20 janeiro 2011

Um jornal de 4 milhões de leitores


Pedro Henrique Freire

O mundo discute alternativas ao jornalismo impresso. Está ficando até chato falar da sobreposição de tablets e e-reads ao papel. O imediatismo do ser humano chega a considerar palpável a mudança de modelo. Rápido assim?

Jornais são diferentes em diversas partes do mundo. Impressos no Brasil detêm características completamente distintas de jornais da Europa, que se diferenciam dos da Ásia e também daqueles que circulam na América do Norte... etc.

Fazer jornal que supere expectativas depende, principalmente, de conhecimento social e econômico da localidade de atuação. Não fosse assim, uma fórmula bem sucedida bastaria para levar jornais em todas as partes de nosso planeta azul ao sucesso absoluto, agradando leitores e pagando os altos custos da produção jornalística.

Alguém ai conhece o Times Of Índia (olha ele ai do lado)? Eu não conhecia. Mas li algo sobre ele esses dias que me intrigou. Circula com quatro milhões de exemplares por dia (isso mesmo!), é barato (preço equivale a R$ 0,10) e full color. Algo diferente de alguns jornais brasileiros além da tiragem? Suponho que não.

Se em países ricos se gasta tanto pra encontrar maneiras de manter jornais (ou ao menos suas marcas) vivos, por que a emergente Índia consegue vender quatro milhões de exemplares por dia apenas fazendo um jornal colorido e de qualidade?

É preciso analisar o país...

...socialmente: a Índia reúne várias culturas. O singelo estranhamento social é cotidiano. O Times Of Índia procura reunir diversos pontos de vista das múltiplas culturas, publica matérias de serviço e utilidade pública e reivindica para si o papel social de unir os povos em campanhas voluntariosas. Ou seja, o conteúdo é altamente identificado com a sociedade.

...economicamente: apenas 20% da população da Índia acessa a internet. Ipad lá, portanto, não é algo que apeteça a grande classe a ponto de contestarem a existência de jornais impressos. o Times sabe como ganhar dinheiro. Ele permite que empresas paguem anúncios com ações na Bolsa. Usa seu papel para especular.

O sucesso, portanto, não é em vão. O Times Of Índia sabe como e para quem vender jornal. O processo tem começo, meio e fim. E entende a organização econômica na qual está inserida.

Ele se identifica com o leitor.

06 dezembro 2010

Sempre a imparcialidade 2

Por Léo Alves

Num post anterior falei sobre o caso do Estadão que suscitou o debate sobre a imparcialidade jornalística. Saindo dos exemplos nacionais, nos concentremos na pequenina e heróica Paraíba. Na terra de Assis Chateaubriand os jornais e tevês apóiam projetos políticos de candidatos. É a moeda de troca. Apoio garante bons contratos de publicidade no futuro. É incrível como esse pessoal ainda acha que o leitor/telespectador/ouvinte é burro.

Basta dar uma olhada nas colunas políticas dos jornais locais para perceber o lado de cada um. A Paraíba se divide entre os que se intitulam Cassistas (apóiam o ex-governador Cássio Cunha Lima, eleito para o Senado e barrado pela ficha limpa) e Maranhistas (os do lado do ainda governador José Maranhão).

Descobrir o comprometimento político dos colunistas e editores de política não é difícil. No caderno de política de um dos impressos uma expressão é frequente e revela a tendência pró Cunha Lima: “o senador de mais de um milhão de votos”. Precisa de mais alguma coisa? Quando escreve algo sobre José Maranhão é crítica.

O mesmo jornal mostra sua preferência ao insistir que Cássio irá assumir o senado. A candidatura dele foi indeferida e o caso está no TSE. Não que o assunto não seja notícia. O problema está na forma de escrever, demasiadamente apaixonada.

Em outro jornal, a editoria de política nunca foi capaz (pelo menos nunca li) de fazer um elogio a gestão de Cássio, que passou seis anos no governo. Qualquer ação, por melhor que fosse, era anunciada acompanhada de críticas. Muitas delas sem fundamento, que revelavam a insatisfação de quem durante muitos anos do governo Maranhão foi contemplado com gordos contra cheques. Na maioria das vezes sem aparecer na repartição pra cumprir expediente.

Se durante seis anos esses profissionais criticaram a gestão Cunha Lima, nos últimos vinte meses a postura foi bem diferente depois que Maranhão voltou ao poder. Cássio foi cassado pelo TSE. Elogios e mais elogios ao governo com o intuito de convencer a população da boa administração e ajudar na reeleição.

Maranhão não foi reeleito. A aliança de Cássio com Ricardo Coutinho (ex-prefeito de João Pessoa) saiu vitoriosa. Para muitos colegas de imprensa a vitória representa a garantia de um bom salário na nova/velha gestão. Os perdedores buscam uma relocação no mercado da política.

Não deveria ser assim. Infelizmente é. No estado, 46% (segundo o colega Josusmar Barbosa) dos empregados estão no setor público. E uma parcela desse percentual é formada por jornalistas. Infelizmente, de novo. Daí não dá pra pensar em imparcialidade. E essa certamente é uma das razões que na Paraíba as eleições nunca acabam. As conjecturas políticas para as eleições municipais de 2012 já tomam conta do noticiário político. Muita gente querendo garantir uma ‘boquinha’ na máquina pública.

26 novembro 2010

Diário de uma cidade em guerra

Por Jurani Clementino*

Lanchonete no centro de Copacabana, oitos horas da manhã. Televisão ligada e segundo dia de operação sendo transmitida ao vivo. Alguém, antes de sair, torna pública a sua indignação:

- A culpa é desses idiotas que votaram em Lula.

Silêncio. O emissor da mensagem se retira. Funcionários se entreolham. Um cliente quebra o silêncio.

- Esse deve ser um imbecil aqui da zona sul que nunca foi a uma favela, que não sabe como as pessoas vivem e que tá “se lixando” pra miséria alheia. No fundo deve financiar essa “merda” toda, consumindo produtos do tráfico.

Não concordo nem discordo. Apenas sorrio. Continuo olhando fixamente para a TV. As (contra)indignações vão sendo externadas. Acabo de tomar o meu café, pago a conta, me retiro. Nas ruas deste bairro da zona sul do Rio, a movimentação é aparentemente normal. Tomo o ônibus em direção a zona norte (depois dos ataques, muitos chamam essa região de zona da morte). A cobradora lê um jornal. Na verdade, quase todo mundo resolveu adquirir um exemplar dos jornais diários. Em todos eles diferentes manchetes para o mesmo assunto: “Guerra ao Tráfico”, “Dia D para o Rio no combate ao tráfico”, “Bundões da Vila Cruzeiro fogem como baratas”. “Deu pra entender quem manda no Rio?”, “O Rio contra ataca”... As charges colocam a imagem do Cristo Redentor com o uniforme da PM, colete a prova de balas, boné; os textos fazem inevitáveis referências ao filme Tropa de Elite, chamam a operação de “guerra de cinema”.

O assunto está também na vida da cobradora do ônibus 485B – Linha PENHA – Via Ilha do Fundão. Ela descreve a agonia de uma senhora (gorda e negra) que foi flagrada por policias, durante a operação de ontem na Vila Cruzeiro, com as duas mãos sujas de gasolina.

- Levanta as mãos!!!

Ordena o policial que formava parte de um grupo de cinco ou seis.

- Não se mexe! Qualquer movimento nós vamos estourar.

A cobradora lembra ainda a forma como os incendiários estão agindo.

- Antes eles pediam para os passageiros descer. Agora não. Tocam fogo no ônibus com a gente e tudo.

Ela é moradora da região da Penha. Vive próximo a área tomada pela operação da polícia ontem e lembra um caso da noite passada:

- A expresso (...) tirou todos os ônibus de circulação. Os bandidos ligaram e ordenaram: “ou tira ou a gente toca fogo em todos eles!”. Ainda queimaram três. Milhares de pessoas ficaram sem condições de voltar pra casa. Os pontos de ônibus estavam lotados. Chovia bastante. A minha sorte é que um colega meu ia passando e gritou: “Ei! Ei!” Quando corri um monte de gente me seguiu. Ele disse: “Não, é só ela. Calma gente, ela é minha vizinha”.

O ônibus que geralmente passa lotado nesse horário da manhã, estava praticamente vazio. Ocupei estrategicamente uma das primeiras poltronas, com acesso a janelas e próxima a porta de desembarque. Durante o percurso, rumo a zona norte, observo o trânsito que me parece fluir tranquilamente. Menos caos do que o habitual. Cerca de quarenta/cinquenta minutos depois, chegando a Ilha do Fundão a cobradora retoma a conversa com o motorista:

- Você acha que vão parar?

- Devem parar alguns. Não todos.

- Nada disso, vamos aguardar, mas se pedir pra parar vão parar todos.

Desembarquei. E agora vou depender de uma decisão ou uma resposta ao imperativo desse sujeito oculto para poder voltar pra casa. Ainda é incerto se terei transporte para retornar a zona sul no final da tarde.

* O autor é jornalista, mestrando em Desenvolvimento Regional (UEPB/UFCG) e está no Rio em intercâmbio na IPPUR/UFRJ.

17 novembro 2010

Sempre a imparcialidade

Por Léo Alves

Desde a época da faculdade escuto o discurso que o jornalismo deve ser pautado pela imparcialidade. Hoje, como professor reproduzo a mesma versão. Mas o tempo de profissão me mostrou que essa imparcialidade parece algo utópico.

A imparcialidade é uma característica do imparcial, que o dicionário define como um adjetivo de dois gêneros: que julga desapaixonadamente; reto, justo e que não sacrifica a sua opinião à própria conveniência.

Sempre que esse tema surge gosto de me perguntar se é realmente possível agir de forma imparcial em algum momento da nossa vida? Antes de sermos jornalistas somos pessoas que possuem arcabouços diferentes. Somos resultado de nossa construção histórica, influenciada por gostos familiares, educação, leituras, filmes, músicas e outro tanto de coisas que formam a nossa personalidade.

Por mais imparcial que tentemos ser, algo de nós possivelmente vai influenciar a nossa construção textual. Se for alguém mais sensível à dor do outro, uma reportagem sobre fome tentará sensibilizar as pessoas para a solução do problema. Talvez sendo um repórter mais “seco” a descrição será mais fria. Nenhum dos dois está errado. É apenas um exemplo de como nos influenciamos por nós mesmos.

Na hora crítica de fechamento de jornal, por exemplo, ao optar por essa ou aquela matéria para ser derrubada o editor vai se basear em sua opinião. Provavelmente alguém que está lendo esse texto vai dizer que essa escolha está baseada em critérios. Se os critérios fossem universais as decisões dos editores seriam iguais. E não são. Editar tem muito de subjetividade. Fazer jornalismo, também.

Não esperava que esse preâmbulo ficasse tão grande. Enfim, vamos ao tema que me levou a voltar a escrever sobre a imparcialidade. Durante as eleições, o Estadão se posicionou. Assumiu apoiar a candidatura de José Serra no artigo “O mal a evitar” (clique e leia).

A (o)posição do jornal paulista, como não poderia deixar de ser, trouxe novamente à tona o tema imparcialidade. A maioria foi contra a exposição do apoio. A justificativa: “O jornalismo tem que ser isento”.

Entre alguns colegas, a opinião de um me chamou atenção. Ele alegou que achava correta a posição do Estadão que teve coragem de assumir seu apoio a Serra. Afinal, segundo ele (o que eu concordo), todos os veículos têm seu alinhamento político. De fato. Uma determinada publicação semanal de grande circulação no país não se posicionou (e precisava), mas todo mundo sabe de que lado estava.

De algum lado toda empresa de comunicação está. O apoio é moeda de troca. Garante bons contratos de publicidade em caso de vitória do candidato apoiado. Mas nem todo mundo tem coragem de assumir como fez o Estadão. A parcialidade da imprensa já não é tão velada. E isso coloca em xeque a credibilidade do jornalismo.

09 novembro 2010

Uma nova velha ideia

Por Léo Alves

Na segunda-feira pós eleições, o Jornal da Paraíba lançou numa mesma edição duas manchetes. Uma sobre a eleição de Ricardo Coutinho e outra a de Dilma Roussef. Bastava virar o jornal de ponta-cabeça e escolher o destaque que mais lhe apetece.

Entre os coleguinhas de profissão, a edição foi alardeada como uma inovação no jornalismo. A ideia é interessante, mas está longe de ser uma novidade. Na Copa do Mundo de 2002, o Correio Braziliense já havia feito uma capa “carta de baralho”.

O detalhe é que a capa do Correio tinha uma justificativa. Naquela madrugada o Brasil enfrentaria a Inglaterra na Copa Mundo da Coréia-Japão. Para driblar o tempo (já que depois do jogo não daria tempo imprimir o jornal), o CB fez duas manchetes na mesma capa. Uma com vitória da Seleção Brasileira e outra com o triunfo dos adversários.

Analisando os dois jornais, a minha humilde opinião é de que a capa do Correio se justificava.

O impresso usou a criatividade para trazer a notícia do dia, que era o jogo da Seleção, ocorrido na madrugada. No caso paraibano, o JP poderia muito bem ter colocado as duas notícias (Ricardo e Dilma) numa mesma manchete.


Nesse caso, a criatividade não foi funcional. Apenas uma forma de passar a ideia de pioneirismo. Talvez para os leitores menos atentos ou antenados, tratou-se uma grande inovação, mas como se viu não foi nada além de uma cópia, um plágio, uma reprodução de uma ideia de oito anos atrás.

27 outubro 2010

O fim está próximo ? (Parte II)

Por Léo Alves

No primeira parte desse post, o grande Pedro fez uma reconstrução histórica suscinta, mostrando que o fim do jornal impresso vez por outra volta à discussão. O impresso voltou a ser questionado com a chegada do Ipad. O assunto cessou um pouco nos últimos meses. Não significa que as publicações diárias deixaram de estar em xeque.

Há pelo menos sete anos escuto (época em que trabalhava em redação) que o jornal impresso dá prejuízo. Ressalto que esses comentários se restringem à Paraíba. Não conheço a fundo a realidade de outros centros. Mas no estado de Assis Chateubriand, o número de jornais vendidos (assinantes e avulsos) somado aos anunciantes não paga os custos de manutenção da publicação.

Os quatro maiores jornais do estado fazem parte de grupos de comunicação, que congregam rádio, TV e portais. E segundo os comentários de bastidores são as tevês - onde o volume de publicidade é muito maior e os preços mais altos - que bancam os jornais.

Se o jornal impresso na Paraíba dá prejuízo por que mantê-los?

É uma pergunta que pode ter várias respostas. O jornal impresso ainda tem seu charme, exerce poder. Quem o lê é o público (teoricamente) mais culto. Encerrar a publicação pode dar a ideia de que o grupo de comunicação está em decadência. Até na vaidade dos donos o jornal encontra suporte para se manter.

Não sei precisar, mas acho difícil um jornal impresso atingir a marca de 15 mil exemplares diários na Paraíba. E olha que essa é uma previsão muito otimista. E mesmo se chegasse a esse número de publicações acredito que não daria para cobrir as despesas.

O jornal impresso pode até chegar ao fim, mas ainda vai demorar um bom tempo. Ainda o veremos com suas manchetes estampando as bancas por muitos anos.

Porém, para se manter na ativa o jornal impresso precisa se reinventar. Há alguns anos defendo a ideia de que o jornal deveria ser distribuído gratuitamente. O valor de um exemplar (em média R$ 1,50) não acrescenta muita coisa no orçamento.

Depois da internet as pessoas se acostumaram a não pagar pela informação. E boa parte acha desperdício comprar um jornal que na maioria das vezes não traz além do que já foi publicado na rede.

Eu sou assinante de um jornal impresso há mais de um ano. Só renovei a assinatura porque mantiveram o valor da mensalidade do ano passado: R$ 14,90. Cada exemplar sai por 62 centavos. Menos da metade do valor da banca.

Como não disponho mais de muito tempo para ler as notícias na net, o impresso é suficiente para me manter informado.

Dei esse exemplo da assinatura para reforçar que realmente não é a assinatura, tampouco a venda avulsa que segura o jornal.

Alguém pode até dizer que distribuir tiraria o valor do jornal. Tem até um certo sentido, mas já temos experiências no Brasil, onde publicações são gratuitas. E essas vão muito bem. Os anunciantes tem a garantia que sua publicidade vai ser vista por um grande número de pessoas.

Tenho um amigo que faz um jornal em Tocantins que desde o início é distribuído gratuitamente. O empreendimento cresceu e hoje é um dos mais respeitados da região.

Na Paraíba, edito duas revistas que são distribuídas. Não sobra nenhum exemplar.

O jornal distribuído também evitaria encalhe.

Para quem quisesse receber o exemplar em casa pagaria uma assinatura para cobrir as despesas da entrega. Ou alguém tem dúvidas que os R$ 14,90 que pago por mês da minha assinatura dá pra mais alguma coisa?

A informação de graça certamente reavivaria o jornal impresso tão contestado ultimamente.

11 agosto 2010

Central da revanche

Por Léo Alves

A Globo não quis alterar sua programação para exibir o primeiro amistoso da Seleção sob o comando de Mano Menezes. O assunto foi muito bem exposto pelo Saulo no post anterior. A rede preferiu manter sua Passione no ar. Atitude que levaria o torcedor comum (o que não tem TV por assinatura) a pensar que era um simples amistoso. Poderia até ser porque muita gente estava desinformada sobre a partida. Mas a maior rede de televisão do país fez questão de transformar o jogo na “hora da revanche” ou a “ hora do troco”. Era o momento certo para dar uma resposta ao técnico Dunga, que durante o Mundial da África acabou com as mordomias da Globo junto ao elenco verde e amarelo.

O Brasil venceu. Era tudo o que a tevê precisava para soltar ‘diretas’ ao Dunga. Mesmo se não tivesse vencido a desculpa seria “temos que ter paciência porque é início de trabalho”. O clima de lua de mel entre Globo e CBF já começara no Globo Esporte de terça-feira (10/08). Alex Escobar foi presenteado com a camisa 10 personalizada da Seleção. Sinceramente nunca tinha visto a emissora noticiar com tanta ênfase um presente recebido por um de seus profissionais. Achei até que fosse contra o código de conduta da empresa. Para quem não lembra Escobar foi agredido verbalmente por Dunga durante uma entrevista coletiva na Copa do Mundo.

O veneno global foi destilado à vontade no Central da Copa Especial. Um programa totalmente fora de contexto se não fosse pelo clima de revanchismo.Quantos técnicos estrearam pela Seleção e tiveram um programa para repercutir o jogo?

No programa apresentado por Tiago Lierfert estavam presentes vários convidados, entre eles, Galvão Bueno, Falcão, Arnaldo César Coelho, Caio Ribeiro e o (sem graça) Marcius Melhem, que interpreta um dos Caras de Pau, programa da emissora.

A vitória sobre o todo poderoso Estados Unidos foi a deixa para Galvão dizer que “se divertiu muito com Pato, Ganso e Neymar”. Tiago emendou ao afirmar “que o talento voltou graças a Deus”. Logo depois Marcius disse que “tava ruim torcer para Seleção. Agora tá fácil”. E ainda ironizou Dunga ao chamar a Seleção da África de time cintura dura, time do exército.

Por essas declarações já dá para perceber que Central da Copa foi ao ar apenas como revanche. E Galvão Bueno novamente foi hipócrita (é por isso que o mandam calar a boca) ao afirmar “que quem se alimenta de revanchismo sempre está mais perto da derrota que da vitória. Temos que tomar cuidado para que não venhamos a nos alimentar de revanchismo”, tentando enganar os telespectadores.

O que estava escancarado ficou ainda mais. Március disse que “era o dia do exorcismo, dia da libertação. No banco agora temos um cara que não agride jornalista e nem a gramática e usa agasalho”

Depois de Tiago dizer que a Globo tinha tido acesso a preleção dos jogadores Galvão ironizou: “que diferença hein?”. E é porque não queria revanchismo. O que menos atingiu Dunga foi Caio, que se limitou a dizer que Mano “trouxe o talento de volta à Seleção”.

O programa durou quase 42 minutos. O leitor pode vê-lo novamente aqui. Ficou claro que Mano Menezes vai ter vida fácil na Seleção porque se dispôs a cumprir o que a Globo quer. Na Central da Revanche o que se viu foram reportagens mostrando os quartos dos jogadores, o comportamento (exemplar, para eles) de Mano à beira do gramado, a intimidade do grupo. Nos bastidores está tudo acertado para que a emissora volte a ter exclusivas, acorde os jogadores a hora que quiser para dar entrevistas e outros benefícios que se acostumou ao longo dos anos.

Em retribuição aos afagos, todos (todos mesmo) seus profissionais vão apontar apenas virtudes na nova Seleção Brasileira e em Mano Menezes. Tudo está perfeito. E será assim até a nossa Copa em 2014. O pior é que muitos torcedores e jornalistas esportivos (já ouvi isso na Paraíba) vão seguir a Globo e achar que realmente o Brasil não tem problemas só porque o Dunga saiu.

O risco que corremos é de ter em 2014 um Maracanazzo ainda pior. Como é anfitriã, a Seleção não disputa eliminatórias. Os defeitos serão encobertos pela Globo. Só teremos a Copa América para medir a qualidade dos meninos de Mano. Nunca é demais lembrar que fomos desclassificados nos últimos mundiais por seleções européias. Mas como diz o Casseta e Planeta da Globo: “os seus problemas acabaram”. É o que veremos em 2014.

10 agosto 2010

Passione pelo Brasil

Saulo Duailibe*

Na noite desta terça-feira, a Seleção Brasileira faz o primeiro jogo após a eliminação da Copa do Mundo da África e do fim da era Dunga. Toda renovada, desde a comissão técnica ao time, a seleção, enfrenta os EUA, às 21h, em Nova Jersey.

Quem estava ansioso para ver a ‘Molecada do Santos’, e até uma dupla animal, com Pato e Ganso, vai ter esperar mais um pouco. A Rede Globo não abriu mão de exibir mais um capítulo da novela Passione, que passa no mesmo horário do jogo.

Agora o torcedor canarinho tem que sair de casa para poder prestigiar a nova fase brasileira e assistir a partida em botecos ou bares. Ou assinar uma TV paga. Mas a maioria vai ver Totó correr atrás de Clara e deixar uma fortuna pelo amor de uma mulher que poderia ser a filha dele.

Ou melhor, olhar Reynaldo Gianechinni tentar fazer um papel de vilão, enquanto Bruno Gagliasso faz um bígamo com duas mulheres lindas e ricas. Além de assistir uma mulher fútil, a Clô, casada com Francisco Cuoco, que interpreta um dos piores papeis da carreira, fazer de tudo pela decoração da casa nova. Este que é o único momento hilário do folhetim.

E, acima de tudo, quando as cenas vão para a Itália fica pior. Todos falam uma língua ainda desconhecida para os estudiosos: o ítalo-português. E assim também era na novela Caminho das Índias, onde o Harebaba se misturava gírias brasileiras.

Na maioria das vezes não podemos escolher o que degustar na programação da televisão. As emissoras que detém os direitos de imagem fazem o que querem e tudo pelo lucro incessante.

Um exemplo: a Globo compra o direito de transmitir o Brasileirão e libera os piores jogos para as outras emissoras. E quando não libera a mesma partida.

Na verdade, não controlamos nem mais o que pagamos. Se a televisão é minha, assisto o que quiser, mas não é assim. Pagar não é poder.

*Saulo é jornalista, editor de O Imparcial Online (www.oimparcial.com.br), portal de notícias do Maranhão

02 agosto 2010

O fim está próximo?

Pedro Henrique Freire

O rádio nasce. Será o fim dos jornais. A tevê nasce. Será o fim dos jornais. A internet nasce. Será o fim dos jornais. Agora os e-readers, os tablets chegaram... Será o fim dos jornais? Estamos diante, pra variar, de mais uma conjuntura apocalíptica para os jornais. Depois que a Apple inventou o Ipad, um tablete digital que só falta falar, a discussão gira em torno da existência (e persistência) do impresso de cada dia.

Em setembro, o tradicional e marcante Jornal do Brasil fecha seu parque gráfico após 119 anos em circulação. Economicamente, bom pra ele: não irá gastar mais com chapas, tinta, toneladas de papel, manutenção de máquina, entre outros custos inerentes a produção de um impresso.

Mau porque perde sua marca, seu charme de ser chamado de jornal, sua influência, seu leitores e sua credibilidade. Agora vai existir apenas na internet. Não será mais o Jornal do Brasil. E, sim, o Portal do Brasil. Não é a mesma coisa, convenhamos.

O que fazer para reverter essa tal “decadência”, há décadas discutida e incompreendida por todos? Eis que com os e-readers e tablets surge uma nova interpretação da crise, amadurecida naturalmente pelos trancos e barrancos causados pelo rádio, tevê e internet. Não queremos fugir do afogamento, mas estudar o melhor modelo de mergulhar e explorar com profundidade o mar dessa nova tecnologia.

“O desafio é usar os e-readers e tablets para vender conteúdo, evitando os ‘erros’ cometidos com a migração para a web. Os efeitos da gratuidade ainda assombram”. Quem fala é o estudioso em comunicação Kerry Northrup, da Western Kentucky University, que acompanha a alarmante adesão à nova tecnologia pelos Estados Unidos.

É um passo. Afinal, hoje investimos em tecnologia quase por uma imposição da modernidade. Somos obrigados a acompanhar as novidades do meio e implementá-las. Se pudermos gastar ganhando, mais justo. A crise, ninguém esconde que há. Mas é uma crise dos jornais. E não do jornalismo. E ela existe há muito tempo. A morte deste papel já esteve próxima por diversas ocasiões. Será que agora ela chegou? Não creio.

28 julho 2010

(Quase) Adeus, leitores...


Prezados jornalistas, tive acesso, acidentalmente, aqui nosso humilde Maranhão, à carta enviada aos assinantes do Jornal do Brasil e assinada por Humberto Tanure, irmão de Nelson, dono futuro-ex-Jornal do Brasil.

Segue a imagem com a carta, assinada. Ele discorre sobre uma nova era do períodico, na qual se tornará o "Portal do Brasil" (digamos assim) e não mais o "Jornal do Brasil". Serve para avaliarmos e tirarmos as nossas próprias conclusões.

Devemos acreditar nisso? No fundo, mesmo que por uma medida "economico-compulsória", ele não estaria certo?

Abraços a todos

22 julho 2010

É o fim ou o fim da picada?

Outro dia conversava com meu chefe e pedia-lhe permissão para ir ao Congresso Brasileiro de Jornais, realizado a cada biênio pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) – veja o serviço abaixo. Falava do nosso interesse sobre o tema que será discutido (Jornalismo e Democracia na Era Digital). Conversa vai, conversa vem, ele me incumbiu: “Preciso que me tragam alguma solução nesse aspecto. Não que tenha deixado de acreditar no papel, mas precisamos discutir aqui novos meios de transmitir informações”.

Não sei se estamos abatidos pelo fechamento do Jornal do Brasil, na última semana, ou se definitivamente consideramos que as novas mídias estão permitindo que árvores vivam mais e jornais vendam menos. O fato é que todos discutem agora a presença dos tablets ou e-readers como ferramenta de transmissão de informação. Será que irão substituir o papel (e o papel) dos jornais? Isso representa o começo do fim dos clássicos impressos ou o fim do jornalismo?

É o fim ou o fim da picada quererem matar os jornais de novo? Não tenho ideia.

Lendo a reportagem de capa do jornal da ANJ deste mês, uma frase fixou na mente: “O desafio é usar os e-readers e tablets para vender conteúdo”. Concordo. Até porque já se gasta dinheiro demais com a produção de conteúdo na internet, onde tudo é de graça. Gastar mais para dar de graça de novo pode ser insustentável a pequenas empresas. Concordam? Veremos. Após o Congresso escreverei mais sobre o tema.

Congresso Brasileiro de Jornais – Ano 8
“Jornalismo e Democracia na Era Digital”
Palestra com Robert Thomson, editor do The Wall Street Journal
Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo
Francisco Amaral, da Cassis i Associats

Entre outros feras.

Mais informações: www.anj.org.br

19 julho 2010

Imparcialidade espanhola

Por Daniel Brito

Na Espanha é assim: reporter pode se pegar com jogador ao vivo, jornalista pode usar camisa da selecao na redacao e esquecer-se do fechamento...

Olha ai como a redação do Diario Marca, um dos mais renomados veículos esportivos do planeta sediado em Madrid,, assistiu aa final da Copa.

08 julho 2010

Os cinco clichês da Copa de Catorze (até que a bola role)

Por Daniel Brito

A "Copa de 14" (aspas para Ricardo Teixeira e sua maneira de se referir ao próximo mundial) tem tudo para ser uma das mais chatas até que a bola role.

Por quê?, você vai me perguntar.

Por causa dos assuntos que vão bombar na imprensa até que o Brasil enfrente os Emirados Árabes em 13 de junho, na abertura da Copa em um futuro White Elephant que está por venir.

Abaixo, relaciono os cinco temas preferidos dos jornalistas para a Copa de 14:

1 - Arenas verdes
Brasil fará a Copa verde. Por causa do aquecimento global, o Brasil é personagem principal no cenário internacional para conscientizar as pessoas da importância de se jogar futebol em verdes relvados, em estádios com teto solar, reuso da água da chuva... (Enquanto isso, em 2018, Qatar surge como favorito por propor a criação de 12 arenas completamente climatizadas no deserto)

2 - Arenas multiuso
Futebol por si só não sustenta estádio. As arenas tëm que ser multiuso. Todos os anos, cada um dos estádios da Copa de 14 vai receber um show do Elton John, outro do Rolling Stones, Madonna. Só assim eles vão se sustentar e não virar White Elephants.

3 - Licenciamento ambiental
Como Fortaleza, Salvador, Recife, Natal, Cuiabá e São Paulo (metade das cidades sedes) ainda não tem estádio pronto, vão ter que encontrar uma área adequada para tal. Vão descolar um terreno baldio na perifa (O estádio de recife, veja voce, vai ser em ...Olinda!!) e desmatar. Acontece que aquele terreno baldio, na verdade, era zpna de proteção ambiental. E para desapropriar a área serão necessários dois anos de análises do Ibama.

4 - PPP
O Estado, sempre previdente, não vai bancar pelos estádios novos. Que venham as empreiteiras e os consórcios. Vamos celebrar as parcerias público-privadas. Nosso castelo de cartas marcadas, trabalho escravo, nosso pequeno universo.

5 - Tribunal de Contas da União
É hora de conhecermos os nomes dos ministros do TCU. Eles serão inseridos paulatinamente em jornais e revistas, e depois portais noticiosos e transparentes e, em seguida, matérias de tv. Quando eles estiverem bombando na TV é pq o monstro já vai estar formado. Os ministros que serão cobrados por fiscalizar os gastos pelas arenas verdes (1), arenas multiuso (2), os gastos para agilizar o licenciamento ambiental (3)e as parcerias público-privadas (4). Se eles vão conseguir...Aí é outra história!

25 junho 2010

Torcer ou não torcer, eis a questão

Por Mário Coelho*

Época de Copa do Mundo de Futebol sempre traz uma série de questões. Os debates ficam mais acalorados. Nos bares, nos fumódromos, no ponto de ônibus, a competição é um dos principais assuntos. E, ao cabo disso, vem a discussão sobre o papel da imprensa na cobertura esportiva. Seja qual for a posição, é quase certeza que vamos apanhar. Agora, se é para levar porrada, que pelo menos seja pelo motivo certo.

Em uma das coletivas de Dunga & Cia, o auxiliar técnico Jorginho fez um discurso emocionado sobre qual, na concepção dele, deveria ser o comportamento da imprensa. Invocou o patriotismo, disse que nessas horas devemos torcer pela seleção da CBF. Em outra coletiva, já na África do Sul, desafiou um jornalista que criticava a equipe. Não disse quem era, mas falou que queria o debate.

Depois veio a história do Dunga com a Globo. Ali, mistura-se jornalismo com entretenimento, com negócios da maior empresa de comunicação da América Latina. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, ambos tinham suas razões e seus erros.

Dunga acertou em bater no peito e acabar com privilégios.

A Globo, em reclamar o cumprimento de um acordo.

Um errou por mostrar-se mais mal educado do que o normal.

A emissora, em agir de forma promíscua com o presidente da CBF.

Enfim, não quero falar sobre isso, nem sobre o cala-boca Globo, Tadeu Schmidt ou qualquer outra pessoa. Esse pensamento binário no twitter me irrita. Talvez por imposição dos 140 caracteres, as pessoas sejam forçadas a se mostrarem maniqueístas.

Sei lá, às vezes dá uma preguiça de debater o bom debate nesses termos.

Ok, voltemos ao que queria escrever desde o começo.

Pede-se que a imprensa seja imparcial. Tá, acho que ninguém percebe que não existe imparcialidade no jornalismo. Isso simplesmente porque o ser humano não é imparcial. Médicos não atendem e tratam parentes por conta da falta de isenção. O nepotismo é proibido e condenado por conta disso também. Então por que nós, que relatamos os fatos devemos ser desse jeito?

É claro que reconhercemos que somos parciais não é motivo para fazer um trabalho tendencioso. São coisas completamente diferentes. A verdade não é única, não tem apenas um lado, mas sim vários. Ouçamos todos. Depois, é deixar para os leitores/ouvintes/
telespectadores tirarem suas conclusões. Só que, ao ouvir tantas queixas sobre a cobertura da imprensa e sobre jornalistas, as pessoas não sabem o que querem.

Leio no twitter e em blogs que jornalistas são, em sua maioria, tendenciosos, safados, um bando de mau caráter, prontos para sacanear o primeiro que der mole. Sim, eu digo, alguns são tudo isso. No entanto, os mesmos que criticam e cospem, são aqueles que mostram uma matéria com um ponto de vista que o agradam.

É fato, então, que o jornalismo que agrada é aquele que vai ao encontro da nossa opinião.

O Daniel costuma dizer que eu sou o único torcedor do Avaí fora da Ilha de Santa Catarina. É mentira, conspiração de um trezeano. Ok, isso não tem nada a ver, eu só queria dar uma cutucada no moleque. ;) O fato de eu ser avaiano me faz ler uma série de blogs de torcedores diariamente. Raramente eles trazem informações. A grande maioria dá pitaco, faz comentários e clipagens do que sai sobre o time na imprensa tradicional.

Apesar de usarem a imprensa tradicional como base para abastecerem seus blogs, a grande maioria deles diz que os veículos da principal empresa de comunicação do sul do país persegue o Avaí. Xingam, dizem que os gaúchos são tendenciosos, que é um desrespeito que fazem com a equipe, blá blá blá.

Quando sai algo contra o Avaí, é um deus-nos-acuda. Vêm à tona uma porção de teorias da conspiração. Porque a empresa quer que o Avaí caia de divisão, morra de inanição, etc. Se alguém noticia que o treinador atual recebeu convite de uma equipe x, é golpe para desestabilizar a equipe. Aí, dias depois, o próprio treinador reconhece que recebeu proposta mas negou, ninguém fala nada.

Basicamente, o que torcedor na sua grande maioria quer, seja ele do Avaí, do Treze de Campina Grande ou da seleção brasileira, é de ler coisas positivas e fatos comuns do dia a dia. É falar sobre a contusão do jogador, a escalação do time, a confirmação oficial de um patrocínio. Poucos querem saber da cobertura de bastidores, da cobertura política ou econômica do esporte. Por conta da paixão, atacam quando algo foge do normal. Como se não fosse notícia do mesmo jeito.

*Mário Coelho é o único torcedor do Avaí fora da Ilha (há controvérsias), foi sócio contribuinte inadimplente deste blog e foi retirado das fileiras "do mesmo" por absoluta incompetência do administrador "do mesmo"

05 junho 2010

Top 5 clichês da imprensa brasileira na Copa do Mundo na Sud'Africa

Por Daniel Brito

5 - País tropical, abençoado por deus, bonito por natureza. Que beleza! Em fevereiro... - Semelhanças entre Brasil e África do Sul. O ceticismo quanto à capacidade de organizar um evento tão grandioso, a roubalheira, a corrupção, os problemas estruturais como energia eletrica, rede hoteleira, aeroportos, estádios em formato de elefantes-brancos...


4 - A alegria do povo africano - Essa gente bronzeada que mostra seu valor. Que canta, que ri, que alegra os estadios e as ruas da south afrika com sua ginga, sua malicia, sua malemolencia.

3 - O sofrimento do povo africano - Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas. Massacrado pelo branco europeu e sua mentalidade imperialista, que tolheu a liberdade desse povo e deixou cicatrizes que não serao apagadas nem tao cedo. Talvez nunca mais.

2 - Lei da selva - Bem-vindo à selva, nós temos diversão e jogos. Não tem direito de errar. O mais forte sobrevive e chega à final. É o mata-mata, amigo. Haaaaajjjjaaaa coração!

1 - United Colors of football - O futebol como a união dos povos e das raças. As diferenças históricas deixadas de lado em prol de um mundo melhor, que assiste futebol, que torce, que vibra, que se emociona junto.Imagine todos os povos vivendo num mundo em pazzzz...u-uuhhh. You may say i'm a dreamer...


Reproduzido do blog bolaetudo.blogspot.com com a devida autorização e os direitos reservados ao autor da obra.

21 maio 2010

Revolta de um jornalista (sério)

Por Léo Alves

Conheci Nildo na faculdade de jornalismo. Eu na condição de professor (ou de mediador, como gosto de dizer) e ele de aluno. Sempre foi uma pessoa que demonstrou sinceridade e posições firmes, algumas vezes interpretada como radicais. Nildo, agora Lenildo Ferreira, se formou e hoje atua na no jornalismo político, uma área muito visada e sedutora por estar muito perto do poder. O agora jornalista mantém sua posição séria e sincera no seu dia-a-dia. Seus textos - principalmente os publicados no Blog do Lenildo - nem sempre agradam. E quando o texto não agrada os anônimos se aproveitam para criticar o autor. Como sofri isso (e muito) num blog de esportes que fechei há mais de dois anos reproduzo abaixo a revolta de Nildo publicada em seu blog que expressa também minha posição em relação aos comentários covardes dos anônimos:

NA FRENTE DE COMPUTADORES, COVARDES, BABÕES E AFINS ESCULHAMBAM JORNALISTAS. E OS JORNALISTAS SÃO AS GENIS DA PARAÍBA

Sempre tem alguém disposto a xingar os jornalistas. O jornalista é burro, o jornalista é comprometido, o jornalista é vendido, o jornalista é desinformado. Xingar jornalista, principalmente aqui na Paraíba, é mais que uma moda. É quase uma tradição, uma obrigação, uma profissão de fé.

O danado é que, na maioria das vezes, quem condena a suposta parcialidade do jornalista é algum puxa saco de político, daquele que mata e morre pelo deputado Fulano, o vereador Sicrano, o governador Barnabé. É, portanto, o cara que vota inquestionavelmente em seu candidato, mesmo que ele seja incompetente, mesmo que ele seja burro, mesmo que ele seja corrupto. E se acha, mesmo assim, no direito de ofender os jornalistas.

Outro caso comum é o dos anônimos, gente que liga para as rádios, manda e-mail, comenta nos sites e blogs, quer sob um nome falso, quer sob nome nenhum. Mas se acha no direito de condenar quem, nessa Paraíba sem a menor liberdade de imprensa, em que manifestar opinião é pôr o pescoço à disposição do carrasco, ousa dizer o que pensa.

Aqui no blog, vez por outra aparece uma crítica, claro. Nada mais normal que a discordância. O que, na maioria das vezes, inviabiliza a liberação do comentário crítico é o nível do comentário, muitas vezes permeado de ofensas e xingamentos. É que tem muita gente que acha que a melhor forma de responder uma crítica de um jornalista é esculhambando com ele.

Dia destes, após publicar uma postagem criticando a elitização das honrarias concedidas pela Câmara de Vereadores, algum internauta muito ofendido registrou seus impropérios, dos quais não me dei ao trabalho de ler mais que as primeiras quatro ou cinco palavras e deletei. Provavelmente seria algum parente de homenageado, ou mesmo algum xeleléu de vereador.

Se argumentasse feito gente, o espaço estaria garantido. Mas não sou e nem quero ser o cara mais paciente, cabeça fria e moderado do mundo, para agüentar desaforo de ninguém. Sou jornalista, e busco pautar-me pelos princípios éticos em que creio. Mas, primeiro, não reconheço em ninguém a autoridade para estabelecer quais são esses critérios éticos e, segundo, antes de ser jornalista, sou homem, e não sou dos mais pacíficos.

Veja-se, por exemplo, um caso que liberei o comentário. Está na postagem do dia 02 de maio (veja AQUI). Comecei o texto assim: “Então secretário de Cidadania e Administração Penitenciária, Roosevelt Vita, um dos "chegados" do governador José Maranhão, em agosto do ano passado ofendeu os moradores dos bairros Catolé (...)”.

Pois bem, um certo internauta, assinando Roma Assessoria, comentou assim: “O analfabeto parece ser você pois esse senhor não é mais secretario de cidadania e justiça infome-se jornalistarzinho (sic)”. O nível ortográfico já diria que trata-se de uma autoridade em analfabetismo. Tive de responder ao comentário: “Caro ANALFABETO, você leu em algum lugar daqui "cidadania e justiça"? Caro IMBECIL, você não viu logo na primeira palavra do texto um "ENTÃO"??? Esse "então" significa que ele foi (secretário de administração penitenciária), e não é mais. Você, sim, Vita pode chamar da analfabeto”.

Somos jornalistas, mas somos homens, e não lixeira para que toda a sorte de imbecil vomite seus atrevimentos, aproveitando-se do fato de não estar cara a cara conosco.

Lenildo Ferreira

14 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) - parte final

Por Léo Alves

Como dito no último parágrafo do post anterior, seis meses depois de entrar no Diário da Borborema, saí para assumir um cargo (concursado) no Banco do Brasil em abril de 2000. Esqueci de dizer que antes de ir pra o Diário havia feito o concurso e um teste para repórter na TV Paraíba, no qual fui reprovado.

A vida no BB me oferecia um salário melhor, folgas nos feriados e finais de semana, além da famosa estabilidade. Aparentemente não sairia mais dali. Porém, passados 10 meses, uma angústia tomou conta de mim. Primeiro, porque a vida de bancário não é menos estressante que a de jornalista. Além disso, tinha que viajar todos os dias mais de 60 quilômetros – dos quais em 22 tinha 72 curvas (contava para não dormir ao volante) para chegar à agência onde trabalhava na região do Cariri.

Dois meses depois, surgiu a oportunidade para voltar ao Diário da Borborema, agora como repórter esportivo. A negociação para minha volta foi intermediada por Daniel, que era repórter da TV Borborema na época. O gerente do banco não queria me liberar, pois em poucos meses havia me tornado responsável pela agência. Até que disse pra ele:

- Eu posso chegar a ser presidente do Banco do Brasil, mas vou estar infeliz porque sempre que ler uma notícia vou me lembrar do que podia estar fazendo.

Liberado do BB, aceitei a proposta, mesmo reduzindo meu salário pela metade. Era o preço para voltar ao jornalismo, já em 2001. O preço foi muito bem pago. Poucos meses depois voltei a ser editor (o salário melhorou) e no final do ano a editora Neide Nascimento me convidou para ser repórter da TV Borborema, onde havia participado de um debate esportivo na condição de editor do jornal.

Relutei de início, mas aceitei. O colega Daniel afirmou categoricamente que “televisão numa era a minha praia”. Em parte, ele tinha razão porque nunca me senti muito à vontade com a reportagem. Mesmo assim, passei quase cinco anos na TV e no jornal até ser chamado para a TV Paraíba para ser repórter.

Senti-me como um jogador de futebol que é dispensado de um time e oito anos depois é contratado por ele. Em 2005 chegava à afiliada Globo com a consciência de que anos atrás realmente não tinha condições profissionais de assumir o posto a que me candidatei. Fui reprovado na época de forma merecida.

Meu primeiro desafio foi convencer o editor-chefe, Rômulo Azevedo (meu professor na UEPB), que estava pronto para a função.

Explica-se: minha contratação foi pedida pelo editor regional, Luiz Augusto Pires (hoje na Rede Amazônia), mesmo contra a vontade de Rômulo. Uma pessoa foi fundamental para minha chegada ao Grupo Paraíba, o editor Expedito Madruga, com quem havia trabalhado nos Associados anteriormente, e que levou minhas reportagens para Luiz.

Com trabalho consegui convencer Rômulo que não estava ali por acaso. Mais pra fente, ele mesmo comentou numa festa de confraternização que cometeu um erro ao ser contrário a minha ida para a TVPB.

Pouco mais de ano sob as orientações do professor Rômulo até que uma nova chefia assumiu a TV. No segundo semestre de 2006, saiu Rômulo e assumiu Carlos Siqueira, que estava na casa havia quase 20 anos como repórter e apresentador.

Nos primeiros meses de Siqueira, mais uma mudança: saí da reportagem e fui deslocado para a produção. Confesso que não encarei com naturalidade a mudança. Pensei em sair. Tive proposta para voltar aos Associados, mas decidi ficar para aprender mais.

E a partir de 2006 descubri que telejornalismo é muito mais (muito mais mesmo) que apenas botar o rosto no vídeo. Com a confiança de Siqueira (que me ensinou muito sobre a arte de ser chefe), fui produtor, chefe de produção, editor assistente do Globo Esporte local e editor de telejornais. A experiência me fez entender um pouco mais sobre os caminhos da notícia.

Tudo na vida é um ciclo e o meu na TV Paraíba chegou ao fim.

Como diz o título deste post, o ciclo de redações foi encerrado (pelo menos por enquanto). Saí para encarar o desafio de um mestrado. Desde 2004 – paralelo à vida de jornalista – passei a dar aulas no curso de jornalismo da UEPB. A partir de então, busquei um mestrado para encarar com mais foco a academia. Como a realização, decidi abdicar da vida em uma redação para cursar com mais dedicação a pós.

Não foi fácil tomar essa decisão, mas ela já vinha sendo amadurecida havia alguns anos. Afinal chegam momentos na vida que é preciso decidir entre uma coisa e outra.

Nesse tempo todo aprendi muito mais que ensinei. Ri muito mais que chorei. Os momentos de tristeza foram tão poucos que são superados pelos inúmeros de alegria. Tenho muito mais a agradecer que ser agradecido. Nesse tempo, fiz muito mais amigos. Algumas amizades - é verdade - não resistiram e não resistirão à falta de contato na redação. São os amigos de trabalho. Não menos importantes que outros. Certamente devo ter feito alguma inimizade, mesmo que ela nunca tenha sido revelada. E isso faz parte da vida. Como diz o poema de Vitor Hugo:

“Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo”

Independentemente do estresse do dia-a-dia (que me levou a um cateterismo), das alegrias, das poucas tristezas, o importante é que durante o tempo em que estive nas redações me realizei profissionalmente, algo que com certeza não teria acontecido se tivesse sido engenheiro ou bancário. E por isso, “somente” por isso, esses anos de jornalismo valeram muito a pena.

11 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) – Parte 1

Por Léo Alves
Entrei no curso de jornalismo a contragosto do meu histórico escolar. Havia concluído no segundo grau o curso técnico de eletrônica. Embora a única coisa que consegui fazer nessa profissão foi deixar minha casa toda no escuro (depois do curto-circuito) ao tentar trocar o botão liga-desliga da televisão da minha mãe. Ainda hoje o grito dela ecoa na minha mente:

- LeonaAAAAAAAAAardo, o que foi isso?

Depois de quase um minuto de silêncio (do medo) e outro grito da minha mãe (certamente achando que eu tinha morrido) consegui responder.

- Mãe, foi nada não. Só errei aqui um negócio. (Esse erro eu nunca descobri porque não segui a carreira para investigá-lo).

Se bem que noutra tentativa (não sei se foi antes ou depois do curto) fiz a ligação elétrica do meu quarto. Tudo aparentemente perfeito. Porém a tevê só ligava quando a luz estava ligada.

Mesmo com essas experiências frustrantes ainda insisti e fiz vestibular para engenharia (mecânica) e para jornalismo. Fui aprovado nos dois. Passei cerca de um ano e meio nos cursos, mas em 95 decido abraçar o jornalismo.

Inspirado por meu tio Gutemberg Simões - que é repórter esportivo - sempre sonhei em seguir esse caminho. O detalhe é que ele era contra (talvez por saber das mazelas que fazem parte do futebol). Como “titio” não quis me dar espaço em seu departamento de esportes fui levado para a rádio concorrente (a Caturité) pelo colega Morib Macedo, que na época também engatinhava na profissão.

Como plantonista esportivo não tive muito sucesso. Trabalhar com vários rádios chiando no meu ouvido (antigamente era assim, não tinha a net) para pegar os resultados dos jogos não era meu forte. Passei alguns meses, mas nem lembro se fui convidado a deixar o departamento ou sai por conta própria. Pouco tempo depois fui chamado pela própria rádio para tirar férias de um padre, que tinha um programa onde as pessoas enviavam cartas pedindo músicas religiosas.

Durante mais de um ano assumi o “Cartas e Canções”. Inicialmente gravava o programa com amigo operador Araújo, que me deu uma grande força nos momentos de nervosismo. Nesse tempo muitas ouvintes me confundiam e achavam que eu era “Padre Léo”.

Passada a experiência católica, meu tio me convida para ser repórter na rádio (a extinta Borborema, hoje Clube) em que ele trabalhava ao lado de Romildo Nascimento. Os dois me ensinaram os caminhos da reportagem. Nem assim consegui emplacar. Isso porque em 96 (era setorista do Treze) ainda era muito imaturo profissionalmente. Faltava-me o senso de responsabilidade e noção de jornalismo. Uma das maiores m* que fiz na carreira foi ler um jornal do dia anterior no programa esportivo que fui escalado para apresentar. Dá pra imaginar a quantidade de ligações que recebi (o bom é que ninguém lembra, só eu).

Novamente me afastei, só retornando em 98. Agora de fato para me seguir na profissão. Mais maduro e mais consciente do era o jornalismo esportivo passei mais de um ano sendo setorista do Campinense. Em 99 – já formado – chegava à rádio para fazer o noticiário e ao ler os jornais me perguntava como era que a “pessoa” conseguia encher uma página todos os dias.

E não é que em setembro de 99 fui chamado para um teste no Diário da Borborema. A experiência na rádio me ajudou a assumir a função (logo isso) de editor de esportes. Na verdade era repórter. Uma semana depois foi pedia minha contratação. Nesta época já conhecia o parceiro de blog, Daniel Brito.

Não fiz mudanças no estilo de fazer o jornal. Aliás o fato de ser tradicionalista torna-se uma falha como diz DB. Como Brito circulava bem entre os colegas de O Norte, que também faz parte dos associados, perguntei como estava sendo a repercussão por lá.

Ele disse que Expedito Madruga (então editor de esportes de O Norte) gostava dos textos, mas achava estranho na terça-feira ainda falar do jogo do domingo, quando todas as rádios e televisões já haviam mostrado a partida, o assunto era velho.

Como se percebe não tinha muita noção das rotinas do jornalismo impresso. Mudei isso e várias outras coisas, mas só passei seis meses no jornal. Por opção. Como este post já está grande, o motivo da minha saída e o resto da história conto no próximo, provavelmente na sexta-feira. Até lá.

26 abril 2010

Fim de um microciclo proveitoso

Por Daniel Brito

Encerrou-se na sexta-feira, 23 de abril, meu ciclo na editoria de Cidades do Correio Braziliense. Foram cinco meses de correria tremenda e aprendizado idem que muito vão me ser úteis no desafio que se avizinha.

De dezembro de 2009 até o dia do meu desligamento do jornal passei por experiências incríveis. Os (cada vez menos) poucos leitores deste blog acompanharam uma delas sobre as madrugadas insone na porta da Polícia Federal de Brasília, à espera de alguma tragédia do governador preso, José Roberto Arruda. Texto aqui.

Fora isso, ainda tiveram mais uma madrugada dentro da futura sede da Câmara Legislativa; dias inteiros debaixo de sol em frente à casa de políticos e corruptos (perdão pelo pleonasmo); intermináveis viagens a Luziânia em busca de uma solução para o mistérios dos meninos desaparecidos; fiz ronda pelos becos de Brazlândia em busca de traficantes; almocei em Águas Lindas de Goyaz, uma das cidades mais pobres do país; contei mentiras aos nervosos camelôs de Ceilândia e Taguatinga; abordei sem-tetos que moram embaixo das pontes para reportagens que nunca saíram; vi mendigo chorar; tive grandes discussões com assessores preguiçosos (perdão pelo pleonasmo) da Esplanda dos Ministérios; presenciei várias tragédias de perto; aprendi ainda mais sobre a fantástica história de Brasília; chorei vários leads desconstruídos e esculhambados pelos redatores e subs; vibrei pela terceira, quarta e quinta vezes na carreira por matérias que me levaram a manchete do jornal.

Em cinco meses, vi tanta coisa, publiquei apenas metade delas. Nem se eu quisesse conseguiria colocar tudo aqui. Aprendi que repórter de cidades é quase como bombeiro, fica sempre à espera de uma tragédia. A diferença é que às vezes o repórter pode provocar uma tragédia, às vezes, "um pequeno mal para um bem maior", como filosofava Dostoievski.

Escrever sobre acidentes de carro ou de greve dos servidores federais num mesmo dia foi um desafio que tomei para mim, para desespero e menosprezo de alguns, mas não o considero completado. Acredito que um dia eu possa voltar a trabalhar com essa diversificação de assuntos, não exatamente greve/acidentes (daqui uns 15 anos, who knows?).

Antes, tenho um outro super desafio, e não tenho desculpas para não cumpri-lo bem.

Nesta semana me apresento à Folha de S. Paulo. Retorno à editoria de Esportes, setor no qual me especializei e atuo desde 1996, onde sei exatamente onde pisar e por as mãos para fazer um material muito mais interessante do que fui capaz de produzir em Cidades nesses cinco meses.

Desejo sorte a mim mesmo e agradeço ao Correio por ter me acolhido novamente, mesmo que por pouco tempo.


* Crédito: Iano Andrade
** Legenda: Madrugada na futura sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ao lado de jornalista da Folha, que dorme na parede em frente a que eu descanso minha cabeça.

02 março 2010

A repórter, a barata e a informação

Por Jurani Clementino*

O enquadramento estava perfeito, a iluminação sem problemas, os cabelos da repórter estavam comportados, a roupa atendendo ao figurino, mas eis que surge o improvável. Vejam no Youtube.
Uma barata invadiu o estúdio e passeou elegantemente pelo corpo da apresentadora.

Quase meio milhão de pessoas viram o vídeo postado no YouTube. Quem assistiu gostou, repassou, reviu, encaminhou e virou febre na internet. Tem vários títulos entre eles: “Barata pousa em jornalista da Globo durante apresentação”, “Você quer dar uma paulada na barata da apresentadora?” Ou ainda “Barata da Jornalista do JPTV Globo”. O fato é que este vídeo ganhou o gosto popular. Inegavelmente a barata roubou a cena. Invadiu o cenário, pousou na cabeça, desceu pelos cabelos, escorregou suavemente pela roupa da apresentadora, deu uma olhadinha discreta no colo da jovem garota e provocou aflição, angustia medo e gargalhadas em milhares de pessoas.

Mas e alguém aí se atreveria a repetir o que disse a jornalista? Que informação ela passava quando surgiu assim do nada, a barata? Que nota ela estava lendo? Talvez seja a nota policial mais lida, mais repetida, mais vista e, no entanto, a menos compreendida, a menos ouvida, absorvida. Vimos, revimos, mas não vimos. O telejornalismo não cumpriu a sua função. Informou mas não informou. A culpa seria então da barata? Teria sido ela que nos tirou/roubou a atenção?

O fato é que a barata nos dá uma aula de como é complexo fazer jornalismo na TV. Na televisão qualquer detalhe compromete o todo. Perceba que dois momentos marcam o vídeo. O anti e o pós barata. No primeiro temos a tranqüilidade normal do fazer TV. Repórter encerra sua participação, interage com o estúdio, exerce a sua função criando uma perspectiva de continuidade. A partir de então temos o momento barata que desestabiliza a nossa atenção e o pior, o pós barata que transmite a angustia franciscana da outra repórter. Ao mesmo tempo que ela surge como a grande redentora, a salvadora da pátria, a heroína, percebe-se também que ela está visivelmente chocada com a situação da amiga. Mesmo assim compadecida, ela vai dar-lhe a possibilidade de matar o inseto, tirá-lo de seu corpo, livra-se dele ou tão somente externar um grito de socorro, alívio.

O fato é que nada foi tão importante, tão marcante, tão digno de nossa atenção do que a própria barata em si. A apresentadora podia ter noticiado a morte do Presidente da República, a presença do Papa no Brasil, os números da Mega Sena acumulada, tudo o que ela dissesse seria bobagem por causa da barata.

Ainda que fosse no meio da rua. Numa reportagem externa. Em locais onde geralmente estamos sujeitos ao improvável, submetidos aos caprichos da natureza. Mas num estúdio onde controlamos luz, achamos que temos o domínio de todo o ambiente, local que poucas pessoas têm acesso, onde todo mundo fala baixo.... isso seria portanto improvável.

Vamos imaginar, portanto uma situação hipotética: a rua e sua casa. Quando você sai à rua, naturalmente você está sujeito a sujar-se de lama, sofrer um tombo, molhar-se na chuva ou suar com o excesso de calor e inclusive cruzar a rota de vôo de uma barata. Mas dentro de casa fazemos de tudo para isso não acontecer. Limpamos os móveis, organizamos a faxina da cozinha, retiramos qualquer sobra de comida que atraia insetos, eliminamos qualquer possibilidade. Nossa casa, a nossa sala de estar é a nossa vitrine. Queremos receber todo mundo bem e com segurança. Assim também deve ser ume estúdio de televisão. Lá não devem existir em hipótese alguma intrusos. Lá não devem ter baratas.

O lado positivo de tudo isso é que só aprendemos com as nossas falhas. A barata vai ser o tema da minha próxima aula de telejornalismo. Eis a vantagem. Sem a barata não existira aula digna de tanta atenção. Certamente os alunos não teriam tantas perguntas. Seria mais uma experiência chata, cansativa, pedante. Viva, portanto a barata. Viva o imprevisível na arte de fazer telejornalismo ao vivo.


Jurani Clementino é jornalista, trabalhou como produtor e editor de texto em televisão durante quatro anos. Atualmente é professor e mestrando em Desenvolvimento Regional (UEPB/UFCG). Já colaborou com este espaço outras vezes, o que certamente vai se repetir.