30 outubro 2006

Lula: a segunda chance

Pedro Henrique Freire

Outro dia, criou-se na redação uma discussão saudável. De um lado, eleitores do Lula. De outro, do Alckmin. “Eu vou votar no Lula”, disse um jornalista. “Nossa! Logo você... uma pessoa tão inteligente”, retrucou outro colega. Isso causou a ira de alguns companheiros. Para eles, votar no Lula não é sinônimo de asneira. Votam no Lula porque não suportam o Alckmin.

Vendo aquela confusão, comentei. “Gente, o povo brasileiro está sem saída”. Ainda assim, existiram mais brasileiros que preferiram os quatro anos de escândalos do Lula a mais quatro anos iguais aqueles oito do FHC.

Ao final do quadriênio à frente do Palácio do Planalto, aquele “Lulinha Paz e Amor” de 2002 deve está cansado de esbravejar, xingar e beber um pouco para apagar a irritação com tanta denúncia. Mas uma coisa ele tem que admitir: a oposição tucana mandou bem. Explorou os podres do governo. Deixou-o com as calças arreadas.

Tudo isso, temos que colocar na mesa, se deveu aos vícios de servidores tucanos herdados por Lula. A Polícia Federal é um exemplo. Teve tanta liberdade que fu*d* com o presidente. Lá dentro, o ninho tucano ocupa uma floresta inteira. Será que o mesmo aconteceria no governo FHC? Duvido. Tudo naquela época era abafado, como num balé de armação herdado pela ditadura.

No governo Lula, a Procuradoria-Geral da União passou a fazer sorteios para investigar municípios. Aquela cidade tinha suas contas devassadas independentemente do partido. No governo FHC, o mesmo órgão engavetava tudo que poderia constranger o presidente ou seu governo.

Concordo que o governo Lula foi uma vergonha na área social, um desastre no relacionamento político e, até mesmo, no trato com o dinheiro público. Mas o governo FHC foi igual ou pior. Pior porque durou o dobro. Pior porque teve tempo para fazer mais e não fez.

E o que esperamos do Lula? Ele ganhou mais tempo e deverá fazer bem mais do que já fez. Caso contrário, marcará a história como um governo corrupto e “meia boca”, assim como foi o do senhor Fernando Henrique Cardoso. Não queremos mais um governo sem futuro. Sem futuro como a discussão que nós, jornalistas, travamos em plena redação.

A vitória deste domingo não teve nada a ver com aquela de 2002. O povo não votou em mudança. Votou na permanência de um migrante nordestino, ex-pobre, no poder. Lula venceu mais pelo que foi do que pelo que fez.

Ps: Será que continuaremos a contagem regressiva para o próximo escândalo?

26 outubro 2006

Se eu fosse Lula...

Por Daniel Brito

Com a eleição ganha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deve estar pensando em como vai manter-se vivo pelos próximos quatro anos. Sim, porque ele não vai deixar de ser bombardeado pelos jornais e tevês daqui até 2010.

Diferentemente do que havia publicado no início do segundo turno, os jornalistas se mostraram avessos ao PT ou aa esquerda nesta eleição. Tá, tudo bem. Os jornalistas não, porque eles cumprem ordens. Os DONOS das maiores empresas de comunicação do país odeiam qualquer tipo de esquerda. Com exceção, é claro, do pessoal da CArta CApital.

Mas uma prova de que a imprensa tem jogado contra o governo Lula são as manchetes dos últimos dias. Quando o IBGE anuncia a queda no desemprego, a notícia vai para o pé da página. Quando a investigação do tal dossiê anda um passo para frente, ela é estampada.

Números de pesquisa eleitoral, então...

Por isso, que muita gente diz que Collor caiu por muito menos que Lula. Mas Lula está agüentando o que nenhum outro presidente agüentou. Qualquer movimento que ele dá é motivo para críticas. Quando a grande imprensa pega leve, é crítica. É preciso reconhecer que tem muito de preconceito nas objeções publicadas diariamente.

Portanto, se EU tivesse a oportunidade de estar no lugar de Lula por um dia (24h), faria questão de me reunir com os donos das maiores empresas de comunicação do Brasil. Na conversa, pediria para que pegassem leve para o "meu" lado em troca de recheados contratos de publicidades.

O misterioso herdeiro Irineu já conversou em reservado com Lula na terça-feira passada. O que significa dizer que a MAIOR empresa de comunicação do país não deve pegar pesado para o lado do presidente reeleito.

É assim que os maiores políticos marqueteiros têm mantido altos índices de popularidade em seus currais eleitorais. Taí Minas Gerais que não me deixa mentir....

23 outubro 2006

Luto na imprensa da PB

Por Léo Alves

Neste final de semana, o jornalismo esportivo da Paraíba perdeu um de seus grandes nomes: Humberto de Campos. Tive o prazer de trabalhar com Humberto durante três anos e meio no Diário da Borborema. Meu amigo Daniel Brito também o conheceu. Aliás, Humberto foi um dos primeiros a acolher o grande DB, em Campina Grande. Abaixo republico minha coluna que escrevi para o Agora Esportes (www.agoraesportes.com.br)

Adeus a Humberto de Campos

Desde criança gostei de escutar jogos pelo rádio. Talvez surgisse nessa época minha inclinação para o jornalismo esportivo. Cresci ouvindo Humberto de Campos, Joselito Lucena, Edvaldo Gouveia e outros grandes profissionais da radiofonia esportiva.
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Quando decidi seguir o jornalismo esportivo, inspirado por meu tio Gutemberg Simões (Rádio Borborema), essa turma da “velha guarda” me servia de modelo. A história e o respeito que eles tinham junto aos ouvintes era algo com que sonhava qualquer um “aspirante” a jornalista como eu.

O primeiro contato que tive com Humberto de Campos foi 1999, quando trabalhei pela primeira vez no Diário da Borborema. Foi coisa rápida. Durante os seis meses que passei no DB (depois fui para o Banco do Brasil) não conversei com Humberto nada além do profissional.

Em 2001 retornei ao Diário da Borborema. Na época, o jornal mudava o projeto gráfico e criava a coluna Binóculo F.C, que era feita por mim com a colaboração de Severino Lopes, Daniel Brito e, por fim, Luceildo Carvalho. Humberto viria a se torna leitor assíduo da coluna. Prova disso era que vez por outra citava algum tópico do Bin F.C em sua coluna. Lembro que fiquei muito alegre quando vi pela primeira vez a referência de Humberto ao Bin F.C.

Comentei à época (com Daniel Brito) que era um reconhecimento ao meu trabalho. Por inúmeras vezes Humberto elogiou ou se inspirou em algum tópico do Bin F.C para citar em sua coluna. Perdoe-me a vaidade, mas sempre me sentia lisonjeado. Sentia que estava conquistando meu espaço (e respeito) junto aos grandes profissionais da imprensa esportiva. É lógico que também aumentava responsabilidade.

Nos três anos e meio que passei no Diário da Borborema, quase todos os dias da semana, encontrava com Humberto na redação. Era a mim que ele entregava suas colunas preparadas em casa. Chegava sempre com o porta-disquete nas mãos. Tirava um deles e pedia para copiar a coluna nos arquivos da redação. Vez por outra me pedia para “formatar” seus disquetes.

Quem o conhecia sabe que Humberto não tinha muita afinidade com a informática. Porém, sobrava-lhe habilidade com as palavras. Dizia o que precisava ser dito, sem preocupar em agradar “A” ou “B”. Criticava com classe, com estilo, em alto nível. Tão alto que muitas vezes as pessoas que eram criticadas por ele não compreendiam.

Com a convivência descobri que por trás daquela aparência sisuda, chata, daquele “vozerão” existia um homem que gostava de brincar. De preferência,brincadeiras inteligentes. E foi assim que passei a maior parte do tempo convivendo (os poucos minutos) diariamente com Humberto.

Adorava brincar com o fato de ele vez por outra citar em sua coluna a nebulosa “venda de Ruiter”, sua preocupação com o uso inadequado do verbo “reverter” e com sua raiva com denominação (segundo ele) errada de “Penta”, “Hexa”. Isso sem se falar nas famosas expressões “colóquio flácido para acalentar bovinos”, para não dizer conversa para boi dormir, ou “pequenina e heróica”, quando se referia à Paraíba.

Ainda tinham aquelas coisas que ele adorava dizer que não serviam pra nada (não tinham futuro): dançar com irmã, chover no molhado, muro em cemitério e peito em homem.

Foram expressões como essas que ficaram famosas junto à sua “meia dúzia de leitores”, como costumava brincar.

Humberto era um apaixonado por cinema, por futebol, pela vida e, claro, pelo português bem escrito.

Odiava quando alguém (as revisoras do DB) inventavam de mudar suas colunas. Lembro uma vez que ele escreveu uma coluna intitulada “Ao Sul do Equador”. Uma das revisoras inventou de trocar o ‘Sul’ por ‘sul’. Foi motivo para em outra coluna Humberto solicitar que ninguém mexesse nos seus escritos.

A partir de então, eu e o Moranquinho (era assim que Humberto também chamava Luceildo Carvalho, do DB, numa referência à semelhança dele com Lairton dos teclados, o Morango do Nordeste) passamos a chamá-lo de “Ao Sul (com a língua dobrando) do Equador”.

Desde que saímos do Diário da Borborema, eu e Humberto sempre nos encontrávamos nos estádios em dias de jogos. Não dava tempo para nada além de um ‘oi’, afinal estavámos na correria do trabalho.

É difícil para mim (ou para qualquer outro) definir Humberto de Campos em apenas uma coluna. Até porque estou longe de ser um colunista como ele. Ainda me falta habilidade com as palavras.

Mas para quem conheceu Humberto é dispensável dizer que abriu-se uma lacuna na crônica esportiva paraibana. ‘O mais discutido’ sempre foi exemplo de profissional. Como ele mesmo gostava de dizer: se Humberto “não existisse merecia ser inventado”.

22 outubro 2006

Histórias da F1

Por Daniel Brito

A melhor definiçao sobre o trabalho de um jornalista na Fórmula 1 me foi dada por um repórter do Estadão:

- Aqui, a gente conta os dias que faltam para acabar e vai cortando os riscos na parede, igual presidiário.

Para mim, que estou em um hotel a 20km do autódromo de Interlagos, realmente é de se contar os dias que faltam. Todo dia, tenho que sair do Paraíso, atravessar a avenida mais congestionada de São Paulo (23 de maio) e chegar no local da corrida. De táxi...

Meu recorde foram 90 minutos no trânsito. Vinte quilômetros em uma hora e meia....

Para nào ficar preso nas alamedas paulistanas, hoje, domingo, dia da prova, acordei às 4h45 e saí do hotel às 5h30. Cheguei em meia hora. Com trânsito um pouco menor.

Nenhum jornalista internacional falou bem de São Paulo até agora. A insegurança, a sujeira e o trânsito fazem qualquer um odiar esta cidade. Mas como experiência jornalística, a Fórmula 1 é algo comparável a Copa do Mundo, Olimpíada, talvez Jogos Pan-Americanos e/ou Grand Slam de tênis.

Como ainda faltam sete horas para o início da corrida e estou sozinho na sala de imprensa, sem ter o que fazer, resolvi colocar alguns tópicos do que já vivi por aqui desde quinta-feira.

* Os jornalistas espanhóis têm um jeitào de preguiçosos. Nunca são vistos andando pelo paddock (regiào atrás dos boxes, destinado a repórteres e convidados das escuderias). Na sala de imprensa de quase 200m de extensão, com mais de 230 jornalistas de impresso instalados, escolhi ficar ao lado dos espanhóis. Queria pegar alguma repercussão de Fernando Alonso, que será campeão hoje. Para meu azar, os caras do La Vanguardia, ABC e El Mundo não saem de frente dos telòes com estatíticas da corrida na sala. Quando são vistos próximos aos boxes da Renault, estão tomando café com um mecânico, batendo um papo com um desconhecido. Fico me perguntando, será que eles não têm chefes não?

* Os gringos não gostam que outros jornalistas peguem carona na entrevista deles. Se não for coletiva, cada um tem que esperar a sua vez. Fui entrevistar o bicampeào Niki Lauda ao lado de dois britânicos. Ele falou coisas legais sobre Schumacher, sobre Fórmula 1... várias coisas. Anotei tudo, estava quase ligando para a redação para abrir uma página com essa entrevista, mas os ingleses me interpelaram: "Meu nome é fulanodetal e este é meu companheiro Sicranodetal, nós somos do Sunday Telegraph e nós havíamos agendado esta entrevista com Niki anteriormente, por isso ele falou tantas coisas interessantes. Como só a publicaremos no domimgo (a entrevista foi quinta), gostaríamos de pedir para você não publicar nada antes disso, por favor. alguém pode traduzir e perdermos nosso material". Obedeci em parte. Dei destaque a uma declaração de Lauda na edição de sexta-feira sobre a aposentadoria de Michael Schumacher. Ninguém traduziu...

* Todos os pilotos têm o ar blasè. Metidos, arrogantes e mal humorados. Nào tente conversar com eles se não fora hora de entrevistas. Nas entrevistas, contudo, eles respondem com respeito, ainda que eles preferissem que você falasse a língua dele. Até Rubinho responde o feijão-com-arroz em inglês.

* Não convidem os companheiros de equipe Mark Weber e Nico Rosberg para a mesma mesa de entrevistas. Rodeado por ingleses, franceses e brasileiros, os pilotos da Williams trocaram farpas antes que qualquer jornalista formulasse alguma pergunta. "Não quero ficar na mesma mesa dele (Weber)", determinou Nico à assessoria de imprensa da equipe. Weber tentou levar na esportiva, mas o novato insistiu. "Me chateia dar entrevista com você aqui", repetiu duas vezes em voz alta. Logo, Mark Weber foi chamado por um repórter de tevê para uma entrevista em separado.

* A palavra mais falada pelos jornalistas no centro de imprensa em Interlagos, fora Fórmula 1, claro, é caipirinha. São mais de 200 profissionais, a maioria da Europa instalados em uma sala com mais de 100m de extensão, em frente à linha de chegada do circuito.

* "Está pensando que eu vou falar com a primeira pessoa que aparece na minha frente com bloquinho e caneta na mão". Esta foi a simpática maneira de Flávio Briatore, chefão da Renault, negar entrevista para mim.

* Entrevista coletiva após treino é um grande empurra-empurra. Na Espanha, por exemplo, eram tantos jornalistas em cima de Fernando Alonso, que o piloto caiu no chão empurrado por um cinegrafista desequilibrado. Ontem, durante a entrevista de Rubens Barrichello, um repórter brasileiro empurrou um italiano, que começou a gritar. Rubinho interrompeu a resposta e ordenou: "dá para você sair deste lugar, ô?". O jornalista obedeceu.

* Com três idiomas é possível fazer qualquer coisa no paddock da Fórmula. O primeiro é o inglês. Todos falam inglês, como eram de se esperar. Até Felipe Massa deu entrevistas em inglês aos brasileiros, na quinta-feira. Em seguida, o alemão, idioma em que Michael Schumacher dá as melhores respostas aos jornalistas. Por último, o italiano, língua da Ferrari, da maioria dos funcionários da Renault. Há quem diga que o jornalista que falar italiano para Flávio Briatore é muito bem recebido.
Será?

PS - Alguns dos asteriscos já foram publicados no Correio Braziliense desta semana.

17 outubro 2006

Eu NÃO sou perfeccionista

Por Daniel Brito

Quantas pessoas trabalham/estudam contigo reconhecem os próprios erros?
Quantas se dizem "perfeccionista"?

É duro reconhecer um erro. É fácil demais ouvir em um bate-papo entre companheiros de trabalho:

- Porque eu sou muito chato comigo mesmo. Eu me cobro muito, sabe? Sou super perfeccionista...

Isso é um dos auto-elogios mais ridículos que existem. Aos meus ouvidos soam como:

- Da licença, mas eu sou é f*da mesmo!

Eu, por exemplo, estou cercado de perfeccionistas. Pessoas que se classificam assim e não tem vergonha de espalhar essa impressão. Nas últimas semanas, conversei com três ou quatro repórteres que se confessaram perfeccionistas.

Eu poderia manter a conversa no nível e dizer:

- Pois eu sou igual a você, também sou perfeccionista.

O negócio é que eu não sou.

Tomo os devidos cuidados para não cometer erros absurdos, checo todas as informações vitais de uma matéria e reviso com freqüência meus textos. Mas não me prendo a detalhes. Coisa peculiar aos perfeccionistas.

Talvez por isso minhas matérias saem com erros aqui ou acolá.

Não é porque eu quero. Eu posso errar por três motivos:

1 - desatenção;
2 - informação repassada errada;
3 - mentira do entrevistado.

Pode acontecer com qualquer um. Nem sempre eu tenho tempo de apurar se a "mentira do entrevistado" é mentira mesmo. Até porque, não sou perfeccionista.

O mais curioso é que tem sempre um grupinho na minha cola à espera dos meus errinhos. Isso vem desde os tempos que eu era repórter de rádio em 1996, em João Pessoa. Em 1999, quando virei repórter de tevê, na Grande Campina , tinha um batalhão de gente me detonando a qualquer deslize. Hoje, no jornal impresso, continuo sendo alvo do big brother da concorrência.

Se eu disse que a competição tinha 332.182 atletas e eram 331.182, ERRO FEIO!
Se contei a história por um ângulo diferente: VACILEI!
Se esquentei uma matéria besta: EXAGEREI!

Há algum tempo isso me incomodava. Imaginava que as pessoas que me fiscalizavam fossem tão boas quanto elas queriam que eu fosse.

Hoje, contudo, estou tranqüilo. Até porque (sem querer ser demagogo), aprendo com as cornetadas-amigas.

Quer um exemplo:
A partir de amanhã estarei em São Paulo, cobrindo a Fórmula 1. Em Brasília ficarão os big brothers garimpando meus erros.

E vão encontrar, afinal, não sou perfeccionista!

16 outubro 2006

Ducha fria

Léo Alves*

A marca é a personalidade do produto. É nela que o consumidor busca o valor agregado. A marca é um patrimônio fabuloso da empresa. A marca Coca-Cola, por exemplo, vale mais de R$ 35 bilhões. E esse valor não inclui o patrimônio físico.

A marca é tão forte que acaba confundindo-se com o próprio produto.

Olha os exemplos:

1 - A maioria das pessoas prefere chamar Bombril em vez de esponja de aço;
2 - Gillete, no lugar de lâmina de barbear;
3- Xerox em vez de cópia ou fotocópia.

Tinha uma época em que as mulheres preferiam chamar o absorvente de Modess, que é uma marca registrada.

Essa “confusão” representa o valor agregado ao produto. É um resultado de um trabalho bem feito de posicionamento da marca. Está ligada à credibilidade do produto junto ao consumidor.

Existem, porém, casos de marcas que desapareceram do mercado. E outras que nunca conseguiram se firmar. Motivo: ao adquirir o produto, o consumidor ficou insatisfeito. Quando isso ocorre é muito difícil mudar a opinião de quem está pagando.

Um caso clássico no Brasil é o da CCE. Os eletrodomésticos sempre davam (não sei se ainda dão) problema. Criaram até uma definição para CCE (Começou Comprando Errado). Hoje, os produtos são os mais baratos do mercado. Mas ninguém confia.

Fiz toda essa (grande) introdução - que ficou parecendo uma aula de marketing - para mostrar os fatores que podem influenciar a credibilidade de uma marca.

Há algumas semanas uma empresa brasileira teve sua imagem (marca) arranhada. Mas não foi por nenhum dos fatores que apresentei. Foi por causa do escândalo da compra do dossiê contra o tucano José Serra. Esse case não está descrito em nenhum livro

Abre parênteses
(eu disse case só para ficar mais charmoso. Já observou como os marqueteiros adoram enfeitar o vocabulário. É case, briefing, share, target. Só para impressionar o cliente.)
Fecha!

Sim, mas a marca prejudicada é a Lorenzetti, empresa de chuveiros elétricos. Tudo por causa do sobrenome do churrasqueiro de Lula acusado de participar da compra do dossiê, Jorge Lorenzetti.

A empresa que está há mais de 80 anos no Brasil tem credibilidade. Contudo, viu seu nome associado ao de alguém envolvido num escândalo.

A preocupação com essa ligação é tão grande que a empresa distribuiu o seguinte comunicado à imprensa:


“Durante a última semana temos observado diversas associações do nome do sr. Jorge Lorenzetti, suposto integrante do esquema de compra de dossiê, com a Lorenzetti S.A, tradicional empresa brasileira que há mais de 80 anos contribui para o desenvolvimento do País, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. Gostaria de esclarecer que esse senhor não tem nenhum vínculo de parentesco familiar, pessoal ou profissional com esta empresa e seus acionistas. Infelizmente, trata-se de um homônimo. Ao longo de sua história, a Lorenzetti construiu uma imagem de ética, pela qualidade de seus produtos e pelo respeito aos seus consumidores.

EDUARDO JOSÉ COLI, vice-presidente-executivo da Lorenzetti S.A.
São Paulo”


Não sei se vai dar certo. Mas pelo que entendo de marketing essa era a única coisa que a empresa podia fazer.

*Jornalista com especialização em marketing pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)

11 outubro 2006

"Aspas" que nasce torta...

Pedro Henrique Freire

Reposta 1
“...O que nada impede de eu ir pra rua, fazer minhas campanhas e tudo, né? O que eu não quero, porque meu eleitorado não vai entender... como é que, né não? Você vai para uma campanha, dá o sangue, né? E depois você tá no mesmo..., né? Ele não vai entender”

Resposta 2
“O próprio Alckmin me ligou, me pediu... e tudo. Gente, eu preciso... vem cá... O meu eleitorado vai votar no Alckmin. (...) Tem coisa que você... num é? Política não é assim: acabou, acabou tudo. Não é assim. Fica mágoas. Eles sofreram muito...”

Os dois trechos acima são resultado de uma entrevista corriqueira com um político de Brasília. Nesse caso, as perguntas soam diretas. Mas as respostas... Nada aí em cima foi modificado. Os dois parágrafos são partes diferentes de uma mesma entrevista. Percebe-se, portanto, a dificuldade de articulação da fonte.

Jornalisticamente, o motivo de essas respostas estarem transcritas aí é o seguinte: o que você, jornalista, faria para amarrar essas idéias? Tratando-se de uma fonte importante, não seria possível, simplesmente, pegar as informações e abster as “aspas”. E mais: você também não poderia modificar o que a pessoa falou para adequar a seu texto. O que fazer?

Sinuca de bico
Estava em apuros. No popular, numa “sinuca de bico”. Quando peguei essas declarações e sentei na frente do computador para escrever, coloquei no discurso indireto quase tudo e pincelei as aspas com aquilo que considerava “comentários-chave”. Empobreceu o texto, mas resolveu. (Fiz a escolha certa?)

Ainda assim, quando a matéria estava sendo editada, fui chamado pela chefia. “Pedro, o que quiseram dizer com isso?”. Expliquei o que minha fonte estava querendo dizer e acrescentei. “Com ela é complicado arranjar uma “aspas” que preste. Ela nunca completa um pensamento e fala tudo atravessado”, disse.

A superior concordou, mas insistiu que pensássemos em outra forma para aquela declaração: mais simples e fácil de entender. No começo falei que não mudei porque não costumava mexer em frases de gente importante (apesar de ter colocado uns elementos de ligação entre parênteses para ficar melhor).

Resolvemos, então, inverter a ordem das duas frases. Não acrescentamos palavras. Mas demos um “trato” naquele pensamento, até então, meio “torto”. Foi modificado, mas ficou, de fato, melhor.

Depois de tudo, veio a dúvida: aspas que nasce torta, se endireita? Até que ponto é ético mudar declarações, digamos, desajeitadas?

04 outubro 2006

Os esquerdistas estão chegando

Por Daniel Brito

Eu teu uma ligeira impressão que os jornalistas são esquerdistas. Muito dessa minha idéia se deve à história recente do país, quando os jornalistas lutaram contra os direitistas entre 1964 a 1985.

Desde que os esquerdistas do PT assumiram o governo, essa história de jornalista de esquerda foi esquecida. Poucos são os jornalistas que NÃO deram porrada em Lula. Acho até que o próprio presidente se surpreendeu com a relação que mantém com a imprensa.

Hoje não, porque ele já deve estar vacinado, mas nos primeiros anos de governo ele deve ter se sentido traído pelos jornalistas. Sim, porque o PT era o grande municiador de denúncias durante o governo FHC aos repórteres de política.

José Dirceu, José Genoíno, o próprio Antoni Palocci tinham seus jornalistas preferidos. Atualmente, não sei se eles ainda têm a mesma consideração. Foram tantos os desmandos e a arrogância das petistas no primeiro escalão do governo federal que a relação com a imprensa azedou.

Em uma enquete feita pela Revista Imprensa no mês passado, as grandes redações do país votam em Geraldo Alckmin.

Diante da possibilidade de os políticos de centro-direita (PSDB) assumirem o governo mais uma vez, os próprios jornalistas estão aliviando um pouco a barra de Lula e dos seus correligionários. Não que alguém esteja trocando de lado e deixando de dar porrada no governo, mas as opiniões favoráveis começam a aparecer.

Eu havia separado algumas aspas de artigos na Folha de S. Paulo, no Globo e no Correio Braziliense, mas apaguei o email que continha esses trechos e não consigo encontrar mais. Anyway, preste mais atenção ao noticiário político nacional.

Os esquerdistas estão reaparecendo. Não porque querem, mas porque é quase que uma obrigação evitar com que o grupo político que esteve ligado aos militares retorne ao poder após 21 anos de abertura.

02 outubro 2006

Por onde começar ?

Léo Alves

A reportagem investigativa é o que se pode chamar do grande “sonho de consumo” de boa parte dos jornalistas. É ela (a reportagem) que, na maioria das vezes, dá visibilidade ao profissional. Afinal a informação é exclusiva.

Mas conseguir furos tem seus riscos. Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, que o diga. O jornalista teve sua morte tramada pelos sanguessugas.

Toda investigação parte de uma denúncia. E as denúncias só chegam a nós jornalistas pelas mãos de alguém que está insatisfeito com o denunciado. Os políticos são mestres em ferrar os adversários. Entregam documentos e indicam o caminho que deve ser seguido para se chegar a fraude. Depois pedem sigilo de fonte.

A primeira impressão é de que você está sendo usado. Pode até ser. Mas se existe fraude tem que ser denunciada. É a nossa função. Independente da fonte.

Pois bem. Nos últimos meses “caíram” em minhas mãos documentos que são indícios fortes de fraudes em dois setores. Pelo que consegui analisar até agora são pontas de dois icebergs.

O meu grande dilema é saber por onde começar a investigação.

A primeira denúncia é na área esportiva. Os documentos foram entregues por um cara que está puto da vida com um dos possíveis envolvidos. O detalhe é que o envolvido conta com a ajuda de um (ou mais) funcionário de um órgão federal.

O problema está justamente aí. Não tenho como ligar para a sede do órgão porque corro o risco de falar com um dos envolvidos, que certamente desconfiarão do meu interesse pelo assunto.

Nesse caso vou precisar da ajuda dos amigos candagos, Pedro Henrique e Daniel Brito, para checar algumas informações na sede do órgão em Brasília. Com isso pretendo evitar que os “meninos sabidos” daqui fiquem alertas.

O outro caso envolve uma prefeitura paraibana. Preciso apenas de um pouco de paciência para analisar o site do Tribunal de Contas do Estado (TCE). É só cruzar os dados que o resto do iceberg da fraude aparece.

Como na Paraíba vamos ter segundo turno para governador o momento é delicado. É difícil publicar algum tipo de denúncia.

Nesse período de campanha vou aproveitar para colher mais dados, fundamentar melhor a matéria.

Confesso que o maior dilema está em não saber se terei espaço para publicar a reportagem. Independente do que possa acontecer farei minha parte. Isso me deixará mais tranqüilo. Porém, não menos frustrado.

29 setembro 2006

Sobre a verdade...

Pedro Henrique Freire

Enquanto eu lia o novo livro o teólogo-militante-socialista Frei Betto, A Mosca Azul, escutava o Jornal da Globo escarrar notícias sobre a crise do governo Lula. No livro, Betto falava dos cinco F´s do brasileiro: fé, festa, futebol, feijão e farinha. Contava que, nos quatro anos que esteve na prisão, resolveu escrever para parentes e amigos. Suas cartas, tempos mais tarde, viraram livro.

Enquanto isso, o Jornal da Globo apontava os “chegados” do Lula metidos em falcatruas das mais “brabas”. Comecei a refletir sobre o registro dos dois momentos: o da prisão (lá nos tempos idos) e a crise política atual. Em todos os períodos existiam pessoas dispostas a registrar aquilo que acontece no momento em questão. É o papel da imprensa. Frei Betto comentou a história do Brasil da prisão (já que a ditadura não permitia que ele o fizesse fora dela). Nós, jornalistas, escrevemos de fora para dentro.

Não estamos metidos em nada daquilo. Temos um olhar crítico e isento sobre a prisão que sufoca os políticos e os faz decair moralmente. Estamos escrevendo a história, falando a verdade.

Talvez não percebamos, mas o que ocorre hoje pode ter um significado definitivo na formação dos nossos filhos e netos. Eles irão aprender na escola quem é o Lula e seus comparsas. Enquanto tudo isso não passa, vamos registrando, apurando, discutindo, criticando, escrevendo.

Estamos numa posição privilegiada.

O pior é quando registramos tudo de dentro para fora. Dou um exemplo clássico: Maranhão. No momento, o registro político não existe por lá. Explico o motivo:

Os dois principais jornais, concorrentes naturais, defendem grupos políticos opostos. Quando um diz uma coisa o outro publica outra totalmente diferente. É como se eu dissesse: Roseana Sarney lidera as pesquisas de intenção de voto. No outro dia, o concorrente diz que nada daquilo é verdade. São duas versões absurdamente diferentes para a mesma história.

Eu pergunto: qual o registro histórico teremos? Nenhum. Qual a importância do leitor numa circunstância como essa? Nenhuma. Que responsabilidade ética tem o jornalista que faz isso? Nenhuma. Daqui a 10 anos, se resolver consultar os jornais para saber como estava a política do estado, não saberemos o que é verdade ou mentira. Isso é um boicote à necessidade de informação do povo.

É esse o mal de enxergar a notícia de dentro, de se envolver muito com ela. Somos automaticamente influenciados.

Depois que apanhou muito da ditadura, Frei Betto, que não é jornalista, registrou os horrores das inconseqüentes atitudes de milicos irresponsáveis. Foi influenciado por isso. Mas ele não tinha responsabilidade nenhuma com o grande publico: escreveu para parentes e amigos.

Os jornalistas não. Temos a responsabilidade com o envolvimento e a construção crítica de nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. Podemos dar-lhes, aos poucos, uma visão diferenciada de qualquer coisa.

Só assim, conseguiremos que a filosofia da maioria do povo brasileiro não continue como a do final dos anos 60: feita de fé, festa, futebol, feijão e farinha.

27 setembro 2006

Um artigo (aparentemente) Lulista

Por Daniel Brito

Muito da revolta da população com Lula se deve ao trabalho da imprensa. Não tô aqui querendo culpar meus companheiros de trabalho pelas denúncias diárias de corrupção, nem defender Lula. É apenas uma constatação.

Roubalheira, desmandos e gastos desordenados sempre existiram no Brasil. Antes mesmo de o Brasil se chamar Brasil já existia corrupção aqui. Senão, vejamos:

1 - Pero Vaz de Caminha, o camarada responsável pela primeira carta escrita no Brasil para Portugal, disse que a expedição de Cabral fora maravilhosa, que a Terra de Vera Cruz era o melhor lugar do mundo. Lá no final da carta, Vaz de CAminha pediu ao Rei de Portugal, um emprego para um parente.

Tá, tudo bem, não é corrupção. Mas já é o primeiro indício do nascimento do jogo-do-poder na maior colônia portuguesa.

2 - Quando fundou as tais capitanias hereditárias, o rei português mandou para o Brasil um político afastado da vida pública de Portugal, por ter desviado verba de uma obra.

3 - D. João VI veio para o Brasil já no Século XVII fugindo de Deus e o Diabo na Europa, sob a orientação dos ingleses. Em troca, ofereceu todo tipo de benefício a eles (ingleses): não pagavam impostos, não precisavam cumprir as leis vigentes na época para os colonos e assim por diante. Joãozinho encheu o saco do Brasil, voltou para Portugal, mais uma vez debaixo das asas dos britânicos e deixou o pobre do filho aqui tendo que obedecer as regras dos ingleses e forçado a declarar Independência do país.

Grande Independência!!!

Esse breve relato da história política dos três primeiros séculos de vida do Brasil são meramente ilustrativos.

Porque o que eu quero mostrar é que se você NÃO vai votar em Lula por roubo, corrupção ou qualquer outra coisa parecida, pode arrumar outra desculpa. Isso vai haver em qualquer governo.

Nosso Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Quer coisa pior do que deixar o país às escuras porque privilegiou a emenda da reeleição no congresso e esqueceu-se que poderia haver uma crise de energia???

Todas as denúncias contra FHC foram engavetadas por um camarada chamado Geraldo Brindeiro, Procurador Geral da República. Por que não houve tantas CPIs no governo do PSDB? Porque eles souberam manejar melhor o congresso do que os petistas.

A Folha de São Paulo fez uma matéria no início desta campanha eleitoral mostrando que Geraldo Alckmin barrou mais de 70 CPIs enquanto governador de São Paulo. Como se barra essas comissões?

Pergunte aos deputados que votaram contra elas.
Ou peça para um deles mostrar a conta bancária.

Com deputados satisfeitos, não existem denúncias à imprensa. Taí Roberto Jefferson para comprovar.

Sem denúncias, não há CPIs, rigth?

É o que eu, humildemente, acho.

Portanto, se você quer um motivo para NÃO votar em Lula, arrume outro, porque corrupção é desculpa antiga.

Eu, por exemplo, não votarei em Lula porque depois de tantas denúncias, acredito que ele não tenha mais ninguém de confiança solto para montar um governo.

É isso...

25 setembro 2006

Repórter Super-sincero

Por Daniel Brito

Quando estou sem absolutamente nada para fazer, me pergunto o que eu faria se estivesse cara-a-cara com alguma figura polêmica e tivesse que entrevistá-la. Por exemplo, Suzane Von Richtofen (é a primeira pessoa que me veio à cabeça agora).

Até desenhei uma cena na minha mente .

No meio da entrevista, eu tô lá, ouvindo aquelas justificativas e começo a desabafar:

- Sua p*ta, vagab*nda. Não tem medo de morrer não????

Ela abriria os olhos, assustado com minha reação e começaria a chorar. Ou, quem sabe, falaria coisas que nem um repórter conseguiu arrancar dela. Acho que todas as pessoas do planeta têm vontade de fazer ou falar algo parecido para ela.

É impossível isso acontecer, realmente. Mas que dá vontade, isso dá...

Tem o caso da jogadora de vôlei Mari. Foi ela quem errou a bola que tirou o Brasil da final dos Jogos Olímpicos de Atenas, há dois anos, contra a Rússia. De repente, tô levando aquela entrevista monótona com ela e aumento o tom:

- Oh, Mari, vem cá, que p*rra foi aquela no jogo contra a Rússia em Atenas?, grito, jogando o bloquinho de anotações no chão e cruzando os braços com cara de indignado.

Não quero imaginar o resto desta entrevista.

Costumo dizer que o legal de trabalhar em esportes é que, durante o plantão de final de semana, você vai a lugares que já iria se estivesse de folga. Tipo jogo de futebol. E mais: ainda pode falar com os protagonistas da história.

Só não pode ser super-sincero.

Como eu quis ser com o velejador Robert Scheidt. Sete vezes campeão mundial da classe laser, a categoria iniciante na vela, ele já meu deu uns dois foras em entrevistas. No início de setembro, levei o terceiro.

Ele participava de um campeonato em Brasília e tinha a missão de fazer um perfil dele. Aquela conversa furada:

Nome
peso
altura
idade
time de futebol
hobby
ídolo
livro
filme

Ah, aquelas baboseiras dos cadernos de TV.

Anyway, fui fazer com um pé atrás. Ao meu lado estava o professor Fernando Millani, que passava alguns dias no DF e me acompanhou em um dia de pauta.

Veja o diálogo:

- Robert, posso fazer umas perguntinhas para publicar um perfil teu no Correio Braziliense de amanhã?
- É um minutinho só?, disse andando apressado e dois passos à minha frente.
- Um minutinho. Momento mais marcante na carreira?
- Minhas vitórias...
- Momento mais difícil?
- As derrotas.
- O que você imagina que estará fazendo daqui cinco anos?
- Velejando.
- Qual é o seu segundo esporte?
- ... Tênis (ja de cara fechada).
- Quando você nào está velejando, o que você gosta de fazer (uma outra maneira de perguntar: hobby?)
- ... Cara... Faz o seguinte: liga para a minha assessoria que eles já tem todas essas respostas lá.

Bom, não precisa dizer que fiquei com a cara mexendo na frente dele, sem reação.

E você, o que faria se estivesse no meu lugar:

1) Ficaria com a cara mexendo igual a mim e sem resposta
2) Encarnaria o super-sincero???

22 setembro 2006

Ligações partidárias

Por Léo Alves

Não tem como escapar. Nesta época, para onde se vira o assunto é política.

Jornais
rádios
tevês
sites
revistas estão cheios de assuntos relacionados aos candidatos.

A maioria é denúncia de corrupção.

Superfaturamento de obras, dossiês, compra de votos, sanguessugas, confraria. Vou parando por aqui porque a lista é grande.

Confesso que nunca vi (talvez antes não tenha prestado atenção) tanta sujeira num período eleitoral. Não me refiro ao contexto nacional, mas ao estadual. Os dois principais candidatos ao governo da Paraíba, Cássio Cunha Lima e José Maranhão, travam uma batalha de acusações.

Para isso, é claro, precisam da imprensa.

No período eleitoral, o veículo de comunicação não tem como esconder a que grupo político está atrelado. Pode até tentar disfarçar, mas o povo não é tão burro assim. O pior é que, quando se perde o equilíbrio, o veículo acaba servindo de escudo para o candidato que está apoiando. Entra numa briga política que não é sua. Pelo menos não deveria ser.

Prova dessa briga são as pesquisas eleitorais. A cada semana um grupo de comunicação divulga os números. Os dois principais candidatos se alternam na liderança, dependendo onde ela foi divulgada.

A divulgação só faz confundir ainda mais a cabeça do eleitor. Quem está com a razão?

Talvez os dois!
Ou nenhum!!!

A verdade é que os próprios institutos de pesquisa estão desgastados. Certo candidato disse em uma reunião com os correligionários que o “instituto X” vende pesquisa como quem vende ventilador. O interessante é que na eleição passada, o candidato havia usado o serviço do tal instituto.

Os candidatos também buscam apoio em publicações em revistas nacionais. É estratégico. Dá mais credibilidade à campanha mostrar que a revista tal publicou uma matéria contra o candidato adversário. Há duas ou três semanas, a revista Isto É publicou uma matéria contra o candidato ao Senado pela Paraíba, Cícero Lucena.

“Coincidentemente”, a Veja trouxe uma matéria contra Ney Suassuna. Precisa dizer mais alguma coisa?

Cada vez mais a imprensa perde a credibilidade. Segue o caminho dos políticos. Boa parte da população não acredita mais neles.

É quase impossível encontrar um que não esteja envolvido em falcatrua.

Político é político. Não há como dissociá-lo da corrupção. Como disse o ator Paulo Betti

“é impossível fazer política sem sujar as mãos”.

Para mim só existem dois tipos de políticos: o que rouba e o que rouba mais ainda. Ou melhor, o que se apropria do dinheiro público indevidamente e o que se apropria ainda mais.

Isso porque político não rouba. É “apenas” corrupto.

E pensar que no próximo dia 1º de outubro seremos obrigados a digitar pelo menos 21 teclas na urna eletrônica para colocar (ou recolocar) esses corruptos no poder.

19 setembro 2006

Um romance...

Por Pedro Henrique Freire

Quando comecei na faculdade, escrevia pouco. Não trabalhava. Portanto, não tinha pautas para apurar e escrever. Mas logo no primeiro ano de curso comecei a trabalhar em redação – no Maranhão – e senti na pele o que era ter que escrever todos os dias. Era comum eu chegar na redação e falar de lado: “Pô, hoje eu estou sem inspiração”.

Inspiração, pra mim, na época, era a certeza de um bom texto. Era a certeza que iria tirar das profundezas da minha mente as palavras ideais para um bom texto – aquelas que eu estava longe de usar no dia-a-dia.

Lembro que comentei isso até com um escritor maranhense que entrevistei para um trabalho da faculdade. Não me recordo o nome dele. Sei que perguntei: “O senhor escreve todos os dias?”. Ele disse que sim e eu emendei: “Mas o senhor escreve bem todos os dias?”. Ele me disse que não, mas que escrever era sua profissão, então não tinha tempo ruim, tinha que escrever.

Mesmo assim, era comum duas semanas depois ele jogar fora o que tinha produzido e começar de novo.

Foi quando caí na real que, na nossa profissão, não importa como você esteja, você tem que escrever e não pode ser de qualquer jeito: as pessoas precisam entender sua mensagem. E é pra já! Clareza, precisão e simplicidade. É tudo que devemos ter na hora de sentar a bunda na frente do computador e mexer os dedos para mandar algum recado. Isso, amigos jornalistas, requer uma concentração “filha-da-pauta”... literalmente.

É dela – da pauta – que surge toda a inspiração do jornalista. Quando você acorda, toma banho, e pensa que, quando chegar ao trabalho, a primeira coisa que fará é procurá-la. E, partir daquele momento, ela irá guiar seu dia. Tudo que ela quiser, você fará. Ela é a musa, dona da inspiração, chefe do seu dia (às vezes da noite). Por isso, é fácil amá-la e odiá-la, tudo ao mesmo tempo.

Continuando essa metáfora em clima romântico, me arrisco a dizer que o casamento entre jornalista e pauta não é perfeito, mas é um ótimo processo reprodutivo. Quando você apura a pauta, é fácil pensar logo em outra. Bingo! Está ai o fruto do casamento entre você, jornalista, e sua pauta. É assim que o jornalismo se renova.

Nos últimos dias, estou longe de ter grandes sacadas para os textos que escrevo. Está me faltando um pouco de concentração. Percebo que estou de mal com a pauta. Ela vem, me inspira, eu a admiro, mas por não pretender viver um grande romance com ela, acabo saindo de fininho, pegando o caminho mais fácil e escrevendo uma matéria “feijão com arroz”.

Pauta é o alicerce do jornalismo. Sem ela, nada funciona. Por isso, pense nela com carinho, sempre “discutindo a relação” e a melhor forma de deixá-la em perfeita sintonia com você. Afinal, ela irá lhe acompanhar pelo resto da vida. Quanto a mim, é nessas horas que gostaria de ser escritor e ter a possibilidade de escrever mal os dias que não encontro o amor pela pauta. Mas não posso. Escrever é minha profissão.

11 setembro 2006

Eu (também) tenho que pagar a hipoteca

Por Daniel Brito

Imagino como deve ser a vida dos jornalistas comunistas ou esquerdistas nos Estados Unidos. Pensam uma coisa e passam outra todos os dias nas matérias que escrevem. Dia desses, li que o Miami Herald bancava jornalistas "espiões" em Cuba para contar os podres da ilha.

Eles viviam escondidos no meio dos cubanos, alguns eram até cubanos. E o jornal detonava o regime de Fidel. Imagino que alguns deviam ter a mesma inclinação política do "ditador", mas, para sobreviver, entregavam tudo.

Como foi muito bem dito no filme "Obrigado por fumar", a frase que mais se encaixa em situações como esta é a seguinte:

- Tenho que pagar minha hipoteca

O protagonista é o Relações Públicas da indústria do tabaco nos Estados Unidos e participa de programas de auditório, entrevistas, debates sobre o uso do cigarro. Tem sempre uma pancada de gente reunida para falar mal do cigarro e ele TEM que falar bem.

Ele tem a OBRIGAÇÃO de defender o cigarro. Ficou famoso nos EUA fazendo isso, de acordo com o filme (que não história real). Ela (a história), inclusive, deixa a entender que ele fuma, apesar de não mostrá-lo tragando.

Até que uma jornalista do Washington Post o pergunta em um jantar:

- Por que você defende o cigarro?
- Tenho que pagar minha hipoteca, responde, desligando o gravador da bonita repórter.

Tem um outro lance sobre essa frase no filme, mas não vou contar para não fazer como minha namorada fez comigo. Me contou e, quando fui ver, não achei graça nenhuma.

Mas o nosso protagonista de "Obrigado por fumar" emendou a seguinte frase ainda neste jantar da entrevista para o WP:

- Noventa e nove por cento das pessoas do planeta trabalham, para o bem ou para o mal, para pagar a hipoteca.

Acho que neste ano não ouvi frase tão perfeita para o momento que vivo como esta.

Nunca tive ideologias.
Nunca fui defensor de fracos e oprimidos.
Sempre achei que tinha que trabalhar porque todos os 6 bilhões de habitantes do planeta têm que ter alguma ocupação.

De uns tempos para cá vinha pensando na minha profissão não apenas como maneira de subexistir, recebendo o salário todo mês, fazendo oito ou nove textos por semana... Mas como um conjunto de idéias que não precisa se preocupar com as necessidades econômicas ou até mesmo materilistas tanto minhas quanto da empresa em que trabalho.

Confesso que demorei para pensar desta maneira. Geralmente, essa ideologia vem nos primeiros anos de faculdade, quando se tem a nítida impressão que é possível mudar o mundo. Nos meus tempos de estudante (não foi há tanto tempo assim), condenava quem tinha essa idéia na cabeça.

Claro, sempre soube que todas as empresas têm interesses. Mas, pelo contexto em que estou inserido hoje (bem maior do que quando era um estudante na UEPB), observei o jornalismo de uma maneira muito mais decisiva.

Até a semana passada, quando descobri que o contexto em que eu estou inserido nada mais é que uma falsa realidade.

Levei um choque da realidade e entendi que o meu contexto é puramente comercial e capitalista (redundância??). Eu penso de uma maneira e terei que escrever de outra. Sou um objeto, praticamente.

Como já aconteceu com:
os cubanos do Miami Herald;
com os jornalistas brasileiros na época da ditadura (não tô me incluindo em uma ditadura, hein!?!?!?!)...

Vou até mais longe:
com os professores de universidades particulares;
com os juízes de direito comprometidos com organizações criminosas...

É essa a realidade.

Afinal, todos temos que pagar a hipoteca!!!

03 setembro 2006

Quem lê política na internet???

Por Pedro Henrique Freire

Quem é jornalista, escreve e quer ser lido. Claro, todos nós queremos.

Mas nem sempre é assim.

Em época de eleição, o medidor que indica o "ibope" dessa ou daquela matéria parece estar mais aguçado. O resultado é o seguinte: a gente escreve, escreve, escreve e parece que meia-dúzia-de-gatos-pingados leram o que nos esforçamos para colocar na TV, no papel ou na Internet.

O feed back é quase zero.

Quer sentir isso nas ruas? É só sair perguntando para quem aparecer pela frente sobre as últimas novidades de política. Aquelas com menor grau de formação – que deveriam ser vítimas das propagandas eleitorais ou jornais da TV – são as mais desinformadas.

Um outro dia perguntei a empregada daqui de casa:

- Em quem você votará para governador (do DF)?
- Heloísa Helena, respondeu ela.
- Mas ela é candidata a presidente, corrigi.
- Ah, é? Então eu vou votar no (Joaquim) Roriz.
- Tá, mas Roriz é ex-governador. Agora ele é candidato a senador.

Ela não soube dizer em quem iria votar porque não conhecia os candidatos. Quando disse um a um quem são os concorrentes ao Governo do Distrito Federal, as coisas começaram a clarear e ela soube dar sua preferência.

A reflexão que fiz foi a seguinte: as pessoas até conhecem alguns candidatos, a biografia, as coisas boas (ou ruins) que eles tenham feito. Mas só sabem de ouvir fulano ou sicrano comentar. Os meios de comunicação, para este caso, passam longe dos ouvidos e olhos do povo pobre.

É uma pena.

Agora você imagina a Internet, um veículo com pouca penetração em massa?

Por isso, as vezes acabo achando que não escrevo para ninguém. As minhas matérias, por exemplo, só ouvi comentários dos próprios jornalistas. Nessas eleições, ainda não senti orgulho de ver uma informação dada por mim modificando a vida de alguém. Mesmo trabalhando num site com 40 milhões de acessos únicos por mês, o retorno do público ainda é raso demais, embora tantas coisas polêmicas sejam publicadas.

O que devo fazer?

O melhor é continuar escrevendo na esperança que estou sendo lido.

Engavetadores gerais
Hoje, os jornais padecem de um enorme mal: o engavetamento. Dentro da ordem de preferência da alta cúpula da empresa, estão os anunciantes e, só depois, os leitores. Por isso, muitas matérias de política são engavetadas ou tiradas do ar numa decisão unilateral com o único objetivo de proteger esse ou aquele grande anunciante. Em época de eleição, o que já não era lido, aí que não será mesmo. Simplesmente por não ter sido publicado.

Ricardo Noblat diz:

"Hoje, os jornais ganham mais pelo que não publicam do que pelo que publicam".

Apesar de achá-lo um jornalista irresponsável, nascido para escrever em blogs – espaço onde poderá publicar somente o que bem entender – considero o comentário certíssimo.

Mesmo em época de eleição, quando todos deveriam abolir a censura para proteger o povo dos políticos corruptos, os jornais não estão nem aí para o leitor. Querendo ou não, o resultado é o seguinte: o leitor também não está nem ai para os jornais.

31 agosto 2006

Escrever e blogar é só começar

Tiago Cordeiro
*Texto publicado no site Comunique-se (
www.comuniquese.com.br)

Escrever um diário, encarnar um personagem ou simplesmente redigir suas primeiras matérias.

Em plena era digital, ser jornalista e não ser blogueiro é quase como ser brasileiro e não curtir futebol. Logo, você percebe que está em número cada vez menor. Atraídos pelas facilidades em se fazer um blog, vários profissionais da mídia aderem ao veículo. Alguns minutos para efetuar um cadastro e está lá: seu texto, imagem ou o que for está visível para o mundo inteiro.

E hoje é o seu dia, caro blogueiro, o Dia Mundial do Blog! A comunidade blogueira mundial lançou um blog que promoveu a data. O motivo de ser hoje é porque 3108 é o número que mais se aproxima do termo “blog”.

Há três anos, o Comunique-se lançou o Blog-se, o blog dos jornalistas e usuários do portal. Focas, repórteres da velha guarda e todos os tipos de profissionais da área escrevem nesse meio. No mês passado, o cartunista e jornalista Miguel Paiva se tornou o mais novo usuário da ferramenta.

“Tenho esse senso de observação e de reflexão muito forte por causa do meu trabalho. E, por isso mesmo, sinto uma imensa necessidade de me comunicar de outras formas. Quando o blog surgiu e foi todo esse sucesso, comecei a querer usar essa ferramenta”, afirmou Paiva ao Comunique-se quando seu blog foi lançado. O artista mostrou uma faceta menos conhecida de suas habilidades: as crônicas que dividem espaço com tiras e comentários dos personagens Radical Chic e Gatão de Meia Idade.

Comentários de personagens? Essa é apenas mais uma das liberdades que o Blog permite. Se muitos repórteres usam para extravasar aquela oculta verve literária, outros usam para trabalhar ainda mais.

“Não consigo ver um blog como um diário, sem conteúdo noticioso ou informativo”, afirma a jornalista Cristina Dissat. A blogueira criou o Fim de Jogo em 2004, um blog-se que cobre o que acontece depois dos finais de jogos no Maracanã. “Brinco de trabalhar e faço isso com a maior satisfação. Sinto que estou prestando um serviço. Fico angustiada quando estou fora a trabalho e não consigo acompanhar algum jogo, mas isso é inevitável”. A repórter já estuda alguma parceria para resolver a rotina intensa de trabalho.

“Os blogueiros são também excelentes leitores. A blogosfera, aí esta o nome da coisa, é muito útil para quem atua em Comunicação Social. E os blogs em linguagem jornalística são muito capazes. Já têm muita influência”, afirma Thomaz Magalhães, dono do Trem Azul, o blog mais acessado do Comunique-se.

E para você que ainda não tem um blog, basta se cadastrar e acessar a seção Blog-se. Encerrando a homenagem aos blogs segue uma lista dos cinco blogs mais acessados do Comunique-se:
1-Trem Azul: Blog com opiniões sobre cultura e política - “Bastante política”, afirma seu blogueiro – do jornalista Thomaz Magalhães. “Vou deixar de ser jornalista para ser só blogueiro e escritor”, afirma.

2-Papo de Mídia: Eduardo César é criador do site Papo de Bola e quis criar uma seção que falasse da imprensa esportiva. Em 2004, lançou o Papo de Mídia no Blog-se. O blogueiro ainda não fez a faculdade de jornalismo, mas isso, segundo ele, é questão de tempo. “Para muita gente, já sou jornalista, mas a verdade é que ainda não o sou. Ainda não comecei a faculdade de Jornalismo, mas quero fazê-la sim, para entrar no mercado pela porta da frente”.

3- São Paulo 451 Anos: Do jornalista Gaspar Bissolotti Neto. Essa semana, o blogueiro publicou vários posts para denunciar uma mobilização que incomodou sua rua, a "Manifesta Vila Mariana". “Os moradores da redondeza passaram a tarde toda reclamando. Esperamos que isso não volte a acontecer”, publicou.

4-Patolino: Sem grasnar, mas com muita objetividade, Eduardo Sander escreve notas com até três linhas com sua opinião sobre política e outros assuntos. O jornalista graduado pela Facha também dá espaço para falar de filmes e outros assuntos culturais. “Estou fora de uma Redação desde 2001, e não queria perder 'visibilidade' frente aos colegas que estão no mercado”.

5-Tudo Sobre Ivy: “A partir da necessidade de querer compartilhar minhas idiossincrasias para descobrir pessoas que se identificassem ou simplesmente se divertissem com as minhas observações”, revela a redatora publicitária Ivy Dias de Campos. Ela considera seu trabalho e sua atividade blogueira como “referências recíprocas” e descreve seu blog como uma válvula de escape.

28 agosto 2006

Mero repassador de informações

Por Daniel Brito

Entre os repórteres de jornal e rádio (e agora também internet) existe um estigma de que os companheiros de profissão que trabalham em televisão são os menos esclarecidos da classe.

Opa!

Não quero ofender minha eterna chefe Neide Nascimento, que lê este blog; meus saudosos companheiros de TV Borborema; meu grande amigo, Da Silva, produtor da TV Paraíba/Globo, em Campina Grande (PB), e os demais repórteres de TV que, por acidente, venham a ler este texto. O que vou escrever agora não acontece por culpa deles.

Já fui repórter de TV e posso voltar a ser a qualquer momento da minha carreira. (Basta um convite...)

Já percebeu que (quase) tudo que é exibido no telejornal à noite você já leu de manhã cedo no jornal impresso?

Repórter de televisão acabou se transformando em um repassador de informações. Geralmente, a redação de uma TV de médio a pequeno porte é composta pelo editor-chefe, três ou quatro produtores e dois ou três repórteres por turno. Ao todo, são 15 a 20 jornalistas.

Os produtores fazem toda a apuração da história e repassam tudo mastigadíssimo para os repórteres. Eles vão ao local, fazem as perguntas recomendandas na pauta, pedem esta ou aquela imagem ao cinegrafista, grava uma passagem que explique alguma coisa que NÃO está nas imagens e corre para outra pauta.

Ao final do dia, escreve três textos sobre histórias diferentes e corre para a TV para gravá-los o mais rápido possível.

Eu mesmo já fiz seis pautas em um único dia. Assassinato, entrega de casa populares por políticos, futebol, doação de sangue para o hemocentro, recadastramento de CPF e greve de professores.

Detalhe: todas as pautas já haviam sido destacados do jornal impresso, de manhã. É difícil criar especialistas em televisão. Os únicos especilistas que existem são os apresentadores, sempre metidos a estrela maior que a própria informação que ele repassa.

Neste dia citado acima, por exemplo, eu tive que tirar dúvidas com um repórter de jornal que cobre economia sobre a greve, um de política sobre as casas entregues pelo prefeito. Só não precisei conversar com especialistas em futebol...

Pelo tanto de trabalho que têm, o repórter de TV nem tem tempo para se dedicar a alguma área específica. Em emissoras de médio e pequeno portes, sobre quem estou falando aqui, existem casos isolados de repórter policial ou de esportes. Mas, como eu disse, são isolados.

Nem todo mundo quer fazer polícia.
Não é todo mundo que quer fazer esporte.

Já perceberam que poucas emissoras exibem reportagens exclusivas?

Exatamente por causa disso tudo.

Eu defendo esta tese: tudo bem, os repórteres têm que fazer todas essas matérias, mas os produtores tinham que ser setorizados.

Fulano fica só na parte policial e de olho no diário oficial da Justiça.
Sicrano é o responsável pelas companhias de serviço público: água, luz, telefone...
Beltrano faz a parte do governo.

Assim, os telejornais não repetiriam as informações dos jornais impressos, poderiam fazer alguma coisa de diferente e, por fim, inverteriam a ordem atual e passar a pautar os jornais impressos.

24 agosto 2006

Repórter-torcedor

Léo Alves*

Uma das primeiras lições que aprendi quando me atrevi a seguir o jornalismo esportivo foi que não deveria torcer por nenhum time. Impossível para mim ou para qualquer outra pessoa que goste de esportes, principalmente de futebol.

Todos já fomos crianças um dia.

Como qualquer criança tivemos o nosso time do coração. Na verdade a lição ensinava que eu não deveria levar a paixão de infância para a profissão. Sinceramente não sabia como faria aquilo.

O dilema foi facilmente resolvido.

Quando você conhece bem os bastidores (sujos) do futebol perde o encanto de torcer. A paixão dá lugar ao profissionalismo. Às vezes acha até engraçado ver alguns torcedores sofrendo tanto por um clube, chorando por uma derrota. Não sabem eles que aquela derrota talvez tenha sido planejada pelos jogadores, que diferentemente deles, não têm uma gota de amor ao clube.

Eis que surge na tevê um jornalista que faz questão de revelar que é torcedor do Santos. Não foi nenhuma novidade para quem já acompanhava Milton Neves no rádio.

Virou moda.

Jornalistas em todo Brasil seguiram Milton Neves. Tornou-se chique revelar qual o time do coração. Os clones levaram ao pé da letra a expressão repórter-torcedor. Transformaram-se em torcedores à beira do gramado, acompanhando os treinos e jogos.

Em Campina Grande já ouvi repórter de rádio dizer numa transmissão: “não voltarei hoje porque vou comemorar o título”. Outros andam com pulseiras, camisas, bonés e ainda imitam os gestos das torcidas organizadas.

Na hora do gol o repórter se vira para torcida e comemora junto. Outros, à beira do gramado, gesticulam mais que o treinador. Apontam para onde o jogador deve tocar a bola. E tem os gritos:
“Vaaaai!”
“cooorta!”
“p*ta que pariu, toca rápido”

Nem Milton Neves, aquele pedante, deve fazer isso.

Os torcedores fanáticos pelo clube adoram esse tipo de repórter. Há uma identificação porque ele (o repórter) fala pelo torcedor.

Os mais conscientes criticam. Sabem que se o jornalista é apaixonado demais vai esconder (como acontece muito por aqui) as coisas errdas do time. Brigas internas, insatisfação dos jogadores por causa de atraso de salários, guerra de egos e outras picuinhas que existem no futebol.

Ainda tem outro detalhe. O jornalista passa a ser odiado pela torcida adversário.

Corre o risco de ser agredido!!!

Boa parte dos jornalistas (aqui em CG) está deixando o profissionalismo de lado em nome da paixão. O importante para eles é desfrutar da posição de torcedor privilegiado. Ficar perto dos seu ídolos, não pagar ingresso no estádio e acompanhar o time em todos os jogos.

O resultado de tudo isso é a queda da qualidade na cobertura esportiva. Boa parte dos jornalistas perdeu o respeito dos diretores de clubes. O cara pode pintar e bordar porque sabe que o repórter-torcedor não vai divulgar.

Fico imaginando o que os colegas de profissão de centros maiores acham disso. Certamente devem dizer que em Campina Grande (ou na Paraíba) não existe profissionalismo.

Só espero que um dia (em breve, de preferência) esse tipo de repórter volte para o seu lugar, a arquibancada. De onde devia nunca ter saído.


*Perdoe-nos a demora para atualizar o blog. O grande DB estava em Campina e precisávamos colocar os papos em dia.

17 agosto 2006

Ah! se eu tivesse gravado...

Pedro Henrique Freire

Jornalista adora bloquinho. Parece uma extensão do braço. O mais comum é fazer entrevista, de pé ou pelo telefone, anotando os dados mais importantes no famoso bloquinho. Eu tenho o meu. Ou melhor, os meus (sempre guardo aqueles já preenchidos). Mas muitas vezes incido num erro comum. Nem sempre gravo entrevistas. E isso nos faz perder informações importantes.

Alguns jornalistas discordam do gravador. Dizem que intimida o entrevistado e tudo mais. Sim, tenho certeza que intimida. Mas entrevistar governador, presidente, deputados ou qualquer outra pessoa, acostumada a conviver com jornalistas, já não se intimida mais. Os caras sabem o que falar antes mesmo de você perguntar. Além do mais, gravar é importante porque é preciso escrever exatamente o que o entrevistado fala, sem vírgula a mais ou a menos.

Mesmo assim, até os políticos perdem as estribeiras e se danam a falar bobagens. É nessa hora que entra o gravador.

Um outro dia perdi aquela que poderia ter sido, até aqui, a matéria da minha vida. Aconteceu quando entrevistava um deputado acusado de participação na máfia das sanguessugas (já contei a história dele no artigo Bom Senso “Empresialístico”).

Trabalho em Brasília, no Correio Braziliense, mas escrevo também para O Imparcial, no Maranhão. Enviei várias matérias sobre este deputado maranhense que estaria envolvido com a máfia. Ele andava muito puto com a cobertura, feito somente por esse jornal do Maranhão. Reclamou várias vezes. Disse que me processaria e tal.

Até aí tudo bem. O pior foi quando liguei pro tal deputado e perguntei o que ele achava de ter seu nome incluído entre os 72 acusados pela CPI das Sanguessugas de falcatruas na compra de ambulâncias. Assim que me identifiquei na ligação, ele foi logo me esculhambando. “Rapaz, tu é muito cara-de-pau. Como tu tem coragem de me ligar depois de campanha sistemática que vocês estão fazendo contra mim”, disse, cheio da irritação.

Deixei ele falar e depois tentei convencê-lo que eu só queria sua defesa – afinal, ele foi incluído na lista. E, como diria a máxima, contra fatos não há argumento.

Mas o argumento usado foi o mais “coronelístico” possível. Passados alguns segundos de conversa, fui ameaçado de morte. “Olha, Pedro”, disse o deputado, “honra de homem se lava com sangue. Tu toma cuidado”.

Calei por um instante. Não tive muito tempo para me recompor da declaração. Só soltei um tímido: “Quê isso, deputado!”. A única coisa que conseguia pensar era num gravador. Que droga! Se eu tivesse gravado essa conversa...

Continuei o diálogo e tentei argumentar da mesma forma. Disse que queria ouvir sua defesa, que faríamos a matéria mesmo assim e tudo mais. Não adiantou. Depois de repetir duas vezes a história de lavar a honra com sangue, desligou o telefone na minha cara.

Fiquei chateado por só ter feito anotações. Se eu tivesse gravado essa conversa, com certeza o jornal daria manchete e a honra do tal deputado estaria nas “cucúias” uma hora dessa. Que droga! A matéria, sobretudo, serviria para mostrar que o cara não está acima do bem e do mal. Jornalista se respeita.

A lição
Aprendi uma lição. Use bloquinho. Mas use também um gravador. Principalmente quando for fazer matérias que exigem as declarações transcritas exatamente como foram ditas ou aquelas matérias de denúncia, que podem render umas declarações mais enérgicas.

No meu caso, a entrevista foi feita pelo telefone. Então, é preciso instalar o “jacaré” no telefone e gravar. Não faça como eu!

Concordo que gravador intimida. Concordo que, se ele soubesse que estava gravando a conversa, não faria ameaças. Mesmo assim, não é todo dia que um deputado nos ameaça de morte. Eu teria que ter gravado! Quando terei outra chance de ter meu trabalho reconhecido dessa forma, tão “singela”?

Não sei. Mesmo assim, até lá, sempre usarei gravador. Ou então irei perder a matéria da minha vida. Ou da minha morte.