24 agosto 2006

Repórter-torcedor

Léo Alves*

Uma das primeiras lições que aprendi quando me atrevi a seguir o jornalismo esportivo foi que não deveria torcer por nenhum time. Impossível para mim ou para qualquer outra pessoa que goste de esportes, principalmente de futebol.

Todos já fomos crianças um dia.

Como qualquer criança tivemos o nosso time do coração. Na verdade a lição ensinava que eu não deveria levar a paixão de infância para a profissão. Sinceramente não sabia como faria aquilo.

O dilema foi facilmente resolvido.

Quando você conhece bem os bastidores (sujos) do futebol perde o encanto de torcer. A paixão dá lugar ao profissionalismo. Às vezes acha até engraçado ver alguns torcedores sofrendo tanto por um clube, chorando por uma derrota. Não sabem eles que aquela derrota talvez tenha sido planejada pelos jogadores, que diferentemente deles, não têm uma gota de amor ao clube.

Eis que surge na tevê um jornalista que faz questão de revelar que é torcedor do Santos. Não foi nenhuma novidade para quem já acompanhava Milton Neves no rádio.

Virou moda.

Jornalistas em todo Brasil seguiram Milton Neves. Tornou-se chique revelar qual o time do coração. Os clones levaram ao pé da letra a expressão repórter-torcedor. Transformaram-se em torcedores à beira do gramado, acompanhando os treinos e jogos.

Em Campina Grande já ouvi repórter de rádio dizer numa transmissão: “não voltarei hoje porque vou comemorar o título”. Outros andam com pulseiras, camisas, bonés e ainda imitam os gestos das torcidas organizadas.

Na hora do gol o repórter se vira para torcida e comemora junto. Outros, à beira do gramado, gesticulam mais que o treinador. Apontam para onde o jogador deve tocar a bola. E tem os gritos:
“Vaaaai!”
“cooorta!”
“p*ta que pariu, toca rápido”

Nem Milton Neves, aquele pedante, deve fazer isso.

Os torcedores fanáticos pelo clube adoram esse tipo de repórter. Há uma identificação porque ele (o repórter) fala pelo torcedor.

Os mais conscientes criticam. Sabem que se o jornalista é apaixonado demais vai esconder (como acontece muito por aqui) as coisas errdas do time. Brigas internas, insatisfação dos jogadores por causa de atraso de salários, guerra de egos e outras picuinhas que existem no futebol.

Ainda tem outro detalhe. O jornalista passa a ser odiado pela torcida adversário.

Corre o risco de ser agredido!!!

Boa parte dos jornalistas (aqui em CG) está deixando o profissionalismo de lado em nome da paixão. O importante para eles é desfrutar da posição de torcedor privilegiado. Ficar perto dos seu ídolos, não pagar ingresso no estádio e acompanhar o time em todos os jogos.

O resultado de tudo isso é a queda da qualidade na cobertura esportiva. Boa parte dos jornalistas perdeu o respeito dos diretores de clubes. O cara pode pintar e bordar porque sabe que o repórter-torcedor não vai divulgar.

Fico imaginando o que os colegas de profissão de centros maiores acham disso. Certamente devem dizer que em Campina Grande (ou na Paraíba) não existe profissionalismo.

Só espero que um dia (em breve, de preferência) esse tipo de repórter volte para o seu lugar, a arquibancada. De onde devia nunca ter saído.


*Perdoe-nos a demora para atualizar o blog. O grande DB estava em Campina e precisávamos colocar os papos em dia.

17 agosto 2006

Ah! se eu tivesse gravado...

Pedro Henrique Freire

Jornalista adora bloquinho. Parece uma extensão do braço. O mais comum é fazer entrevista, de pé ou pelo telefone, anotando os dados mais importantes no famoso bloquinho. Eu tenho o meu. Ou melhor, os meus (sempre guardo aqueles já preenchidos). Mas muitas vezes incido num erro comum. Nem sempre gravo entrevistas. E isso nos faz perder informações importantes.

Alguns jornalistas discordam do gravador. Dizem que intimida o entrevistado e tudo mais. Sim, tenho certeza que intimida. Mas entrevistar governador, presidente, deputados ou qualquer outra pessoa, acostumada a conviver com jornalistas, já não se intimida mais. Os caras sabem o que falar antes mesmo de você perguntar. Além do mais, gravar é importante porque é preciso escrever exatamente o que o entrevistado fala, sem vírgula a mais ou a menos.

Mesmo assim, até os políticos perdem as estribeiras e se danam a falar bobagens. É nessa hora que entra o gravador.

Um outro dia perdi aquela que poderia ter sido, até aqui, a matéria da minha vida. Aconteceu quando entrevistava um deputado acusado de participação na máfia das sanguessugas (já contei a história dele no artigo Bom Senso “Empresialístico”).

Trabalho em Brasília, no Correio Braziliense, mas escrevo também para O Imparcial, no Maranhão. Enviei várias matérias sobre este deputado maranhense que estaria envolvido com a máfia. Ele andava muito puto com a cobertura, feito somente por esse jornal do Maranhão. Reclamou várias vezes. Disse que me processaria e tal.

Até aí tudo bem. O pior foi quando liguei pro tal deputado e perguntei o que ele achava de ter seu nome incluído entre os 72 acusados pela CPI das Sanguessugas de falcatruas na compra de ambulâncias. Assim que me identifiquei na ligação, ele foi logo me esculhambando. “Rapaz, tu é muito cara-de-pau. Como tu tem coragem de me ligar depois de campanha sistemática que vocês estão fazendo contra mim”, disse, cheio da irritação.

Deixei ele falar e depois tentei convencê-lo que eu só queria sua defesa – afinal, ele foi incluído na lista. E, como diria a máxima, contra fatos não há argumento.

Mas o argumento usado foi o mais “coronelístico” possível. Passados alguns segundos de conversa, fui ameaçado de morte. “Olha, Pedro”, disse o deputado, “honra de homem se lava com sangue. Tu toma cuidado”.

Calei por um instante. Não tive muito tempo para me recompor da declaração. Só soltei um tímido: “Quê isso, deputado!”. A única coisa que conseguia pensar era num gravador. Que droga! Se eu tivesse gravado essa conversa...

Continuei o diálogo e tentei argumentar da mesma forma. Disse que queria ouvir sua defesa, que faríamos a matéria mesmo assim e tudo mais. Não adiantou. Depois de repetir duas vezes a história de lavar a honra com sangue, desligou o telefone na minha cara.

Fiquei chateado por só ter feito anotações. Se eu tivesse gravado essa conversa, com certeza o jornal daria manchete e a honra do tal deputado estaria nas “cucúias” uma hora dessa. Que droga! A matéria, sobretudo, serviria para mostrar que o cara não está acima do bem e do mal. Jornalista se respeita.

A lição
Aprendi uma lição. Use bloquinho. Mas use também um gravador. Principalmente quando for fazer matérias que exigem as declarações transcritas exatamente como foram ditas ou aquelas matérias de denúncia, que podem render umas declarações mais enérgicas.

No meu caso, a entrevista foi feita pelo telefone. Então, é preciso instalar o “jacaré” no telefone e gravar. Não faça como eu!

Concordo que gravador intimida. Concordo que, se ele soubesse que estava gravando a conversa, não faria ameaças. Mesmo assim, não é todo dia que um deputado nos ameaça de morte. Eu teria que ter gravado! Quando terei outra chance de ter meu trabalho reconhecido dessa forma, tão “singela”?

Não sei. Mesmo assim, até lá, sempre usarei gravador. Ou então irei perder a matéria da minha vida. Ou da minha morte.

13 agosto 2006

Críticas e críticas

Daniel Brito*

Depois de reclamar das críticas que recebo dos concorrentes, chegou minha vez de criticar os outros. Na verdade, estava pensando em criticar todos os repórteres de TV.

Sim, porque em TV nada se cria, tudo se copia. Existe uma mania feia de passar o recibo das matérias publicadas no dia anterior no jornal e reproduziada na TV no dia seguinte. Isso acontece porque quem trabalha em TV não tem tanta iniciativa, liberdade ou criatividade para fazer algo diferente do que sai nos jornais.

Mas isso fica para um outro post. Este aqui será uma contradição do que disse na última vez que escrevi aqui. Ou não!

Jornalismo bom é aquele que critica. Não a crítica gratuita ou revanchista, como muitas vezes se lê nos jornais da Paraíba ou grandes veículos de comunicação. O julgamento de algo/alguém com argumentos concretos é uma das coisas mais sensacionais de se ler e escrever.

Exemplo
A Seleção Brasileira de vôlei masculino esteve em Brasília para enfrentar a frágil Finlândia, pela Liga Mundial. Um mês antes dos caras desembarcarem por aqui, fiz um roteiro de matérias para fugir do feijão-com-arroz. Como no futebol, o vôlei tem seu lugar-comum:

- carinho da torcida;
- treinos cansativos;
- gritos de Bernardinho.

Não queria falar disso.
Queria algo novo.

Então tracei um plano de reportagens de quarta a sábado.

Quarta-feira:
- ginásio em que a Seleção vai jogar foi mais usado para eventos de igreja do que esportivos;

Quinta-feira:
- é proibido falar alto durante os treinos de Bernardinho. Só ele pode falar;

Sexta-feira:
- jogadores reclamam por ter que jogar sempre de manhã, por imposição da Globo;

Sábado:
- o verdadeiro quadrado mágico: Serginho, Ricardinho, Giba e André Nascimento.

Na sexta-feira eu ainda publiquei uma matéria sobre o primeiro dia dos pais de Bernardinho ao lado do filho Bruno, que é jogador e está na Seleção Brasileira. No sábado, eu ainda publiquei uma matéria dizendo que os brasileiros estão achando ruim a Liga Mundial por ainda não ter tido um jogo forte.

Engraçado que nesses dias todos, surgiram vários assuntos interessantes, com elogios a Brasilia (desconfie de elogios, sempre!) e outros assuntos do departamento de perfumaria do jornalismo. Mas eu prefiro assuntos polêmicos.

Deu certo.

Como disse lá em cima, a crítica bem feita atiça o leitor. Meu celular já aprendeu isso.

Não sou uma excelência em fazer críticas, apenas acho que algumas tem incomodado as pessoas envolvidas. Foi assim na quarta, quando o pessoal que trabalha no ginásio do jogo do Brasil me ligou às 8h da manhã para reclamar da matéria. Disse que eu queria "vender jornal".

Meu celular já está acostumado a ligações matutinas com reclamações. Meu recorde foi ter desagrado aos dois lados de uma única reportagem. Depois conto essa história.

No sábado, foi a vez de Bernardinho atacar minhas matérias. Não me ligou, mas, durante a entrevista coletiva após o jogo, reclamou que essa história de quadrado mágico é forçação de barra da mídia, que nunca deu certo e que só leu isso porque colocaram a matéria na frente dele.

No domingo, fiz uma matéria contando que ele odiou a minha matéria sobre o quadrado mágico do vôlei. Hoje, domingo, teve a segunda partida em Brasília contra a Finlândia. Na coletiva, ele tratou de alfinetar de novo as minhas matérias. Principalmente a reportagem em que os atletas pediram mais dificuldades na Liga Mundial.

Travamos até um diálogo áspero:

- Bernardinho, os jogadores reclamaram... não diria reclamaram, eles disseram...
- (interrompendo)O seu jornal estampou a manchete dizendo que eles reclamaram. Assuma o que você escreve!
- Não tenho problema em assumir. Você falou a mesma coisa que eles (os jogadores) aqui...
- Eu não reclamei de nada!
- Falou que faltava um jogo para o time ser testado, a mesma coisa que os jogadores disseram.
- Eu disse que ainda não sabemos em que nível estamos para a fase final da Liga Mundial.

Foi uma coisa rápida. Confesso que saí feliz da coletiva.

Sim, porque ele está lendo minhas matérias e elas o incomodam. Logo Bernardinho, exemplo de homem trabalhador, disposto e motivador se preocupando com o que EU escrevo??

A crítica, quando bem feita, evita que a outra pessoa te trate com o pior dos sentimentos: a indiferença.

*Quarta-feira, dia 16, às 18h45, estarei na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) contado as histórias desse blog e histórias impublicáveis para os alunos de jornalismo. Por isso, demorarei um pouco para atualizar este blog

08 agosto 2006

É preciso ser especialista (até no esporte)

Léo Alves

O preconceito com o jornalismo (e o jornalista) esportivo vem de muito tempo. Nos primeiros anos de cobertura esportiva (no início do século XX), ninguém acreditava que o esporte pudesse estar nas primeiras páginas dos jornais. Era considerado um assunto sem importância. Hoje, o esporte ocupa as primeiras páginas de jornal. A edição de segunda-feira, por exemplo, é recheada de matérias esportivas.

A mudança aconteceu.
Mas o preconceito permanece.

É encarada por alguns colegas como a editoria onde se encaixam aqueles jornalistas despreparados, que não sabem fazem outra coisa. Na maioria das redação a editoria de esportes é discriminada.

Esses nossos colegas acreditam que o jornalista esportivo é ‘sem cultura’ que não consegue enxergar nada além de uma disputa. Ou melhor, não consegue relatar nada além disso. Não é preciso, acreditam, conhecimento para fazer esse tipo de matéria.

Para muitos, o esporte não é nem jornalismo. Lembro que na minha época de faculdade um professor, hoje meu colega de trabalho, disse que jornalismo esportivo não era jornalismo. Tentei provar o contrário. Não o convenci.

Essa discriminação fez muitos colegas seguirem outro caminho. Para ganhar ‘respeito’ (da sociedade e de outros jornalistas) mudam de editoria. A maioria se dá bem. E diz: “agora as pessoas viram que eu sei fazer outra coisa além de esporte”.

A idéia que se tem é que jornalismo esportivo é tão fácil que qualquer um pode fazer. Não precisa ser especialista na área. Boa parte das empresas de comunicação (no caso, os editores) pensa assim. “Esporte, qualquer um faz. Quem for desenrola”, é uma frase típica. E mentirosa.

É nessa onda de que qualquer pode fazer que já vi muito colega ‘sobrar na curva’. Achando que não precisa se especializar (e cultivando o mito que treinador e jogador de futebol são todos burros) faz perguntas fora de contexto. O pior é que o jornalista pensa que o boleiro não saca que ele não entende do assunto. Tanto saca que o repórter é motivo de piada.

Alguns esportistas não admitem perguntas estúpidas, principalmente de quem não é da área. Quando o repórter é da área o cara até releva. Porque conhece o repórter. Falo por experiência própria. Já fiz perguntas imbecis, mas tive respostas pelo menos educadas.

Bem diferente de um aprendiz que chegou ao treino do Treze em um certo mês de janeiro perguntando ao técnico Maurício Simões (hoje no Santa Cruz-PE) quais os jogadores já tinham sido contratados. Em tempo: o elenco havia começado a treinar em dezembro. O Treze já tinha contratado uns 15 jogadores.

- Caba véi, tu tem que se informar. A gente está treinando há mais de um mês e tu vem me perguntar hoje quantos jogadores a gente já contratou. Se informe. Leia pelo menos o jornal, respondeu Simões.

Eu que fiquei envergonhado.

A princípio a atitude é encarada como grosseria. Mas é preciso ver o meio termo. Não se pode negar que uma pergunta daquelas é uma afronta a inteligência do treinador. Em mais de um mês de treino o repórter ainda não sabe quais jogadores foram contratados.

Paciência.

O próprio Simões me relatou uma vez que tanto os técnicos como os jogadores sabem “quem entende do traçado”. Disse-me também que é engano pensar que eles (jogadores e técnicos) não percebem quando o repórter não é da área.

- Muitas vezes a gente responde para não ser mal educado. Mas tem hora que falta paciência, confessou.

A mesma revelação me foi feita por Washington Lobo, ex- treinador do Botafogo (PB) e do Nacional de Patos (PB). Segundo ele, “tem umas meninas (repórteres) que fazem perguntas que dão pena”. Aqui não vai nenhum preconceito contra mulheres no esporte. Perguntas sem sentindo independem do sexo.

Simões e Lobo têm razão.

Este ano mesmo uma colega perguntou, no segundo jogo do Campeonato Estadual, ao treinador do Esporte de Patos (no sertão paraibano) “como ele estava encarando aquele jogo decisivo?”

- É, minha filha, a gente encara com muita seriedade, mas é apenas o segundo jogo do campeonato. Não tem nada de decisão ainda. Muita bola ainda vai rolar, respondeu educadamente o treinador Sérgio Oliveira.

Pior são aqueles que pensam ‘entender do traçado’. Nos textos usam termos obsoletos tipo “tapete verde”, se referindo ao gramado, “corner”, pra falar em escanteio, “beque”, o zagueiro.

Quem não é da área não entende a diferença entre o esquema 3-5-2 e o 4-4-2. Não sabe o que muda num time com a saída de um volante e a entrada de um atacante.

E vice-versa.

Alguém pode dizer que para escrever sobre esporte não precisa entender de esquema tático. Isso é coisa de treinador. Será?

Esses pequenos detalhes mudam completamente a construção do texto. Mas quem não é da área só consegue enxergar 22 caras correndo atrás de uma bola.

Nos outros esportes a necessidade de especialização é ainda maior. Na maioria das vezes o repórter entrevista atletas com alto nível cultural. Meu amigo DB, por exemplo, já foi chamado de desinformado por Robert Scheidt (foi ele mesmo?). Todos lembram que Nelson Piquet era considerado chato porque odiava responder a perguntas óbvias sobre a Fórmula 1.

No futebol você ainda encontra um ou outro técnico que responde apenas para não ser mal educado. Em outros esportes isso não acontece. Os atletas não estão nem um pouco preocupados em não ser chato. Eles querem qualidade nas perguntas.

O preconceito vai durar por muito tempo.

Ainda bem que os atletas estão mostrando, com respostas mal educadas, que para se fazer jornalismo esportivo é preciso conhecimento, especialização. Como em qualquer outra área. Enquanto cada “macaco não ficar no seu galho”, alguns jornalistas (aqueles que pensam que sabem) vão continuar servindo de piadas para jogadores e técnicos.

04 agosto 2006

Bom senso “empresarialístico”

Pedro Henrique Freire

Nos últimos dias, eu e um grande amigo do jornal O Imparcial (MA), o editor de política Marco Aurélio Oliveira, ditamos os rumos da cobertura sobre sanguessugas. Lá existiam dois deputados investigados e um citado. Dois foram inocentados.

A cobertura funcionava assim:
- levantávamos as pautas;
- eu fazia as matérias daqui (Brasília);
- ele dava a pincelada de lá (São Luís);
- Em alguns dias, um repórter de política ajudava.

Contra um deputado em especial – o mais enrolado dos maranhenses no caso – tínhamos provas extremamente comprometedoras. Demos uma matéria, outra e mais outra. O deputado resolveu convocar uma coletiva para se explicar. A segunda desde o início do escândalo.

Falou, falou e não disse muita coisa. “Nunca vi esse tal de Vedoin! Não sou bandido! Vou processar a Câmara, os jornais, todo mundo”, bradou feito louco.

No dia seguinte, tive acesso ao depoimento do Luiz Antônio Vedoin, chefe da Planam, com ajuda do pessoal do Correio Braziliense. Ele dizia que o tal deputado tinha recebido propina por meio da conta de seu assessor e ainda R$ 10 mil em espécie, entregue dentro do seu gabinete.

E disse mais: “Paguei a comissão pelo encaminhamento das emendas antecipado e o deputado acabou não direcionando”, disse o sanguessuga à PF. Quer dizer, o tal cara recebeu pelo esquema, mas deu um bolo no chefe da máfia.

É mole?

A manchete
Bingo! Tínhamos, de fato, novidades.

Resultado: foi manchete do jornal no sábado.

No domingo, tínhamos mais informações para dar: como eles se conheceram, quando foi a tratativa entre os dois, quais as emendas deveriam ser direcionadas, além de reiterar a defesa do deputado.

As informações eram igualmente fortes.

E aí, manchete de novo?

- Não. Vai ficar parecendo perseguição, disse Marco Aurélio.
- Também acho, respondi. Vamos dar só uma chamadinha de capa para satisfazer os leitores e esperar as novidades.

Agimos sob o comando da verdade jornalística. Demos a justificativa do cara, publicamos todos os depoimentos divulgados pela polícia e pela justiça e, em nenhum momento, noticiamos depoimentos de adversários que pudessem transformar a cobertura em palanque político. Além disso, publicamos matérias “favoráveis” a ele: o conteúdo da defesa que entregaria à Corregedoria da Câmara, além de registrar o dia que entregou a defesa.

O tiro
Mesmo assim, o deputado foi à tribuna da Câmara e disparou contra o jornal. Disse que O Imparcial estava agindo “a serviço de alguém” e que “enviou um repórter especialmente a Brasília” para difamar sua imagem.

Falou que já tomou as providências judiciais para me processar, além dos editores e o do diretor do jornal, no caso o meu pai. (Eu, o tal repórter enviado, moro em Brasília há três anos. O pior é que o deputado sabe disso.)

Seu discurso foi baseado no fato da atual “verdade empresarial” do veículo maranhense favorecer o governador do Estado, contra quem faz oposição ferrenha. Muitas vezes, O Imparcial é sim PARCIAL. E como ele, no Nordeste e em outras regiões existem muitos jornais.

Mas nesta cobertura fomos isentos, tenho certeza.

Duas provas:
1 - O fato de publicarmos o envolvimento de um aliado do governador no esquema das sanguessugas;
2 - Noticiamos quando aquele deputado apenas citado foi inocentado pelo chefe da máfia. Ele é aliado do grupo da Roseana Sarney - contrário ao do governador -, dentro do qual está inserido esse “parlamentar mais enrolado”.

Demos uma página quase toda para este terceiro. Em maio, ele deu explicações sobre seu envolvimento em coletiva conjunta com o que quer me processar. Portanto, são aliados.

Bom, o fato é que este tal deputado é o único maranhense enrolado e é o mais histérico de todos. Além das provas que publicamos, temos ainda mais coisas sobre as sanguessugas que complicam de vez sua situação. Deixaremos para publicar depois, quando ele estiver preste a ser submetido à degola da Câmara.

Por enquanto, para não abrir brecha para acusações de perseguição, não fritaremos ele mais ainda nas páginas dos jornais, embora aqueles favorecidos pela “verdade empresarial” estejam torcendo para isso.

Nos dias de hoje, na minha opinião, a verdade, infelizmente, nem sempre é jornalismo.

Jornalismo é bom senso: aquele bom senso com características empresariais e jornalísticas.

Ou, “empresarialístico”.

03 agosto 2006

Críticas honestas

Daniel Brito

Eu acho curioso ouvir críticas sobre o que faço no jornal.

Principalmente dos concorrentes.

Você e o repórter de outro jornal podem ter feito a mesma pauta e cada um pegou informações diferentes. No dia seguinte, vocês se encontram e o cara comenta:

- Pô, por que tu não colocou a história de fulano de tal?

A "história de fulano de tal", no caso, é a história que ele apurou. Você pode ter feito outra melhor e o concorrente dificilmente vai reconhecer que a história de sicrano, que foi a que você publicou, está mais interessante que a do "fulano de tal".

Partindo do princípio que considero as pessoas que trabalham em outros jornais como companheiros de trabalho e não concorrentes, nada me incomoda mais do que o cinismo entre "companheiros de trabalho".

Por que é tão difícil reconhecer que a tua matéria ficou pior que a minha?

Já reconheci várias vezes que a minha ficou pior que as demais. Tem vários post neste blog que mostram isso. Com Gustavo Kuerten, Bernardinho, Maradona...

Inicialmente eu elogiava abertamente as reportagens dos concorrentes, até dava uns toques sobre o que apurar, quando tinha informações a acrescentar. Depois de três anos aqui em Brasília, percebi que não vale a pena compartilhar com concorrentes informações extras.

Poucos são os caras que retribuem o gesto. Alguns retribuem com a menor freqüência possível e acham que são honestos sempre.

A maioria faz questão de te detonar, mas sempre com aquela frasesinha mágica:

- Tô só te dando um toque, porque tu é meu amigo, sacou?

Ah, tá. Obrigado amigão.

Não consigo me lembrar de exemplos práticos, mas fiz um exame de consciência rápido aqui para lembrar se faço o mesmo que meus companheiros de trabalho. Acabei reparando que só critico as pessoas que tenho muita proximidade.

Tudo bem, vamos deixar claro que falo mal de muita gente (ninguém é de ferro). Muitas vezes para rebater aos comentários cínicos dos concorrentes e outras para sacanear com quem não gosto mesmo.

Até porque, sei que tem gente que lê este blog só para me sacanear de todo jeito.
- Porque escrevo besteira
- Porque quero dar aula de jornalismo
- Porque não sei português direito, e por aí vai.

Obrigado, pela visita, anyway.

Mas críticas diretas e mais incisivas faço mais a quem eu quero ajudar. Da Silva tá aí para provar.

Quando trabalhávamos juntos em Campina Grande ele vivia reclamando que eu o criticava demais. Acho que já aprendeu a conviver. Na minha casa é assim também. Detono pai, mãe, irmão, irmã, cunhada. Até a minha namorada, que também é jornalista.

Preciso aprender a conviver com as críticas fingidas e ácidas de quem considero companheiro de trabalho. Até porque, na minha opinião, crítica e elogio são dois dos departamentos mais importantes de uma coisa chamada honestidade.

Não estou aqui defendendo o elogio gratuito ou um discurso falso em favor de alguém. Até porque, nem todas as verdades podem ser ditas. Algumas correm o sério risco de serem encaradas como grosseria.

Mas ser honesto faz bem às relações humanas.

01 agosto 2006

Reinvente os asteriscos

Pedro Henrique Freire *

Esta semana mesmo estava lendo uma matéria sobre um encontro de escritores em Brasília. Eles participariam de um debate sobre crônicas. Zuenir Ventura – escritor, jornalista e cronista – dava a seguinte declaração: “Recebo textos muito bons pela internet e quando um jovem me pergunta como se faz para publicar um livro, eu logo o aconselho a montar um blog”.
A lâmpada da boa idéia, com certeza, acendeu sobre a cabeça de muitos que receberam esse conselho.

Assim que tive conhecimento, pelo Briba (DB), da existência do heróico Filhos da Pauta, fiquei curioso e, de cara, com vontade de colaborar. Conversa vai, conversa vem, ele pediu que eu “escrevinhasse” um texto qualquer. “Já era tempo”, pensei eu, que estava quase me oferecendo para escrever algo. Dias depois do convite, o blog publicou Você não sabe de nada, em 4 de maio deste ano.

De lá pra cá, adentrei o universo dos blogs e, por isso, compreendi logo de cara o conselho do colega de profissão Zuenir Ventura. São espaços democráticos, com capacidade de abranger temas impossíveis de se imaginar. Além disso, temos a possibilidade de criar veículo direcionado, como é o Filhos da Pauta.
É por isso que o Ventura enaltece: “Talvez o blog foi a coisa mais importante que surgiu no mundo da comunicação nos últimos anos. Eles permitem uma individualidade absoluta e essa liberdade técnica e de criação é uma coisa muito nova”. Concordo!

E por muito concordar que venho a público agradecer o convite aos fundadores Léo Alves e Daniel Brito. Faço parte dessa equipe com muito gosto. Hoje, dia em que fui efetivado como integrante dela, posso afirmar que meus olhos de repórter são também olhos de “blogueiro”. Afinal, sou um filho da pauta.
Agora, o DB vai ter que inventar outras frases para justificar os asteriscos no meu nome.

* O mais novo Filho da Pauta

30 julho 2006

Perguntar é difícil

Léo Alves

A idéia que a maioria das pessoas tem é de que entrevistar é fácil. É só chegar, perguntar e pronto. Tudo resolvido. Como já relatou o grande DB, num post em abril, entrevistar é realmente uma arte. Parece simples, mas não é. Porque perguntar é difícil.

Muitas vezes, no intuíto de querer mostrar que estamos por dentro do assunto, alongamos demais a pergunta. E não fica claro para o entrevistado o que de fato queremos perguntar. A regra (que nem sempre é seguida) é ser objetivo. Evita escutar do entrevistado: “dá pra repetir, não entendi a pergunta”.

As situações são variadas. E por mais experiência que se tenha (o que não é o meu caso) um dia o repórter vai ser pego de “calças curtas”. Não tem jeito. Um dia você fará uma pergunta “imbecil”. Ou melhor, que é considerada “imbecil” pelo entrevistado. E até por alguns colegas de profissão.

Ruim mesmo é ter que prosseguir com uma entrevista depois que o entrevistado responde de forma mal educada. Aí entra o jogo de cintura.

No esporte, mais especificamente no futebol, é onde surgem as perguntas mais “imbecis”. Isso porque o jornalismo esportivo é marginalizado. E a maioria das empresas acha que qualquer repórter pode fazer esporte, que não precisa ser especializado. É a cultura de “que jogador de futebol e técnico são burros”. E não é bem assim. Eles sabem quem entende do “traçado” e quem não entende. Mas isso vou relatar noutro post.

Certa vez ouvi um repórter perguntar ao zagueiro Antônio Carlos (aquele da Seleção, do Palmeiras e que, recentemente, no Juventude, foi envolvido num caso de racismo) porque os jogadores sempre respondiam a mesma coisa. “Porque vocês repórteres sempre fazem a mesma pergunta”, disse. Não se engane existe vida inteligente no futebol.

Minha maior dificuldade é entrevistar crianças. Sinceramente não consigo ser compreendido por elas. Na maioria das vezes o máximo que consigo na primeira resposta é um “é..”. Tento mais uma vez. E tenho um balançado de cabeça como resposta. Tentativas esgotadas.

Um dia desses fui pego de “calças curtas” com uma adulta. Vou resumir a história. Fui fazer uma matéria sobre dois policiais rodoviários que tinham ajudado no parto de uma mulher no meio da estrada. Entrevistei os policiais e segui para o hospital. No meio do caminho eu me perguntava: “o que danado eu vou perguntar a uma mulher que teve um filho no meio da estrada?”. Se alguém souber pode me ajudar porque ainda não descobri. Fiz uma pergunta tão fraca (a resposta foi ainda pior porque foi monossílabica) que a entrevista nem entrou na matéria. Talvez o que correto fosse apenas perguntar só o nome do filho.

O livro “Perguntar Ofende – Perguntas cretinas que os jornalistas não podem fazer (mas fazem)”, de José Nello Marques, não é lá essas coisas de bom. Mas traz alguns exemplos que parecem folclore do jornalismo. Só parecem. É pura realidade. Apesar de não ter gostado muito do livro, algumas histórias são interessantes e engraçadas. E mostram que perguntar não é tão fácil como se imagina.

27 julho 2006

Lula veta projeto

Pedro Henrique Freire*

Os planos da Federação Nacional dos Jornalistas foi jogado na lixeira pelo presidente Lula. Ele vetou, nesta quarta-feira, o projeto que ampliava de 11 para 23 as funções dos profissionais, exigia diploma para fotógrafo, comentarista, locutor, cinegrafista, arquivista ou ilustrador, entre outras categorias. Além disso, criava o ConselhoFederal, tanto nacional quanto regionais.

O projeto foi encampado pela Federação junto ao deputado Pastor Amarildo, envolvido no caso das sanguessugas. O texto, aliás, ganhou areprovação da maioria da categoria, como a ANJ (Associação Nacionaldos Jornais), Aberje (Associação Brasileira de ComunicaçãoEmpresarial) e Conferp (Conselho Federal dos Profissionais de RelaçõesPúblicas). Em cartas enviadas ao presidente, os órgãos pediram o veto total do projeto.

O jornalista Alberto Dines, comandante do Observatório da Imprensa,disse o seguinte sobre o projeto no site do programa:

"A coisa toda era tão primária, mas tão primária, que não merecia outro desfecho senão a lixeira legislativa. O corporativismo é inimigo do bom jornalismo. Seja o corporativismo empresarial, dos patrões, das empresas, seja o corporativismo dos profissionais, ambos são igualmente nocivos. Esta é uma profissão que não pode conviver com governos, nem pode conviver com o poder. Qualquer poder. O jornalismo é intrinsecamente um contrapoder, caso contrário não será independente, não será isento e não merecerá a confiança da sociedade".

Nelson Motta, jornalista há 40 anos trabalhando com registro de fotógrafo, atacou diretamente a necessidade de diploma para exercer aprofissão.

"Com todo respeito, companheiros, é ridículo. Em plena era da internet, quando milhares de sites independentes fazem ótimo jornalismo e têm milhões de acessos diários, sem nenhuma forma de controle ou autorização, tentar limitar o exercício da opinião é tão inviável como voltar ao século passado", disse.

No site da Fenaj, entusiasta do projeto, há um pedido de mobilizaçãoda categoria em favor do PL.

"A reação patronal contrária ao PLC 79/04 é expressão cabal de que não lhes interessa ter a profissão regulamentada, pois assim terão mais dificuldades de explorar os jornalistas e impor suas vontades", diz o texto.

Em outro trecho, justifica a ampliação das funções que precisam de diploma:

"Este projeto inclui, na legislação já existente, funções privativas de jornalistas como a de assessoria de imprensa e corrige distorções que vêm prejudicando funções como as de repórter fotográfico, repórter cinematográfico, diagramador e ilustrador, que por não terem a exigência de curso de nível superior, sempre colocaram tais profissionais em condições de trabalho e salários mais precários".

No final, ataca quem quis colar a imagem do projeto ao deputado sanguessuga.

"Uma das tentativas de desqualificação do projeto mais absurdas é a identificação do signatário, o deputado Pastor Amarildo(PSC/TO), como um dos acusados de envolvimento com a chamada 'Máfiados Sanguessugas'. Primeiro é preciso esclarecer que na época da apresentação do projeto tais denúncias não existiam. E em segundo lugar, o deputado é que procurou a FENAJ, ainda na gestão da ex-presidente da Federação, Beth Costa, propondo-se a reapresentar o projeto originalmente encaminhado em 1989 pela deputada CristinaTavares (PMDB/PE) – já falecida – e posteriormente reapresentado pelo deputado Marcelo Barbieri (PMDB/SP), em 1995".

O racha entre os profissionais é visível. Mesmo assim, a Fenaj fala em nome de toda a categoria. Confira a íntegra da carta enviada ao presidente Lula.

A carta

Nós, jornalistas brasileiros, solicitamos a imediata sanção do projeto de lei 079/2004, que atualiza as funções privativas dos jornalistas e acaba de ser aprovado no Congresso. Trata-se de uma antiga reivindicação da categoria no sentido de avançar em sua organização e atualizar sua regulamentação profissional.

O projeto é resultado de um longo processo de discussão e luta daFENAJ, dos Sindicatos de Jornalistas de todo o país e dos profissionais que se organizam em torno deles. Passou por todas as instâncias de debates e deliberações destas entidades. Também foi democrática e publicamente discutido na Câmara e no Senado, recebendo alterações e emendas dos parlamentares.

Por isso, solicitamos a sanção, respeitando a decisão do Congresso e odireito e o anseio de organização de toda uma categoria que tantosserviços tem prestado ao Brasil e seu povo.

*Pedro Henrique Freire é repórter do CorreioWeb e está quase lá...

25 julho 2006

Números: os donos da riqueza

Pedro Henrique Freire*

O poder dos números. É exatamente nele que o presidente Lula deposita as fichas da reeleição.

Juros
bolsa família
empregos
PIB
inflação e outras coisas...

Eles serão importantes na campanha como são para o jornalismo. Fazendo matérias de economia – onde se concentram, digamos, 90% do quinhão numérico do universo da hard news – é fácil escutar a máxima:

“Jornalista adora números”

É um comentário clássico. Também, pudera. Nós adoramos mesmo. Eu, pelo menos, sou fã incondicional. Meu desafio nos dias atuais é enfiar números em matéria de tudo quando é editoria.

Para o jornal O IMPARCIAL (MA), por exemplo, escrevo muitas histórias de política. Por incrível que pareça, não foram declarações bombásticas que me renderam matérias. Foram os números.

Eis alguns exemplos:

"Os 680 candidatos do Maranhão gastarão R$ 462,76 milhões para garantir vaga no governo, no Senado Federal, na Câmara dos Deputados ou na Assembléia Legislativa. O número representa 2,3% do total de despesas que os 19,1 mil candidatos do Brasil terão nas eleições deste ano, equivalente a R$ 19,79 bilhões. Com esse numerário, o Maranhão é a 13ª unidade da federação que mais reservou dinheiro para a eleição em 2006."
(Matéria publicada no dia 23/07/2006)

Com números, a matéria ganha ares de verdade. Não somos nós que estamos dizendo, são eles (os números). Até mesmo em matérias de cultura, eles são importantes. Eis o que coloquei no final da notícia sobre o Prêmio Tim de Música, escrito para o CorreioWeb:

"A peneira que findou nos 104 indicados ao prêmio incluiu 700 CDs e 104 DVDs inscritos. A organização leva em consideração a produção fonográfica brasileira de 2005. Nesta noite, serão conhecidos 35 vencedores nas 16 categorias (...)"
(Matéria publicada em 25/07/2006)

Ou então no meio da matéria sobre denúncia de fraude em ambulâncias (as tais sanguessugas) no interior do Maranhão:

"Dos 119 municípios de vários estados, ficaram comprovadas irregularidades em 77. Em 42 – entre eles Jatobá – há indícios de fraude na compra de unidades móveis de saúde, mas as investigações ainda não foram concluídas. A apuração da Controladoria é realizada por meio de sorteios de municípios. Até agora, a CGU liberou apenas relatórios de Bernardo do Mearim e Jatobá. Cada um adquiriu uma ambulância. O primeiro, em 2003. O segundo, em 2001. O recurso usado na compra das duas unidades móveis de saúde chega a R$ 101,1 mil."
(Matéria publicada em 12/07/2006)

Nesta matéria em especial, nos seus 11 parágrafos (cerca de 70 linhas) não deixei de colocar números em nenhum deles. Claro que a razão da notícia existir eram os números. Mesmo assim, é possível compreender o poder deles. O melhor de tudo é que a informação numérica vem, sobretudo, de provas documentais, que são incontestáveis tanto para o leitor quanto para a fonte. Rechear a matéria com números é enriquecer o texto, dar-lhe legitimidade.

Diria mais: é autenticá-lo!

Não é só
Como já perceberam, os números podem ser lindos e maravilhosos dentro da matéria. Mas como frisou bem certa vez o meu amigo DB, eles sozinhos endurecem o texto. O ideal é intercalar a informação numérica com questões mais humanas. Seja uma declaração ou um personagem atingido por aquela estatística.

Um bom exemplo é o que faz o Jornal Nacional. Toda vez que o IBGE divulga o resultado daquelas pesquisas que duraram anos para serem concluídas, Bonner e sua turma fazem matéria e sempre começam com um personagem. A partir da história da “Fulana Beltrana de Sicrano de Tal”, eles desenrolam os dados e se fazem entender da maneira mais simples possível.

Esse é o segredo.

Fazer dos números uma coisa simples, inteligível. Como já perceberam, eles (os números) são um dos meus pratos preferidos dentro do jornalismo.

O meu eterno desafio é mastigá-los e fazer os leitores digerí-los bem...

*Pedro está na semana pré-natal para se tornar um Filho da Pauta

23 julho 2006

Falsa realidade

Daniel Brito

Caso Waldomiro. Mensalão. Sanguessuga.

Esses são os três escândalos de corrupção do governo Lula que os deputados e senadores estão "investigando" por intermédio de CPIs.

Coloquei o verbo inverstigar entre aspas porque aqueles senhores que nós empregamos a cada quatro anos nas eleições federais não passam de enganadores. Eles não descobrem nada, não sabem de nada e não fazem nada além de uma encenação para dar uma resposta a quem precisa dela.

Não pensava em escrever um desabafo, mas estou achando que este texto vai acabar se tornando isso mesmo.

Vamos resumir aqui os três casos citados na primeira linha deste post:

Caso Waldomiro
Um assessor de José Dirceu é filmado cobrando dinheiro de donos de bingo no Rio de Janeiro e Brasília para ser usado nas campanhas do PT nas duas cidades, em 2002.

Mensalão
Acusado de comandar um pequeno grupo de corruptores na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), o deputado Roberto Jefferson denuncia a existência de uma mesada para os deputados dos partidos pequenos votarem a favor das emendas do governo no Congresso.

Sanguessugas
Mais de 60 deputados são acusados de vender ambulâncias superfaturadas para prefeituras do interior (principalmente do Nordeste).

Todas estas histórias surgiram primeiro na imprensa para depois ser "investigada" pelos deputados. Tudo bem, o papel da imprensa é realmente denunciar.

Mas, me explica uma coisa, será que ninguém no Congresso não sabia da existência de nenhum desses escandâlos antes de estourar nas páginas dos jornais???

Claro que sabia.

Algum traidor-do-movimento-punk no Congresso passou na surdina a informação para a imprensa, que detonou as histórias.

E se nós vivéssemos na China, onde todos os jornais têm como sócio o governo chinês?

Não existiria CPI no Brasil. Denúncias de escândalo?

Tá louco...

Lá, pelo menos, o crescimento do país é visto a olho nu.

Nas CPIs instauradas para apurar todos os três escândalos não foi provado nada mais do que os jornais denunciaram. O caso Waldomiro, por exemplo. A Revista Época que detonou a história. Interrogaram quinze mil pessoas citadas nas fitas e ninguém foi considerado culpado. Só "o pobre" do Waldomiro Diniz mesmo, que se deixou ser pego.

No Mensalão, a Folha de S. Paulo publicou em primeira mão. Deste caso, surgiram vários outros. Chegaram até a derrubar o ministro da Fazendo porque descobriram um caseiro, que o denunciou.

Quem descobriu o caseiro?

O jornal Estado de São Paulo.

No caso dos sanguessugas, o Correio Braziliense levou à tona a roubalheira de deputados do (mais) baixo clero e até o senador-sabonete Ney Suassuna, da Paraíba. Ele escapa de todas, mesmo que todo mundo saiba que ele está envolvido. (Cadê um inimigo político para denunciá-lo agora??)

Se forem criadas 15 mil novas CPIs, nada de novo ou extraordinário será descoberto. Os deputados e senadores, mesmo que sejam opositores uns dos outros, vivem num jogo de cumadre. Atacando pelas costas, entregando dossiês aos jornalistas, porque poucos (ou nenhum) tem a disposição de tomar o microfone para contar qualquer uma das coisas que tenham sido relatadas aqui.

O que tem de diferente do governo Lula para os anteriores?

A imprensa.

É ela quem denuncia, quem apura e, principalmente, quem julga.

19 julho 2006

Malditos personagens

Daniel Brito

Jornalista adora personagem. Uma história curiosa, um lance fora do comum, um caso diferente. Tudo, para os jornalistas de Brasília, é matéria. E merece destaque.

Sabe aquelas materinhas típicas do Fantástico, que mostram historinhas interessantes de pessoas comum? Por exemplo, domingo passado eles (a galera do Fantástico) abriram uma discussão sobre ciúmes. Para personalizar o assunto e não deixar apenas psicólogos falando, eles (a galera do Fantástico) encontraram dois casais. Um ciumento e outro não.

A partir da história deles, a matéria se desenrolou.

Pois bem. Serve para ajudar as pessoas a se identificarem com a reportagem. Principalmente nas editorias de economia, até cidades mesmo. Aqui em Brasília é assim.

Matéria sobre CPMF: encontrar um personagem que reclame e outro que elogie a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira.

Matéria sobre a queda do IPC: encontrar pessoas que estão comemorando o longo período de compras por causa da baixa no Índice de Preços para o Consumidor.

Algumas vezes pode ser legal ler essas histórias, mas fazê-las ou encontrar os personagens ideais é um problema grande. Sempre cai nas costas do repórter.

Com alguma freqüência, eu tenho recebido essa pauta.

Por exemplo: maratona de revezamento de 100KMs. Um personagem tem que ter história louca, tipo um velhote que corre muito. Uma mulher grávida, um deficiente físico.

Domingo passado recebi essa missão de novo:

"Fazer um 'duelo de torcidas' do Vasco e do Flamengo".

Tive sorte desta vez.

Arrumei um casal de amigos meus que é vascaíno e flamenguista. A irmã da flamenguista também é flamenguista e o namorado dela é também é vascaíno. Deu tão certo, que eles foram a capa do jornal de segunda-feira e destaque nas páginas internas do caderno de esportes.

No outro dia, pessoas que não conhecem casal de amigos meus me ligaram reclamando da pauta. O casal de amigos meus gostou. As pessoas que conhecem eles também.

Contar histórias de torcedores para torcedores não é muito interessante. A repórter Cida Barbosa, que cobriu a Copa do Mundo para o Correio Braziliense, tinha por obrigação contar histórias dos torcedores brasileiros na Alemanha.

Acho que poucas pessoas leram, a não ser os chefes.

Me lembro quando ainda tinha 13 anos, comecei a assistir e me vestir como jogador de basquete da NBA. O então repórter do Correio Braziliense Paulo Rossi -- hoje, meu editor -- me entrevistou. Contei porque estava me vestindo e vendo jogos de basquete. Meu irmão também. Fomos o lide do texto dele.

(Até hoje, tiro onda com Rossi dizendo que ele escreveu os nomes dos jogadores que citei tudo errado. É brincadeira, mas é verdade)

No jornalismo da Paraíba, onde me formei e trabalhei por seis anos, os "pauteiros" (ô nome feio!) não costumam utilizar esse recurso. É só release e ponto final. Meu amigo Da Silva tá aí para provar isso. Manu, nossa leitora assídua, também.

Até o Grande Predo pode contar que o que acontece no Maranhão. Não acredito que seja diferente da pequenina, porém heróica, Paraíba.

Fazer jornais só por relesases é muito pior do que contar histórias de personagens, disso eu não tenho dúvida. Só gostaria de encontrar outra maneira de escrever reportagens sem ter que depender tanto do (quase) já batido recurso dos personagens.

Malditos personagens.

15 julho 2006

Não é diversão. Nem turismo.

Léo Alves

Não sei se algum colega já ouviu a frase: “a vida de jornalista é muita boa. Só faz entrevistar gente famosa e viajar muito”. Por incrível que pareça essa é a visão que muita gente tem da nossa profissão. Na cobertura do São de João de Campina Grande ouvi comentários que seguiam esse pensamento. Isso pelo fato de ter entrevistado alguns famosos e outros nem tão famosos assim. Aliás, só entre nós, alguns que eu nem sabia que existiam.

O fato de estar fazendo a matéria de um show é interpretada (por muita gente) como divertimento. Tudo bem que é diferente de uma matéria policial, por exemplo, mas não dá para o repórter se deslumbrar com o show e esquecer do relato jornalístico. É importante nunca esquecer que o repórter está ali para colher informações para sua matéria. E não como um fã.

Na viagem de uma hora e meia até o Distrito de Galante no trem do forró uma cearense me disse que era muito boa a nossa vida “porque a gente estava ali só se divertindo”. Só fiz balançar a cabeça numa resposta negativa. “Não dá pra se divertir?”, ainda perguntou. Quem está no batente sabe que não. Às vezes é difícil até fazer a matéria. No caso do trem é apertado e tem muita gente dançando (a maioria cheia de cachaça). O repórter leva é muito empurrão.

Nas viagens à trabalho somos confundidos, por alguns, com “turistas”. Pensam que a viagem é para se divertir. Fico pensando nos colegas que são mandados para lugares distantes para fazer uma matéria. Acredito que não dá para curtir muito o lugar, por mais bonito que seja. Comparo com minhas viagens às cidades paraibanas. Só dá para se concentrar na matéria. Quase ninguém fala nisso. Mas a responsabilidade do repórter é grande. Já imaginou viajar numseiquantos quilômetros e não voltar com uma boa matéria?

Fiquei pensando nos colegas enviados à Copa do Mundo. Principalmente os de jornais impressos. Aqueles que tiveram que se virar sozinho para fazer suas pautas e matérias. Acredito que seja por isso que só cobrem eventos internacionais os mais experientes. Eles já estão “tarimbados” e nunca vão (pelo menos é o que se espera deles) se encantar com o lugar e esquecer da notícia.

Porém é preciso ter sensibilidade para observar ao redor, pois “esse redor” também pode render uma boa matéria. A diferença é que a visão tem que se jornalística. E não turística.

12 julho 2006

Eleições sem risco

Pedro Henrique Freire*

Época de eleição é sempre um Deus-nos-acuda. O "bicho" começa a pegar na preparação para as filiações dos partidos. Depois de dada a largada oficial para os candidatos, a coisa piora. O melhor, portanto, é estar preparar. Nos últimos dias, os repórteres dos veículos dos Associados Centro-Oeste (Aqui DF, Correio Braziliense, CorreioWeb e as rádios) que irão cobrir eleições, foram bombardeados com informaçõesimportantes que ajudarão na cobertura.

O lema é: evite processos judiciais.
A recomendação é: na dúvida, não publique, não corra riscos.

Como assim?

Ora, apesar das maneiras "peculiares" dos juízes e ministros interpretarem alguma denúncia, a maioria, penso eu, tenta ser justo. Mas ninguém sabe que fim leva um processo que tem, em média, somente um dia para ser julgado.

Por isso, a recomendação é que a cobertura de política não entre no jogo político. Evite denúncias sem fundamento de um candidato contra o outro, tenha feeling para perceber quando o político tenta usar o jornal como palanque e, acima de tudo, se atenha às propostas. Só as propostas!

Espaços
Na tentativa de buscar a imparcialidade (morta antes mesmo de Gutemberg inventar a prensa), o Correio Braziliense dará o mesmo espaço para os principais candidatos. A lógica segue a mesma do tempo de televisão.

Na telinha funciona assim: quanto maior a representatividade do partido naquela eleição, mais minutos ele ganha.

No jornal será assim: quem estiver melhor nas pesquisas ganhará maior espaço. Digamos: uma página por dia para Lula, Alckmin e Heloísa Helena. Quem estiver com 1%, terá, no máximo, sua agenda ressaltada em algumas linhas.

Acredito que, para o leitor-eleitor, é um belo exemplo e também dará segurança ao jornal caso candidatos que estão no páreo queiram reivindicar o mesmo espaço. Mas essa igualdade impressa nas páginas do jornal tem seus contras.

Se um candidato produzir notícias e o outro não?
O que será colocado naquela página?
Amenidades?

Outro caso: se o espaço reservadopara um receber matérias propositivas e o outro matérias denunciativas, numa clara demonstração de parcialidade?

Reservar tamanho de jornal antes da notícia aparecer é uma medida, no mínimo, polêmica.

Na reunião, os advogados que estavam nos municiando com as informações elogiaram a medida. Mas ressalvaram: não é preciso fazer isso. Os jornais têm liberdade garantida, pois não precisam de concessão pública para existir.

Bom, mas o Correio fará. No entanto, o diretor de redação do jornal disse que agirá também com o bom senso jornalístico. Isto é, espera-se que a notícia fique em primeiro plano.

Veremos!

Pode ser que eu mude de idéia. Mas, no momento, acho que jornalismo é um mar e nós, repórteres, navegamos nele. Ou melhor, somos levados por ele. Então, como mudar a rota do barco se não sabemos de onde vem a chuva? Como reservar espaço para matérias que nem mesmo sabemos se é notícia?

Lembra da recomendação dos advogados?

Pois é, na dúvida, evite correr riscos.

É o que o Correio fará.

* Pedro Henrique Freire está a um passo do paraíso

11 julho 2006

"Notícia na internet dura 36h"

Da Agência Estado

SÃO PAULO - Esta notícia só afetará o grande público por um prazo aproximado de 36 horas após sua publicação. Esta foi a conclusão de uma análise conduzida por pesquisadores dos EUA e da Hungria, que estudaram a dinâmica do acesso a notícias em portais na internet.

Algumas conclusões da análise seguem o senso comum, como o fato do pico de acesso à notícia coincidir com um período de poucas horas após sua publicação, o que é seguido de um declínio crescente, para até um dia e meio após a matéria ter sido veiculada.

De acordo com a análise, o padrão de visitação para uma notícia decai de forma previsível, por conta da natureza heterogênea dos padrões de navegação de usuários individuais. Traduzindo: como os usuários nem sempre visitam o portal quando a notícia está no ar, ou em evidência, por ser nova, eles podem perder conteúdo de seu interesse.

O argumento reforçaria a necessidade de criar newsletters segmentadas por assunto, bem como canais RSS mais eficientes, que entregariam conteúdo adequado ao perfil de cada usuário, potencializando a visualização de uma notícia.

Para chegar a estas conclusões, os pesquisadores analisaram o histórico de visitação de 250 mil usuários de um portal de notícias húngaro ao longo de um mês.

O estudo completo pode ser adquirido ou visualizado no site científico Physical Reveiw E.

10 julho 2006

Tino "Tudo-Bem" Marcos

A Globo encerrou bem sua cobertura da Seleção Brasileira na Copa. A entrevista de Roberto Carlos para Tino "Tudo-Bem" Marcos no Fantástico de domingo foi a cereja do bolo global.

Antes mesmo de a Copa começar, a Globo e Roberto Carlos estavam na berlinda. A emissora porque deitava e rolava na cobertura diária da Seleção e o lateral por ser constetado até mesmo dentro do grupo de jogadores que representavam o Brasil na Alemanha.

A primeira vez que vi a Globo pedir desculpa para alguém por ter errado foi nesta Copa. O Jornal Nacional se desculpou por ter "lido" os lábios de Parreira nos primeiros jogos e concordou que isso era "invasão da privacidade" do treinador. Só uma coisa explica isso: o acesso livre dos repórteres-celebridades aos quartos e até aos carros dos jogadores. ´

Isso NÃO é invasão de privacidade?

A entrevista de Roberto Carlos foi mais uma prova do comprometimento da Globo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De repente, eles nem tinham a intenção de agradar à CBF, mas livrar a barra de uma camaradinha deles: Roberto Carlos.

Tino "Tudo-Bem" Marcos foi até Madrid, onde o lateral-mascarado mora há quase dez anos, fazer a pergunta que todos os brasileiros queiram fazer:

- Por que ele não marcou Henry no lance do gol?
Resposta de Roberto Carlos:
- A minha obrigação era não fazer nada. Até pela minha estatura, não posso marcar um adversário de 1,90m.

Aí entra a figura de Tino "Tudo-Bem" Marcos. Qualquer outro repórter emendaria a pergunta:

- De quem era a obrigação de marcar Henry, então?

Se não me engano, o lateral-mascarado ainda disse que a marcação dentro da área dependia dos zagueiros e bola na pequena área deveria ser do goleiro. Esta frase foi dita em outro contexto, e o que é pior, tranferindo a responsabilidade do gol que tirou o Brasil da Copa para os companheiros que estavam no agarra-agarra dentro da área com os grandalhões franceses no fatídico lance.

Tino "Tudo-Bem" Marcos seguiu o texto normalmente e fingiu que Roberto Carlos já tinha dado a resposta que todos gostariam de saber.

Honestamente acho que colocar naquele lance toda a responsabilidade pela saída precoce da Seleção é coisa de gente sem argumento. Aquele gol de Henry é o símbolo da Seleção Brasileira neste Mundial: preguiçosa, irresponsável, acomodada e alheia aos adversários. Henry poderia até fazer aquele gol. Mas daí até a Seleção dar apenas um chute na direção do gol em 90 minutos é outra história.

Para nosso consolo, em 2010, Roberto Carlos não vestirá a camisa amarela. Por outro lado, a Globo continuará com seu monopólio...

09 julho 2006

Questão de estilo

Daniel Brito

De Roberto Pompeu de Toledo nunca li nada além da tradicional coluna na última página da revista Veja, mas me impressionei com um livro que acaba de lançar. Acho que o nome do livro é Leda, baseado numa entrevista que ele leu de um biógrafo inglês no jornal The Guardian, se não me engano.

Qualquer coisa desse tipo.

Na madrugada seguinte à derrota da Seleção Brasileira para a França na Copa, fiquei sem sono e assisti a entrevista de Pompeu na GloboNews sobre esse livro. Fiquei imaginando o quão difícil deve ser para um jornalista criar uma história que caiba em 500 páginas, por exemplo.

O pior é que nesse livro, o protagonista é um escritor e escreve um livro sobre algum louco lá. O engraçado nesta história é que, por algum erro de impressão, o primeiro capítulo do livro que o personagem principal escreve dentro do livro de Pompeu sai após o segundo capítulo.

O primeiro capítulo virou o segundo. Este, o primeiro.

O protagonista, que se chama numseidasquantas Dopolobo, fica revoltado com o erro, mas nos dias seguintes ao lançamento do livro vê comentários positivos à jogada de "trocar os capítulos".

No final das contas, ele acertou errando.

Curioso, né? Não está no livro do livro de Pompeu, mas de repente, se o tal Dopolobo tentasse fazer essa "brincadeirinha", não teria dado certo.

É uma questão de estilo.

Eu, por exemplo, admiro pessoas que conseguem amarrar o texto do primeiro ao último parágrafo e aquelas que sabem ir e voltar no tempo sem perder a linha de raciocínio.

Esta segunda parte é muito difícil, por isso nem me atrevo muito. Por outro lado, todos os dias tento fazer algo parecido com esse lance de começar com um assunto, contar a história principal, e encerrar com o mesmo assunto que começou .

Senão, vejamos:

Correio Braziliense
Quarta-feira, dia 4 de julho

Conversar com Michele Valensise, embaixador da Itália no Brasil, após o jogo da Azzurra é uma tarefa complicada. Grudado ao telefone celular, ele quase não parou para conversar com os jornalistas ao final da semifinal de ontem. Nem no intervalo da partida, quando o placar ainda apontava 0 x 0, Valensise quis dar entrevistas. O jogo que garantiu a vaga italiana para mais uma decisão de copa do mundo foi acompanhada de forma curiosa na embaixada, na Asa Sul.

Cinqüenta pessoas reuniram-se, em silêncio, na Sala Nervi. Um grande salão escuro no térreo da bonita sede da representação italiana no país, que serve como cinema em outras ocasiões. A manifestação em Brasília resumiu-se a aplausos nas jogadas mais emocionantes contra os alemães. Durante 118 minutos, a torcida italiana ficou quieta diante do telão. Nada dos tradicionais gritos de guerra, cânticos ou palavras de incentivo.

Apesar de a partida ter sido eletrizante, a semifinal de ontem chegou a dar um pouco de sono para quem a acompanhou no escuro e no silêncio. O protocolo foi quebrado por Guido Grattapaglia, funcionário da embaixada. No momento em que o volante Pirlo recebeu a bola na entrada da área, antes dos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, Grattapaglia puxou o coro de “Itália! Itália!”.

Alguns segundos se passaram até que o lateral-esquerdo Fabio Grosso recebesse um passe dentro da área e fizesse o primeiro gol do jogo. Enquanto um bandeirão nas cores vermelho, verde e branco era desenrolada por um dos filhos de Grattapaglia, Alessandro Del Piero fechava o caixão alemão. “A colônia italiana no Brasil está em festa, mas aqui temos que ser reservados por motivos óbvios”, explicou Guido Grattapaglia, morador de Brasília há 32 anos.
Otimismo
Abraços, comentários sobre a atuação da Azzurra, planos para assistir a final no domingo de novo no salão escuro da embaixada. Tudo muito discreto, bem diferente do que acontecia em Roma naquele momento. “Liguei para meus amigos em Roma, estão todos nas praças, bêbados, comemorando a vitória”, contou Pietro Sferra Carini, secretário comercial da embaixada.

Diferentemente das duas copas anteriores,quando a Itália caiu antes de chegar às semifinais, os torcedores do time de Marcello Lippi previam uma boa campanha na Alemanha. “Em 2002 não sentia a Itália tão forte como neste ano”, comparou Gianfranco Favara, que está no Brasil há quatro anos. “Nosso futebol mistura arte com concreto. Temos uma zaga forte, um goleiro excelente e um contra-ataque muito rápido”,exemplificou Edoardo Lando, torcedor da Juventus de Turim.

Com um largo sorriso, o professor de italiano Giuseppe Benedini lembrou que sua seleção nunca conquista as coisas com facilidade. “A Itália gosta de um drama”, brincou, sobre a partida de ontem. Ele aproveitou para alfinetar os alemães e chamá-los de freguês em legítimo italiano. “Somos a bestia nera da Seleção Alemã”, provocou Benedini. Em 29 duelos, esta foi a 14ª vitória da Azzurra sobre os germânicos, a segunda só neste ano.

Quando, finalmente, o telefone celular deu uma trégua, o embaixador Michele Valensise opinou sobre a Seleção de Lippi.“Sempre tivemos valores individuais, desta vez não é diferente. Mas, agora, eles jogam de forma conjunta. Um ajuda ao outro”, definiu.

Pode não parecer, mas tentei amarrar o primeiro parágrafo ao último. Ninguém veio reclamar que faltou informação ao primeiro parágrafo ou que coloquei a informação inicial no último parágrafo. Coisa que os jornalistas iniciantes, como eu, costumam fazer.

Há uns quatro meses escrevi alguma coisa parecida com isso que tento me especializar e acho que fui mal interpretado. Olha só:

Primeiro parágrafo:

A conquista de uma medalha no Mundial de piscina curta (25m), que começa na quarta-feira, em Xangai, na China, renderá à brasiliense Rebeca Gusmão um jantar inesquecível. Se quebrar o tabu de 33 anos sem uma brasileira subir ao pódio em mundiais— a primeira competição aconteceu em 1973 —, a única representante do Distrito Federal na Ásia promete traçar um prato de gafanhotos para comemorar. A iguaria é um dos mil pratos típicos da cozinha chinesa. Ela garante que não é exagero. Já está prometido. Basta nadar de igual para igual com a recordista mundial dos 50m nado livre em piscina de 25m, a sueca Therese Alshammar, e a australiana Lisbeth Lenton, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas.

O último parágrafo:

Até hoje, nenhuma nadadora do país faturou medalhas em campeonatos mundiais, seja em piscina curta ou não. “O Brasil voltará com seis, sete medalhas da China. Se eu trouxer uma, como prato de gafanhoto, carne de cachorro, papagaio, o que tiver paracomemorar”, finalizou Rebeca Gusmão.


Pelo que soube dos jornalistas concorrentes (que não costumam elogiar), esse meu texto foi taxado como de "iniciante". Ou seja, lide-no-pé-do-texto.

Quem sabe lendo o livro de Roberto Pompeu de Toledo eu não consiga amarrar as histórias no meus futuros textos?

(Amarrei?)

07 julho 2006

Das aspas

Daniel Brito

A coisa que mais me impressionou no Correio Braziliense, na primeira vez que entrei lá para escrever um texto, foram as aspas.

Em agosto de 2002 fui passar as férias no CB. Era repórter da TV Borborema, em Campina Grande-PB, estudante de jornalismo da UEPB, e queria preparar terreno para uma contratação após o curso.

Passei uns 30 dias dentro do CB enchendo o saco de todo mundo, conversando, conhecendo, trabalhando e me apresentando. A primeira reportagem fiz foi no Brasiliense. Apurei uma história lá que o atacante Túlio (aquele mesmo, campeão brasileiro em 1995 com o Botafogo) não foi ao primeiro treino no time porque ficou no meio da rua sem gasolina.

Colhi o que tive oportunidade de colher com as pessoas envolvidas na história, menos Túlio, com quem não consegui conversar. Não anotei exatamente a frase que as pessoas diziam para mim. Anotei tópicos. Tipo:

- Faltou gasolina no carro de Tulio, porque está chegando de viagem de Goiânia, e só treinará aqui amanhã

Anotei algo como:

"Faltou gasolina"
"Viagem goiânia"
"treino amanhã"

Na hora de escrever a matéria, escrevi qualquer frase lá que encaixasse esses três tópicos e estava tudo resolvido.

Achei estranho, porque todo mundo me perguntou se era exatamente daquela maneira que fulano de tal que eu havia entrevistado tinha falado. Quando trabalhava na Paraíba, não fazia muita questão de reproduzir a frase ipsis literis (tá certo isso?).

Nesse caso de Túlio, acho que não errei!

Essa foi só uma pequena história, porque não quero me prolongar muito (mas acho que não vou conseguir).

Hoje, exatamente quatro anos depois das férias na redação do Correio, tenho a ligeira impressão que não aprendi direito a lição.

Quarta-feira passada, fui à embaixada da França fazer a cobertura do jogo contra Portugal. Então estava toda colônia francesa de Brasília reunida e aquela conversa furada toda de Copa do Mundo. Entre as pessoas, estava um embaixador brasileiro torcendo para França.

Achei estranho, porque é difícil encontrar algum brasileiro torcendo para a França nesta Copa (nem a minha irmã, que namora um francês). Na conversa ele me explicou que morou na França e que gosta muito de lá. No meio da comemoração do resultado era difícil anotar a frase da maneira que o camarada dizia. Então, adotei o estilo "tópicos".

Ele falou uma frase interessante que eu anotei pela metade em meu bloquinho e saiu assim na edição de quinta-feira no Correio:

"Aposto que se o Brasil jogasse contra Cuba, José Dirceu não torceria para a Seleção".

No dia seguinte, o danado do embaixador me liga revoltado. Segundo ele, disse que ele estava torcendo contra o Brasil e fez questão de que o Correio Braziliense publicasse um "erramos". Na ediçao de hoje, sexta, saiu o seguinte "erramos":

Na matéria “Tempo de fazer amigos” (6/7, pág. 35), saiu errada uma frase do embaixador brasileiro Fernandes Vieira Guilbaud, quando defendia sua preferência pela França no jogo contra Portugal, pelas semifinais da Copa do Mundo. O correto é: “Se Portugal enfrentasse Cuba, aposto que José Dirceu não torceria para os portugueses”.

Achei que o embaixador estava sendo estrela em reclamar de uma coisa dessas, mas depois percebi que fiz realmente besteira. Fiquei até envergonhado, admito!

Não que pudesse mudar o destino da carreira diplomática dele, mas incomoda ver pessoas errando com coisas suas, no caso, as aspas.

06 julho 2006

Narração pela internet

Pedro Henrique Freire*

Primeiro, a esperança. Depois, as lágrimas. Ou quase isso. Minha frustração de ver o quase-aposentado Zidane dando um baile nas estrelas brasileiras pela segunda vez em Copas do Mundo foi travada pelo trabalho. Não que eu não tenha assistido ao jogo por estar fazendo matéria em algum fim de mundo. Eu vi tudo. Mas não me emocionei, chorei, quebrei copos, xinguei.

Ao contrário de milhões de brasileiros, eu estava no seleto grupo de jornalistas que assiste ao jogo e “desembocam” (lá no Maranhão também falam essa) frases descritivas na internet. Coisas do tipo: “Henry recebe o cruzamento na direita e, sozinho, marca o GOLLLLL! França 1. Brasil 0”.

Fazer jogo minuto a minuto é interessante. As vezes você se sente um Cléber Machado da vida. Um narrador de verdade. Em alguns momentos, aproveita para cutucar: “O Brasil está apático no jogo. Não marca. Não sabe sair com a bola e enfrenta enorme pressão francesa”.

Para narrar um jogo pela Internet, é preciso atenção para transmitir o clima que o internauta precisa sentir. O objetivo é fazer com que ele vibre com algumas frases. Letras grandes devem aparecer precedidas de exclamação em alguns momentos. Tudo dará o tal “clima”.

Mesmo assim, quem escreve está em transe. Concentrado secamente nas jogadas. Não sei se aconteceu com todos os brasileiros que estiveram no batente, mas o trabalho me isentou (um pouco) da condição de torcedor. Entrei na redação do CorreioWeb e saí de lá como um jornalista árabe cobrindo Brasil e França: sem o menor entrosamento com o andamento da partida.

Quando acabou o jogo, o máximo que consegui dizer foi:

“É, amigo, Brasil e favoritismo nunca se deram bem”.

Saí do Correio às 18h25 feliz por ter acabado mais um dia de trabalho. Mais tarde, vendo os noticiários, percebi que a minha frustração era maior que a derrota. Era a frustração de quem não conseguiu vencer, nem torcer.

Eis a narração de alguns momentos do jogo:

A hora do gol
8 min França joga a bola pra área... juiz marca impedimento

9 min Brasil tenta infiltrar na área. Mas França se fecha

11 min Falta para a França. Bola vai para área. É GOOOOOOLL da França!

11 min Henry faz 1 a 0 com o pé direito! Ele apareceu sozinho na cara do gol e não
desperdiçou...

O fim do jogo
42 min Falta perigosa para o Brasil!

43 min Ronaldinho bate... passou perto do gol francês!

44 min Em todo o jogo o Brasil chutou cinco vezes a gol. Todas para fora.
45 min Ronaldo bate para o gol e goleiro defende!

46 min Teremos três minutos de acréscimo. É pressão brasileira no jogo

47 min Ronaldo tenta entrar na área. É desarmado

48 min ACABOU. BRASIL ESTÁ FORA DA COPA!

48 min DECEPÇÃO. Com baile de Zidane, Brasil pára nas quartas-de-final contra a França.

DECEPÇÃO Seleção francesa faz festa em campo.

* Pedro Henrique Freire é repórter do CorreioWeb, odeia Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Galvão Bueno

03 julho 2006

Balanço da Copa

Léo Alves

Antes de a Copa começar conversei bastante com a produção da tevê para definir quais as pautas deveríamos fazer nos jogos da Seleção. O assunto também foi discutido com meu parceiro de blog, o grande DB, que também se mostrava preocupado em não fazer o “lugar comum”. O objetivo era tentar descobrir pautas diferentes e interessantes.

Começamos até bem.

Acompanhei a estréia do Brasil num seminário, como já relatei em outro post. Queríamos mostrar o que mudava na rotina dos seminaristas. Tínhamos definido que nos jogos seguintes iríamos a uma comunidade que acompanhava os jogos da Seleção pelo rádio e noutra (aceitando uma sugestão de DB) que acompanharia a Copa pela primeira vez na tevê.

Seria um lugar onde a energia elétrica havia chegado há pouco tempo. Os dois locais estavam definidos, mas por questões superiores não conseguimos executar a idéia. Tivemos que acompanhar os jogos num hotel onde a transmissão era digital e no Parque do Povo, como nas Copas anteriores. Fomos obrigados a cair no óbvio. Não por falta de idéias, mas por questões superiores.

Matérias recomendas (as famosas rec) não se discutem. Cumprem-se.

Senti um pouco de frustração em toda a equipe. Sentimento que aumentou ainda mais quando assistimos no Jornal Hoje uma matéria com um senhor que acompanhava a Copa pela primeira vez na tevê. Depois foi o Esporte Espetacular que fez outra num local onde as pessoas ouviam o jogo pelo rádio. Tivemos as mesmas idéias do pessoal da rede. A diferença é que eles executaram.

Apesar de não ter conseguido fazer tudo que imaginamos o saldo foi positivo. Algumas matérias me chamaram a atenção. Lembro de uma sobre o japonês que é presidente do Parque Teconológico de CG.

Ele é chefe da galera, mas no jogo do Brasil contra o Japão ninguém se encabulou de pertubar com o derrotado. Eu gostei de ter feito uma com os franceses um dia antes da partida. Lá de João Pessoa lembro de duas. Uma sobre torcedores mirins e outra sobre uma casa que só tem mulher torcedora.

Com o Brasil fora da Copa as pautas (claro!) diminuem.

Para as emissoras de tevê e jornais com abragência nacional o assunto da desclassificação ainda vai render mais alguns dias. Mas para os veículos regionais, acredito eu, as pautas relacionadas ao Mundial talvez tenham chegado ao fim junto com a participação brasileira.

É possível que ainda renda alguma matéria com os brasileiros (no nosso caso, paraibanos) torcendo por Portugal. Aliás, a respeito desse assunto e a queda da venda (o estoque encalhado) das camisas da Seleção foram matérias exibidas nesta segunda-feira (03/07).

A partir de agora o jornalismo volta à rotina.

Até o fim do ano, as eleições vão ser o foco dos noticiários. Então é se preparar para os debates, pautas sobre chegada e inseminação de urnas, segurança e outros assuntos que giram em torno de uma eleição.

Até aí tudo bem.

Pior é ter que agüentar as mentiras dos candidatos no horário eleitoral...