29 março 2006

Ergonolepticamente falando

Tinha a idéia de escrever sobre isto que você vai ler abaixo quando nosso humilde blog completou mil acessos únicos (mil computadores diferentes), no início do mês de março. Mas como outros assuntos surgiram, fica para este post a missão de nos fazer alcançar o acesso número 1.300.

Queria "responder" a um comentário feito ainda no post "Suave Veneno", quando a leitora Karin Maria disse que o texto sobre as armadilhas de ser jornalista estava "interessante para adolescentes, mas para pessoas bem resolvidas não passava de razoável".

Tive várias certezas na minha vida/carreira desde que criei este blog ao lado do Da Silva. As duas únicas dúvidas que tive foram as seguintes:

1) Conseguiríamos mantê-lo atualizado?
2) Quem o leria?

A primeira pergunta acho que tá fácil de responder. Eu achei, simplesmente, sensacional escrever um blog. Além de acordar, tomar banho, dirigir e ficar pensando só na pauta do dia no jornal, fico formulando um texto na cabeça para escrever aqui. Como aprendi na minha própria monografia na UEPB que a leitura na internet é 25% mais lenta que em uma folha impressa, ainda não acertei a mão nos tamanhos do textos. Afinal, internet não me dá limite de tempo e espaço. Escrevo um bilhão de parágrafos no texto pelo simples fato de estar gostando de estar escrevendo sobre aquilo e, posteriormente, lendo o que eu mesmo penso sobre eu mesmo.

Posso escrever quanto quiser, a hora que quiser e, principalmente, corrigí-los quando bem entender (a correção é assunto para outro post. Me cobre!).

Já a segunda pergunta ("Quem lê?") é a dúvida que não consegui tirar. Acho que nunca conseguirei. Só sei que Da Silva repassa o endereço do blog para os alunos da UEPB e alguns outros amigos nossos.

Só.

Além de Campina Grande, João Pessoa e Brasília, nosso medidor de acessos registra presenças de internautas do Rio de Janeiro, Manaus, Natal, México, Japão, Estados Unidos, Itália.

Não sei se esses gringos estão querendo aprender português (aqui não parece ser o site ideal). Só que tá registrada a presença deles lá. Devem fazer parte dos 76% dos acessos que não passam mais que cinco segundos no Filhos da Pauta. Baseado nisso, fica difícil saber se o texto "Suave Veneno" foi mais interessante do que razoável, como avaliou a leitora Karin.

O que eu acho mais intrigante nisso tudo é que as informações que a gente coloca aqui ficam soltas no espaço sem fim.

Não é filosofia barata.

Se você entrar lá no Google (aliás, o Google é meu melhor amigo no trabalho) e digitar FILHOS DA PAUTA você vai encontrar lá nosso blog. Vai ver foi assim que a "bem resolvida" Karin Maria encontrou o texto Suave Veneno.

Ele tá rondando pela internet até que alguém como eu, que gosto de digitar palavras estranhas no Google, digite alguma coisa bem diferente para ver o que existe na internet sobre isso.

Por exemplo, ergonolepticamente. Vem de ergonoléptico, que nada mais é que o teste que se faz para saber a qualidade de um vinho.

Que tal digitar claudicante, ou licergia, hermenêutica ou concomitantemente?

Sei lá...

Acho sensancional o fato de qualquer besteira que eu escrever aqui estar flutuando em algum lugar para que qualquer outra pessoa possa ler. Diferentemente do jornal. Porque, quando escrevo sobre basquete -- é óbvio -- estou me dirigindo aos amantes/admiradores daquele esporte.

O mesmo acontece com os demais assuntos, economia, política externa, carnê do IPTU e assim vai.

Só posso dizer que, ergonolepticamente falando, viciei em blogs e já penso em criar outros para deixar boiando pela "rede mundial de computadores".

Como disse acima, ainda não acertei a mão no tamanho dos textos no blog. Agora mesmo tive que apagar dois parágrafos porque já estava dando outro motivo pelo qual quero fazer outros blogs. Não sobre jornalismo, mas sobre pedaços de histórias da vida dos outros, minhas matérias na íntegra, piadas, autobiografia...lo que sea!

26 março 2006

Você já leu o ombudsman?

Para quem está com preguiça de ler, por achar o texto "grande demais", é preciso dizer que jornalista é, por obrigação, uma pessoa bem informada -- ou pelo menos deveria tentar ser. O texto abaixo pode até ser "grande demais", mas é uma aula de jornalismo.

Primeiro, porque situa, na primeira parte do texto, o leitor na confusão em que está metido o governo federal neste momento. Depois (público x privado), por fazer uma análise jornalística do que a GRANDE IMPRENSA divulgou na semana que passou. O ponto cinco dos comentários do ombudsman mostra o que um pouco do que já foi escrito aqui sobre vaidade e parcialidade.

Vale a pena ler, refletir e comentar...

OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo - domingo, 26 de março

O caso do ministro e do caseiro

MARCELO BERABA

A semana foi dominada por um escândalo, a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Francenildo foi apresentado pelo "Estado de S. Paulo" na edição do dia 14 de março, e a manchete do jornal resume a importância de seu testemunho: "Caseiro desmente Palocci e diz que ministro visitava mansão".

A "mansão" era uma casa alugada no Lago Sul de Brasília por ex-colaboradores de Antonio Palocci da época em que foi prefeito de Ribeirão Preto e teria sido utilizada para lobby. O ministro da Fazenda garantiu, em diversas ocasiões, que jamais esteve na casa. Francenildo foi a segunda testemunha a aparecer, depois do motorista Francisco das Chagas Costa.O depoimento do caseiro criou uma situação ainda mais difícil para Palocci, já acuado por várias acusações referentes, principalmente, aos períodos em que foi prefeito. No dia 16, uma quinta-feira, Francenildo reafirmou, na CPI dos Bingos, que vira o ministro na tal casa, mas uma liminar do STF, concedida a um senador do PT, suspendeu a sessão.

Na sexta-feira à noite, a revista "Época" inaugurou o seu "Blog Brasil" (www.blogbrasil. globolog.com.br) com uma informação exclusiva e de repercussão imediata: "Extratos revelam depósitos para caseiro". A informação antecipava a reportagem que seria publicada na edição em papel que estava sendo concluída.

Os repórteres da "Época" tiveram acesso aos extratos da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal e decidiram publicá-los, mesmo sabendo que tinham sido obtidos ilegalmente, por os considerarem "jornalisticamente relevantes". O título da revista é uma pergunta: "Quem está dizendo a verdade?".

A revista levantou a hipótese de o caseiro ter recebido dinheiro para testemunhar contra o ministro Palocci. O caseiro negou. Informou que o dinheiro tinha sido depositado por um empresário do Piauí que não o reconhece como filho. A história é confirmada pelo empresário.

Mesmo assim, a revista cravou que "os extratos põem em dúvida a credibilidade do caseiro". Por quê? Mais adiante a revista afirma que "o caseiro pode até não ter mentido [em relação ao ministro Palocci], mas escondeu de todos que tinha tanto dinheiro". E por que teria de revelar que tinha o dinheiro?A reportagem da "Época" deslanchou dois movimentos. Do lado do governo, uma operação para preservar o ministro e desmoralizar o caseiro, antes testemunha e agora investigado pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda. Do lado da oposição, da imprensa e de várias instituições e personalidades, uma onda de repúdio pela violação criminosa do sigilo bancário.

Público x privado

Pouco se discutiu a respeito da decisão da "Época" de publicar os extratos obtidos ilegalmente. Meu ponto de vista sobre a reportagem da revista:

1 - A violação do sigilo bancário é um crime grave e justifica a indignação estampada nos editoriais dos jornais e nas cartas de leitores. Além dos prejuízos pessoais provocados ao caseiro, é um atentado à democracia.

2 - O fato de a revista ter publicado o extrato não significa que ela também tenha cometido o crime. No caso, a responsabilidade pela manutenção do sigilo era da CEF. Há, a meu ver, um fator fundamental que pode justificar -como já ocorreu inúmeras vezes- a publicação de informações verdadeiras de origem ilegal que chegam às mãos dos jornalistas: o interesse público.A Folha tinha ciência de que as fitas do BNDES que gravavam conversas sobre o escândalo da privatização das telefônicas, em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, tinham sido feitas ilegalmente. Verificada a autenticidade delas, decidiu publicar as partes que tinham interesse público (e nunca revelou os trechos com intimidades dos grampeados).

3 - No caso dos extratos de Francenildo, a revista "Época" cometeu, na minha opinião, os erros de ação e de omissão. Explico.

4 - A revista foi precipitada ao tornar pública a história familiar do caseiro. Naquela sexta-feira, dia 17, a publicação não tinha nenhum indício para colocar em dúvida a credibilidade da testemunha. O que ela tinha em mãos eram suposições, e deveria ter se dado mais tempo para investigar antes de publicar. A relação de Francenildo com o empresário que ele diz ser seu pai faz parte da sua vida particular. É até possível que o caseiro esteja mentindo e que o dinheiro tenha outra origem. Mas até agora nada foi provado.

5 - A revista estava, no entanto, com uma grande história e não deu atenção: os extratos foram obtidos através da violação criminosa do sigilo bancário do caseiro dentro da CEF, banco subordinado ao ministro Palocci. Este, por enquanto, é o grande escândalo. A revista ignorou o crime e, mesmo diante da falta de provas contra Francenildo, decidiu expor publicamente sua vida familiar. Uma completa inversão de critérios jornalísticos.

Sem comparação

Muitos leitores escreveram questionando a indignação manifestada pelos jornais com a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Procuraram comparar o caso com o do ministro Palocci, que teria tido a sua intimidade violada quando foi revelado que freqüentava a casa do Lago Sul. Acho que não tem comparação. O ministro é um homem público e ele sempre informou que nunca esteve na casa. Se for provado o contrário, terá cometido uma mentira grave.Também não vejo como comparar o que ocorreu com o caseiro com o vazamento de informações sigilosas, obtidas legalmente, de acusados de estarem envolvidos com o valerioduto. São homens públicos investigados por terem se beneficiado de esquemas ilegais de levantamento de recursos para o enriquecimento pessoal ou para uso político.

Marcelo Beraba é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

23 março 2006

Parcial (mas nem tanto)

Quer queira, quer não, atletas, treinadores, dirigentes, até políticos e pessoas que costumamos entrevistar diariamente são nossos companheiros de trabalho. Precisamos dos serviços deles para fazer o nosso.

Se eles não quiserem falar com a imprensa, temos uma única alternativa: descer o cacete no jornal, na TV, na rádio ou no espaço que temos, como o blog, por exemplo.

Veja o caso do Brasiliense, time de futebol de Brasília. Criado há cinco anos pelo senador cassado (é com dois S mesmo) Luiz Estevão, o clube é odiado por todos os repórteres esportivos do Distrito Federal.

Como se não bastasse o fato de Lulu (Luiz Estevão) acreditar cegamente e divulgar sempre que tem a oportunidade que repórter de esporte "é o mais burro da editoria. Porque ninguém em uma redação de respeito quer trabalhar com futebol, só os que não entendem sobre nenhum outro assunto", ele proibiu a imprensa de assistir aos treinos lá no campo do time (que por sinal, é público).

Ou seja, além de termos um excelente motivo para dar porrada em Lulu diariamente no jornal, tem o agravante do desrespeito pessoal mesmo. Então, ele é o caso de "companheiro de trabalho non grata" (termo criado por mim agora).

Mas há casos como os dos jogadores de basquete. Acompanho de perto o Campeonato Nacional masculino de basquete em viagens pelo Brasil e acabei me tornando ligado a alguns atletas. Alguém se lembra de Pipoka? Ele é de Brasília, tem 40 anos, participou de três Jogos Olímpicos ao lado do Mão Santa Oscar Schmidt, mas continua jogando profissionalmente.

Ele é o oposto de Lulu. Qualquer matéria que eu faça sobre ele será tedenciosa. Primeiro, porque, assim como Estevão, ele merece um texto tendencioso (só que o senador cassado merece o outra tendência). Segundo, porque Pipoka é uma figura da cidade de Brasília, querida e ovacionada.

Acontece que, dia desses descobri que o time dele não paga salários há dois meses. No futebol, isso é assunto corriqueiro, mas no basquete não. O time de Pipoka, o Universo BRB, é o braço forte de um grupo nacional que engloba seis ou sete universidades pelo país, cujo dono é senador da república (não, não é Lulu), Wellington Salgado de Oliveira. Em outras palavras, não há motivos para atrasos.

Por ser novidade no basquete, corri atrás das fontes para detonar o tal senador no jornal. A primeira pessoa que fui conversar foi Pipoka. A matéria é de interesse dos jogadores. Para minha surpresa, Pipoka reconheceu o atraso nos pagamentos, mas pediu desculpa e disse que não falaria, temendo represálias. Minha matéria dando porrada no senador "companheiro de trabalho" dono do Universo BRB nasceu morta.

Eu tenho todas as informações para detonar a diretoria do time de basquete. Quando foi o último pagamento, quanto é folha salarial, o que foi combinado e o que foi feito pela diretoria. Mas como Pipoka, um dos beneficiados com a publicação da matéria, pediu para não falar, abortei a missão. Nada de salários atrasados no Universo BRB.

Podem dizer que sou parcial, mas, convenhamos, você conhece alguém imparcial?

Eu não.

Veja um caso do estagiário de esportes de um jornal concorrente ao meu. De tanto cobrir os treinos do time de vôlei feminino de Brasília, o camarada passou a sair na night com as jogadoras, e receber ligações a cobrar das atletas.
Ao final da temporada, ele traçou duas grandalhonas (no mal sentido mesmo).

Vamos ser companheiros de trabalho, mas daí a virar amante já é exagero, né?

PS - não estou fazendo apologia à parcialidade do repórter. Só me refiro ao sentimento que o repórter tem na hora de escrever ou apurar uma matéria. Porque antes do espírito profissional, existe um sentimento na pessoa que escreve uma reportagem. É este sentimento que me referi neste post, OK?

21 março 2006

A arte de ser chefe

Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu passei a odiar todos os chefes. Tudo bem, todos não, vai. A maioria, o meu chefe atual, Paulo Rossi, é extremamente gente boa. Nem parece chefe, por isso não conta. Passei a odiar os chefes dos outros, então.

Um companheiro de redação, o experiente repórter Roberto Naves, soltou uma frase sensacional sobre a "A Arte de Ser Chefe":

"Chefe não quer saber quantos problemas você vai enfrentar para fazer a matéria pedida. Quer apenas dar a ordem e ponto final".

Neste momento que estou escrevendo esse post me veio à cabeça três tipos de chefe:

1 - Autoritário;
3 - Inexperiente;
2 - Rei sem coroa.

1 - O autoritário é famoso. É a figura mais horrenda que existe. Ele aparenta estar sempre sob pressão por parte do próprio chefe dele. Veja bem, se em uma guerra, um pelotão perde, a culpa do fracasso não vai para os soldados, mas para o capitão do pelotão. Esse chefe aproveita para descarregar toda a pressão proporcionada pelos superiores dele nos pobres e humildes soldados. O chefe autoritário tem vida longa, porque todos têm medo dele. Mas como o mundo dá muitas voltas, ele pode acabar sendo demitido e o autoritário estará, como se diz em Brasília, "fudido e mal pago". Se esse camarada estiver desempregado ele estará mal visto no mercado e sem nenhum amigo a quem recorrer. Só os babões de plantão, que mesmo levando porrada diariamente, fazem questão de agradar o mandão.

2 - A carreira jornalística arma algumas armadilhas aos mais novos (aos mais velhos também, mas como sou novo, não posso falar pelos mais velhos). Muitas vezes, por corte de gastos, por uma prova de competência precoce, ou por um golpe da sorte, focas acabam se transformando em chefes. Como citei no post "Suave Veneno", é inevitável que a alta dose de veneno tome conta do espírito do recém-formado. Às vezes o cara é totalmente gente boa, toma cervas com você enquanto é repórter, troca idéias, mas basta ser promovido para o sucesso subir à cabeça. Queimar etapas dentro de uma redação é uma das piores coisas que pode acontecer a um jornalista novato, os chamados focas. O que agrava a situação é que ele vai se tornar um chefe autoritário no futuro, porque ele pensa que você, por ter mais ou menos a mesma idade dele, está querendo derrubá-lo, justamente por saber que talvez não tenha o conhecimento necessário para estar na posição de chefe. No final das contas, o cara acaba se tornando uma figura odiada na editoria.

3 - Como eu disse, tenho a sorte de ter um chefe extraordinário. Gente boa, compreensivo, e inteligente. As falhas dele eu não conto aqui, porque ele pode acabar lendo. Anyway, ele é um pequeno exemplo de "Rei sem Coroa". É o cara que manda sem precisar ter o direito de mandar. É um líder natural. Rei sem coroa é o cara que te pede para fazer tal tipo de matéria complicadíssima e que não tem nada a ver com o que você trabalha, mas você faz mesmo assim pelo simples fato de ajudar aquele chefe. Porque ele merece. Ele é quase um amigo do peito. É aquele tipo de pessoa que cobra as coisas mostrando teu potencial para fazer coisas interessantes.
É dificílimo encontrar uma pessoa desse naipe. Sorte de quem tem um desses.

E você, qual tipo de chefe é o seu?

17 março 2006

Sorte de principiante

Na sexta-feira passada fui informado pela produção que deveria chegar na segunda às 11h30. Meu horário normal de trabalho é a partir das 14h. Estava escalado para ir a Boa Vista, uma cidade que fica a uns 50 quilômetros de Campina Grande, no cariri paraibano. O assunto era “denúncia no Bolsa Família”. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais denunciava que 15 pessoas - em extrema pobreza - tinham sido cortadas do programa. Na pauta que recebi tinha entre parênteses que se pudesse, investigasse a denúncia de que uma esposa de vereador recebia o benefício na cidade. A produção ajeitou tudo direitinho. Marcou com o presidente do Sindicato, que me levaria a uma mulher que foi cortada, e com o Secretário de Ação Social da cidade para explicar o motivo dos cortes. A matéria era interessante, mas necessitava cuidados para não entrar numa briga política, Afinal é ano de eleições.

Quando cheguei em Boa Vista, por volta de 12h30, tive que andar mais 14 quilômetros em estrada de terra até chegar à casa de Rosa Maria. Seguimos o carro do presidente do sindicato. Dona Rosa, 49 anos, um filho pra criar, separada do marido, vive da venda do carvão que faz no quintal da casa, onde mora de favor. Ganha no máximo 70 reais por mês. Quando ganha. Tem meses que o dinheiro não dá nem pra comprar comida. Quando isso ocorre depende da ajuda de vizinhos para comer. Essa era a minha personagem. Há três meses, Dona Rosa não recebia mais o benefício do Bolsa Família.

Depois de entrevistá-la fui até a casa de outra personagem, que logo de cara vi que não renderia pra matéria. Mesmo assim peguei todas as informações e a entrevistei. Estava tranqüilo. Dona Rosa era a personagem perfeita. De volta à cidade, conversei com o presidente do sindicato. Comecei a sondar para confirmar algo que já sabia: ele é adversário político da atual administração de Boa Vista. Na conversa perguntei se ele sabia o nome da mulher do vereador. Disse que não. Pedi para descobrir e me ligar dizendo. Queria mesmo era denunciar esse favorecimento. Com o nome da mulher tentaria conseguir junto ao Ministério do Desenvolvimento Social a lista de beneficiários da cidade. Imaginava que o Secretário de Ação Social fosse esconder o nome a todo custo. Lembrei logo do livro de Lúcio Vaz (A Ética da Malandragem). Nele o jornalista diz que quando for investigar uma denúncia não fale logo dela com a fonte. Essa seria minha estratégia com o secretário. Pensava em perguntar quantas pessoas eram beneficiadas na cidade, os critérios de escolha, sobre o recadastramento e o caso de Dona Rosa. Só depois falaria sobre a denúncia.
Por volta das 15h30, o secretário chegou a Prefeitura de Boa Vista. Veio só atender a nossa equipe. A prefeitura só funciona pela manhã. Perguntou se eu queria ser atendido ali ou na Secretaria. Preferi a segunda opção. Sabia que lá estavam todos os dados. Antes de eu começar a explicar o motivo da minha ida à cidade o secretário me interrompeu.
- Já estou sabendo que você veio aqui por causa das denúncias. Vou lhe mostrar tudo. Minha administração é transparente.
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Vi que a matéria iria render melhor que esperava. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo. E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
Bingo de novo. O cara já estava me mostrando a lista de favorecidos. Na cidade, cerca de 380 pessoas recebem o benefício. As 35 representam quase 10% do total, um número considerável. Fiquei até sem jeito de perguntar algo. Mas fui em frente. Peguei o primeiro nome da lista, que ganhava R$ 329,00 e perguntei por que ele recebia o Bolsa Família. O secretário explicou mostrando um documento do Ministério do Desenvolvimento Social, onde afirma que 14% dos beneficiados têm emprego formal. O critério, segundo o documento, é se a pessoa tem renda per capita de até R$ 100,00. O meu personagem tinha cinco pessoas na família, o que dá uma renda per capita de R$ 65,00. Foi a justificativa dele. Esperto, meu cinegrafista começou logo a filmar a lista e eu discretamente anotando os nomes, olhando os valores. Quando passei a folha, vi que uma mulher com renda de R$ 2.655,00 estava na relação. Essa não tinha explicação. O secretário admitiu.
- Eu sou transparente na minha administração (essa era a frase preferida dele, parênteses meu). Realmente essa mulher está irregular, mas só posso fazer alguma coisa depois do recadastramento.
Ainda consegui mais alguns nomes, com valores dos salários e quanto recebe do Bolsa Família. No meio das confirmações, o secretário sai com essa:
- Sim, não adianta você vir aqui e a gente não falar da mulher do vereador. Já estou sabendo disso e vou me defender.
Eu nem havia perguntado. Mais uma vez estava recebendo a denúncia de bandeja. Ele mostrou um ofício onde solicitava desde agosto a exclusão dela, o que não aconteceu. Eu tinha mais um elemento importante para matéria. Tudo isso foi numa conversa em off. Meu medo era de que na hora de gravar, ele não quisesse. Estaria ferrado. Pelo tempo que passamos conversando pedi ao cinegrafista para mudar de fita. Não deu outra. Gravei vinte minutos de entrevista, nos quais ele confirmou tudo que havia me dito em off. É claro que eu não esqueci do caso de Dona Rosa. O secretario explicou que ela foi cortada porque havia informado uma renda de R$ 120,00. Tinha todos os elementos para a minha matéria.

Depois da entrevista fiquei pensando na sorte que tive. Esperava encontrar um monte de dificuldades. Mas em nenhum momento o secretário foi chato. Pelo contrário foi solicito até demais. No final ainda nos trouxe um pedaço de bolo de seu aniversário, que havia sido no dia anterior. Lanchei e voltei pra Campina não só de barriga cheia. As duas folhas de ofício estavam cheias de informações. Quando contei a história na redação ninguém acreditou que tivesse conseguido tudo de bandeja e ainda por cima ter comido do bolo do secretário. Não lembro quem foi que saiu com uma piada sarcástica:
- E se o bolo tivesse envenenado?
Na hora nem me lembrei desse detalhe. Comer um pedaço de bolo era uma atitude política (como gosta de dizer Daniel), de cordialidade.

Cheguei com o texto montado na cabeça. Comecei a matéria com a história de Dona Rosa, depois passei para a denúncia (não usei essa palavra no off) do sindicato, em seguida coloquei a versão do secretário para o caso de Dona Rosa. Depois disso, disse que enquanto Dona Rosa não recebia o dinheiro, outras pessoas que não precisavam estavam no Bolsa Família. Denunciei tudo que sabia. E o melhor: com a entrevista do secretário que disse “que sabia das irregularidades”. A matéria foi ao ar na terça-feira ao meio dia (JPB1) e à noite (JPB2). E repercutiu. Ontem o Ministério do Desenvolvimento Social mandou uma nota, na qual diz que o benefício da mulher do vereador foi cortado. O último saque foi em janeiro. Porém o secretário me mostrou que o cartão novo dela chegou no início do mês. Outro ponto: o marido dela assumiu o mandato em janeiro do ano passado e só agora se toma uma providência. Hoje também o secretário foi procurar uma rádio para pedir direito de resposta da matéria veiculada na TV Paraíba, afirmando que a matéria não foi verdadeira. Não teve o direito porque foi no lugar errado. Ele Deve ter levado um esporro de alguém mais experiente (você sabe de que experiência estou falando né?) da prefeitura por ter falado demais. Ficou tão desorientado que nem foi na tevê. Também se for não vai ter muito o quê argumentar. Temos os vinte minutos de entrevista gravados.

Foi a minha primeira denúncia fora do âmbito esportivo. Dessa vez foi fácil. Agora é se preparar pras bombas que vêm pela frente. Não posso mais contar com a sorte de principiante.

12 março 2006

Vaidade FC

A classe de políticos é a mais difícil para o jornalista lidar. Pelo menos é o que escuto meus amigos dizerem. Como nunca trabalhei diretamente na editoria de política não posso afirmar nada. A única coisa que posso dizer é que se os políticos são difíceis de lidar, jogadores de futebol não ficam atrás. Aliás, jogadores, dirigentes e treinadores. Uma turma muito vaidosa. Com algumas raras exceções. Independente do time, a maioria dos jogadores tem escalação garantida no ‘Vaidade Futebol Clube’. Basta uma notícia sobre a má fase de um atacante para ele ficar chateado com o jornalista. Como se existisse uma outra forma de dizer algo a respeito de um atacante que há dez jogos não faz gol. Na época em que trabalhei no Diário da Borborema (2001/2005) a coluna Binóculo FC colecionou alguns desafetos. Não desafetos declarados. Mas jogadores, dirigentes e treinadores que me olhavam com ‘cara feia’ a cada notinha venenosa que era publicada.

Esse pessoal tem a mania de só querer ouvir elogios. Se for atacante adora ser chamado de ‘matador’, ‘artilheiro’. Competente é o adjetivo preferido dos treinadores e dirigentes. O pior é que quando time vai mal, a culpa é sempre da imprensa “que está trabalhando contra”. Como se nós jornalistas entrássemos em campo. Quando a imprensa divulga algo errado que o jogador fez, a raiva é maior ainda. Semana passada, o zagueiro Antonio Carlos, do Juventude, foi acusado de atitude racista contra Joevânio, Grêmio. Em entrevista, Antonio Carlos disse que “a imprensa se deveria se preocupar com outras coisas”. O cara comete um crime e acha ruim quando é divulgado. Se não quer virar notícia, não faça besteira. Ano passado, no Campeonato Paraibano, o meia Maurício do Treze, que já passou pelo Brasiliense, agrediu o árbitro no final de um jogo realizado em João Pessoa. Todas as televisões filmaram. Quando fui ao Presidente Vargas (estádio do Treze) fazer uma matéria, ele estava puto com a imprensa por ter divulgado as imagens. Soltou algumas indiretas, mas não dei crédito. Até porque sempre o achei meio estrela. Toda as vezes que alguém o convida para entrevista, ele demonstra má vontade. Pelo jeito, Maurício (os colegas de Brasília podem me esclarecer isso) não gosta muito da imprensa. Talvez a sua cisma seja só comigo. Também se for, não estou nem um pouco preocupado.

Para aumentar meu conceito de “estrela” a respeito de Maurício, semana passada ele veio questionar o porquê da tevê só passar poucos lances de uma partida. Ele se referia ao jogo do Treze contra o Nacional de Patos. O problema não foi o questionamento. E sim as insinuações de que a imprensa trabalha contra o Treze.
Cheguei ao Presidente Vargas e fui chamar um jogador, acho que um zagueiro para entrevistá-lo. De repente, Maurício pergunta:
- Quem edita os jogos na televisão?
- Sou eu quem escolhe os lances.
- Do jeito que você editou parece que o Nacional deu um sufoco na gente. A imprensa só que lascar a gente. Até parece que é coisa direcionada.
- Maurício não é bem por aí não.
Disse e fui entrevistar o zagueiro, que já me esperava no banner. Também não queria polemizar. Mas o meia queria mesmo discutir depois foi em minha direção. Nessa hora estava perto do banco da comissão técnica. Ele chegou logo pedindo para falar:
- Deixa eu falar, eu explicar.
Depois de escutar suas reclamações pelo fato de os “melhores momentos” (o nome já diz tudo) ter tão poucos lances fiz uma pergunta:
- Maurício você entende como funciona uma televisão, quais são os critérios de edição? É impossível você exibir todos os lances.
- Mas é que parece que vocês querem prejudicar a gente.
- Olha, antes de você criticar alguma coisa você precisa entender como é o jornalismo. E outra coisa. Não me vem com essa história de conspiração contra vocês. Além disso você nem conhece, não conhece a minha postura, o meu caráter. Você me conhece daqui (do estádio) de dar boa tarde a vocês e nada mais. Procure me conhecer.
Como ele ainda insistiu com as reclamações eu disparei:
- Me diz uma coisa eu já disse como você deve bater um pênalti, bater na bola? Se você deve jogar com meião baixo ou alto?

- Não, não.
- Então cara, não se mete no meu trabalho.
Depois dessa ele ainda retrucou algumas coisas, eu argumentei outras. Mas foi o fim da discussão. Poderia ter sugerido a inversão de papéis. Ele iria fazer a matéria e eu jogar no lugar dele.
Foi a segunda vez que aconteceu algo desse tipo comigo. A outra foi com o técnico Celso Teixeira, na época em que estava no Treze. Ele pediu para o assessor de imprensa ligar dizendo que não havia gostado de uma matéria publicada no Diário da Borborema.
- Fala pro Celso que eu também não estou gostando do time que ele está botando em campo. Então diz pro Celso que a gente faz o seguinte: ele vem fazer o jornal e eu coloco o time em campo. Assim, está tudo resolvido.

Os dirigentes não ficam atrás. Quando se publica atraso de salário, problemas na administração dos clubes, eles ficam puto. Certa vez eu tive que dizer a um dirigente que eles eram muito melindrosos, cheios de frescura.

Jogador de futebol, técnico, dirigentes são pessoas públicas. E como pessoas públicas estão sujeitas a críticas e elogios. O problema é que ainda vai demorar muito tempo para essa turma entender isso. Talvez nunca entendam. E nós jornalistas continuaremos sofrendo com as crises de vaidade deles. São os “ossos do ofício”.

06 março 2006

Suave veneno

Tem gente que quer ser jornalista para substituir Glória Maria no Fantástico. Tem gente que prefere ser o novo Galvão Bueno. Tem gente que sonha em substituir Marcos Losekan como correspondente internacional. Outras pessoas fazem vestibular para Comunicação para ser reconhecido na rua e dar autógrafo.

Se você se encaixou em uma dessas três opções acima, me desculpe, mas você está errado! Você não quer ser jornalista. Quer apenas aparecer, quer ser mais importante do que a notícia. Mas se você leu este texto e conseguiu substituir Gloria Maria ou Galvão Bueno, me avise porque quero dar os parabéns pessoalmente. (Afinal, Gloria Maria e Galvão Bueno existem mesmo?)

Na minha singela opinião, jornalista é aquela pessoa que gosta de escrever, de contar e ouvir histórias. De imaginar o que os leitores, ouvintes ou telespectadores, querem saber ou gostam de ver. Eu, apesar de estar iniciando minha carreira, acredito que me encaixo neste estilo.

Nada me deixa mais feliz do que ver um texto meu impresso em uma página de jornal. Não precisa nem ter meu nome (a não ser que o texto seja uma obra prima - o que é raro, admito), só em ver um trabalho meu ali me deixa realizado. É como o grande amigo/professor Ribamildo Bezerra me falou uma vez:

"Se você escreve para um universo de 100 pessoas e apenas uma delas entendeu sua mensagem, ela repassará para outras 100. Se uma dessas 100 entender a mensagem, repassará mais uma vez sua idéia. Está formado um ciclo".

Nem sei se ele se lembra que me falou isso em 1999.

Anyway, me sinto mais realizado vendo um texto meu no jornal do que minha imagem na TV. Não sei dizer porquê. Talvez porque eu não assista TV com freqüência. Só telejornais e futebol. É claro que se fosse chamado para trabalhar em TV novamente, voltaria, com certeza, mas acho o caminho do jornalismo impresso mais interessante para mim do que qualquer outro. Talvez internet se igualaria em interesse.

Além do fato de poder escrever mais, contar mais histórias e me especializar em algum assunto -- em TV você cumpre a pauta diária e tchau --, chega a ser venenoso ser interpelado na rua por alguém que você não conhece para falar sobre seu trabalho. Poucas são as pessoas que não gostam disso.

Quando morei em Campina Grande (1999-2002), acontecia com alguma freqüência isso comigo. Confesso, me envenenei. Felizmente, o veneno não se espalhou pelo corpo. Felizmente. Não achava ruim, mas não achava bom. Só sentia falta de ter um público mais seleto. Não tenho pretensão de ser escritor das grandes massas, nem ter o alcance de Truman Capote, Ruy Castro ou Monteiro Lobato.

Como disse William Bonner em uma declaração inteligente (e mal interpretada), só é exibido na TV o que Homer Simpson consegue entender. Homer Simpson, nesse caso, é o pai-de-familia comum, trabalhador, sem regalias em casa, pagador de imposto, CPMF e coisas do tipo. Alienado, até meio burro. Na TV, ele terá a informação superficial: "A bolsa de valores de tóquio está em queda".

No jornal, Homer também pode ter acesso àquelas informações transmitidas pela TV e mais alguma coisa específica, um diferencial. Por causa dele (diferencial), Mr. Burns, o dono da indústria que Homer trabalha, milionário, proprietário da maior parte das terras do mundo, também lê o jornal. Lisa Simpson, estudante, esforçada, dedicada e atualizada, idem.

Usei os personagens de desenho animado para ilustrar os tipos de leitores e telespectadores. Quando trabalha em TV, era constantemente abordado por Homers campinenses. Apesar de eu trabalhar com futebol, aquelas pessoas mal sabiam do que estavam falando e ainda diziam de qual maneira eu deveria trabalhar, como se fossem experts. Nesses Homers, estão incluídos alguns colegas de trabalho, diga-se! (Da Silva conhece bem)

O tempo passou, comecei a trabalhar em jornal impresso e acabei por parar no jornal de maior circulação da capital do país. Público totalmente diferente. Ministros, embaixadores, juízes, deputados, atletas olímpicos, até Homers e Mr. Burns lêem o jornal diariamente e opinam sobre ele (há esse serviço no Correio Braziliense).

Como não mostro minha cara em lugar nenhum, a não ser na redação do jornal, ninguém mais me importunou no meio da rua. Mas nos lugares que freqüento por causa do trabalho, percebo que o nível dos comentários sobre minhas reportagens é outro.

Não quero dizer que me sinto melhor ou pior com isso. Muito pelo contrário, a dose do veneno nas veias do jornalista aumenta. Ele passa a sentir mais importante, dono da verdade absoluta, e conhecedor de todas as realidades. É aí que mora o perigo.

Se por um lado, o jornalista de TV quer aparecer mais que notícia, quer que o cabelo seja notado, a roupa, o batom, a gravata sejam percebidos, o jornalista de impresso se considera a fonte inesgotável de sabedoria, lido por todos, comentado por poderosos, e procurado por pessoas influentes.

É no dia-a-dia do trabalho que eu consigo encaixar melhor uma frase dita quase que automaticamente por todos, mas que se encaixa como uma luva nas armadilhas que o jornalismo coloca no nosso caminho a cada texto escrito:

"Não nos deixei cair em tentação"

Amém

23 fevereiro 2006

Um dia de Paparazzi

Pelo menos no Correio Braziliense funciona assim. Quando ocorre uma reunião de pauta e um repórter diz:
- Tenho uma materinha legal...
Hummmm!!
O editor nunca dá a atenção devida. Quando você tem uma sugestão e ela não é sensacional, mas interessante, ou até legal, o grande lance é "vendê-la" desta maneira:
- Tenho uma matéria sensacional para esta semana!!!
O chefe presta mais atenção e até sugere informações complementares para a matéria se tornar sensacional.
Fiz esse nariz-de-cera todo porque me lembrei que começaria este texto dizendo:
- Tenho uma historinha interessante...
Bem, é interessante, mas por quê não vendê-la como sensacional? Alguém, além de mim, pode achar sensacional a "historinha"!
Vamos ao lead.

Quem esteve final de semana passado em Brasília foi ninguém menos que Don Diego Armando Maradona. Veio participar de um jogo de confraternização com ex-craques do Brasil em Brasília. Como esse camarada é polêmico, mais que divulgar a presença dele no jogo, o fato de ele passar duas noites na capital do Brasil já rende uma ou duas páginas inteira de notícias. Todo mundo quer saber o que Maradona fez em Brasília. Pelo menos os moradores de Brasília querem.

Eu queria também. Deixei de querer quando descobri que EU seria um dos responsáveis por informar ao público de Brasília o que cargas d'água Maradona fez em Brasília.

Humildemente, fui lá fazer vigília a partir de 9h30 da manhã de sábado passado (dia 18, se não me engano) em frente ao Hotel Kubitscheck Plaza, um dos melhores do DF. Na verdade, eu já estava rendendo um repórter do jornal, Afonso Morais, que ficou a madrugada inteira lá. Um fotógrafo já estava no local desde 6h30, quando substituiu o da madrugada.

Quando desembarquei no hotel, recebi as seguintes informações:

1- Maradona NÃO saiu do hotel na noite de sexta para sábado;
2 - Maradona encheu a cara de cachaça até 3h30 da manhã no bar da piscina.
3 - Um hospede reclamou da barulheira e os argentinos que acompanhavam Maradona, e que iriam jogar contra o Brasil no dia seguinte, foram para o quarto de Dieguito;
4 - Na suíte, Maradona pediu sete champanhes e um cara comprou 120 reais de energéticos no supermercado;
5 - Por volta de 6h da manhã, Maradona deu chilique porque queria que alguém comprasse cigarros para ele
6 - Por volta de 6h30, apagou-se a última luz do apartamento no décimo andar, onde Maradona estava hospedado.

Ciente da bagunça comportada do craque argentino, já estava pensando no título da minha matéria como "Maradona decepciona a imprensa". Brincadeiras à parte, assimilei essas informações de que ele teria ficado no hotel enchendo a rabiola de cana como verdades absolutas. Até porque, Goycochea, Basualdo, Careca e o próprio gerente do hotel deram a mesma versão. Só tive o trabalho de perguntar que horas ele sairia do quarto e o que comeu no café da manhã, almoço e jantar.

Acontece que às 17h, dez minutos antes de Maradona sair do hotel para ir jogar (sim, ele não veio para Brasília apenas para cachaçar), um cabeleireiro (néééé?!?!) que trabalha em um salão de beleza dentro do shoppingzinho do hotel chegou com a seguinte conversa:

- Arrumei quatro amigas (amigas mesmo. Popularmente chamadas de PUTAS PAGAS) para Maradona. Foi o chefe da delegação quem pediu. Eles foram no Gates Pub e na Boate Trend ontem à noite e voltaram depois das 4h da manhã...

Eu estava ao lado da minha concorrente, Camila Valadares, do Jornal de Brasília. Ficamos doidos com essa informação. Pô, um repórter passou a madrugada inteira no hotel e não viu Maradona sair pelo único elevador do recinto? Não era possível.

O cabeleireiro (néééé?!?!?!?) fez questão de mostrar que era, sim, possível que ele pudesse ter saído na noite de sexta para sábado. Acontece que o Gates e a Trend são locais concorridíssimos de públicos diferentes. Se ele tivesse ido com quatro putas pagas, Brasília inteira (a cidade só tem 16km de extensão, é pequena mesmo) já estaria comentando.

Pois o cabeleireiro (néééé?!?!?!?) sacou o celular do bolso e ligou para a amiga. Quem conversou com ela foi Valadares. A amiga estava nervosa porque a profissão dela é sigilosa, se é que você me entende. Mas deu a mesma versão do rapazinho do salão de beleza. Entramos em desespero. Eu e Valadares.

Quanto ele pagou pelas putas? Elas viram sinal de cocaína com Maradona? Ele usa viagra? Ele pediu alguma delas em casamento? Ele tem ejaculação precoce? Coisas do tipo. Ridículo...

Bom, são coisas fúteis, mas que qualquer edição do Manual de Redação da Caras ou Contigo dá muito valor. Era para isso que eu estava ali. Quer queria, quer não, o público quer ler essas coisas. Tanto que foi a matéria mais lida no Correio Braziliense e no Jornal de Brasília no domingo.

Pois muito bem, para confirmar a história, procuramos um coadjuvante. Huuuummm... Um segurança de Maradona! Ninguém melhor que ele para comprovar se El Diez fora no Gates e na Trend na noite de sexta para sábado.

Quem abordou um deles foi Camia Valadares.
- Oi amigo, tudo bem? Já estamos sabendo que Maradona saiu ontem à noite, foi para o Gates, Trend e voltou depois das 4h da matina com quatro prostitutas, pode confessar...

O cara, segurança, todo de preto, cara de poucos amigos, fechou ainda mais o rosto e não respondeu.

Naquele momento, eu e Valadares começamos a discutir. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ela deveria primeiro, tirar a cara de poucos amigos do segurança com perguntas amenas. Such as:

- Como é pra você trabalhar com um astro da grandeza de Maradona?
- As pessoas pedem muito autografo?

Assim, você ganha a simpatia do entrevistado. Essa é a minha opinião. Depois que o entrevistado tá do seu lado, cai matando. O livro de Lúcio Vaz (Ética da Malandragem), que Da Silva citou em post passado, ensina mais ou menos isso.

Acontece que eu fiquei sem a informação e tive que voltar correndo para redação para escrever meu texto, porque o jornal já estava fechando. Somado a isso, o jogo entre Brasil e Argentina, o motivo pelo qual Maradona esteve em Brasília, estava começando e eu precisava estar lá.

Voltei para redação, contei a história para o meu chefe. Ele não engoliu muito bem. Liguei no Gates e Trend. Nenhuma das boates confirmou a presença de Maradona lá. Porém, Valadares conseguiu confirmar com um dos seguranças que Maradona teria passado por esses lugares. E mais: teria pago 1,8 mil reais para as gatas o acompanharem.

Escrevi a matéria sobre a noitada no hotel mesmo.

O Jornal de Brasília (Camila Valadares) escreveu alguma coisa tipo: "Noite misteriosa". O que Maradona fez, afinal? Ficou trancado bebendo no hotel ou pagou quatro putas? Esse foi o tom da matéria.

Tenho humildade para reconhecer que gostaria de ter feito a mesma matéria, mas meu chefe pediu para divulgar apenas a versão que Afonso Morais, o repórter que passou a noite de sexta para sábado lá, havia apurado.

Em conversa com meus colegas de redação, eles também acham que o correto foi o que fiz. Sinceramente, ainda estou na dúvida.

A única certeza que tenho é que quem lê Caras não vê o coração de quem escreve aquelas abobrinhas.

Haja sofrimento (e falta do que escrever)

15 fevereiro 2006

Sugestão

O site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) , - www.anj.org.br - ainda em fase de construção, está implementando um projeto para disponibilizar diariamente aos internautas as capas de todos os 123 jornais filiados à entidade.

Por enquanto, o site já permite que! o usuário acesse as primeiras páginas de 43 periódicos do país. O acesso é feito através de um banner situado à esquerda do site, que registra: "As primeiras páginas dos jornais de hoje.

Já o site Newspaper Direct - http://newspapperdirect.com - oferece na íntegra edições de importantes jornais do mundo todo. Disponíveis em formato online, os periódicos muitas vezes chegam antes ao site do que nas bancas dos respectivos paíse! s. Entre os títulos brasileiros estão Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Gazeta Mercantil e Agora.

Nenhum jornal gaúcho e diários importantes como Correio Braziliense e O Globo constam na página.

14 fevereiro 2006

O futuro dos jornais

Em 1998, o dono e fundador da Microsoft previu, Bill Gates, previu que no ano de 2000 não existiriam mais jornais e revistas. Gates certamente acreditava que a Internet (o jornalismo on line) iria acabar com o impresso. O empresário errou na previsão, mas não se pode negar que as novas tecnologias estão obrigando os jornais a repensarem seu papel. É a respeito disso que republico um artigo de O Globo.

Repensando os jornais

Carlos Alberto Di Franco (*)

Fonte:
O Globo

As fraudes praticadas por jornalistas norte-americanos do “New York Times” deram o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do “Times” — “uma instituição que está no negócio há mais de cem anos”— Talese, crítico competente e arguto, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal norte-americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa.
“Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazos, cicatrizes na credibilidade.
Um amigo gozador costuma me dizer que a expressão “jornalismo de qualidade” é contraditória em si mesma. Outro dia, quis me exemplificar esta sua opinião: “Veja”, dizia, “boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominada pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas.” O desinteresse crescente dos leitores com as páginas de política, por exemplo (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está se passando pela cabeça do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.
O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito. Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora. São chuvas de verão. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.
Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business . Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento. Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão reclamando.
Os jornalistas precisam escrever para os leitores, e não para os colegas. O jornal precisa ter a sábia humildade de moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às autênticas necessidades do público. O lugar de repórter é a rua, garimpando a informação, apurando, prestando serviço ao leitor. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

(*) Diretor do Master em Jornalismo.

12 fevereiro 2006

Quando falta o mais importante

Uma das coisas que me deixa frustrado é quando chego na redação, começo a escrever e percebo que se tivesse colhido determinada informação a reportagem ficaria melhor. Acho que todo jornalista já passou por isso. Não é nem que você tenha colhido poucas informações. É que se “tivesse perguntado ‘tal coisa’ poderia dar outro foco a notícia”. O pior é quando o editor pergunta por essa ‘tal coisa’ que você tem que dizer desconfiado: “não perguntei”. A sensação é de ‘falta de competência’.
Com o tempo o faro de repórter vai sendo aguçado e as falhas vão desaparecendo. É claro que vai ter um dia ou outro que você vai perceber que faltou o mais importante. As informações que você tem até dá para fazer a matéria, mas ela poderia ficar muito melhor se não tivesse esquecido de perguntar sobre a ‘tal coisa’. Sempre costumo dizer aos meus alunos que o nosso contato com a fonte (entrevistado) é uma oportunidade é única. Em alguns casos dá até pra fazer uma nova entrevista, mas o entrevistado perde a espontaneidade. Quem já teve que fazer isso sabe do que eu estou falando.
Em televisão é ainda pior. Depois que a câmera é desligada e você pede pro cinegrafista ligar novamente porque esqueceu de fazer uma pergunta, o entrevistado fica todo sem jeito. Ele até responde. Mas responde sem graça. Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista. Ele é que tem que estar atento às imagens que farão a diferença na matéria. Se o cinegrafista não filmar, sua matéria vai ficar comprometida.
Semana passada vivi essa experiência. Estava trabalhando no clássico Campinense x Treze, no Amigão. Quando a bola saiu pra lateral, o técnico do Treze deu uma cotovelada no lateral-esquerdo do Campinense. O nariz do jogador sangrou e começou a confusão. “Você filmou a cotovelada”, perguntei ao meu cinegrafista. “Não sei”, respondeu ele pra minha tristeza. E realmente não tinha filmado porque assim que a bola saiu pra lateral, ele desligou a câmera. A cotovelada foi o assunto do outro dia no meio esportivo. Sem a imagem não pude fazer muita coisa. Tinha até boas sonoras com os envolvidos no caso. Não pude usá-las porque não dava pra fazer um VT sobre algo que não tinha a imagem. Esses casos chegam até a comprometer a credibilidade. O telespectador pode pensar que houve omissão, que não foi o caso.
Eu já havia passado por outra situação em janeiro de 2005, quando trabalha na TV Borborema. Posse do novo prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo. Teatro Municipal lotado. Depois de entrevistar o novo chefe do executivo da cidade fomos (os jornalistas) entrevistar a ex-prefeita Cozete Barbosa. Quando estava na sexta pergunta resolvi tirar o microfone. Achei que com as sonoras que tinha dava pra fazer a matéria. E não é que na oitava pergunta, a ex-prefeita dá uma declaração bombástica. Na mesma hora, minha ex-editora Neide Nascimento me ligou perguntando se eu tinha a entrevista. Pense numa frustração. Ela ainda tentou me convencer a entrevistar novamente a ex-prefeita, num ato desesperado de conseguir a declaração. Sabia que seria quase impossível. Ela poderia até dizer algo parecido, mas nunca com a mesma raiva que disse. Fiquei pensando que aquilo era como se um prédio tivesse caído e eu tivesse perdido a imagem. Não teria como erguer o prédio, fazê-lo cair de novo para que eu pudesse filmar. A entrevista que perdi apontou um grande defeito nosso (de alguns repórteres de tevê como eu) de não ficar até o fim da entrevista, quando ela é feita por muitos jornalistas. Na maioria das vezes, na terceira ou quarta pergunta o cara já vai tirando o microfone. E foi por causa dessa mania que perdi a declaração da ex-prefeita, o fato mais importante da posse. Não foi bom, mas pelo menos serviu pra ensinar algo.

08 fevereiro 2006

Há vida além do esporte

Definitivamente, existe mais coisas no mundo jornalístico do que as matérias de esporte ou qualquer outra coisa relacionada ao que eu e Da Silva costumamos escrever neste espaço. Isso é óbvio.

Diante da mobilização internacional para tentar entender a reação dos islamicos após a publicação das charges do profeta Maomé ligado ao terrorismo por um jornal dinamarquês, me vejo na obrigação de colocar alguma coisa sobre o assunto no nosso blog.

Entendo que o assunto é extremamente complicado. Poucas pessoas gostam de ler sobre o assunto. Principalmente em Campina Grande, onde as pessoas fazem questão de pensar que o mundo gira em torno da cidade, e não o contrário. Mas o texto abaixo foi publicado no Washington Post e foi escrito por um jornalista do semanal alemão Die Zeit.

Além de cutucar os americanos, o jornalista dá mostras de quais são os critérios de edição nos jornais da europa.

Abaixo:


Thomas Kleine-Brockhoff
Tolerância para com os intolerantes

--> --> -->Na semana passada, a publicação na qual trabalho, o semanário alemão Die Zeit, divulgou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Era a coisa certa a fazer. Quando as charges foram tornadas públicas pela primeira vez, em setembro, na Dinamarca, ninguém comentou o assunto na Alemanha. Se os desenhos tivessem sido oferecidos à minha revista na época, certamente teríamos declinado.

Pelo menos um deles equipara o islã ao extremismo. É exatamente o tipo de coisa que devemos evitar no debate sobre fundamentalismo — embora a charge política tenha o exagero na sua essência.

Não teríamos publicado por moderação e respeito à minoria muçulmana no nosso país. O bom senso da mídia é posto à prova toda hora. Não mostramos fotos de sexo explícito nem de pedaços de corpos após ataques terroristas. Procuramos manter o racismo e o anti-semitismo longe das nossas páginas. A liberdade de imprensa exige responsabilidade. Mas os critérios mudam quando o material tido como ofensivo adquire valor noticioso.

Por isso vimos corpos despencando das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Por isso vimos imagens dos abusos na prisão de Abu Ghraib. Nessas ocasiões, publicamos o que normalmente não sairia. A natureza desse pensamento é encontrar parâmetros sobre o que é culturalmente aceitável.

Quantas vezes não mencionamos os seios da cantora Janet Jackson em discussões sobres os limites da diversão familiar na TV? Quantas vezes publicamos coisas que os judeus consideram agressivas? Parece inacreditável que os jornais americanos tutelem seus leitores, deixando de publicar charges que o mundo comenta. Publicar não significa aprovar. O contexto importa muito.

Vale lembrar que a polêmica começou com um bem-intencionado projeto de livro infantil sobre a vida do profeta Maomé, escrito para promover a tolerância religiosa. Mas o autor se deparou com a rigidez religiosa no momento em que buscou um ilustrador para a obra. Impossível encontrar um.

Os artistas dinamarqueses pareciam temer pela própria vida, lembrando o destino do cineasta holandês Theo van Gogh, assassinado por um fundamentalista islâmico depois de fazer duras críticas ao extremismo. Quando a história chegou ao Jyllands-Posten, o editor de cultura resolveu bancá-la. Ele queria ver quais cartunistas se submeteriam à autocensura por medo dos muçulmanos radicais. Até então, a mídia européia ignorava o caso.

Foram precisos meses, o boicote de produtos dinamarqueses no mundo árabe e a intervenção de campeões da liberdade religiosa — como os governos de Síria, Kuweit, Arábia Saudita e Líbia — para que, finalmente, despertasse o interesse de alguns jornais europeus. Na semana passada, o assunto virou manchete em todo o Velho Continente.

Já na maior parte dos relatos na imprensa americana, os europeus pareciam estar errados, novamente. Eles não sabem como lidar com a imigração, a religião e o respeito às minorias. Afinal, suas cidades estão queimando, como ficou claro, meses atrás, na França.

O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, detectou um “preconceito antiislâmico” e o comparou ao “preconceito anti-semita” de outrora. Nessa jihad (guerra santa) contra o humor, a tolerância é desdenhada por quem a prega para os outros. Os governos autoritários que dizem falar em nome das supostamente oprimidas minorias islâmicas na Europa reprimem implacavelmente as suas próprias minorias. Eles não pedem mais respeito, mas submissão. E querem que os não-muçulmanos na Europa vivam regras muçulmanas.

Será que Clinton defende a tolerância para com a intolerância? Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado norte-americano achou apropriado intervir e condenou a publicação das charges como um inaceitável incentivo ao ódio religioso. Esse é um momento curioso, em que o governo dos EUA, que se gaba de ser o ninho da livre opinião, sugere aos jornalistas europeus o que eles não devem publicar.

O autor, chefe da sucursal do semanário alemão Die Zeit, escreveu para o jornal The Washington Post

07 fevereiro 2006

Ensaio sobre a soberba

Estou longe do jornalismo literário. Muito longe mesmo. Só coloquei esse título "Ensaio sobre a soberba" porque, na verdade, queria escrever sobre a soberba. Confesso que esse é o pecado que mais me intriga. Tenho certeza que a meu amigo Da Silva também. (NR - Acostume-se, porque eu só chamo Leonardo Alves de Da Silva). Este "Ensaio sobre a soberba" tem alguns lances que me ocorreram na semana que passou.

Pois bem, há um ditado maravilhoso que diz o seguinte:

"A soberba bota praça na ante-sala do fracasso".

Traduzindo para a linguagem manjada dos jogadores de futebol:

"O jogo só acaba quando termina".

Ou seja, não adianta contar vantagem antes de ter feito alguma coisa.
Fim do nariz-de-cera.

Vamos ao lide.

No post "Ficha Extensa", relatei uma confusão que criei no time de vôlei de Brasília, a Brasil Telecom, que disputa a Superliga Feminina (o nome dado ao Campeonato Brasileiro de vôlei). Pois bem, passei três semanas sem pisar nos treinos desse time de vôlei. Por coincidência, após minha reportagem em que o treinador ventilou a possibilidade de sair do time, a equipe desandou a perder. Tudo de três sets a zero.

Na segunda-feira da semana passada, coloquei na minha cabeça que voltaria aos treinos normalmente, mas tinha que ter um assunto muito bom para não encarar as jogadoras e o treinador sem nenhum argumento. Antes de dizer qual era, preciso esclarecer que não fui ao treino antes porque tive outras (muitas) pautas diversas.

Anyway, na mesma segunda-feira, encontrei Rodrigo Ferreira, estagiário da editoria de Esportes do jornal Tribuna do Brasil, em uma pauta sobre golfe. Conversa vai, conversa vem, contei que tinha um "assunto bomba" para estourar na quadra do time de vôlei de Brasília. Ele tava muito a fim de perguntar o que era, mas quando um repórter dá uma dica dessa, os concorrentes já ficam loucos para descobrir o que é e se esforçam ainda mais para dar outra bomba.

Meu assunto não era bomba, era apenas inconveniente. É o seguinte: descobri que o time da Brasil Telecom era a segunda equipe que mais errava no Campeonato Brasileiro. Por partida, entregava uma média de 24 pontos. Ora, se um set tem 25 pontos de duração, então as candangas entregavam um set de bandeja para as adversárias. Tudo baseado nas estatísticas da Confederação Brasileira de Vôlei.

Tive que gastar uma tarde inteira calculando esses números. E olha que sou péssimo em contas. Mas esta estava certa.

Agora, veja a situação. O repórter solta a aspa de um treinador dizendo que pode pedir para sair do time. O treinador nega que tenha dito isso. O repórter passa três semanas sem pisar nos treinos, e quando já chega com os "pés nos peitos" dos entrevistados. Não era um bom retorno. Por isso, vendi meu peixe como "assunto bomba" para a concorrência.

Não sei se o nosso Rodrigo Ferreira ficou instigado para correr atrás da bomba que eu teria ou se ele deu sorte. Acontece que ele se aproveitou de minha soberba ("tenho um "assunto bomba") e deu o furo da semana em mim e no Jornal de Brasília.

Ele simplesmente descobriu que a pessoa que mantinha o time de vôlei vivo dentro da Brasil Telecom (leia-se: diretora de esportes) fora demitida dois dias antes do jogo da semana passada. Furo. Muito melhor que meu "assunto bomba". Com a demissão da diretora, o futuro do time de vôlei em Brasília era obscuro. Poderia, inclusive, acabar no meio do campeonato, o que seria uma verguenza.

Descobri, em seguida, que ele estivera em todos os treinos do time após meu rasgo de prepotência e ainda foi jogar bola com os funcionários da empresa Brasil Telecom (e não as jogadoras) para tentar ofuscar meu "assunto bomba". Mas acredito que o futebol tenha sido por acaso.

Reconheci o furo tomado. Meu chefe não deu muita trela. Afinal, após quase duas décadas, ele entende que furos são feitos para dar e para levar. Eu já dei alguns. Levei vários. Semana passada levei mais outro. Amanhã posso dar algum. Acontece. Merdas acontecem. Desde que eu saiba fazer algo diferente de apenas tomar furos e me conformar.

Agora, me responda, não seria muito melhor ter guardado esse danado desse "assunto bomba" só para mim?

(NR - Os ânimos das jogadoras para cima de mim estão exautados. Elas me espancam com um olhar. Dão entrevista por obrigação. Vôlei, basquete, natação ou qualquer outro esporte que não seja futebol, no Brasil, não tem a rotina de ser cobrado diariamente. Mas isso é assunto para um outro post)

01 fevereiro 2006

Sugestões de leitura

Não é muito fácil encontrar livros de jornalismo. Pelo menos aqui em Campina Grande. Na maioria das vezes que vou a livraria vejo os mesmos títulos. São poucas as novidades que chegam ao mercado campinense. Pra minha sorte Daniel mora em Brasília e, sempre que surge alguma novidade, ele me manda de presente. Aliás, na passagem relâmpago por aqui, ele me prometeu enviar (mais um) um livro. O novo da Folha de São Paulo. Não lembro bem do que se trata. Só sei que é interessante. Daniel me falou, mas já estávamos acima do sexto chope, então é difícil lembrar. Como DB estava no mesmo nível que eu, estou apenas relembrando a promessa.

Pois bem, o último presente que recebi via Brasília foi o livro de Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional. Só pelo título dá pra perceber o que encontrei nele. Se o “mundo do Congresso” – esse que a gente conhece – não é lá essas coisas, não tem credibilidade, imagine o submundo. São 26 reportagens investigativas do jornalista gaúcho, que há 20 anos mora em Brasília. Passou treze na Folha de São Paulo e agora trabalha no Correio Braziliense. O livro é uma lição para todo jornalista, principalmente para aqueles que são atraídos pelo jornalismo investigativo. Lúcio conta os bastidores de cada reportagem, a maioria publicada na Folha de São Paulo. São denúncias de aluguel de mandato, nepotismo exagerado, compra de votos e, acredite, tráfico de drogas no Congresso. Tinha até o “teledrogas”. Como este é um ano de eleição, o livro também serve de reflexão para olharmos em quem pretendemos votar. Se bem que eu acho que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”. É um bando de picareta. Estão pouco se lixando pros nossos interesses. Eu já tinha essa impressão e depois do livro aumentou ainda mais. É nojento você saber que a maioria (pra não dizer todos) faz com nosso dinheiro. Como Daniel, disse eu outro post: “políticos? Esses nunca são inocentes”. Os caras só se interessam em aprovar alguma coisa se forem beneficiados.

Sempre tentam se locupletar de alguma forma. Entre as reportagens aparecem nomes de políticos paraibanos. Na intitulada “Compra de votos”, Lúcio relata o episódio da convenção do PMDB em 1998, na Paraíba. Na época o agora deputado federal Ronaldo Cunha Lima queria ser indicado pelo partido como candidato a governador. Porém, José Maranhão pretendia concorrer à reeleição. A denúncia era de que Maranhão estava comprando votos dos convencionais. O jornalista veio a Paraíba, fez a matéria, mas ficou tudo “por isso mesmo”. Nessa mesma linha, Lúcio conta que um político de Mato Grosso denunciava o adversário por compra de votos. Ele prometia gravações. Depois de alguns meses sem resposta, o jornalista liga pro denunciante e ele diz que fez um acordo com o adversário. É mole?

Aprendi e estou aprendendo muitas coisas com o livro. Fiquei imaginando como seria um jornalista daqui fazendo reportagem investigativa. Possivelmente ele encontraria irregularidades. O problema seria onde publicar. No caso de Vaz, ele tinha o apoio do jornal. Por aqui, acho que o jornalista poderia até publicar algumas denúncias. Mas só aquelas dos adversários do grupo político que o veículo está “ligado”.

O que me chamou atenção também foi a orelha do livro, escrita pelo editor Luiz Fernando Emediato, que afirma existir “dois Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos esclarecer, é aquele que faz uma Constituição, luta pela liberdade, vigia o Estado e até depõe um presidente. Vale a pena apostar que um dia será este o Congresso – e não o outro – que prevalecerá”. Concordo com ele, mas não posso negar que o outro Congresso (os das falcatruas) vem levando vantagem, se sobressaindo há muito tempo. Isso cansa. E não tem essa que “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

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Outro leitura recente foi o novo de Fernando Morais, Cem Quilos de Ouro [e outras histórias de um repórter]. O autor dispensa apresentações. O livro traz uma coletânea de doze reportagens. Grandes reportagens na verdade, algo que anda esquecido na maioria dos jornais. Hoje em dia não se investe tanto. As empresas não estão dispostas a pagar caro por uma boa história. O melhor é que todas as reportagens são precedidas do “making-off”, no qual os bastidores são relatados. Entre as histórias de Morais, três me chamaram a atenção: “O sonho da transamazônica acabou”, “O Napoleão do Planalto” e “O solitário da Dinda”. Na primeira, o jornalista conta os resultados da Transamazônica. Fernando havia feito a primeira reportagem sobre a estrada em 1970, percorrendo 5296 quilômetros em cima de uma promessa de desenvolvimento. Quatro anos depois voltou a fazer o percurso, atravessando “136 rios em seis balsas e cruzando 130 pontes” ao lado do fotógrafo para ver se o sonho do desenvolvimento tinha se tornado realidade. Foram vários dias na estrada num jipe Xavante da Gurgel para comprovar que tudo não passou de promessa.

Na “O Napoleão do Planalto” o jornalista traça um perfil da vida de Collor na época de presidente. A rotina, os contatos, os “amigos” (do poder, é claro). A reportagem “O solitário da Dinda” é sobre a vida do ex-presidente depois da queda. O interessante é fazer um paralelo entre as duas. Depois de sair do poder, Collor perdeu os amigos. Poucos lhe telefonavam. O ex-presidente revela toda a sua mágoa. E Morais consegue descrevê-la muito bem. O livro não deixa de ser uma aula de jornalismo ministrada por quem entende muito bem do assunto.

Os livros de Lúcio Vaz e Fernando Morais são certezas de boas leituras para este início de ano.

24 janeiro 2006

Arapuca para imprensa

O Globo (23/01/06)
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A cilada do artista invasor
Suzana Velasco

A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. Um célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição "Geijitsu kakuu", no Museu de Arte Contemporânea(MAC) de Fortaleza.

No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia. Era tudouma invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criarum trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada na semana passada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros — sobretudo os que caíram na cilada — atacando ferozmente o que seria uma molecagem de menino.

Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte contemporânea, por ter colaborado coma farsa.— Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal — diz Firmeza, recentemente selecionado para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, que trará jovens talentos para uma exposição no Paço Imperial este ano.

— Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Eles provaram ainda mais o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido. Não havia registro do artista na internet. Mas o humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados.

Segundo o jornal local "O Povo", o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco "a harmonia entre a para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições". Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza. Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato, que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas. Se passaram ao largo do fato de não haver qualquer registro do japonês na internet ou em textos impressos, é normal que ninguém tenha percebido as pistas deixada por Firmeza no próprio nome que deu ao artista, que em português significa "artista inventado", e à exposição, "arte e ficção".

Diretor do MAC há 11 meses, Ricardo Resende não interferiu nessa divulgação, mas admite que passou por uma saia justa:
— Um jornalista do "Diário do Nordeste" me ligou para saber da mostra porque não estava encontrando informações. Fui pego de surpresa. Disse que pediria para o artista entrar em contato com ele.

Foi o que o artista fez. No papel de Souzousareta, respondeu a uma entrevista por e-mail, que foi publicada em página inteira. Foi uma repercussão da qual museu e artista não tinham idéia quando Firmeza propôs o artista inventado ao ser convidado para o projeto Artista Invasor.

— Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar. Convidei oYuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas ( ele faz muitas das performances nu ). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Eu fui adiante, porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha sobre o assunto — avalia o diretor do MAC de Fortaleza.

Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem:

— Há um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Ceará. A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade, ou mesmo uma falta de conhecimento de arte contemporânea. Depois houve uma tentativa de jogar o erro para o outro, enquanto o grande erro foi daprópria mídia.

Firmeza, apesar de enfatizar que o problema é da imprensa em geral, faz críticas à falta de especialização no estado.

— Acho que a imprensa de São Paulo e do Rio também poderia ter caído nessa. Mas o Ceará é uma província. Aqui os jornalistas não têm fundamentação teórica sobre arte, é uma verborragia — diz ele,citando o artigo "Arte e molecagem" do jornalista Felipe Araújo,de "O Povo", que afirma que a arte contemporânea é, "com raras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação." — Todo o preconceito está ali.

Para diretor, museu cumpriu seu papel
No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza eum amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri — que não sabe como a exposição teria sido montada se nada houvesse sido publicado nos jornais:

— Foi um risco que corri desde o início. Mas de qualquer modo estaria lá a troca de e-mails. As performances aconteceriam e também voltariam ao museu como registros. Só sei que se o Yuri tivesse enviado o material, nada teria sido publicado na imprensa.

Para Resende, o museu saiu fortalecido no meio artístico porque mostrou que funciona para ousar:

— Nossa credibilidade não está ferida. Acho que as pessoas se perguntam que mídia é esta, que informações estão lendo. O museu só está cumprindo seu papel de ser o espaço do artista. O trabalho deu muito certo porque chegou ao editorial do jornal e a outras áreas em que a arte contemporânea nunca é tratada. Ele foi realmente um invasor.

18 janeiro 2006

Ficha extensa

Nunca fui santo. Nunca foi anjo, também. Enfim, sou normal. Talvez, esse seja meu maior defeito (profissionalmente falando). Por me considerar "normal" gosto dos desafios apresentados diariamente pelo jornalismo. Ao mesmo tempo, tenho medo de encarar as conseqüências dos desafios proporcionados pela carreira que escolhi.

Desde que comecei a trabalhar profissionalmente (com carteira assinada, em 1999), nunca arrumei tanta confusão com minhas reportagens como neste ano de 2006. E olha que nem completou um mês de vida. Em três semanas, consegui atingir a incrível marca de quatro matérias contestadas pelas próprias fontes.

Reclamações sobre minhas matérias não são novidade. Antes de enumerar as confusões que já arrumei em 2006, deixa eu fazer uma recaptulação de todas as encrencas que me meti desde quando tinha 18 anos e estava engantinhando no jornalismo.

Vamos lá:

1999 - Eu, repórter de TV. Foca total. Recém-chegado em Campina Grande. Fiquei espantado com o fanatismo dos torcedores dos times de futebol da cidade. Certo dia, almoçando, tive o azar de estar no mesmo restaurante dos presidentes de Treze e Campinense. Fui convidado para sentar ao lado deles e aceitei. As duas equipes se enfrentariam no final de semana seguinte pela semifinal do Campeonato Paraibano. Havia quatro jogos seguidos que o Treze não ganhava do Campinense.

O povo de Campina Grande, espirituoso como ele só, falou logo que o Treze tinha "tomado na quartinha". Para quem não é do Nordeste, quartinha é um recipiente feito de barro que é muito usado para colocar água ou até cachaça mesmo. Tipo uma jarra. A expressão "tomado na quartinha" era uma referência ao tradicional "tomado no c*".

Pois bem. Os presidentes dos dois times me pediram para fazer um agito para aquele clássico que estava por vir com dois dos principais jogadores das equipes rivais. Passei na feira, comprei uma danada de uma quartinha e levei, no mesmo dia, para o campo do Treze. Chamei o atacante Valério, do Treze, e expliquei que havia combinado tudo com o presidente do time e tal que era para fazer uma brincadeira com a tal da quartinha. Ele aceitou, mas não havia entendido que eu estava com a quartinha ali para entregar para ele e filmar alguma coisa. Tipo ele jogando a quartinha no chão, pisando e quebrando.

Inocente, mostrei a quartinha para ele bem em frente à torcida do Treze. Valério, claro, fez uma cena, tipo: "você é louco de trazer isso para cá, jamais farei tal coisa". Falou alto e nervoso para a torcida ouvir. Fiquei muuuuito sem graça e olhei para a torcida. Ela já estava toda no alambrado do estádio me xingando.

Isso aconteceu em setembro e passei o resto do ano sem conseguir entrevistar Valério direito. O treinador não aceitou falar sobre o clássico comigo. Para completar, criei um caso de ódio com a torcida do Treze que me perseguiu até meu último dia em Campina Grande (20 de novembro de 2002).

2000 - Depois de ter conquistado o primeiro título paraibano em 11 anos, o Treze entrava para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro cheio de moral e com o mesmo elenco campeão. entre eles estava Duda, um meia habilidoso, baiano, cheio de ginga, porém tímido com a imprensa.

Por coincidência, ele estivera uma única vez solto de frente aas câmeras. Exatamente na festa de comemoração do título paraibano. Cheio de cana na cabeça, rebolou na boquinha da garrafa, cantou e nós, claro, colocamos toda a festa no ar. Até aí, tudo bem

Acontece que esse neguinho desandou a jogar mal na Série C. Perdeu gol, pênalti, errou passes incríveis, a torcida do Treze (talvez, a mais noiada do Brasil), começou a pegar no pé dele. Sob a influência de Batatinha, chefe dos cinegrafistas da TV Borborema, resolvemos fazer uma montagem sobre a entrevista que ele havia me dado após um jogo da terceirona.

No exato momento em que ele dizia "Eu tenho certeza que tô jogando bem", nós colocamos a imagem do pênalti perdido por ele e, em seguida, ele dançando na boquinha da garrafa. Ou seja, dava a entender que ele tava farrando em vez de se preocupar com futebol.

Acontece que esse neguinho largou o Treze depois dessa confusão. Os jogadores fizeram pacto do silêncio comigo e passaram dois meses sem me dar entrevistas.

2001 - O Treze estava rumo ao bicampeonato. Havia contratado um louco para comandar o time. Um tal de Celso Teixeira. Ele se fazia de amigo das pessoas para depois "esfaqueá-las" pelas costas. Acontece que ele recebera propostas parra sair do Treze no meio do campeonato, mas estava sem coragem para pedir para sair.

Certo dia, estava eu fazendo uma passagem para uma matéria qualquer sobre o Treze no campo do time, quando ele interrompeu o treino e começou a gesticular. Logo chegou um diretor dizendo que eu não poderia filmar aquele treino. Mas, ora, eu tava apenas fazendo a passagem. Já havia filmado tudo que queria, só quem aparecia era eu naquele caso.

Isso deu uma confusão dos diabos. Deixa eu resumir porque esse post já tá gigante. Fiz uma matéria meia-boca sobre a confusao na sexta-feira. No domingo teria algum jogo, que não me lembro qual era.

Após o jogo, esse tal Teixeira deu entrevistas me xingando e me chamando de Daniel Filho nas duas rádios de Campina Grande. Nos tradicionais debates de segunda à noite, recebi a ligação de um ex-jornalista mas apresentador do programa da emissora concorrente aa minha pedindo para falar sobre o caso. Comecei a falar normalmente quando o ex-jornalista me perguntou:

- Você aceitaria falar com Teixeira hoje?
- Claro..., disse sem imaginar que poderia falar com Teixeira na segunda à noite
- Eu tô aqui e não quero falar com essa criança não, interrompeu minha resposta o tal Teixeira.

Aí começou uma sessão de humilhação para cima de mim. Fui humilhado em praça pública. Chamado de analfabeto, criança, despreparado, e tudo com o apoio e a incitação (existe esse termo?) do âncora da rádio. Claro que respondi a todas as provocações do Teixeira, sempre em alto nível, sem xingá-lo ou acusá-lo de qualquer coisa. Mas sei que não consegui me sair bem no "debate".

O treinador saiu do Treze. E no dia seguinte, os jornais O Norte, em João Pessoa, e Diário da Borborema, em Campina Grande, estamparam em suas primeiras páginas: "Celso Teixeira: inimigo da imprensa". Conseguimos apurar que em todas as outras equipes que passou, esse Teixeira havia brigado com algum jornalistas para sair das equipes.

2002 - O Treze (sempre ele) andava muuuito mal das pernas (e dos bolsos). Fiz uma matéria com o zagueiro Almir Conceição "dando porrada" na diretoria por não cumprir o que prometia. A torcida caiu em cima de mim. Era véspera de clássico contra o Campinense (sempre ele, também).

Para completar, o apresentador do programa para o qual eu era repórter fazia questão de jogar a torcida do Treze contra mim. Não sei porquê. Mas fazia essa questão. Até que após o clássico (não me lembro quem ganhou), um diretor entrou no gramado de treinamento com vários bolos de dinheiro na mão. Fez aquilo para me provocar e para inflamar a torcida.

Foi o suficiente. Choveu sabugo de milho em cima de mim. Sabugo de milho, cusparada, chiclete, garrafa d'agua cheia de mijo... Foi preciso um outro diretor do time ir lá pedir para torcida parar. Quando estava entrevistando Rodrigo Tabata (hoje no Santos), ele fez sinal de calma para torcida porque ninguém parava de me xingar. Na saída do estádio, os torcedores cercaram o carro da TV e ameaçaram balançar a viatura. Foram momentos de pânico, confesso.

O que eu fiz? Pedi para o cinegrafista filmar toda a confusão e apresentei aos "chefes". O que aconteceu? Eu passei a ser apresentador do programa e o apresentador passou a ser repórter. Quantas reportagens no campo do Treze foram apresentadas no programa depois disso? NENHUMA...

(caraca, já escrevi muito e ainda nem cheguei na metade)

Pulamos, pois, os anos de 2003 e 2004.

2005 - Já no Correio Braziliense. Fui fazer uma matéria com a jogadora Flávia, do time de vôlei que disputava a Superliga (Campeonato Brasileiro). Ela é linda. Fiz uma matéria com o título: "A musa da Superliga". Perfil da atleta, fofoquinhas sobre namorados e tal. No meio da conversa, perguntei:
- Livro?
- Chikérrimo, de Glória Kalil

Publiquei a resposta. Flavinha me odiou para sempre. Até hoje deve ter esse sentimento. Não falou mais comigo até o término da Superliga. "Fiquei parecendo fútil", reclamou para as amigas.

Teve o caso do pivô da República Dominicana José Vargas, que atuou em Brasília, durante o Campeonato Nacional de basquete. Ele fez críticas a todos os jogadores na vespera da semifinal do campeonato. Recebeu uma bronca do diretor e eu liguei para ele para saber como tinha sido o papo (com o diretor). Ele reconheceu que havia criticado colegas na hora errada. Fiz essa matéria.

No último treino antes da ultima partida da semifinal, ele me encotrou e disse que eu menti, escrevi coisas que ele nao tinha dito e o escambau. Agora, imagina o cara de exatos 2,10m de altura apontando o dedo na minha cara, que está a, apenas, 1,74m de altura do chão? No momento em que ele dizia que eu havia escrito uma matéria que nunca existiu apontando o dedo na minha cara, calculei que a mão dele era duas ou três vezes maior que a circunferência de meu rosto.

Para minha sorte, o time de Brasília perdeu e esse cara foi embora de Brasília. Hoje encara repórteres em Franca (SP).

Chegamos (UFA!) em 2006.
Primeiro dia do ano começa com uma entrevista que fiz com um camarada chamado Baltemar Brito. Pernambucano, auxiliar técnico de José Mourinho, treinador do Chelsea, um dos times mais poderosos do futebol do planeta. Apesar do sobrenome, ele não é meu parente.

Ele me deu uma entrevista super legal. Disse que Mourinho (puta treinador) era um jogador de futebol medíocre, reclamou das torcidas brasileiras, falou sobre a falta de zagueiros na seleção brasileira.

Ao enviar a matéria para ele (após publicada no Correio BRaziliense), ele me liga na mesma hora.
- Rapaz, como eu vou mostrar essa reportagem para Mourinho?
- Desculpa (Baltemar) Brito, mas nossa conversa foi toda gravada. Você disse isso e eu tenho gravado
- Eu também não disse que os zagueiros da Seleção eram ruins. Também não reclamei disso, nem disso, muito menos daquilo, enumerou o camarada.
- Mas tá gravado!
- Eu sei, mas é que fiquei à vontade com você e falei coisas que não devia. Tem como republicar a matéria?

Impossível.

Outra polêmica do ano.

Matéria sobre o calendário do vôlei de Brasília para 2006. Coloquei que o Governo local não queria trazer um jogo da Liga Mundial e o Banco do Brasil estava negociando com governos para deicidir quais cidades sediariam as etapas do Circuito BB de volei de praia. Tudo baseado no que disse o presidente da Federacão do DF de volei. No dia seguinte, tanto o governo do DF como o BB mandaram carta reclamando da matéria. E olha que o texto ocupou um pé de página (20 cm). O governo culpou a federacão por nao haver Liga Mundial e o BB disse que não negocia com ninguém nada. Alguns diretores do banco estão sendo acusados de ter envolvimento em corrupção. A expressão "negociação com governos" por lá é motivo para escândalos.

Mais uma, desta vez no basquete:

Dois jogadores norte-americanos do time de Brasília que disputam o Campeonato Brasileiro são acusados de terem jogado sem o visto de trabalho para estrangeiros no país. Tal infração resulta em multa de R$ 50 mil, mais a perda dos pontos ganhos no jogo em que os caras não tinham visto e ainda cancelamento do pagamento por parte do governo da verba anual que a confederação de basquete tem direito.

A denúncia surgiu no jornal Lance!. Eu apenas republiquei e fui maltratado pelo diretor do time de Brasília. Inclusive, "acusado" de investigador, mal-caráter e intruso. Retruquei, mas preparei uma ofensiva por conta própria.

Fui no Ministério do Trabalho, no Ministério da Justiça e na Polícia Federal pegar informações sobre os dois caras. Um deles ficou confirmado que estava, de fato, sem visto em um jogo do campeonato.

Liguei para os diretores do time falando que queria fazer a matéria. Eles ligaram para meu chefe para tentar impedir a publicação. Não só não conseguiram impedir a publicação como deixaram a entender que erraram mesmo e o jogador estava sem o visto na estréia do Campeonato Brasileiro de basquete.

Fizemos a matéria com as informações que eu tinha conseguido nos órgãos federais e nao deu em nada. A confederação jamais vai reconhecer que aceitou um jogador que não tinha visto no país. Ela deixaria de receber a verba anual do governo. A maior perda foi minha, que não tenho mais uma grande fonte na área do basquete.

Por último (será que alguém ainda tá lendo este post?) , o volei, de novo.
O treinador do time de brasília, William Carvalho foi medalha de prata nas Olimpiadas de Los Angeles em 1984 e é extremamente gente boa. Porém, o time dele não começou bem a Superliga (Campeonato Brasileiro).

Fiz uma matéria comparando o rendimento deste ano com o do ano passado. Ele me disse assim, aos ver os números:

- Se nossas estatísticas não subirem daqui a cinco jogos, eu não vou estar mais nesse time
- Posso publicar essa sua declaração?, fiz questão de perguntar.
- Pode, pode..., respondeu, se despedindo

A matéria saiu no jornal de sábado, 14 de janeiro. As 11h da manha de sabado ouço um recado na minha secretaria do celular:
- Daniel, é o William. Eu não te dei esse tipo de entrevista. Você perdeu um cara que podia contar e eu perdi a confiança em você...
Esperei até segunda-feira para ligar para ele e conversar de cabeça fria. Ele não me atendeu. Pelo que soube da repórter do jornal concorrente ao meu, Camila Valadares, William achou uma babaquice a minha reportagem e não me dará entrevistas enquanto estiver em Brasília.

Hoje, quarta-feira, tenho que entrevistá-lo. Vou ligar para ele. Vamos ver o que ele vai fazer quando ouvir minha voz. Não quero briga, quero saber o que aconteceu para ele negar o que havia me dito na semana passada.

Diante de um histórico desses, ecoa alto na minha cabeça uma frase célebre de Batatinha, o mesmo cara que fez a montagem com o meia Duda, do Treze, dançando na boquinha da garrafa e errando gols:

"Jornalista ganha pouco para falar bem de todo mundo".
(DESCULPE O TEXTO GIGANTESCO, SÓ QUERIA EXPLICAR A HISTORIA DIREITINHO)

13 janeiro 2006

Assessorias e assessorias

Estive pensando nos últimos dias nos artifícios usados pelas fontes para calar nós jornalistas. Calar não, melhor, somente falar bem delas. O mais comum é oferecer dinheiro. Não estou falando de suborno descarado, quando o cara pergunta quanto o jornalista quer para não publicar tal matéria. Não que esses casos não aconteçam. Porém são mais raros. Falo daquele “cala a boca” oferecido pelos políticos. Esse sim acontece com freqüência. O político dá ao jornalista uma assessoria (não necessariamente de imprensa) e pronto. Ele ganha um jornalista que dificilmente – pra não dizer nunca – vai falar mal dele. Pode parecer radicalismo da minha parte, mas é dessa forma que os políticos agem. Teve um político aqui de Campina Grande que chegou a dizer que “os jornalistas da cidade a gente compra com um jantar”. Se disse é porque já deve ter comprado algum jornalista com um jantar.

A tática arranjar um salário para o jornalista. Na maioria dos casos o assessore sem fazer nada. Mesmo assim são nomeados para o cargo. Existe um caso ainda pior: o dos jornalistas que não têm nomeação e recebem dinheiro de três, quatro, cinco políticos “pra inteirar o leite dos meninos em casa”, como disse Daniel em um post anterior. É claro que esses benefícios são mais concedidos aos jornalistas políticos. Há um outro caso, que abrange as outras áreas, em que o jornalista com emprego num veículo de comunicação (principalmente jornal) usa seu expediente vago para assessorar alguém ou algum órgão. Alguém pode até dizer que isso é normal, que não atrapalha o trabalho, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo alguém que é assessor de um órgão ou pessoa que está cometendo irregularidades. Como o jornalista vai fazer uma matéria isenta se ele é pago também pelo órgão em questão? Certamente vai desagradar o jornal onde trabalha ou o seu assessorado. A sabedoria diz “ninguém pode servir a dois senhores” porque vai desagradar a um deles.
Se não me engano, Daniel já me falou que no Correio Braziliense e em outros grandes jornais não é permitido jornalista ter assessoria. Ou é jornalista ou assessor. Acredito que esse seja o melhor caminho. Aqui na Paraíba isso não acontece. Muito pelo contrário quase todos os jornalistas têm uma assessoria pra complementar o salário. Como gostam de dizer alguns políticos “é uma laminha que a gente paga”. Basta dar uma lida nas colunas políticas que logo se percebe de que lado o colunista está. Por aqui é assim. Ou você é a favor ou contra o governo. O colunista até tenta disfarçar, mas basta ler a coluna por uma semana que se percebe qual a posição dele. O interessante é que a maioria posa de jornalista isento, em que o único compromisso é com a verdade. Como se o leitor fosse burro e não soubesse fazer uma análise crítica. Existem colunistas que têm várias assessorias de políticos diferentes. Os nomes deles aparecem quase todos os dias nas colunas. Falando bem, é claro. Uma semana é suficiente pra se perceber de quem o jornalista está recebendo a “ajuda de custo”.
Mas deixa eu esquecer a área política e voltar pra minha, a de esportes. Nela também dirigentes, treinadores e jogadores tentam agradar os jornalistas com convites pra jantar, tomar uma cerveja e até assessorias. Nesse aspecto os dirigentes de clubes de futebol se assemelham aos políticos. E, pasmem, conseguem até ser pior. Aqui em Campina Grande se um cara desses encontra você num restaurante, senta a sua mesa e depois paga a conta, pode esperar que na primeira oportunidade ele vai dizer que “paguei um monte de coisa pra esse jornalista e ele ainda fala mal de mim”. E isso ocorre nas rádios. Já aconteceram vários casos.

Comigo aconteceram duas situações interessantes na época em que era editor de esportes do Diário da Borborema. Nenhuma delas envolveu jantares. Até porque acredito que o jornalista é que tem que pagar a sua conta para não dar o direito a esses caras ficarem conversando merda nas rádios e nos calçadões da vida. Isso mesmo, existe uma classe ainda pior que é a dos covardes, que só tem coragem de te criticar pelas costas. Voltando ao “causo”, um diretor de futebol de um dos clubes de Campina Grande estava tentando empresariar jogadores. Era procurador de um atacante, que inclusive foi artilheiro do Paraibano naquele ano. Pois bem, o cara chegou lá na redação me elogiando, elogiando meu trabalho. Fiquei logo desconfiado com aqueles elogios. Dirigente de futebol só fala do seu trabalho quando é para criticar. Aí, ela solta:
- Olha você sabe que sou procurador do atacante ‘fulano de tal’ e estou querendo vendê-lo pra um clube do Sul. Se você pudesse me dar uma força colocando matérias elogiando o jogador, quando vendê-lo trago um presente, um agrado pra você, disse ele.
- Peraí. Se eu colocar uma matéria elogiando jogador é porque ele merece. Até porque o cara é artilheiro do campeonato. Mas se você vendê-lo não me traga nada não. Nem uma camisa, sequer. O jogador é seu, o empresário é você e quem ganha dinheiro com isso é você. Eu sou pago pelo jornal, respondi.
- Não me entenda mal, sei que você é um homem de bem. Não estou querendo lhe comprar, apenas lhe agradar.

Eu pergunto: você leitor acredita que ele não estava querendo me comprar?

O outro “causo” foi mais interessante. Ainda como editor do DB, eu fiz uma matéria contra um técnico. Deve ter saído numa sexta-feira. No domingo, dia de jogo, ele estava comentando em outra emissora – que não fazia parte dos Associados – que a notícia do jornal era uma notícia plantada, de gente que queria tumultuar o trabalho dele. E não era. Dá pra perceber como o cara é esperto. Não criticou na emissora dos Associados, onde eu trabalhava também, para não correr o risco de ser desmentido no ar. Passado o jogo, na terça-feira lá fui eu pra reapresentação do time. O treinador estava com um semblante fechado. Pensei: “agora esse cara vem tomar satisfação comigo”. Quando encerrei meu pensamento ele me chamou pra conversar em particular. Pra minha surpresa – esperava um desabafo dele – o técnico veio com outra história:
- Você que todo profissional hoje em dia precisa de uma assessoria. Eu fiquei pensando nesses dias e cheguei a conclusão de que você é uma boa opção pra ser meu assessor de imprensa. É um cara que entende e gosta de futebol e também tem bom relacionamento com os outros jornalistas.

Não estava preparado para o convite. Fiquei alguns segundos pensando no que responder, mas a única coisa que me veio a cabeça foi:

- Eu realmente fico muito lisonjeado com o convite e o reconhecimento ao meu trabalho. Mas a função de assessor é incompatível com a de editor de esportes do jornal. Primeiro porque você não vai aceitar críticas. Segundo, todas as vezes que eu lhe elogiar as pessoas vão dizer que eu faço isso porque sou seu assessor. E além do mais pode criar um mal estar pra você, pois eu teria acesso a informações que os outros jornalistas não teriam. E eu iria usá-las no jornal onde trabalho. Os outros ficaram chateados porque você estaria me privilegiando. Então é melhor procurar uma pessoa que não tem vínculo com nenhuma empresa.
Eu imagino que no fundo ele não queria minha assessoria. Se tivesse aceitado talvez não tivesse recebido um tostão. Foi tentativa pra que eu não fizesse mais nenhuma matéria contra ele. Acredito que ele deve ter procurado alguma forma de me queimar, de me sacanear e a deve ter pensado: “a única forma de calá-lo é puxando ele pra perto de mim, amarrando-o com uma assessoria”. É a história de colocar os ‘inimigos’ perto pra não perdê-los de vista.

Posso até estar errado e realmente ele me quisesse como assessor. Nesses casos acho melhor não arriscar pra não comprometer o trabalho.