10 agosto 2010

Passione pelo Brasil

Saulo Duailibe*

Na noite desta terça-feira, a Seleção Brasileira faz o primeiro jogo após a eliminação da Copa do Mundo da África e do fim da era Dunga. Toda renovada, desde a comissão técnica ao time, a seleção, enfrenta os EUA, às 21h, em Nova Jersey.

Quem estava ansioso para ver a ‘Molecada do Santos’, e até uma dupla animal, com Pato e Ganso, vai ter esperar mais um pouco. A Rede Globo não abriu mão de exibir mais um capítulo da novela Passione, que passa no mesmo horário do jogo.

Agora o torcedor canarinho tem que sair de casa para poder prestigiar a nova fase brasileira e assistir a partida em botecos ou bares. Ou assinar uma TV paga. Mas a maioria vai ver Totó correr atrás de Clara e deixar uma fortuna pelo amor de uma mulher que poderia ser a filha dele.

Ou melhor, olhar Reynaldo Gianechinni tentar fazer um papel de vilão, enquanto Bruno Gagliasso faz um bígamo com duas mulheres lindas e ricas. Além de assistir uma mulher fútil, a Clô, casada com Francisco Cuoco, que interpreta um dos piores papeis da carreira, fazer de tudo pela decoração da casa nova. Este que é o único momento hilário do folhetim.

E, acima de tudo, quando as cenas vão para a Itália fica pior. Todos falam uma língua ainda desconhecida para os estudiosos: o ítalo-português. E assim também era na novela Caminho das Índias, onde o Harebaba se misturava gírias brasileiras.

Na maioria das vezes não podemos escolher o que degustar na programação da televisão. As emissoras que detém os direitos de imagem fazem o que querem e tudo pelo lucro incessante.

Um exemplo: a Globo compra o direito de transmitir o Brasileirão e libera os piores jogos para as outras emissoras. E quando não libera a mesma partida.

Na verdade, não controlamos nem mais o que pagamos. Se a televisão é minha, assisto o que quiser, mas não é assim. Pagar não é poder.

*Saulo é jornalista, editor de O Imparcial Online (www.oimparcial.com.br), portal de notícias do Maranhão

02 agosto 2010

O fim está próximo?

Pedro Henrique Freire

O rádio nasce. Será o fim dos jornais. A tevê nasce. Será o fim dos jornais. A internet nasce. Será o fim dos jornais. Agora os e-readers, os tablets chegaram... Será o fim dos jornais? Estamos diante, pra variar, de mais uma conjuntura apocalíptica para os jornais. Depois que a Apple inventou o Ipad, um tablete digital que só falta falar, a discussão gira em torno da existência (e persistência) do impresso de cada dia.

Em setembro, o tradicional e marcante Jornal do Brasil fecha seu parque gráfico após 119 anos em circulação. Economicamente, bom pra ele: não irá gastar mais com chapas, tinta, toneladas de papel, manutenção de máquina, entre outros custos inerentes a produção de um impresso.

Mau porque perde sua marca, seu charme de ser chamado de jornal, sua influência, seu leitores e sua credibilidade. Agora vai existir apenas na internet. Não será mais o Jornal do Brasil. E, sim, o Portal do Brasil. Não é a mesma coisa, convenhamos.

O que fazer para reverter essa tal “decadência”, há décadas discutida e incompreendida por todos? Eis que com os e-readers e tablets surge uma nova interpretação da crise, amadurecida naturalmente pelos trancos e barrancos causados pelo rádio, tevê e internet. Não queremos fugir do afogamento, mas estudar o melhor modelo de mergulhar e explorar com profundidade o mar dessa nova tecnologia.

“O desafio é usar os e-readers e tablets para vender conteúdo, evitando os ‘erros’ cometidos com a migração para a web. Os efeitos da gratuidade ainda assombram”. Quem fala é o estudioso em comunicação Kerry Northrup, da Western Kentucky University, que acompanha a alarmante adesão à nova tecnologia pelos Estados Unidos.

É um passo. Afinal, hoje investimos em tecnologia quase por uma imposição da modernidade. Somos obrigados a acompanhar as novidades do meio e implementá-las. Se pudermos gastar ganhando, mais justo. A crise, ninguém esconde que há. Mas é uma crise dos jornais. E não do jornalismo. E ela existe há muito tempo. A morte deste papel já esteve próxima por diversas ocasiões. Será que agora ela chegou? Não creio.

28 julho 2010

(Quase) Adeus, leitores...


Prezados jornalistas, tive acesso, acidentalmente, aqui nosso humilde Maranhão, à carta enviada aos assinantes do Jornal do Brasil e assinada por Humberto Tanure, irmão de Nelson, dono futuro-ex-Jornal do Brasil.

Segue a imagem com a carta, assinada. Ele discorre sobre uma nova era do períodico, na qual se tornará o "Portal do Brasil" (digamos assim) e não mais o "Jornal do Brasil". Serve para avaliarmos e tirarmos as nossas próprias conclusões.

Devemos acreditar nisso? No fundo, mesmo que por uma medida "economico-compulsória", ele não estaria certo?

Abraços a todos

22 julho 2010

É o fim ou o fim da picada?

Outro dia conversava com meu chefe e pedia-lhe permissão para ir ao Congresso Brasileiro de Jornais, realizado a cada biênio pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) – veja o serviço abaixo. Falava do nosso interesse sobre o tema que será discutido (Jornalismo e Democracia na Era Digital). Conversa vai, conversa vem, ele me incumbiu: “Preciso que me tragam alguma solução nesse aspecto. Não que tenha deixado de acreditar no papel, mas precisamos discutir aqui novos meios de transmitir informações”.

Não sei se estamos abatidos pelo fechamento do Jornal do Brasil, na última semana, ou se definitivamente consideramos que as novas mídias estão permitindo que árvores vivam mais e jornais vendam menos. O fato é que todos discutem agora a presença dos tablets ou e-readers como ferramenta de transmissão de informação. Será que irão substituir o papel (e o papel) dos jornais? Isso representa o começo do fim dos clássicos impressos ou o fim do jornalismo?

É o fim ou o fim da picada quererem matar os jornais de novo? Não tenho ideia.

Lendo a reportagem de capa do jornal da ANJ deste mês, uma frase fixou na mente: “O desafio é usar os e-readers e tablets para vender conteúdo”. Concordo. Até porque já se gasta dinheiro demais com a produção de conteúdo na internet, onde tudo é de graça. Gastar mais para dar de graça de novo pode ser insustentável a pequenas empresas. Concordam? Veremos. Após o Congresso escreverei mais sobre o tema.

Congresso Brasileiro de Jornais – Ano 8
“Jornalismo e Democracia na Era Digital”
Palestra com Robert Thomson, editor do The Wall Street Journal
Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo
Francisco Amaral, da Cassis i Associats

Entre outros feras.

Mais informações: www.anj.org.br

19 julho 2010

Imparcialidade espanhola

Por Daniel Brito

Na Espanha é assim: reporter pode se pegar com jogador ao vivo, jornalista pode usar camisa da selecao na redacao e esquecer-se do fechamento...

Olha ai como a redação do Diario Marca, um dos mais renomados veículos esportivos do planeta sediado em Madrid,, assistiu aa final da Copa.

08 julho 2010

Os cinco clichês da Copa de Catorze (até que a bola role)

Por Daniel Brito

A "Copa de 14" (aspas para Ricardo Teixeira e sua maneira de se referir ao próximo mundial) tem tudo para ser uma das mais chatas até que a bola role.

Por quê?, você vai me perguntar.

Por causa dos assuntos que vão bombar na imprensa até que o Brasil enfrente os Emirados Árabes em 13 de junho, na abertura da Copa em um futuro White Elephant que está por venir.

Abaixo, relaciono os cinco temas preferidos dos jornalistas para a Copa de 14:

1 - Arenas verdes
Brasil fará a Copa verde. Por causa do aquecimento global, o Brasil é personagem principal no cenário internacional para conscientizar as pessoas da importância de se jogar futebol em verdes relvados, em estádios com teto solar, reuso da água da chuva... (Enquanto isso, em 2018, Qatar surge como favorito por propor a criação de 12 arenas completamente climatizadas no deserto)

2 - Arenas multiuso
Futebol por si só não sustenta estádio. As arenas tëm que ser multiuso. Todos os anos, cada um dos estádios da Copa de 14 vai receber um show do Elton John, outro do Rolling Stones, Madonna. Só assim eles vão se sustentar e não virar White Elephants.

3 - Licenciamento ambiental
Como Fortaleza, Salvador, Recife, Natal, Cuiabá e São Paulo (metade das cidades sedes) ainda não tem estádio pronto, vão ter que encontrar uma área adequada para tal. Vão descolar um terreno baldio na perifa (O estádio de recife, veja voce, vai ser em ...Olinda!!) e desmatar. Acontece que aquele terreno baldio, na verdade, era zpna de proteção ambiental. E para desapropriar a área serão necessários dois anos de análises do Ibama.

4 - PPP
O Estado, sempre previdente, não vai bancar pelos estádios novos. Que venham as empreiteiras e os consórcios. Vamos celebrar as parcerias público-privadas. Nosso castelo de cartas marcadas, trabalho escravo, nosso pequeno universo.

5 - Tribunal de Contas da União
É hora de conhecermos os nomes dos ministros do TCU. Eles serão inseridos paulatinamente em jornais e revistas, e depois portais noticiosos e transparentes e, em seguida, matérias de tv. Quando eles estiverem bombando na TV é pq o monstro já vai estar formado. Os ministros que serão cobrados por fiscalizar os gastos pelas arenas verdes (1), arenas multiuso (2), os gastos para agilizar o licenciamento ambiental (3)e as parcerias público-privadas (4). Se eles vão conseguir...Aí é outra história!

25 junho 2010

Torcer ou não torcer, eis a questão

Por Mário Coelho*

Época de Copa do Mundo de Futebol sempre traz uma série de questões. Os debates ficam mais acalorados. Nos bares, nos fumódromos, no ponto de ônibus, a competição é um dos principais assuntos. E, ao cabo disso, vem a discussão sobre o papel da imprensa na cobertura esportiva. Seja qual for a posição, é quase certeza que vamos apanhar. Agora, se é para levar porrada, que pelo menos seja pelo motivo certo.

Em uma das coletivas de Dunga & Cia, o auxiliar técnico Jorginho fez um discurso emocionado sobre qual, na concepção dele, deveria ser o comportamento da imprensa. Invocou o patriotismo, disse que nessas horas devemos torcer pela seleção da CBF. Em outra coletiva, já na África do Sul, desafiou um jornalista que criticava a equipe. Não disse quem era, mas falou que queria o debate.

Depois veio a história do Dunga com a Globo. Ali, mistura-se jornalismo com entretenimento, com negócios da maior empresa de comunicação da América Latina. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, ambos tinham suas razões e seus erros.

Dunga acertou em bater no peito e acabar com privilégios.

A Globo, em reclamar o cumprimento de um acordo.

Um errou por mostrar-se mais mal educado do que o normal.

A emissora, em agir de forma promíscua com o presidente da CBF.

Enfim, não quero falar sobre isso, nem sobre o cala-boca Globo, Tadeu Schmidt ou qualquer outra pessoa. Esse pensamento binário no twitter me irrita. Talvez por imposição dos 140 caracteres, as pessoas sejam forçadas a se mostrarem maniqueístas.

Sei lá, às vezes dá uma preguiça de debater o bom debate nesses termos.

Ok, voltemos ao que queria escrever desde o começo.

Pede-se que a imprensa seja imparcial. Tá, acho que ninguém percebe que não existe imparcialidade no jornalismo. Isso simplesmente porque o ser humano não é imparcial. Médicos não atendem e tratam parentes por conta da falta de isenção. O nepotismo é proibido e condenado por conta disso também. Então por que nós, que relatamos os fatos devemos ser desse jeito?

É claro que reconhercemos que somos parciais não é motivo para fazer um trabalho tendencioso. São coisas completamente diferentes. A verdade não é única, não tem apenas um lado, mas sim vários. Ouçamos todos. Depois, é deixar para os leitores/ouvintes/
telespectadores tirarem suas conclusões. Só que, ao ouvir tantas queixas sobre a cobertura da imprensa e sobre jornalistas, as pessoas não sabem o que querem.

Leio no twitter e em blogs que jornalistas são, em sua maioria, tendenciosos, safados, um bando de mau caráter, prontos para sacanear o primeiro que der mole. Sim, eu digo, alguns são tudo isso. No entanto, os mesmos que criticam e cospem, são aqueles que mostram uma matéria com um ponto de vista que o agradam.

É fato, então, que o jornalismo que agrada é aquele que vai ao encontro da nossa opinião.

O Daniel costuma dizer que eu sou o único torcedor do Avaí fora da Ilha de Santa Catarina. É mentira, conspiração de um trezeano. Ok, isso não tem nada a ver, eu só queria dar uma cutucada no moleque. ;) O fato de eu ser avaiano me faz ler uma série de blogs de torcedores diariamente. Raramente eles trazem informações. A grande maioria dá pitaco, faz comentários e clipagens do que sai sobre o time na imprensa tradicional.

Apesar de usarem a imprensa tradicional como base para abastecerem seus blogs, a grande maioria deles diz que os veículos da principal empresa de comunicação do sul do país persegue o Avaí. Xingam, dizem que os gaúchos são tendenciosos, que é um desrespeito que fazem com a equipe, blá blá blá.

Quando sai algo contra o Avaí, é um deus-nos-acuda. Vêm à tona uma porção de teorias da conspiração. Porque a empresa quer que o Avaí caia de divisão, morra de inanição, etc. Se alguém noticia que o treinador atual recebeu convite de uma equipe x, é golpe para desestabilizar a equipe. Aí, dias depois, o próprio treinador reconhece que recebeu proposta mas negou, ninguém fala nada.

Basicamente, o que torcedor na sua grande maioria quer, seja ele do Avaí, do Treze de Campina Grande ou da seleção brasileira, é de ler coisas positivas e fatos comuns do dia a dia. É falar sobre a contusão do jogador, a escalação do time, a confirmação oficial de um patrocínio. Poucos querem saber da cobertura de bastidores, da cobertura política ou econômica do esporte. Por conta da paixão, atacam quando algo foge do normal. Como se não fosse notícia do mesmo jeito.

*Mário Coelho é o único torcedor do Avaí fora da Ilha (há controvérsias), foi sócio contribuinte inadimplente deste blog e foi retirado das fileiras "do mesmo" por absoluta incompetência do administrador "do mesmo"

05 junho 2010

Top 5 clichês da imprensa brasileira na Copa do Mundo na Sud'Africa

Por Daniel Brito

5 - País tropical, abençoado por deus, bonito por natureza. Que beleza! Em fevereiro... - Semelhanças entre Brasil e África do Sul. O ceticismo quanto à capacidade de organizar um evento tão grandioso, a roubalheira, a corrupção, os problemas estruturais como energia eletrica, rede hoteleira, aeroportos, estádios em formato de elefantes-brancos...


4 - A alegria do povo africano - Essa gente bronzeada que mostra seu valor. Que canta, que ri, que alegra os estadios e as ruas da south afrika com sua ginga, sua malicia, sua malemolencia.

3 - O sofrimento do povo africano - Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas. Massacrado pelo branco europeu e sua mentalidade imperialista, que tolheu a liberdade desse povo e deixou cicatrizes que não serao apagadas nem tao cedo. Talvez nunca mais.

2 - Lei da selva - Bem-vindo à selva, nós temos diversão e jogos. Não tem direito de errar. O mais forte sobrevive e chega à final. É o mata-mata, amigo. Haaaaajjjjaaaa coração!

1 - United Colors of football - O futebol como a união dos povos e das raças. As diferenças históricas deixadas de lado em prol de um mundo melhor, que assiste futebol, que torce, que vibra, que se emociona junto.Imagine todos os povos vivendo num mundo em pazzzz...u-uuhhh. You may say i'm a dreamer...


Reproduzido do blog bolaetudo.blogspot.com com a devida autorização e os direitos reservados ao autor da obra.

21 maio 2010

Revolta de um jornalista (sério)

Por Léo Alves

Conheci Nildo na faculdade de jornalismo. Eu na condição de professor (ou de mediador, como gosto de dizer) e ele de aluno. Sempre foi uma pessoa que demonstrou sinceridade e posições firmes, algumas vezes interpretada como radicais. Nildo, agora Lenildo Ferreira, se formou e hoje atua na no jornalismo político, uma área muito visada e sedutora por estar muito perto do poder. O agora jornalista mantém sua posição séria e sincera no seu dia-a-dia. Seus textos - principalmente os publicados no Blog do Lenildo - nem sempre agradam. E quando o texto não agrada os anônimos se aproveitam para criticar o autor. Como sofri isso (e muito) num blog de esportes que fechei há mais de dois anos reproduzo abaixo a revolta de Nildo publicada em seu blog que expressa também minha posição em relação aos comentários covardes dos anônimos:

NA FRENTE DE COMPUTADORES, COVARDES, BABÕES E AFINS ESCULHAMBAM JORNALISTAS. E OS JORNALISTAS SÃO AS GENIS DA PARAÍBA

Sempre tem alguém disposto a xingar os jornalistas. O jornalista é burro, o jornalista é comprometido, o jornalista é vendido, o jornalista é desinformado. Xingar jornalista, principalmente aqui na Paraíba, é mais que uma moda. É quase uma tradição, uma obrigação, uma profissão de fé.

O danado é que, na maioria das vezes, quem condena a suposta parcialidade do jornalista é algum puxa saco de político, daquele que mata e morre pelo deputado Fulano, o vereador Sicrano, o governador Barnabé. É, portanto, o cara que vota inquestionavelmente em seu candidato, mesmo que ele seja incompetente, mesmo que ele seja burro, mesmo que ele seja corrupto. E se acha, mesmo assim, no direito de ofender os jornalistas.

Outro caso comum é o dos anônimos, gente que liga para as rádios, manda e-mail, comenta nos sites e blogs, quer sob um nome falso, quer sob nome nenhum. Mas se acha no direito de condenar quem, nessa Paraíba sem a menor liberdade de imprensa, em que manifestar opinião é pôr o pescoço à disposição do carrasco, ousa dizer o que pensa.

Aqui no blog, vez por outra aparece uma crítica, claro. Nada mais normal que a discordância. O que, na maioria das vezes, inviabiliza a liberação do comentário crítico é o nível do comentário, muitas vezes permeado de ofensas e xingamentos. É que tem muita gente que acha que a melhor forma de responder uma crítica de um jornalista é esculhambando com ele.

Dia destes, após publicar uma postagem criticando a elitização das honrarias concedidas pela Câmara de Vereadores, algum internauta muito ofendido registrou seus impropérios, dos quais não me dei ao trabalho de ler mais que as primeiras quatro ou cinco palavras e deletei. Provavelmente seria algum parente de homenageado, ou mesmo algum xeleléu de vereador.

Se argumentasse feito gente, o espaço estaria garantido. Mas não sou e nem quero ser o cara mais paciente, cabeça fria e moderado do mundo, para agüentar desaforo de ninguém. Sou jornalista, e busco pautar-me pelos princípios éticos em que creio. Mas, primeiro, não reconheço em ninguém a autoridade para estabelecer quais são esses critérios éticos e, segundo, antes de ser jornalista, sou homem, e não sou dos mais pacíficos.

Veja-se, por exemplo, um caso que liberei o comentário. Está na postagem do dia 02 de maio (veja AQUI). Comecei o texto assim: “Então secretário de Cidadania e Administração Penitenciária, Roosevelt Vita, um dos "chegados" do governador José Maranhão, em agosto do ano passado ofendeu os moradores dos bairros Catolé (...)”.

Pois bem, um certo internauta, assinando Roma Assessoria, comentou assim: “O analfabeto parece ser você pois esse senhor não é mais secretario de cidadania e justiça infome-se jornalistarzinho (sic)”. O nível ortográfico já diria que trata-se de uma autoridade em analfabetismo. Tive de responder ao comentário: “Caro ANALFABETO, você leu em algum lugar daqui "cidadania e justiça"? Caro IMBECIL, você não viu logo na primeira palavra do texto um "ENTÃO"??? Esse "então" significa que ele foi (secretário de administração penitenciária), e não é mais. Você, sim, Vita pode chamar da analfabeto”.

Somos jornalistas, mas somos homens, e não lixeira para que toda a sorte de imbecil vomite seus atrevimentos, aproveitando-se do fato de não estar cara a cara conosco.

Lenildo Ferreira

14 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) - parte final

Por Léo Alves

Como dito no último parágrafo do post anterior, seis meses depois de entrar no Diário da Borborema, saí para assumir um cargo (concursado) no Banco do Brasil em abril de 2000. Esqueci de dizer que antes de ir pra o Diário havia feito o concurso e um teste para repórter na TV Paraíba, no qual fui reprovado.

A vida no BB me oferecia um salário melhor, folgas nos feriados e finais de semana, além da famosa estabilidade. Aparentemente não sairia mais dali. Porém, passados 10 meses, uma angústia tomou conta de mim. Primeiro, porque a vida de bancário não é menos estressante que a de jornalista. Além disso, tinha que viajar todos os dias mais de 60 quilômetros – dos quais em 22 tinha 72 curvas (contava para não dormir ao volante) para chegar à agência onde trabalhava na região do Cariri.

Dois meses depois, surgiu a oportunidade para voltar ao Diário da Borborema, agora como repórter esportivo. A negociação para minha volta foi intermediada por Daniel, que era repórter da TV Borborema na época. O gerente do banco não queria me liberar, pois em poucos meses havia me tornado responsável pela agência. Até que disse pra ele:

- Eu posso chegar a ser presidente do Banco do Brasil, mas vou estar infeliz porque sempre que ler uma notícia vou me lembrar do que podia estar fazendo.

Liberado do BB, aceitei a proposta, mesmo reduzindo meu salário pela metade. Era o preço para voltar ao jornalismo, já em 2001. O preço foi muito bem pago. Poucos meses depois voltei a ser editor (o salário melhorou) e no final do ano a editora Neide Nascimento me convidou para ser repórter da TV Borborema, onde havia participado de um debate esportivo na condição de editor do jornal.

Relutei de início, mas aceitei. O colega Daniel afirmou categoricamente que “televisão numa era a minha praia”. Em parte, ele tinha razão porque nunca me senti muito à vontade com a reportagem. Mesmo assim, passei quase cinco anos na TV e no jornal até ser chamado para a TV Paraíba para ser repórter.

Senti-me como um jogador de futebol que é dispensado de um time e oito anos depois é contratado por ele. Em 2005 chegava à afiliada Globo com a consciência de que anos atrás realmente não tinha condições profissionais de assumir o posto a que me candidatei. Fui reprovado na época de forma merecida.

Meu primeiro desafio foi convencer o editor-chefe, Rômulo Azevedo (meu professor na UEPB), que estava pronto para a função.

Explica-se: minha contratação foi pedida pelo editor regional, Luiz Augusto Pires (hoje na Rede Amazônia), mesmo contra a vontade de Rômulo. Uma pessoa foi fundamental para minha chegada ao Grupo Paraíba, o editor Expedito Madruga, com quem havia trabalhado nos Associados anteriormente, e que levou minhas reportagens para Luiz.

Com trabalho consegui convencer Rômulo que não estava ali por acaso. Mais pra fente, ele mesmo comentou numa festa de confraternização que cometeu um erro ao ser contrário a minha ida para a TVPB.

Pouco mais de ano sob as orientações do professor Rômulo até que uma nova chefia assumiu a TV. No segundo semestre de 2006, saiu Rômulo e assumiu Carlos Siqueira, que estava na casa havia quase 20 anos como repórter e apresentador.

Nos primeiros meses de Siqueira, mais uma mudança: saí da reportagem e fui deslocado para a produção. Confesso que não encarei com naturalidade a mudança. Pensei em sair. Tive proposta para voltar aos Associados, mas decidi ficar para aprender mais.

E a partir de 2006 descubri que telejornalismo é muito mais (muito mais mesmo) que apenas botar o rosto no vídeo. Com a confiança de Siqueira (que me ensinou muito sobre a arte de ser chefe), fui produtor, chefe de produção, editor assistente do Globo Esporte local e editor de telejornais. A experiência me fez entender um pouco mais sobre os caminhos da notícia.

Tudo na vida é um ciclo e o meu na TV Paraíba chegou ao fim.

Como diz o título deste post, o ciclo de redações foi encerrado (pelo menos por enquanto). Saí para encarar o desafio de um mestrado. Desde 2004 – paralelo à vida de jornalista – passei a dar aulas no curso de jornalismo da UEPB. A partir de então, busquei um mestrado para encarar com mais foco a academia. Como a realização, decidi abdicar da vida em uma redação para cursar com mais dedicação a pós.

Não foi fácil tomar essa decisão, mas ela já vinha sendo amadurecida havia alguns anos. Afinal chegam momentos na vida que é preciso decidir entre uma coisa e outra.

Nesse tempo todo aprendi muito mais que ensinei. Ri muito mais que chorei. Os momentos de tristeza foram tão poucos que são superados pelos inúmeros de alegria. Tenho muito mais a agradecer que ser agradecido. Nesse tempo, fiz muito mais amigos. Algumas amizades - é verdade - não resistiram e não resistirão à falta de contato na redação. São os amigos de trabalho. Não menos importantes que outros. Certamente devo ter feito alguma inimizade, mesmo que ela nunca tenha sido revelada. E isso faz parte da vida. Como diz o poema de Vitor Hugo:

“Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo”

Independentemente do estresse do dia-a-dia (que me levou a um cateterismo), das alegrias, das poucas tristezas, o importante é que durante o tempo em que estive nas redações me realizei profissionalmente, algo que com certeza não teria acontecido se tivesse sido engenheiro ou bancário. E por isso, “somente” por isso, esses anos de jornalismo valeram muito a pena.

11 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) – Parte 1

Por Léo Alves
Entrei no curso de jornalismo a contragosto do meu histórico escolar. Havia concluído no segundo grau o curso técnico de eletrônica. Embora a única coisa que consegui fazer nessa profissão foi deixar minha casa toda no escuro (depois do curto-circuito) ao tentar trocar o botão liga-desliga da televisão da minha mãe. Ainda hoje o grito dela ecoa na minha mente:

- LeonaAAAAAAAAAardo, o que foi isso?

Depois de quase um minuto de silêncio (do medo) e outro grito da minha mãe (certamente achando que eu tinha morrido) consegui responder.

- Mãe, foi nada não. Só errei aqui um negócio. (Esse erro eu nunca descobri porque não segui a carreira para investigá-lo).

Se bem que noutra tentativa (não sei se foi antes ou depois do curto) fiz a ligação elétrica do meu quarto. Tudo aparentemente perfeito. Porém a tevê só ligava quando a luz estava ligada.

Mesmo com essas experiências frustrantes ainda insisti e fiz vestibular para engenharia (mecânica) e para jornalismo. Fui aprovado nos dois. Passei cerca de um ano e meio nos cursos, mas em 95 decido abraçar o jornalismo.

Inspirado por meu tio Gutemberg Simões - que é repórter esportivo - sempre sonhei em seguir esse caminho. O detalhe é que ele era contra (talvez por saber das mazelas que fazem parte do futebol). Como “titio” não quis me dar espaço em seu departamento de esportes fui levado para a rádio concorrente (a Caturité) pelo colega Morib Macedo, que na época também engatinhava na profissão.

Como plantonista esportivo não tive muito sucesso. Trabalhar com vários rádios chiando no meu ouvido (antigamente era assim, não tinha a net) para pegar os resultados dos jogos não era meu forte. Passei alguns meses, mas nem lembro se fui convidado a deixar o departamento ou sai por conta própria. Pouco tempo depois fui chamado pela própria rádio para tirar férias de um padre, que tinha um programa onde as pessoas enviavam cartas pedindo músicas religiosas.

Durante mais de um ano assumi o “Cartas e Canções”. Inicialmente gravava o programa com amigo operador Araújo, que me deu uma grande força nos momentos de nervosismo. Nesse tempo muitas ouvintes me confundiam e achavam que eu era “Padre Léo”.

Passada a experiência católica, meu tio me convida para ser repórter na rádio (a extinta Borborema, hoje Clube) em que ele trabalhava ao lado de Romildo Nascimento. Os dois me ensinaram os caminhos da reportagem. Nem assim consegui emplacar. Isso porque em 96 (era setorista do Treze) ainda era muito imaturo profissionalmente. Faltava-me o senso de responsabilidade e noção de jornalismo. Uma das maiores m* que fiz na carreira foi ler um jornal do dia anterior no programa esportivo que fui escalado para apresentar. Dá pra imaginar a quantidade de ligações que recebi (o bom é que ninguém lembra, só eu).

Novamente me afastei, só retornando em 98. Agora de fato para me seguir na profissão. Mais maduro e mais consciente do era o jornalismo esportivo passei mais de um ano sendo setorista do Campinense. Em 99 – já formado – chegava à rádio para fazer o noticiário e ao ler os jornais me perguntava como era que a “pessoa” conseguia encher uma página todos os dias.

E não é que em setembro de 99 fui chamado para um teste no Diário da Borborema. A experiência na rádio me ajudou a assumir a função (logo isso) de editor de esportes. Na verdade era repórter. Uma semana depois foi pedia minha contratação. Nesta época já conhecia o parceiro de blog, Daniel Brito.

Não fiz mudanças no estilo de fazer o jornal. Aliás o fato de ser tradicionalista torna-se uma falha como diz DB. Como Brito circulava bem entre os colegas de O Norte, que também faz parte dos associados, perguntei como estava sendo a repercussão por lá.

Ele disse que Expedito Madruga (então editor de esportes de O Norte) gostava dos textos, mas achava estranho na terça-feira ainda falar do jogo do domingo, quando todas as rádios e televisões já haviam mostrado a partida, o assunto era velho.

Como se percebe não tinha muita noção das rotinas do jornalismo impresso. Mudei isso e várias outras coisas, mas só passei seis meses no jornal. Por opção. Como este post já está grande, o motivo da minha saída e o resto da história conto no próximo, provavelmente na sexta-feira. Até lá.

26 abril 2010

Fim de um microciclo proveitoso

Por Daniel Brito

Encerrou-se na sexta-feira, 23 de abril, meu ciclo na editoria de Cidades do Correio Braziliense. Foram cinco meses de correria tremenda e aprendizado idem que muito vão me ser úteis no desafio que se avizinha.

De dezembro de 2009 até o dia do meu desligamento do jornal passei por experiências incríveis. Os (cada vez menos) poucos leitores deste blog acompanharam uma delas sobre as madrugadas insone na porta da Polícia Federal de Brasília, à espera de alguma tragédia do governador preso, José Roberto Arruda. Texto aqui.

Fora isso, ainda tiveram mais uma madrugada dentro da futura sede da Câmara Legislativa; dias inteiros debaixo de sol em frente à casa de políticos e corruptos (perdão pelo pleonasmo); intermináveis viagens a Luziânia em busca de uma solução para o mistérios dos meninos desaparecidos; fiz ronda pelos becos de Brazlândia em busca de traficantes; almocei em Águas Lindas de Goyaz, uma das cidades mais pobres do país; contei mentiras aos nervosos camelôs de Ceilândia e Taguatinga; abordei sem-tetos que moram embaixo das pontes para reportagens que nunca saíram; vi mendigo chorar; tive grandes discussões com assessores preguiçosos (perdão pelo pleonasmo) da Esplanda dos Ministérios; presenciei várias tragédias de perto; aprendi ainda mais sobre a fantástica história de Brasília; chorei vários leads desconstruídos e esculhambados pelos redatores e subs; vibrei pela terceira, quarta e quinta vezes na carreira por matérias que me levaram a manchete do jornal.

Em cinco meses, vi tanta coisa, publiquei apenas metade delas. Nem se eu quisesse conseguiria colocar tudo aqui. Aprendi que repórter de cidades é quase como bombeiro, fica sempre à espera de uma tragédia. A diferença é que às vezes o repórter pode provocar uma tragédia, às vezes, "um pequeno mal para um bem maior", como filosofava Dostoievski.

Escrever sobre acidentes de carro ou de greve dos servidores federais num mesmo dia foi um desafio que tomei para mim, para desespero e menosprezo de alguns, mas não o considero completado. Acredito que um dia eu possa voltar a trabalhar com essa diversificação de assuntos, não exatamente greve/acidentes (daqui uns 15 anos, who knows?).

Antes, tenho um outro super desafio, e não tenho desculpas para não cumpri-lo bem.

Nesta semana me apresento à Folha de S. Paulo. Retorno à editoria de Esportes, setor no qual me especializei e atuo desde 1996, onde sei exatamente onde pisar e por as mãos para fazer um material muito mais interessante do que fui capaz de produzir em Cidades nesses cinco meses.

Desejo sorte a mim mesmo e agradeço ao Correio por ter me acolhido novamente, mesmo que por pouco tempo.


* Crédito: Iano Andrade
** Legenda: Madrugada na futura sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ao lado de jornalista da Folha, que dorme na parede em frente a que eu descanso minha cabeça.

02 março 2010

A repórter, a barata e a informação

Por Jurani Clementino*

O enquadramento estava perfeito, a iluminação sem problemas, os cabelos da repórter estavam comportados, a roupa atendendo ao figurino, mas eis que surge o improvável. Vejam no Youtube.
Uma barata invadiu o estúdio e passeou elegantemente pelo corpo da apresentadora.

Quase meio milhão de pessoas viram o vídeo postado no YouTube. Quem assistiu gostou, repassou, reviu, encaminhou e virou febre na internet. Tem vários títulos entre eles: “Barata pousa em jornalista da Globo durante apresentação”, “Você quer dar uma paulada na barata da apresentadora?” Ou ainda “Barata da Jornalista do JPTV Globo”. O fato é que este vídeo ganhou o gosto popular. Inegavelmente a barata roubou a cena. Invadiu o cenário, pousou na cabeça, desceu pelos cabelos, escorregou suavemente pela roupa da apresentadora, deu uma olhadinha discreta no colo da jovem garota e provocou aflição, angustia medo e gargalhadas em milhares de pessoas.

Mas e alguém aí se atreveria a repetir o que disse a jornalista? Que informação ela passava quando surgiu assim do nada, a barata? Que nota ela estava lendo? Talvez seja a nota policial mais lida, mais repetida, mais vista e, no entanto, a menos compreendida, a menos ouvida, absorvida. Vimos, revimos, mas não vimos. O telejornalismo não cumpriu a sua função. Informou mas não informou. A culpa seria então da barata? Teria sido ela que nos tirou/roubou a atenção?

O fato é que a barata nos dá uma aula de como é complexo fazer jornalismo na TV. Na televisão qualquer detalhe compromete o todo. Perceba que dois momentos marcam o vídeo. O anti e o pós barata. No primeiro temos a tranqüilidade normal do fazer TV. Repórter encerra sua participação, interage com o estúdio, exerce a sua função criando uma perspectiva de continuidade. A partir de então temos o momento barata que desestabiliza a nossa atenção e o pior, o pós barata que transmite a angustia franciscana da outra repórter. Ao mesmo tempo que ela surge como a grande redentora, a salvadora da pátria, a heroína, percebe-se também que ela está visivelmente chocada com a situação da amiga. Mesmo assim compadecida, ela vai dar-lhe a possibilidade de matar o inseto, tirá-lo de seu corpo, livra-se dele ou tão somente externar um grito de socorro, alívio.

O fato é que nada foi tão importante, tão marcante, tão digno de nossa atenção do que a própria barata em si. A apresentadora podia ter noticiado a morte do Presidente da República, a presença do Papa no Brasil, os números da Mega Sena acumulada, tudo o que ela dissesse seria bobagem por causa da barata.

Ainda que fosse no meio da rua. Numa reportagem externa. Em locais onde geralmente estamos sujeitos ao improvável, submetidos aos caprichos da natureza. Mas num estúdio onde controlamos luz, achamos que temos o domínio de todo o ambiente, local que poucas pessoas têm acesso, onde todo mundo fala baixo.... isso seria portanto improvável.

Vamos imaginar, portanto uma situação hipotética: a rua e sua casa. Quando você sai à rua, naturalmente você está sujeito a sujar-se de lama, sofrer um tombo, molhar-se na chuva ou suar com o excesso de calor e inclusive cruzar a rota de vôo de uma barata. Mas dentro de casa fazemos de tudo para isso não acontecer. Limpamos os móveis, organizamos a faxina da cozinha, retiramos qualquer sobra de comida que atraia insetos, eliminamos qualquer possibilidade. Nossa casa, a nossa sala de estar é a nossa vitrine. Queremos receber todo mundo bem e com segurança. Assim também deve ser ume estúdio de televisão. Lá não devem existir em hipótese alguma intrusos. Lá não devem ter baratas.

O lado positivo de tudo isso é que só aprendemos com as nossas falhas. A barata vai ser o tema da minha próxima aula de telejornalismo. Eis a vantagem. Sem a barata não existira aula digna de tanta atenção. Certamente os alunos não teriam tantas perguntas. Seria mais uma experiência chata, cansativa, pedante. Viva, portanto a barata. Viva o imprevisível na arte de fazer telejornalismo ao vivo.


Jurani Clementino é jornalista, trabalhou como produtor e editor de texto em televisão durante quatro anos. Atualmente é professor e mestrando em Desenvolvimento Regional (UEPB/UFCG). Já colaborou com este espaço outras vezes, o que certamente vai se repetir.

20 fevereiro 2010

Desconstruindo o glamour em um plantão noturno

Por Daniel Brito

O zumbido irritantemente baixo do mosquito ao pé do ouvido abafa o turbilhão de pensamentos na mente do repórter em plena madruga desértica do Planalto Central de um sábado qualquer.

Espremido no banco de trás do carro, com a cabeça mal acomodada em uma muda de roupas de frio, o repórter lembra do começo da carreira e de tudo que projetou para si no jornalismo. E vê nos feixes das luzes de carros que trafegam pelo Setor Policial Sul que, na prática, a teoria é outra.

Quando se é escalado para passar a noite na sede da Polícia Federal, em Brasília, aguardando qualquer informação sobre o governador preso ali dentro, José Roberto Arruda, é preciso ter sangue frio para não desistir da profissão de repórter.

Arruda foi preso em 11 de fevereiro de 2010 por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por tentar obstruir o trabalho da justiça. Arruda é chefe* de (mais) um super esquema de corrupção no governo do Distrito Federal. Ele permaneceu por sete dias em uma cela que na verdade é uma sala de um diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC) com banheiro privativo, ar condicionado, cama confortável. Havia internet e telefone na sala mas ele era proibido de usá-los. Ontem foi transferido para uma cela de verdade, no prédio aos fundos.

Quatro janelas da cela-sala em que estava até ontem dão para o lado de fora do Complexo da Polícia Federal, no Setor Policial Sul. A 250 metros de distância, dezenas de cinegrafistas e fotografos se aglomeravam na grade do complexo para flagrar qualquer movimento aparente do governador preso. As chefias de redações optaram por permanecer com repórteres e fotógrafos por ali de 6h às 21h, aproximadamente.

Apenas o jornal para o qual eu trabalho decidiu botar praça durante as 24h diárias enquanto o detento permanecer por ali. Significa dizer que alguém, todo dia, terá de abrir mão do conforto de seu lar para esperar por qualquer movimento do presidiário. Não precisa ficar na sarjenta ou ao sereno. Pode ir no seu próprio carro e fazer papel de Pedro Bial ('você não perde por espiar') ali de dentro mesmo.

A opção foi baseada na história.

Em 1993, José Carlos Alves dos Santos foi preso nesta mesma PF acusado de participação na farra do Orçamento da União, que gerou a CPI do Orçamento no Congresso. Uma bela madrugada, arrependido por estar vivo e por ter denunciado os 23 deputados que chafurdavam com a grana pública, decidiu por fim à própria vida e meteu a navalha nos pulsos.

Naquela época, ninguém havia pensado em virar madrugadas na porta da PF, mas o plantão começava cedo. Dois fotógrafos chegaram ao local às 6h no exato momento em que Alves dos Santos saía da carceragem da PF direto para a ambulância, lambuzado de sangre. Só o Globo e um outro jornal (que não me recuerdo qual) fizeram a foto.

Ficou a lição para quem levou o furo.

E o escolhido para passar algumas das noites da semana de carnaval fui eu. Fiquei vigilante por ali da noite de quarta-feira de cinzas à manhã de quinta-feira. E hoje também: cheguei à Polícia Federal às 19h45 de sexta-feira, com o dia ainda claro por causa do horário de verão, e saí com o dia igualmente claro, às 7h15, e a cara inchada de mais uma noite mal dormida.

Tecnicamente, o governador detido não pode pregar uma peça e fugir. Ele é barrigudo, sedentário, assaltou os cofres públicos mas não é tão doido de armar uma fuga mirabolante dentro da PF. Nenhum Habeas Corpus pode surgir no meio da madrugada porque ele tem foro privilegiado, portanto só o STF ou o STJ poderiam soltá-lo. O que já ficou claro pelas entrevistas dos ministros que não vai rolar (muito menos de madruga) porque ele pode 'atrapalhar o curso das investigações'.

Pessoas mais próximas a ele garantem que Arruda tem personalidade depressiva e sucumbe a pressões. Cogitou-se que ele poderia até repetir Alves dos Santos e tentar partir dessa para uma melhor (o que renderia um caderno especial). Ou então ele poderia simplesmente passar mal e ser atendido por uma junta médica (o que renderia um abre de página). Ou então, a família, em um gesto para lá de inesperado, poderia armar uma visita surpresa de madrugada (o que renderia um pé de página).

Pois é, mas essas duas noites que passei em campana não renderam nada.

Aliás, renderam bons contatos. Conheci o pessoal de outros jornais e emissoras, trocamos figurinhas e contatos telefônicos. Conversamos sobre as redações e pessoas conhecidas, fizemos piadas sobre a história do detento e tiramos dúvidas sobre pontos do processo em curso.

Mas de notícia, notííííícia mesmo...nada!

Mesmo sabendo que as madrugadas não são nada informativas, é preciso manter a vigilância. Olhos abertos, claro que não em 100% do tempo. Mas a atenção tem de estar voltada para o interior do complexo. Minha estratégia é manter-me acordado por um minuto a cada meia hora. Só para desencargo de consciência.

Foram nesses intervalos que refleti, ao som das muriçocas, sobre a vida de repórter e os sacrifícios que fazemos para manter de pé essa utopia realista de viver de escrever. Eu, particularmente, não penso em desistir... não enquanto eu tiver saúde mental.

Ou não!

* O autor deste post não acredita que Arruda seja suspeito. Acredita que ele seja culpado mesmo!

26 janeiro 2010

Jornalismo ou filantropia?

Pedro Henrique Freire*

Trabalhamos em jornais ou em ONGs? As vezes me pergunto isso. Por quê? Fatal ou naturalmente porque acredito que jornal ajuda as pessoas a (sobre)viverem num mundo desigual. Como? Resolvendo seus problemas. Jornais impressos, principalmente. Eles são documentos. Portanto, facilmente viram objetos de argumentação e retratos de situações, muitas vezes, difíceis.

Semana passada nos ocorreu um problema, a meu ver, grave. Recebemos uma denúncia de um morador lá dos cafundó. Bairro de periferia mesmo. O fato: vazamento de produtos químicos nos arredores de uma fábrica de refrigerantes. Segundo o rapaz, pessoas estavam sentido dores de cabeça e febre. Tudo por causa do "líquido avermelhado que invadiu os esgotos" a céu aberto da pobre comunidade.

Imediatamente acionamos um repórter bem informado para o local. Ele chegou lá, conversou com moradores, tirou fotos, gravou vídeos, confirmou o caso, ouviu a fábrica e voltou para redação. Antes do carro da reportagem chegar meu telefone já havia tocado. Era o departamento comercial. Pediu cautela e explicava: "Olha, essa fábrica é um grande patrocinador do nosso projeto tal, que beneficia crianças assim, assim, assado".

Bingo! A fábrica patrocina projetos filantrópicos mas prejudica a comunicade. Um tremendo vacilo. Mas tudo bem. O que faremos? Na segunda ligação, novo pedido do Comercial (agora com C maísculo): "Eles dizem que aquela água lá não prejudica ninguém. É coisa da comunidade. Não há nada comprovado que aquilo é tóxico ou coisa assim. É melhor não publicarmos".

Aprendi que em um jornal-empresa a necessidade de faturar sempre vence a necessidade jornalística. Mas nesse jogo eu sempre tento empatar. Falei, então, que não publicaríamos - e não o fizemos. Mas pedi que o departamento comercial enviasse a matéria pronta para a direção da fábrica e pedisse, sutilmente, que eles dessem outro fim para aquela água. Senão a comunidade não iria parar de reclamar, argumentamos. Eles se comprometeram.

Ao final, não conseguimos fazer jornalismo. Motivo de minha frustração. Mas não tivemos mais reclamação da comunidade. Então, acredito que alguma coisa conseguimos resolver. Fui dormir com a sensação de dever parcialmente cumprido e parcialmente envergonhado.

24 janeiro 2010

Tudo em nome de uma fonte

Por Jornalista*

É uma das lições basilares do jornalismo que uma boa fonte vale, para qualquer profissional de imprensa - seja ele da editoria de esportes, política, economia, policial ou social – um preço inestimável. O 'bom contato' e a relação de parceria podem render, no decorrer do tempo, boas matérias e muitas vezes bons furos de reportagens. No entanto, muitas vezes o jornalista se vê diante de situações onde há, inevitavelmente, duas alternativas: ou a informação é veiculada, podendo gerar um grande problema para a fonte e mais uma matéria de repercussão e importante para o currículo profissional do profissional; ou o texto não é publicado, mantendo assim as relações cordiais com a fonte.

Abaixo, relato resumidamente uma situação dessas que passei semanas atrás.

Tudo começou com uma longa conversa mantida com uma fonte policial considerada uma das mais bem informadas do Estado, na área de Segurança Pública, cujo nome, obviamente, não posso mencionar. Na conversa, o cidadão me relatou com riqueza de detalhes uma investigação que está em curso, tendo como objetivo desmantelar e identificar ramificações de uma poderosa organização criminosa nos presídios aqui da Paraíba. Só para ficar claro, o indivíduo é um dos coordenadores desse trabalho investigativo.

A fonte citou nomes, narrou episódios, disse locais e até mesmo adiantou algumas providências que já foram tomadas e irão ser adotadas no decorrer do caso. Para mim, assim como qualquer outro repórter que cobre a área policial, a entrevista representava uma grande 'bomba', que iria no decorrer dos dias repercutir em todo o Estado.

Entretanto, mesmo todo o diálogo sendo gravado, o sujeito me pediu por mil vezes que não publicasse o que acabara de me dizer. Aliás, pediu que publicasse, mas não atribuísse a ele algumas informações – tidas como mais preciosas. Caso eu veiculasse, disse ele “serei demitido e nosso trabalho irá todo por água abaixo”. Recebi, contudo, um conselho: “Rapaz, procure 'doutor fulano' e o 'policial beltrano' que eles também têm todas essas informações, e aí eles teriam mais subsídios e você iria confirmar tudo e fazer sua matéria”, pediu.

Diante da situação, não pensei duas vezes. Fui em busca das pessoas indicadas por meu interlocutor. Apresentei todo o material (informações que tinha recebido), fiz perguntas, explorei a fundo o tema tentando ter pelo menos uma declaração que fosse... que me servisse de base para iniciar minha matéria. Mas as tentativas foram fracassadas.. Ninguém teve coragem de abrir a boca e dizer nada a respeito...

Fui mais além. Busquei outras pessoas que poderiam ter informações sobre o caso. Expliquei, propus e até questionei pelo menos três autoridades sobre o caso, e mais duas fontes ligadas a entidades lidam com o sistema prisional paraibano. Mas não obtive sucesso.

Ainda cheguei a escrever a matéria, já que a entrevista havia sido gravada, tendo o cuidado de citar o nome da fonte somente nos pontos da matéria recomendados por ela e colocando os detalhes em nome da instituição a que ela pertence, responsável pela apuração. E depois apresentei à editoria. O texto, entretanto, prudentemente não foi publicado. Eu mesmo concordei e admiti que seria melhor, realmente, não veicular a matéria. Dentro da mim, até agradeci à minha editoria pela sensibilidade e a cautela de não soltar o material.
Fiquei imaginando nos desdobramentos que iriam acontecer, caso as informações fossem levadas ao público. Depois percebi que esse episódio me serviu bastante para compreender a importância das pessoas com as quais convivemos e trocamos informações, profissionalmente, chamadas no jargão jornalístico de 'fontes de informação'.

Muitas vezes é preciso entender que elas também possuem interesses, empregos, família, necessidades, medos. E que o material publicado por todos nós, da imprensa, pode comprometer ou até colocar em risco tudo isso. Para encerrar, apresento satisfeito o resultado: prudentemente minha matéria não foi publicada e não estampei a manchete na edição do dia seguinte. Entretanto, certamente conservei minha fonte e, na próxima vez que precisar bater na porta dela novamente em busca de notícias, encontrarei a fechadura aberta.

A investigação, contudo, está em curso. Ainda não perdi a esperança de poder confirmar as informações com outras fontes. Um dia, tenho certeza, a gravação me servirá bastante. Não desisti de publicar a matéria, apenas adiei por, quem sabe, alguns dias.

*O jornalista também preferiu não ser identificado para não atrapalhar o contato com a fonte.

06 janeiro 2010

Nossa língua portuguesa

Por Léo Alves

Nos Estados Unidos a população lê, em média, 11 livros por ano. Já os franceses leem sete livros por ano, enquanto na Colômbia, a média é de 2,4 livros por ano.

Um levantamento do Instituto Pró-Livro confirma que o brasileiro lê pouco. São 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos. Já os leitores, que somam 95 milhões, leem, em média, 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7 – ainda assim baixo.

Não deveria ser, mas muitos jornalistas estão incluídos nas estatísticas divulgadas pelos instituto. Eu, por exemplo, costumava ler entre quatro e seis livros por ano. Em 2009 só cheguei a dois.

Faça um teste. Pergunte a seus colegas jornalistas (ou estudantes de jornalismo) quantos livros leram ano passado. Só não vale perguntar aquela colega de redação que gosta tanto de mentir que diz já ter lido até os livros que nem foram lançados.

Brincadeiras à parte, a falta de leitura leva a dificuldade na escrita. No caso dos jornalistas o problema se torna ainda mais visível. Afinal o texto é nosso instrumento de trabalho. São ideias confusas e o pior: erros de português simplesmente inadmissíveis para um jornalista.

Não quero aqui dizer que nunca errei. Muito pelo contrário. Já cometi vários erros de português. Basta dar uma olhada nos arquivos do jornal Diário da Borborema (de 2001 a 2005) que certamente encontrará alguns deles. O que quero dizer é que jornalista não pode errar português.

Pra mim jornalista que erra português é como médico que não sabe usar o bisturi. Conhecer a própria língua é básico (e fundamental) para quem vive das palavras.

Incomodado com os erros frequentes que tenho visto na imprensa de um modo geral fiz uma relação de palavras (erradas) escritas por jornalistas. Para não ser injusto só levei em conta as palavras escritas erradas mais de uma vez no texto. Isso para eliminar a hipótese de erro de digitação. Pra mim errou duas vezes é porque não sabe o correto.

Um aviso: não se assuste. Garanto que todas as palavras foram escritas por jornalistas formados (com diploma e tudo). E o pior é que quase sempre são os mesmos profissionais que assassinam o português na imprensa. Confira a lista. Algumas das palavras terei que escrever certo entre parênteses para não correr o risco de você não compreender.

Inchada (Enxada), Gol laço (golaço), Economisar, Puchada, Anciedade, Ancioso, Campião, Sinto (Cinto de Segurança), A ponta (aponta), Estrassalhada, Vejetação, Semitério, Paralização, Ascenção (ascensão profissional), Arquiólogo, Arquiologia, Desfarçassem, Celetivo, Manutensão, Despensam, Rapousa, Enfantaria, Asteamento, Disperdiça, Vaqueijada, Cirene, Cemente, Restão, Seram (serão).

É preciso escrever mais alguma coisa?

03 janeiro 2010

Jornalismo é artigo de luxo

Por Daniel Brito

O mundo desaba na Região Sudeste do Brasil. Verão sim, outro sim, as chuvas 'castigam os moradores das áreas de risco', perto das encostas e em bairros ribeirinhos. Neste ano, a tragédia atingiu uma pousada de alto luxo e matou (até minha última lida no noticiário) dez pessoas em uma ilha paradisíaca. No continente, foram mais de 30 mortos.

O que a gente vê no jornais no dia seguinte?

"Chuva provoca desabamento e 10 pessoas morrem em pousada de luxo".

Esqueceram-se dos pobres, cujas vítimas estão em maior número. Claro, o jornal não é feito para eles. Primeiro porque os pobres não são nem nunca foram público alvo de jornal algum. Talvez para TV e jornaizinhos (no tamanho) populares, mas a TV e os populares também entraram na onda da manchete para os ricos.

Há vários casos parecidos.

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos quase um mês depois das eleições municipais no Brasil, em 2008. Os jornais de São Paulo deram muito mais destaque à eleição de Barack do que à disputa nas prefeituras de Osasco, Barueri, Santo André, São Caetano do Sul, São Bernardo, Suzano, Diadema...

Bueno, se formos pensar de forma prática, o destino das cidades vizinhas à grand ciudad tem muito mais relação com a vida prática dos seus habitantes do que o destino dos Estados Unidos. Tudo bem que a economia (não só ela) dos USA pode interferir na vida daqui, como rolou em 2009, mas os investimentos das cidades vizinhas em educação, saúde, transporte e segurança podem fazer uma tremenda diferença na qualidade de vida dos moradores de SP. E a vigilância dos meios de comunicação nos governos municipais seria primordial para o bom desenvolvimento da região.

Um ricaço foi brutalmente assassinado na porta de uma padaria no bairro dos judeus (logo, bairro de ricos) em SP. Motivo banal, discussão besta. Levou uma facada e não resistiu ao ferimento. No dia seguinte, jornais e TVs trataram o caso como o absurdo da existência humana. E o noticiário se estende até hoje...

Claro, não deixa de ser uma absurdo, mas não deixa de ser um crime corriqueiro na Zona Leste de São Paulo, no Entorno de Brasília, nos morros do Rio de Janeiro. Assassinatos como este ocorrem aos montes nos intestinos do país. A diferença é que desta vez a vítima foi um de nós, alguém da classe média, no caso dele, classe média-alta ou classe alta-altíssima.

Retratar a miséria do povo soa como apelativo, talvez por isso a opção por noticiar o mundo a partir da classe média para cima. Noticiar o sofrimento dos pobres não gera tanto interesse quanto dos que têm mais dinheiro. A imposição das notícias do Brasil classe média acaba criando esse preconceito silencioso contra os pobres do país. O mercado publicitário não quer vender seus produtos aos pobres.

Os pobres soterrados pela chuva, os serviços públicos das cidades periféricas, os mortos nas favelas, não têm a menor importância para os veículos de comunicação, a não ser para estatísticas ou 'grandes reportagens especiais' feitas exclusivamente para ganhar prêmios.

Como disse Durval Barbosa, 'pivô do escândalo do mensalão no governo de Brasília', o povo não lê jornal, limpa a b*nda com ele.

20 dezembro 2009

Entre o pragmatismo e a paixão

Por Daniel Brito

Há uma diferença básica entre ser jornalista esportivo e jornalista do caderno de cidades. No primeiro, o repórter lida com a paixão. Já o outro, com o pragmatismo.

Quando o jornalista escrever que o time de futebol está jogando mal porque o técnico utiliza tal jogador numa posição que não é a dele, nada no mundo pode mudar por causa disso. O time não vai ter menos torcedores, o técnico não vai se sentir na obrigação de concordar, o jornal não vai vender mais por isso...

Quando o jornalista escreve que o fornecimento de água para a cidade está prejudicado por conta de um vazamento de óleo devido à má gestão da companhia responsável pela área. No mínimo, os governos locais vão ter que se movimentar para evitar que se transforme em uma catástrofe. Neste caso, o jornalista influenciou diretamente na vida de muita gente.

Não chega ser nenhum segredo o que citei acima. Mas é que após dez anos de atuação intensa nas editorias de esportes de veículos da Paraíba, Brasília e São Paulo, e participações pontuais nas demais editorias, desembarco oficialmente em uma editoria de cidades.

A reação dos amigos mais próximos ao saber de minha escolha foi:

- Ixi!! Paulêra, hein?

É, pode ser. Eu planejava para depois de 2010 uma incursão em áreas além do esporte. Veio antes, por linhas tortas. Mas tem sido uma experiência engrandecedora. Pensar o jornal de uma outra maneira. Pensar que não escrevo para pessoas apaixonadas pelo esporte, mas pessoas verdadeiramente preocupadas com a cidade.

Em duas semanas de labuta, me deparei com situações que fizeram a diferença no microuniverso no qual estou inserido nesta cidade.

Veja você que dia desses tropecei com o carro de um amigo em uma obra no centro de Brasília. Conversando com os frequentadores da região, descubro que o trupicão não foi por caso. A tal obra era mal feita. Se não fosse jornalista, ficaria a resmungar pelos cantos a incompetência da companhia de obras.

Mas sou jornalista e lá fui eu apurar. Não foi difícil. Descobri os erros e levei os técnicos em engenharia para mostrar o que estava errado. Vinte e quatro horas depois, com a matéria publicada, dei um sorriso vitorioso de canto de boca ao passar pelo local e ver homens trabalhando no local para evitar acidentes maiores.

A matéria está aqui.
E o relato do trupicão, aqui.

No outro dia, tomando cerveja com um colega, ele me contou que viajaria de carro para a cidade X mas não seguiria pelo caminho tradicional porque lera no jornal que a pista para aquelas bandas estava terrível. Para minha surpresa, era uma outra matéria de minha autoria. Coincidentemente sobre trânsito.

Dei outro risinho de canto de boca. Não foi pela vaidade de estar sendo lido, mas pela satisfação de saber que estou contribuindo para mudar alguma coisa. Coisa que jamais aconteceu quando trabalhava em esportes.

Claro que em esportes existem vantagens insuperáveis, como fato de ir a lugares nos quais você já iria se estivesse de folga. Além de tratar de um tema muito mais leve.

Esporte sempre será uma paixão. Mas por enquanto, estou gostando desse climinha de início de namoro com o pragmatismo.

07 novembro 2009

With a little help from my friends

Por Daniel Brito

Na minha primeira semana como assessor de imprensa, descobri que fui gente boa com muita gente. Sim, porque meu primeiro desafio era promover um evento meio que inusitado em Brasília. Precisava entrar em contato com jornais e TVs do DF para que eles comprassem a minha pauta.

De uma certa maneira, tomei o cuidado de telefonar para aquelas pessoas que poderiam nutrir alguma simpatia por mim. E deu resultado... Dois jornais e quatro emissoras de TV compraram. Quantidade excelente para um assessor de primeira viagem.

Boa parcela do êxito se deveu à minha amizade com a imprensa do DF. Outra parcela era por causa do evento em si.

Não estou dizendo que minha presença era mais importante que o evento, mas vida de assessor tem dessas: se os caras da redação não vão com a cara dele (assessor), adeus espaço na mídia.

Conversando com um amigo sobre isso, ele me lembrou da frase de Nilton Santos, após ser agraciado por uma das centenas de homenagens que recebeu desde que foi bicampeão mundial de futebol, em 1962: "Já pensou se eu tivesse feito m*rda?".

Se ele tivesse feito m*rda, não seria o Nilton Santos.

O grande lance da assessoria, até onde pude perceber em quatro meses na área, é a amizade, o contato mais próximo, 'o poder do algo mais e da alegria' com o pessoal da redação. Sabendo com quem você está lidando, a chance de a pauta ser veiculada aumenta em 100% em relação a uma história vendida para quem você não conhece.

Rola até uma relação de confiança.

O assessor passa uma história exclusiva ao repórter que sabe que vai dar um tratamento diferenciado ao assunto. O repórter aceita as sugestões do assessor porque sabe que o cara nào passaria qualquer baboseira para ele...

Veja o que aconteceu comigo mesmo semanas atrás.

Precisava vender uma história aos veículos de comunicação do estado X na regiào Y do país. Liguei para quatro emissoras de TV e dois jornais além de um site. Uma emissora me atendeu e me deu retorno informando que não poderia fazer a pauta por um motivo qualquer. Ok, foi honesto. Outra pediu para retornar mais tarde e nunca mais me atendeu. Duas nem sequer me transferiram para a editoria responsável. Um jornal não me atendeu, no outro, fui extremamente mal tratado e a pauta foi ignorada.

Não queria abre de página ou cinco minutos de TV. Por não conhecer o pessoal, não consegui sequer vender a pauta. Liguei sugerindo uma matéria curiosa, como quase todas que ofereço, que podia render uma foto-legenda ou uma nota-coberta, no caso das TVs. Só o site publicou. Mais por preguiça do que qualquer outra coisa, porque eles republicaram o release ipsis litteris.

Por ter trabalhado minha vida jornalística inteira dentro das redações, me preocupo em oferecer assuntos que eu mesmo poderia fazer caso um assessor me vendesse quando eu era repórter.

Semanas mais tarde - já dia desses agora - tive que viajar para o esse mesmo lugar X da região Y do país. Previ as mesmas dificuldades e busquei ajuda dos amigos. Um camarada meu, grande amigo, que atua na cidade Z, entrou em contato com um amigo de um grande jornal impresso na tal da cidade X contando quem eu era e se ele poderia me dar um help. Fui super bem atendido, tipo very important person. Outras pessoas envolvidas no evento me colocaram em contato com uma emissora de TV, que desta vez me ouviu e adorou minha sugestão. Resultado: ampla divulgação. Melhor que a encomenda.

Nem parecia a mesma cidade da primeira tentativa.

O assessor de imprensa tem que ter uma lábia maior do que um repórter na hora de vender pautas. Teoricamente, o repórter só precisa vender pauta para um chefe, que é seu editor direto. O assessor precisa acertar a pauta com o cliente, conversar com o chefe da assessoria e iniciar a venda para vários editores de vários veículos.

Às vezes você tem uma pauta super legal na mão e oferece para alguém que você tem certeza que vai dizer sim...mas ouve não! Você vai ter que gastar a mesma energia para vender a pauta para seu segundo nome na lista e assim sucessivamente até encaixar a história em algum lugar.

É um procedimento que o jornalista não tá acostumado a seguir. Já o assessor tem que estar engatilhado a todo momento. Daí a importância de conservar a boa convivência com os coleguinhas de chão de fábrica.

"Com a ajuda dos amigos" dá para ter sucesso em assessoria.