25 fevereiro 2008

Vaga hereditária

Por Daniel Brito

O New York Times publicou, na semana que passou, uma matéria sobre o neto do criador da Toyota. Akio Toyoda tem 51 anos, 24 dos quais dedicados à maior montadora de carros do Japão. Seu pai, Suichiro, já era presidente da Toyota, mas nem por isso Akio foi privilegiado na carreira dentro da empresa.

Para começo de conversa, esse japinha estudou muito. Formou-se no Japão, fez MBA em Boston e virou investidor em Nova York. "Ninguém quer ser seu chefe. Mas se você quer trabalhar aqui, que seja pelo caminho normal", avisou o velho Suichiro quando Akio expressou o desejo de integrar a "família Toyota". Aos 27 anos integrou-se ao negócio da família como trainee, diga-se.

Na reportagem, traduzida para o português e publicada no domingo na Folha de São Paulo, o repórter deu um contraponto à declaração do pai ao dizer que o sobrenome facilitou o caminho do garoto na escalada até a diretoria. Ao mesmo tempo que o texto mostra que Akio mostrou muita competência para chegar ao topo porque passou por todos os setores da indústria, "menos na engenharia".

Agora, uma pergunta:
Quem vai criticar a família Toyoda por ter colocado parentes de primeiro grau na fábrica?

Toyota é o carro importado mais vendido nos Estados Unidos, além de ser o veículo mais "popular" do Japão.

Certamente, se o velho Toyota, criador da fábrica há milhares de anos-luz, fosse um vendedor de maçãs, ele colocaria seu filho para trabalhar no ramo, até mesmo para ajudá-lo. Aí as críticas, se é que elas existem hoje, pelo "nepotismo" jamais existiriam. Seria, sim, elogiado por ser um pai atencioso, que faz de tudo para sustentar a família.

Antes que me interpretem mal, é preciso esclarecer que não defendo aqui o nepotismo "tradicional", daquele que vira manchete de jornal porque deputados empregam 12 membros da família em seu gabinete para cada um faturar R$ 5 mil por mês sem pisar no congresso. Nem o nepotismo cruzado, quando os políticos distribuem sua verba de gabinete a parentes de alguém a quem deve um grande favor.

Os pais, naturalmente, servem de inspiração para os filhos. Ronald, filho do Ronaldo Fenômeno quer ser jogador de futebol. João Paulo Diniz, filho de Abílio Diniz, é empresário. Maria Rita é cantora, como foi sua mãe, Elis Regina. Ticiane Pinheiro é modelo, assim como Helô Pinheiro, a garota de Ipanema.... Posso passar o resto do dia aqui citando exemplos.

Ao mesmo tempo que a vocação vem como herança genética, a pressão e a necessidade de mostrar mais que o familiar "famoso" fez são dobradas. Caso contrário, o herdeiro cai no ridículo. Taí Edinho, filho de Pelé, para não me deixar mentir. Isso serve em todas as áreas.

Eu, por exemplo, passei os últimos 12 anos ouvindo que só estava no jornalismo por causa do meu pai, que não é famoso, não tem uma fábrica de carro, nem nada. Apenas dirigiu uma empresa de comunicação na pequenina e heróica Paraíba e me deu um grande incentivo. Aos 15 anos, comecei na rádio. Aos 19, fui para a TV. Fui criado ouvindo que só estava no ar por causa do meu pai. Nunca me importei com isso.

Aos 22 anos, me formei e vim para Brasília. Passei por um portal de internet, dois jornais. Em um deles, o último que estava, meu pai já havia trabalhado como editor dez anos antes de minha chegada. Isso, aliás, foi motivo para eu ouvir a crítica mais criativa e ácida que já fizeram ao meu trabalho. "Existe uma vaga hereditária na editoria de esporte". Nunca deixei de fazer o que sempre gostei de fazer por causa dessa afirmação, nem quis provar nada para o autor. Evitei, inclusive, de repassar a frase ao meu editor porque ele foi um dos mais atingidos com a crítica.

Agora estou de mudança para São Paulo. Vou trabalhar com pessoas que nunca vi antes, não sabem sequer tenho pai, mas que gostaram das reportagens que eu fiz no jornal onde a vaga "é hereditária".

14 fevereiro 2008

Vai um jabaculê aí?

Um punhado de alunos de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu, em 2000, chamar alguns palestrantes, montar umas oficinas e dar início a primeira Semana do Jornalismo. Esse tipo de evento era comum em outros cursos da UFSC, como direito e economia. Uma boa oportunidade para ouvir gente mais experiente sobre as dificuldades da profissão e do mercado de trabalho. A iniciativa deu certo: apareceram o então editor-chefe do Último Segundo, Leão Serva, o então editor de fotografia da Folha de São Paulo, João Bittar, o então editor-executivo do Correio Braziliense, Chico Amaral, e Émerson Gasperin, então editor-chefe da ShowBizz, principal revista de música do país na época.

Gasperin, além de um dos melhores jornalistas da área cultural da república bananal, era ex-aluno do curso, o que fez a primeira palestra da sua vida ter lotado o principal auditório da universidade. Uma das perguntas mais recorrentes naquela noite, a penúltima do evento, era sobre jabá. Afinal, editorias de cultura são as que têm mais jabaculê disponível. Gasperin devolve com duas perguntas. "É jabá ganhar um CD?", questiona, de primeira. Os estudantes ficam calados. Ele logo responde: "Não, não é. E quem é que se vende por um CD, assim tão barato?", responde. O segundo petardo vem alguns minutos depois. "Uma gravadora oferece uma viagem com tudo pago para cobrir um show do U2 na Irlanda. Eu aceito ou não?"

Mais silêncio na platéia. "É claro que sim, porra. Os meus leitores querem ler sobre o U2, é relevante. E o fato da gravadora ter pago tudo não significa que eu vou falar bem da bada", disse. Mais aplausos. O que Gasperin realmente queria dizer é que o jabá pode ser analisado caso a caso. Você pode receber o presente, desde que não seja nada absurdo, não devolver e fazer uma crítica ao produto em questão. Ou então nunca aceitar os "bônus" que empresas gostam tanto de oferecer aos jornalistas. O que realmente importa é se o que você ganhou vai influenciar ou não na sua matéria. Falo de jornais, e não de rádios, onde as gravadoras realmente pagam para as músicas serem executadas. Ah, por sinal, foi justamente nas rádios que o jabá surgiu.

As editorias de cultura, como mencionei, são as que têm mais jabás baratos: livros, discos, ingressos para cinema e teatro, por aí vai. Com a lenta mudança para variedades, outros temas acabaram agregados. Gastronomia, arquitetura, decoração e até turismo fazem parte dessas editorias. E dá-lhe convite e lembrancinhas chegarem nas redações cada vez mais em estado de contenção de despesas. Alguns muito caros, outros com o valor do troco da padaria. Quase quatro parágrafos e eu chego onde queria (esse deve ser, provavelmente, o maior nariz de cera da história do filhos da pauta!): até qual valor é aceitável você ficar om o presente?

Algumas empresas de comunicação têm regras rígidas sobre o assunto. Outras deixam seus jornalistas com suas consciências. Em maio de 2005, um caso "abalou" a crítica musical brasileira. A revista Veja publicou a matéria "O mensalinho da Maria Rita". O que aconteceu na época: a gravadora da filha da Elis Regina, a multinacional Warner, presenteou 30 jornalistas com um iPod shuffle - aquele mais baratinho, não tem? - recheado com as músicas do segundo disco da cantora. A matéria era uma paulada em três direções: em um repórter da concorrente Época, na gravadora e na própria Maria Rita. Só para constar. O dicionário Houaiss diz que jabá é "dinheiro ou qualquer coisa usada para corromper alguém, para ganhar uma inserção publicitária".

Se era demais a Warner dar os iPods? Sim, com toda a certeza. Pior eram os jornalistas que aceitaram. O iPod não é somente caro; é um objeto de consumo, um ícone da Apple. Quase três anos depois, vejo que a prática de dar iPods para jornalistas não é exclusiva da Warner. O Portland Trail Blazers, uma das 30 franquias da NBA, a principal liga de basquete do mundo, fez a mesma coisa. Na tentativa de encaixar um dos seus atletas no All Star Game, o departamento de marketing da equipe mandou, para os principais setoristas de basquete dos EUA, um iRoy, uma edição especial do iPod Nano. O Marty Burns, da Sports Illustraded, escreveu sobre isso. Ele é um dos principais colunistas de NBA dos Estados Unidos.

Os dois casos acabaram de maneiras diferentes. No Brasil, serviu como bala de canhão de publicações rivais. Depois de toda a repercussão, quase todos os colegas negaram ter aceitado o aparelhinho. Se isso realmente aconteceu, ninguém realmente sabe. Já nos EUA o debate praticamente não existiu. Os colegas simplesmente acharam um exagero ganhar o mp3 player da Apple. E todos devolveram. Ah, os repórteres norte-americanos não têm influência direta na escolha dos 24 jogadores que participarão do jogo das estrelas. O quinteto titular de cada conferência é escolhido pelos torcedores; os reservas são votados pelos treinadores.

Conseguiu chegar à alguma conclusão? Eu só sei que é preciso analisar caso a caso. Ao mesmo tempo que devolveria o iPod - nas duas situações acima - aceitaria, como já aceitei, viajar para conhecer algum destino turístico. Seja a convite do governo de um estado do Centro-oeste, como no meu caso, ou de empresas de turismo. A resposta para a pergunta lá do quarto parágrafo: o valor nem sempre será determinante para saber se o presente é abusivo ou não. Fica da consciência de cada um.

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Obs.1: essa é a minha estréia como o mais novo participante do filhos da pauta. Já tinha colaborado duas vezes, em textos que vocês acham com facilidade nos arquivos (tô com preguiça de linkar agora...). Um era sobre a morte do Norman Mailer e outro sobre os perigos da profissão repórter. Rapazes, obrigado pelo convite, espero honrar o espaço.

Obs.2: a quantidade excessiva do advérbio "então" no primeiro parágrafo não foi por falta de sinônimo ou por falta de atenção no texto. É proposital mesmo, para chamar a atenção para a rotatividade da profissão Nenhum dos jornalistas citados estão nos mesmos veículos. Gasperin voltou para Florianópolis e vive de frilas. Serva era chefe da assessoria de imprensa do José Serra na prefeitura de São Paulo; hoje não sei onde está. João Bittar é editor de fotografia da editora Globo e Chico Amaral está na Espanha, como sócio de uma empresa de design gráfico.


Obs.3: tem duas coisas que eu aprendi nos cinco anos de curso - eu demorei um pouco mais para me formar. A primeira é que ética se discute em mesa de bar. A outra é que a minha ética é a mesma do marceneiro.

11 fevereiro 2008

A tal falsa realidade

Por Daniel Brito

Os (agora) famosos cartões corporativos existem desde 2001. Volta e meia um veículo de comunicação fazia o registro meio tímido do chafariz eletrônico de dinheiro público torrado indiscriminadamente. Ao longo dos anos, os gastos só aumentaram.

No primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, na eleição passada, Lula ficou revoltado ao ser pressionado a abrir as faturas dos cartões de seus "funcionários".

- Não fffeja leviano, Alcooemim!

Ele ficou sem resposta e repetiu essa frase oito vezes para fugir do constrangimento. Por certo, ele sabe da algazarra com esses cartões durante a gestão do PSDB.

Diante das cifras obscenas alcançadas pelos portadores dos cartões mágicos no ano passado, o caso ganhou a dimensão que sempre mereceu. Está para completar dois meses que jornais, telejornais e portais escancaram o "abuso do poder econômico" em os escalões mais altos do governo.

Enquanto a imprensa posicionou todas suas baterias para os "felizardos" que têm direito ao cartão, Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, não livrou a imprensa da sua parcela de culpa.

Segundo ele, havia anos procurava os jornalistas para repassar tais informações, mas somente agora o caso veio à tona. Abramo disse também que, nos anos anteriores, os dados sobre os gastos não estavam totalmente destrinchados como agora. Deixou subentendido que a preguiça dos repórteres é a culpada pela demora na publicação das denúncias.

Até onde sei, Abramo e sua ONG são alguns dos responsáveis pela avalanche de faturas escandalosas reveladas diariamente, quase como uma tortura chinesa ao governo.

Por intermédio dele -- ainda, até onde vai meu conhecimento -- soubemos que o ministro pagou absurdos R$ 8,30 por uma tapioca; que a presidência da República fez a feira do mês numa adega e em uma casa de "carnes finas"; que a ministra da Igualdade Racial curtiu as férias por conta do nosso dinheiro e ainda chamou a imprensa de racista por denunciá-la por tal ato.

Bom, então se os cartões sempre existiram e somente agora foram devidamente devulgados, fica comprovada a tese (mais uma vez) de que vivemos numa falsa realidade. Escrevemos e acreditamos nela, também.

O governo corrobora a tese. Caso contrário, não criaria normas para o uso do cartão somente agora, depois que numseiquantos milhões já foram para as tapiocarias, free shopings, etc... Quem queria encobertar o "crime", aliás, acabou entregando outro cúmplice.

Metade da bufunfa gasta com os cartões mágicos (que o portador não paga a conta nunca e não perde o crédito!) foi sacada na boca do caixa. Se eu tirar R$ 50 do meu cartão de crédito no caixa eletrônico do Bradesco, eu pago quase o dobro de juros quando a minha fatura chegar, no mês seguinte. Então, quer dizer que o Banco do Brasil não cobra juros nos cartões corporativos, é isso?

Algum jornal já falou sobre isso?
Se sim, me avise, porque eu quero ver a posição do BB nesta história...

A sorte do governo é que o PT não é mais oposição. Quem está nessa posto atualmente também tem um amplo telhado de vidro.

07 fevereiro 2008

Para prêmios ou para o leitor

Por Daniel Brito

Para ser um bom jornalista, seu senso de competitividade precisa estar sempre perto da casa dos 100%. No mínimo, tem um editor de olho na sua produção, para cobrar mais pautas e de melhor qualidade. Tem aquele repórter que senta perto de você de olho para ocupar seu posto. Tem a concorrência buscando o mesmo furo que você está atrás deseperadamente. Tem ainda um prêmio legal de jornalismo para embolsar uma grana preta por uma reportagem bem produzida e tem, principalmente, o leitor/ouvinte/telespectador querendo estar bem informado.

No meio desse caldeirão, é fácil o jornalista sucumbir. Confudir as bolas. Afinal, faz-se um jornal para o leitor, para o editor, para a concorrência, ou para ganhar prêmios?

O grande lance é que existe um gigantesco e invisível insconsciente coletivo nas redações que nem sempre corresponde aos anseios do leitor. O que o jornalista quer ler ou escrever dificilmente corresponde ao que o leitor comum (aquele que já foi chamado de Homer Simpson por um apresentador famoso) está interessado.

Olha aí os prêmios de jornalismo para comprovar.

O que está em questão nessas premiações:

A capacidade de mostrar a miséria do país?
A hemorragia generalizada do sistema político?
O texto refinado?
A história pitoresca?

Não creio que sejam todas as alternativas acima.

Sim, porque as grandes redações estão recheadas de jornalistas em busca do estrelato. Caçando mais prêmios, mesmo que a pauta seja repetida. Eles querem o holofote voltado para seu nome e seus textos, o reconhecimento público.

Esquecem-se, no entanto, que o jornal é feito para o leitor....

31 janeiro 2008

Em todas as áreas

Por Léo Alves

Em televisão todo mundo faz tudo. Não estou falando das redes, que têm departamentos especializados.

Não existem especialistas. O repórter faz o que aparecer no seu horário. Faz desde um assassinato na esquina, passando por uma visita ministerial até uma partida de futebol.

Daí a necessidade das pautas de tevê serem mais recheadas de informações que as dos jornais.

O repórter é um genérico.

Na produção não é muito diferente. O produtor pauta o que aparecer no seu horário. Cada turma é responsável pelo seu turno.

Essa estrutura gera uma grande dificuldade na hora de fazer suítes das matérias.

Um, dois dias, uma semana e até um mês se faz suíte. Depois disso o produtor está envolvido com outras pautas.

No jornal impresso existe a setorização. Fica mais fácil retomar o assunto porque o jornalista acompanha bem o que acontece na sua área.

Já pensei em algumas alternativas para melhorar esse acompanhamento dos casos de repercussão.

E confesso não achei (ainda) uma fórmula de não ser furado pelos jornais nas suítes.

Adotei uma estratégia que pode ser o primeiro passo para diminuir esse problema.

Quando acontece um caso de repercussão indico um produtor para ficar responsável pelo acompanhamento.

O próximo caso que surgir será de responsabilidade de outro. Funciona em rodízio.

Dessa forma ninguém fica tão sobrecarregado tendo que acompanhar tudo. E no fim não consegue dar conta.

Nesse sistema o produtor é responsável para informar a todos da redação como está o caso.

Num local onde não se pode ser responsável por cobrir apenas uma área a melhor solução – por enquanto – é dividir bem as tarefas.

24 janeiro 2008

Terrorismo?

Pedro Henrique Freire

Tudo bem que há um surto de febre amarela. Até aqui foram nove mortes no Brasil. Tudo bem também que os jornais e as autoridades devem estar ligados, monitorar e divulgar os novos casos e dar todas as informações necessárias à população. Mas, pondero, não exageremos, amigo.

Outro dia escutei no rádio um especialista que dizia o seguinte: vamos tomar cuidado com a vacina. Nem todo mundo precisa. Não faremos como no final da década de 90, em São Paulo, quando sete pessoas tiveram a doença, mas nenhuma morreu. Três morreram, sim, por tomar a vacina.

Ou seja, as nove que estão com febre amarela correm risco de vida. E os um milhão de pessoas que tomaram a vacina com medo dela, também.

Há uma semana, encontrei um amigo que trabalha na Globo de Brasília. Ele me contava o seguinte: “Rapaz, tava quase saindo da redação, mas descobrimos um cara que tomou a vacina três vezes. Ele foi parar no hospital, com ‘overdose’ de febre amarela. Quando descobriu isso, ele fugiu do hospital, com medo”, comentou. Ainda não sei o resto da história.

Concluo que esse cidadão estava com medo da doença. Apavorado, sobretudo, por um provável terrorismo da mídia.

Desde o primeiro caso da doença no Centro Oeste, os jornais da região começaram o carnaval. Claro, com reportagens bem feitas e dando todas as informações que o público precisa. O problema é que a cobertura diária – a qual atribuo simplesmente à tradicional escassez de notícias de janeiro – cria um clima de insegurança.

Eu, que tomei a vacina há dois anos, estou perto de ficar com medo de contrair. Minha mãe, que viria para Pirinópolis no Carnaval, desistiu. No Maranhão faltam vacinas e pessoas passam mal na fila. Outro dia uma senhora teve um AVC enquanto esperava pra tomar a dose. Estava lá há três horas. E olha que em São Luís e todas as outras 216 cidades do estado não é registrado um caso sequer há 10 anos.

Ou seja: penso que a mídia erra a dose e cria a instabilidade, transformando um problema localizado numa coisa global. Acaba fragilizando a população. Espalha o medo. É como nos EUA, após 11 de setembro: os jornais colocavam o Bin Laden na capa com uma arma apontada para o território americano e o Bush com algumas tropas de jovens sem rumo dizendo: votem em mim que eu pego ele. Com medo, o povo votou. No Brasil, o povo se vacina. Mas só por imposição da mídia.

Humildemente....

14 janeiro 2008

Acima dos critérios jornalísticos

Por Daniel Brito

Quando o jogador de basquete foi encontrado morto, em uma cidade próxima a Brasília, em novembro último, eu era o responsável pelo assunto. Fui eu quem noticiou em primeira mão o sumiço de um norte-americano, recém-contratado pelo time de basquete de Brasília, e ele tinha comportamento típico de portador da síndrome do pânico.

Quando ele sumiu, consengui o telefone da esposa dele em Seattle graças a uma coincidência incrível. A colunista social do Correio Braziliense é amiga de um médico que trabalha em Brasília. Ao ler a notícia do sumiço, o doutor comentou com a filha, que mora em Seattle. Para surpresa dele, a filha não só tinha ouvido falar da história como trabalhara com o jogador no departamento de serviço social da prefeitura de Seattle. A filha do médico conhecia a esposa do atleta.

O médico comentou com a colunista esta incrível coincidência e ela pediu o telefone da filha dele para tentarmos o contato com a família do gringo.

Pelo menos 10 dias antes de o jogador aparecer enforcado na árvore, conversei com a esposa dele. Ela me contou que estava grávida de oito meses. Nas entrelinhas, deixou a entender que sabia onde o marido estava e porque ele fugira do time sem dar explicações, mas não tinha comportamento nem tom de voz de quem parecia estar desesperada. Ela também assegurou que o camarada nunca teve problemas psicológicos.

Dias mais tarde, chega a notícia da morte do cara. Era início da noite de um domingo qualquer de novembro. Eu estava de folga e fui convocado às pressas para a redação. Chegando lá, o chefe dos chefes me passou a ingrata missão de ligar para a esposa do jogador.

Por três vezes, disquei, a ligação chamou do lado de lá do Equador, mas antes que ela atendesse eu desliguei.

Passar a notícia de que algum parente morreu já é muito complicado na sua língua materna, imagine, então, em inglês? Com dois agravantes: a esposa do cara estava grávida de oito meses e não ficara satisfeita com a minha insinuação de que ele apresentava sintomas de síndrome do pânico.

Em meio ao fechamento, cheguei na sala do editor e falei:

- Não sei se estou certo fazendo isso, mas queria te pedir para me livrar da tarefa de ligar para a esposa do jogador.
- Tá certo, ele respondeu secamente, checando os prints da primeira página. Foi a primeira vez que uma matéria minha foi manchete principal do jornal.

(Esporte é assim, se não for final de Copa do Mundo, somente uma tragédia coloca o notícia na manchete.)

Aima dos critérios jornalísticos de apuração está o "amor à humanidade", como já disse Leonardo Boff. Não que a esposa represente a humanidade inteira, claro que não. Mas me incomodava o fato de desrespeitar o profundo sentimento dela e da família naquele momento. Isso se chama compaixão, o que para um jornalista soa como um pecado capital. Mesmo que eu estivesse disposto a fazer isso no dia seguinte, depois que ela assimilasse melhor a situação.

Estava, realmente, a fazê-lo.

No dia seguinte, no entanto, peguei a estrada atrás do corpo do cara e das investigações sobre a causa da morte e segui esse périplo por mais três, quatro dias. Uma semana depois entrei de férias e nenhum jornalista brasileiro conseguiu falar com ela.

07 janeiro 2008

Certo ou errado?

Pedro Henrique Freire

Nos tempos mais atuais, ficamos sabendo hoje o que os jornais vão publicar amanhã. É só ligar o computador e entrar em algum bom site de notícias. Para a população, é ótimo. E para o jornalista do velho e ainda lido jornal impresso?

Não saberia dizer.

Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.

***

Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.

Situação 1

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.

Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.

Situação 2

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:

- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!

Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.

Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.

O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.

26 dezembro 2007

Salvo pelo Orkut

Por Léo Alves

Em muitas redações o acesso ao site de relacionamentos Orkut e ao MSN é proibido. É para evitar que o jornalista “fuja” do trabalho enviando mensagens.

Li a entrevista de uma jornalista (ou era estagiária) da Folha de São Paulo, na qual afirmava que usava o Orkut como ferramenta de trabalho.

Quando deseja conseguir um personagem para uma matéria entra numa comunidade relacionada. Foi assim que conseguiu personagens para uma reportagem sobre pais adotivos.

No início de outubro entrei nas comunidades dos dois times de Campina Grande – Campinense e Treze – a fim de conseguir personagens para uma reportagem especial.

Não surtiu muito efeito. Mas no MSN encontrei um colega que foi um dos personagens da matéria.

Até bem pouco tempo o acesso a esses sites eram proibidos na redação da TVPB. Não sei quem liberou. E espero que ninguém da direção esteja lendo esse post.

Mas semana passada foram o Orkut e o MSN que salvaram a nossa reportagem.

A sobrinha da ex-prefeita da cidade havia morrido num acidente de carro quando viajava para Recife, a cerca de 80 quilômetros de Campina. Os familiares sobreviventes foram levados para um hospital em João Pessoa.

Mantivemos contatos com familiares e amigos da vítima para conseguir uma foto.

Todos tinham viajado para João Pessoa.

Foi aí que a produção acessou o Orkut para conseguir a foto da vítima. A produtora encontrou pessoas com o mesmo nome.

As mensagens de luto dos amigos no Orkut confirmaram quem era a vítima do acidente.

Sinceramente eu não sei como é que após a morte de alguém as pessoas já acessam o Orkut para deixar mensagens. Mas tudo bem.

Só que as fotos não davam para ser exibidas na tevê.

Por sorte encontramos uma colega nossa - da assessoria do Governo do Estado - no rol de amigos da vítima.

E por mais sorte ainda ela estava online no MSN com outro produtor. E o melhor: ela tinha inúmeras fotos da vítima, pois era amiga íntima.

Na mesma hora ela nos enviou as fotos pelo MSN que salvaram a reportagem.
Para conseguir as fotos os produtores trabalharam quase toda a tarde.

E o resultado positivo só foi possível porque liberaram o acesso ao Orkut e ao MSN na redação.

Tomara que depois deste post não seja restringido novamente.

Afinal o Orkut também é uma ferramenta de trabalho do jornalista.

Difícil vai ser algum diretor acreditar nisso.

14 dezembro 2007

Uma lição do Mané

Por Daniel Brito

Manoel dos Santos, o nosso Mané Garrincha, não me impressionou apenas por ter inventado o drible ou por beber mais que qualquer desses carros total flex. Cada movimento fora do planejado ou um novo desafio que me é apresentado na carreira recorro à simplicidade do craque.

Não me recordo exatamente em qual trecho do livro "Estrela Solitária" está o trecho que vou citar aqui, agora.

No vestiário, às véspera de mais uma Copa do Mundo, ele viu os companheiros de Seleção Brasileira tremerem nas bases. A torcida ainda amargava, nas décadas de 1950 e 1960, aquele trauma do Maracanazo e os jogadores, obviamente, sentiam a pressão.

Descendente de índios, quase um deficiente físico (como já disse Nilton Santos), condenado à pobreza por ser semi-analfabeto, Garrincha não tinha o mesmo sentimento que os demais antes de jogar uma Copa do Mundo.

Para ele, tanto fazia jogar futebol em Pau Grande, hoje distrito de Magé, no Rio de Janeiro, no Maracanã, na Rua Bariri, no Rasunda Stadium. Ele queria apenas fazer o que gostava: jogar futebol.

Nunca sentiu a pressão do momento. Chegou, inclusive, a reclamar do sistema de disputa da Copa do Mundo porque não tinha segundo turno; confundiu a Inglaterra com o São Cristóvão, por atuar com o uniforme branco; sem contar a já batida história de que todo adversário se chamava João ou José. Podia ser Bobby Charlton ou Jordan, do Flamengo.

Isso era reflexo da alma pura do craque. Contaminada e vencida, "apenas", pelo alcolismo.

Fiz esse tremendo nariz-de-cera para contar a história do meu outro blog. De férias em Campina Grande, fui assistir ao último jogo da Série C do Campeonato Brasileiro e resolvi tirar umas fotos.

Conversa-vai-conversa-vem, cerveja para lá e para cá, ouvi uma série de histórias engraçadas das testemunhas que estavam no estádio naquele momento pitoresco e resolvi contá-las no Tudo Sobre Nada (muitodenada.blogspot.com).

As fotos mais o texto saíram quase que no piloto automático. Nem me preocupei muito em deixar as idéias hierarquizadas por grau de importância. Até porque, havia bebido naquele dia do estádio e fiz um breve relato totalmente espontâneo em um espaço pessoal, sem regras jornalísticas estabelecidas.

Mandei o link do texto para aquelas pessoas que gostam do futebol e de suas histórias malucas. Como resultado, meu humilde blog pipocou em acessos e comentários (continua até hoje, 11 dias depois de publicado); meu editor, em Brasília, leu o texto, achou sensacional e me pediu autorização para publicá-lo.

O relato do último jogo da Série C saiu nas páginas do Correio Braziliense em 7 de dezembro, com direito a foto tirada por mim, fugindo do padrão do espaço em que foi publicado.

Se tivesse recebido a pauta do meu editor para escrever sobre aquele jogo não faria tão bem feito como saiu no blog.

Moral da história:
Garrincha morreu há 25 anos sem saber de muitas coisas. Sem saber, por exemplo, que deixou essa lição de simplicidade: quando se tem habilidade para produzir algo que gosta, não interessa a situação, faça tudo que sabe, porque será bem feito.

30 novembro 2007

O filho está crescendo

Por Léo Alves

“Não vai ser fácil manter este espaço atualizado”.

Esse trecho do primeiro post do Filhos da Pauta revela que eu e o Daniel sabíamos a dificuldade de manter um blog atualizado. Mesmo com as falhas de atualização este humilde espaço completou dois anos de existência.

Estã durando tanto porque contamos com o reforço substancial do grande Pedro.

Confesso que no começo pensei que o blog seria um espaço de inteira liberdade de expressão. Poderia escrever o que quisesse e sobre qualquer assunto. Não é bem assim. Como qualquer veículo de comunicação (o blog se transformou numa ferramenta alternativa) é preciso responsabilidade.

Afinal, tudo que é escrito está na rede. Se está na rede, obviamente, é facilmente encontrado pelo todo-poderoso Google.

Faz parte do (invisível) “Manual de Redação do Filhos da Pauta” não citar nomes de pessoas. A não ser que o personagem nos autorize ou se o próprio personagem da história seja um de nós.
Mesmo assim muitas histórias desagradaram os personagens. Basta lembrar da polêmica do post “Gafes”.

Para mim, este blog é também uma extensão da sala de aula. Sempre faço referências aos meus alunos sobre uma ou outra história contada aqui. O FDP é um canal de diálogo entre pessoas que não se conhecem. Eu, por exemplo, não conheço o Pedro. Já dialoguei através de comentários com outro que nunca vi pessoalmente, o Felipe. Exemplos não faltam.

Esses são alguns dos motivos que fazem os blogs crescerem tão rapidamente. Estima-se que a blogosfera reúna mais de 73 milhões de blogs. Esse número aumenta a uma razão de 175 mil por dia.

O jornal espanhol El País publicou o artigo "Os weblogs fazem dez anos de agitação" no qual afirma que: "Nunca um meio de comunicação cresceu a tal velocidade".

Em 1º de abril de 1997, Dave Winer lançou na rede a primeira postagem. De lá pra cá o blog deixou de ser uma brincadeira de adolescente ou um diário virtual. É um veículo de comunicação importante no mundo.

Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, as equipes dos candidatos - George W. Bush e John Kerry - mobilizaram a opinião pública, criando correntes por meio de blog.

No mundo das empresas a norte-americana Kryptonite, líder de fabricação de cadeados e travas teve um prejuízo estimado de US$ 10 milhões. Foi obrigada a substituir quase 40 mil cadeados de seu estoque e levou um bom tempo para recuperar sua reputação.

Tudo porque um blogueiro percebeu que poderia abrir uma das trancas, que era vendida a US$ 100, usando apenas uma caneta Bic comum e colocou em seu blog um vídeo que provava ser possível o "arrombamento".

Em questão de horas, todos os blogs falavam do assunto. A companhia só soube cerca de uma semana mais tarde, quando todos os meios de comunicação já falavam a respeito.

O Filhos da Pauta ainda não causou (e nem pretende) causar um estrago tão grande. A idéia é trazer assuntos, na maioria das vezes relacionados ao jornalismo, que possam ser discutidos com o nosso pequeno número de leitores.

E como há dois anos o desafio continua sendo manter este espaço atualizado...continuaremos tentando.

20 novembro 2007

Jornalistas contadores de histórias

Por Pedro Henrique Freire

Outro dia, lia jornal enquanto lanchava e comecei a conversar sobre formas de se fazer jornalismo com o repórter Marcelo Abreu, um maranhense com sensibilidade e veia literária que trabalha há anos no Correio Braziliense. Enveredamos por um papo agradável e ele me contou de suas experiências como "repórter itinerante".

O nome não é bem esse. Mas o conceito é o seguinte: como o Grupo Associados tem jornais em várias capitais, ele viaja para as cidades e começa a fazer matérias para outros veículos do grupo. "Preciso de um fotógrafo, um carro e uma página. Gosto de ser repórter e contar histórias", disse, lembrando de sua passagem por Pernambuco.

Para resumir Abreu, é preciso explicar bem o que ele faz. É um repórter diferente. Gosta de contar histórias. Dispensa as regras da hard news e escreve sobre comportamentos, dramas, e, sobre anônimos com uma vida que chama atenção por algum motivo.

Pois bem.
Ele me contava sobre uma série de reportagens que fez sobre o Holiday, um prédio de Boa Viagem (Recife), que já foi um glamour, mas hoje é reduto de traficantes, prostitutas, travestis e, claro, pessoas como qualquer outra que não optam pelo crime ou por maneira, para alguns, reprovável, de viver.

Exatamente isso que ele quis contar. Que naquele prédio de quitinetes e apartamentos baratos postado entre caros hotéis e edifícios de alta classe, existiam pessoas de bem, que queriam viver como qualquer outra. Eram humanas, humildes e mereciam atenção da sociedade.

Após a série publicada, Abreu disse que sua caixa de e-mail lotou. A mensagem que pareceu ter lhe chamado mais atenção foi de uma psicóloga, que lhe escreveu o seguinte: "Eu entrei com você no Holiday". A frase reflete bem a maneira que Abreu faz jornalismo, com texto detalhista e envolvente.

Para dizer isso com mais precisão, eis os dois primeiros parágrafos que Abreu para a história do Holiday, publicado no Diário de Pernambuco e no Correio Braziliense:

De longe, ele lembra o formato de uma meia-lua. A intenção foi essa mesmo. Deixá-lo com cara de meia-lua. Construção arrojada, pé direito alto, sete colunas de 36 metros de profundidade para sustentação. Concepção modernista, mão-de-obra retirante. Ainda hoje, não há como não parar para olhar. É, apesar do visível desgaste, da decadência e do rosa desbotado que encarde a fachada, uma rara obra de arquitetura. Um marco. Em 1957, na inauguração, um enorme tapete vermelho enfeitou a entrada principal. A cidade parou. Carros suntuosos estacionaram nos arredores. Uma gente bem-nascida ali entrou. A elite se deliciava com a vista do prédio, a 50 metros da praia. À frente, não havia outro edifício. Eram apenas ele e a imensidão do oceano.

Naquele dia, inaugurava-se a era dos arranha-céus de Boa Viagem. Seria o endereço de fim de semana das famílias abastadas. Ou moradia dos filhos de gente rica que vinham do interior para estudar na capital. Apartamentos pequenos — quitinetes, um ou dois quartos. Conceito moderno até então. Na verdade, ele todo era ousado. Ter um imóvel ali, na Recife de 1957, era sinônimo de luxo. Até o nome era chique: Edifício Holiday. Endereço: rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. Não precisava dizer mais nada. Hoje, é melhor não dizer.

Essa divagação toda é pra dizer que esse ai em cima é, na minha humilde opinião, uma fórmula necessária para todo jornal. Atualmente, tudo é igual a internet. Mas histórias como a do Holiday podem fazer a diferença.

Assim como Abreu, outros repórteres são também importantes para compor esse modelo. A gaúcha Eliane Brum é uma delas. Escreve histórias sobre gente. Já publicou um livro (A vida que ninguém vê) com elas.

Gostaria que me dessem mais exemplos sobre jornalistas que contam essas histórias assim, para entreter e conquistar o leitor. Não apenas informar. Devo ter lido outras coisas parecidas, mas conheço mesmo somente esses dois. E o pouco que conheço gosto bastante.

12 novembro 2007

Mailer: egocêntrico, polêmico, talentoso...

Por Mário Coelho*

Norman Mailer entra na sala da coletiva de imprensa de mais uma luta de Muhammed Ali. Bêbado, começa a brigar com os jornalistas presentes. Cria confusão. Esbraveja. Dá vexame. E grita também na direção dos personagens que estavam sendo entrevistados, mesmo sendo fã de um deles. A cena, descrita no livro O rei do mundo, de David Remnick - sobre Ali -, me lembra dois momentos distintos. O primeiro foi numa aula de redação na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O professor Luís Alberto Scotto, um dos meus grandes mestres, afirmava que todos os "membros" do chamado new journalism eram "broncos". Discutiam, brigavam, polemizavam, tinham egos enormes.

A segunda lembrança é um trecho da introdução escrita pelo próprio Mailer no livro Super-homem vai ao supermercado. "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida. Assim como um advogado não tem um amor à verdade que se compare aos interesses do seu cliente, um repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora: na verdade, ele frequentemente evita a atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto escrito às pressas."

Esse era Norman Mailer. Egocêntrico, polêmico, e também muito talentoso. Esses três adjetivos podem muito bem descrever Mailer. Como escritor, há anos que não escrevia nada relevante. Seu último livro de qualidade - juntando ficção e não ficção - é A canção do carrasco, lançado em 1979. Sendo que ele nem teve o trabalho de apurar. Somente pegou todo o material e deu um trato. Mas isso não invalida suas grandes obras. Basta ler em Super-homem vai ao supermercado o texto sobre a convenção democrata de 1960. Ele conseguiu, antes de todos os jornalistas e analistas políticos, entender o incipiente marketing político que nascia com John Fitzgerald Kennedy.

Agora, nenhum dos seus livros - Os nus e os mortos, Exércitos da noite, A história de Lee Oswald - um mistério americano (onde dava voz aos entusiastas da teoria da conspiração), chega perto de A luta. Com palavras, Mailer conseguiu descrever tudo que acontecia de bom e ruim nos meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Racismo, pobreza de espírito dos norte-americanos, economia, tudo isso como pano de fundo para a volta de Ali aos ringues na luta contra George Foreman no Zaire. Mailer transformou boxe, que o dicionário explica como jogo de murros, em poesia pura.

Se partimos do pressuposto que o new jounalism aliava técnicas de apuração jornalísticas com redação de ficção, Mailer estaria na segunda divisão dos escritores. Caras como Tom Wolfe, Gay Talese e Jimmy Breslin - nos tempos da disputa entre as revistas Esquire e New Yorker - formariam a primeira divisão. Claro que não dá para esquecer de Truman Capote com o fantástico A sangue frio, que podemos colocar como o "marco inicial" do new jounalism em larga escala. Agora, Mailer e Capote não eram jornalistas, nem queriam ser. Os dois usaram o jornalismo em uma época que não tinham inspiração para escrever o que eles mesmos chamavam de "o romance". A grande reportagem era uma forma de não perderem a mão.

Não dá para negar a contribuição de Mailer à literatura. Ele mesmo foi reconhecido duas vezes pela crítica norte-americana, ao receber duas vezes o Pulitzer: em 1968 com Os Exércitos da noite, e em 1979 com A canção do carrasco. Mas não deixa de ser irônico o cara que sempre criticou o jornalismo ser colocado como romancista e jornalista em todos os obituários. Onde quer que esteja, ele deve estar repetindo a frase lá de cima: "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".

* O perfil de Mário Coelho está no post Mãos ao alto (http://filhodapauta.blogspot.com/2007/10/mos-ao-alto.html#links)

04 novembro 2007

Gafes

Por Léo Alves

Vou contar algumas gafes envolvendo jornalistas. Não citarei nomes. Até porque o intuito não é ridicularizar nenhum colega. Afinal todos nós estamos sujeitos a cometer uma gafe.

Situação 1 – Entrevista coletiva com o então pré-candidato a presidente do Brasil (já faz tempo hein?) Anthony Garotinho.

A repórter de tevê recebe a pauta. Anthony Garotinho vai conceder entrevista coletiva na sala de espera do aeroporto.

Ansiosa, a repórter diz, no carro, que não sabe o que vai perguntar.

- Pergunta sobre as denúncias de corrupção que tem contra ele, sugere o motorista.

- É mesmo.

Sala lotada de jornalistas. Cada um se dirige e faz uma pergunta. Chega a vez da repórter.

- Garotinho o que você tem a dizer sobre as denúncias que existem contra você?

- Que denúncias?

- As denúncias.

- Que denúncias? Se você disser quais são as denúncias eu posso te responder.

- Éééé...Ahhh...éee. As denúncias que existem.

- Já te disse que você precisa dizer quais as denúncias. Que eu saiba não existe nenhuma denúncia contra mim.

Jornalistas se olham. Silêncio. A entrevista continua com a próxima pergunta.

No fim das contas não existia na época nenhuma denúncia contra Garotinho.

Moral da história: nunca confie totalmente no motorista do carro da reportagem.

Situação 2 – Palestra de um ministro do STJ.

Aconteceu com a mesma repórter da situação anterior.

A repórter chega antes de a palestra começar para garantir logo a entrevista com o ministro.

Algumas autoridades conversam no canto do auditório.

A repórter se dirige ao único “estranho” da roda de conversa e...

- Ministro o senhor vai abordar na palestra de hoje...

- Com licença, eu não sou o ministro. Ministro é o meu pai. Vou chamá-lo, interrompe o cidadão.

Quando no ministro começa a se dirigir ao local onde estava a repórter, ela tenta justificar a gafe.

- É que vocês são muito parecidos. Eu me confundi.

Quem estava na hora garante que pai e filho não se parecem nem um pouco. E que os dois se olharam como quem não estava entendendo nada.

Moral da história: antes de entrevistar alguém procure conhecê-lo por foto.


Situação 3 – Encontro de capacitação de jornalistas.

O correspondente internacional de uma grande emissora de tevê, que ministrou uma oficina no curso, se reúne com os participantes durante a confraternização.

Entre uma conversa e outra, um dos participantes indaga:

- É impressão minha ou nos “ao vivos” de esporte você sempre fica nervoso? Você fica nervoso mesmo ou é só impressão.

- Acho que é impressão sua, pois estou acostumado a cobrir esporte. Já cobri cinco Copas, Olimpíadas...

- Ah, deve ser impressão mesmo.

O autor da pergunta relatou que poderia ter ficado calado. Ele ainda acrescentou que certamente no próximo “ao vivo” o repórter iria lembrar dele.

Moral da história: nunca cometa gafe com outro jornalista.

30 outubro 2007

Pode criticar a Copa de 2014?

Por Daniel Brito

Não quero dar uma de estraga prazer. Pelo que acabei de ver na tevê agora há pouco, o "país inteiro comemora a escolha para ser sede da Copa do Mundo de 2014". Humildemente, vi tantos pontos inexplicados nessa "candidatura" do Brasil, que não me contive e tive que socializá-lo aqui neste espaço.

Vou, inclusive, amenizar nos comentários, porque a Copa é um evento mais político do que esportivo e qualquer opinião polarizada minha aqui pode me custar alguma coisa.

(Estou confiando que tem gente importante lendo este blog).

Eu amo futebol. É meu primeiro esporte. Tenho na cabeça o resultado de vários jogos sem importância da Copa do Mundo de 1990 para cá. Seria, realmente, um sonho ir de carro da minha casa ao estádio para ver um jogo do Mundial na minha cidade, mas daqui para lá, espero por esclarecimentos de quem quer que seja.

Eu poderia falar do grave problema de falta de prioridade dos governos estaduais e federais e, por tabela, do povo. O país vai investir mais na construção de estádios do que no combate a dengue, que já é considerada uma epidemia no país. Poderia falar que é obrigação de todos os governos dar transporte público, serviço de saúde e segurança todos os dias e não somente por causa da vinda dos turistas.

Alguém já leu quanto vai custar a organização desta Copa do Mundo? Nem a Fifa sabe. Quando seus emissários vieram ao Brasil, o que mais viram foram maquetes enfeitadas e danças típicas. Na minha singela, humilde, e pálida opinião, quanto mais enfeite eles colocam nos estádios (hastes brilhantes, tetos solares, rampas em espiral...), mais dinheiro público vai para o ralo.

O que se pretende fazer? Monumentos em formato de estádios de futebol ou arenas esportivas funcionais? Eu prefiro a segunda opção. Como eu não mando em nada mesmo, teremos potenciais elefantes brancos espalhados pelo país.

Em Brasília, por exemplo, vão construir um estádio para 76 mil pessoas. E em 2015, depois que a Copa acabar? Quem vai jogar lá? Legião, Paranoá, Dom Pedro II ou o Gama? Vai demorar mais 50 anos para ficar lotado de novo...

O Brasil só ganhou o direito de sediar esta Copa porque concorreu contra ninguém.

Ninguém!!!!!!

Se fosse para obedecer o sistema de rodízio, tão pregado pela Fifa até aqui, a Colômbia deveria sediar o evento. Sim, porque o Mundial de 1986 seria lá, mas com a contribuição do governo Ronald Reagan, as autoridades da Colômbia viram o narcotráfico perder o controle e, conseqüentemente, perderam para o México o status de sede.

Ora, se o Mundial tem que ser realizado na América do Sul, que seja no país que já teve esse direito um dia mas foi tirado de forma obscura pela Fifa, em 1983. Mais detalhes no livro Como eles roubaram o jogo, do jornalista britânico David A. Yallop. Baseado no que li sobre esse episódio no livro, acredito que daqui para 2014 o Brasil ainda vai perder essa Copa.

Estou sendo muito pessimista ou o noticiário diário que é otimista demais?

29 outubro 2007

Politicagem em pauta

Por Daniel Brito

Enquanto no Brasil se assiste novela ou Big Borther depois das 20h, na França debate-se políticas públicas. Leis anti-tabigistas, reformas no sistema de imigração, participação na União Européia e por aí vai.

Nos Estados Unidos, o noticiário de Washington DC é voltado para as comissões parlamentares do senado. Além, óbvio, da política externa do governo. Na Espanha, os jornais dão amplo destaque às reformas contitucionais de cada região. Na Inglaterra, não se discute cargos ou fofocas em jornais como o The Independent. Até porque só existem os partidos trabalhista, liberal e conversador no Reino Unido, se não me engano...

Já no Brasil... Bem, no Brasil o noticiário político é pautado em denúncias, especulações e fofocas. Quem sou eu para julgar o que os mais renomados jornalistas de Brasília fazem diariamente. Acredito que eles repassam o que é produzido no Congresso Nacional diariamente.

Deputados e senadores "trabalham" terça-feira e quarta-feira e por isso é impossível fazer algo que interfira de forma prática na vida dos cidadãos comuns, como eu e você (que conseguiu chegar até esta parte do texto).

Quando vão ao plenário, não fazem mais que negociar emendas de origem duvidosa e barganhar espaço no governo. A oposição, por sua vez, distribui críticas e denúncias, muitas até sem fundamento.

Isso aí, na minha humilde visão, é politicagem.

É claro, a imprensa é obrigada a acompanhar essa movimentação, o que torna o noticiário político tedioso para o grande público e recheado de blablabla.

A CPMF e a reforma política chegaram a ser "abre de página" nos principais veículos do país - só para citar dois temas recentes. Mas apenas metade dessas notícias veio dos parlamentares, quem deveria tratar do assunto. O início da reforma política teve que ser tema no STF, já que os deputados evitam colocá-lo em pauta. A CPMF, que mexe com o nosso saldo bancário, é tema recorrente no Congresso, porém, sua aprocação virou uma novela sobre negociação de cargos e liberação de verba.

Culpa dos parlamentares.

São eles que nos fazem ouvir aquela desesperadora frase:

- Ai, eu odeio política, sabe?

21 outubro 2007

Justificando Juicebox

Por Daniel Brito

Quem já cobriu a Seleção Brasileira e não faz parte do eixo RJ-SP sabe o quão pedante é Robinho. Ele só dá entrevista para os repórteres que conhece. Se você, humildemente, quiser uma aspa dele, que cole em um colega carioca ou paulista.

Robinho só quer espaço nos veículos de projeção nacional. .Ele subestima os veículos de comunicação que ele não sabe que existe.

O Diário da Borborema, há sete ou oito anos, mandou por fax uma série de perguntas ao ex-presidente Collor. Acho que estava faltando assunto na política local e os caras resolveram barbarizar. Dois dias depois, os repórteres do (humilde, porém heróico) DB receberam as respostas de Collor, também por fax. Eram respostas grandes, sem fugir de nenhum assunto, cheias de informações interessantes. Os próprios jornalistas não esperavam tamanha atenção.

O Correio Braziliense, em meados deste ano, publicou uma charge de Boris Yeltsin, após sua morte, com asas presas às costas e agarrado a uma garrafa de vodka. No dia seguinte, a embaixada da Rússia no Brasil enviou um comunicado oficial pedindo a retratação pela heresia cometida pelo jornal.

É um grande engano pensar como Robinho. Todo e qualquer meio de comunicação pode fazer a diferença. Por menor que ele seja, você pode ser ouvido. Volto a um velho assunto tratado aqui: eu mesmo escrevi sobre um repórter de Brasília neste singelo blog, que não tem mais que 20 acessos únicos por dia, e o cara "me jurou de morte" (que exagero!).

Certamente Collor não se reelegeu por causa do DB, e os russos não vão queimar bandeiras do Brasil por causa da charge. Mas eles deram uma grande lição de respeito aos profissionais e às pessoas que lêem tais veículos.

(Agora eu justifico o título deste post)

A banda de rock The Strokes, por exemplo. No clipe da música Juicebox, do albúm First Impressions of Earth, eles fazem exatamente o que Robinho não sabe fazer.

Em programa de rádio de Nova York, o locutor chega atrasado ao programa e os caras da banda estão visivelmente impacientes pela falha. Quando o programa entra no ar, o radialista fica cheio de piadas constrangedoras, chama a banda pelo nome errado, diz que eles (The Strokes) são europeus, espera que eles "traduzam as letras para o inglês e façam sucesso em Nova York". Para completar, ainda erra o nome da música.

Detalhe:
The Strokes é a banda mais novaiorquina dos últimos tempos e é sucesso de Taguatinga a Sarajevo. De Ljubljuana a Nova York, passando por Patos, no alto sertão da Paraíba, Cocal de Telha, no Piauí, Connecticut e por ali vai...

Quando o som rola (a música, a propósito, é muuuuuito boa), a banda toca como se estivesse no Madison Square Garden e embala a madrugada fria de algumas pessoas que rondam a cidade: um casal de lésbica, uma velhota tarada, outro casal de gays, um pichador de paredes, um casal de bêbados-drogados no táxi, além do próprio mané do radialista.

Não sei se o clipe é baseado-em-fatos-reais, mas pelo menos nesta historinha, eles tinham motivo para tocar de qualquer jeito, já que foram ridicularizados na rádio.

Não tocaram!

Quem quiser entender um pouco mais esse enredo, entre no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=_NTjOZc2Miw

16 outubro 2007

Embate

Conversar com quem não entende nem um pouco de jornal não é problema. Desde que essa pessoal não trabalhe em um e muito menos se intrometa em assuntos jornalísticos. Minha tímida experiência como jornalista já me ensinou a sempre brigar por minhas pautas. E brigar pra que elas sejam publicadas da melhor maneira possível. O problema é quando alguém, que não entende de jornal e só pensa em dinheiro, atravessa nosso caminho com a irredutível vontade de puxar o saco de um terceiro.

Outro dia tive um embate saudável com um dos gerentes da empresa para qual trabalho. Fiz, junto com um repórter do Correio Braziliense, uma entrevista com o governador do Maranhão, em visita dele ao jornal, em Brasília. Depois do papo, tentamos (eu e o gerente) acertar os ponteiros para publicar a entrevista no domingo, no Imparcial. O Correio publicaria um texto. Sugeri que cada um saisse com o seu, dando o enfoque que quisesse. Afinal, são dois jornais extremamente diferentes.

Por ser uma entrevista recomendada, já fiz meio puto, explorando sempre os assuntos mais polêmicos pra não parecer um informe publicitário. As perguntas foram feitas por mim e pelo outro repórter. Tudo bem até ai. O problema foi que o senhor gerente encasquetou que queria publicar o texto do Correio. Na cabeça dele, o jornal (O Imparcial) teria muito mais peso se publicasse a entrevista do Correio, tudo no mesmo dia, igualzinha.

Ai, lá vai eu explicar pra ele que era melhor publicarmos o nosso texto, explorando os assuntos que mais interessam aos nossos leitores. Eu, como trabalho como um correspondente do jornal em Brasília, estou mais por dentro dos temas de lá, os regionais, principalmente. O Correio produziria uma boa matéria. Mas por integrar a grande imprensa, está pouco se lixando para os problemas regionais lá do Maranhão. E com razão.

Pois bem. Dei uma explicação quase didática. Disse que escreveria um texto com assuntos locais e que o Correio daria outro enfoque. E ainda perguntei: se temos um correspondente em Brasília, por que usar a matéria do Correio? Não deu muito certo. Ele decidiu, então, que queria publicar o texto do Correio no domingo e de O Imparcial na quarta. “Mas o senhor não acha que duas entrevistas com o governador em menos de cinco dias não é exagero?”, perguntei. Além disso, algumas respostas seriam as mesmas nas duas entrevistas. Resolvemos então colocar nosso texto. E apenas uma matéria. O crédito seria dado para os dois repórteres.

Falamos sobre eleições municipais e a dívida do estado. O Correio falou sobre Chiquinho Escórcio e outras coisas nacionais. Cada um deu o peso e o espaço justo, sem exageros e sem enganação. Acho que no fim valeu a briga. Me senti melhor por estar sendo mais honesto com os leitores.

10 outubro 2007

Na minha opinião...

Por Daniel Brito

Na minha opinião, eu não sei dar opinião. Estou há tempos para escrever sobre os vícios das editorias de política, mas paro no primeiro parágrafo pela metade. Confesso que tenho um sério problema para sustentar minha opinião.

Não sei, pode ser um problema (como gostam de dizer os treinadores de futebol) da base. Não sou acostumado a entrar em grandes dicussões, muito menos debates. É até um caso de preguiça, mesmo. Se alguém discorda de mim, deixo a conversa para lá. Tem tanta gente teimosa neste mundo. Eu não quero fazer parte deste rol...

Fora das redações, isso pode até ser uma virtude, mas quando passamos para o lado profissional, "não ter uma opinião" é uma falha grave. Não é o caso de ter 0% de opinião sobre 100% dos assuntos, mas de 50% sobre 50%.

Recentemente, recebi a missão de escrever uma resenha crítica sobre um livro do New York Times. "As melhores histórias do New York Times" foi lançado em português recentemente e, em conversa com um de meus editores, contei que acabara de ler o Reino e o Poder e me interessara com as histórias da redação do maior jornal do planeta.

Sabendo disso, dias depois, ele me entregou "As melhores histórias...". Li com um olhar crítico. Mas, na hora de escrever, não conseguia me expressar. O texto saía algo como:

- O livro é meio piegas, com umas histórias forçando a barra, mas tem uns textos curiosos.

Se eu entregasse uma linha da resenha para meu editor, já não estaria mais aqui para contar essa história. Então, recorri aos formulários de opinião que repousam nos rincões do meu cérebro. Trouxe de volta palavras que há tempo não utilizava nos meus textos de hard news, não hesitei em dar opiniões abertas e tentei dar uma pitada de criatividade ao lide.

O editor corrigiu os tradicionais erros de digitação, pontuação e concordância e disse que queria conversar comigo pessoalmente no dia seguinte. Confesso que dormi mal. Estava me sentindo como nos tempos da 5ª série, quando reprovei de ano. Levaria uma bronca do professor, no caso, do editor.

Ele me disse que faltava conteúdo, ou cancha, para fazer uma crítica. Faltavam vocabulário, argumentos. "A idéia é boa, mas está solta". Fiz, novamente, as alterações pedida por ele a minha primeira resenha foi publicada há quatro dias.

É provável que o editor demore a me entregar outro livro para ler e resenhar.

Segurança
É muito comum comentarista de futebol dizer: "Tudo pode acontecer". Isso é típico de um cara que não tem o que falar.

Crítico, colunista, comentarista, tem que ser um cara com personalidade. Um cara segura de suas idéias e coerente com seus princípios. Tem que ir direto ao assunto, sem subterfúgios. Quer ver exemplos de quando um jornalista está enrolado para dar opinião:

- Quando conta histórias antigas na tentativa de encaixá-la no contexto atual;
- Quando se utiliza muito mais de informações do que da própria opinião. Só na base da informação, por exemplo, qualquer um pode dizer que Hitler foi eleito pelo povo.
- Quando exagera nos adjetivos.

Lógico, uma boa opinião contém histórias, informações e adjetivos. Mas é preciso saber dosá-los, pois quando não estão juntos no texto, o comentário perde em qualidade.

PS - Se alguém discordar, eu não farei minha réplica. Não gosto de discussão!

04 outubro 2007

Mãos ao alto!

Por Mário Coelho*

Há três semanas, um colega do jornal - Amaury Ribeiro Jr. - foi baleado em Cidade Ocidental (GO), cidade distante 45km de Brasília. Ele vinha fazendo uma série de matérias sobre o tráfico de drogas na região. Inicialmente, dizia-se que era um atentado, uma represália, já que o repórter tinha mostrado a identidade do principal traficante da região. A polícia goiana não entendeu assim. Mesmo sem ouvir o depoimento dele, afirmou que houve uma tentativa frustrada de roubo. Antes do criminoso atirar, Amaury reagiu. Contrariar todas as regras de segurança é que salvou o colega da morte.

Dias antes, eu tinha entrado nessa cobertura também. Estava em Cidade Ocidental, cobrindo uma manifestação dos pais de duas meninas mortas por traficantes. Na parte da tarde, acompanharia o resto do protesto deles. Ainda apuraria para uma matéria de domingo que fazia junto com uma outra colega. Almoçamos e dividimos a equipe. O fotógrafo que estava comigo saiu com Amaury; foram correr atrás de mais personagens vítimas de violência. Eu e o motorista, sem ter o que fazer, procuramos uma sombra para ficar. Eu disse para irmos a um lugar movimentado; não dava para dar mole em situação alguma.

Paramos em frente a uma área comercial. Era pouco depois das 12h. Muita gente na rua, entrando e saindo das lojinhas, crianças em uniformes escolares passando nas calçadas. Ficamos dentro do carro. Eu lia o jornal mais uma vez e o motorista reclinou o banco para tirar um cochilo. Ao fazer isso, ele ajeitou o retrovisor para poder ver o que acontecia na rua, às nossas costas. Foi nesse momento que ele me alertou: três rapazes pararam as bicicletas próximas ao nosso carro. Um ficou bem atrás, enquanto os outros dois estavam do outro lado da rua. O primeiro abriu a pochete e colocou alguma coisa embaixo da camisa.

O motorista me avisou e falei para sairmos dali o mais rápido possível. Saímos da cidade e paramos em um posto de gasolina próximo à entrada de Cidade Ocidental. Não ficamos lá para ter que pagar para ver o que o rapaz tinha tirado da pochete. Apesar do aperto, essa não foi a situação mais bizarra que enfrentei em seis anos de profissão. Isso aconteceu bem no primeiro dia de trabalho no saudoso jornal O Estado, em Santa Catarina. Meu primeiro dia como estagiário de polícia.

Fazia a ronda por telefone como o editor de polícia tinha me ensinado no dia anterior. Não tinha nenhuma ocorrência de destaque, até mais ou menos 17h. Apareceu um caso de tiroteio dentro do maior supermercado de Florianópolis. Quatro homens tentaram roubar o estabelecimento, os seguranças reagiram e houve tiro para tudo quanto é lado. Um dos vigilantes ficou ferido. Os quatro assaltantes fugiram. Aí começa minha experiência. No jornal, não tinha carro para me levar até o local do crime. Aí, um dos colunistas se levantou da cadeira e disse que me levaria até o local.

Os assaltantes já tinham saído do supermercado. A última informação que eu tinha era de que o grupo tinha sido encurralado pela polícia no cemitério da cidade. A redação do jornal era próxima do local. Mas chovia, e o trânsito de fim de tarde estava mais infernal ainda. O colunista fez uma série de manobras arriscadas - para não dizer barbeiragens -, chegou até a subir em uma calçada. Tínhamos que passar por um viaduto. Ele perdeu a entrada, deu ré na via mesmo e entrou na contra-mão. Quando ele endireitou o carro e entrou na mão correta, pára um Palio branco ao nosso lado.

- Parados, mãos para o alto, é a polícia!

Eram dois policiais militares à paisana, os populares P2, empunhando pistolas .40 em nossa direção. Até explicarmos que éramos jornalistas, e estávamos ali para cobrir a matéria, foi um bom tempo de pura tensão. Carro descaracterizado, sem crachás ou qualquer tipo de identificação. A sorte foi que um dos policiais reconheceu o colunista do programa de tv que ele tinha na época. Foi um batismo de fogo. Minha mãe, apavorada quando soube, queria que eu desistisse. Foi perigoso, mas eu gostei da sensação de correr atrás da notícia.

O problema é que, na grande maioria das vezes, a gente só conta com a gente mesmo para proteção. As empresas ainda não têm estrutura para proteger seus funcionários em matérias investigativas com maior periculosidade. Então, fica-se entre a cruz e a espada: arriscar mais e conseguir mais informações, ou colocar a segurança em primeiro lugar? Nessas horas, é o bom senso da equipe que tem que prevalecer. Agora, se ele não existir, a possibilidade do jornalista virar notícia é muitro grande.

* Mário é o único torcedor do Avaí fora da Ilha, repórter do Correio Braziliense, dono do blog http://micjunior.zip.net/ de onde este texto foi retirado, e ainda vai escrever sobre New Journalism para o Filhos da Pauta.