar novamente porque esqueceu de fazer uma pergunta, o entrevistado fica todo sem jeito. Ele até responde. Mas responde sem graça. Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista. Ele é que tem que estar atento às imagens que farão a diferença na matéria. Se o cinegrafista não filmar, sua matéria vai ficar comprometida.
Semana passada vivi essa experiência. Estava trabalhando no clássico Campinense x Treze, no Amigão. Quando a bola saiu pra lateral, o técnico do Treze deu uma cotovelada no lateral-esquerdo do Campinense. O nariz do jogador sangrou e começou a confusão. “Você filmou a cotovelada”, perguntei ao meu cinegrafista. “Não sei”, respondeu ele pra minha tristeza. E realmente não tinha filmado porque assim que a bola saiu pra lateral, ele desligou a câmera. A cotovelada foi o assunto do outro dia no meio esportivo. Sem a imagem não pude fazer muita coisa. Tinha até boas sonoras com os envolvidos no caso. Não pude usá-las porque não dava pra fazer um VT sobre algo que não tinha a imagem. Esses casos chegam até a comprometer a credibilidade. O telespectador pode pensar que houve omissão, que não foi o caso.
Eu já havia passado por outra situação em janeiro de 2005, quando trabalha na TV Borborema. Posse do novo prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo. Teatro Municipal lotado. Depois de entrevistar o novo chefe do executivo da cidade fomos (os jornalistas) entrevistar a ex-prefeita Cozete Barbosa. Quando estava na sexta pergunta resolvi tirar o microfone. Achei que com as sonoras que tinha dava pra fazer a matéria. E não é que na oitava pergunta, a ex-prefeita dá uma declaração bombástica. Na mesma hora, minha ex-editora Neide Nascimento me ligou perguntando se eu tinha a entrevista. Pense numa frustração. Ela ainda tentou me convencer a entrevistar novamente a ex-prefeita, num ato desesperado de conseguir a declaração. Sabia que seria quase impossível. Ela poderia até dizer algo parecido, mas nunca com a mesma raiva que disse. Fiquei pensando que aquilo era como se um prédio tivesse caído e eu tivesse perdido a imagem. Não teria como erguer o prédio, fazê-lo cair de novo para que eu pudesse filmar. A entrevista que perdi apontou um grande defeito nosso (de alguns repórteres de tevê como eu) de não ficar até o fim da entrevista, quando ela é feita por muitos jornalistas. Na maioria das vezes, na terceira ou quarta pergunta o cara já vai tirando o microfone. E foi por causa dessa mania que perdi a declaração da ex-prefeita, o fato mais importante da posse. Não foi bom, mas pelo menos serviu pra ensinar algo.

08 fevereiro 2006

Há vida além do esporte

Definitivamente, existe mais coisas no mundo jornalístico do que as matérias de esporte ou qualquer outra coisa relacionada ao que eu e Da Silva costumamos escrever neste espaço. Isso é óbvio.

Diante da mobilização internacional para tentar entender a reação dos islamicos após a publicação das charges do profeta Maomé ligado ao terrorismo por um jornal dinamarquês, me vejo na obrigação de colocar alguma coisa sobre o assunto no nosso blog.

Entendo que o assunto é extremamente complicado. Poucas pessoas gostam de ler sobre o assunto. Principalmente em Campina Grande, onde as pessoas fazem questão de pensar que o mundo gira em torno da cidade, e não o contrário. Mas o texto abaixo foi publicado no Washington Post e foi escrito por um jornalista do semanal alemão Die Zeit.

Além de cutucar os americanos, o jornalista dá mostras de quais são os critérios de edição nos jornais da europa.

Abaixo:


Thomas Kleine-Brockhoff
Tolerância para com os intolerantes

--> --> -->Na semana passada, a publicação na qual trabalho, o semanário alemão Die Zeit, divulgou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Era a coisa certa a fazer. Quando as charges foram tornadas públicas pela primeira vez, em setembro, na Dinamarca, ninguém comentou o assunto na Alemanha. Se os desenhos tivessem sido oferecidos à minha revista na época, certamente teríamos declinado.

Pelo menos um deles equipara o islã ao extremismo. É exatamente o tipo de coisa que devemos evitar no debate sobre fundamentalismo — embora a charge política tenha o exagero na sua essência.

Não teríamos publicado por moderação e respeito à minoria muçulmana no nosso país. O bom senso da mídia é posto à prova toda hora. Não mostramos fotos de sexo explícito nem de pedaços de corpos após ataques terroristas. Procuramos manter o racismo e o anti-semitismo longe das nossas páginas. A liberdade de imprensa exige responsabilidade. Mas os critérios mudam quando o material tido como ofensivo adquire valor noticioso.

Por isso vimos corpos despencando das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Por isso vimos imagens dos abusos na prisão de Abu Ghraib. Nessas ocasiões, publicamos o que normalmente não sairia. A natureza desse pensamento é encontrar parâmetros sobre o que é culturalmente aceitável.

Quantas vezes não mencionamos os seios da cantora Janet Jackson em discussões sobres os limites da diversão familiar na TV? Quantas vezes publicamos coisas que os judeus consideram agressivas? Parece inacreditável que os jornais americanos tutelem seus leitores, deixando de publicar charges que o mundo comenta. Publicar não significa aprovar. O contexto importa muito.

Vale lembrar que a polêmica começou com um bem-intencionado projeto de livro infantil sobre a vida do profeta Maomé, escrito para promover a tolerância religiosa. Mas o autor se deparou com a rigidez religiosa no momento em que buscou um ilustrador para a obra. Impossível encontrar um.

Os artistas dinamarqueses pareciam temer pela própria vida, lembrando o destino do cineasta holandês Theo van Gogh, assassinado por um fundamentalista islâmico depois de fazer duras críticas ao extremismo. Quando a história chegou ao Jyllands-Posten, o editor de cultura resolveu bancá-la. Ele queria ver quais cartunistas se submeteriam à autocensura por medo dos muçulmanos radicais. Até então, a mídia européia ignorava o caso.

Foram precisos meses, o boicote de produtos dinamarqueses no mundo árabe e a intervenção de campeões da liberdade religiosa — como os governos de Síria, Kuweit, Arábia Saudita e Líbia — para que, finalmente, despertasse o interesse de alguns jornais europeus. Na semana passada, o assunto virou manchete em todo o Velho Continente.

Já na maior parte dos relatos na imprensa americana, os europeus pareciam estar errados, novamente. Eles não sabem como lidar com a imigração, a religião e o respeito às minorias. Afinal, suas cidades estão queimando, como ficou claro, meses atrás, na França.

O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, detectou um “preconceito antiislâmico” e o comparou ao “preconceito anti-semita” de outrora. Nessa jihad (guerra santa) contra o humor, a tolerância é desdenhada por quem a prega para os outros. Os governos autoritários que dizem falar em nome das supostamente oprimidas minorias islâmicas na Europa reprimem implacavelmente as suas próprias minorias. Eles não pedem mais respeito, mas submissão. E querem que os não-muçulmanos na Europa vivam regras muçulmanas.

Será que Clinton defende a tolerância para com a intolerância? Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado norte-americano achou apropriado intervir e condenou a publicação das charges como um inaceitável incentivo ao ódio religioso. Esse é um momento curioso, em que o governo dos EUA, que se gaba de ser o ninho da livre opinião, sugere aos jornalistas europeus o que eles não devem publicar.

O autor, chefe da sucursal do semanário alemão Die Zeit, escreveu para o jornal The Washington Post

07 fevereiro 2006

Ensaio sobre a soberba

Estou longe do jornalismo literário. Muito longe mesmo. Só coloquei esse título "Ensaio sobre a soberba" porque, na verdade, queria escrever sobre a soberba. Confesso que esse é o pecado que mais me intriga. Tenho certeza que a meu amigo Da Silva também. (NR - Acostume-se, porque eu só chamo Leonardo Alves de Da Silva). Este "Ensaio sobre a soberba" tem alguns lances que me ocorreram na semana que passou.

Pois bem, há um ditado maravilhoso que diz o seguinte:

"A soberba bota praça na ante-sala do fracasso".

Traduzindo para a linguagem manjada dos jogadores de futebol:

"O jogo só acaba quando termina".

Ou seja, não adianta contar vantagem antes de ter feito alguma coisa.
Fim do nariz-de-cera.

Vamos ao lide.

No post "Ficha Extensa", relatei uma confusão que criei no time de vôlei de Brasília, a Brasil Telecom, que disputa a Superliga Feminina (o nome dado ao Campeonato Brasileiro de vôlei). Pois bem, passei três semanas sem pisar nos treinos desse time de vôlei. Por coincidência, após minha reportagem em que o treinador ventilou a possibilidade de sair do time, a equipe desandou a perder. Tudo de três sets a zero.

Na segunda-feira da semana passada, coloquei na minha cabeça que voltaria aos treinos normalmente, mas tinha que ter um assunto muito bom para não encarar as jogadoras e o treinador sem nenhum argumento. Antes de dizer qual era, preciso esclarecer que não fui ao treino antes porque tive outras (muitas) pautas diversas.

Anyway, na mesma segunda-feira, encontrei Rodrigo Ferreira, estagiário da editoria de Esportes do jornal Tribuna do Brasil, em uma pauta sobre golfe. Conversa vai, conversa vem, contei que tinha um "assunto bomba" para estourar na quadra do time de vôlei de Brasília. Ele tava muito a fim de perguntar o que era, mas quando um repórter dá uma dica dessa, os concorrentes já ficam loucos para descobrir o que é e se esforçam ainda mais para dar outra bomba.

Meu assunto não era bomba, era apenas inconveniente. É o seguinte: descobri que o time da Brasil Telecom era a segunda equipe que mais errava no Campeonato Brasileiro. Por partida, entregava uma média de 24 pontos. Ora, se um set tem 25 pontos de duração, então as candangas entregavam um set de bandeja para as adversárias. Tudo baseado nas estatísticas da Confederação Brasileira de Vôlei.

Tive que gastar uma tarde inteira calculando esses números. E olha que sou péssimo em contas. Mas esta estava certa.

Agora, veja a situação. O repórter solta a aspa de um treinador dizendo que pode pedir para sair do time. O treinador nega que tenha dito isso. O repórter passa três semanas sem pisar nos treinos, e quando já chega com os "pés nos peitos" dos entrevistados. Não era um bom retorno. Por isso, vendi meu peixe como "assunto bomba" para a concorrência.

Não sei se o nosso Rodrigo Ferreira ficou instigado para correr atrás da bomba que eu teria ou se ele deu sorte. Acontece que ele se aproveitou de minha soberba ("tenho um "assunto bomba") e deu o furo da semana em mim e no Jornal de Brasília.

Ele simplesmente descobriu que a pessoa que mantinha o time de vôlei vivo dentro da Brasil Telecom (leia-se: diretora de esportes) fora demitida dois dias antes do jogo da semana passada. Furo. Muito melhor que meu "assunto bomba". Com a demissão da diretora, o futuro do time de vôlei em Brasília era obscuro. Poderia, inclusive, acabar no meio do campeonato, o que seria uma verguenza.

Descobri, em seguida, que ele estivera em todos os treinos do time após meu rasgo de prepotência e ainda foi jogar bola com os funcionários da empresa Brasil Telecom (e não as jogadoras) para tentar ofuscar meu "assunto bomba". Mas acredito que o futebol tenha sido por acaso.

Reconheci o furo tomado. Meu chefe não deu muita trela. Afinal, após quase duas décadas, ele entende que furos são feitos para dar e para levar. Eu já dei alguns. Levei vários. Semana passada levei mais outro. Amanhã posso dar algum. Acontece. Merdas acontecem. Desde que eu saiba fazer algo diferente de apenas tomar furos e me conformar.

Agora, me responda, não seria muito melhor ter guardado esse danado desse "assunto bomba" só para mim?

(NR - Os ânimos das jogadoras para cima de mim estão exautados. Elas me espancam com um olhar. Dão entrevista por obrigação. Vôlei, basquete, natação ou qualquer outro esporte que não seja futebol, no Brasil, não tem a rotina de ser cobrado diariamente. Mas isso é assunto para um outro post)

01 fevereiro 2006

Sugestões de leitura

Não é muito fácil encontrar livros de jornalismo. Pelo menos aqui em Campina Grande. Na maioria das vezes que vou a livraria vejo os mesmos títulos. São poucas as novidades que chegam ao mercado campinense. Pra minha sorte Daniel mora em Brasília e, sempre que surge alguma novidade, ele me manda de presente. Aliás, na passagem relâmpago por aqui, ele me prometeu enviar (mais um) um livro. O novo da Folha de São Paulo. Não lembro bem do que se trata. Só sei que é interessante. Daniel me falou, mas já estávamos acima do sexto chope, então é difícil lembrar. Como DB estava no mesmo nível que eu, estou apenas relembrando a promessa.

Pois bem, o último presente que recebi via Brasília foi o livro de Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional. Só pelo título dá pra perceber o que encontrei nele. Se o “mundo do Congresso” – esse que a gente conhece – não é lá essas coisas, não tem credibilidade, imagine o submundo. São 26 reportagens investigativas do jornalista gaúcho, que há 20 anos mora em Brasília. Passou treze na Folha de São Paulo e agora trabalha no Correio Braziliense. O livro é uma lição para todo jornalista, principalmente para aqueles que são atraídos pelo jornalismo investigativo. Lúcio conta os bastidores de cada reportagem, a maioria publicada na Folha de São Paulo. São denúncias de aluguel de mandato, nepotismo exagerado, compra de votos e, acredite, tráfico de drogas no Congresso. Tinha até o “teledrogas”. Como este é um ano de eleição, o livro também serve de reflexão para olharmos em quem pretendemos votar. Se bem que eu acho que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”. É um bando de picareta. Estão pouco se lixando pros nossos interesses. Eu já tinha essa impressão e depois do livro aumentou ainda mais. É nojento você saber que a maioria (pra não dizer todos) faz com nosso dinheiro. Como Daniel, disse eu outro post: “políticos? Esses nunca são inocentes”. Os caras só se interessam em aprovar alguma coisa se forem beneficiados.

Sempre tentam se locupletar de alguma forma. Entre as reportagens aparecem nomes de políticos paraibanos. Na intitulada “Compra de votos”, Lúcio relata o episódio da convenção do PMDB em 1998, na Paraíba. Na época o agora deputado federal Ronaldo Cunha Lima queria ser indicado pelo partido como candidato a governador. Porém, José Maranhão pretendia concorrer à reeleição. A denúncia era de que Maranhão estava comprando votos dos convencionais. O jornalista veio a Paraíba, fez a matéria, mas ficou tudo “por isso mesmo”. Nessa mesma linha, Lúcio conta que um político de Mato Grosso denunciava o adversário por compra de votos. Ele prometia gravações. Depois de alguns meses sem resposta, o jornalista liga pro denunciante e ele diz que fez um acordo com o adversário. É mole?

Aprendi e estou aprendendo muitas coisas com o livro. Fiquei imaginando como seria um jornalista daqui fazendo reportagem investigativa. Possivelmente ele encontraria irregularidades. O problema seria onde publicar. No caso de Vaz, ele tinha o apoio do jornal. Por aqui, acho que o jornalista poderia até publicar algumas denúncias. Mas só aquelas dos adversários do grupo político que o veículo está “ligado”.

O que me chamou atenção também foi a orelha do livro, escrita pelo editor Luiz Fernando Emediato, que afirma existir “dois Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos esclarecer, é aquele que faz uma Constituição, luta pela liberdade, vigia o Estado e até depõe um presidente. Vale a pena apostar que um dia será este o Congresso – e não o outro – que prevalecerá”. Concordo com ele, mas não posso negar que o outro Congresso (os das falcatruas) vem levando vantagem, se sobressaindo há muito tempo. Isso cansa. E não tem essa que “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

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Outro leitura recente foi o novo de Fernando Morais, Cem Quilos de Ouro [e outras histórias de um repórter]. O autor dispensa apresentações. O livro traz uma coletânea de doze reportagens. Grandes reportagens na verdade, algo que anda esquecido na maioria dos jornais. Hoje em dia não se investe tanto. As empresas não estão dispostas a pagar caro por uma boa história. O melhor é que todas as reportagens são precedidas do “making-off”, no qual os bastidores são relatados. Entre as histórias de Morais, três me chamaram a atenção: “O sonho da transamazônica acabou”, “O Napoleão do Planalto” e “O solitário da Dinda”. Na primeira, o jornalista conta os resultados da Transamazônica. Fernando havia feito a primeira reportagem sobre a estrada em 1970, percorrendo 5296 quilômetros em cima de uma promessa de desenvolvimento. Quatro anos depois voltou a fazer o percurso, atravessando “136 rios em seis balsas e cruzando 130 pontes” ao lado do fotógrafo para ver se o sonho do desenvolvimento tinha se tornado realidade. Foram vários dias na estrada num jipe Xavante da Gurgel para comprovar que tudo não passou de promessa.

Na “O Napoleão do Planalto” o jornalista traça um perfil da vida de Collor na época de presidente. A rotina, os contatos, os “amigos” (do poder, é claro). A reportagem “O solitário da Dinda” é sobre a vida do ex-presidente depois da queda. O interessante é fazer um paralelo entre as duas. Depois de sair do poder, Collor perdeu os amigos. Poucos lhe telefonavam. O ex-presidente revela toda a sua mágoa. E Morais consegue descrevê-la muito bem. O livro não deixa de ser uma aula de jornalismo ministrada por quem entende muito bem do assunto.

Os livros de Lúcio Vaz e Fernando Morais são certezas de boas leituras para este início de ano.

24 janeiro 2006

Arapuca para imprensa

O Globo (23/01/06)
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A cilada do artista invasor
Suzana Velasco

A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. Um célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição "Geijitsu kakuu", no Museu de Arte Contemporânea(MAC) de Fortaleza.

No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia. Era tudouma invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criarum trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada na semana passada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros — sobretudo os que caíram na cilada — atacando ferozmente o que seria uma molecagem de menino.

Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte contemporânea, por ter colaborado coma farsa.— Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal — diz Firmeza, recentemente selecionado para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, que trará jovens talentos para uma exposição no Paço Imperial este ano.

— Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Eles provaram ainda mais o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido. Não havia registro do artista na internet. Mas o humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados.

Segundo o jornal local "O Povo", o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco "a harmonia entre a para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições". Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza. Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato, que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas. Se passaram ao largo do fato de não haver qualquer registro do japonês na internet ou em textos impressos, é normal que ninguém tenha percebido as pistas deixada por Firmeza no próprio nome que deu ao artista, que em português significa "artista inventado", e à exposição, "arte e ficção".

Diretor do MAC há 11 meses, Ricardo Resende não interferiu nessa divulgação, mas admite que passou por uma saia justa:
— Um jornalista do "Diário do Nordeste" me ligou para saber da mostra porque não estava encontrando informações. Fui pego de surpresa. Disse que pediria para o artista entrar em contato com ele.

Foi o que o artista fez. No papel de Souzousareta, respondeu a uma entrevista por e-mail, que foi publicada em página inteira. Foi uma repercussão da qual museu e artista não tinham idéia quando Firmeza propôs o artista inventado ao ser convidado para o projeto Artista Invasor.

— Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar. Convidei oYuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas ( ele faz muitas das performances nu ). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Eu fui adiante, porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha sobre o assunto — avalia o diretor do MAC de Fortaleza.

Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem:

— Há um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Ceará. A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade, ou mesmo uma falta de conhecimento de arte contemporânea. Depois houve uma tentativa de jogar o erro para o outro, enquanto o grande erro foi daprópria mídia.

Firmeza, apesar de enfatizar que o problema é da imprensa em geral, faz críticas à falta de especialização no estado.

— Acho que a imprensa de São Paulo e do Rio também poderia ter caído nessa. Mas o Ceará é uma província. Aqui os jornalistas não têm fundamentação teórica sobre arte, é uma verborragia — diz ele,citando o artigo "Arte e molecagem" do jornalista Felipe Araújo,de "O Povo", que afirma que a arte contemporânea é, "com raras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação." — Todo o preconceito está ali.

Para diretor, museu cumpriu seu papel
No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza eum amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri — que não sabe como a exposição teria sido montada se nada houvesse sido publicado nos jornais:

— Foi um risco que corri desde o início. Mas de qualquer modo estaria lá a troca de e-mails. As performances aconteceriam e também voltariam ao museu como registros. Só sei que se o Yuri tivesse enviado o material, nada teria sido publicado na imprensa.

Para Resende, o museu saiu fortalecido no meio artístico porque mostrou que funciona para ousar:

— Nossa credibilidade não está ferida. Acho que as pessoas se perguntam que mídia é esta, que informações estão lendo. O museu só está cumprindo seu papel de ser o espaço do artista. O trabalho deu muito certo porque chegou ao editorial do jornal e a outras áreas em que a arte contemporânea nunca é tratada. Ele foi realmente um invasor.

18 janeiro 2006

Ficha extensa

Nunca fui santo. Nunca foi anjo, também. Enfim, sou normal. Talvez, esse seja meu maior defeito (profissionalmente falando). Por me considerar "normal" gosto dos desafios apresentados diariamente pelo jornalismo. Ao mesmo tempo, tenho medo de encarar as conseqüências dos desafios proporcionados pela carreira que escolhi.

Desde que comecei a trabalhar profissionalmente (com carteira assinada, em 1999), nunca arrumei tanta confusão com minhas reportagens como neste ano de 2006. E olha que nem completou um mês de vida. Em três semanas, consegui atingir a incrível marca de quatro matérias contestadas pelas próprias fontes.

Reclamações sobre minhas matérias não são novidade. Antes de enumerar as confusões que já arrumei em 2006, deixa eu fazer uma recaptulação de todas as encrencas que me meti desde quando tinha 18 anos e estava engantinhando no jornalismo.

Vamos lá:

1999 - Eu, repórter de TV. Foca total. Recém-chegado em Campina Grande. Fiquei espantado com o fanatismo dos torcedores dos times de futebol da cidade. Certo dia, almoçando, tive o azar de estar no mesmo restaurante dos presidentes de Treze e Campinense. Fui convidado para sentar ao lado deles e aceitei. As duas equipes se enfrentariam no final de semana seguinte pela semifinal do Campeonato Paraibano. Havia quatro jogos seguidos que o Treze não ganhava do Campinense.

O povo de Campina Grande, espirituoso como ele só, falou logo que o Treze tinha "tomado na quartinha". Para quem não é do Nordeste, quartinha é um recipiente feito de barro que é muito usado para colocar água ou até cachaça mesmo. Tipo uma jarra. A expressão "tomado na quartinha" era uma referência ao tradicional "tomado no c*".

Pois bem. Os presidentes dos dois times me pediram para fazer um agito para aquele clássico que estava por vir com dois dos principais jogadores das equipes rivais. Passei na feira, comprei uma danada de uma quartinha e levei, no mesmo dia, para o campo do Treze. Chamei o atacante Valério, do Treze, e expliquei que havia combinado tudo com o presidente do time e tal que era para fazer uma brincadeira com a tal da quartinha. Ele aceitou, mas não havia entendido que eu estava com a quartinha ali para entregar para ele e filmar alguma coisa. Tipo ele jogando a quartinha no chão, pisando e quebrando.

Inocente, mostrei a quartinha para ele bem em frente à torcida do Treze. Valério, claro, fez uma cena, tipo: "você é louco de trazer isso para cá, jamais farei tal coisa". Falou alto e nervoso para a torcida ouvir. Fiquei muuuuito sem graça e olhei para a torcida. Ela já estava toda no alambrado do estádio me xingando.

Isso aconteceu em setembro e passei o resto do ano sem conseguir entrevistar Valério direito. O treinador não aceitou falar sobre o clássico comigo. Para completar, criei um caso de ódio com a torcida do Treze que me perseguiu até meu último dia em Campina Grande (20 de novembro de 2002).

2000 - Depois de ter conquistado o primeiro título paraibano em 11 anos, o Treze entrava para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro cheio de moral e com o mesmo elenco campeão. entre eles estava Duda, um meia habilidoso, baiano, cheio de ginga, porém tímido com a imprensa.

Por coincidência, ele estivera uma única vez solto de frente aas câmeras. Exatamente na festa de comemoração do título paraibano. Cheio de cana na cabeça, rebolou na boquinha da garrafa, cantou e nós, claro, colocamos toda a festa no ar. Até aí, tudo bem

Acontece que esse neguinho desandou a jogar mal na Série C. Perdeu gol, pênalti, errou passes incríveis, a torcida do Treze (talvez, a mais noiada do Brasil), começou a pegar no pé dele. Sob a influência de Batatinha, chefe dos cinegrafistas da TV Borborema, resolvemos fazer uma montagem sobre a entrevista que ele havia me dado após um jogo da terceirona.

No exato momento em que ele dizia "Eu tenho certeza que tô jogando bem", nós colocamos a imagem do pênalti perdido por ele e, em seguida, ele dançando na boquinha da garrafa. Ou seja, dava a entender que ele tava farrando em vez de se preocupar com futebol.

Acontece que esse neguinho largou o Treze depois dessa confusão. Os jogadores fizeram pacto do silêncio comigo e passaram dois meses sem me dar entrevistas.

2001 - O Treze estava rumo ao bicampeonato. Havia contratado um louco para comandar o time. Um tal de Celso Teixeira. Ele se fazia de amigo das pessoas para depois "esfaqueá-las" pelas costas. Acontece que ele recebera propostas parra sair do Treze no meio do campeonato, mas estava sem coragem para pedir para sair.

Certo dia, estava eu fazendo uma passagem para uma matéria qualquer sobre o Treze no campo do time, quando ele interrompeu o treino e começou a gesticular. Logo chegou um diretor dizendo que eu não poderia filmar aquele treino. Mas, ora, eu tava apenas fazendo a passagem. Já havia filmado tudo que queria, só quem aparecia era eu naquele caso.

Isso deu uma confusão dos diabos. Deixa eu resumir porque esse post já tá gigante. Fiz uma matéria meia-boca sobre a confusao na sexta-feira. No domingo teria algum jogo, que não me lembro qual era.

Após o jogo, esse tal Teixeira deu entrevistas me xingando e me chamando de Daniel Filho nas duas rádios de Campina Grande. Nos tradicionais debates de segunda à noite, recebi a ligação de um ex-jornalista mas apresentador do programa da emissora concorrente aa minha pedindo para falar sobre o caso. Comecei a falar normalmente quando o ex-jornalista me perguntou:

- Você aceitaria falar com Teixeira hoje?
- Claro..., disse sem imaginar que poderia falar com Teixeira na segunda à noite
- Eu tô aqui e não quero falar com essa criança não, interrompeu minha resposta o tal Teixeira.

Aí começou uma sessão de humilhação para cima de mim. Fui humilhado em praça pública. Chamado de analfabeto, criança, despreparado, e tudo com o apoio e a incitação (existe esse termo?) do âncora da rádio. Claro que respondi a todas as provocações do Teixeira, sempre em alto nível, sem xingá-lo ou acusá-lo de qualquer coisa. Mas sei que não consegui me sair bem no "debate".

O treinador saiu do Treze. E no dia seguinte, os jornais O Norte, em João Pessoa, e Diário da Borborema, em Campina Grande, estamparam em suas primeiras páginas: "Celso Teixeira: inimigo da imprensa". Conseguimos apurar que em todas as outras equipes que passou, esse Teixeira havia brigado com algum jornalistas para sair das equipes.

2002 - O Treze (sempre ele) andava muuuito mal das pernas (e dos bolsos). Fiz uma matéria com o zagueiro Almir Conceição "dando porrada" na diretoria por não cumprir o que prometia. A torcida caiu em cima de mim. Era véspera de clássico contra o Campinense (sempre ele, também).

Para completar, o apresentador do programa para o qual eu era repórter fazia questão de jogar a torcida do Treze contra mim. Não sei porquê. Mas fazia essa questão. Até que após o clássico (não me lembro quem ganhou), um diretor entrou no gramado de treinamento com vários bolos de dinheiro na mão. Fez aquilo para me provocar e para inflamar a torcida.

Foi o suficiente. Choveu sabugo de milho em cima de mim. Sabugo de milho, cusparada, chiclete, garrafa d'agua cheia de mijo... Foi preciso um outro diretor do time ir lá pedir para torcida parar. Quando estava entrevistando Rodrigo Tabata (hoje no Santos), ele fez sinal de calma para torcida porque ninguém parava de me xingar. Na saída do estádio, os torcedores cercaram o carro da TV e ameaçaram balançar a viatura. Foram momentos de pânico, confesso.

O que eu fiz? Pedi para o cinegrafista filmar toda a confusão e apresentei aos "chefes". O que aconteceu? Eu passei a ser apresentador do programa e o apresentador passou a ser repórter. Quantas reportagens no campo do Treze foram apresentadas no programa depois disso? NENHUMA...

(caraca, já escrevi muito e ainda nem cheguei na metade)

Pulamos, pois, os anos de 2003 e 2004.

2005 - Já no Correio Braziliense. Fui fazer uma matéria com a jogadora Flávia, do time de vôlei que disputava a Superliga (Campeonato Brasileiro). Ela é linda. Fiz uma matéria com o título: "A musa da Superliga". Perfil da atleta, fofoquinhas sobre namorados e tal. No meio da conversa, perguntei:
- Livro?
- Chikérrimo, de Glória Kalil

Publiquei a resposta. Flavinha me odiou para sempre. Até hoje deve ter esse sentimento. Não falou mais comigo até o término da Superliga. "Fiquei parecendo fútil", reclamou para as amigas.

Teve o caso do pivô da República Dominicana José Vargas, que atuou em Brasília, durante o Campeonato Nacional de basquete. Ele fez críticas a todos os jogadores na vespera da semifinal do campeonato. Recebeu uma bronca do diretor e eu liguei para ele para saber como tinha sido o papo (com o diretor). Ele reconheceu que havia criticado colegas na hora errada. Fiz essa matéria.

No último treino antes da ultima partida da semifinal, ele me encotrou e disse que eu menti, escrevi coisas que ele nao tinha dito e o escambau. Agora, imagina o cara de exatos 2,10m de altura apontando o dedo na minha cara, que está a, apenas, 1,74m de altura do chão? No momento em que ele dizia que eu havia escrito uma matéria que nunca existiu apontando o dedo na minha cara, calculei que a mão dele era duas ou três vezes maior que a circunferência de meu rosto.

Para minha sorte, o time de Brasília perdeu e esse cara foi embora de Brasília. Hoje encara repórteres em Franca (SP).

Chegamos (UFA!) em 2006.
Primeiro dia do ano começa com uma entrevista que fiz com um camarada chamado Baltemar Brito. Pernambucano, auxiliar técnico de José Mourinho, treinador do Chelsea, um dos times mais poderosos do futebol do planeta. Apesar do sobrenome, ele não é meu parente.

Ele me deu uma entrevista super legal. Disse que Mourinho (puta treinador) era um jogador de futebol medíocre, reclamou das torcidas brasileiras, falou sobre a falta de zagueiros na seleção brasileira.

Ao enviar a matéria para ele (após publicada no Correio BRaziliense), ele me liga na mesma hora.
- Rapaz, como eu vou mostrar essa reportagem para Mourinho?
- Desculpa (Baltemar) Brito, mas nossa conversa foi toda gravada. Você disse isso e eu tenho gravado
- Eu também não disse que os zagueiros da Seleção eram ruins. Também não reclamei disso, nem disso, muito menos daquilo, enumerou o camarada.
- Mas tá gravado!
- Eu sei, mas é que fiquei à vontade com você e falei coisas que não devia. Tem como republicar a matéria?

Impossível.

Outra polêmica do ano.

Matéria sobre o calendário do vôlei de Brasília para 2006. Coloquei que o Governo local não queria trazer um jogo da Liga Mundial e o Banco do Brasil estava negociando com governos para deicidir quais cidades sediariam as etapas do Circuito BB de volei de praia. Tudo baseado no que disse o presidente da Federacão do DF de volei. No dia seguinte, tanto o governo do DF como o BB mandaram carta reclamando da matéria. E olha que o texto ocupou um pé de página (20 cm). O governo culpou a federacão por nao haver Liga Mundial e o BB disse que não negocia com ninguém nada. Alguns diretores do banco estão sendo acusados de ter envolvimento em corrupção. A expressão "negociação com governos" por lá é motivo para escândalos.

Mais uma, desta vez no basquete:

Dois jogadores norte-americanos do time de Brasília que disputam o Campeonato Brasileiro são acusados de terem jogado sem o visto de trabalho para estrangeiros no país. Tal infração resulta em multa de R$ 50 mil, mais a perda dos pontos ganhos no jogo em que os caras não tinham visto e ainda cancelamento do pagamento por parte do governo da verba anual que a confederação de basquete tem direito.

A denúncia surgiu no jornal Lance!. Eu apenas republiquei e fui maltratado pelo diretor do time de Brasília. Inclusive, "acusado" de investigador, mal-caráter e intruso. Retruquei, mas preparei uma ofensiva por conta própria.

Fui no Ministério do Trabalho, no Ministério da Justiça e na Polícia Federal pegar informações sobre os dois caras. Um deles ficou confirmado que estava, de fato, sem visto em um jogo do campeonato.

Liguei para os diretores do time falando que queria fazer a matéria. Eles ligaram para meu chefe para tentar impedir a publicação. Não só não conseguiram impedir a publicação como deixaram a entender que erraram mesmo e o jogador estava sem o visto na estréia do Campeonato Brasileiro de basquete.

Fizemos a matéria com as informações que eu tinha conseguido nos órgãos federais e nao deu em nada. A confederação jamais vai reconhecer que aceitou um jogador que não tinha visto no país. Ela deixaria de receber a verba anual do governo. A maior perda foi minha, que não tenho mais uma grande fonte na área do basquete.

Por último (será que alguém ainda tá lendo este post?) , o volei, de novo.
O treinador do time de brasília, William Carvalho foi medalha de prata nas Olimpiadas de Los Angeles em 1984 e é extremamente gente boa. Porém, o time dele não começou bem a Superliga (Campeonato Brasileiro).

Fiz uma matéria comparando o rendimento deste ano com o do ano passado. Ele me disse assim, aos ver os números:

- Se nossas estatísticas não subirem daqui a cinco jogos, eu não vou estar mais nesse time
- Posso publicar essa sua declaração?, fiz questão de perguntar.
- Pode, pode..., respondeu, se despedindo

A matéria saiu no jornal de sábado, 14 de janeiro. As 11h da manha de sabado ouço um recado na minha secretaria do celular:
- Daniel, é o William. Eu não te dei esse tipo de entrevista. Você perdeu um cara que podia contar e eu perdi a confiança em você...
Esperei até segunda-feira para ligar para ele e conversar de cabeça fria. Ele não me atendeu. Pelo que soube da repórter do jornal concorrente ao meu, Camila Valadares, William achou uma babaquice a minha reportagem e não me dará entrevistas enquanto estiver em Brasília.

Hoje, quarta-feira, tenho que entrevistá-lo. Vou ligar para ele. Vamos ver o que ele vai fazer quando ouvir minha voz. Não quero briga, quero saber o que aconteceu para ele negar o que havia me dito na semana passada.

Diante de um histórico desses, ecoa alto na minha cabeça uma frase célebre de Batatinha, o mesmo cara que fez a montagem com o meia Duda, do Treze, dançando na boquinha da garrafa e errando gols:

"Jornalista ganha pouco para falar bem de todo mundo".
(DESCULPE O TEXTO GIGANTESCO, SÓ QUERIA EXPLICAR A HISTORIA DIREITINHO)

13 janeiro 2006

Assessorias e assessorias

Estive pensando nos últimos dias nos artifícios usados pelas fontes para calar nós jornalistas. Calar não, melhor, somente falar bem delas. O mais comum é oferecer dinheiro. Não estou falando de suborno descarado, quando o cara pergunta quanto o jornalista quer para não publicar tal matéria. Não que esses casos não aconteçam. Porém são mais raros. Falo daquele “cala a boca” oferecido pelos políticos. Esse sim acontece com freqüência. O político dá ao jornalista uma assessoria (não necessariamente de imprensa) e pronto. Ele ganha um jornalista que dificilmente – pra não dizer nunca – vai falar mal dele. Pode parecer radicalismo da minha parte, mas é dessa forma que os políticos agem. Teve um político aqui de Campina Grande que chegou a dizer que “os jornalistas da cidade a gente compra com um jantar”. Se disse é porque já deve ter comprado algum jornalista com um jantar.

A tática arranjar um salário para o jornalista. Na maioria dos casos o assessore sem fazer nada. Mesmo assim são nomeados para o cargo. Existe um caso ainda pior: o dos jornalistas que não têm nomeação e recebem dinheiro de três, quatro, cinco políticos “pra inteirar o leite dos meninos em casa”, como disse Daniel em um post anterior. É claro que esses benefícios são mais concedidos aos jornalistas políticos. Há um outro caso, que abrange as outras áreas, em que o jornalista com emprego num veículo de comunicação (principalmente jornal) usa seu expediente vago para assessorar alguém ou algum órgão. Alguém pode até dizer que isso é normal, que não atrapalha o trabalho, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo alguém que é assessor de um órgão ou pessoa que está cometendo irregularidades. Como o jornalista vai fazer uma matéria isenta se ele é pago também pelo órgão em questão? Certamente vai desagradar o jornal onde trabalha ou o seu assessorado. A sabedoria diz “ninguém pode servir a dois senhores” porque vai desagradar a um deles.
Se não me engano, Daniel já me falou que no Correio Braziliense e em outros grandes jornais não é permitido jornalista ter assessoria. Ou é jornalista ou assessor. Acredito que esse seja o melhor caminho. Aqui na Paraíba isso não acontece. Muito pelo contrário quase todos os jornalistas têm uma assessoria pra complementar o salário. Como gostam de dizer alguns políticos “é uma laminha que a gente paga”. Basta dar uma lida nas colunas políticas que logo se percebe de que lado o colunista está. Por aqui é assim. Ou você é a favor ou contra o governo. O colunista até tenta disfarçar, mas basta ler a coluna por uma semana que se percebe qual a posição dele. O interessante é que a maioria posa de jornalista isento, em que o único compromisso é com a verdade. Como se o leitor fosse burro e não soubesse fazer uma análise crítica. Existem colunistas que têm várias assessorias de políticos diferentes. Os nomes deles aparecem quase todos os dias nas colunas. Falando bem, é claro. Uma semana é suficiente pra se perceber de quem o jornalista está recebendo a “ajuda de custo”.
Mas deixa eu esquecer a área política e voltar pra minha, a de esportes. Nela também dirigentes, treinadores e jogadores tentam agradar os jornalistas com convites pra jantar, tomar uma cerveja e até assessorias. Nesse aspecto os dirigentes de clubes de futebol se assemelham aos políticos. E, pasmem, conseguem até ser pior. Aqui em Campina Grande se um cara desses encontra você num restaurante, senta a sua mesa e depois paga a conta, pode esperar que na primeira oportunidade ele vai dizer que “paguei um monte de coisa pra esse jornalista e ele ainda fala mal de mim”. E isso ocorre nas rádios. Já aconteceram vários casos.

Comigo aconteceram duas situações interessantes na época em que era editor de esportes do Diário da Borborema. Nenhuma delas envolveu jantares. Até porque acredito que o jornalista é que tem que pagar a sua conta para não dar o direito a esses caras ficarem conversando merda nas rádios e nos calçadões da vida. Isso mesmo, existe uma classe ainda pior que é a dos covardes, que só tem coragem de te criticar pelas costas. Voltando ao “causo”, um diretor de futebol de um dos clubes de Campina Grande estava tentando empresariar jogadores. Era procurador de um atacante, que inclusive foi artilheiro do Paraibano naquele ano. Pois bem, o cara chegou lá na redação me elogiando, elogiando meu trabalho. Fiquei logo desconfiado com aqueles elogios. Dirigente de futebol só fala do seu trabalho quando é para criticar. Aí, ela solta:
- Olha você sabe que sou procurador do atacante ‘fulano de tal’ e estou querendo vendê-lo pra um clube do Sul. Se você pudesse me dar uma força colocando matérias elogiando o jogador, quando vendê-lo trago um presente, um agrado pra você, disse ele.
- Peraí. Se eu colocar uma matéria elogiando jogador é porque ele merece. Até porque o cara é artilheiro do campeonato. Mas se você vendê-lo não me traga nada não. Nem uma camisa, sequer. O jogador é seu, o empresário é você e quem ganha dinheiro com isso é você. Eu sou pago pelo jornal, respondi.
- Não me entenda mal, sei que você é um homem de bem. Não estou querendo lhe comprar, apenas lhe agradar.

Eu pergunto: você leitor acredita que ele não estava querendo me comprar?

O outro “causo” foi mais interessante. Ainda como editor do DB, eu fiz uma matéria contra um técnico. Deve ter saído numa sexta-feira. No domingo, dia de jogo, ele estava comentando em outra emissora – que não fazia parte dos Associados – que a notícia do jornal era uma notícia plantada, de gente que queria tumultuar o trabalho dele. E não era. Dá pra perceber como o cara é esperto. Não criticou na emissora dos Associados, onde eu trabalhava também, para não correr o risco de ser desmentido no ar. Passado o jogo, na terça-feira lá fui eu pra reapresentação do time. O treinador estava com um semblante fechado. Pensei: “agora esse cara vem tomar satisfação comigo”. Quando encerrei meu pensamento ele me chamou pra conversar em particular. Pra minha surpresa – esperava um desabafo dele – o técnico veio com outra história:
- Você que todo profissional hoje em dia precisa de uma assessoria. Eu fiquei pensando nesses dias e cheguei a conclusão de que você é uma boa opção pra ser meu assessor de imprensa. É um cara que entende e gosta de futebol e também tem bom relacionamento com os outros jornalistas.

Não estava preparado para o convite. Fiquei alguns segundos pensando no que responder, mas a única coisa que me veio a cabeça foi:

- Eu realmente fico muito lisonjeado com o convite e o reconhecimento ao meu trabalho. Mas a função de assessor é incompatível com a de editor de esportes do jornal. Primeiro porque você não vai aceitar críticas. Segundo, todas as vezes que eu lhe elogiar as pessoas vão dizer que eu faço isso porque sou seu assessor. E além do mais pode criar um mal estar pra você, pois eu teria acesso a informações que os outros jornalistas não teriam. E eu iria usá-las no jornal onde trabalho. Os outros ficaram chateados porque você estaria me privilegiando. Então é melhor procurar uma pessoa que não tem vínculo com nenhuma empresa.
Eu imagino que no fundo ele não queria minha assessoria. Se tivesse aceitado talvez não tivesse recebido um tostão. Foi tentativa pra que eu não fizesse mais nenhuma matéria contra ele. Acredito que ele deve ter procurado alguma forma de me queimar, de me sacanear e a deve ter pensado: “a única forma de calá-lo é puxando ele pra perto de mim, amarrando-o com uma assessoria”. É a história de colocar os ‘inimigos’ perto pra não perdê-los de vista.

Posso até estar errado e realmente ele me quisesse como assessor. Nesses casos acho melhor não arriscar pra não comprometer o trabalho.

09 janeiro 2006

Notinhas

Há mais de um mês tenho essas duas notinhas para postar e sempre me esqueço. Mas agora vai.
Ambas as situaões aconteceram no final do ano passado.

Cena 1
Cerimônia de premiação do Prêmio Esso de jornalismo. Renata Lo Prete, jornalista da Folha de S. Paulo, foi a grande vencedora com a entrevista em que Roberto Jéfferson denunciou o Mensalão. Nao houve muito texto nessa matéria. Só entrevista e denúncia. Mesmo assim ela ganhou. Na hora dos agradecimentos, lá foi ela:
"Quero agradecer meu pai, meu filho, fulano, sicrano e, principalmente, Roberto Jéfferson".
Em vez de aplausos, muitas vaias para a ganhadora do Prêmio Esso 2005.
Em tempo: se fosse eu, também agradeceria ao personagem principal de minha matéria premiada (e levaria vaia também!)

Cena 2
Em uma das dezenas de festas de confraternização para jornalistas promovida por órgãos públicos, um repórter de uma das maiores revistas de circulação nacional espera na fila sua vez de ir ao banheiro. Ao lado dele, um cara forte o surpreende:
- Ei, você não é repórter da revista 'tal'?
- Sim, sou eu sim, muito prazer...
- Você denunciou meu pai no caso do Mensalão e ele quase vai preso, sabia?
Silêncio por parte do repórter
- Olha aqui, filho da puta, quanto é o programa?, aumentou o tom o tal do filho do acusado.
O repórter foi para o banheiro do outro lado do salão de festas para evitar o louco.
Em tempo: o cara quis humilhar o repórter dizendo que ele se vendia, tipo um garoto de programa. Ao que parece, o pai do cara provou inocência (claro que ele não era deputado. Esses não são inocentes nunca!).

07 janeiro 2006

Direito de resposta

Somente depois de colocar esse blog no ar junto com meu amigo Daniel Brito foi que percebi a eficácia desse instrumento. Aqui podemos relatar algumas de nossas experiências jornalísticas, além de interagirmos com outros profissionais, estudantes e amantes do jornalismo. Outra vantagem é a liberdade de que escrever o que pensamos. Sem nos preocupar com nenhuma linha editorial. Se bem que antes do blog entrar no ar elaboramos um “manual de redação” do 'Filhos da Pauta' para que a coisa também não fique desorganizada. Porém navegando pela internet esta semana vi uma notícia que começa (ou pode começar) a colocar em xeque a liberdade de expressão nos blogs. Está no blog “O que pensa Aluízio” (http://oquepensaaluizio.zip.net/) do jornalista Aluizio Amorim.

Segue o texto:

CRESCE A INFLUÊNCIA DOS BLOGUEIROS

Lei de Imprensa usada para
direito de resposta em blog

A velha, surrada e rabugenta Lei de Imprensa (Lei 5.250 de 09/02/1967), editada pela ditadura civil-militar de 1964, foi invocada pelo professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, para requerer – pasmem – direito de resposta em um blog editado por um professor, portanto um colega de profissão do Requerente. Trata-se do Blog do Tambosi, de propriedade do professor Orlando Tambosi, da Universidade Federal de Santa Catarina. Tambosi é jornalista, mestre em Comunicação pela USP e doutor em Filosofia pela Unicamp, tendo militado durante vários anos na imprensa catarinense. E, para lograr seu intento, o professor Moniz Bandeira contratou, nada mais nada menos, que os serviços de um dos mais respeitáveis escritórios de advocacia do país, o Noronha Advogados.

Do episódio, tiro duas conclusões. A primeira corrobora o que tenho afirmado. Os blogs crescem em todo o planeta e passam, cada vez mais, a ocupar o espaço antes monopolizado pelas mídias tradicionais. Não se trata mais de um lócus alternativo. Os blogs estão levantando assuntos e formulando críticas que as mídias convencionais ignoram. E vieram para ficar e já reformulam até mesmo a linguagem jornalística. A internet é outra mídia. O que na mídia convencional pode parecer panfletário e agressivo, no blog pode adquirir status de normalidade, guardada, evidentemente, a observância dos padrões éticos consentâneos com a moral e a lei vigentes. Além disso, abrem espaço para que qualquer cidadão, seja jornalista ou não, possa emitir livremente a sua opinião, sujeitando-se, é claro, à legislação em vigor. O caso em pauta comprova, de forma cristalina o que está acontecendo no âmbito da comunicação e que faz com que as mídias convencionais sofram uma crise aguda. E o que é mais importante: a internet, e os blogs em especial, ampliam o arco de vigília dos cidadãos sobre o Estado bem como ao nível do comportamento social e também no que tange ao fazer intelectual, científico e tecnológico.

A segunda conclusão é que o “entulho autoritário”, representado pela famigerada Lei de Imprensa, continua intacto. Seu anacronismo resulta do fato de que a lei foi criada de forma casuística pela ditadura, com a finalidade única de restringir a liberdade de imprensa, de opinião e de informação e, principalmente, amordaçar os jornalistas. Não se postula aqui a lacuna da legislação nesse aspecto. Mas não se pode concordar com a vigência de uma lei impertinente no que respeita aos cânones da democracia.
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aqui (http://otambosi.blogspot.com/ ) e vá direto ao Blog do Tambosi e entenda o que aconteceu.

Tomara que esse seja um caso único. Que não abra precedentes. Se isso acontecer, eu, Daniel e outros blogueiros seremos “obrigados” a selecionar os assuntos que abordaremos. Será o começo do fim da liberdade nos blogs. Aliás, poderá ser o primeiro passo do fim dos blogs. Pois sem essa liberdade, os blogs não terão o mesmo sentido.

04 janeiro 2006

Coincidência

Acho que to levando sorte nessa história de blog. Toda vez que escrevo sobre um assunto, alguém (que nao sabe que este blog existe) me envia um texto sobre o que postei neste espaço. Hoje, por exemplo, recebi uma matéria do jornal Estado de S. Paulo sobre fontes jornalísticas e blogs.

Sei que nem todo mundo tem paciência para ler um monte de coisa. Sei também, isso aprendi na minha monografia sobre JORNALISMO NA INTERNET NA PARAÍBA (nota 9,5. So nao foi dez porque um dos orientadores falou que eu tinha que apresentar de pé), que a leitura na tela do computador é 25% mais lenta.

Porém, achei que você poderia se interessaar em ler esta informaçao complementar ao meu post sobre fontes, Cicarelli, ACM e tudo mais que está abaixo.

Segue o texto:

O Estado de S. Paulo, 3 de janeiro de 2006.

Entrevistados gravam as entrevistas

Fontes insatisfeitas até republicam o conteúdo em sites

Katharine Q. Seelye

Durante décadas, mesmo quando as fontes de informação achavam que suas declarações tinham sido mal interpretadas, era improvável que elas enfrentassem os jornalistas ou donos de jornais, acreditando que o poder da imprensa dava a ela própria a palavra definitiva.

A internet, e especialmente o poder amplificador dos blogs, está mudando isso.

Fontes insatisfeitas descobriram há pouco tempo que poderiam usar seus sites na Web para corrigir o registro ou desconstruir artigos para expressar o que consideravam ser narrativas tendenciosas ou errôneas de jornalistas.
Agora, eles estão dando um passo além. Os entrevistados estão revidando. Eles passaram a usar os mesmos métodos que os jornalistas utilizam - gravando entrevistas, salvando trocas de e-mails, tomando notas em conversas telefônicas - e publicam o conteúdo em seus próprios sites e blogs.


Essa nova arma está ajudando a mudar a maneira como as notícias são apuradas e apresentadas. E isso traz implicações para o futuro do jornalismo.

Basta perguntar aos produtores do programa Nightline, da rede de TV ABC News. A rede transmitiu, em agosto, uma reportagem sobre o design inteligente (crença de que a evolução não é suficiente para ter formado a vida, processo que exigiria um "criador"), entrevistando integrantes do Discovery Institute, uma organização conservadora. Eles não gostaram nada da reportagem.

No dia seguinte, o instituto publicou no seu site a transcrição completa da entrevista com quase uma hora de duração - o programa que foi ao ar havia usado apenas breves citações da entrevista.

Na verdade, o instituto não acusou a ABC de qualquer erro. Mas convidou quem acessa sua página a analisar a entrevista não editada, porque ela revelaria "o tom previsível de algumas das perguntas" feitas pela equipe do Nightline.

"Aqui está sua chance de penetrar nos bastidores da mídia nacional para ver como eles fazem uma triagem dos pontos de vista e informações que não se encaixam nos seus estereótipos", escreveu Rob Crowther, o porta-voz do instituto no site. A publicação de transcrições, mensagens eletrônicas e conversas - e mesmo a capacidade de buscar informações em sites como o Google - tem dado poderes àqueles a quem Jay Rosen, um blogger e professor de jornalismo da New York University, chama de "pessoas anteriormente conhecidas como o público".

"Nesse novo mundo, o público e as fontes são também 'publicadores'", disse Rosen. "Eles agora dizem aos jornalistas: 'Nós também somos produtores. Portanto, a entrevista fica no meio, entre nós. Vocês produzem coisas a partir dela e nós também'. De agora em diante, num situação de entrevista potencialmente hostil, esta será a norma."

Todas essas evoluções têm obrigado os jornalistas a reagir de várias formas, inclusive se tornando mais abertos em relação a seus métodos e técnicas e talvez mais conscientes sobre a forma como filtram as informações.

"Na medida em que você sabe que existe alguém monitorando cada palavra, isso provavelmente o impele a ser ainda mais cuidadoso, o que é uma coisa boa", disse Chris Bury, o correspondente do Nightline cuja entrevista foi publicada na íntegra pelo Discovery Institute.

"Mas os leitores e telespectadores precisam compreender que uma entrevista é apenas uma parte da reportagem, que existem outras entrevistas e outras pesquisas e esta é apenas um parte do que constitui uma reportagem completa", acredita Bury.

Deu para entender??

03 janeiro 2006

Sobre as fontes

Sem exagero, azarar Daniella Cicarelli e namorá-la é mais fácil do que cultivar uma fonte jornalística. É sério. Primeiro porque Cicarelli está solta na bagaceira, ultimamente. Segundo, porque a fonte não quer beijo seu, mas só gosta de receber agrados.

Antônio Carlos Magalhães, vulgo ACM, tem uma frase boa sobre esse assunto. "Nunca dê dinheiro a quem quer informação. Nunca dê informação a quem quer dinheiro". Jornalista que procura o velho ACM pedindo um trocado para "inteirar o leite dos meninos lá em casa", o véi já sabe. Não é jornalista. É pilantra, enganador. Por outro lado, se a pessoa demonstra desprezo pela fortuna dele e explicita que quer informações boas (o que vale mais que dinheiro, na minha modesta opinião), ACM respeita. Se eu não me engano, ele já foi ministro das comunicações. Tem know-how nisso!

Pois bem. Tenho sofrido com minha única fonte segura e riquíssima de informações. Nos últimos dias, tenho batido sem dó nem piedade na coisa que ele administra. Crítica atrás de crítica. Até que um dia (para ser mais exato, dia 9/12, meu aniversário) acordo com uma ligação do camarada.

- Muito obrigado pela reportagem que você publicou hoje. Acabou de "me fuder" (com o perdão da palavra - parenteses meus!)

Ele falou alto, resmungou, ameaçou deixar de me passar informações e eu ainda cambaleando na cama. Estava dormindo quando ele me ligou, era cedinho da manhã, tipo umas 7h30. Ouvi um bocado. Ao terminar, soltei a única coisa que ele não estava preparado para ouvir:

- Você pensa que eu sou seu funcionário? Eu não estou a serviço da sua instituição. Nós temos uma parceria sadia e isso consiste em aceitar críticas. Você não está cumprindo com sua parte. Quando é para divulgar as suas coisas com letras garrafais no jornal, você não me liga agradecendo...

Pronto, a fera amansou mas eu já tinha perdido o sono. No dia seguinte, fiz outra matéria dando porrada nele de novo. Ele me ligou fazendo brincadeiras. Mas na outra semana precisei dessa figura de novo para apurar uma história que poderia repercutir nacionalmente. Na cara de pau, liguei e ele me passou tudo, como se eu só tivesse o elogiado nos últimos dias. A matéria não ficou legal, mas liguei e agradeci a força dele mais uma vez.

De repente, me toquei que poderia estar perdendo a confiança do camarada. Com ele, eu já dei furo na Folha de S.Paulo e Estadão (meu único, eu acho). E de fato estava perdendo. Ele já não me atende sempre, não tem tanto interesse em me passar algumas informações. Em pouco mais de um ano na redação do Correio Braziliense, posso dizer que tenho duas fontes. Essa pessoa em questão é uma e a outra fonte são duas pela metade. Duas pessoas me passam as coisas pela metade e eu tenho que morrer para conseguir as informações. Então, cada um vale por meia fonte.

Não forcei a barra para fazer matéria de qualquer jeito, nem fiquei de conversa fiada para o lado dele. No momento certo apareceu assunto e emplaquei uma página inteira com a história do camarada. Fiz a matéria com a história que ele trabalha e ainda não foi publicada. Mas tenho certeza que ele vai me ligar agradecendo e já vai me passar uma novidade (espero!).

Como eu disse, as fontes só passam informações que beneficiam elas próprias. Pode existir alguém que pense que jornalista não deve ser amigo de ninguém, não deve aceitar convites para almoçar, para jogar futebol descompromissadamente ou qualquer coisa do tipo. Mainardi, por exemplo, deve pensar dessa maneira. Mas ele é colunista, quase um escritor, então não conta como jornalista.

Mas fique sabendo que existe, sim, amizade entre jornalista e personagens. Quer amizade maior do que a pelada semanal entre jornalistas e deputados federais nos domingos em Brasília? Eles jogam bola e depois vão tomar cerveja. Nada impede que a Câmara dos Deputados (aquele prostíbulo- parenteses meu, de novo. Não me contive) seja execrada em todo e qualquer noticiário nacional.

Outra coisa, os grandes jornais e revistas designam uma verba mensal para que os jornalistas almocem ou jantem com suas fontes. Como você acha que os furos pipocam nas Vejas, Folhas de SP, Estadões da vida? São em conversas informais que a maioria das bombas estoura. Detalhe, quem paga a conta são os jornalistas, claro!

O que não pode existir é corrupção. Não é nem questão de dinheiro. É o fato de você saber de alguma merda que sua fonte fez e esconder. Não divulgar, por amizade, por camaradagem e até politicagem (sim, isso é politicagem). Aí mora o erro em "ser amigo" de personagens. No caso desse cara que me ligou reclamando no dia do meu aniversário, sempre soube de algumas falcatruas dele. Admito que fico meio chateado em ter que divulgar, mas sinto que tenho a responsabilidade de divulgar as merdas que ele faz (ele está longe de ser santo. Mas também não é ladrão do Banco Central de Fortaleza). Acima do meu interesse, está o interesse da comunidade. Não é hipocrisia. Falo isso do fundo do meu coração. Até porque, ele não será minha última fonte. Muito pelo contrário. Mas é sempre ruim perder uma fonte, claro!

Vou dar dois exemplos muito ilustrativos.

1) A convite do Banco do Brasil, viajei a Londrina/PR para cobrir uma etapa do Circuito nacional de vôlei de praia. Encontreei com todos os figurões do BB. Um deles (que não vou citar o nome porque ele pode ler isso aqui - nééééé???), diretor "pica grossa" do parte de esporte do banco, tomou café da manhã comigo e falou assim:

- Cadê o Cruz (José Cruz, meu sub-editor)? Aquele cara só dá porrada na gente, mas é um puta jornalista. Reconheço que ele não dá ponto sem nó...

Pô, fiquei feliz por Cruz por ter ouvido isso desse cara. Ele não pareceu estar mentindo. Apesar de que, meses depois, foi defenestrado do BB por roubo e envolvimento no Mensalão. Anyway...

2) Lucas Figueiredo é repórter especial do Correio Braziliense e Estado de Minas. Área de cobertura: Agência Brasileira de Intenligência (Abin). Trocando em miúdos, a Abin é a CIA ou a KGB do Brasil, certo? Só que aqui só tem burros (calma que eu explico).
Pois esse Figueiredo escreveu em 2005 o livro Ministério do Silêncio. Conta toda a história da Abin, desde 1927, no governo de Washignton Luís até 2005. Aí fala do surgimento do serviço de inteligência brasileira, do SNI durante a ditadura, até os dias atuais. No prólogo, ele avisa:
"Nem todos os entrevistados aceitaram divulgar seus nomes nesta publicação. Portanto, não identifiquei nenhum agente da Abin. Qualquer erro é de minha inteira responsabilidade". Ele foi macho em colocar isso na página 3 do livro.

O livro é sensacional para quem gosta de jornalismo investigativo e de história do Brasil. Conta cada absurdo da ABIN (que ja teve 15 mil nomes nesses 75 anos). Simplesmente, a Abin nunca fez nada certo. Deveria se ligar em defender a integridade nacional de grupos estrangeiros e só investigou a vida do povo. Inclusive, Lula foi a primeira pessoa que teve a vida devassada pela agência a ser eleito presidente. E o que Lulão fez com a Abin? Nada. Manteve os erros do passado. Ou seja, a Abin continua investigando a minha, a sua, de Da Silva, de todos os brasileiros comuns e "inofensivos" para a soberania nacional.

Mas deixa eu chegar logo onde eu tava querendo chegar. Quem passou os podres da Abin foram os próprios agentes. Eles queriam denegrir a imagem do próprio local de trabalho? Não creio! Passaram as informações para Lucas Figueiredo porque confiam nele. Figueiredo já cativou os agentes e teve total liberdade para conferir alguns arquivos confidenciais na Abin.

Confesso que gostaria de saber como está a relação entre o jornalista e os agentes secretos atualmente, depois do lançamento do livro.

Confesso, também, que queria ter uma oportunidade de bater um papo com Daniella Cicarelli para comprovar minha tese das fontes... (Que a minha namorada não leia isto!)

27 dezembro 2005

Jornalista também é gente

Primeiro quero me desculpar com nossa meia dúzia de leitores pela falta de atualização do blog. No final de ano o tempo fica mais escasso. Para jornalistas é a hora de antecipar edições. E no meu caso, que sou professor também, final de ano é tempo de divulgar notas e participar de bancas de monografias. Passada essa “turbulência” estamos de volta. Fica a promessa de que o blog não ficará mais tanto tempo sem atualização. Então, vamos a história.
Nos meus tempos de faculdade ouvi de alguns professores e de jornalistas veteranos que o jornalista não pode se emocionar, que deve ser frio diante dos acontecimentos. Essa afirmação me preocupava. Primeiro porque achava (e ainda acho) que a partir do momento que não me emocionar com os fatos serei menos humano. Certa vez ouvi um psicólogo dizer que a diferença do homem e dos animais está no fato de o homem ter a capacidade de sentir a dor do próximo. Pode soar piegas, mas não consigo ser insensível diante de uma matéria triste ou alegre. Acho até que fica difícil pro jornalista passar emoção numa matéria se ele não a sente. Nesses meus cinco anos de jornalismo, incluindo rádio, jornal e tevê consegui me emocionar várias. Mas duas reportagens me deixaram abalados nos três últimos meses. A primeira foi no presídio do Serrotão, o maior de Campina Grande. Fui lá fazer um VT sobre a transferência de 20 presos para o presídio de Guarabira, uma cidade que fica no Brejo paraibano a mais de 80 quilômetros de CG. Eles eram acusados pela direção do Serrotão de ter armado um motim há cerca de quatro meses. Transferência de presos é algo corriqueiro na vida de um repórter. Quando estava observando os vinte presos com mochilas e colchões nas mãos, percebi que um deles me olhava mais que os outros. Não há repórter que não fique cismado numa situação dessa. Somente quando os presos saíram em fila indiana em direção ao ônibus consegui entender porque aquele apenado me olhava tanto. Era um colega meu. Ele é uns cinco ou seis anos mais novo que eu, mas jogávamos futebol juntos nos campos de pelada do bairro. Sabia que depois que ele tinha ido morar em outro bairro (há uns seis anos) tinha se envolvido com drogas e roubos. Havia sido preso uma vez. Os amigos pagaram advogado, ele saiu, mas voltou pro crime. O fato de ver aqueles vinte presos sem perspectiva já tinha me feito refletir como eles haviam acabado com suas vidas. Fiquei ainda mais abalado quando percebi que um colega estava no meio deles. Esse rapaz que estou falando tinha tudo para não seguir o caminho do crime. Estudioso, trabalhador e ainda por cima um excelente jogador de futebol. É tanto que uma vez fizemos uma campanha para que ele pudesse ir a São Paulo fazer testes nos times de lá. Outra coisa que me deixou triste foi o fato de não tê-lo reconhecido, pois estava muito diferente. Fiquei imaginando que ele pensou que eu não lhe cumprimentei por discriminação, vergonha ou algo do tipo. Apesar de ter passado o resto do dia triste, essa matéria deixou uma grande lição: que o nosso destino depende das escolhas que fazemos.
No início deste mês também não consegui ficar insensível. Por volta de uma hora da tarde, recebemos uma ligação informando que um homem estava num prédio abandonado no Centro ameaçando se jogar. Todo jornalista sabe que na maioria das vezes matéria de suicídio não vai ao ar. Pesquisas revelam que quando se noticia suicídio incentiva outros. Cheguei no Centro e vi o homem no último andar (14º) ameaçando se jogar. Era um catador de lixo que por causa da situação financeira precária estava desesperado. A rua estava lotada de curiosos. No prédio em frente pessoas gritavam para “Daniel” (é o nome dele) descer. Mas a todo instante ela ameaçava pular. Os bombeiros trouxeram mulher e filhos para tentar demovê-lo da idéia, mas não teve jeito. Ele só conseguiu ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros depois de mais de duas horas. Nesse tempo vi o quanto muita gente não tem sentido do valor da vida humana. As pessoas brincavam com a situação dizendo que aquilo “era chifre e que ele deveria pular logo”. Uma mocinha de uns dezesseis anos ao meu lado comentava: “ele deveria pular logo pra gente ir embora”. “Pula, pula”, gritou. Aliás, incentivos para ele pular foi o que mais ouvi. É como se a vida daquele homem não tivesse nenhum valor, como se fosse um papel que cairia de cima de um prédio depois seria amassado e jogado no lixo. Boa parte dos curiosos queria mesmo era ver a queda, ouvir o barulho de um corpo se espatifando no chão. Quando aguardávamos o homem ser retirado um senhor de mais de 50 anos de idade fez uma piada com uma colega repórter de outra emissora:
- Pergunta a ele se o chifre já foi curado.
- O senhor gostaria que eu fizesse essa pergunta se fosse para algum irmão, amigo ou alguém da sua família?, perguntou ela.

O senhor ficou mudo, sem ação, com cara de quem poderia ter ficado calado. Resposta melhor minha colega não poderia ter dado. Saí daquela matéria (que não foi ao ar) com a certeza de que cada vez mais as pessoas dão menos valor a vida.
Para os jornalistas que condenam a postura do repórter que se sensibiliza com os fatos digo que prefiro ficar com a afirmação de alguém bem mais experiente que eu. Ricardo Kotscho em seu livro “A Prática da Reportagem” diz:

“Tristeza e alegria. Estes sentimentos se alternam nos trabalhos de cobertura, e não há como o repórter ficar insensível – e nem deve. Afinal, ele é antes de mais nada um ser humano igual aos leitores, e precisa transmitir não só informações, mas também emoções do que está cobrindo. Informação e emoção são as duas ferramentas básicas do repórter, e ele terá que lutar consigo mesmo para saber dosá-las na medida certa em cada matéria”

Se a insensibilidade é um pré-requisito para ser um bom jornalista, confesso que ainda estou longe disso.

14 dezembro 2005

É o futuro...

A internet é, definitivamente, o futuro do jornalismo. Cada dia que passa tenho essa impressão mais nítida. Dando uma circulada pela internet hoje, descobri essa materinha que saiu no site da Globo.com.

USA Today’ vai unificar as redações de jornal e online
SAN FRANCISCO.
A diretoria do USA Today — o jornal de maior circulação nos EUA — anunciou ontem que vai unificar as redações de suas edições impressa e online. A medida faz parte da estratégia de crescimento do grupo, que está de olho na crescente demanda por notícias via internet. A unificação será feita aos poucos, para que os profissionais se acostumem a produzir para diferentes plataformas.

Segundo o USA Today, que pertence ao grupo Gannett Co. Inc., a mudança começará pelas editorias de viagens, entretenimento e plantões extraordinários ( breaking news ).O vice-presidente e diretor de redação do USA Today.com (a versão online do jornal), Kinsey Wilson, foi promovido a diretor-executivo do“USA Today, cargo que dividirá com o atual editor-executivo do jornal, John Hillkirk.

Em agosto, o New York Times, um dos jornais de maior prestígio do país, disse que também iria integrar sua redação tradicional com a equipe da versão online. Anunciada inicialmente como uma colaboração mais intensa e freqüente entre as duas equipes, a medida tem como objetivo eliminar diferenças entre os dois tipos de jornalismo.

Os americanos deram a largada para o aumento do número de vagas para jornalistas no mercado. Claro que os jornais do Brasil vão demorar para integrar as redações vai demorar um pouco. Mas quando isso acontecer, vai ter um BOOM de vagas para jornalistas (principalmente os recém formados) no mercado.
Que o futuro chego logo!!!

13 dezembro 2005

A glória de um repórter...

A persistência é uma das características dos repórteres mais conceituados. Por outro lado, a preguiça é a marca registrada do repórter fraco. Confesso que alterno entre persistente e preguiçoso. Claro, quando o assunto me interessa, vou até São José da Lagoa Tapada para apurar o caso.
Aconteceu ontem (segunda-feira) comigo. Tinha a insólita missão de entrevistar o técnico da Seleção Brasileira de vôlei masculino, Bernardinho. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ele é um cara chato. Não gosta de muita conversa fiada com jornalistas. Principalmente os que não são expert em vôlei. Como eu vou perguntar para ele se o oposto está fazendo bem a transição para a ponta com o líbero na cobertura se eu não sei decifrar o que ele vai responder? Como? Complicado... Mas confesso que já tô aprendendo algumas coisas sobre vôlei. Até porque, minhas áreas de cobertura aqui no Correio Braziliense são basquete, vôlei, tênis e natação. basquete eu realmente gosto e entendo. Vôlei eu acompanho, mas não entendo. Tênis e natação idem...
Muito bem, entrevistei Bernardinho em quatro ou cinco oportunidades aqui em Brasília. Duas vezes com a Seleção Brasileira de vôlei, duas vezes com o Rexona Ades, time que ele dirige e participa do nacional feminino (Superliga). Teve uma outra oportunidade que não me recordo agora. Acontece que em todas as vezes ele foi irônico comigo e com os demais repórteres.
Quando está no exercício de sua profissão, Bernardinho é um dos caras mais diretos possíveis no contato com a imprensa. Não fica de conversinha, não esconde o jogo sobre os assuntos, e evita intimidades. É direto e fala sempre o que os jornalistas querem ouvir.
No domingo passado ele desembarcou em Brasília para participar do lançamento de um projeto social numa cidade vizinha a Brasília. Na segunda-feira, ontem, ele fez uma série de palestras sobre auto-estima, espírito de liderança e tudo mais. Ele veio para cidade ao lado de Fernanda Venturini, uma das melhores levantadoras do vôlei mundial de todos os tempos, e extremamente antipática. Ela é mulher de Bernardinho.
Recebi a pauta do meu chefe de bater um papo com o treinador e dar uma página para ele. Sabia que seria muito difícil. E foi...
Vamos lá. Cheguei no jornal no início da tarde e liguei para a pessoa responsável pelo lançamento do projeto social na cidade vizinha a Brasília. Eu havia conversado com ela no meio da semana prometendo que iríamos tirar fotos e fazer uma matéria sobre o projeto social dela no domingo. Não fomos.
Na cara de pau, liguei e perguntei sobre Bernardinho. A pessoa, claro, me atendeu muito mal e disse que só sabia que ele estava no hotel Kubitscheck Plaza, um dos mais importantes de Brasília. Só figurões ficam lá. Agradeci, mais uma vez prometi fazer uma reportagem com o projeto social e dei tchau rapidamente.
Liguei no hotel e peguei o número do quarto em que Bernardinho e a mulher estavam hospedados. Nesse caso, é melhor não se identificar como repórter. Só ligue e pergunte pela pessoa como Bernardo Rezende. A recepcionista nem desconfiou que era repórter (claro!) e passou para o quarto 623. Ele não estava mais lá.
Não gosto de falar para meu chefe que minha pauta caiu. Ainda mais porque haviam me dado uma página para o vôlei na edição desta terça-feira (13/12). Liguei na assessoria do tal do time Rexona Ades, que fica no Rio de Janeiro. Atendeu uma estagiária da assessoria que havaia assumido o lugar da assessora porque esta está de licença maternidade. Ela fez pouco caso para meu pedido de bater um papo com Bernardinho e disse que me retornaria.
Percebi que não poderia confiar na estagiária e continuei perseguindo Bernardinho. Liguei, então, para ninguém menos que Fernanda Venturini (sim, a antipática). Quando ela atendeu, me apresentei como repórter e antes de perguntar sobre Bernardinho, ela soltou:
- Olha aqui, eu já o que você quer. O Bernardo está muito ocupado fazendo palestras hoje, brasília inteira está me ligando tentando entrevistá-lo.
- Mas me diga apenas aonde é a palestra de agora à tarde?, insisti.
- No Quartel General do Exército. Tchau...
Sensacional a informação que a antipática, ou melhor, Fernanda me passou. Vou lá no Quartel General e pego Bernardinho na saída da palestra. Acontece que me informaram que só entram militares no QG. Esse local recebe o nome de Forte Apache de tão seguro que é. Todos os generais brasileiros (a maioria dos tempos da ditadura). Tive que ligar para a assessoria do Minsitério da Defesa para perguntar se podia falar com o único civil que estava no forte Apache naquela tarde de ontem. Após 45 minutos um coronel me liga me autorizando a entrar.
Comecei a caçada às 13h15, hora que cheguei no jornal. Só parei às 16h45, hora em que me tornei o segundo civil a entrrar no Forte Apache segunda-feira à tarde.
Bernardinho estava no final da palestra. Estava totalemente diferente das outras vezes que o encontrei aqui em Brasília. Esperei cinco minutinhos após o término da apresentação e pude conversar com ele.
Como sempre faço, separei alguns tópicos sobre os principais assuntos a perguntar para ele e comecei a conversa. Olha a íntegra da matéria publicado no Correio Braziliense de terça-feira abaixo:

VÔLEI
Aposta no ouro
De passagem por Brasília, o campeão olímpico Bernardinho elogia a Seleção feminina

Daniel Brito
Da equipe do Correio

Em Brasília para o lançamento de um projeto social das medalhistas olímpicas Leila e Ricarda, o técnico da Seleção Brasileira masculina de vôlei, Bernardo Rezende, o Bernardinho, esbanjou simpatia. Bateu bola com as crianças em Taguatinga, no domingo, no Ginásio Serejinho. Ontem, fez palestras para mais de três mil pessoas. A primeira, no Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, para militares. À noite, para empresários, na Academia de Tênis. Entre uma apresentação e outra, o treinador, que também comanda o Rexona Ades, do Rio, uma das forças da Superliga feminina deste ano, conversou com o Correio.

Bernardinho acredita que está surgindo uma geração de ouro também no vôlei feminino. Para ele, jogadoras como Mari, Sheilla e a brasiliense Paula Pequeno foram inspiradas pela geração de bronze das Olimpíadas de 1996 e 2000. “É mais ou menos como aconteceu com o pessoal que foi campeão olímpico em 1992, no masculino. Eles cresceram vendo a geração de prata de 1984”, disse, animado com a safra.

O treinador tem motivos para se animar. Um ano após o fatídico quarto lugar nos Jogos de Atenas, as meninas do Brasil, comandadas por José Roberto Guimarães, ganharam os seis torneios de que participaram, dentre eles o Grand Prix e a Copa dos Campeões, no Japão. Foram 38 jogos e apenas duas derrotas na temporada. “Até as Olimpíadas de Pequim, em 2008, essas jogadoras estarão amadurecidas o suficiente para conseguir o ouro”, confia Bernardinho.

Ciclo

A China, aliás, deve ser o ponto final do grupo que Bernardinho dirige atualmente na Seleção masculina. “Muitos dos jogadores que trabalham comigo encerram o ciclo na Seleção daqui a três anos. Para 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, haverá uma safra nova e muito boa, tenho certeza”, disse. Ele não adiantou se estará na Inglaterra comandando a equipe. Antes de se preocupar em representar o Brasil nas maiores competições do planeta, Bernardinho se preocupa com a Superliga feminina de 2005-2006. Pela segunda temporada consecutiva, ele dirige o Rexona Ades.

No campeonato passado, a equipe chegou à final contra o Finasa Osasco com apenas uma derrota em 22 jogos. Surpreendentemente, perdeu três jogos consecutivos e terminou em segundo lugar. Com a presença de seis jogadoras da elogiada Seleção Brasileira, o Rexona entra na Superliga com o mesmo status de favorito da competição passada. “Nesta temporada, as coisas estão mais equilibradas. Brasília, Minas, Pinheiros e Macaé estão muito fortes. É muito bom que seja assim. Não prometo que seremos campeões, mas vamos chegar forte”, avisou Bernardinho.

Futebol

Se pudesse fazer uma palestra para os jogadores que tentarão o hexacampeonato, em junho, na Alemanha, Bernardinho daria o conselho: “Os grandes campeões crescem no desafio”. O técnico medalha de ouro nas Olimpíadas de Atenas chegou a conversar com Carlos Alberto Parreira na semana passada sobre a possibilidade de falar aos jogadores que disputarão a Copa do Mundo.

“Os jogadores têm a oportunidade de entrar para a história se forem campeões, mesmo sendo apontados como favoritos. Eu tenho certeza que eles terão sucesso na Alemanha”, previu. O técnico de vôlei fez questão de ressaltar seu lado torcedor. “Se me chamarem, vou levar minha camisa do Brasil para pegar o autógrafo de todos eles.”

Conversamos sobre tudo que era pertinente para aquele momento. Aliás, só faltou uma pergunta sobre o projeto social que ele veio visitar no domingo aqui em Brasília. Mas não deixei de citá-lo no lide.
Nesta terça, chego na redação ciente que não seria elogiado pelo chefe (elogios são difíceis por aqui) e vejo na minha caixa de email. "Levamos furo da Folha de S. Paulo, Jornal de Brasília e O Globo. Vamos correr atrás dessa história do basquete". Era meu chefe escrevendo. A tal "história do basquete" é uma guerra jurídica entre a confederação e o Mão Santa Oscar Schmidt para disputar o Campeonato Nacional. Assunto que aconteceu no Rio de Janeiro, portanto longe domeu alcance para evitar um furo.
Respondi ao email dizendo que foi uma falha minha porque passei a tarde de segunda perseguindo Bernardinho, que nenhum outro jornal deu. Na mesma hora, me lembrei de uma lição que Ricardo Noblat (ex-Diretor de Redação do Correio Braziliense) passa em um dos seus livros. "A glória de um repórter não vai além do meio-dia do dia seguinte à publicação de sua matéria. Se ele não conseguir fazer outra matéria de nível no dia seguinte, a matéria sensacional perdeu a validade".