Léo Alves
A relação entre repórter e produtor nem sempre é amigável. Historicamente é marcada por uma “guerra fria”. Todos os meus colegas repórteres contam algum “caso” envolvendo produtores. Os produtores, por sua vez, têm suas histórias de problemas com repórteres. Não estou falando aqui de uma relação de gato e cachorro. O que acontece é que no estresse do dia-a-dia, vez por outra acontece, um entrevero. Não é que o repórter vá discutir com todo mundo. Hoje eu tenho uma relação boa com todos os meus produtores: Manuella, Jurani, Wanderley (esse dez vez quando eu pego no pé, mas não só sou eu), Adriana (que está de licença maternidade), Rostand e Elane.
Diferente do jornal, onde o repórter recebe a pauta, os contatos e corre atrás da matéria, na televisão o trabalho depende da produção. É ela quem primeiro apura notícia, que tem o primeiro contato com o entrevistado, que agenda tudo. A apuração mal feita termina numa notícia mal feita. Não é à toa que muitas vezes os entrevistados perguntam: “você é Jurani?”, “Cadê Manuella, ela não veio?”. Aí temos que explicar o processo de produção. Há pouco mais de um mês tinha terminado a matéria quando ouvi. “Wanderley, Wanderley, quando ser vai exibida?”. Nesse caso não expliquei. Tem um vereador (João Dantas) aqui em Campina Grande que ainda hoje me chama de Fabinho. É que a TV Borborema, onde trabalhei por três anos e meio, tem um produtor chamado Fábio Nunes. Ele é quem sempre marcava as matérias com João. E o produtor sempre usa a frase “nós estamos querendo fazer uma matéria hoje à tarde”. O entrevistado pensa que vai encontrar com quem falou ao telefone. Pois bem, João ainda hoje acha que meu nome é Fábio. Para ele, “Fabinho”.
Em televisão, na maioria das vezes, quando uma pauta cai, a culpa é da produção que não agendou direito, que não fez uma boa apuração e por aí vão as reclamações. Existe neste ponto um meio termo. O entrevistado (o contato) muitas vezes “vende” uma matéria que não existe. O produtor não tem outra alternativa a não ser confiar. O repórter é que vai ver ´in loco’ (eu odeio essa expressão, DB sabe porquê) se a matéria rende ou não.
Porém o produtor também precisa ter muita sensibilidade jornalística. A falta dela foi motivo de alguns problemas (e até discussões) que enfrentei no passado. Não foi um privilégio só meu. DB também conviveu com a figura em questão. Daniel nunca esqueceu da matéria que foi fazer no Hospital Universitário sobre um remédio contra a Leucemia. Depois de apurar todas as informações, pediu para filmar a caixa do remédio quando ouviu a especialista dizer que o medicamento não tinha previsão de chegada ao Brasil. Esse é um caso típico de falta de apuração (e de sensibilidade). Sensibilidade que faltou também na horas de pautar para mim uma matéria sobre dicas de roupas íntimas. Quais as mais sensuais, cores, esse negócio que ficaria muito melhor para uma repórter. Mas lá estava eu dentro das lojas Marisa, constrangido, sem poder falar de “mulher pra mulher”. Não vou relatar outros para o post não ficar muito grande.
Nós repórteres também cometemos falhas. A maior delas, acredito eu, seja a de não reconhecer a importância da produção em uma matéria. Quando a matéria cai, o repórter critica os produtores. Porém quando sai tudo certinho e matéria fica boa, o repórter esquece da produção. Prefere ficar com os elogios sozinho. Diz logo “A matéria que eu fiz ficou boa”. Nesse caso a matéria parece que é só dele. Esquece que por trás, além da produção, tem o cinegrafista e os editores. Na tevê o trabalho é em equipe.
Repórter e produtor entenderiam melhor a importância de cada um se pudessem trocar de funções por um período. Só assim saberiam bem como é a rotina do produtor na redação e do repórter na rua.
Trem bala (cover)
Há 9 anos
19 comentários:
Aff! Fiz um comentário imenso e perdi....
Léo, muito bom seu depoimento sobre a importância da produção e sua relação com a reportagem de TV. Vou usá-lo nas aulas sobre Newsmaking na turma de Teoria.
Brigadão.
Oi, Léo.
Sabe concordo com você em todos os aspectos, mas às vezes penso que pordutor acredita que pautar uma matéria é simplesmente "agendar", sem falar das fórmulas mágicas "control c" + "control v" que a maioria faz questão deixar tão claro... Não sei se é falta de sencibilidade ou de curiosidade ou de força de vontade ou se é tudo junto!! Só sei que realmente seria bom sentir na pele o que cada um passa no dia-a-dia de uma redação e da externa. Tipo "repórter por um dia", "produtor por um dia". Assim saberíamos (todos) a "dor e a delícia" de cada função...
Ixe!! Nem se que quisesse esse espaço caberia todos os delírios que já peguei nas algumas pautas, as marcações erradas, as informações mal apuradas... Ontem mesmo queriam que eu fizesse uma matéria em vinte minutos pra correr e fazer um link. Detalhe: teríamos que filmar o antes e o depois de cachorros com a pelagem no clima da copa... com direito a pelos pintados de verde e amarelo (tadinhos...). Acho que vou pedir pra E.C. comprar um teletransportador pra gente...porque esse povo perdeu a noção de tempo e espaço... ainda assim, amo todos eles!!! kkkkkkkkk
Beijo pra tu
perdão pelos erros de português!! digitei tão rápido e nem li depois...
Léo,pertinente esse assunto, poderiamos levá-lo para Sala de Aula. Valeu cara.
Oi Léo, cá estou sua ex-colega de curso e ex-colega de trabalho na UEPB. Li seu texto e acho que vc ainda precisa ser produtor, principalmente de TV para o jornal de pico(rs). Tive a satisfação de trabalhar como produtora e editora de texto de TV e agora sou repórter do Jornal A Tarde (Salvador com 8 sucursais - a minha é a de Juazeiro - responde por 19 cidades). O trabalho de um produtor de TV é árduo, sofrido e meio 'tábua de carne'. Vc relatou bem a ligação 'arame-farpado' que existe entre os dois profisionais. Só que dedicou apenas um parágrafo para os defeitos dos amados repórteres. Esqueceu, por exemplo, de falar da 'preguiça pensante' e do 'estímulo inerente à profissão' que todos devem ter. Trabalhei com muitos repórteres folgados que querem tudo mastigado e não pensam que na rua se enxerga a matéria muito mais do que quem está na redação. Aliado a isso, o fatídico 'ego inflado' pela deliciosa imagem na tela, tira desse profissional a humildade do questionamento sem arrogância e a simpatia na hora de falar com os produtores que não servem apenas a um, mas a todos os repórteres dos horários de trabalho, atende ao telefone, à visitas de sugestões de pautas, ao editor de texto com informações que completem as matérias e notas e ainda tem que atender à capital e suas necessidades e, eventualmente, aos pedidos sem hora nem razão, dos nacionais que não querem nem saber se vc tem 100 coisas para fazer! Imagine tudo isso, misture à correria natural e estressante de uma redação, aos gritos (que eu nunca entendi pq)e coloque a figura de um Jurani, Wanderley o qlq outro produtor. Como repóter de sucursal hj, sem produtor, apenas eu e o fotógrafo, tenho que fazer tudo e mais um pouquinho. Minha gr sorte? Já fui produtora e seu quais caminhos tomar e os espinhos que tenho que dobrar. Por isso, digo com firmeza e segurança: todo repórter de TV deveria participar regularmente de um rodízio, de repente até no plantão de fim de semana, e ser o 'famigerado' produtor, para ter por alguns instantes o gostinho do fel e saber como é bom o sabor do mel. Aos alunos que se preparam para entrar na vida de jornalista ou de estagiários: partam da produção, prefiram isso e saberão desenrolar o restante e nunca deixem de escrever artigos, crônicas, contos no dia a dia como diversão e laboratório, pois tb vai ajudar a descobrir que texto de TV é um grão perto de um texto de jornal (pão inteiro c/ recheio e cobertura!). Bjos Léo. Tô com saudades. Espero poder vsitá-los assim que tiver um tempinho.
Leo, este seu blog está virando uma aula. É muito bom ver vcs contando estas experiências reais do jornalismo. Pela minha (pouca) experiência em sala de aula já deu para perceber que os alunos buscam estas informações. Saber como funciona os bastidores, como é relação repórter-produtor, repórter-fonte, repórter-telespectador, enfim como é a realidade da profissão onde muitos dos nossos alunos estão ou vão estar em breve. Leo, estou aguardando a transformação do conteúdo deste blog em livro. Será uma excelente contribuição sua e de Daniel aos futuros jornalistas.
Abraços
Fernando
Nossa... adorei lê o depoimento de Cristina Laura. Ela que passou algum tempo como produtora aqui na TVPB foi bem legal trabalhar e aprender ao lado dela. E eu como produtora, já fiz quase tudo nessa TV, só não apresentei jornal nem fui cinegrafista, mas do resto...já fui repórter, editora, quebra-galho, enfim... experimentei de tudo.
Ainda acrescento mais uma coisa ao comentário de cristina: não dá pra esquecer também as condições que nos permitem trabalhar e o tempo que temos para todas estas coisas. Nossa jornada diária é de 5 horas, nesse tempo temos que disputar computador, telefone e fazer reunião de pauta e começar a produzir para o dia seguinte (ou seja, não dá pra ser nada muito caprichado). Trabalhamos com telejornais diários, então muitas vezes não temos condições de mastigar tudo para o repórter não ter trabalho nenhum... o que é uma pena! Eu por exemplo, A-M-O peroduzir matérias especiais. Daquelas que a genre reserva quase uma semana produzindo, fazendo milhões de ligações, pesquisando coisas na net, conversando com um montão de gente, até o dia da pauta. E o melhor de tudo é qd o repórter recebe a pauta e gosta do assunto! Ufa! já é um alívio, pq assim a gente sabe que ele vai fazer de tudo pra pauta não cair!
Ao contrário do que foi dito, não é sempre que a culpa é da produção! Muitas vezes o repórter já vai pra rua querendo derrubar a pauta e não faz o mínimo esforço para ela dar certo. Tudo bem que em televisão é necessário muitos componentes para formar um vt: imagem, personagem, boas falas e bom texto; mas se o repórter fizer com má vontade, não tem jeito!
O maior desgosto para um produtor é qd o repórter liga da rua dizendo que não está dando nada certo. Afffy! è um desespero.
Sem contar que cada um de nós temos dias mais e menos humorados, esse é o maior obstáculo a ser vencido na relação repórter x produtor!
Um xero p tu leo, vc sabe que é o meu preferido =) (não tirando os méritos dos outros)!
Muito pertinente seu texto Léo.
Como o Fernando disse, "é uma aula a mais pra gente estudante".
No entanto não custa perguntar.
Quanto a produção. Nas reuiões de pauta, nas discussões, não há consenso entre o produtor e o repórter?
Pergunto isso porque não conheço a realidade da produção.
Cristina Laura tem toda razão quando diz que além da falha de não partilhar os méritos com a produção existe ainda 'preguiça pensante' e do 'estímulo inerente à profissão' e o ´ego inflado': Porém, deixando a modéstia de lado, ainda bem que não fui contagiado por nenhuma dessas características. E não posso falar sobre a experiência ou a postura profissional de outros repórteres. Só posso falar de mim, por isso só foi dedicado um paragráfo aos erros dos repórteres. Porque acho que, além da minha chatice, esse é o segundo lugar. Até porque quando recebo uma pauta faço de tudo para cumprí-la. E muitas vezes questiono, antes de sair da redação, se vai dar certo, se não poderia ser de outro jeito. Mas sempre procuro cumprir o que foi determinado pela produção. Também para não parecer implicante. E quando algo dá errado, ao invés de jogar na cara de colegas o erro, procuro aprender junto com eles quais os motivos que contribuíram para a coisa dar errado. A partir daí tiramos lições. Até porque sou pago para fazer matérias e não para derrubá-las. Além disso, apesar de nunca ter sido produtor de tevê sempre fui meu próprio editor e também do meu repórter. E também passei alguns meses como chefe de redação de um jornal, onde fazia três pautas para seis, sete repórteres (além das minhas de esporte). Sei como é difícil arrumar 20 pautas em CG. Posteriormente fui editor executivo de um jornal por 15 dias. Apesar de nunca ter produzido em tevê sei um pouco das dificuldades que cada um passa para arrumar pauta. Por isso procuro varolizá-las, mas como Manu disse nem todos os dias a gente está de bom humor e a matérias não saem legais. Agora concordo também com minha amiga Rejane quando diz que muitas vezes o produtor se acomoda. É a preguiça pensante do lado do produtor, que o primeiro release que aparece se transforma em matéria. Não há nem questionamento se a matéria vale ou não. O importante para ele é ter duas pautas para os repórteres. Ai (alguns) consideram que o trabalho está feito.
Respondendo ao meu amigo e aluno GIvanildo, a produção é a alma do telejornalismo. É ela quem define as prioridades. Nós, repórteres, não participamos da reunião de pauta porque estamos na rua. O que não impede de sugerir alguma pauta. E também discutir a melhor maneira de se fazer a pauta que foi definida. Abs
E reforçando acho que deveria mesmo haver um rodízio, pois só assim alguns produtores (nem dos meus faz isso hoje) não pediriam aos repórteres para fazer uma matéria em 15 minutos. Sempre usando aquela velha frase: "é só algumas imagens", "É rapidinho", "dá tempo fazer tudo". Como se não existisse a questão de deslocamento e o tempo que o repórter cinematográfico precisa para fazer as imagens. Mas muitas vezes o produtor quer que o repórter faça dez coisas ao mesmo tempo. Como sempre dizia antes, "matéria não é caldo de cana que o cara faz em um minuto". Tem que haver compreensão dos dois lados. Se não for assim, a coisa não funciona.
Léo... tu conseguiste relatar bem "os problemas" enfrentados pelos dois lados. Trabalho com producao (mas de publicidade) e tb passo por esses dilemas. REconheço que as coisas nao sao fáceis pra um repórter, mas me incomoda quando uma equipe nao reconhece que a producao foi essencial para o sucesso do material. Especialmente na área publicitária as coisas t~em que sair "bonitas" e a realidade nem sempre é igual à apresentada de forma jornal~istica. Nesse caso, a producao bem feita é fundamental, senao sai cinegrafista (e repórter, quando tem) querendo matar o produtor.rs... Eu que o diga com o "Pé na Estrada".
bjus
É iso aí pessoal! A delícia do real sobre o imaginário jornalístico é que nos leva a esses comentários que, na palavra do meu adorado Nando Milanni, vai acabar em livro (rs)! Todas as opiniões são pertinentes e sou totalmente a favor de que todos devem ser um pouco de tudo pelo menos uma vez para saber como é. Esso, Léo pode ser levado para sala de aula, principalmente nas discipinas de técnica de reportagem, tele, estágio supervisionado, rádio, jornalismo especializado entre outras, onde cada aluno pode passar uma unidade desenvolvendo uma das funções. No mais, meu carinho e meu respeito pelos assuntos propostos e bem relatados por todos. Parafraseando: 'Bom dia e boa sorte'! (rs) - td a ver!!
Meu grande amigo Da Silva, o texto foi polêmico, realmente. Em pouco mais de seis meses de Filhos da Pauta, este foi o post mais comentado e acessado. Você tá de parabéns pelo assunto escolhido e pela opinião dada.
Antes de postar um texto novo, contudo, queria fazer um comentário sobre a produção.
Falta aos produtores uma setorização. Como assim "setorização"? Falta designar fulanos e beltranos apenas para aquela área. E não é só área policial não. Como em um jornal, que tem gente que passa o dia na camara dos vereadores, outra pessoa que não sai de dentro do forum, outro no escritório de representação, até o esporte...
Tudo bem, falta grana pra contratar esse tanto de gente. Mas com o tanto e gente que tem, dá pra selecionar algumas instituições ou áreas para que cada mantenha contato com freqüência.
Só assim a TV vai deixar de passar o recibo das matérias que saem nos jornais.
Em tempo: o pior jornalista com quem já trabalhei era produtora da TV Borborema (a mesma pessoa que me passou uma pauta sobre um medicamento que nao tem previsão de chegar ao Brasil).
Valeu
Muito pertinenentes e instigante todos os posts, afinal, uma vez jornalista, sempre jornalista...
Só acrescentando no comentário de Léo, que no caso do jornalismo impresso, também acaba acontecendo uns entraves com os "pauteiros". Acho que é dever deste profissional, entrar em contato primeiramente com as fontes,checar se a noticia esta correta,e acima de tudo, ver se a materia vai render. As vezes, os pautereiros (não todos)deixa esta parte para qdo o reporter chegar a na redação, aí, o que acontece: perde-se tempo.Isso sem falar, que a gente trabalha com o tal do "dead line', temos um tempo cronometrado para entregar as materias para serem impressas. Defendo que as pautas devem ser bem mais elaboradas sim, com o olho treinado para ver se realmente gera uma boa reportagem.
Pauteiros x repórteres devem estabelecer uma sintonia entre ambas as partes. O resto é competência do repórter.
bjuss :-)!*
Nice! Where you get this guestbook? I want the same script.. Awesome content. thankyou.
»
Super color scheme, I like it! Good job. Go on.
»
Léo, meu nome é Ivan Silva Gonçalves, sou estudante de Jornalismo da Faculdade Seama de Macapá, estou no segundo semestre, quero compartilhar como você e as demais pessoas, que a primeira vez que fui fazer um teste como repórter, na frente da minha turma de 11 pessoas, fiquei muito nervoso as minhas mãos tremia, os meu pés também passei muita vergonha, mas fui até o final, esse teste é para um telejornal que vai servir de trabalho, eu queria tanto ser repórter, mas infelismente resolvir ser Produtor, ao observar as minhas companheiras de turma indo muito bem e eu ficando para trás, quero fazer uma simples pergunta será que vou ser um bom repórter um dia? Tô torcendo que sim, mas quero ouvir a sua opinião.
Olá Léo;
Sensacional sua definição de "guerra fria".
Estou cursando jornalismo e gostaria de saber se vc teria algo contato de produtor que possa me indicar.
Fico no Aguardo,
Abços
Att:Antonia
Postar um comentário