Por Daniel Brito
O ritual se repetiu em 20 das 25 noites que ficamos no Rio de Janeiro:
um caldo de feijão, uma carne com batatas, um suco de laranja, e, por fim, um chopp.
Ao lado dos repórteres Ivan Drummond, Eneila Reis e do fotógrafo Emmanuel Pinheiro, eu jantava em um restaurante na esquina do hotel em Copacabana para finalizar mais um dia de cobertura dos Jogos Pan-Americanos para o Correio Braziliense e Estado de Minas.
O jantar era sempre depois das 22h30, horário em que todas as matérias já haviam sido lidas e colocadas nas páginas pelo diagramador em Brasília e Belo Horizonte. Ele (o jantar) decretava o fim do expediente, que mais parecia uma semana, de tantos acontecimentos, entrevistas e textos feitos nas últimas 12 ou 14 horas de trabalho.
Um dia de cobertura do Pan era uma das coisas mais desgastantes que já passei na vida. Imagino que em outros eventos como Copa do Mundo, Olimpíada, até uma CPI mesmo, seja tão ou mais cansativo.
Pois bem.
Depois daquele chopp diário (ou noturno), me batia um sono incontrolável. Uma coisa de pagar a conta na mesma hora e seguir para o hotel com os olhos semi-cerrados, evitando conversar para não parecer um sonâmbulo.
Todos-os-dias-foram-assim.
O chopp, uma caneca só, parecia uma dose de Boa Noite Cinderela.
Na manhã seguinte, ficava repensando tudo que fiz no dia anterior. Tentava lembrar o exato momento em que o cansaço me apanhava de tal maneira para me nocautear com tanta facilidade após um humilde choppinho???
Não era a viagem de uma hora de ônibus oficial do Pan até Jacarepaguá;
Não era a conversa com meu editor pela manhã para saber o que eu deveria cobrir a cada dia; Não era o trânsito no Rio de Janeiro;
Não eram os jogos e apresentações; não era o calor da zona mista, onde os jornalistas se acotovelam para entrevistar os atletas antes da coletiva;
Não era o momento em que tinha que escrever a matéria....opa...peraí.
Era isso.
Era o texto.
É o texto.
Tudo que se apure nas coletivas de imprensa, nas espremidas entrevistas na zona mista está, antes mesmo de sua matéria chegar na caixa de email da redação, em T-O-D-O-S os sites de esporte do país.
Então, por que, ora bolas, o jornal investe uma grana alta para me trazer para cá, para o Rio de Janeiro, se tudo que eu apurar estará mais rápido na redação do que o meu próprio texto?
Simples.
Porque o jornal quer um texto diferente, quer detalhes que a rapidez do jornalismo na internet não capta. O jornal aposta que você pode conseguir informações que nenhum outro jornalista conseguiu.
Pensando nisso, passei a prestar atenção nos detalhes. No comportamento da jogador na hora de falar com o treinador, na reação da torcida a cada erro, na maneira como fulaninha olha para o nada quando fala com os jornalistas.
É uma coisa meio de psciologa comportamental.
Ao final do jogo, da zona mista, da coletiva, eu tinha reunido tantas informações que precisava reler as 10, 15 páginas do meu bloquinho para selecionar as principais. Era nesse exato momento em que meu cérebro atingia o ápice do esforço. Ele chegava a mil rotações por minuto com a obrigação de fazer a diferença.
Daí eu me lembrava dos livros que li recentemente, para tirar exemplos legais de narrativas interessantes. Puxava pela memória roteiros de filmes instigantes, até letra do Legião Urbana eu tentei implementar no meu texto mas faltavam algumas rotações no meu cérebro para atingir o nível de adaptar uma história de Renato Russo aa vida real e ao meu texto, claro (depois conto essa história).
Quando terminava de escrever, estava esbaforido. Parecia que tinha corrido atrás de Franck Caldeira pelos 42km da maratona e depois, nadado 10km na maratona aquática com Poliana Okimoto.
Não sei se consegui fazer diferente dos demais jornais, só sei que quero recuperar a disposição para tomar mais de um chopp por noite sem capotar de sono.
Trem bala (cover)
Há 9 anos