Daniel Brito*
Depois de reclamar das críticas que recebo dos concorrentes, chegou minha vez de criticar os outros. Na verdade, estava pensando em criticar todos os repórteres de TV.
Sim, porque em TV nada se cria, tudo se copia. Existe uma mania feia de passar o recibo das matérias publicadas no dia anterior no jornal e reproduziada na TV no dia seguinte. Isso acontece porque quem trabalha em TV não tem tanta iniciativa, liberdade ou criatividade para fazer algo diferente do que sai nos jornais.
Mas isso fica para um outro post. Este aqui será uma contradição do que disse na última vez que escrevi aqui. Ou não!
Jornalismo bom é aquele que critica. Não a crítica gratuita ou revanchista, como muitas vezes se lê nos jornais da Paraíba ou grandes veículos de comunicação. O julgamento de algo/alguém com argumentos concretos é uma das coisas mais sensacionais de se ler e escrever.
Exemplo
A Seleção Brasileira de vôlei masculino esteve em Brasília para enfrentar a frágil Finlândia, pela Liga Mundial. Um mês antes dos caras desembarcarem por aqui, fiz um roteiro de matérias para fugir do feijão-com-arroz. Como no futebol, o vôlei tem seu lugar-comum:
- carinho da torcida;
- treinos cansativos;
- gritos de Bernardinho.
Não queria falar disso.
Queria algo novo.
Então tracei um plano de reportagens de quarta a sábado.
Quarta-feira:
- ginásio em que a Seleção vai jogar foi mais usado para eventos de igreja do que esportivos;
Quinta-feira:
- é proibido falar alto durante os treinos de Bernardinho. Só ele pode falar;
Sexta-feira:
- jogadores reclamam por ter que jogar sempre de manhã, por imposição da Globo;
Sábado:
- o verdadeiro quadrado mágico: Serginho, Ricardinho, Giba e André Nascimento.
Na sexta-feira eu ainda publiquei uma matéria sobre o primeiro dia dos pais de Bernardinho ao lado do filho Bruno, que é jogador e está na Seleção Brasileira. No sábado, eu ainda publiquei uma matéria dizendo que os brasileiros estão achando ruim a Liga Mundial por ainda não ter tido um jogo forte.
Engraçado que nesses dias todos, surgiram vários assuntos interessantes, com elogios a Brasilia (desconfie de elogios, sempre!) e outros assuntos do departamento de perfumaria do jornalismo. Mas eu prefiro assuntos polêmicos.
Deu certo.
Como disse lá em cima, a crítica bem feita atiça o leitor. Meu celular já aprendeu isso.
Não sou uma excelência em fazer críticas, apenas acho que algumas tem incomodado as pessoas envolvidas. Foi assim na quarta, quando o pessoal que trabalha no ginásio do jogo do Brasil me ligou às 8h da manhã para reclamar da matéria. Disse que eu queria "vender jornal".
Meu celular já está acostumado a ligações matutinas com reclamações. Meu recorde foi ter desagrado aos dois lados de uma única reportagem. Depois conto essa história.
No sábado, foi a vez de Bernardinho atacar minhas matérias. Não me ligou, mas, durante a entrevista coletiva após o jogo, reclamou que essa história de quadrado mágico é forçação de barra da mídia, que nunca deu certo e que só leu isso porque colocaram a matéria na frente dele.
No domingo, fiz uma matéria contando que ele odiou a minha matéria sobre o quadrado mágico do vôlei. Hoje, domingo, teve a segunda partida em Brasília contra a Finlândia. Na coletiva, ele tratou de alfinetar de novo as minhas matérias. Principalmente a reportagem em que os atletas pediram mais dificuldades na Liga Mundial.
Travamos até um diálogo áspero:
- Bernardinho, os jogadores reclamaram... não diria reclamaram, eles disseram...
- (interrompendo)O seu jornal estampou a manchete dizendo que eles reclamaram. Assuma o que você escreve!
- Não tenho problema em assumir. Você falou a mesma coisa que eles (os jogadores) aqui...
- Eu não reclamei de nada!
- Falou que faltava um jogo para o time ser testado, a mesma coisa que os jogadores disseram.
- Eu disse que ainda não sabemos em que nível estamos para a fase final da Liga Mundial.
Foi uma coisa rápida. Confesso que saí feliz da coletiva.
Sim, porque ele está lendo minhas matérias e elas o incomodam. Logo Bernardinho, exemplo de homem trabalhador, disposto e motivador se preocupando com o que EU escrevo??
A crítica, quando bem feita, evita que a outra pessoa te trate com o pior dos sentimentos: a indiferença.
*Quarta-feira, dia 16, às 18h45, estarei na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) contado as histórias desse blog e histórias impublicáveis para os alunos de jornalismo. Por isso, demorarei um pouco para atualizar este blog
Trem bala (cover)
Há 9 anos
6 comentários:
"sim sinhor", caro diogo mainardi!!! =)
Estarei lá!
Xeros
"A crítica, quando bem feita, evita que a outra pessoa te trate com o pior dos sentimentos: a indiferença".
Concordo plenamente. O que seria do jornalismo sem a crítica? É como driblar uma zaga inteira, chegar na frente do gol e... chutar fraco, sem direção. A crítica é um chute forte, certeiro.
Parabéns DB. Continue assim. Evite a ladainha dos jornalistas comuns.
Esse blogger é realmente uma extensão de nossa sala de aula - 3º ano noturno, jornalismo, UEPB.
Não poderia ser diferente, visto que, nosso professor/colega é o filho da pauta Léo, que sempre nos "abre o olho" com relação aos elogios.
Estamos aguardando sua visita.
Estou esperando com ansiedade por sua visita. Sei que será muito proveitosa essa troca de opiniões de experiência. Criticar é muito bom, o difícil mesmo é saber ouvir as críticas dos outros e nós sabemos que não são todos que tem esse dom: saber ouvir e absorver o que há de melhor em uma crítica, seja ela construtiva ou não. Um abraço e até logo!
Rapaz, esse bicho é paraibano mesmo, pense nuns jornalistas polêmicos! Eu - ainda que avesso a polêmicas, como bem sabem meus colegas de faculdade (!!!) - lhe dou os parabéns por fugir do lugar comum. Em tempo: TO ESPERANDO A POSIÇÃO DE VCS SOBRE O PROBLEMA DA MERDA, postado no meu blog.
Jornalismo cor-de-rosa ninguém merece, e também não tem muita graça, como você disse em sua palestra na UEPB. É pura preguiça não tentar fazer diferente, depois ficam se perguntando porque as vendas só caem...
Inclusive, eu gostaria de fazer uma crítica; ou melhor dizendo, uma sugestão. Que tal mudar esse template? Eu acho muito escuro, quadrado, não combina nada com o conteúdo de vocês.
Ah, parabéns pela palestra. Foi bom ver um jornalista jovem, bom no que faz e sem o ego inflado que costumo ver por aí.
Um grande abraço!
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