27 novembro 2008

Estão enterrando o jornalismo

Geneton Moraes Neto*

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de "crise econômica", eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

O jornal é de São Paulo. Poderia - perfeitamente - ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse "notícias interessantes"? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.

O que o jornal me dizia, nos títulos? Que o São Paulo "abre cinco pontos sobre o Grêmio". Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. "Chuvas em Santa Catarina matam 20". Que novidade! "Obama divulga nomes de cargos-chave". Que novidade! "EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup". Que novidade!

Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.

Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.

De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era "novidade" para mim: "Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase". Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pela mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?

Os autores dessas obras-primas ( primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso. É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto "derrubar" uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer: "ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto"; "ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido" e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos ? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar - e oferecer ao publico - uma história ? Haverá sempre uma saída!

A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.

Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres.

(um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei - de memória - uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nos zoológicos jornalísticos. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco....Quá-quá-quá).

Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso (zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar - por exemplo - providências estritamente "técnicas": em vez de repetir papagaiamente (**) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia,sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios.

Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia "São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio". Por que não algo como "TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO" ou "JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV"? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável - um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas.....o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança.

Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia....

Estão loucos.

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.

(**) Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.

(*) Jornalista - texto retirado do blog www.geneton.com.br

14 novembro 2008

"Ligue para a assessoria do prefeito"

Por Mário Coelho

A minha última missão no trampo era completar a matéria que uma repórter frila deixou incompleta. Com o rescaldo das eleições municipais, eu deveria entrevistar um prefeito negro eleito no mês passado e reescrever partes do que a colega tinha deixado para o editor. Tarefa relativamente simples. Escolhi o prefeito que tinha o perfil mais próximo da pauta e comecei o trabalho para localizá-lo.

Comecei pelo começo, como dizem por aí. Liguei para a assessoria de imprensa do prefeito. "Manda um e-mail com as informações", foi a resposta que eu tive. Percebi na hora que queriam postergar ao máximo a análise do pedido de entrevista. Mandei o e-mail e corri por fora para conseguir o telefone do dito cujo. Liguei para o diretório estadual do partido dele e depois para o municipal. Ambos me passaram o número da prefeitura.

Foi aí que tive a idéia de conversar com algum colega que cobrisse política local na cidade do interior de São Paulo. Liguei para o maior jornal procurando por alguém da editoria. Depois de vários ramais errados, atende uma moça. Eu explico a história, e ela, com muita raiva, responde que "aqui não é a assessoria dele. É o jornal da cidade. Ligue para a assessoria do prefeito".

Eu contei mentalmente até 10 para não xingar a coleguinha. Respirei fundo e expliquei tudo novamente. "Sou repórter aqui em Brasília, do site tal. Já liguei para a assessoria do prefeito, e eles estão enrolando para dar resposta. Por isso, liguei para o jornal, na esperança que um colega que cubra política local pudesse me passar o telefone do prefeito ou dar alguma dica sobre como conseguir."

Transbordando de má vontade, ela soltou um "humpf, espera aí" e me transferiu para outro ramal. Aí atendeu outro colega, com um pouco mais de boa vontade. Disse que a assessoria do prefeito era assim mesmo, que o alcaide até atendia bem a imprensa, mas seus assessores tinham um controle rígido do que e quando ele falava. "Nós cobrimos 10 cidades aqui no jornal. Tenho o celular de nove prefeitos. Advinha qual eu não tenho", disse o colega. Depois de me dar umas dicas, agradeci e desliguei.

Essa historinha toda para comentar sobre o coleguismo na profissão. Vivemos uma época onde as redações estão cada vez mais enxutas e a cobrança não pára de crescer. Uma coisa é fazer pool - o grande Pedro já havia escrito isso por aqui, mas não achei o texto para linkar -, outra é ajudar um colega com um número de telefone e umas dicas. Tem uma grande diferença.

Apesar de não fazer, não sou contra o pool. Isso é muito comum entre setoristas, que sozinhos têm o dever de não deixar passar nada sobre um determinado assunto. Então os repórteres se reúnem e trocam figurinhas sobre o que apuraram. Chegam até a dividir a apuração, como se trabalhassem no mesmo veículo. Eu acho um pouco demais, mesmo reconhecendo que a pressão pode ser absurda.

Agora, se o colega precisar ajuda, eu não nego. Não tenho frescura em passar o telefone celular de uma fonte. Não é isso que vai fazê-la deixar de me passar informações. Tem gente que acha isso. Salvo, claro, se ela me passou a recomendação de não distribuir o número.

No ano passado, quando estava no antigo trampo, entrei na cobertura de um caso de repercussão nacional. Um golpista decide matar amante propondo um pacto de morte para ela. A vítima toma o veneno de rato, passa dias no hospital e acaba morrendo. Ele, que não tomou estricnina, foi preso logo depois da morte da ex-amante.

Vieram a Brasília repórteres de vários lugares do Brasil par a entrar na cobertura. Aí um colega do Rio, do jornal Extra, me liga na quinta à noite. Eu passo todas as dicas para ele, números de telefone e relato como vai ser minha matéria no dia seguinte. Ele chega a Brasília, me liga pela manhã e pergunta o que eu pretendia investigar. Eu digo a linha de apuração e desligo.

Chego na redação, ligo para o delegado responsável pelo caso. Ele pede para eu ligar mais no meio da tarde. Logo depois, saio para almoçar. Uma hora depois, quando voltei, o colega me liga de novo. Travamos o seguinte diálogo:

- Mário, onde você está?
- Na redação, acabei de voltar do almoço.
- Cara, então corre aqui para a delegacia. O delegado trouxe o golpista para falar com a gente!
- Sério? Eu falei com esse fdp há uma hora e ele não me disse nada disso!
- Olha, só tem imprensa nacional por aqui.

Na hora eu saquei o que o delegado queria. Inebriado pela repercussão nacional do caso, decidiu dar preferência para os veículos nacionais ou de outros estados. Corri para lá, quando cheguei, o golpista já tava falando com o Fantástico e com o Domingo Espetacular. Por sorte, nenhum deles sabia o inquérito de trás para frente como eu.

Por ser de fora, o colega não tinha motivo algum para retribuir os favores. No dia seguinte ele iria embora e nunca mais teríamos contato em uma cobertura factual. Mesmo assim, ele não deixou de retribuir. E, por causa dele, garanti uma matéria diferenciada da concorrência local, sem precisar do pool. Só na base do coleguismo.

29 outubro 2008

No statements

Por Daniel Brito

Foi a segunda vez que passei por essa situação. Fazer campana no saguão de um hotel luxuoso para tentar conversar com a estrela.

Jornalista, que já gosta de reclamar (ainda mais os paulistas), não hesita em desistir facilmente da missão. Mesmo sabendo que a persistência pode render um belo furo internacional.

Depois de passar um dia de paparazzi esperando por Maradona, no Kubitscheck Plaza, em Brasília, há dois anos e meio, encarnei o espírito de repórter de Contigo! ontem, no Hilton São Paulo, para esperar Lewis Hamilton, o próximo campeão da Fórmula 1.

Não sou muito de reclamar de pautas. Me mandou fazer, eu vou lá e tento fazer do meu jeito. Mesmo que não valha muita coisa. É claro que tem umas sugestões que você engole atravessado para não receber seu FGTS integral, mas no cômputo geral, aceito sugestões e não faço corpo mole.

A missão de ontem, no entanto, era para lá de ingrata. Conversar com Lewis Hamilton.

Umas cinco horas antes, ele desembarcara de surpresa em São Paulo para despistar a torcida (temia retaliações por disputar o título contra um brasileiro no Brasil, na última corrida do ano). Deu declarações irônicas e exclusivas ao globoesporte.com sobre a ausência da torcida e se enclausurou em seu nababesco quarto no imponente Hilton Morumbi.

Cheguei por lá às 13h30 quase convencido de que voltaria para redação, lá pelas 21h, sem escrever uma linha de novidade sobre a história.

Aquela monotonia acolchoada no sofá do saguão principal foi quebrada duas horas mais tarde quando Nelsinho Piquet apareceu de óculos escuros e boné. Lacônico, respondeu três perguntas andando apressado em direção ao seu Audi e foi embora.

Bom, pensei, uma matéria nova eu já tenho.

Minutos mais tarde surgiu Heikki Kovalainen, finlandês, parceiro de Hamilton.

Abordar essas figuras "importantes" no meio do nada ou num hall de entrada do hotel é quase como ser interpelado por uma mendigo fedorento na porta de casa. Sim, porque esses pilotos vivem em hotéis pelo mundo e a imprensa sabe exatamente os horários reservados para entrevistas. Eles não ficam distribuindo declarações a quem quer que peça.

No Brasil que rola essa insistência. Talvez porque, me disseram, a Fórmula 1 seja o principal evento da principal cidade do País.

Bueno...timidamente, chamei por Heikki, que se virou assustado, olhou para meu bloquinho na mão esquerda e a caneta, na direita, e disse, em inglês:

- Sim, pois não!
- Ahn... (gaguejei..confesso). I'm journalist, and I was wondering....

O segurança do hotel, um cara de uns 2,35m de altura, aproximadamente, ficou entre nós dois e tentou interromper a conversa.

Antes, perguntei sobre a prova de domingo.

Ele, quase que empurrado pelo segurança, me pediu desculpas por não poder dar entrevista mas disse que será uma corrida interessante.

O tempo se arrastou até às 19h15. De 16h50, depois que Heikki e Nelsinho conversaram comigo, negociei com a redação e chegamos a conclusão que minha matéria seria sobre a truculência dos seguranças do hotel (que sequer permitiam fotos no saguão ou que mostrassem a porta principal, desautorizava os funcionários a passar informações sobre os pilotos e me impedia de abordar os caras no hall de entrada). Decidiram por mim, também, que minha matéria passaria o recibo do furo dado pela internet, com a única declaração dada por Hamilton ao chegar no Brasil.

Escrito o texto, com severas críticas aa atuação dos seguranças, e com a reclusão de Hamilton por toda a tarde, eis que surge no saguão Lewis Hamilton.

Colei nele. Fiquei a dois metros dele por meia hora. Aproveitei uma soneca dos seguranças e fiquei ali esperando ser visto. Aí se sucedeu o grande conflito. Partiria logo para o ataque e faria minhas duas perguntinhas com meu inglês macarrônico, esperaria a sua ida para o carro para conversar já de saída, sem que tivesse que trocar cotoveladas com os seguranças?

Optei, não sei porque, pela segunda opção. Esperei, como disse, trinta minutos por Hamilton sair do saguão para tentar minha entrevistar relâmpago. Saí na cola dele fazendo quinze perguntas em inglês. Ele sequer olhou na minha cara, entrou no banco de trás de sua Mercedes-Benz prateada, fez o sinal de positivo para os fotógrafos e avisou ao pobre repórter plantonista:

- Sem declarações.
Crédito: Ernesto Rodrigues


O amigo brasileiro de Hamilton (esq.) vê o piloto inglês entrando na Mercedes-Benz prateada sem dar ouvidos ao repórter Daniel Brito, que é cercado por um assessor de Hamilton (de branco e de óculos) e pelo segurança do hotel (de preto, em terno e gravata)

12 outubro 2008

Jornal para especialistas

Por Daniel Brito

Como se jornalismo fosse uma receita de remédio para dor de barriga, diz-se que futebol (Flamengo ou Corinthians, de preferência), mulher (semi) nua e tragédia vendem jornal.

Então tá certo: vamos fazer a capa do jornal com esses três componentes todos dias?

Tem muita gente que faz. Informação que é bom...tá longe dali!

Aí começa a discussão: mas que tipo de informação?

O desespero nos mercados financeiros? O rombo na economia nos Estados Unidos?

Sim, isto é informação séria, talvez até imprescindível para um jornal. Mas, temo desanpontá-lo, não vende jornal...

Não vende!
O Estadão, a Folha, o Globo, o JB, o Correio Braziliense, o Zero Hora...que mais tem de jornal grande no Brasil? Só esses mesmos, né?

Então...o mainstream da mídia impressa nacional não está vendendo um exemplar a mais por prever o armagedon cada vez que os indicadores seguem a lei da gravidade.

O próprio ombudsman da Folha, na edição de hoje, estranhou:

"Apesar de noticiarmos a hecatombe nos sistemas financeiros do mundo inteiro, nosso fórum de leitores insiste em comentar sobre as eleições municipais e reta final do Campeonato Brasileiro de Futebol".

Ele pediu, inclusive, para que se humanizasse mais as pautas de economia, para que os leitores mudassem um pouco o foco da leitura. E até reconheceu: "O que é complicado para o jornalista, se por no lugar do leitor para 'prever' o que ele gostaria de ler".

(As aspas não foram copiadas ipsis litteris)

Não tem como ignorar a crise econômica.

Mas a impressão que ela deixa é que o jornal não é feito para os leitores comuns, aqueles que já foram chamados de Homer Simpson, mas para os especialistas que usarão as informações publicadas (muitas vezes repassadas por eles mesmos ao jornal) para sustentar teses oblíquas da realidade.

É igual aos repórteres esportivos. Que tratam do futebol como se todas as pessoas do planeta entendessem. Aliás, você já parou para prestar atenção na quantidade de informação que um texto sobre um time qualquer tem? E informação sobre como e onde comprar ingressos para o próximo jogo?

Naaaa...jornalista esportivo tá ali é para entrevistar o craque, a estrela, derrubar treinador. Serviço para o leitor? Que vá buscar na internet mesmo, p*rra!!!!!!!

Tá, mas, retomando à linha central do texto. A crise econômica não vende jornal.

Ah, quer saber de uma coisa?
Horóscopo vende jornal. Palavra cruzada, também.
É sério.

Pergunta pro cara da banquinha.
Ou do IVC mesmo.
Aliás, deixa de publicar uma cruzadinha por um dia.

É o grave problema de (falta de) prioridades, não é verdade. Claro que se não sair a página de ecomia a xiadeira será grande, afinal, seu público também é exigente.

Mas o horóscopo e a cruzadinha jamais estarão na capa do jornal ou sequer vão merecer uma chamadinha lá:

"Não perca na edição de hoje, os astros prevêem uma semana maravilhosa para os piscianos".

Bom, mas entre a crise financeira, as chamadas de cruzadinha e a tríade mulher-futebol-sangue, eu, por exemplo, ficaria com as manchetes sérias.

Em mais uma prova de que jornalista não pensa como leitor comum....

01 outubro 2008

A revista que se vire?

Pedro Henrique Freire

Dias desses conversa com uma amiga jornalista e tive a feliz supresa de ouvir dela uma tese sobre o posicionamento dos mais diversos tipos de mídia, sobretudo de jornais e revistas, depois do "devastador" advento da internet.

Comentava com ela os últimos números do IVC (Instituto Verificador de Circulação) e discorria sobre a queda na tiragem de jornais diários e como os jornais populares (Extra, O Dia, SuperNotícias, Jornal da Tarde, Aqui e etc) crescem cada vez mais no país.

Chegamos, então, a conclusão que, por mais baratos que sejam, os jornais não vão alcançar o patamar de venda de outrora, quando alguns passavam dos 800 mil exemplares. Tudo por culpa da internet?

Nem tudo. Não podemos culpar a internet pela pouca circulação do jornal. Tudo evolui. E evolução, se tiver algum responsável, somos nós próprios. Cabe a nós encararmos e nos adaptar-mos a uma nova realidade. Tudo muda. Por que os jornais teriam o privilégio (ou a infelicidade) de ficar iguais?

E ai veio ela me falar de um pensamento que, com meus botões, eu já desenvolvia há uns três ou quatro anos. Em palavras simples, me disse:

- Não são os jornais que sofrem mais com a internet. São as revistas. A internet é factual, notícias na hora e ocuparam o espaço dos jornais, já que eles faziam isso antes. Mas, agora, para sobreviver, os jornais vão virar revistas...

- E as revistas que se virem? - perguntei eu:

- Os jornais vão virar revistas no sentido de fazer reportagens aprofundadas, com mais interpretação e com visual agradável e bem planejado.

Disse a ela que estava supreso por encontrar alguém que pensasse como eu nesse quesito, mas ponderei que a minha teoria, embora fosse exatamente essa, findava-se no jornal e não propunha nada para as revistas semanais ou mensais generalistas.

- Pois é. Então, as revistas que se virem... - disse eu, agora afirmando.

A tese dela, porém, estava mais madura, mas não completa. Me falou de suas impressões e acabamos por completar a tal teoria. Para ela, as revistas devem apostar em bons perfis e boas entrevistas e ser mais fragmentadas, com um público bem específico, construindo e desconstruindo "mitos".

Acrescentava que talvez também elas merecessem um ponto de vista mais forte, mais polêmico. Existiriam, disse eu, revistas de petistas, lulistas, de tucanos e das mais diversas ideologias. A diferença é que elas iriam guerrear entre si, cada uma defendendo seu lado, proporcionando ao leitor, com responsabilidade, opinião e informação. Tudo junto.

Acabei a conversa imaginando que pudéssemos ter desenvolvido um espaço para a revista dentro dessa viagem toda. Ou talvez não. Parece muito polêmico que uma revista com a personalidade forte como de um intelectual intransigente agrade (e desagrade?) milhares e milhares. Enfim... mas quanto aos jornais e os portais de internet, estou quase certo que seria o melhor caminho. Quase porque... tudo muda muito rápido!

15 setembro 2008

A vida dos outros

Por Daniel Brito

Chama-se Macarrão o modelo de anúncio que ocupa metade da primeira página do jornal e seu valor banca toda a redação do jornal. Num flagrante de contradição que é fazer jornalismo sem a influência do departamento comercial, é possível achar graça no jogo de disse-me-disse em alguns dias na semana.

Em metade da primeira página está estampada a grande oferta de carros nas concessionárias e na outra, a manchete estarrecedora:

- São Paulo enfrenta o maior engarrafamento do ano.

Qual das duas informações têm mais peso para o leitor?

Eu aposto na primeira.

São as nuances da profissão que escolhemos.

Um jornal de Brasília não teve pudor em manchetar que o Supermercado X iniciaria um processo de corte de gastos e demitiria (pasmem!) 80 funcionários. Lá dentro, tinha uma análise sobre a escalada do desemprego no DF e todos esses bla bla blas sociais.

Acontece que láááá dentro, agora eu me reviro à estrutura física da empresa, ao chão da fábrica, a situação era ainda pior. Não só os jornalistas, mas os funcionários do deparamento industrial, marketing, transporte...Mais da metade da empresa foi presa fácil do passaralho que transformou a empresa em jornal de bairro. Ou qualquer coisa parecida.

Isso não estava na manchete, nem na análise.

Um veículo midiático paulista fez uma longa reportagem sobre o aumento no número de contratações de pessoas jurídicas, o que nós, jornalistas, chamamos de frilas.

O detalhe: o repórter era um personagem perfeito para a matéria que ele mesmo escreveu. Havia quatro anos era funcionário sem carteira assinada. Assim como metade da redação...

Recentemente estive próximo do olho de um grande furacão. Plano de Demissão Voluntária na redação. Que de voluntária só tinha o nome. Eu estou longe de ser contemplado por esse programa, mas o fato é que a redação ficou em polvorosa com a especulação do nome das vítimas.

Nesse mesmo dia, nós lá da editoria de esportes, noticiávamos a lista de dispensados do São Paulo, eliminado da Libertadores da América. Não me lembro bem se era do São Paulo. Algum time 'demitia' seus atletas por algum motivo.

Só sei que é assim: sabemos tudo sobre os outros.
Nada sobre nós mesmos.

PS - Dizem (eu escrevi 'dizem') que vai rolar um novo PDV em dezembro. Mas não há ninguém para nos confirmar....

22 agosto 2008

Você é repórter ou é assessor?

Dias atrás cheguei no meu velho e bom Maranhão e fui ao trabalho com a idéia de cobrir eleições. Mas não na capital. Queria me mandar para o interior do estado, pegar bons personagens e, com fé, descrever o absurdo que pode existir na briga por votos numa cidade pequena, pobre e desconhecida.

O coordenador da redação comprou a idéia. Com dois dias, porém, tudo mudou. O editor interino de política brigou com um dos repórteres e, como estava improvisado, voltou para a coordenação de reportagem, local onde faz um bom trabalho e não deveria ter saído. Temendo improvisar um editor de outra área outra vez, meu chefe me chamou para editar as pequeninas, porém heróicas, duas páginas de política de O Imparcial - uma local e uma nacional. Como já tive experiências anteriores como editor neste mesmo jornal, fui sem medo.

Mas me deparei com um complicador: nossos repórteres de política são assessores. Um trabalha no governo do estado e outro na prefeitura.

Assim que assumi a editoria, chamei todos e disse que precisaríamos melhorar a cobertura de política, expandir para temas mais exclusivos, como matérias sobre cidades importantes do estado e cenários de toda região metropolitana, não apenas São Luís.

Fizemos uma reunião de pauta, listamos alguns assuntos para a cobertura e me calhou de saber a que horas poderia contar com eles. A qualquer hora, responderam. Então, podem fazer isso e isso amanhã, ok? Não, mas de tarde eu vou para tal lugar e de manhã para outro lugar, me respondeu. E que horas você trabalha para o jornal? "A hora que dá", disse.

Quer dizer, não posso contar a qualquer hora. Mas, sim, a hora que dá.

Pedi, então, que separassem as horas do dia prevista no contrato de cada um e começamos a pensar a editoria com mais intensidade. Melhorou, mas ainda está ruim.

Está ruim porque, com repórteres-assessores, a coisa não ficará de um jeito plausível. Assessor de imprensa e repórter se parecem pelo comprometimento institucional. O primeiro com um órgão público. O segundo com a empresa jornalística para o qual trabalha. Quando a coisa se choca, a editoria perde qualidade. Mas ele continua ganhando seu salário.

Por isso, em lugares onde os jornalístas ganham muito mal e assessores ganham muito bem, a qualidade da mídia tende a ser ruim. Os jornais viram caixas de lixos-releases, plantados muitas vezes por assessores "infiltrados" na redação. Por isso, não existem jornais quentes. Não existem repórter que corra atrás da notícia, que pense e trabalhe para ampliar sua pauta. Uma vez assessor, a redação de jornal serve apenas para complementar o salário e não para crescer profissionalmente.

Outro problema é quando o jornalista aprende tudo na redação, cria nome e respeito e depois se transfere para a assessoria, buscando melhor salário e menos trabalho. Mas isso é tema para um próximo post.

Humildemente e desculpem o longo hiato...

13 agosto 2008

De volta ao tradicional

Por Daniel Brito

Aprendemos na faculdade a hierarquizar informações dentro de um texto. Para isso, existe a tal da pirâmide invertida. As informações mais importantes têm de ser aglomeradas nos primeiros parágrafos com o uso do tradicional:

- o quê;
- como;
- quando;
- onde;
- por quê.

É, convenhamos, a maneira mais fácil de se escrever um texto jornalístico. Fazer como um boletim de ocorrência.

"Morreu, ontem, aos 92 anos, o senhor José das Couves*, vítima de um enfarto agudo do miocardio. Das Couves era médico sanitarista e havia contraído a doença de chagas cinco anos atrás, durante uma expedição pela região do Curimataú. Deixa duas viúvas, cinco filhos, 14 netos e oito bisnetos."

Acabou-se. A notícia tá toda ali. Daí você pega o atestado de óbito de Zé das Couves e está quase igual ao texto do jornal. Ocorre o mesmo com notícias policiais.

"Um homem, aparentando ter 33 anos, assaltou ontem a sorveteria Gela Guela*, em Puxinanã. Armado de revólver calibre .38, ele ameaçou os clientes e chegou a agredir o gerente da loja com uma coronhada. No assalto, foram levados 1,5 mil reais em espéciea, além de celulares dos clientes e um computador. A polícia ainda não tem pistas do criminoso".

É possível ler esse tipo de notícia t-o-d-o-s os dias nos jornais do mundo inteiro. E nos boletins de ocorrência do distrito policial mais perto de você.

Pessoalmente, tenho várias restrições a esse tipo de lide. Se eu parar para prestar atenção numa notícia publicada nesse estilo, não avanço mais que o primeiro parágrafo. Também sou da tese que informação demais no parágrafo inicial super-lota a cabeça do leitor (sem querer subestimá-lo), além de desidratar o resto da reportagem.

Os conversadores e/ou adeptos da prática defendem, contudo, que lides assim são comuns em edições semanais dos jornais, quando o leitor não tem tempo para ler um texto mais temperado, com as notícias distribuídas entre os parágrafos e detalhes que vão além do boletim de ocorrência. Esses escritos, já ouvi opiniões nesse sentido, são melhores aproveitados (ou seja, lidos) nas edições dominicais, quando se tem tempo para sentar no sofá e ler o jornal de cabo a rabo.

Para quem tá tomando café, com pressa para levar os filhos no colégio, para depois passar no banco e pagar a multa do Detran porque foi pêgo pelo bafômetro, depois bater o cartão no trabalho às 9h15, a notícia tem que vir assim mastigada mesmo.

Parece simples produzir um abre de página tão direto assim. Mas eu não simplesmente não consigo me adaptar. Penso que todas as histórias tem um ponto mínimo central que liga todas as versões dos fatos.

Um ano atrás, dei dois exemplos (exemplo 1 e exemplo 2) de tentativas frustradas para fugir do lide tradicional. Em algumas vezes, que não foram registradas aqui no blog, eu consegui encontrar um gravetinho no meio da história que esquentava o texto ao ponto de virar uma fogueira. Sem me queimar...até onde eu sei.

Há seis meses trabalhando em uma das mais tradicionais empresas jornalísticas do país, tenho tido dificuldades em manter meu estilo. O que os editores costumam chamar de lide de revista, difuso, com estilo, digamos, heterodoxo de apresentar as informações, não é muito o perfil da empresa.

Em recente cobertura no Rio de Janeiro, tive que ouvir da redação que meu texto estava confuso. É que eu comecei com um detalhe que justificava a informação principal, que estava no segundo parágrafo. Pode até ser chamado de nariz-de-cera, mas o lide continha informações e não era apenas um apêndice. Assim eu entendi. E uma outra pessoa que leu a versão original.

Mas fugia do tradicional. O pai-de-família não teria tempo para ir ao colégio, ao banco e ao trabalho e ler a matéria com aquele abre. Optaram pela pirâmide invertida e as inefáveis cinco perguntas.

Tenho que me adaptar ao estilo, porque não vou conseguir fazer um editor de 50 anos dentro do jornalismo mudar de idéia por minha causa.

Ou então, eu mudo de empresa...

* Os nomes são meramente ilustrativos. Qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência.

27 julho 2008

Tietagem

Por Léo Alves

Pense na seguinte situação: você foi escalado para cobrir um evento musical. Nele você vai entrevistar aquela banda (ou cantor) que é fã.

É correto - você como jornalista - pedir autógrafo? Ou pedir para tirar uma foto com seus ídolos?

O jornalismo faz com que tenhamos acesso às celebridades. Certamente no exercício da profissão um dia vamos nos encontrar com uma personalidade que temos admiração, talvez sejamos até fãs.

E esse acesso às personalidades de certa forma explica o fato de o curso de jornalismo ter sido o mais procurado no maior vestibular do país ano passado mesmo sendo a “pior profissão do mundo” como disse em outro post o Jorge Wilstermann*.

Pode parecer uma análise muito simplista da minha parte. Mas muita gente opta pelo jornalismo por causa desse glamour (ou falso glamour) que a profissão oferece.

Já vi inúmeras vezes colegas – depois de uma entrevista – numa sessão de fotos com o entrevistado.

Outra cena comum é tirar fotos com outros jornalistas, principalmente com os globais. O apresentador do Jornal Hoje, Evaristo Costa, esteve em Campina Grande, no São João, e foi solícito com todos os colegas que queriam registrar o momento.

Há quem diga que é totalmente errado, que o jornalista deve manter sua postura. E que ele está perto do ídolo como jornalista e não como fã. Difícil para muita gente é separar as duas coisas.

Existe outra turma de jornalistas que acha normal esse tipo de tietagem. Desde que seja feita depois que o trabalho for concluído.

Outros acham que tirar uma foto é registrar o momento. É uma forma de “provar” que um dia já entrevistou ou esteve perto de uma personalidade. E as fotos podem servir um dia para publicar um livro de memórias, por exemplo.

Talvez não existam respostas definidas para as perguntas que fiz no início deste post. Talvez dependa de cada um.

O certo é que a tietagem também está presente na nossa profissão.


* Jorge Wilstermann não é nenhum dos quatro integrantes deste blog. Ele tem 27 anos, é jornalista e, apesar de tudo, não desiste da pior profissão do mundo.

24 julho 2008

Não tem mais bobo no futebol

Na tarde de sexta-feira, 18 de julho, eu estava no trabalho terminando um material impresso para a minha chefe. Enquanto esperava os outros fazerem seus serviços, deixei uma janela aberta para acompanhar o que seria o último jogo do Brasil no pré-olímpico mundial de basquete. Tomamos uma surra da Alemanha e ficamos de fora da terceira Olímpiada seguida. A grande maioria dos comentaristas e repórteres colocava a culpa no mesmo fator: os seis jogadores que, às vésperas da competição, afirmaram que não defenderiam o escrete canarinho nos Jogos Olímpicos da China.

Até alguns minutos atrás, eu procurava pelos sites especializados norte-americanos notícias sobre a saída de um talentoso jogador da NBA para o Olympiakos, da Grécia. E lia também os analistas dos EUA falando sobre as chances da sua seleção em Pequim. A grande maioria acredita piamente o caminho para o ouro será uma estrada pavimentada e de três pistas. Agora, o que esses três assuntos têm em comum, além do basquete? Como, de uma maneira geral, os jornalistas esportivos, sejam aqui ou nos EUA, são mal informados sobre o que acontece em outras áreas, até mesmo dentro do seu metier.

Começamos com o basquete nacional. Nunca na história desse país a seleção fez tão feio. Pior colocação da história em um mundial (17º lugar em 2006) e novamente fora da Olimpíada. Nas transmissões, um bando de ex-atletas pedindo amor à camisa e reclamando dos seis desfalques - três da NBA, dois que jogam na Europa e um da liga nacional. Ninguém vê a cena maior. O esporte, que já foi o segundo em preferência no Brasil, vive uma série de desmandos que impressiona. Da falta de estrutura nos campeonatos de base ao não pagamento do seguro dos atletas. E todo esse desmando com uma verdadeira fábula de dinheiro público escorrendo pelo ralo.

Chega a ser constrangedor a falta de informação dos colegas ao não questionarem as "sumidades" do esporte. O "mão santa" Oscar, que hoje acho que fez mais mal ao basquete do que bem, até babava de raiva com Nenê, Leandrinho e companhia nas transmissões do canal SporTV. Alberto Bial, irmão do apresentador do BBB, pintava um cenário que não se refletia nas quadras da Grécia, onde rolou o pré-olímpico. Dias depois, vejo no site do Lance uma entrevista com Miguel Angelo da Luz, técnico campeão mundial com a seleção feminina em 1994, onde ele elenca uma série de besteiras e não é contestado pelo repórter setorista de basquete.

No caso dos norte-americanos, um fato solta à vista: a falta de conhecimento de como funciona o resto do mundo. Ok, isso não é lá uma surpresa muito grande. Primeiro, eles se mostram atônitos com o Josh Childress ter assinado contrato com o Olympiakos. Alguns prevêem que o rapaz será um "trendsetter" no futuro. Outros não entendem como ele abandonou a maior marca do basquete mundial para jogar na Grécia. Para a Olímpiada, todos contam com o ouro. E nada mais. Esquecem que, desde o time de 2000, ninguém mais conseguiu jogar pelas regras da FIBA, a FIFA do esporte da bola laranja. Desconsideram que pelo menos quatro seleções brigam pelo ouro - além dos EUA, Argentina, Espanha e Grécia estão no páreo.

O que tudo isso tem a ver com o blog? Simples. Com a proximidade da Olimpíada, a começar às 20h08 de 8/8/2008, veremos nas emissoras de televisão aberta e à cabo uma série de impropérios vociferados pelos colegas que cobrirão o evento. Se no basquete, esporte difundido mundialmente, já vemos várias abobrinhas, imagine na esgrima e no badminton! Para diminuir a falta de conhecimento dos seus jornalistas, o que as emissoras fazem? Contratam uma verdadeira legião de ex-atletas para comentar e dar um aspecto mais profissional na cobertura.

É nesse momento que reencontraremos o Servílio de Oliveira para comentar boxe, a Luísa Parente para falar dos saltos do Diego Hypólito e o Gustavo Borges para dizer se o Tiago Pereira realmente tem alguma chance contra o Michael Phelps, entre outros que agora me fogem. Fica claro que somos o país do futebol, mesmo com o Galvão Bueno dizendo que "não existe mais bobo no futebol". A identificação do torcedor com o esporte bretão não é de responsabilidade direta da imprensa, depende de uma série de fatores. O problema é que vivemos em um país que não possui jornalismo esportivo. Somos, literalmente, a pátria das penas de chuteiras.

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PS.: Daniel, eu não te disse que o Brasil não classificaria para Pequim? Droga, devia ter apostado umas Eisenbahn nisso!

18 julho 2008

Firmeza na verdade

Por Daniel Brito

É muita coincidência que a PM do Rio esteja na berlinda por atirar em inocentes no mesmo momento em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) faça as vezes de advogado de defesa de um suspeito de ter cometido diversos crimes.

O baiano Daniel Valente Dantas (DVD), Veríssimo escreveu, é o tipo de pessoa que sabe dissimular a irregularidade. Conhece os meandros do sistema e se esconde nas brechas do capitalismo para não ser pego em flagrante, "como o ladrão de galinhas".

É exatamente por esta habilidade, que o STF acredita que DVD pode responder em liberdade pelos crimes dos quais está sendo acusado. Várias qualidades de crime financeiro, espionagem, tentativa de suborno...

Noite sim, noite não, DVD se revezou entre dormir numa cela da Polícia Federal em São Paulo, juntamente com os demais acusados, e numa confortável cama em um luxuoso hotel da capital paulista.

Segundo o ministro do STF, "não foram indicados elementos concretos e individualizados, aptos a demonstrar a necessidade da prisão cautelar, atendo-se, tão-somente, a alusões genéricas".

Argumentos mais que perfeitos para condenar os PMs cariocas pelas incursões irresponsáveis contra civis desarmados e inocentes nas ruas do Rio. Mas onde se lê "prisão cautelar", podemos substituir por "tiroteio às cegas". A sentença do STF caberia, portanto, no caso de condenação da polícia militar.

A imprensa deu tratamento diferente aos dois casos. Taxou, corretamente, como absurdo a ação da PM e parabenizou o chefe do Supremo pela decisão de liberar o banqueiro e especulador DVD.

Tá na cara que ele é o símbolo máximo da elite branca com acesso às prerrogativas da lei. Mas a imprensa precisa do STF e dificilmente faria um questionamento mais incisivo. Os maiores veículos do Brasil têm ações milionárias correndo no Supremo e ninguém é besta de atacar a mais alta corte judicial do país, por mais que ela esteja sendo incoerente.

Sim, porque os casos antigos da PF, igualmente filmados e divulgados, não tiveram tratamento igual por parte do STF. (Tudo bem que as prisões cinematógraficas da PF costumam acabar em pizza.)

O modos operandi da Polícia Federal está sendo usado, agora, para acobertar o restante da investigação dos crimes financeiros atribuídos a DVD. A Operação Satiagraha, que quer dizer firmeza na verdade, em um sânscrito de Gandhi, pode virar peça política para mais uma CPI cheia de bla bla blas e nada deve acontecer.

Em vez de cobrar por justiça, vamos reclamar por ler/ver/ouvir as mesmas notícias sobre a roubalheira no noticiário durante semanas.

Fiquei sabendo, no último final de semana, que um portal vai produzir (se já não produziu e publicou) uma reportagem perguntando:

Por que o povo não vai a casa de DVD, ou para frente da sede da PF, cobrar por justiça da mesma maneira que fizeram com o casal acusado de jogar a própria filha pela janela?

14 julho 2008

Heróis brutos

Por Daniel Brito

A olimpíada tá chegando aí.

Época de eternizar mestres do esporte e transformar anônimos fora-de-série em heróis.

É, tudo bem, faz parte da festa. Bateu recorde, fez uma apresentação memorável, superou seu próprio limite, tem todos os motivos para ter o reconhecimento e destaque pelo feito. Assim ocorre nos outros setores da vida cotidiana.

O que eu realmente lamento é a capacidade que os meios de comuncação têm para criar poderosas redomas míticas em torno de figuras que, pessoalmente, não mereciam tanto.

Tem o caso do tenista que foi interpelado, no auge da fama, por uma garota com 15 a 20 quilos acima da média das mulheres com quem ele andava e se beijava, e não teve um pingo de paciência para recusar um autógrafo e soltou: "Sai daqui, sua gorda."

Hoje ele posa de bom moço por aí, na sombra dos seus feitos esportivos. Quem há de se levantar para reclamar dele por isso?

O nosso Felipinho, da Ferrari, por exemplo, contou que deixou de acreditar na pureza de Ayrton Senna quando ele se negou a dar um autógrafo em seu boné. "Desde esse dia eu atendo a todos os fãs por igual", garante Felipinho.

E o campeão da vela que não tem cerimônia alguma em menosprezar qualquer jornalista? Até o momento em que aparece uma câmera de tv para ele abrir um sorriso.

Esse é o lance. O cara é um excelente jogador de basquete? Bueno, então sua imagem seja refletida na mídia como tal e não como "craque, pai de família, atencioso, brincalhão, bonito, gostoso e cheiroso".

Confesso que tem muito de uma motivação pessoal aqui no texto, pelas diversas vezes que fui desprezado, mal tratado, esquecido, desrespeitado pela classe com a qual costumo lidar.

O cara que é campeão é campeão do mundo e ponto final. Não se discute sua condição. No futebol, 20 anos atrás, o craque de um time jamais era contestado. Jamais. Muitos jogadores pagaram o pato pelo craque.

É o que a gente já escreveu aqui sobre a mania de polarizar as situações, meio como em novela. O bonzinho e o malvado.

Quem perde é um zé mané. Quer exemplo melhor que o de Barbosa, goleiro da copa de 1950? Antes de morrer tiveram que fazer 15 mil reportagens mostrando os feitos dele para que fosse reconhecido em vida.

Esse mini-desabafo não cabe em texto algum no jornal que trabalho, ou trabalhei ou vou trabalhar . Mas eu meio que já aprendi a encarnar a figura do jornalista malígno que povoa a mente dos leigos para conversar com alguns.

Alguém ainda tem dúvida se o esporte aliena ou não?

04 julho 2008

Complexo de FHC

Por Daniel Brito

Os primeiros meses do mandato de Fernando Henrique Cardoso na presidência surpreenderam aqueles que esperava ver um professor de sociologia colocando em prática tudo que pregara em teses, dissertações, aulas, livros e discursos lá pelos idos das décadas de 1960 e 1970.

De um sociólogo, da 'social democracia brasileira', esperava-se um mandato voltado ao social. Mas não foi bem isso o que rolou.

FHC tem seus méritos, mas extingüir a presença do estado em determinados setores, entregá-los (esses setores) ao capital privado, massacrar a classe média e baixa com mais e mais tributos, fizeram os jornalistas questionarem FHC sobre seu passado teórico.

Eis que o ex-presidente respondeu:

"Esqueçam o que eu escrevi".

Não estou aqui para atacar PSDB, nem defender a política assistencial-esmoléu do atual governo, apenas fazendo uma apresentação ao tema principal deste post.

Vamos trazer a história para um contexto muito mais próximo da nossa realidade. Quando FHC disse o que disse, ele colocou na boca dos chefes (no nosso caso, na redação) tudo o que eles precisavam para esquecer que um dia foram repórteres.

É, tudo bem, nem todo editor foi repórter um dia, mas a carreira dele teve um início e nessa época ele tinha um chefe, no mínimo.

Só pode ser esse o motivo pelo qual os chefes perdem o senso de realidade do cotidiano de um repórter para pedir as coisas mais esdrúxulas do mundo.

Para não comprometer muito, vamos transformar nossa história em uma metáfora futebolística.

Seria algo como se um treinador de um time de futebol falasse:

"Quero que você seja o artilheiro do time. Vai aparecer na hora que a gente mais precisar, tá bom? Quando tiver um escanteio, você mete a bola na área e corre para cabecear. Confio em você, garotinho"

O treinador se esquece que para bater BEM o escanteio na área, é preciso treinar por horas, dias; é preciso repetir o movimento centenas de vezes em dia de jogo, inclusive. O pior é que o comandante se esquece, também, que o jogador só pode bater o escanteio ou só pode cabecear. Mesmo que o time todo seja de baixinhos, o cobrador não pode fazer nada a não ser meter a bola na área e torcer para que um anão, companheiro de equipe, suba mais alto que a zaga adversária e complete para as redes.

E se o cobrador inventar de dizer que é humanamente impossível bater e correr para área, ele passará por um belo de um constragimento perante os companheiros porque o treinador, nos tempos em que era jogador, costumava fazer isso muito bem.

Com um detalhe: "naquela não existia o Google, hein?".

E o pobre do jogador tem que ouvir aquilo e consentir, mesmo sabendo que não passa de uma grande e mal feita lorota.

Cinco anos após me formar em jornalismo, 13 anos após desempenhar a função jornalística pela primeira vez, fico pensando se algum dia eu me tornasse treinador eu cometeria esse descalabro de pedir para esquecer tudo que escrevi e daria tais orientações aos meus comandados?

Bueno, não há sinal algum de que serei editor um dia...ops, perdão, "treinador". Nem tenho essa pretensão, by the way.

Mas encerro esse texto com algumas certezas:

- É muito mais fácil ser chefe só para cobrar.
- Não se tem registro de um jogador (a não ser Didi, num de seus filmes duas décadas atrás) que tenha consiguido marcar um gol batendo o corner e chegando na área para cabecear.
- A chefia jamais vai deixar de pedir por esta jogada. Jamais.
- Fui contaminado (em parte) pelo colaborador Jorge Wilstermann.

25 junho 2008

Punição aos veteranos

Por Daniel Brito

Desde que inventaram essa história de país do futuro, uns cinqüenta anos atrás, foi estabelecida a ordem das coisas no Brasil. Ordem, aliás, ao avesso, como deve ser a ordem no Brasil.

Senão, vejamos.

Você passará a vida inteira se dedicando a algo até, depois de 35 anos de prestação de serviços, esperar uma recompensa para passar suas últimas décadas ou últimos anos de vida em paz e com a consciência tranqüila de dever cumprido.

Deveria ser assim.

Mas no Brasil, é preciso trabalhar mais que 35 anos para se aposentar, pagar uma bela parcela de seu salário para garantir uns trocados na velhice, e quando ela (a velhice) chega é preciso continuar pagando para receber.

Aliás, isso é uma das grandes fraudes do atual governo, que continua cinicamente taxando os inativos, quando passou duas décadas esperneando pelo fim do imposto.

Não adianta reclamar. As coisas simplesmente funcionam assim do lado de cá do Equador.

A iniciativa privada também adota o hábito de punir os veteranos, em vez de "premiá-los" pelo tempo de serviço.

Veja o exemplo da empresa para a qual eu dou minha humilde contribuição. Adotou pela segunda vez, após dois anos, o famigerado Plano de Demissão Voluntária (PDV), que de voluntária só tem o nome.

Caras que pelos últimos 20 anos deixaram parte de sua história pessoal naquela redação foram convidados a se retirar com uma bela grana no bolso, é bem verdade, mas seus esforços em fazer um jornal melhor acabaram em demissão.

Não tô defendendo aqui a sacrificação de novatos em detrimento dos veteranos. Mas, um tratamento diferenciado aqueles que fomentaram o nome e o respaldo da empresa perante a sociedade.

Alguém já me disse que relacionamento entre iniciativa privada e funcionário é como namorar com uma mulher gostosa mas de origem desconhecida. Por mais que você goste dela, dê tudo a ela, faça tudo que estiver a seu alcance para agradá-la, a vagabunda pode te dar um pé na bunda a qualquer momento por um motivo desconhecido, porque ela acha que tem sempre alguém que pode fazer mais por ela, por muito menos. (Vide o texto do nosso colaborador andino Jorge Wilstermann, no post abaixo)

06 junho 2008

A pior profissão do mundo

Por Jorge Wilstermann*

Temos que parar com essa palhaçadinha de "a melhor profissão do mundo". é sério: jornalismo é a pior profissão do mundo. precisamos fazer comque esse slogan se prolifere, vire grito de guerra nas faculdades efrase de abertura de palestras e livros sobre o tema.

que outra profissão paga tão pouco? nenhuma. não é preciso comparar tabelas. quantos médicos, advogados, engenheiros, dentistas e outras com curso superior você conhece? quantas estão absolutamente f*didas de grana, reclamando o tempo todo, mendigando frilas, xingando o sindicato? quantas?

você há de apontar uma ou outra, talvez meia dúvida de três ou quatro, mas estas nunca serão a regra na profissão delas. e os fins de semana desperdiçados? e os horários absurdos? e os feriados cassados? e os salários de fome em troca de tanto esforço, de tanta dedicação?

plantões tendem a ser (bem) remunerados em quase todas as profissões. menos na pior profissão do mundo. chamamos de "folga" os finais de semana em que não trabalhamos. como se a regra fosse trabalhar nesses dias...

mas a culpa é nossa. nós é que chegamos mais cedo e saímos mais tarde. nós é que vibramos com furos dados e sofremos com furos tomados. nós é que alardeamos toda essa m*rda descrita acima como "a melhor profissão do mundo".

e os chefes aproveitam. chefes de jornal jogam com isso. sabem que tu quer ir pra próxima copa do mundo, pro próximo oscar, pro próximo fórum econômico mundial. sabem que tu quer cobrir as eleições, derrubar o deputado corrupto ou desvendar aquele caso de polícia.

eles sabem. e vão te dando as oportunidades em grãos. e grana nunca. nos permitem uma viagemzinha aqui e outra ali -- e nós vibramos. nos dão um tapinha nas costas aqui e um elogio ali -- e nós exultamos em alegria absoluta pelo reconhecimento divino.

eles sabem que não precisam te dar aumento. sabem que podem te mandar embora a qualquer momento porque na porta do jornal há setecentos outros na fila, loucos para mostrar serviço e desfrutar dos"""prazeres""" da pior profissão do mundo.

jornalismo foi o curso mais procurado do maior vestibular do país no ano passado. é mais gente pronta a tomar nosso lugar, disposta aganhar menos e a se sacrificar mais.

culpa nossa.

deveríamos contar a verdade de uma vez por todas: é a pior profissão do mundo.

* Jorge Wilstermann não é nenhum dos quatro integrantes deste blog. Ele tem 27 anos, é jornalista e, apesar de tudo, não desiste da pior profissão do mundo.

01 junho 2008

Bola fora

Por Léo Alves

Eu publiquei no meu blog de esportes.

O Juca Kfouri no dele.

O colega Expedito Madruga do Jornal da Paraíba já estava com uma página pronta sobre o assunto.

A maioria dos jornalistas embarcou na (falsa) pesquisa Gallup sobre as torcidas no Brasil. Aqui na Paraíba o time do Treze chegou a publicar em seu site oficial.

A pesquisa fazia um levantamento da quantidade de torcedores de cem times brasileiros. Era intitulada “A Maior Pesquisa da História”.

Quando recebi o mail de um dos poucos leitores do meu blog o assunto já estava amplamente divulgado.

Como todo mundo já tinha divulgado não quis ficar pra trás.

Divulguei. Mas divulguei desconfiado.

Primeiro porque a pesquisa estava publicada apenas num blog, o gallupnobrasil.blogspot.com

Entrei no site do Gallup. A pesquisa não estava.

Achei estranho um instituto publicar uma pesquisa dessa proporção apenas num blog.

Outro fato me chamou atenção. É a única postagem do tal blog. As outras quatro são em inglês.

Desconfiado enviei um mail para a Editora Ática, que segundo a notícia teria pedido a pesquisa, e para o Instituto Gallup.

A “eficiente” assessoria de imprensa da editora nunca me respondeu. Não demorou mais de duas horas pro Gallup enviar a resposta desmentindo a pesquisa.

Nesse período outro blog desmentia a pesquisa. O Uol publicava uma errata. Juca Kfouri se desculpava: “Mil perdões! Errei feio. Cai num conto que não poderia cair. A "pesquisa" do Gallup não existe. Obra de algum engraçadinho para enganar trouxas. Como eu!”

Realmente fomos todos trouxas. Impulsionados pela velocidade da internet esquecemos o básico do jornalismo: checar a fonte.

Tudo bem que o texto do blog era até convincente.

Mas não tem desculpa. É um erro divulgar sem checar.

Esse fato apenas externou algo que vem acontecendo há alguns anos. A geração internet de jornalistas muitas vezes apenas reproduz o que está na internet. Nada de checagem.

É só “Ctrl C” e “Ctrl V”. Tudo resolvido.

A falsa pesquisa Gallup deu uma lição em todos nós. Aliás uma lição que todos já sabíamos, mas vez por outra, seja por acomodação ou por qualquer outra coisa, esquecemos: não se pode confiar em tudo que está na internet.

Não resta dúvida que é um excelente instrumento de trabalho para o jornalista, mas é nela que surgem as chamadas “lendas urbanas”.

“Lendas urbanas” são aquelas histórias repassadas por mail para vários lugares. Em cada estado é adaptada à realidade. E todo mundo conta como se fosse verdade.

Só para lembrar uma. Tem aquela do cara que está no cinema no shopping é seqüestrado dentro da sala. O seqüestrador o obriga a fazer várias compras usando o cartão de crédito no shopping.

Recebi esse mail de uma colega de trabalho para checar a informação. Também recebi outro de um possível eclipse. Nesse eu quase embarcara. Um astrônomo evitou o vexame.

Exemplos não faltam.

A “pesquisa” Gallup relembrou pra gente nunca mais - nunca mais mesmo – esquecer: não dá pra confiar em tudo da internet.

E nunca deixar de lado o que aprendemos nos bancos da faculdade: sempre checar a informação com a fonte. De preferência com mais de uma.

29 maio 2008

Os extremos da cobertura de um ídolo

Fazia tempo que eu não conseguia ler a Folha de São Paulo com atenção. Como assessor de uma parlamentar do DF, me preocupo com os quatro jornais diários de circulação local, as duas rádios de notícias, internet, televisão, e por aí vai. Sem contar as demandas naturais de uma assessoria, que está longe de se limitar à simples ponte entre imprensa e assessorado. Na última segunda-feira, esperava no plenário da Câmara Legislativa o início de uma audiência pública organizada pela minha chefe. Para passar o tempo, peguei o jornal paulistano.

O que eu li nas páginas de Esporte há três dias me emocionaram. Depois de anos e anos, a Folha tinha mudado de lado. Um embarque tardio na popularidade de um ídolo ímpar do esporte brasileiro. O jornal, finalmente, fazia uma cobertura honesta do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Foram três páginas redigidas sem exageros, com recursos de edição como opinião de colunistas, lembranças da carreira e boas matérias sobre a partida de despedida do catarinense em Roland Garros.

Durante todo o tempo que Guga ficou no topo, entre os melhores da modalidade, eu comparava duas coberturas, que pra mim estavam em lados totalmente opostos e que tinham como única semelhança o fato de estarem erradas. O grupo gaúcho RBS, que detém o monopólio da imprensa em Santa Catarina, era e é entusiasta demais. Nunca abordava os problemas de contusão, as confusões, os problemas de patrocínio de maneira adequada. Chegaram até, dando uma demonstração de absoluta falta de profissionalismo, a construir uma estátua de bronze do tenista. A família, com noção das coisas, declinou da homenagem.

No outro lado, estava a Folha. Apesar do manezinho da Ilha ser primeiro do mundo por 43 semanas, tricampeão de Roland Garros, o jornal sempre achava um motivo para bater no Guga. Lembro bem do famoso título "Guga troca ouro por dinheiro", quando ele afirmou que não iria aos Jogos Olímpicos de 2000 por não poder usar o uniforme de seu patrocinador. Tanto brigou com o Comitê Olímpico Brasileiro que sua vontade foi respeitada. Afinal, se a CBF pode usar a Nike, por que ele não usaria a Diadora?

Nem tanto ao céu nem à terra, diria o chavão. De todos os veículos, quem conseguiu fazer uma cobertura equilibrada dos 11 anos de Guga no circuito mundial foi o Estadão, onde nosso amigo DB está hoje. O motivo é bem simples. O jornal paulistano era o único que tinha um repórter que cobria tênis há um bom tempo. Os outros veículos foram pegos de surpresa. Até descobrirem como cobrir um esporte considerado elitista, para riquinhos esnobes, levou um bom tempo. Aí todos exageraram na dose. Uns a favor, outros contra. Em comum, o erro de todos.

Sei que fiquei feliz com a maneira como a Folha mudou. Hoje, com outro editor de Esporte, talvez a filosofia tenha mudado. Já a RBS continuou da mesma maneira, errando a mão nos elogios, no ufanismo. Como se Guga fosse um Policarpo Quaresma moderno. Chega a ser bizarro. Mas esses lados revelam que nossa imprensa esportiva muitas vezes não está preparada para novidades como foi o Guga. E que não consegue se ajustar no meio do caminho. Tudo que aconteceu nesses 11 anos é prova de que, na verdade, temos uma imprensa de futebol, quase cega para os tais "esportes olímpicos". O que é uma pena.

20 maio 2008

O deus da pauta

Por Daniel Brito

Fui apresentado, nos últimos dias, ao deus da pauta.

Na tarde desta terça-feira, vivi um lapso presencial dele aqui na gigante redação suspensa na qual trabalho atualmente.

Um depoimento qualquer da CPI dos cartões corporartivos foi abruptamente interrompido para a exibição, ao vivo, de imagens aéreas de São Paulo com uma enorme mancha de fumaça preta descolorindo a selva de pedra.

Todos na redação se voltaram para as televisões espalhadas pela redação esperando o pior...ou o melhor mesmo! Quanto pior a notícia, melhor para o jornalista!

A GloboNews preencheu as expectativas: um avião comercial, da empresa Pantanal, caíra sobre um prédio comercial próximo ao aeroporto de Congonhas.

Editores, que já riscavam as páginas normalmente, desfizeram tudo e começaram a separar a página para mais uma tragédia da aviação na capital paulista. Repórteres apanhavam celulares, às pressas, na secretaria da redação, para cair em campo, motoristas alinharam os carros no pátio para transpor o interminável congestionamento.

Cinco ou dez minutos depois de entrar no ar com o flash 'bombástico', a GloboNews anunciou que a fumaça era originada de um incêndio numa loja de colchão. Neste momento, espalhou-se pela redação um sonoro:

Aaaaaaahhhhh

Apesar dos traumas que uma tragédia aérea causa na cidade, nas pessoas e até nos jornalistas, todos aguardavam uma notícia forte, por que não dizer triste, para explorá-la até a última gota de sangue?

Eis, portanto, a ocupação do deus da pauta.

Ele faz o mundo girar em torno de notícias extraordinárias. Como um galanteador campeão mundial de futebol ser encontrado com travestis num motel de duas estrelas. Uma criança ser atirada pela janela pelo próprio pai. Um avião perder o ponto da freada e ir de encontro a um prédio a alguns poucos metros de distância da cabeceira da pista. Ele quer que o presidente deixe sua impressão digital em transações escusas e mal explicadas.

O deus da pauta é quase um facista. Ele gosta de crescer os gigantes. No esporte, ele quer que os grandes se matem numa final eletrizante de campeonato. Não é um facista por completo porque
ele também torce para que os pequenos desmoralizem os grandes, quando eles se cruzam em momentos decisivos.

Por outro lado, já pensando no nosso lado cidadão, o deus da pauta é responsável pela guerra no Iraque, o aquecimento global, o conflito de terra na Região Norte...

É exatamente o deus da pauta que nos faz pensar que o mundo está se acabando!

08 maio 2008

A morte e a morte de Isabella Nardoni

Por Daniel Brito

Recente pesquisa publicada pelos jornais paulistanos mostrou que mais de 95% da população da cidade sabia do caso Isabella. Parece uma obviedade, mas o dado é importante para apontar a (d)eficiência do trabalho da imprensa nesta história.

A tragédia comoveu por envolver pessoas de classe média, que, até então, não aparentavam graves distúrbios de convivência social nem em família. Como os jornais e a tevê são voltadas para a classe média, a história rendeu quilômetros de páginas de jornais e semanas de reportagens de televisão.

A primeira notícia, ainda em março, de que uma menina havia caído do sexto ou sétimo andar (sei lá) buscou informações básicas (quem, como, onde e por quê), além de fotos. Como um soco na boca do estômago, começou-se a suspeitar do pai e da madrasta ao mesmo tempo que as imagens de uma Isabella espontânea em fantasias carnavalescas e com seus dentinhos de leite se espalhavam pela imprensa para dramatizar ainda mais a história.

Influenciados pelo velho clichê hollywoodiano e novela global, em que os bandidos e os mocinhos sempre estão muito bem definidos, as baterias foram voltadas para o pai e madrasta. Se tivéssemos que definir algum papel neste caso, na minha pálida opinião, seria a do mocinho.

Na busca incessante de culpar quem estivesse mais perto o mais rápido possível (coisa que a polícia e a justiça no Brasil não estão acostumadas a fazer), Isabella foi morta novamente para que os "detalhes técnicos" viessem à tona:

- asfixiada por três minutos;
- marcas de sangue no lugar X;
- hematomas na região Y;

Chegou-se ao cúmulo de mostrar as marcas dos dedos da menina tentando se agarrar à janela antes de ser atirada, numa imagem cruel, aterrorizante e totalmente desnecessária para o grande público.

Público, aliás, que alimentou a história. No jornal onde eu trabalho, cada depoimento exclusivo de vizinhos fofoqueiros estampados na capa, a vendagem subia cinco mil exemplares.

Até onde pude acompanhar, Isabella foi morta pelo pai, mas sua imagem, sua pequena história e o sentimento de compaixão que ela despertou quando das primeiras notícias da tragédia foram brutalmente assassinadas a partir do momento em que polícia e imprensa passaram a jogar Scotland Yard em público e fizeram questão de exibir as vísceras de modo que 95% da população de São Paulo soubesse da história.

22 abril 2008

Jornalismo, emprego e Fórmula 1

Por Pedro Henrique Freire

Eu troco pouco de emprego. Comparado a vários colegas e amigos jornalistas que tenho e conservo. Quando fui contratado como repórter pela primeira vez, conheci um grupo bom. Éramos uma equipe animada e competente. Aos poucos, ela se desfez. Uns pediram demissão, outros foram demitidos. Achei que pudesse ser um fenômeno atípico. Que nada. Isso é da nossa profissão. Uns saem, outros entram.

Aliás, muitas profissões são assim: rotatividade pura. O que é hoje não é amanhã. Tive oportunidade de conversar com alguns desses amigos jornalistas justamente no momento de transição. Desde que receberam a proposta até deixarem o emprego, por exemplo.

Em todos os casos, nunca vi alguém mudando pra pior. Mas, sempre com aquele discurso: “Vale arriscar! Estou novo”. Exatamente isso. Vale mesmo. Acho que passar por diferentes ambientes de trabalho é extremamente proveitoso. Só enriquece nossa capacidade de conviver em equipe, entender os limites das diferentes empresas e, claro, ser chefe.

E aqui enfatizo: ambientes diferentes nos trazem experiências diferentes. No final delas, nossa bagagem é grande e capaz de perceber (e resolver) os problemas com mais facilidade.

Pense na Fórmula 1: imagine um piloto que correu a vida toda no GP do Brasil. Quando ele chegar em Mônaco, ficará perdido. Correrá mal. A resposta é fácil: ele só correu em uma pista. Acostumou-se as mesmas subidas, descidas, direitas e esquerdas. Com um tempo, automatizou seu serviço. Ou seja, continuou pilotando, mas sem inovar na postura, empenho e idéias.

É uma comparação meio esdrúxula. Mas trocar de emprego, em jornalismo, quase sempre evita a acomodação, nos impõe novos desafios e acaba por nos atualizar e fazer crescer. É uma visão otimista, claro. Mas é meu modo de entender isso.

Não trocar de emprego, hoje, é uma das minhas maiores angústias. Trabalhei, firme, em três lugares. E na empresa onde me encontro agora, pretendo ficar a vida toda. Não por acomodação. Mas porque meu desafio é esse. E enfrentá-lo talvez seja bem mais difícil que pular de emprego em emprego.

Mesmo assim, continuo com a certeza: se trabalhasse em mais jornais (grandes, pequenos e médios) e mídias distintas, teria uma bagagem e tanto. No futuro, seria um melhor profissional.

***

Tenho curiosidade de colher alguns testemunhos dos amigos que deixaram o emprego com um friozinho na barriga nos últimos meses. Dos mais antigos com os quais conversei só ouvi coisas boas. Estranharam o novo habitat, claro. Mas acabaram confirmando e aprovando a decisão que tomaram.

Mudar na carreira é algo que muitos evitam. Mas todos precisam. Aprovo sempre a decisão do funcionário que abraça novos desafios, muda de emprego, de vida, sem medo de errar. Por isso, se um dia eu for chefe, direi ao funcionário que me pedir pra sair a mesma coisa que ouvi da minha chefe no meu penúltimo emprego:

“Olha, não posso segurar você. E fico muito feliz que tenha sonhos assim e corra atrás. Torço por você e acho mesmo que deve enfrentar esses desafios. Por aqui, as portas estarão sempre abertas”.