22 abril 2008

Jornalismo, emprego e Fórmula 1

Por Pedro Henrique Freire

Eu troco pouco de emprego. Comparado a vários colegas e amigos jornalistas que tenho e conservo. Quando fui contratado como repórter pela primeira vez, conheci um grupo bom. Éramos uma equipe animada e competente. Aos poucos, ela se desfez. Uns pediram demissão, outros foram demitidos. Achei que pudesse ser um fenômeno atípico. Que nada. Isso é da nossa profissão. Uns saem, outros entram.

Aliás, muitas profissões são assim: rotatividade pura. O que é hoje não é amanhã. Tive oportunidade de conversar com alguns desses amigos jornalistas justamente no momento de transição. Desde que receberam a proposta até deixarem o emprego, por exemplo.

Em todos os casos, nunca vi alguém mudando pra pior. Mas, sempre com aquele discurso: “Vale arriscar! Estou novo”. Exatamente isso. Vale mesmo. Acho que passar por diferentes ambientes de trabalho é extremamente proveitoso. Só enriquece nossa capacidade de conviver em equipe, entender os limites das diferentes empresas e, claro, ser chefe.

E aqui enfatizo: ambientes diferentes nos trazem experiências diferentes. No final delas, nossa bagagem é grande e capaz de perceber (e resolver) os problemas com mais facilidade.

Pense na Fórmula 1: imagine um piloto que correu a vida toda no GP do Brasil. Quando ele chegar em Mônaco, ficará perdido. Correrá mal. A resposta é fácil: ele só correu em uma pista. Acostumou-se as mesmas subidas, descidas, direitas e esquerdas. Com um tempo, automatizou seu serviço. Ou seja, continuou pilotando, mas sem inovar na postura, empenho e idéias.

É uma comparação meio esdrúxula. Mas trocar de emprego, em jornalismo, quase sempre evita a acomodação, nos impõe novos desafios e acaba por nos atualizar e fazer crescer. É uma visão otimista, claro. Mas é meu modo de entender isso.

Não trocar de emprego, hoje, é uma das minhas maiores angústias. Trabalhei, firme, em três lugares. E na empresa onde me encontro agora, pretendo ficar a vida toda. Não por acomodação. Mas porque meu desafio é esse. E enfrentá-lo talvez seja bem mais difícil que pular de emprego em emprego.

Mesmo assim, continuo com a certeza: se trabalhasse em mais jornais (grandes, pequenos e médios) e mídias distintas, teria uma bagagem e tanto. No futuro, seria um melhor profissional.

***

Tenho curiosidade de colher alguns testemunhos dos amigos que deixaram o emprego com um friozinho na barriga nos últimos meses. Dos mais antigos com os quais conversei só ouvi coisas boas. Estranharam o novo habitat, claro. Mas acabaram confirmando e aprovando a decisão que tomaram.

Mudar na carreira é algo que muitos evitam. Mas todos precisam. Aprovo sempre a decisão do funcionário que abraça novos desafios, muda de emprego, de vida, sem medo de errar. Por isso, se um dia eu for chefe, direi ao funcionário que me pedir pra sair a mesma coisa que ouvi da minha chefe no meu penúltimo emprego:

“Olha, não posso segurar você. E fico muito feliz que tenha sonhos assim e corra atrás. Torço por você e acho mesmo que deve enfrentar esses desafios. Por aqui, as portas estarão sempre abertas”.

17 abril 2008

Eu vivo para trabalhar

Por Daniel Brito

Todo dia eu faço tudo sempre igual, me sacudo às 8h da manhã....

Desço na banquinha, na Venâncio Aires, sete andares abaixo da minha janela, e compro o JT e o Estadão. Leio o caderno de esportes dos dois de cabo a rabo. Vejo as fofocas em Variedades no JT, folheio as notícias sobre o trânsito e passo para o Estadão. Leio as colunas do caderno de Cultura, as críticas de cinema e passo para Economia. Passo os olhos no noticiário, demoro mais cinco minutos no caderno de cidades e vou para o primeiro caderno. Leio a editoria de Internacional, dou uma bizurada em política e paro nas páginas 2 e 3 para ler Opinião.

Enquanto acesso aa internet, ligo no SporTV para saber o que rolou nos outros jornais. Almoço pensando na pauta do dia e chego no jornal com pelo menos um texto na cabeça.

Depois de oito, nove horas de expediente, volto para casa pensando no que escrevi.

Resumindo: eu vivo para trabalhar.

Dizem que os cariocas são os que melhor sabem viver, porque, sabem exatamente o que fazer quando não estão trabalhando. Vão malhar, vão correr com o cachorro na praia, vão remar na Lagoa Rodrigo de Freitas, vão tomar UM chopp, vão escalar a Pedra da Gávea...opção não falta!

Eu realmente admiro as pessoas que sabem encaixar a vida normal aos horários do trabalho. Porque, no final das contas, todo mundo vive para trabalhar. No meu caso, eu não reclamo porque fico muito satisfeito quando produzo algo novo. E o jornalismo me dá essa possibilidade.

Não é o caso de um cara que trabalha numa empresa de contabilidade, que passa 15 dias preparando um balancete, ou até mesmo um arquiteto - que é uma profissão sensacional - que demora meses produzindo um super-prédio no estilo neo-clássico. Ou até mesmo um bancário, que todo dia salva ou mata vida de um monte de gente, mas faz algo todo dia, nao é verdade, Da Silva?

No jornalismo tem aquela história de que tem que ser "repórter 24 horas por dia". Se cair um avião aqui em cima da banquinha na Venâncio Aires, agora de madrugada, eu vou lá embaixo apurar de qualquer maneira e NÃO vou cobrar hora extra. Muito pelo contrário.

Bom, deixa eu encerrar o assunto de hora extra nesta linha porque isso é muito controverso para jornalistas.

Aliás, se cair um avião na banquinha da Venâncio Aires, minha rotina vai mudar porque vou ter que procurar outro lugar para comprar o jornal.

Anyway, minha vida é regida pela redação. Pelos horários, temas, furos sofridos, entrevistas para cavar...

Todos os dias eu chego aa conclusão de que poderia ter feito muito melhor daquele jeito ou daquele outro. Durmo pensando no texto que vai ser publicado, para no outro dia acordar aas 8 da manhã e começar tudo de novo!

13 abril 2008

Terroristas para os chineses

Por Daniel Brito

Quem reclama do imperialismo norte-americano, mudaria de opinião se o imperialismo dominante fosse o chinês. Olha a confusão no Tibete aí para não me deixar mentir.

Antes que me xinguem de "amigo do rei", deixe-me esclarecer que foi o exemplo mais prático que pude encontrar para entrar no assunto da China. Essa comparação, inclusive serve para um post futuro (todos os posts deste blog ficaram para o futuro. Uma pena...) sobre a briga Record x Globo.

Aliás, se a Olimpíada de 2008 fosse nos Estados Unidos, o mundo pediria boicote ao evento por causa da ingerência norte-americana no Iraque, por exemplo?

Humpf...

Mas o governo chinês já encontrou um culpado para o caso de seus jogos olímpicos ficarem marcados por protestos, revoltas populares e invasões: a imprensa internacional.

A partir do momento que as agências repassam para o resto do planeta as imagens e notícias de tentativa de sabotagem da inocente tocha olímpica nas ruas das cidades mais simbólicas do planeta, elas incentivam mais e mais protestos.

Quando a tocha desfilou escoltada por dezenas de soldados na Inglaterra ou na França, não me lembro bem, uma atleta paraolímpica da China chegou a abraçar a tocha para evitar que alguém tentasse roubá-la de suas mãos. Essa atleta virou heroína para os chineses. O gesto foi bonito, mas no mesmo dia os jornais de lá noticiaram outra história além disso.

Eles preferiram mostrar o lado festivo do evento e criticaram o que chamaram de atitude ''desprezível'' dos grupos pró-Tibete. "Os protestos foram 'irrelevantes e insignificantes'', lembrou uma reportagem, que copio e colo aqui.

Para o governo, controlar os chineses, tudo bem...A começar pela imprensa. Até porque, a maior parte dela é oficial. O grande lance vai ser evitar os gringos, que vêem como combustível as notícias de protesto com amplo destaque pelo mundo afora.

26 março 2008

Agenda (quase sempre) desatualizada

Por Léo Alves*

Todo jornalista sabe que precisa ter uma agenda telefônica atualizada. E sempre à mão. Afinal, ninguém sabe a hora que será preciso contactar uma fonte.

Para quem trabalha em produção de tevê é inadmissível não ter uma boa agenda. É o produtor quem marca pautas, checa informações junto à fonte e apura as notas pés. Tudo por telefone.

O trabalho do produtor tornou-se mais difícil depois da popularização.

Na verdade não sei se a expressão certa é popularização. Refiro-me à facilidade de trocar de número de celular hoje em dia com esses chipes.

As pessoas são atraídas por aquelas promoções: “compre dez reais, ganhe cem”.

Não conto as vezes que liguei para um número (que seria da fonte) e outra pessoa atende.

Aqui na Paraíba tem um prefeito que troca de número todos os meses para não ser incomodado.

E ainda tem o identificador de chamada. Quando a fonte reconhece o número e não quer atender, recusa com um simples toque no teclado.

Esta semana liguei para um prefeito – depois de ter conseguido seu novo número – e ele não atendeu. Suspeitei que ele não atendia porque se tratava de um número estranho. Confirmei com um assessor. E tive que mandar uma mensagem informando que queria uma entrevista.

Menos de cinco minutos, o prefeito me ligou de volta.

Nessa época de chipes, de acesso fácil ao celular manter a agenda atualizada é mais um desafio do jornalista.

*Uma das poucas pessoas que mantém o número de celular há mais de doze anos.

03 março 2008

100% notícia?

Por Pedro Henrique Freire

Pode ser controverso, mas é verdadeiro: jornalistas de redação são apaixonados por notícia. Mas só vão atrás dela por dinheiro. Mais controverso ainda: indignam-se quando o jornal tolera o indesejável em busca da sobrevivência. Pura contradição: trabalham por dinheiro (salário) e contra o que lhes dá dinheiro (parcerias).

Mas tudo isso, em tese, claro. Existem aqueles que vão atrás da notícia porque adoram dar furo, apreciam a adrenalina da investigação ou simplesmente gostam de descobrir, escrever e ver seu nome assinando uma informação exclusiva. Mas nada disso seria possível sem um salário, até para viabilizar a produção.

Falo porque é comum escutar jornalistas sentarem à mesa de um bar para criticar a empresa para qual trabalham. Eu mesmo sou um deles. Mergulho em profunda irritação quando vejo que uma boa pauta foi sacada das páginas “em prol da estabilidade” empresarial. Não acho que devamos esconder a verdade para encher os cofres do jornal.

Por isso, porém, pensando friamente, chego a dizer que somos potenciais “quebradores” de mídias privadas. Arrisco-me a achar que até posso entender a reação de alguns dirigentes.

Lá vai:

Imagine-se trabalhando numa empresa cuja principal parceria pode desmoronar após a primeira “coça” que o tal parceiro levar do jornal. O chefão, aquele que no final diz o que pode ou não ser publicado contra quem sustenta a empresa, lembra que terá dificuldades em sustentar os 100, 500 ou 1000 funcionários que ali trabalham (inclusive você) caso desagrade o tal parceiro. O que ele faz? Arrisca-se?

Duvido. Manda vetar a matéria. Sobretudo se ele não for jornalista, mas, sim, um hábil negociador.

Para nós, que estamos ali no “chão de fábrica”, é difícil entender como um jornal “se vende fácil”. É porque estamos distantes das decisões da empresa. Olhamos só uma parte do processo.

Enrolo tudo isso pra dizer que a natureza do jornalista é combativa, mas somos humanos, com necessidades, limites e desejos. Portanto, ao menos uma vez na vida, iremos colocar a notícia em segundo plano e pensar simplesmente no dinheiro.

***

Temos que ser honestos: nossa profissão é pura sorte. Se hoje você entra numa redação, não pode imaginar que ficará por lá a vida toda. Não pode prever que será um fenômeno do jornalismo a ponto de ganhar rios de dinheiros. Às vezes acontece. Às vezes, não.

Para quem não tem tanta sorte, mesmo depois de tantas cervejas e tantas críticas que fez a sua empresa e elogios à “mídia combatente”, poderá ser seduzido por uma assessoria, que dará estabilidade e qualidade de vida que lhe permitam brincar com seu filho aos domingos, sábados ou buscá-lo na escola no final da tarde.

Humildemente...

25 fevereiro 2008

Vaga hereditária

Por Daniel Brito

O New York Times publicou, na semana que passou, uma matéria sobre o neto do criador da Toyota. Akio Toyoda tem 51 anos, 24 dos quais dedicados à maior montadora de carros do Japão. Seu pai, Suichiro, já era presidente da Toyota, mas nem por isso Akio foi privilegiado na carreira dentro da empresa.

Para começo de conversa, esse japinha estudou muito. Formou-se no Japão, fez MBA em Boston e virou investidor em Nova York. "Ninguém quer ser seu chefe. Mas se você quer trabalhar aqui, que seja pelo caminho normal", avisou o velho Suichiro quando Akio expressou o desejo de integrar a "família Toyota". Aos 27 anos integrou-se ao negócio da família como trainee, diga-se.

Na reportagem, traduzida para o português e publicada no domingo na Folha de São Paulo, o repórter deu um contraponto à declaração do pai ao dizer que o sobrenome facilitou o caminho do garoto na escalada até a diretoria. Ao mesmo tempo que o texto mostra que Akio mostrou muita competência para chegar ao topo porque passou por todos os setores da indústria, "menos na engenharia".

Agora, uma pergunta:
Quem vai criticar a família Toyoda por ter colocado parentes de primeiro grau na fábrica?

Toyota é o carro importado mais vendido nos Estados Unidos, além de ser o veículo mais "popular" do Japão.

Certamente, se o velho Toyota, criador da fábrica há milhares de anos-luz, fosse um vendedor de maçãs, ele colocaria seu filho para trabalhar no ramo, até mesmo para ajudá-lo. Aí as críticas, se é que elas existem hoje, pelo "nepotismo" jamais existiriam. Seria, sim, elogiado por ser um pai atencioso, que faz de tudo para sustentar a família.

Antes que me interpretem mal, é preciso esclarecer que não defendo aqui o nepotismo "tradicional", daquele que vira manchete de jornal porque deputados empregam 12 membros da família em seu gabinete para cada um faturar R$ 5 mil por mês sem pisar no congresso. Nem o nepotismo cruzado, quando os políticos distribuem sua verba de gabinete a parentes de alguém a quem deve um grande favor.

Os pais, naturalmente, servem de inspiração para os filhos. Ronald, filho do Ronaldo Fenômeno quer ser jogador de futebol. João Paulo Diniz, filho de Abílio Diniz, é empresário. Maria Rita é cantora, como foi sua mãe, Elis Regina. Ticiane Pinheiro é modelo, assim como Helô Pinheiro, a garota de Ipanema.... Posso passar o resto do dia aqui citando exemplos.

Ao mesmo tempo que a vocação vem como herança genética, a pressão e a necessidade de mostrar mais que o familiar "famoso" fez são dobradas. Caso contrário, o herdeiro cai no ridículo. Taí Edinho, filho de Pelé, para não me deixar mentir. Isso serve em todas as áreas.

Eu, por exemplo, passei os últimos 12 anos ouvindo que só estava no jornalismo por causa do meu pai, que não é famoso, não tem uma fábrica de carro, nem nada. Apenas dirigiu uma empresa de comunicação na pequenina e heróica Paraíba e me deu um grande incentivo. Aos 15 anos, comecei na rádio. Aos 19, fui para a TV. Fui criado ouvindo que só estava no ar por causa do meu pai. Nunca me importei com isso.

Aos 22 anos, me formei e vim para Brasília. Passei por um portal de internet, dois jornais. Em um deles, o último que estava, meu pai já havia trabalhado como editor dez anos antes de minha chegada. Isso, aliás, foi motivo para eu ouvir a crítica mais criativa e ácida que já fizeram ao meu trabalho. "Existe uma vaga hereditária na editoria de esporte". Nunca deixei de fazer o que sempre gostei de fazer por causa dessa afirmação, nem quis provar nada para o autor. Evitei, inclusive, de repassar a frase ao meu editor porque ele foi um dos mais atingidos com a crítica.

Agora estou de mudança para São Paulo. Vou trabalhar com pessoas que nunca vi antes, não sabem sequer tenho pai, mas que gostaram das reportagens que eu fiz no jornal onde a vaga "é hereditária".

14 fevereiro 2008

Vai um jabaculê aí?

Um punhado de alunos de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu, em 2000, chamar alguns palestrantes, montar umas oficinas e dar início a primeira Semana do Jornalismo. Esse tipo de evento era comum em outros cursos da UFSC, como direito e economia. Uma boa oportunidade para ouvir gente mais experiente sobre as dificuldades da profissão e do mercado de trabalho. A iniciativa deu certo: apareceram o então editor-chefe do Último Segundo, Leão Serva, o então editor de fotografia da Folha de São Paulo, João Bittar, o então editor-executivo do Correio Braziliense, Chico Amaral, e Émerson Gasperin, então editor-chefe da ShowBizz, principal revista de música do país na época.

Gasperin, além de um dos melhores jornalistas da área cultural da república bananal, era ex-aluno do curso, o que fez a primeira palestra da sua vida ter lotado o principal auditório da universidade. Uma das perguntas mais recorrentes naquela noite, a penúltima do evento, era sobre jabá. Afinal, editorias de cultura são as que têm mais jabaculê disponível. Gasperin devolve com duas perguntas. "É jabá ganhar um CD?", questiona, de primeira. Os estudantes ficam calados. Ele logo responde: "Não, não é. E quem é que se vende por um CD, assim tão barato?", responde. O segundo petardo vem alguns minutos depois. "Uma gravadora oferece uma viagem com tudo pago para cobrir um show do U2 na Irlanda. Eu aceito ou não?"

Mais silêncio na platéia. "É claro que sim, porra. Os meus leitores querem ler sobre o U2, é relevante. E o fato da gravadora ter pago tudo não significa que eu vou falar bem da bada", disse. Mais aplausos. O que Gasperin realmente queria dizer é que o jabá pode ser analisado caso a caso. Você pode receber o presente, desde que não seja nada absurdo, não devolver e fazer uma crítica ao produto em questão. Ou então nunca aceitar os "bônus" que empresas gostam tanto de oferecer aos jornalistas. O que realmente importa é se o que você ganhou vai influenciar ou não na sua matéria. Falo de jornais, e não de rádios, onde as gravadoras realmente pagam para as músicas serem executadas. Ah, por sinal, foi justamente nas rádios que o jabá surgiu.

As editorias de cultura, como mencionei, são as que têm mais jabás baratos: livros, discos, ingressos para cinema e teatro, por aí vai. Com a lenta mudança para variedades, outros temas acabaram agregados. Gastronomia, arquitetura, decoração e até turismo fazem parte dessas editorias. E dá-lhe convite e lembrancinhas chegarem nas redações cada vez mais em estado de contenção de despesas. Alguns muito caros, outros com o valor do troco da padaria. Quase quatro parágrafos e eu chego onde queria (esse deve ser, provavelmente, o maior nariz de cera da história do filhos da pauta!): até qual valor é aceitável você ficar om o presente?

Algumas empresas de comunicação têm regras rígidas sobre o assunto. Outras deixam seus jornalistas com suas consciências. Em maio de 2005, um caso "abalou" a crítica musical brasileira. A revista Veja publicou a matéria "O mensalinho da Maria Rita". O que aconteceu na época: a gravadora da filha da Elis Regina, a multinacional Warner, presenteou 30 jornalistas com um iPod shuffle - aquele mais baratinho, não tem? - recheado com as músicas do segundo disco da cantora. A matéria era uma paulada em três direções: em um repórter da concorrente Época, na gravadora e na própria Maria Rita. Só para constar. O dicionário Houaiss diz que jabá é "dinheiro ou qualquer coisa usada para corromper alguém, para ganhar uma inserção publicitária".

Se era demais a Warner dar os iPods? Sim, com toda a certeza. Pior eram os jornalistas que aceitaram. O iPod não é somente caro; é um objeto de consumo, um ícone da Apple. Quase três anos depois, vejo que a prática de dar iPods para jornalistas não é exclusiva da Warner. O Portland Trail Blazers, uma das 30 franquias da NBA, a principal liga de basquete do mundo, fez a mesma coisa. Na tentativa de encaixar um dos seus atletas no All Star Game, o departamento de marketing da equipe mandou, para os principais setoristas de basquete dos EUA, um iRoy, uma edição especial do iPod Nano. O Marty Burns, da Sports Illustraded, escreveu sobre isso. Ele é um dos principais colunistas de NBA dos Estados Unidos.

Os dois casos acabaram de maneiras diferentes. No Brasil, serviu como bala de canhão de publicações rivais. Depois de toda a repercussão, quase todos os colegas negaram ter aceitado o aparelhinho. Se isso realmente aconteceu, ninguém realmente sabe. Já nos EUA o debate praticamente não existiu. Os colegas simplesmente acharam um exagero ganhar o mp3 player da Apple. E todos devolveram. Ah, os repórteres norte-americanos não têm influência direta na escolha dos 24 jogadores que participarão do jogo das estrelas. O quinteto titular de cada conferência é escolhido pelos torcedores; os reservas são votados pelos treinadores.

Conseguiu chegar à alguma conclusão? Eu só sei que é preciso analisar caso a caso. Ao mesmo tempo que devolveria o iPod - nas duas situações acima - aceitaria, como já aceitei, viajar para conhecer algum destino turístico. Seja a convite do governo de um estado do Centro-oeste, como no meu caso, ou de empresas de turismo. A resposta para a pergunta lá do quarto parágrafo: o valor nem sempre será determinante para saber se o presente é abusivo ou não. Fica da consciência de cada um.

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Obs.1: essa é a minha estréia como o mais novo participante do filhos da pauta. Já tinha colaborado duas vezes, em textos que vocês acham com facilidade nos arquivos (tô com preguiça de linkar agora...). Um era sobre a morte do Norman Mailer e outro sobre os perigos da profissão repórter. Rapazes, obrigado pelo convite, espero honrar o espaço.

Obs.2: a quantidade excessiva do advérbio "então" no primeiro parágrafo não foi por falta de sinônimo ou por falta de atenção no texto. É proposital mesmo, para chamar a atenção para a rotatividade da profissão Nenhum dos jornalistas citados estão nos mesmos veículos. Gasperin voltou para Florianópolis e vive de frilas. Serva era chefe da assessoria de imprensa do José Serra na prefeitura de São Paulo; hoje não sei onde está. João Bittar é editor de fotografia da editora Globo e Chico Amaral está na Espanha, como sócio de uma empresa de design gráfico.


Obs.3: tem duas coisas que eu aprendi nos cinco anos de curso - eu demorei um pouco mais para me formar. A primeira é que ética se discute em mesa de bar. A outra é que a minha ética é a mesma do marceneiro.

11 fevereiro 2008

A tal falsa realidade

Por Daniel Brito

Os (agora) famosos cartões corporativos existem desde 2001. Volta e meia um veículo de comunicação fazia o registro meio tímido do chafariz eletrônico de dinheiro público torrado indiscriminadamente. Ao longo dos anos, os gastos só aumentaram.

No primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, na eleição passada, Lula ficou revoltado ao ser pressionado a abrir as faturas dos cartões de seus "funcionários".

- Não fffeja leviano, Alcooemim!

Ele ficou sem resposta e repetiu essa frase oito vezes para fugir do constrangimento. Por certo, ele sabe da algazarra com esses cartões durante a gestão do PSDB.

Diante das cifras obscenas alcançadas pelos portadores dos cartões mágicos no ano passado, o caso ganhou a dimensão que sempre mereceu. Está para completar dois meses que jornais, telejornais e portais escancaram o "abuso do poder econômico" em os escalões mais altos do governo.

Enquanto a imprensa posicionou todas suas baterias para os "felizardos" que têm direito ao cartão, Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, não livrou a imprensa da sua parcela de culpa.

Segundo ele, havia anos procurava os jornalistas para repassar tais informações, mas somente agora o caso veio à tona. Abramo disse também que, nos anos anteriores, os dados sobre os gastos não estavam totalmente destrinchados como agora. Deixou subentendido que a preguiça dos repórteres é a culpada pela demora na publicação das denúncias.

Até onde sei, Abramo e sua ONG são alguns dos responsáveis pela avalanche de faturas escandalosas reveladas diariamente, quase como uma tortura chinesa ao governo.

Por intermédio dele -- ainda, até onde vai meu conhecimento -- soubemos que o ministro pagou absurdos R$ 8,30 por uma tapioca; que a presidência da República fez a feira do mês numa adega e em uma casa de "carnes finas"; que a ministra da Igualdade Racial curtiu as férias por conta do nosso dinheiro e ainda chamou a imprensa de racista por denunciá-la por tal ato.

Bom, então se os cartões sempre existiram e somente agora foram devidamente devulgados, fica comprovada a tese (mais uma vez) de que vivemos numa falsa realidade. Escrevemos e acreditamos nela, também.

O governo corrobora a tese. Caso contrário, não criaria normas para o uso do cartão somente agora, depois que numseiquantos milhões já foram para as tapiocarias, free shopings, etc... Quem queria encobertar o "crime", aliás, acabou entregando outro cúmplice.

Metade da bufunfa gasta com os cartões mágicos (que o portador não paga a conta nunca e não perde o crédito!) foi sacada na boca do caixa. Se eu tirar R$ 50 do meu cartão de crédito no caixa eletrônico do Bradesco, eu pago quase o dobro de juros quando a minha fatura chegar, no mês seguinte. Então, quer dizer que o Banco do Brasil não cobra juros nos cartões corporativos, é isso?

Algum jornal já falou sobre isso?
Se sim, me avise, porque eu quero ver a posição do BB nesta história...

A sorte do governo é que o PT não é mais oposição. Quem está nessa posto atualmente também tem um amplo telhado de vidro.

07 fevereiro 2008

Para prêmios ou para o leitor

Por Daniel Brito

Para ser um bom jornalista, seu senso de competitividade precisa estar sempre perto da casa dos 100%. No mínimo, tem um editor de olho na sua produção, para cobrar mais pautas e de melhor qualidade. Tem aquele repórter que senta perto de você de olho para ocupar seu posto. Tem a concorrência buscando o mesmo furo que você está atrás deseperadamente. Tem ainda um prêmio legal de jornalismo para embolsar uma grana preta por uma reportagem bem produzida e tem, principalmente, o leitor/ouvinte/telespectador querendo estar bem informado.

No meio desse caldeirão, é fácil o jornalista sucumbir. Confudir as bolas. Afinal, faz-se um jornal para o leitor, para o editor, para a concorrência, ou para ganhar prêmios?

O grande lance é que existe um gigantesco e invisível insconsciente coletivo nas redações que nem sempre corresponde aos anseios do leitor. O que o jornalista quer ler ou escrever dificilmente corresponde ao que o leitor comum (aquele que já foi chamado de Homer Simpson por um apresentador famoso) está interessado.

Olha aí os prêmios de jornalismo para comprovar.

O que está em questão nessas premiações:

A capacidade de mostrar a miséria do país?
A hemorragia generalizada do sistema político?
O texto refinado?
A história pitoresca?

Não creio que sejam todas as alternativas acima.

Sim, porque as grandes redações estão recheadas de jornalistas em busca do estrelato. Caçando mais prêmios, mesmo que a pauta seja repetida. Eles querem o holofote voltado para seu nome e seus textos, o reconhecimento público.

Esquecem-se, no entanto, que o jornal é feito para o leitor....

31 janeiro 2008

Em todas as áreas

Por Léo Alves

Em televisão todo mundo faz tudo. Não estou falando das redes, que têm departamentos especializados.

Não existem especialistas. O repórter faz o que aparecer no seu horário. Faz desde um assassinato na esquina, passando por uma visita ministerial até uma partida de futebol.

Daí a necessidade das pautas de tevê serem mais recheadas de informações que as dos jornais.

O repórter é um genérico.

Na produção não é muito diferente. O produtor pauta o que aparecer no seu horário. Cada turma é responsável pelo seu turno.

Essa estrutura gera uma grande dificuldade na hora de fazer suítes das matérias.

Um, dois dias, uma semana e até um mês se faz suíte. Depois disso o produtor está envolvido com outras pautas.

No jornal impresso existe a setorização. Fica mais fácil retomar o assunto porque o jornalista acompanha bem o que acontece na sua área.

Já pensei em algumas alternativas para melhorar esse acompanhamento dos casos de repercussão.

E confesso não achei (ainda) uma fórmula de não ser furado pelos jornais nas suítes.

Adotei uma estratégia que pode ser o primeiro passo para diminuir esse problema.

Quando acontece um caso de repercussão indico um produtor para ficar responsável pelo acompanhamento.

O próximo caso que surgir será de responsabilidade de outro. Funciona em rodízio.

Dessa forma ninguém fica tão sobrecarregado tendo que acompanhar tudo. E no fim não consegue dar conta.

Nesse sistema o produtor é responsável para informar a todos da redação como está o caso.

Num local onde não se pode ser responsável por cobrir apenas uma área a melhor solução – por enquanto – é dividir bem as tarefas.

24 janeiro 2008

Terrorismo?

Pedro Henrique Freire

Tudo bem que há um surto de febre amarela. Até aqui foram nove mortes no Brasil. Tudo bem também que os jornais e as autoridades devem estar ligados, monitorar e divulgar os novos casos e dar todas as informações necessárias à população. Mas, pondero, não exageremos, amigo.

Outro dia escutei no rádio um especialista que dizia o seguinte: vamos tomar cuidado com a vacina. Nem todo mundo precisa. Não faremos como no final da década de 90, em São Paulo, quando sete pessoas tiveram a doença, mas nenhuma morreu. Três morreram, sim, por tomar a vacina.

Ou seja, as nove que estão com febre amarela correm risco de vida. E os um milhão de pessoas que tomaram a vacina com medo dela, também.

Há uma semana, encontrei um amigo que trabalha na Globo de Brasília. Ele me contava o seguinte: “Rapaz, tava quase saindo da redação, mas descobrimos um cara que tomou a vacina três vezes. Ele foi parar no hospital, com ‘overdose’ de febre amarela. Quando descobriu isso, ele fugiu do hospital, com medo”, comentou. Ainda não sei o resto da história.

Concluo que esse cidadão estava com medo da doença. Apavorado, sobretudo, por um provável terrorismo da mídia.

Desde o primeiro caso da doença no Centro Oeste, os jornais da região começaram o carnaval. Claro, com reportagens bem feitas e dando todas as informações que o público precisa. O problema é que a cobertura diária – a qual atribuo simplesmente à tradicional escassez de notícias de janeiro – cria um clima de insegurança.

Eu, que tomei a vacina há dois anos, estou perto de ficar com medo de contrair. Minha mãe, que viria para Pirinópolis no Carnaval, desistiu. No Maranhão faltam vacinas e pessoas passam mal na fila. Outro dia uma senhora teve um AVC enquanto esperava pra tomar a dose. Estava lá há três horas. E olha que em São Luís e todas as outras 216 cidades do estado não é registrado um caso sequer há 10 anos.

Ou seja: penso que a mídia erra a dose e cria a instabilidade, transformando um problema localizado numa coisa global. Acaba fragilizando a população. Espalha o medo. É como nos EUA, após 11 de setembro: os jornais colocavam o Bin Laden na capa com uma arma apontada para o território americano e o Bush com algumas tropas de jovens sem rumo dizendo: votem em mim que eu pego ele. Com medo, o povo votou. No Brasil, o povo se vacina. Mas só por imposição da mídia.

Humildemente....

14 janeiro 2008

Acima dos critérios jornalísticos

Por Daniel Brito

Quando o jogador de basquete foi encontrado morto, em uma cidade próxima a Brasília, em novembro último, eu era o responsável pelo assunto. Fui eu quem noticiou em primeira mão o sumiço de um norte-americano, recém-contratado pelo time de basquete de Brasília, e ele tinha comportamento típico de portador da síndrome do pânico.

Quando ele sumiu, consengui o telefone da esposa dele em Seattle graças a uma coincidência incrível. A colunista social do Correio Braziliense é amiga de um médico que trabalha em Brasília. Ao ler a notícia do sumiço, o doutor comentou com a filha, que mora em Seattle. Para surpresa dele, a filha não só tinha ouvido falar da história como trabalhara com o jogador no departamento de serviço social da prefeitura de Seattle. A filha do médico conhecia a esposa do atleta.

O médico comentou com a colunista esta incrível coincidência e ela pediu o telefone da filha dele para tentarmos o contato com a família do gringo.

Pelo menos 10 dias antes de o jogador aparecer enforcado na árvore, conversei com a esposa dele. Ela me contou que estava grávida de oito meses. Nas entrelinhas, deixou a entender que sabia onde o marido estava e porque ele fugira do time sem dar explicações, mas não tinha comportamento nem tom de voz de quem parecia estar desesperada. Ela também assegurou que o camarada nunca teve problemas psicológicos.

Dias mais tarde, chega a notícia da morte do cara. Era início da noite de um domingo qualquer de novembro. Eu estava de folga e fui convocado às pressas para a redação. Chegando lá, o chefe dos chefes me passou a ingrata missão de ligar para a esposa do jogador.

Por três vezes, disquei, a ligação chamou do lado de lá do Equador, mas antes que ela atendesse eu desliguei.

Passar a notícia de que algum parente morreu já é muito complicado na sua língua materna, imagine, então, em inglês? Com dois agravantes: a esposa do cara estava grávida de oito meses e não ficara satisfeita com a minha insinuação de que ele apresentava sintomas de síndrome do pânico.

Em meio ao fechamento, cheguei na sala do editor e falei:

- Não sei se estou certo fazendo isso, mas queria te pedir para me livrar da tarefa de ligar para a esposa do jogador.
- Tá certo, ele respondeu secamente, checando os prints da primeira página. Foi a primeira vez que uma matéria minha foi manchete principal do jornal.

(Esporte é assim, se não for final de Copa do Mundo, somente uma tragédia coloca o notícia na manchete.)

Aima dos critérios jornalísticos de apuração está o "amor à humanidade", como já disse Leonardo Boff. Não que a esposa represente a humanidade inteira, claro que não. Mas me incomodava o fato de desrespeitar o profundo sentimento dela e da família naquele momento. Isso se chama compaixão, o que para um jornalista soa como um pecado capital. Mesmo que eu estivesse disposto a fazer isso no dia seguinte, depois que ela assimilasse melhor a situação.

Estava, realmente, a fazê-lo.

No dia seguinte, no entanto, peguei a estrada atrás do corpo do cara e das investigações sobre a causa da morte e segui esse périplo por mais três, quatro dias. Uma semana depois entrei de férias e nenhum jornalista brasileiro conseguiu falar com ela.

07 janeiro 2008

Certo ou errado?

Pedro Henrique Freire

Nos tempos mais atuais, ficamos sabendo hoje o que os jornais vão publicar amanhã. É só ligar o computador e entrar em algum bom site de notícias. Para a população, é ótimo. E para o jornalista do velho e ainda lido jornal impresso?

Não saberia dizer.

Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.

***

Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.

Situação 1

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.

Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.

Situação 2

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:

- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!

Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.

Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.

O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.

26 dezembro 2007

Salvo pelo Orkut

Por Léo Alves

Em muitas redações o acesso ao site de relacionamentos Orkut e ao MSN é proibido. É para evitar que o jornalista “fuja” do trabalho enviando mensagens.

Li a entrevista de uma jornalista (ou era estagiária) da Folha de São Paulo, na qual afirmava que usava o Orkut como ferramenta de trabalho.

Quando deseja conseguir um personagem para uma matéria entra numa comunidade relacionada. Foi assim que conseguiu personagens para uma reportagem sobre pais adotivos.

No início de outubro entrei nas comunidades dos dois times de Campina Grande – Campinense e Treze – a fim de conseguir personagens para uma reportagem especial.

Não surtiu muito efeito. Mas no MSN encontrei um colega que foi um dos personagens da matéria.

Até bem pouco tempo o acesso a esses sites eram proibidos na redação da TVPB. Não sei quem liberou. E espero que ninguém da direção esteja lendo esse post.

Mas semana passada foram o Orkut e o MSN que salvaram a nossa reportagem.

A sobrinha da ex-prefeita da cidade havia morrido num acidente de carro quando viajava para Recife, a cerca de 80 quilômetros de Campina. Os familiares sobreviventes foram levados para um hospital em João Pessoa.

Mantivemos contatos com familiares e amigos da vítima para conseguir uma foto.

Todos tinham viajado para João Pessoa.

Foi aí que a produção acessou o Orkut para conseguir a foto da vítima. A produtora encontrou pessoas com o mesmo nome.

As mensagens de luto dos amigos no Orkut confirmaram quem era a vítima do acidente.

Sinceramente eu não sei como é que após a morte de alguém as pessoas já acessam o Orkut para deixar mensagens. Mas tudo bem.

Só que as fotos não davam para ser exibidas na tevê.

Por sorte encontramos uma colega nossa - da assessoria do Governo do Estado - no rol de amigos da vítima.

E por mais sorte ainda ela estava online no MSN com outro produtor. E o melhor: ela tinha inúmeras fotos da vítima, pois era amiga íntima.

Na mesma hora ela nos enviou as fotos pelo MSN que salvaram a reportagem.
Para conseguir as fotos os produtores trabalharam quase toda a tarde.

E o resultado positivo só foi possível porque liberaram o acesso ao Orkut e ao MSN na redação.

Tomara que depois deste post não seja restringido novamente.

Afinal o Orkut também é uma ferramenta de trabalho do jornalista.

Difícil vai ser algum diretor acreditar nisso.

14 dezembro 2007

Uma lição do Mané

Por Daniel Brito

Manoel dos Santos, o nosso Mané Garrincha, não me impressionou apenas por ter inventado o drible ou por beber mais que qualquer desses carros total flex. Cada movimento fora do planejado ou um novo desafio que me é apresentado na carreira recorro à simplicidade do craque.

Não me recordo exatamente em qual trecho do livro "Estrela Solitária" está o trecho que vou citar aqui, agora.

No vestiário, às véspera de mais uma Copa do Mundo, ele viu os companheiros de Seleção Brasileira tremerem nas bases. A torcida ainda amargava, nas décadas de 1950 e 1960, aquele trauma do Maracanazo e os jogadores, obviamente, sentiam a pressão.

Descendente de índios, quase um deficiente físico (como já disse Nilton Santos), condenado à pobreza por ser semi-analfabeto, Garrincha não tinha o mesmo sentimento que os demais antes de jogar uma Copa do Mundo.

Para ele, tanto fazia jogar futebol em Pau Grande, hoje distrito de Magé, no Rio de Janeiro, no Maracanã, na Rua Bariri, no Rasunda Stadium. Ele queria apenas fazer o que gostava: jogar futebol.

Nunca sentiu a pressão do momento. Chegou, inclusive, a reclamar do sistema de disputa da Copa do Mundo porque não tinha segundo turno; confundiu a Inglaterra com o São Cristóvão, por atuar com o uniforme branco; sem contar a já batida história de que todo adversário se chamava João ou José. Podia ser Bobby Charlton ou Jordan, do Flamengo.

Isso era reflexo da alma pura do craque. Contaminada e vencida, "apenas", pelo alcolismo.

Fiz esse tremendo nariz-de-cera para contar a história do meu outro blog. De férias em Campina Grande, fui assistir ao último jogo da Série C do Campeonato Brasileiro e resolvi tirar umas fotos.

Conversa-vai-conversa-vem, cerveja para lá e para cá, ouvi uma série de histórias engraçadas das testemunhas que estavam no estádio naquele momento pitoresco e resolvi contá-las no Tudo Sobre Nada (muitodenada.blogspot.com).

As fotos mais o texto saíram quase que no piloto automático. Nem me preocupei muito em deixar as idéias hierarquizadas por grau de importância. Até porque, havia bebido naquele dia do estádio e fiz um breve relato totalmente espontâneo em um espaço pessoal, sem regras jornalísticas estabelecidas.

Mandei o link do texto para aquelas pessoas que gostam do futebol e de suas histórias malucas. Como resultado, meu humilde blog pipocou em acessos e comentários (continua até hoje, 11 dias depois de publicado); meu editor, em Brasília, leu o texto, achou sensacional e me pediu autorização para publicá-lo.

O relato do último jogo da Série C saiu nas páginas do Correio Braziliense em 7 de dezembro, com direito a foto tirada por mim, fugindo do padrão do espaço em que foi publicado.

Se tivesse recebido a pauta do meu editor para escrever sobre aquele jogo não faria tão bem feito como saiu no blog.

Moral da história:
Garrincha morreu há 25 anos sem saber de muitas coisas. Sem saber, por exemplo, que deixou essa lição de simplicidade: quando se tem habilidade para produzir algo que gosta, não interessa a situação, faça tudo que sabe, porque será bem feito.

30 novembro 2007

O filho está crescendo

Por Léo Alves

“Não vai ser fácil manter este espaço atualizado”.

Esse trecho do primeiro post do Filhos da Pauta revela que eu e o Daniel sabíamos a dificuldade de manter um blog atualizado. Mesmo com as falhas de atualização este humilde espaço completou dois anos de existência.

Estã durando tanto porque contamos com o reforço substancial do grande Pedro.

Confesso que no começo pensei que o blog seria um espaço de inteira liberdade de expressão. Poderia escrever o que quisesse e sobre qualquer assunto. Não é bem assim. Como qualquer veículo de comunicação (o blog se transformou numa ferramenta alternativa) é preciso responsabilidade.

Afinal, tudo que é escrito está na rede. Se está na rede, obviamente, é facilmente encontrado pelo todo-poderoso Google.

Faz parte do (invisível) “Manual de Redação do Filhos da Pauta” não citar nomes de pessoas. A não ser que o personagem nos autorize ou se o próprio personagem da história seja um de nós.
Mesmo assim muitas histórias desagradaram os personagens. Basta lembrar da polêmica do post “Gafes”.

Para mim, este blog é também uma extensão da sala de aula. Sempre faço referências aos meus alunos sobre uma ou outra história contada aqui. O FDP é um canal de diálogo entre pessoas que não se conhecem. Eu, por exemplo, não conheço o Pedro. Já dialoguei através de comentários com outro que nunca vi pessoalmente, o Felipe. Exemplos não faltam.

Esses são alguns dos motivos que fazem os blogs crescerem tão rapidamente. Estima-se que a blogosfera reúna mais de 73 milhões de blogs. Esse número aumenta a uma razão de 175 mil por dia.

O jornal espanhol El País publicou o artigo "Os weblogs fazem dez anos de agitação" no qual afirma que: "Nunca um meio de comunicação cresceu a tal velocidade".

Em 1º de abril de 1997, Dave Winer lançou na rede a primeira postagem. De lá pra cá o blog deixou de ser uma brincadeira de adolescente ou um diário virtual. É um veículo de comunicação importante no mundo.

Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, as equipes dos candidatos - George W. Bush e John Kerry - mobilizaram a opinião pública, criando correntes por meio de blog.

No mundo das empresas a norte-americana Kryptonite, líder de fabricação de cadeados e travas teve um prejuízo estimado de US$ 10 milhões. Foi obrigada a substituir quase 40 mil cadeados de seu estoque e levou um bom tempo para recuperar sua reputação.

Tudo porque um blogueiro percebeu que poderia abrir uma das trancas, que era vendida a US$ 100, usando apenas uma caneta Bic comum e colocou em seu blog um vídeo que provava ser possível o "arrombamento".

Em questão de horas, todos os blogs falavam do assunto. A companhia só soube cerca de uma semana mais tarde, quando todos os meios de comunicação já falavam a respeito.

O Filhos da Pauta ainda não causou (e nem pretende) causar um estrago tão grande. A idéia é trazer assuntos, na maioria das vezes relacionados ao jornalismo, que possam ser discutidos com o nosso pequeno número de leitores.

E como há dois anos o desafio continua sendo manter este espaço atualizado...continuaremos tentando.

20 novembro 2007

Jornalistas contadores de histórias

Por Pedro Henrique Freire

Outro dia, lia jornal enquanto lanchava e comecei a conversar sobre formas de se fazer jornalismo com o repórter Marcelo Abreu, um maranhense com sensibilidade e veia literária que trabalha há anos no Correio Braziliense. Enveredamos por um papo agradável e ele me contou de suas experiências como "repórter itinerante".

O nome não é bem esse. Mas o conceito é o seguinte: como o Grupo Associados tem jornais em várias capitais, ele viaja para as cidades e começa a fazer matérias para outros veículos do grupo. "Preciso de um fotógrafo, um carro e uma página. Gosto de ser repórter e contar histórias", disse, lembrando de sua passagem por Pernambuco.

Para resumir Abreu, é preciso explicar bem o que ele faz. É um repórter diferente. Gosta de contar histórias. Dispensa as regras da hard news e escreve sobre comportamentos, dramas, e, sobre anônimos com uma vida que chama atenção por algum motivo.

Pois bem.
Ele me contava sobre uma série de reportagens que fez sobre o Holiday, um prédio de Boa Viagem (Recife), que já foi um glamour, mas hoje é reduto de traficantes, prostitutas, travestis e, claro, pessoas como qualquer outra que não optam pelo crime ou por maneira, para alguns, reprovável, de viver.

Exatamente isso que ele quis contar. Que naquele prédio de quitinetes e apartamentos baratos postado entre caros hotéis e edifícios de alta classe, existiam pessoas de bem, que queriam viver como qualquer outra. Eram humanas, humildes e mereciam atenção da sociedade.

Após a série publicada, Abreu disse que sua caixa de e-mail lotou. A mensagem que pareceu ter lhe chamado mais atenção foi de uma psicóloga, que lhe escreveu o seguinte: "Eu entrei com você no Holiday". A frase reflete bem a maneira que Abreu faz jornalismo, com texto detalhista e envolvente.

Para dizer isso com mais precisão, eis os dois primeiros parágrafos que Abreu para a história do Holiday, publicado no Diário de Pernambuco e no Correio Braziliense:

De longe, ele lembra o formato de uma meia-lua. A intenção foi essa mesmo. Deixá-lo com cara de meia-lua. Construção arrojada, pé direito alto, sete colunas de 36 metros de profundidade para sustentação. Concepção modernista, mão-de-obra retirante. Ainda hoje, não há como não parar para olhar. É, apesar do visível desgaste, da decadência e do rosa desbotado que encarde a fachada, uma rara obra de arquitetura. Um marco. Em 1957, na inauguração, um enorme tapete vermelho enfeitou a entrada principal. A cidade parou. Carros suntuosos estacionaram nos arredores. Uma gente bem-nascida ali entrou. A elite se deliciava com a vista do prédio, a 50 metros da praia. À frente, não havia outro edifício. Eram apenas ele e a imensidão do oceano.

Naquele dia, inaugurava-se a era dos arranha-céus de Boa Viagem. Seria o endereço de fim de semana das famílias abastadas. Ou moradia dos filhos de gente rica que vinham do interior para estudar na capital. Apartamentos pequenos — quitinetes, um ou dois quartos. Conceito moderno até então. Na verdade, ele todo era ousado. Ter um imóvel ali, na Recife de 1957, era sinônimo de luxo. Até o nome era chique: Edifício Holiday. Endereço: rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. Não precisava dizer mais nada. Hoje, é melhor não dizer.

Essa divagação toda é pra dizer que esse ai em cima é, na minha humilde opinião, uma fórmula necessária para todo jornal. Atualmente, tudo é igual a internet. Mas histórias como a do Holiday podem fazer a diferença.

Assim como Abreu, outros repórteres são também importantes para compor esse modelo. A gaúcha Eliane Brum é uma delas. Escreve histórias sobre gente. Já publicou um livro (A vida que ninguém vê) com elas.

Gostaria que me dessem mais exemplos sobre jornalistas que contam essas histórias assim, para entreter e conquistar o leitor. Não apenas informar. Devo ter lido outras coisas parecidas, mas conheço mesmo somente esses dois. E o pouco que conheço gosto bastante.

12 novembro 2007

Mailer: egocêntrico, polêmico, talentoso...

Por Mário Coelho*

Norman Mailer entra na sala da coletiva de imprensa de mais uma luta de Muhammed Ali. Bêbado, começa a brigar com os jornalistas presentes. Cria confusão. Esbraveja. Dá vexame. E grita também na direção dos personagens que estavam sendo entrevistados, mesmo sendo fã de um deles. A cena, descrita no livro O rei do mundo, de David Remnick - sobre Ali -, me lembra dois momentos distintos. O primeiro foi numa aula de redação na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O professor Luís Alberto Scotto, um dos meus grandes mestres, afirmava que todos os "membros" do chamado new journalism eram "broncos". Discutiam, brigavam, polemizavam, tinham egos enormes.

A segunda lembrança é um trecho da introdução escrita pelo próprio Mailer no livro Super-homem vai ao supermercado. "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida. Assim como um advogado não tem um amor à verdade que se compare aos interesses do seu cliente, um repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora: na verdade, ele frequentemente evita a atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto escrito às pressas."

Esse era Norman Mailer. Egocêntrico, polêmico, e também muito talentoso. Esses três adjetivos podem muito bem descrever Mailer. Como escritor, há anos que não escrevia nada relevante. Seu último livro de qualidade - juntando ficção e não ficção - é A canção do carrasco, lançado em 1979. Sendo que ele nem teve o trabalho de apurar. Somente pegou todo o material e deu um trato. Mas isso não invalida suas grandes obras. Basta ler em Super-homem vai ao supermercado o texto sobre a convenção democrata de 1960. Ele conseguiu, antes de todos os jornalistas e analistas políticos, entender o incipiente marketing político que nascia com John Fitzgerald Kennedy.

Agora, nenhum dos seus livros - Os nus e os mortos, Exércitos da noite, A história de Lee Oswald - um mistério americano (onde dava voz aos entusiastas da teoria da conspiração), chega perto de A luta. Com palavras, Mailer conseguiu descrever tudo que acontecia de bom e ruim nos meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Racismo, pobreza de espírito dos norte-americanos, economia, tudo isso como pano de fundo para a volta de Ali aos ringues na luta contra George Foreman no Zaire. Mailer transformou boxe, que o dicionário explica como jogo de murros, em poesia pura.

Se partimos do pressuposto que o new jounalism aliava técnicas de apuração jornalísticas com redação de ficção, Mailer estaria na segunda divisão dos escritores. Caras como Tom Wolfe, Gay Talese e Jimmy Breslin - nos tempos da disputa entre as revistas Esquire e New Yorker - formariam a primeira divisão. Claro que não dá para esquecer de Truman Capote com o fantástico A sangue frio, que podemos colocar como o "marco inicial" do new jounalism em larga escala. Agora, Mailer e Capote não eram jornalistas, nem queriam ser. Os dois usaram o jornalismo em uma época que não tinham inspiração para escrever o que eles mesmos chamavam de "o romance". A grande reportagem era uma forma de não perderem a mão.

Não dá para negar a contribuição de Mailer à literatura. Ele mesmo foi reconhecido duas vezes pela crítica norte-americana, ao receber duas vezes o Pulitzer: em 1968 com Os Exércitos da noite, e em 1979 com A canção do carrasco. Mas não deixa de ser irônico o cara que sempre criticou o jornalismo ser colocado como romancista e jornalista em todos os obituários. Onde quer que esteja, ele deve estar repetindo a frase lá de cima: "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".

* O perfil de Mário Coelho está no post Mãos ao alto (http://filhodapauta.blogspot.com/2007/10/mos-ao-alto.html#links)

04 novembro 2007

Gafes

Por Léo Alves

Vou contar algumas gafes envolvendo jornalistas. Não citarei nomes. Até porque o intuito não é ridicularizar nenhum colega. Afinal todos nós estamos sujeitos a cometer uma gafe.

Situação 1 – Entrevista coletiva com o então pré-candidato a presidente do Brasil (já faz tempo hein?) Anthony Garotinho.

A repórter de tevê recebe a pauta. Anthony Garotinho vai conceder entrevista coletiva na sala de espera do aeroporto.

Ansiosa, a repórter diz, no carro, que não sabe o que vai perguntar.

- Pergunta sobre as denúncias de corrupção que tem contra ele, sugere o motorista.

- É mesmo.

Sala lotada de jornalistas. Cada um se dirige e faz uma pergunta. Chega a vez da repórter.

- Garotinho o que você tem a dizer sobre as denúncias que existem contra você?

- Que denúncias?

- As denúncias.

- Que denúncias? Se você disser quais são as denúncias eu posso te responder.

- Éééé...Ahhh...éee. As denúncias que existem.

- Já te disse que você precisa dizer quais as denúncias. Que eu saiba não existe nenhuma denúncia contra mim.

Jornalistas se olham. Silêncio. A entrevista continua com a próxima pergunta.

No fim das contas não existia na época nenhuma denúncia contra Garotinho.

Moral da história: nunca confie totalmente no motorista do carro da reportagem.

Situação 2 – Palestra de um ministro do STJ.

Aconteceu com a mesma repórter da situação anterior.

A repórter chega antes de a palestra começar para garantir logo a entrevista com o ministro.

Algumas autoridades conversam no canto do auditório.

A repórter se dirige ao único “estranho” da roda de conversa e...

- Ministro o senhor vai abordar na palestra de hoje...

- Com licença, eu não sou o ministro. Ministro é o meu pai. Vou chamá-lo, interrompe o cidadão.

Quando no ministro começa a se dirigir ao local onde estava a repórter, ela tenta justificar a gafe.

- É que vocês são muito parecidos. Eu me confundi.

Quem estava na hora garante que pai e filho não se parecem nem um pouco. E que os dois se olharam como quem não estava entendendo nada.

Moral da história: antes de entrevistar alguém procure conhecê-lo por foto.


Situação 3 – Encontro de capacitação de jornalistas.

O correspondente internacional de uma grande emissora de tevê, que ministrou uma oficina no curso, se reúne com os participantes durante a confraternização.

Entre uma conversa e outra, um dos participantes indaga:

- É impressão minha ou nos “ao vivos” de esporte você sempre fica nervoso? Você fica nervoso mesmo ou é só impressão.

- Acho que é impressão sua, pois estou acostumado a cobrir esporte. Já cobri cinco Copas, Olimpíadas...

- Ah, deve ser impressão mesmo.

O autor da pergunta relatou que poderia ter ficado calado. Ele ainda acrescentou que certamente no próximo “ao vivo” o repórter iria lembrar dele.

Moral da história: nunca cometa gafe com outro jornalista.

30 outubro 2007

Pode criticar a Copa de 2014?

Por Daniel Brito

Não quero dar uma de estraga prazer. Pelo que acabei de ver na tevê agora há pouco, o "país inteiro comemora a escolha para ser sede da Copa do Mundo de 2014". Humildemente, vi tantos pontos inexplicados nessa "candidatura" do Brasil, que não me contive e tive que socializá-lo aqui neste espaço.

Vou, inclusive, amenizar nos comentários, porque a Copa é um evento mais político do que esportivo e qualquer opinião polarizada minha aqui pode me custar alguma coisa.

(Estou confiando que tem gente importante lendo este blog).

Eu amo futebol. É meu primeiro esporte. Tenho na cabeça o resultado de vários jogos sem importância da Copa do Mundo de 1990 para cá. Seria, realmente, um sonho ir de carro da minha casa ao estádio para ver um jogo do Mundial na minha cidade, mas daqui para lá, espero por esclarecimentos de quem quer que seja.

Eu poderia falar do grave problema de falta de prioridade dos governos estaduais e federais e, por tabela, do povo. O país vai investir mais na construção de estádios do que no combate a dengue, que já é considerada uma epidemia no país. Poderia falar que é obrigação de todos os governos dar transporte público, serviço de saúde e segurança todos os dias e não somente por causa da vinda dos turistas.

Alguém já leu quanto vai custar a organização desta Copa do Mundo? Nem a Fifa sabe. Quando seus emissários vieram ao Brasil, o que mais viram foram maquetes enfeitadas e danças típicas. Na minha singela, humilde, e pálida opinião, quanto mais enfeite eles colocam nos estádios (hastes brilhantes, tetos solares, rampas em espiral...), mais dinheiro público vai para o ralo.

O que se pretende fazer? Monumentos em formato de estádios de futebol ou arenas esportivas funcionais? Eu prefiro a segunda opção. Como eu não mando em nada mesmo, teremos potenciais elefantes brancos espalhados pelo país.

Em Brasília, por exemplo, vão construir um estádio para 76 mil pessoas. E em 2015, depois que a Copa acabar? Quem vai jogar lá? Legião, Paranoá, Dom Pedro II ou o Gama? Vai demorar mais 50 anos para ficar lotado de novo...

O Brasil só ganhou o direito de sediar esta Copa porque concorreu contra ninguém.

Ninguém!!!!!!

Se fosse para obedecer o sistema de rodízio, tão pregado pela Fifa até aqui, a Colômbia deveria sediar o evento. Sim, porque o Mundial de 1986 seria lá, mas com a contribuição do governo Ronald Reagan, as autoridades da Colômbia viram o narcotráfico perder o controle e, conseqüentemente, perderam para o México o status de sede.

Ora, se o Mundial tem que ser realizado na América do Sul, que seja no país que já teve esse direito um dia mas foi tirado de forma obscura pela Fifa, em 1983. Mais detalhes no livro Como eles roubaram o jogo, do jornalista britânico David A. Yallop. Baseado no que li sobre esse episódio no livro, acredito que daqui para 2014 o Brasil ainda vai perder essa Copa.

Estou sendo muito pessimista ou o noticiário diário que é otimista demais?

29 outubro 2007

Politicagem em pauta

Por Daniel Brito

Enquanto no Brasil se assiste novela ou Big Borther depois das 20h, na França debate-se políticas públicas. Leis anti-tabigistas, reformas no sistema de imigração, participação na União Européia e por aí vai.

Nos Estados Unidos, o noticiário de Washington DC é voltado para as comissões parlamentares do senado. Além, óbvio, da política externa do governo. Na Espanha, os jornais dão amplo destaque às reformas contitucionais de cada região. Na Inglaterra, não se discute cargos ou fofocas em jornais como o The Independent. Até porque só existem os partidos trabalhista, liberal e conversador no Reino Unido, se não me engano...

Já no Brasil... Bem, no Brasil o noticiário político é pautado em denúncias, especulações e fofocas. Quem sou eu para julgar o que os mais renomados jornalistas de Brasília fazem diariamente. Acredito que eles repassam o que é produzido no Congresso Nacional diariamente.

Deputados e senadores "trabalham" terça-feira e quarta-feira e por isso é impossível fazer algo que interfira de forma prática na vida dos cidadãos comuns, como eu e você (que conseguiu chegar até esta parte do texto).

Quando vão ao plenário, não fazem mais que negociar emendas de origem duvidosa e barganhar espaço no governo. A oposição, por sua vez, distribui críticas e denúncias, muitas até sem fundamento.

Isso aí, na minha humilde visão, é politicagem.

É claro, a imprensa é obrigada a acompanhar essa movimentação, o que torna o noticiário político tedioso para o grande público e recheado de blablabla.

A CPMF e a reforma política chegaram a ser "abre de página" nos principais veículos do país - só para citar dois temas recentes. Mas apenas metade dessas notícias veio dos parlamentares, quem deveria tratar do assunto. O início da reforma política teve que ser tema no STF, já que os deputados evitam colocá-lo em pauta. A CPMF, que mexe com o nosso saldo bancário, é tema recorrente no Congresso, porém, sua aprocação virou uma novela sobre negociação de cargos e liberação de verba.

Culpa dos parlamentares.

São eles que nos fazem ouvir aquela desesperadora frase:

- Ai, eu odeio política, sabe?

21 outubro 2007

Justificando Juicebox

Por Daniel Brito

Quem já cobriu a Seleção Brasileira e não faz parte do eixo RJ-SP sabe o quão pedante é Robinho. Ele só dá entrevista para os repórteres que conhece. Se você, humildemente, quiser uma aspa dele, que cole em um colega carioca ou paulista.

Robinho só quer espaço nos veículos de projeção nacional. .Ele subestima os veículos de comunicação que ele não sabe que existe.

O Diário da Borborema, há sete ou oito anos, mandou por fax uma série de perguntas ao ex-presidente Collor. Acho que estava faltando assunto na política local e os caras resolveram barbarizar. Dois dias depois, os repórteres do (humilde, porém heróico) DB receberam as respostas de Collor, também por fax. Eram respostas grandes, sem fugir de nenhum assunto, cheias de informações interessantes. Os próprios jornalistas não esperavam tamanha atenção.

O Correio Braziliense, em meados deste ano, publicou uma charge de Boris Yeltsin, após sua morte, com asas presas às costas e agarrado a uma garrafa de vodka. No dia seguinte, a embaixada da Rússia no Brasil enviou um comunicado oficial pedindo a retratação pela heresia cometida pelo jornal.

É um grande engano pensar como Robinho. Todo e qualquer meio de comunicação pode fazer a diferença. Por menor que ele seja, você pode ser ouvido. Volto a um velho assunto tratado aqui: eu mesmo escrevi sobre um repórter de Brasília neste singelo blog, que não tem mais que 20 acessos únicos por dia, e o cara "me jurou de morte" (que exagero!).

Certamente Collor não se reelegeu por causa do DB, e os russos não vão queimar bandeiras do Brasil por causa da charge. Mas eles deram uma grande lição de respeito aos profissionais e às pessoas que lêem tais veículos.

(Agora eu justifico o título deste post)

A banda de rock The Strokes, por exemplo. No clipe da música Juicebox, do albúm First Impressions of Earth, eles fazem exatamente o que Robinho não sabe fazer.

Em programa de rádio de Nova York, o locutor chega atrasado ao programa e os caras da banda estão visivelmente impacientes pela falha. Quando o programa entra no ar, o radialista fica cheio de piadas constrangedoras, chama a banda pelo nome errado, diz que eles (The Strokes) são europeus, espera que eles "traduzam as letras para o inglês e façam sucesso em Nova York". Para completar, ainda erra o nome da música.

Detalhe:
The Strokes é a banda mais novaiorquina dos últimos tempos e é sucesso de Taguatinga a Sarajevo. De Ljubljuana a Nova York, passando por Patos, no alto sertão da Paraíba, Cocal de Telha, no Piauí, Connecticut e por ali vai...

Quando o som rola (a música, a propósito, é muuuuuito boa), a banda toca como se estivesse no Madison Square Garden e embala a madrugada fria de algumas pessoas que rondam a cidade: um casal de lésbica, uma velhota tarada, outro casal de gays, um pichador de paredes, um casal de bêbados-drogados no táxi, além do próprio mané do radialista.

Não sei se o clipe é baseado-em-fatos-reais, mas pelo menos nesta historinha, eles tinham motivo para tocar de qualquer jeito, já que foram ridicularizados na rádio.

Não tocaram!

Quem quiser entender um pouco mais esse enredo, entre no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=_NTjOZc2Miw

16 outubro 2007

Embate

Conversar com quem não entende nem um pouco de jornal não é problema. Desde que essa pessoal não trabalhe em um e muito menos se intrometa em assuntos jornalísticos. Minha tímida experiência como jornalista já me ensinou a sempre brigar por minhas pautas. E brigar pra que elas sejam publicadas da melhor maneira possível. O problema é quando alguém, que não entende de jornal e só pensa em dinheiro, atravessa nosso caminho com a irredutível vontade de puxar o saco de um terceiro.

Outro dia tive um embate saudável com um dos gerentes da empresa para qual trabalho. Fiz, junto com um repórter do Correio Braziliense, uma entrevista com o governador do Maranhão, em visita dele ao jornal, em Brasília. Depois do papo, tentamos (eu e o gerente) acertar os ponteiros para publicar a entrevista no domingo, no Imparcial. O Correio publicaria um texto. Sugeri que cada um saisse com o seu, dando o enfoque que quisesse. Afinal, são dois jornais extremamente diferentes.

Por ser uma entrevista recomendada, já fiz meio puto, explorando sempre os assuntos mais polêmicos pra não parecer um informe publicitário. As perguntas foram feitas por mim e pelo outro repórter. Tudo bem até ai. O problema foi que o senhor gerente encasquetou que queria publicar o texto do Correio. Na cabeça dele, o jornal (O Imparcial) teria muito mais peso se publicasse a entrevista do Correio, tudo no mesmo dia, igualzinha.

Ai, lá vai eu explicar pra ele que era melhor publicarmos o nosso texto, explorando os assuntos que mais interessam aos nossos leitores. Eu, como trabalho como um correspondente do jornal em Brasília, estou mais por dentro dos temas de lá, os regionais, principalmente. O Correio produziria uma boa matéria. Mas por integrar a grande imprensa, está pouco se lixando para os problemas regionais lá do Maranhão. E com razão.

Pois bem. Dei uma explicação quase didática. Disse que escreveria um texto com assuntos locais e que o Correio daria outro enfoque. E ainda perguntei: se temos um correspondente em Brasília, por que usar a matéria do Correio? Não deu muito certo. Ele decidiu, então, que queria publicar o texto do Correio no domingo e de O Imparcial na quarta. “Mas o senhor não acha que duas entrevistas com o governador em menos de cinco dias não é exagero?”, perguntei. Além disso, algumas respostas seriam as mesmas nas duas entrevistas. Resolvemos então colocar nosso texto. E apenas uma matéria. O crédito seria dado para os dois repórteres.

Falamos sobre eleições municipais e a dívida do estado. O Correio falou sobre Chiquinho Escórcio e outras coisas nacionais. Cada um deu o peso e o espaço justo, sem exageros e sem enganação. Acho que no fim valeu a briga. Me senti melhor por estar sendo mais honesto com os leitores.

10 outubro 2007

Na minha opinião...

Por Daniel Brito

Na minha opinião, eu não sei dar opinião. Estou há tempos para escrever sobre os vícios das editorias de política, mas paro no primeiro parágrafo pela metade. Confesso que tenho um sério problema para sustentar minha opinião.

Não sei, pode ser um problema (como gostam de dizer os treinadores de futebol) da base. Não sou acostumado a entrar em grandes dicussões, muito menos debates. É até um caso de preguiça, mesmo. Se alguém discorda de mim, deixo a conversa para lá. Tem tanta gente teimosa neste mundo. Eu não quero fazer parte deste rol...

Fora das redações, isso pode até ser uma virtude, mas quando passamos para o lado profissional, "não ter uma opinião" é uma falha grave. Não é o caso de ter 0% de opinião sobre 100% dos assuntos, mas de 50% sobre 50%.

Recentemente, recebi a missão de escrever uma resenha crítica sobre um livro do New York Times. "As melhores histórias do New York Times" foi lançado em português recentemente e, em conversa com um de meus editores, contei que acabara de ler o Reino e o Poder e me interessara com as histórias da redação do maior jornal do planeta.

Sabendo disso, dias depois, ele me entregou "As melhores histórias...". Li com um olhar crítico. Mas, na hora de escrever, não conseguia me expressar. O texto saía algo como:

- O livro é meio piegas, com umas histórias forçando a barra, mas tem uns textos curiosos.

Se eu entregasse uma linha da resenha para meu editor, já não estaria mais aqui para contar essa história. Então, recorri aos formulários de opinião que repousam nos rincões do meu cérebro. Trouxe de volta palavras que há tempo não utilizava nos meus textos de hard news, não hesitei em dar opiniões abertas e tentei dar uma pitada de criatividade ao lide.

O editor corrigiu os tradicionais erros de digitação, pontuação e concordância e disse que queria conversar comigo pessoalmente no dia seguinte. Confesso que dormi mal. Estava me sentindo como nos tempos da 5ª série, quando reprovei de ano. Levaria uma bronca do professor, no caso, do editor.

Ele me disse que faltava conteúdo, ou cancha, para fazer uma crítica. Faltavam vocabulário, argumentos. "A idéia é boa, mas está solta". Fiz, novamente, as alterações pedida por ele a minha primeira resenha foi publicada há quatro dias.

É provável que o editor demore a me entregar outro livro para ler e resenhar.

Segurança
É muito comum comentarista de futebol dizer: "Tudo pode acontecer". Isso é típico de um cara que não tem o que falar.

Crítico, colunista, comentarista, tem que ser um cara com personalidade. Um cara segura de suas idéias e coerente com seus princípios. Tem que ir direto ao assunto, sem subterfúgios. Quer ver exemplos de quando um jornalista está enrolado para dar opinião:

- Quando conta histórias antigas na tentativa de encaixá-la no contexto atual;
- Quando se utiliza muito mais de informações do que da própria opinião. Só na base da informação, por exemplo, qualquer um pode dizer que Hitler foi eleito pelo povo.
- Quando exagera nos adjetivos.

Lógico, uma boa opinião contém histórias, informações e adjetivos. Mas é preciso saber dosá-los, pois quando não estão juntos no texto, o comentário perde em qualidade.

PS - Se alguém discordar, eu não farei minha réplica. Não gosto de discussão!

04 outubro 2007

Mãos ao alto!

Por Mário Coelho*

Há três semanas, um colega do jornal - Amaury Ribeiro Jr. - foi baleado em Cidade Ocidental (GO), cidade distante 45km de Brasília. Ele vinha fazendo uma série de matérias sobre o tráfico de drogas na região. Inicialmente, dizia-se que era um atentado, uma represália, já que o repórter tinha mostrado a identidade do principal traficante da região. A polícia goiana não entendeu assim. Mesmo sem ouvir o depoimento dele, afirmou que houve uma tentativa frustrada de roubo. Antes do criminoso atirar, Amaury reagiu. Contrariar todas as regras de segurança é que salvou o colega da morte.

Dias antes, eu tinha entrado nessa cobertura também. Estava em Cidade Ocidental, cobrindo uma manifestação dos pais de duas meninas mortas por traficantes. Na parte da tarde, acompanharia o resto do protesto deles. Ainda apuraria para uma matéria de domingo que fazia junto com uma outra colega. Almoçamos e dividimos a equipe. O fotógrafo que estava comigo saiu com Amaury; foram correr atrás de mais personagens vítimas de violência. Eu e o motorista, sem ter o que fazer, procuramos uma sombra para ficar. Eu disse para irmos a um lugar movimentado; não dava para dar mole em situação alguma.

Paramos em frente a uma área comercial. Era pouco depois das 12h. Muita gente na rua, entrando e saindo das lojinhas, crianças em uniformes escolares passando nas calçadas. Ficamos dentro do carro. Eu lia o jornal mais uma vez e o motorista reclinou o banco para tirar um cochilo. Ao fazer isso, ele ajeitou o retrovisor para poder ver o que acontecia na rua, às nossas costas. Foi nesse momento que ele me alertou: três rapazes pararam as bicicletas próximas ao nosso carro. Um ficou bem atrás, enquanto os outros dois estavam do outro lado da rua. O primeiro abriu a pochete e colocou alguma coisa embaixo da camisa.

O motorista me avisou e falei para sairmos dali o mais rápido possível. Saímos da cidade e paramos em um posto de gasolina próximo à entrada de Cidade Ocidental. Não ficamos lá para ter que pagar para ver o que o rapaz tinha tirado da pochete. Apesar do aperto, essa não foi a situação mais bizarra que enfrentei em seis anos de profissão. Isso aconteceu bem no primeiro dia de trabalho no saudoso jornal O Estado, em Santa Catarina. Meu primeiro dia como estagiário de polícia.

Fazia a ronda por telefone como o editor de polícia tinha me ensinado no dia anterior. Não tinha nenhuma ocorrência de destaque, até mais ou menos 17h. Apareceu um caso de tiroteio dentro do maior supermercado de Florianópolis. Quatro homens tentaram roubar o estabelecimento, os seguranças reagiram e houve tiro para tudo quanto é lado. Um dos vigilantes ficou ferido. Os quatro assaltantes fugiram. Aí começa minha experiência. No jornal, não tinha carro para me levar até o local do crime. Aí, um dos colunistas se levantou da cadeira e disse que me levaria até o local.

Os assaltantes já tinham saído do supermercado. A última informação que eu tinha era de que o grupo tinha sido encurralado pela polícia no cemitério da cidade. A redação do jornal era próxima do local. Mas chovia, e o trânsito de fim de tarde estava mais infernal ainda. O colunista fez uma série de manobras arriscadas - para não dizer barbeiragens -, chegou até a subir em uma calçada. Tínhamos que passar por um viaduto. Ele perdeu a entrada, deu ré na via mesmo e entrou na contra-mão. Quando ele endireitou o carro e entrou na mão correta, pára um Palio branco ao nosso lado.

- Parados, mãos para o alto, é a polícia!

Eram dois policiais militares à paisana, os populares P2, empunhando pistolas .40 em nossa direção. Até explicarmos que éramos jornalistas, e estávamos ali para cobrir a matéria, foi um bom tempo de pura tensão. Carro descaracterizado, sem crachás ou qualquer tipo de identificação. A sorte foi que um dos policiais reconheceu o colunista do programa de tv que ele tinha na época. Foi um batismo de fogo. Minha mãe, apavorada quando soube, queria que eu desistisse. Foi perigoso, mas eu gostei da sensação de correr atrás da notícia.

O problema é que, na grande maioria das vezes, a gente só conta com a gente mesmo para proteção. As empresas ainda não têm estrutura para proteger seus funcionários em matérias investigativas com maior periculosidade. Então, fica-se entre a cruz e a espada: arriscar mais e conseguir mais informações, ou colocar a segurança em primeiro lugar? Nessas horas, é o bom senso da equipe que tem que prevalecer. Agora, se ele não existir, a possibilidade do jornalista virar notícia é muitro grande.

* Mário é o único torcedor do Avaí fora da Ilha, repórter do Correio Braziliense, dono do blog http://micjunior.zip.net/ de onde este texto foi retirado, e ainda vai escrever sobre New Journalism para o Filhos da Pauta.

29 setembro 2007

A mídia e a Universal

Pedro Henrique Freire

Há três semanas, se não me engano, a praia de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, transformou-se em palco para 650 mil evangélicos – segundo organização – se livrarem dos espíritos e sentimentos malignos. Lá, ocorreu “a maior sessão de descarrego do mundo”. Quem comandou a farra religiosa foi a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), orientada pelo seu líder, bispo Edir Macedo.

Nas areias da praia, além de fé, enquanto fiéis oravam, carnês bancários foram distribuídos, com 12 boletos de R$ 20 reais cada. O dinheiro, segundo a Universal, vai ajudar na ampliação da rede de rádio da igreja no país. É bom lembrar que a Universal hoje é dona da TV Record, Rede Mulher, Rede Família, Rede Guaíba, Rede Aleluia e controla uma rede nacional de rádios em FM, além de várias emissoras locais, em AM e FM. E há pouco lançou um novo canal de TV.

Essa é uma manobra da Universal para incrementar seus cofres e aumentar seu poder de persuasão. A justificativa está no próprio carnê: "A mídia é um canal valioso que a Iurd tem usado na propagação da Palavra de Deus, e o rádio é a principal ferramenta capaz de alcançar aqueles que moram nas mais distantes regiões", diz o texto na contra-capa do "carnê dos Auxiliares", publicado, um dia ai, no jornal Folha de São Paulo.

Disso pode-se tirar uma gama de conclusões. Ser contra ou a favor. Mas é preciso ir além. É fundamental saber, por exemplo, que algumas igrejas evangélicas misturam religião com política. Não é a toa que na Câmara dos Deputados existe a bancada dos evangélicos, que, no ano passado, contava com 64 parlamentares. E é ingênuo se pensar que essas rádios e TVs não são usadas para agradar “os seus”.

Outro dado: segundo matéria de O Globo, publicada em 1º de agosto de 2006, quase metade dessa bancada (29 deputados e um senador) foi acusada pela CPI dos Sanguessugas de receber propina de empreiteiro. Alguns foram inocentados e outros renunciaram para não ficarem inelegíveis e hoje respondem a processos. Os ex-deputados Bisbo Rodrigues e Valdemar Costa Neto, ambos do antigo PL, são bons exemplos.

Recentemente, o Brasil assistiu com atenção o caso dos bispos Sônia e Estevam Hernandes, donos da Renascer em Cristo. Eles estão presos nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro e conspiração para contrabando de dinheiro. Pra completar, a matéria da Folha de S. Paulo lembra também que o líder máximo da igreja Universal, Edir Macedo, responsável pelos carnês, foi preso em 1992, sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato.

Esses são apenas alguns exemplos de disfunções que pesam sobre líderes religiosos. Existem outros. Cabe ao leitor reuni-los e tirar suas próprias conclusões. Mas o escritor e pastor evangélico Ricardo Gondim já tem as suas. Ele é dono do livro O Que os Evangélicos (não) Falam (Ed. Ultimato). E discorre sobre a busca das igrejas por poder absoluto. Num trecho, questiona: “Quem poderia imaginar que as igrejas se transformariam em mega-empresas, movimentando somas astronômicas, conspirando pelo poder político e disputando, em pé de igualdade, a hegemonia da mídia?” Boa pergunta.

23 setembro 2007

Relação vantajosa

Por Léo Alves

Os colegas Pedro e Daniel já trataram do tema em posts anteriores. Mas como o assunto dá “muito pano pra manga” não vou sair da linha da relação (comercial) entre veículo e governo.

O governo é, sem dúvida, um dos maiores anunciantes.

O veículo de comunicação precisa da publicidade do governo para sobreviver.

Reféns das verbas publicitárias, muitos veículos acabam também tornando-se reféns do próprio governo.

Só fazem matérias para agradar o anunciante.

Quando o assunto “bate” no governo é censurado, na maioria das vezes, pelo dono do jornal.

Não deveria ser assim.

Os empresários da comunicação bem que poderiam perceber que o governo precisa de seus veículos para exibir sua propaganda.

Se o governo deixa de anunciar ele perde.

As ações governamentais não são divulgadas.

A publicidade é uma espécie de prestação de contas com a população. O governo precisa dela.

E, mesmo que o veículo seja contra determinada administração, o governo também terá que anunciar nele.

Lógico que esses investimentos serão menores em relação aos veículos aliados.

De certa forma o governo também é refém dos meios de comunicação.

Mas a maioria dos empresários da comunicação não percebe isso. Acha que só o veículo precisa do governo (leiam-se verbas publicitárias).

Ambos são reféns. Um precisa do outro para sobreviver.

Recorro a um termo da biologia para definir a relação entre veículo e governo: mutualismo.

Segundo a ciência mutualismo é a associação entre indivíduos de espécies diferentes na qual ambos se beneficiam. Esse tipo de associação é tão íntima, que a sobrevivência dos seres que a formam torna-se impossível, quando são separados.

20 setembro 2007

Os limites do jornalista

Por Daniel Brito

Diante do chocante caso de tentativa de assassinato ao jornalista Amaury Ribeiro Jr., na noite desta quarta-feira, na Cidade Ocidental, ainda me pergunto até onde um jornalista pode ir?

Para quem não está sabendo da história ainda, Amaury é colega de Correio Braziliense (não me conhece porque eu faço o miolo do jornal, ele apura manchetes de primeira página) e havia mais de um mês percorria as cidades mais perigosas do Entorno relatando os casos de violência dignos da Favela Santa Marta ou Complexo do Alemão, no Rio.

O Entorno tem esse nome porque cerca o Distrito Federal com várias cidades-dormitórios (lá embaixo eu explico isso) pertencentes ao estado de Goiás. Os governos goianos, contudo, não mexem uma palha para mudar a situação de pobreza da região.

A diferença entre o Entorno e o Rio de Janeiro é que lá o crime é "organizado".
Na Cidade Ocidental, aqui no Entorno, é exatamente o contrário.

É uma terra sem lei, com várias gangues inimigas - diferentemente das grandes facções, como ocorre no Rio -, alto consumo e tráfico de drogas. A maioria dos moradores da região é imigrante que trabalha em Brasília, mas volta todos os dias, às 18h para o Entorno, onde o custo de vida é muito mais baixo. A cidade mais próxima do centro do Plano Piloto fica, no mínimo, a 45 quilômetros. Daí o nome de cidade-dormitório. Daí, também, o motivo dos governos goianos não atuarem na região. Muita gente vota no DF, mas mora em Goiás.

Não precisa ir lá para saber que mata-se por um pingo no i.
Rouba-se para sustentar o tráfico e a própria vida.
Vive-se com medo da própria sombra.

Grande repórter investigativo, Amaury reuniu informações suficiente para mergulhar de cabeça na denúncia de que a região está para Brasília como a Baixada Fluminense está para o Rio de Janeiro. O governo federal, após as reportagens do Correio, anunciou um pacote de medidas de segurança com a Força Nacional no meio para diminuir os índices de criminalidade.

A história de Amaury, contudo, não acabava ali. Ele tinha conteúdo para reforçar a tese de que o Entorno está repleto de cães ferais, o que transforma a "nova capital" em uma bomba relógio. A aparente tranqüilidade da cidade planejada está com os dias contados.

O repórter rodou os locais mais perigosos com táticas diferentes para não ser descoberto pelos marginais. Até porque, não há delegacia de polícia na Cidade Ocidental, por exemplo. Até o fim da tarde desta quarta-feira seu plano de apuração dava certo.

Durante uma entrevista em um bar, no final da tarde desta quarta-feira, um adolescente de 16 anos, armado com um 38, disparou três tiros na direção do repórter e fugiu. Até o começo da madrugada de quinta, momento em que publico este post, no calor dos acontecimentos, a informação que me foi repassada é que o garoto foi detido.

O atentado teria sido armado pelos bandidos acusados nas reportagens.
Amaury está consciente e o quadro é estável.
Por um milagre, até onde eu sei, apenas uma bala perfurou seu abdômem, mas não corre o risco de perder a vida.

Sei, também, que Amaury chegou a um ponto em que nem a polícia costuma ir.

Para mim, ficou comprovado que o tamanho da emoção de se fazer o jornalismo investigativo bem feito é proporcional ao risco que se corre.

19 setembro 2007

Jogo de três pontos

Por Daniel Brito

Desde agosto, voltei a trabalhar diariamente com futebol. Minha última experiência diária com o esporte foi em 2002, na TV Borborema.

Futebol é o meu primeiro esporte.

Assisto.
Acompanho.
Mas, incrivelmente, não tenho muita disposição para comentar sobre futebol. Assim como ler notícias de outros times que não sejam aqueles com os quais trabalho todos os dias. Quando cobria Série C, por exemplo, não fazia questão de participar daqueles calorosos bate-papo sobre a situação do Palmeira ou Botafogo.

Por que não costumo comentar muito sobre futebol?

Porque a maioria dos torcedores é burro. Vêem o futebol apenas como uma bola que tem que ser empurrada pelo atacante para o fundo das redes. Eles não entendem o caráter lúdico e até social do esporte. Daí a violência num simples bate-papo sobre o clássico flamengo x vasco.

Se você prestar atenção, todas as discussões sobre futebol rodam em círculos. Ninguém abre mão de sua própria opinião para concordar com o rival e a conversa não termina nem tão cedo.

Por que não leio sobre os outros times?

Porque a notícia de futebol tornou-se repetitiva. Disse em um post anterior que se pegar uma reportagem de tevê sobre o treino de qualquer equipe um mês atrás veremos os fatos idênticos neste momento. Sem contar com as entrevistas manjadas, muito por causa das perguntas mais do que batidas dos repórteres.

Por ter sido um torcedor em algum momento da vida, o repórter de esporte cai no erro de repetir as histórias.

As mais mais dos jornalistas preguiçosos são:

- Quando um jogador dá a volta ao mundo, defende oito clubes em quatro anos e retorna ao time de origem, o título da matéria é "Velhos conhecidos". Serve para quando o treinador do time A enfrenta o time B, que ele mesmo comandava até a rodada passada.

- Antes de um clássico, o time A é líder do campeonato e o time B é o lanterna. Quando eles vão se enfrentar, o título da matéria é "Duelo de opostos".

- Um jogador especial do time X ou o treinador muda de idade no dia do jogo contra o time Y, o texto tem que conter a informação que "tal jogador quer fazer o gol da vitória para dar de presente de aniversário aa torcida"!

O jornal O Globo tem tentado mudar essa história. Às vezes, eles pecam pelo excesso de vontade de fazer diferente, mas tem fugido muito do que foi noticiado exatamente do mesmo jeito nos últimos dez, 15 anos.

Para fugir do óbvio, a Folha de S. Paulo, usa e abusa das estatísticas. Cruzamento de informações para chegar a uma história diferente. Ao ponto de, na véspera da decisão entre Brasil x Alemanha, há cinco anos, dar destaque aa seguinte matéria:

"Estatística aponta uma Seleção Brasileira fracassada com três zagueiros".

Ou seja, porque a Seleção perdeu mais jogos com três zagueiros, significa dizer que pode perder a copa para a Alemanha. Isso foi em 2002, na Copa do Japão.

De volta ao noticiário futebolístico desde mês passado, tenho me esforçado para fazer diferente.
Agora eu sei que na prática, a teoria é outra...

12 setembro 2007

A realidade do jornalismo no Nordeste

Pedro Henrique Freire

Reflexões sobre a capa*

As últimas capas do jornal foram extremamente chapas-brancas. A edição dessa página está fraca e as chamadas pouco atraentes. É preciso descolar a imagem deste veículo com a do governo do estado e prefeitura. Mas parece que trabalhamos para promovê-los.

Exemplo:
A entrevista com Julião Amim (presidente regional do PDT no MA) tratava de um possível racha no partido. A matéria sobre ele vinha com essa tônica. Ele negava o racha e disse que procuraria a unidade. A melhor manchete seria: “Amim nega racha entre prefeito e governador”. Mas colocaram a manchete da pior forma possível. Não lembro os termos exatos. Mas saiu alguma coisa assim: “Julião Amim afirma que PDT sairá unido nas eleições de 2008”.

Esse não era o tom da matéria. Está eleitoreiro e parece um aviso aos adversários do governador. Além disso, ele falou em unidade em alguns momentos, mas apenas como retórica política. Nós sabemos que a unidade como ele quer será difícil. Com a manchete dessa forma, tiramos toda a malícia que um jornal precisa ter para ser respeitado. Está, simplesmente, oficial demais.

Exemplo 2:
Outro exemplo, também recente, de manchete chapa-branca foi a sobre os cadeiões. “Jackson busca entendimento com a população”. Quem lê isso com um pouco mais de crítica, imagina que o próprio governador escreveu e mandou por e-mail para o editor de capa.

A capa é o local mais nobre do jornal. Merece muita atenção. Dentro do jornal, podemos até pecar por excesso de parcialidade – já que não tem outro jeito. Mas na capa, não. É preciso resistir às pressões das assessorias e construir uma imagem mais imparcial. É uma questão vital. Se hoje somos desrespeitados por algum membro do governo, é porque não soubemos resistir às pressões e acabamos cedendo demais. Estamos fracos.

Sugiro, então, algumas mudanças básicas:

1 – Deixarmos de usar o nome Jackson Lago como sujeito da ação. Ou seja, em vez de chamarmos “Jackson inaugura escolas”, colocaremos: “Governo entrega tantas escolas”. O mesmo vale para a prefeitura.

2 – Evitarmos fotos do governador todos os dias na capa. Como as fotos são publicadas sem crivo ou interesse jornalísticos, podemos estabelecer um teto: fotos do governador apenas duas vezes na semana. Do prefeito, só quando o assunto for muito relevante.

3 – As manchetes devem evitar o tom oficial. É preciso isenção, clareza e objetividade. Vamos ser imparciais ao menos na capa.

4 – É comum o governador aparecer em duas e até três chamadas na capa. Podemos evitar esses excessos. Só uma chamada para ação do governo basta.

Com essas pequenas mudanças, acho que podemos livrar o jornal – ao menos um pouco – da pecha de oficial. Afirmo que, hoje, não é preciso ler com profundidade este veículo para saber como ele se comporta em relação ao governo.

No Maranhão, há uma tradição ao avesso de outros estados e da grande imprensa. Ai, apoio jornalístico se dá com elogios. É errado. Os governos devem anunciar para não serem criticados e não para serem elogiados. Não defendo uma postura extremamente imparcial, até porque não se pode fazer isso no universo em que vivemos. Defendo apenas que façamos um jornalismo menos oficial e justo com o leitor.

* Sugestões enviadas ao diretor de redação.

05 setembro 2007

Manchetes atropeladas

Por Daniel Brito

A ordem nas redações é:

"Vamos atrás do furo"

Isso não é de hoje, óbvio. Mas, acredite, a cada dia, mais pessoas querem contribuir para o bom jornalismo. Aquele que investiga profundamente e publica com um texto impecável; que denuncia e pode até derrubar assesores, ministros, senadores, governos inteiros.

O problema é que o Brasil sofre de hemorragia generalizada, na minha modesta, opaca e pálida opinião. Qualquer lugar deste país é possível encontrar uma caveira escondida. Até, quem sabe, no seu armário (opa!).

Na ânsia de dar furos e mais furos, acontecem muitos erros e injustiças, não tenha dúvida, mas eu comento sobre isso em outro post. Agora, quero mostrar o que eu escrevi no título. O atropelamento indiscriminado de manchetes dos jornais. Pelos dois motivos citados no primeiro parágrafo: gargantas profundas (informantes interessados em denunciar) e a necessidade de acusar irregularidades.

Vamos aos exemplos?
Então tá.
Em abril, os jornais estamparam o caso de um ministro do STJ envolvido na Operação Furacão, da PF. Ele foi acusado pela polícia de dar sentenças favoráveis a bingueiros, para beneficiar o irmaõ, que tava diretamente ligado aos donos de bingo. Em maio, explodiu a Operação Navalha, de Zuleido Veras e a Gautama. Em seguida, surgiu o escândalo de Renan Calheiros. No meio dessas confusões, apareceu a denúncia contra o ex-governador do DF, até então senador, que teria recebido milhões de um empresário local, não se sabe porquê, mas diretores do banco do DF estavam no meio dessa divisão de dinheiro aí. Agora começou o julgamento do Mensalão, de 2005, que andava meio esquecido.

Agora, eu pergunto:

o que você se lembra do caso dos bingueiros?
E da Gautama?
A cada bomba que estoura na Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes e adjancências, a bomba anterior perde a força e cai no esquecimento.
Só o caso Renan resiste.
E ele ainda insiste... À espera de uma outra bomba, para que esqueçam da dele!

02 setembro 2007

Jornal relatorial

Por Daniel Brito

Aquele jornal que só traz notícias oficias, muitas vezes com releases reescritos ou copiados ipsis litteris, é o que a gente chama de jornal relatorial.

Aliás, não é só jornal impresso, não. A TV tem feito muito isso. O rádio além de ser relatorial, perdeu sua essência ao deixar de investir em repórteres e passou a ler notícias da internet.

Já disse em um post mais antigo que o departamento de jornalismo das emissoras de TV locais (seja em Brasília, na Paraíba, em Cocal de Telha no Piauí, em Massachusets), já não apura matéria. Pode fazê-la uma vez ou outra, claro, mas os repórteres de TV estão quase que copiando o que é publicado nos jornais.

Foi mais ou menos isso foi o que Da Silva escreveu recentemente.

Peguemos como exemplo, pois, o telejornal de maior audiência do DF. A cada dez matérias exibidas, oito são sobre governo. Crítica ou elogio. Mas são sobre o governo. As outras duas são agenda cultural e meteorologia. Aliás, acho até que previsão do tempo entra como relatório, não é não?

O pior é que os telejornais wannabe das outras emissoras fazem o mesmo na ilusão de ter a audiência idêntica.

No jornalismo esportivo na TV, para ir um pouquinho mais longe. Existe coisa mais repetitiva de se ver do que "Fulano, suspenso, sai para entrada de Sicrano na lateral". Se pegarmos no arquivo do ano passado, vamos encontrar matéria idêntica, mas com nomes diferentes. Isso também é um jornalismo relatorial.

É muito fácil e muito chato fazer jornalismo assim.

Difícil mesmo é colocar opinião no conteúdo.

Sim, porque com a proximidade assustadora dos empresários do setor com políticos e seus partidos, a opinião tende a sair distorcido. As coisas não funcionam como o slogan do Le Monde:

"Sem a liberdade da crítica não existe elogio sincero". Aliás, alguém já me falou - e o Google confirmou - que esta frase é de um camarada chamado Pierre Beaumarchais, autor de teatro do século XVIII.

Do jeito que as coisas se encaminham na nossa área, é capaz de entrarmos na era do jornalismo e da opinião relatorial. Onde toda a verdade vem do governo e só do governo.

PS - Tem um blog novo no ar. É o muitodenada.blogspot.com. Não é sobre jornalismo, como este almeja ser. Tem tudo sobre nada. E ponto final...