12 setembro 2009
Restrições na internet
Primeiro foi a Folha de São Paulo. Agora a Rede Globo também criou limites para seus profissionais em relação a blogs e ao Twitter. A liberdade de falar de assuntos que não podiam ser expostos nos dois veículos passa a ter limitações. Os dois textos abaixo foram publicados no site Comunique-se (http://www.comuniquese.com.br/):
Folha cria regras para jornalistas usarem Twitter e blogs
Izabela Vasconcelos, de São Paulo
O jornal Folha de S.Paulo anunciou em comunicado interno, que os jornalistas e colunistas do veículo devem seguir algumas regras ao usar redes sociais, como Twitter e blogs. A recomendação, assinada pela editoria executiva, é que os profissionais não assumam opiniões partidárias, sobre qualquer candidato ou campanha, e também veda a publicação de conteúdo exclusivo, acessível apenas para assinantes do jornal.
Os jornalistas que quiserem citar alguma matéria exclusiva poderão fazer referência ao material, publicando o link para o acesso do conteúdo na íntegra. “Não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha”, explica o texto.
Um dos jornalistas da Folha aguardava pela decisão. “Já sabia que iriam fazer isso. Tinha muita gente abusando. Você não pode emitir opinião de uma matéria que você cobriu”, declarou.
Outro profissional do veículo também esperava esse tipo de orientação do jornal. “Esperava que adotassem uma medida nesse sentido, principalmente pelo direito autoral. A decisão não mudou em nada meu procedimento no Twitter. Eu não faço nada no Twitter que eu não faria na Folha”, revelou o jornalista, que acredita que o conteúdo exclusivo deveria ser liberado. “Seria bem mais proveitoso, mas essa é outra questão”.
Apesar de defender as orientações do jornal, o profissional afirmou que o veículo é rigoroso em relação à imagem dos jornalistas do grupo. “Excedem no rigor, tudo tem que pedir autorização, para entrevistas, palestras, enfim...".
TV Globo restringe uso de blogs,Twitter e outras redes sociais
Da Redação
A TV Globo divulgou um comunicado interno na noite desta quinta-feira (10/09), em que restringe o uso de blogs e redes sociais pelos seus contratados. A medida atinge tanto artistas, como jornalistas e outros profissionais da emissora.
“A divulgação e ou comentários sobre temas/informações direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas à Rede Globo; ao mercado de mídia e ao nosso ambiente regulatório, ou qualquer outra informação/conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Rede Globo são vedados, independentemente da plataforma adotada, salvo expressamente autorizada pela empresa”, informa o comunicado.
A Globo também exige autorização prévia para que os contratados possam ter blogs, Twitter e outras redes sociais vinculados a outros veículos de comunicação. “A hospedagem em Portais ou outros sites, bem como a associação do nome, imagem ou voz dos contratados da Rede Globo a quaisquer veículos de comunicação que explorem as mídias sociais, ainda que o conteúdo disponibilizado seja pessoal, só poderá acontecer com prévia autorização formal da empresa”.
A decisão gerou repercussão, mas até o momento somente artistas da emissora se manifestaram. A atriz Fernanda Paes Leme reclamou.“Não existe Arte sem liberdade de expressão!!”. “Blog, twitter ajudam o público a conhecer o artista por trás do personagem... eu vou continuar por AQUI!". Jornalistas procurados pelo Comunique-se informaram que ainda não haviam recebido o comunicado.
Apesar das restrições citadas, a Central Globo de Comunicação informou que não veda qualquer plataforma para o uso pessoal, mas que as ferramentas devem se limitar a isso. “A presença individual e particular dos nossos contratados deve se restringir, se desejada, exatamente a este universo, estando totalmente desvinculada da atuação na Rede Globo, nem tampouco associados a outros veículos de comunicação. Se essa separação clara não puder ser estabelecida, o uso dessas mídias fica inviabilizado”.
A emissora carioca alega que a medida tem o objetivo proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”.
05 setembro 2009
Experiência profissional
Um profissional está na empresa há cinco anos. Nesse tempo desenvolveu atividades em diversas áreas, mudou de função, cresceu. Outro profissional está na mesma empresa há 15 anos. Porém fazendo a mesma coisa desde o dia em que chegou. Quem tem mais experiência?
Uma das definições de experiência profissional é “a bagagem de conhecimentos sobre uma profissão que alguém acumulou durante o tempo em que exerceu a profissão escolhida”. Fica claro que o primeiro exemplo é o mais experiente.
Mas o que se observa entre os profissionais é a confusão entre experiência e tempo de serviço. Para a maioria dos veteranos, experiência é tempo de serviço. Se não houver uma constante atualização o tempo de serviço só vai contar no FGTS.
No jornalismo não é diferente. É fácil escutar profissionais criticarem os jovens (muitas vezes mais capacitados e atualizados) pelo fato de eles não estarem há muito anos no batente. “Esse fulano chegou agora e pensa que sabe de alguma coisa”, resmungam.
A resistência aumenta ainda mais quando o novato tenta inovar. “Eu já faço isso há 20 anos desse jeito. Não tem lógica você que chegou agora querer mudar”, justificam os veteranos com a prepotência de quem se sente o dono da verdade.
O fazer jornalismo mudou, está mudando e vai continuar em constante transformação. Há duas semanas assisti a uma reportagem do hoje Ministro das Comunicações, Hélio Costa, feita da década de 70. Era sobre o “menino bolha”, dos EUA. Logo em seguida vi reportagens de décadas mais recentes. Uma linha do tempo que mostra a evolução da reportagem na televisão.
É preciso entender que com as novas tecnologias o público mudou. O profissional que não acompanhar essas mudanças e tendências se torna obsoleto. E como tem gente antiquada, retrógrada e arcaica nas redações achando que a forma de fazer jornalismo é a mesma de décadas atrás.
O interessante é que muitos veteranos tentam desqualificar o trabalho dos mais jovens afirmando que alguém só se torna um bom profissional depois de anos de trabalho. As redações tem muitos jovens talentosos. Talento não tem a ver com tempo de serviço. Os anos ajudam a desenvolver o talento, o que leva naturalmente a um crescimento profissional. Talvez seja por isso que há uma renovação nas redações.
Por coincidência, antes de começar a escrever este post deu uma passeada por vários sites. Num de João Pessoa, de Anco Márcio (ancomarcio.com) encontrei um tópico do autor que dizia: “Mesmo que você esteja há muito tempo no ar, nunca pense que está fazendo tudo certo e que todo mundo está gostando. Tudo na vida tem de ser reciclado, mudado, atualizado. Se parar,dança”. É a mais pura realidade.
Em tempo: não sou nenhum novato na profissão. Estou mais para um veterano que tenta (eu disse tenta) se manter atualizado.
25 agosto 2009
Sobre TV
Ligo a televisão e tenho a impressão de que nada de novo aconteceu. Nem em relação às notícias, que falam de antigamente, nem tão pouco ao fato de fazer TV. Mesmo com tanta insistência temos as mesmas caras de sempre, os mesmos textos vagos, as mesmas pautas que se repetem incansavelmente.
Talvez seja porque o produtor não pensou a pauta. A culpa é sempre dele. Ou porque quem sabe o repórter não compreendeu o foco da matéria e, por conseguinte o editor teve em mãos o resultado coletivo de uma incompreensão, ou seja, algo confuso, um produto deformado desde a sua gestação.
E o resultado dessa produção mal acabada, mal feita, deixa geralmente o apresentador com cara de idiota, animador de auditório, achando que está dizendo uma grande novidade. Se bem que novidade em televisão é coisa fora de moda. Foi-se o tempo dos flagrantes fantásticos e das reportagens exclusivas. Atualmente, a internet consegue ultrapassar a TV em anos luz no que diz respeito à velocidade da divulgação dos fatos. Mesmo não sendo uma ferramenta popular, a TV nem ousa mais em tratar determinadas informações divulgadas na internet como exclusivas. Simplesmente porque elas não são. E como se não bastasse a TV vem se tornando uma reprise de si mesma. Pautas e temas se repetem constantemente. E o pior são tratadas como novidades.
As fontes oficiais (secretários, presidentes, policiais, etc) dominam o noticiário com frases decoradas, institucionalizadas e cansativas. Parece que não há nada de novo para se mostrar. Com esta festinha institucional acreditamos sempre que estamos cumprindo o nosso papel como jornalistas. A notícia deve ser um produto nobre. Por isso precisa de um tratamento cuidadoso. Deve ser valorizada e respeitada desde o início do processo de divulgação que começa na feitura da pauta – roteiro a ser seguido.
Enquanto nos limitarmos a reproduzir as falas oficiais cumpriremos brilhantemente o papel de assessor de imprensa. Sem um tratamento ideal, adequado para transformar esta informação que chega dos gabinetes numa notícia útil, humanizada para quem está em casa, legitimamos a informação e tornamos os telejornais chatos, cansativos e pedantes.
O que está acontecendo? Será que falta ao meu amigo produtor o tempo necessário para uma boa produção? E ao meu estimado repórter foi privada/castrada a capacidade de criar, ousar? Será que os editores perderam a sensibilidade?
Troco de canal em busca de respostas e dou de cara com uma produção em série. Modelos que não são referência, mesmo assim, acabam sendo reproduzidos de maneira incansável. Estou à procura de contadores de histórias na TV. Algo raro. Queria ouvir e ver histórias que envolvem gente comum, desconhecidas. Histórias bem contadas com início, meio, fim e, acima de tudo, originalidade.
* Jurani Clementino é cearense, graduado em Jornalismo, Especialista em Comunicação e educação, Professor universitário e cronista. Atualmente faz Mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Estadual da Paraíba. Durante cinco anos trabalhou como produtor/editor do Jpb 1ª edição da Tv Paraíba, afiliada da Rede Globo em Campina Grande. O autor deve voltar a escrever neste espaço.
08 julho 2009
Ser chefe
Chefiar uma redação vai muito mais além do que, digamos, definir a linha editorial. O editor não se preocupa apenas com as pautas, as reportagens e outros assuntos relacionados à essência do jornalismo. O chefe precisa entender de administração para fazer a redação andar. Afinal ele vai administrar pessoas, ou melhor, jornalistas, que em sua maioria tem por característica a vaidade.
E não é só isso. Escala de trabalho, definição de viagens, administração de despesas e ser o elo entre a direção da empresa e a redação fazem parte de suas funções. Ele também é quem administra os pedidos que vem de fora e as críticas da população. É algo parecido com um “Serviço de Atendimento ao Consumidor”, seja ele interno (os donos) ou externo (a população, políticos, empresários...).
Acredito que o grande desafio de um chefe é fazer com que a equipe se envolva com o seu projeto de trabalho. Só com envolvimento é que o repórter tem motivação para buscar boas reportagens. Mas na maioria das vezes são poucos repórteres que se envolvem. Boa parte está preocupada apenas em cumprir as pautas.
Não adianta o chefe ser super capacitado se não tiver poder de gerência, se não explorar o máximo de sua equipe, se não souber fazer com que cada profissional se doe para fazer boas matérias. Um chefe é como um treinador de futebol que precisa fazer todo o time jogar em busca da vitória. O detalhe é como num time existem aqueles que acham que a equipe só funciona bem por causa dele. Acha-se a pessoa mais importante (até mais que o chefe) da redação. É o atacante que leva em consideração apenas os gols dele, esquecendo-se das defesas do goleiro. É o jornalista que acha que alguém leu ou assistiu ao (tele) jornal por causa da matéria dele.
Ao chefe, como ao treinador, cabe administrar essa guerra fria de egos, que quando não é bem conduzida causa danos irreparáveis à redação. É preciso ter pulso firme para cobrar e, ao mesmo tempo, humildade para reconhecer e elogiar todo o esforço da equipe.
Fiz todo esse grande preâmbulo para dizer que as faculdades não nos preparam para um dia ser chefe. Alguém pode até dizer que isso se aprende com o tempo. O grande problema é que todo mundo que sonha em ser chefe procura aprender o máximo sobre jornalismo. Esquece-se, aliás, não foi orientado, que a chefia exige - no mínimo - conhecimento em jornalismo, administração e gestão de pessoas. Na verdade somos preparados apenas para ser repórter.
Vez por outra tento fugir das aulas planejadas para debater com meus alunos situações do cotidiano de um jornalista, que vão desde a relação com colegas de trabalho até questões éticas. Faço isso porque gostaria muito que um dia alguém tivesse me orientado sobre questões de hierarquia, postura profissional e outros assuntos. Talvez não tivesse cometido tantos erros. Como tive que aprender na prática...
Acredito muito hoje em dia que a formação na faculdade não deve se limitar apenas aos conhecimentos específicos da área. É preciso preparar o futuro profissional para as questões de relacionamentos pessoais no trabalho, a postura e acredito até que ele tenha que ser preparador para os “não” que vai receber antes de encontrar um emprego. Muita gente desiste no primeiro “não”. Os que perseveram na maioria das vezes tem sucesso.
Precisamos saber – e isso deve ser dito na faculdade – que o profissional não deve desistir nas primeiras dificuldades. Alguém pode até dizer que todo mundo sabe disso. Mas não é bem assim. Já vi alunos desmotivados com a profissão pelo fato de ainda não terem estagiado. E é preciso fazer com que ele volte a ter motivação.
Ainda bem algumas faculdades incluem (e outras estão incluindo) no seu currículo disciplinas como gestão de pessoas e gestão de empresas jornalísticas.
19 junho 2009
O caso do diploma
Enquanto não concluo meu post (estou tentando assimiliar o fato) sobre a decisão - equivocada - do STF sobre a eliminação do diploma para exercer a profissão de jornalismo republico a coluna do Alberto Dines, no Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/):
DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Uma decisão danosa
Por Alberto Dines
Difícil avaliar o que é mais danoso: a crítica do presidente Lula à imprensa por conta das revelações sobre o comportamento do senador José Sarney (PMDB-AP) ou a decisão do Supremo Tribunal de eliminar a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. São casos diferentes, porém igualmente prejudiciais à fluência do processo informativo. E exibem a mesma tendência para o sofisma, a ilusão da lógica.
Fiquemos com a decisão do STF. Embora irreversível, não é necessariamente a mais correta, nem a mais eficaz. A maioria do plenário seguiu o voto do presidente da Corte, Gilmar Mendes, relator do processo, que se aferrou à velha alegação de que a obrigatoriedade do diploma de jornalista fere a isonomia e a liberdade de expressão garantida pela Constituição.
Para derrubar esta argumentação basta um pequeno exercício estatístico: na quarta-feira em que a decisão foi tomada, nas edições dos três jornalões, dos 29 artigos regulares e assinados, apenas 18 eram de autoria de jornalistas profissionais, os 11 restantes eram de autoria de não-jornalistas. Esta proporção 60% a 40% é bastante razoável e revela que o sistema vigente de obrigatoriedade do diploma de jornalismo não discrimina colaboradores oriundos de outras profissões.
No seu relatório, o ministro Gilmar Mendes também tenta contestar a afirmação de que profissionais formados em jornalismo comportam-se de forma mais responsável e menos abusiva. Data vênia, o ministro-presidente da Suprema Corte está redondamente enganado: nas escolas de jornalismo os futuros profissionais são treinados por professores de ética e legislação e sabem perfeitamente até onde podem ir.
É por isso que na Europa e Estados Unidos onde não existe a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, são as empresas jornalisticas que preferem os profissionais formados em jornalismo, justamente para não correrem o risco de serem processadas e punidas com pesadas indenizações em ações por danos morais.
O STF errou tanto no caso da derrubada total da Lei de Imprensa como no caso do diploma. E foi induzido pela mesma miopia.
18 maio 2009
Quase famosos
É compreensível que as pessoas queiram mostrar para amigos, colegas, colegas dos colegas, parentes, ou quem quer que seja, que é um profissional produtivo e está sempre ocupado. Mas daí a transformar o Orkut em diário de trabalho, dá um tempo, né?
Estou falando dos nossos coleguinhas (talvez até um dos autores deste blog, vai saber) que recheam o orkut com fotos do ambiente de trabalho. Aquela galera que se orgulha em postar uma imagem empunhando microfone de TV, fazendo cara de sério enquanto alguém famoso (ou quase famoso) dá entrevista, ou dando uma de tiete mesmo, na cara dura, com alguém famoso (ou quase famoso).
Para mim, todas aquelas fotos de jornalista em ação no orkut são puro deslumbre e só comprovam a tese de que cada vez mais gente entra na profissão para aparecer e não para prestar um serviço.
Pode falar que é amor ao que faz, pode dizer aquela balela de 'o trabalho dignifica', mas porque será que esse mal atinge em cheio aos jornalistas?
Você, usário do orkut, já viu algum neurocirurgião postar uma foto dele na rede durante um processo cirúrgico? Ou um engenheiro postar um cáclulo de matemática inexata e se gabar de ter completado a questão? Tá, tudo bem, vamos facilitar: um nutricionista, um tabelião, um oficial de justiça, um motorista de ônibus, um arquiteto...qualquer coisa!
Mas não. Jornalista tem que propagandear seus passos:
- No dia em que o presidente Lula respondeu minha pergunta na coletiva;
- Vida de jornalista é fogo: acidente da TAM. Esse dia foi demais!;
- Eu, fazendo a passagem;
- Entrevistando Tonho da Venta, em Sucupira.
Talvez minha crítica possa soar rancorosa, principalmente porque ela é direcionada não só aos jornalistas 'aparecidos', mas ao próprio Orkut. Sim, porque no Orkut ninguém é triste, depressivo, infeliz.
Ninguém coloca uma foto lá com umas legendas profundas, tipo:
- Euzinha, no dia que fui demitida;
- Esse dia foi triste, quando descobri que minha tia avó tinha câncer no cólo do útero;
- Ai como tô horrível nesta foto;
- Odeio gente que sorri em foto;
Bom, dá para passar o resto da vida sugerindo anti-legendas para o Orkut.
Mas para mim, não adianta vir com essa idéia de que jornalista tem de mostrar seu trabalho. É, mas não no orkut.
Bueno, para não ser injusto, deixa eu citar algumas situações que não merecem a crítica deste post. Como a história do web designer que conheci. Ele colocou a foto dele em situações absurdas e postou no orkut. Um lance criativo e diferente, e até auto-crítico, porque ele colocou, propositadamente, sua imagem da maneira mais mal feita possível, para brincar com o próprio trabalho.
E tem a história do maluco que cobre política. Ele recolheu umas seis fotos em que apareceu de papagaio de pirata nos jornais com cara de monstro, olhos semi cerrados ou nitidamente perdido, e colocou no orkut. Em metade delas, não dá nem para ver que o cara tá na foto mesmo. Mas foi uma idéia legal. Sutilmente informativo.
Ou o fotógrafo que encheu seus álbuns com fotos de jornalistas trabalhando. É uma espécie de 'arte de fazer um jornal diário'. Não havia ninguém em maior destaque, eram imagens históricas em momentos importantes, como a Assembléia Constituinte de 1988, os caras-pintadas de 1992, morte de Senna, 1994, eleição de Lula, entrevista com o treinador da Seleção Brasileira e por aí seguia o álbum.
Também não condeno as fotos com companheiros de trabalho. Motorista da empresa, cinegrafista, fotógrafo...são companheiros de trabalho mas podem ser amigos, portanto, têm motivos para entrar nos sempre felizes álbuns do Orkut.
Bom, preciso confessar, também, que eu mesmo já caí nesta armadilha do deslumbre, uns três anos atrás. Era uma ocasião super especial, cobertura de um mega evento.
Mas para não ficar como o 'aparecido' da história, criei um fotoblog e ainda coloquei algumas histórias aqui no FIlhos da Pauta, que é um espaço totalmente diferente do Orkut, porque é voltado para o jornalismo e ...nao tem mais que 30 acessos únicos diários.
08 maio 2009
A mídia e as bravatas
Não gosto de políticos. Por um simples motivo: eles mentem. Faz parte da essência política, de sua desenvoltura. Mentir, fingir, teatralizar é a maneira que eles tem de sobreviver. Esqueçam outra alternativa. Não adianta tentar ser um político diferente. Se insistir nisso, for sincero demais e tentar quebrar paradigmas de sopetão, será engolido.
Exemplo recente: deputado Silvio Costa (PMN-PE). No escândalo das passagens do Senado, defendeu as viagens para suas mulheres. Tudo pelo bem do seu casamento. Fez isso abertamente. Assim como o maranhense Pedro Fernandes (PTB), que discursou na Câmara admitindo que deu passagem a quem lhe pediu.
Conheço os dois do tempo em que cobri Congresso Nacional, em Brasília. Costa sempre foi um dos nomes mais polêmicos do baixo clero. Tudo porque sempre tentou falar a verdade, admitindo aquilo que os outros deputados não teriam coragem de falar em público.
Fernandes é mais afeito a articulações. Tem paciência, com a imprensa e com os pares. Mas também defende posições firmes e polêmicas como o nepotismo (ele tinha familiares no gabinete, os considerava competentes e assíduos e, portanto, não vê mal nenhum em empregar parentes) e a flexibilização no uso das passagens.
No tititi mais recente da Câmara, a dupla resolveu falar a verdade. Não deu outra. Foi para o paredão, com direito a segundos no Jornal Nacional. A maioria dos deputados, que defende o uso indiscriminado - ou flexibilizado - de passagens como os dois ai, ficou na moita, fugindo da imprensa, evitando comentar o assunto. Mas eles estavam estufando o peito e sendo sinceros.
Confesso. Por aquilo, admirei-os porque tiveram coragem de dizer o que a maioria ali nunca teve nem nunca terá. Admirei-os não pela forma, mas pelo procedimento. Foram sinceros. Ao acompanhar a repercussão, vi logo que iriam se arrepender. Não deu outra. Costa mudou de idéia sobre levar a mulher em todo voo que pegar. E Fernandes disse que foi mal interpretado.
Pra mim, fica a pergunta: e a mídia, ajudou a moralizá-los ou a continuarem mentindo e omitindo suas opiniões?
30 abril 2009
Na onda do linfoma da Dilma
Qualquer campanha quer sensibilizar para convencer. Seja eleitoral, ambiental, comercial. Nossos políticos, sabidos do jeito que são, se utilizam por vezes de ferramentas que balançam na corda bamba do antiético para sensibilizar e, no final, ganhar votos. Uma dessas artimanhas irresponsável, porém, eficiente, é utilizar o sofrimento humano como cabo eleitoral.
Conheço um deputado que se elegeu com pouco mais de 20 anos de idade após seu pai ter sido assassinado a tiros no meio de uma cidade no interior do Maranhão. O pai, um político famoso. Ele, um rapazote que mal sabia falar (até hoje não sabe direito). Após o crime, tirou umas fotos e colocou seu número nas urnas, pedindo ajuda para fazer a justiça pelo pai morto. Resultado: foi um dos federais mais votados em 2006.
Na reeleição de 1998, a hoje (pela terceira vez) governadora do Maranhão, Roseana Sarney, mal fez campanha. Estava doente. Curava-se de um câncer (outro). Na época, não saiu às urnas, não pediu votos esbarrando ou cumprimentando eleitores. Bastou aparecer na televisão, envolta em uma boa campanha de marketing que lhe apontava como uma "guerreira", sofrida, lutando para sobreviver e para "melhorar a vida do povo maranhense". Resultado: levou no primeiro turno, de lavada.
Agora, aparece no Brasil a pré-candidata preferida do Lula, Dilma Rousseff. Está com câncer linfático. Coisa sério, mas nem tanto, se comparada ao do seu colega de república José Alencar, o vice de Lula. Como descobriu no começo, o linfoma dificilmente irá matá-la. Mas vai ajudá-la a ganhar alguns votos.
Sabida do jeito que é, tratou de divulgar a doença para sensibilizar a mídia e o eleitorado. Tudo com ajuda do presidente Lula. Está conseguindo. Sobretudo porque conta com a ingenuidade dos meios de comunicação. Podem reparar. Todos caíram nas graça do linfoma da Dilma. Todos os dias falam nisso na TV, nas rádios e jornais. E perguntam ao Lula. E perguntam aos ministros. Até o Dirceu sentiu pena da sua substituta na Casa Civil.
Deram audiência a sua doença e estão ajudando a elegê-la em 2010. Coincidência ou não, o Data Folha saiu às ruas dois dias depois do Brasil saber que a "madrinha do PAC, preferida do Lula e pré-candidata à presidência" estava com câncer.
24 abril 2009
Retroceder nunca. Render-se, jamais!
Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:
- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?
Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.
- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...
O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.
É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.
Tudo é motivo para desmoroná-la:
Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...
Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.
Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).
Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.
O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:
- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.
Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?
Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.
Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.
Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.
Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.
Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.
Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!
16 março 2009
Testemunhas da história
Era dia 17 de fevereiro quase 20h30. Entro na sala 20 minutos atrasado para da aula de Técnica de Entrevista e Reportagem. A maioria dos alunos está com o fone no ouvido. Todos acompanham pelo rádio o julgamento pelo TSE dos embargos declaratórios do então governador Cássio Cunha Lima.
Também acompanhava o julgamento, mas pela tevê, motivo que me fez chegar atrasado à universidade. Era o dia do voto do ministro Arnaldo Versiani, que tinha pedido vistas no processo de cassação do governador. Naquela noite o destino político da Paraíba poderia ser decidido com a confirmação ou não da cassação do mandato de Cássio.
Por mais que me esforçasse não conseguia envolver os alunos (nem eu conseguia) com o assunto da aula. Vez por outra surgia um comentário, uma parcial sobre os votos dos ministros que acabaram por confirmar (por unanimidade) a perda do mandato do governador. No meio da votação, sem clima para a aula comentei:
- Nós estamos acompanhando um momento histórico. Independente do resultado do julgamento. Nós jornalistas somos historiadores que escrevem a história na medida em que ela vai acontecendo.
- Professor, que interessante. Nunca tinha olhado por esse ângulo. Essa frase é sua? , questionou uma aluna.
- Éééé...não sei acho que sim. Não, acho que não. Bem. O importante é termos a noção que estamos escrevendo para a história porque daqui a dez, vinte anos quando alguém for pesquisar sobre essa cassação vai se basear no que os jornais escreveram, no que nós escrevemos. Daí a nossa responsabilidade.
Fiquei confuso em responder se a frase era minha porque no fundo eu apenas resumi o que o grande Pedro já tinha abordado, mesmo que de forma menos específica, no post Sobre a Verdade.
Se olharmos para o futuro teremos uma pequena noção de que como será difícil saber se os registros dos jornais são verdadeiros. Não diria que são mentirosos. Mas é comum ver duas interpretações para a mesma notícia. E lógico que isso está relacionado a fatos políticos. Se o jornal é ligado a um grupo político ele vai trazer a notícia (de certa forma) beneficiando seu aliado. Se o jornal não é a notícia vai trazer tudo que é de ruim relacionado ao assunto.
Já imaginou como será alguém que não viveu a história saber onde (em qual jornal) está a verdade?
O trabalho do jornalista vai além de escrever notícias. Ele escreve também a história.
11 março 2009
Dinheiro na internet
Tenho um texto pronto, mas decidi não publicá-lo agora (será o próximo) porque nos comentários do post anterior o grande Mário levantou uma questão sobre a internet, que é o fato de que ninguém (ou quase ninguém) saber ganhar dinheiro com jornalismo na rede. Quando li o texto a seguir (na internet, lógico) achei que se encaixa no tema e pode ser uma saída para fazer dinheiro na net. O texto é de Carlos Castilho, publicado no Observatório da Imprensa:
Projeto inovador testa fórmula para a sustentabilidade financeira no jornalismo online
Carlos Castilho em 1/3/2009
Uma despretensiosa experiência de financiamento de páginas noticiosas na Web começa a atrair a atenção tanto dos weblogs individuais como dos grandes jornais que publicam notícias na internet.
Trata-se do projeto Kachingle, cuja meta é criar uma ponte entre a cultura da gratuidade, predominante entre os internautas, e a sobrevivência financeira, tanto de páginas individuais como de sites de empresas jornalisticas de grande porte.
A busca da sustenatibilidade financeira desafia as cabeças pensantes da internet porque, até agora, quase todas as experiências de pagamento de notícias online não deram certo e tiveram que ser abandonadas.
O Kachingle (uma palavra que não está nos dicionários) cria um sistema onde o usuário abre uma conta em dinheiro e vai distribuindo pagamentos pelos sites que visita conforme suas preferências e necessidades. Os pagamentos são feitos quando o usuário clica no ícone do projeto na página visitada. O valor é imediatamente abatido da conta.
A primeira vista o sistema parece ingênuo e até utópico. Mas sua criadora, Cynthia Typaldos, uma experiente desenvolvedora de softwares e iniciativas comunitárias na Web, conseguiu atrair a atenção de quase todos os executivos de comunicação numa apresentação que ela fez do projeto na Public Media Conference, agora em fevereiro, em Atlanta, na Georgia (EUA).
O lançamento do Kachingle acontece num momento em que a discussão sobre a sustentabilidade de projetos jornalísticos na Web norte-americana tornou-se o tema de quase todos os weblogs e páginas voltadas para a cobertura da crise na imprensa dos Estados Unidos.
O modelo desenvolvido por Cynthia Typaldos baseia-se na combinação de um software relativamente simples com tendências comportamentais dos consumidores de notícias na Web. Esta é a grande incógnita do projeto, porque seu sucesso vai depender basicamente da capacidade de captar atitudes dos internautas e adequar-se a elas.
A esmagadora maioria dos usuários da Web em todo mundo segue a cultura da gratuidade, principalmente em matéria de notícias. É uma conseqüência da avalancha informativa que criou uma sobre-oferta de informações, o que reduziu o seu preço a quase zero, seguindo as leis clássicas da oferta e da procura.
Isto criou um dilema para as empresas jornalísticas e também para os weblogs individuais. As empresas já não têm mais dúvidas de que devem investir na internet porque ela é o ambiente para a circulação de dados, fatos e notícias. Mas elas não conseguiram desenvolver até agora nenhuma fórmula capaz de conciliar a avalancha informativa com sustentabilidade financeira.
A criadora do Kachingle admitiu que seu projeto visava inicialmente oferecer uma alternativa financeira para os weblogs, sem ter que obrigar os usuários e fazer dezenas de assinaturas ou passar pelo aborrecimento de pagar por cada página que chamar a sua atenção. Está má vontade ficou clara com o fracasso dos projetos de micro-pagamento feitos por jornais como o The New York Times, que abandonou, após sete meses de experiências, a cobrança para a leitura de seus cronistas especializados.
A iniciativa ganhou as manchetes dos sites especializados depois que os jornais passaram a vê-la como uma opção também para a grande imprensa online.
As pesquisas recolhidas por Cynthia Typaldos, ao longo dos seus quase 15 anos de trabalho com projetos comunitários na Web, indicam que os usuários aceitam pagar por aquilo que consideram importante desde que o custo seja razoável e que o pagamento não seja uma operação complicada.
Os internautas retribuem financeiramente as iniciativas com as quais eles se identificam, como ficou materializado nos resultados surpreendentes na coleta de fundos nas campanhas eleitorais de Howard Dean e Barack Obama, em 2004 e 2009, respectivamente.
O Kachingle é um aplicativo baseado também na teoria do crowdsourcing. O valor médio das contas de cada usuários deve ficar em torno dos cinco dólares por mês, segundo estimativa de Cynthia. O valor recebido por cada página visitada pode ser estimado em centavos, mas se levarmos em conta que a tendência é o crescimento exponencial no número de pessoas conectadas à Web no mundo inteiro, a soma dos centavos pode alcançar valores expressivos.
O pagamento é voluntário e o acesso à página não está condicionado a nenhum tipo de contribuição. Se adotarmos a lógica usual, fica difícil acreditar que as pessoas paguem por algo que podem obter de graça. Mas o comportamento dos usuários da Web não pára de gerar surpresas que contrariam todas as rotinas e valores tradicionais. O Kachingle aposta nesta perspectiva.
27 fevereiro 2009
Duas realidades
Os jornais dos Estados Unidos agonizam. Os brasileiros, comemoram recordes de vendas. Lá, eles debatem fórmulas de como voltar a atrair os leitores. Aqui, só se pensa em maneiras de conseguir mais dinheiro do governo.
Até o jornal mais influente do mundo, o New York Times, sofre com a crise do mercado. O Chicago Tribune está para pedir concordata. Com ele, iria o Los Angeles Times, que é do mesmo grupo. Bem mesmo, nos Estados Unidos, está o Wall Street Journal. Coincidência ou não, ele é voltado para o mercado financeiro.
O Brasil registra o boom dos jornais populares. Baratos, de leitura fácil, rápida e de conteúdo diversificado. Há alguns anos eles vendem mais que os grandes, Folha, Estado, Globo, e inspiram a criação de mais jornais neste estilo.
Um ex-editor da revista Time, nos Estados Unidos, acredita que o problema dos jornais impresso dos EUA é a internet. Ele propõe deixar de lado esse blablablá de que os impressos precisam mudar e sugere uma criação de um Inews: uma espécie de Ipod de notícias. Não o aparelho em si, mas a venda de notícias por centavos. Você entra no site do NYT e vê uma manchete sobre o Afeganistão que te interessa? Clica lá, paga X centavos pela notícia e lê.
Os leitores estão sendo cada vez mais esquecidos no processo jornalístico "verde-amarelo". O que importa hoje é faturar. Como a iniciativa privada não é suficiente para bater metas orçamentárias, o grosso da receita dos jornais vem dos cofres públicos. Mas essa verba não vem em forma de anúncios, e sim de artigos jornalísticos, reportagens assinadas e tidas como verdadeiras. Muitas vezes são verdadeiras, mas só interessam a quem está pagando. O jornal deixa de prestar um serviço ao leitor e por consequência à cidade, e passa a se transformar num balcão de negócios. Loteando e revendendo linhas do jornal para propaganda do governo.
O NYT escandalizou seu público ao estampar um anúncio na capa do jornal. Jamais o jornal havia permitido o departamento comercial "contaminar" o jornalístico em sua área mais nobre, a capa do jornal. Mas ou era assim, ou rolava demissões. Os jornalistas entenderam. Aparentemente. Já os leitores...
Assim como no Brasil, os jornais do Reino Unido e da Espanha também registraram aumento na tiragem e publicidade nos últimos anos. Diferentemente daqui, eles fazem um trabalho efetivo visando a convergência de mídias. Estão aí as versões on line do Telegraph, do El Mundo e do Guardian para não me deixar mentir. No Brasil, o máximo que se faz é repetir conteúdo do impresso ou apresentar um áudio ou um vídeo na internet (repetitivos) para dizer que está se adaptando à nova realidade.
Como se vê, o cenário jornalístico internacioal está bem polarizado.
Resta saber qual dos lados é mais cruel.
11 fevereiro 2009
Corrida pela informação
A internet exige informação rápida. Nem que a notícia tenha poucas linhas sobre o assunto. O ideal é não levar furo.
Essa corrida desenfreada pela notícia faz com que, vez por outra, apareça uma barrigada nos portais. Quando isso acontece na maioria das vezes o editor muda a notícia para a versão correta. E só quem percebe o “erro” são os leitores que viram as duas versões.
Os portais de notícias também colocam em xeque os outros veículos. É comum o repórter (seja de tevê ou de impresso) ser questionado sobre uma informação que está num site e ele não trouxe na matéria. Na maioria das vezes acontece que ao ir ao local do fato o repórter descobre que as informações publicadas no portal são inverídicas.
Só para exemplificar. Semana passada um portal paraibano publicou que bandidos haviam roubado o Banco do Brasil de uma cidade do interior e na fuga teriam deixado cair malotes com o dinheiro. Cheguei à redação:
- Pessoal vamos checar uma informação. Acho que levamos um furo ‘brabo’. Roubaram o BB da cidade de Arara e os bandidos perderam parte do dinheiro na fuga. Vamos atrás.
Minutos depois, uma produtora traz a resposta:
- Realmente houve um roubo na cidade. Mas foi a uma casa lotérica. E roubaram somente 1200 reais.
Uma história bem diferente da publicada.
No meio da semana uma prova de fogo para todos na redação. Um jogador do time do Esporte (da cidade de Patos) havia desaparecido. O pai encontrou a camisa e o carro do atleta na margem de açude do sítio da família. Suspeita de afogamento.
A notícia que deveria ir ao ar (no caso da tevê) era sobre o desaparecimento do atleta e da presença do Corpo de Bombeiros no açude procurando o corpo.
Perto de 11h recebemos a informação do fato. Cinco minutos para o jornal (que começa às 11h10) conseguimos gravar um áudio tape. Logo em seguida começaram as ligações para saber se o corpo ainda não havia sido encontrado. Segundo eles todos os sites publicavam que sim. Teve até uma informação (por telefone) de que o corpo já estava sendo velado.
Segurei a informação de que as buscas continuavam, mas nenhuma novidade. Seguindo a norma do “confiar, desconfiando”, colegas pediram uma checagem mais apurada. E continuaram até eu dizer que se o corpo havia sido encontrado os pais ainda não sabiam, pois eles estavam ao lado da nossa repórter.
Por volta das 15h os sites já se retratavam da barrigada com a notícia de que “Bombeiros e o Departamento de Medicina desmentiam que o corpo tinha sido encontrado”.
Somente quase 24 horas depois o pai encontrou o corpo do filho boiando no açude.
Embora todas as evidências levassem para um afogamento a morte só poderia ser confirmada com o achado do corpo.
A internet tem a possibilidade de publicar uma informação e depois corrigi-la. Não é correto. Mas acontece.
O jornal é fechado à noite. No caso em questão, o pessoal teria toda a tarde para apurar a informação.
Bem diferente de tevê que não teria como corrigir uma informação errada que fosse ao ar.
Boa parte da imprensa matou o jogador antes da hora.
Já imaginou se o rapaz aparecesse vivo?
Às vezes é melhor arriscar levar um furo e dar uma informação segura que cometer uma barrigada.
Corrigir o erro sempre afeta a credibilidade.
03 fevereiro 2009
Quem aceita crítica
Aqueles que mais destilam suas críticas são os que menos aceitam críticas. Sim, os jornalistas são avessos a comentários contra seu próprio trabalho.
Alguma coisa neste sentido já foi dita dois posts atrás, sobre a vaidade jornalística.
Eu mesmo passei por uma situação semelhante há dois anos, aqui neste blog. Fiz um comentário sobre o vencedor do Prêmio Esso de 2006 inocente, sem segundas intenções, sem duplo sentido. Apenas um relato da conquista do prêmio, e recebi um comentário anônimo pedindo para eu me explicar melhor.
Fiquei p*to da vida e rebati o comentário. De réplica e tréplica, o post chegou a 14 comentários, quase um recorde para esse humilde e (agora) esquecido espaço. Em uma das respostas do anônimo, ele disse "Daniel, acompanho o blog há algum tempo e não fiz crítica alguma ao seu texto, apenas pedi para que sua opinião fosse um pouquinho mais aprofundada".
É difícil ver jornalistas que seguram a onda diante de críticas. Eu mesmo, nesta história do Esso, me embananei todo com as idéias e com a pressão dos anônimos. Comecei a escrever errado, a falar besteira, mesmo reforçando que estava apenas contando uma história e não julgando a conquista de ninguém.
Anyway, ainda há os que gostam de brigar. Partem para a agressão verbal, às vezes física, diante dos comentários negativos sobre seu material publicado.
Não entender e não dar ouvidos aos críticos faz parte daquela máxima jornalística cujos problemas do jornal são "os leitores e os anúncios".
Uns quatro anos atrás, mandei um email para um jornal da Paraíba reclamando que a repórter confudiu as bolas e errou informações. Era para falar sobre alhos e ela escreveu sobre bugalhos. O editor do jornal me respondeu rispidamente com as seguintes palavras:
"É incrível como as pessoas gostam de se meter em certos assuntos..."
A culpa era minha por apontar o erro.
Acontece muito com produtos recém-lançados. Há todo um planejamento de marketing, estudo de mercado e tendências do público para que aquele jornal ou programa de TV seja lançado da melhor maneira possível. Aí vem uma cartinha para o editor dizendo que o jornal é apelativo ou sei lá qualquer coisa que não fora prevista no estudo dos marqueteiros.
A redação se desespera com o comentário e nos dias seguintes toda pesquisa de campo pré-lançamento vai por água abaixo. Por quê??? Uma alma bondosa se pronunciou sobre o produto.
Até cinco, oito anos atrás, quando os blogs jornalísticos não eram tão populares, a distância do repórter para o público era infinita. Não se via, não se ouvia, não se lia nada do lado de lá, para quem interessa a notícia. Era preciso contar com a disposição do leitor de escrever uma carta, ir ao correio, mandá-la para a redação e torcer para ser publicada. Se fosse crítica, não seria compreendida.
A história está bem diferente hoje em dia. Graças à internet, o público se sente na obrigação de participar do processo. Não só criticando, mas sugerindo, cobrando, indicando, perguntando, respondendo...
Eu, como jornalista, ainda tenho dificuldades em assimilar as críticas. Mas ainda assim gostaria de contar com elas sempre.
27 janeiro 2009
A arte de fazer um jornal diário
Política
O _______ (presidente/governador/prefeito) assinou hoje um convênio que vai _______ (beneficiar/prejudicar) aproximadamente _____ (10/ 100/ um milhão) de moradores de ______ (João Pessoa/ Brasília/São Luiz/São Paulo) na área de _______ (saúde/educação/segurança).
Cidades
Uma carreta ______ (tombou/bateu/saiu da pista) na tarde de ontem na _______ (Marginal Pinheiros/EPTG/BR 230) e deixou o trânsito congestionado. Com a batida, _______ (1/2/3/5/9) pesssoas ______ (morreram/ficaram feridas) e _______ (1/2/3/5/9) pesssoas (morreram/ficaram feridas).
Cultura
O _______ (espetáculo/filme) entra em cartaz _______ (hoje/amanhã/depois) na cidade. Ele conta a história de _________ (um casal apaixonado/uma briga entre famílias/uma criança pobre abandonada) que luta para _______ (viver um grande amor/ manter a honra da família/para não morrer de fome). O ______ (espetáculo/filme) tem a direção de _______ (Walter Avancini/Ivan Padilha/José das Couves).
Esporte
O Estádio _________(Morumbi/Mineirão/Ilha do Retiro/Almeidão) será palco hoje do jogo entre __________(São Paulo x Palmeiras/Atlético-MG x Cruzeiro/Sport x Náutico/Botafogo-PB x Auto Esporte). A partida é válida pela ______ (1/2/3/4/5/6) rodada do campeonato estadual. Os dois técnicos tem desfalques.
Viu como é fácil fazer um jornal diário?
Basta preencher as lacunas...
25 dezembro 2008
Da vaidade jornalística
A maior causa de mortes entre os jornalistas é o suicídio. Quando eles se atiram do alto do próprio ego.
Superestimar a profissão e sua posição dentro dela é quase que uma questão de sobrevivência. Aparece mais quem se vende melhor... (talvez por isso a gente mantenha este blog...ou não!!!!!)
Como jornalista só anda junto, não é raro participar de um papo no qual o assunto principal são as proezas pessoais.
Nesta hora, amigo velho, tudo conta. Desde a sua pergunta feita na coletiva de imprensa cuja resposta acabou virando manchete em todos os jornais, até o caso extremo de derrubar ministro, senador, governador por intermédio de seu esforço de apuração/investigação. Já houve até quem me reclamasse que leitores de jornal não prestam atenção no nome de quem assina as matérias.
O orgulho do furo dado marca a vida do jornalista. Independentemente do tamanho. Foi furo? Vira uma longa história para repórteres mais novos ou amigos de bebedeira pós-plantão. Ou posts...
Dia desses, joguei duas iscas e pesquei dois peixes gigantescos.
Entrei no blog do repórter X e comentei, com desdém, de um furo que ele se gabava de ter publicado naquele dia. Coloquei meu nome lá e tudo mais, mas sem sobrenome e meu outro email. Sem me esconder, fui lá e tasquei:
- Olha, X, se esse 'furo' for uma barrigada, você vai se retratar no jornal.
Eu, como jornalista que sofre do mesmo mal, tinha certeza de que eu estava certo e fui lá na casa do cara provocá-lo. Ele respondeu rispidamente:
- E se eu não estiver errado, Daniel, o que você vai fazer?
Dias mais tarde, o tal do furo virou um tremendo de um track e voltei ao blog do camarada, desta vez com "possidônios" (leia-se: pseudônimos), para cobrar a história. Na primeira vez que comentei, X tentou se justificar. Na segunda, não respondeu. Na terceira, nem autorizou a publicação do comentário.
É difícil admitir que errou.
O outro peixe que peguei foi com um repórter do mesmo veículo de X. Era a primeira vez que conversávamos. Atuamos na mesma área e ele rolou a bola para eu contar a história de um único furo que eu dei na vida.
Inteligentemente (às vezes eu calculo bem meus movimentos. Às vezes) citei minha história sem auto-propaganda, mas no meio da minha explicação o concorrente soltou essa:
- Ah, sim, eu dei esse furo...
Quer dizer, a história eu publiquei primeiro. Ele, duas semanas mais tarde. Mas o repórter rival tomou para si o furo e ainda veio me dizer que era furo dele.
Eu vibrei com essa declaração. Era o argumento que faltava atualizar este blog com a tese da vaidade.
Estou para descobrir qual jornalista não sofre deste mal.
16 dezembro 2008
Precisamos de mulheres peladas?
Após duas semanas, ja estou mais adaptado o mundo do jornal popular. Tentarei até escrever um texto curto aqui, para ser coerente com a produção do nosso Aqui-MA (hehehe). Falando nele, contarei minha mais recente experiência. Como vocês observam no título acima, o episódio fala de mulheres. A pergunta é: "Mulheres (quase) peladas, precisamos delas?".
Quando cheguei ao Aqui-MA, vi que, por um entendimento da circulação e respaldo da direção, o pessoal estava abusando daquelas modelos (que sempre 'decoram' a capa de jornais populares). As 'gatinhas' estavam sem arte e caminhavam pela estrada da pornografia (muito peladas em posições pesadamente tentadoras). Além disso, ocupavam quase meia página de tablóide (desperdício de papel?).
Olhei e pensei: não temos notícia? Nosso jornal virou folhetim para divulgar 'gostosas' desconhecidas? O que é pior? Não valorizarmos nossa produção ou fazermos um jornal machista?
Na primeira reunião com 'a cúpula' da empresa, enumerei as falhas que encontrei no jornal e argumentei o seguinte: existem jornais e mais jornais populares. Uns são muito ‘escrachados’, popularescos e sanguinolentos. Outros mais comedidos, úteis e cuidadosos. O que vocês querem? 'Queremos um popular sério', me responderam. "Mas não podemos tirar a mulher. Ela ajuda na venda. Se quiser, pode diminuir", ordenaram.
Oka, chefes!
No meu primeiro e tenso dia de trabalho, assumi a edição da capa e mudamos um pouco o formato. Mais cores, mais chamadas. Diminuímos um pouco a mulher e colocamos nela uma razoável e necessária quantidade de roupas. Mas continuava mais para 'tamanho G' do que para o 'tamanho M'.
Temia que as vendas caíssem e meus argumentos para mudança fossem logo desbancados na primeira semana.
Estava tenso e saí pela empresa colhendo opiniões. Da direção, tinha o tamanho certo que deveria usar a modelo. Fui ao setor de circulação. Perguntei a eles o que estavam achando do jornal e se aquela mulher era mesmo necessária, daquele jeito. Para minha felicidade, me disseram que ela "estava muito exagerada", "pelada demais" e as pessoas reclamavam.
Ótimo. Se a própria circulação (que só quer saber de vender jornal) discorda do tamanho da 'dita cuja' da capa, não sou eu que vou concordar. Mas não estava convencido. Pedi a eles, então, que marcassem para nós uma reunião com 10 jornaleiros e distribuidores. De preferência, um de cada bairro, para melhorar a amostra. Queria ouvir a voz das ruas.
A reunião foi marcada. Em vez de 10, vieram oito. Um deles era mulher. Conversamos bastante sobre todos os aspectos do jornal. Para minha felicidade, todos criticaram a nudez da "menina da capa" e disseram que "muitas pessoas não compram porque se sentem ofendidas". No final, cada um deles foi unânime em me afirmar que 70% dos leitores do Aqui-MA são mulheres. Fiquei muito surpreso.
Saí da reunião, diminui mais ainda a dimensão da modelo e passei a colocar uma ou outra boa chamada sobre celebridades na capa.
***
No fim da semana passada, o chefe da venda avulsa do jornal me ligou. "Olha, estou com os dados relativos à sua primeira semana de trabalho". E ai?, perguntei, ansioso. "O encalhe diminuiu de 8% para 7% e o repasse aumentou. A tiragem também aumentou em três mil jornais", me disse. Sorri aliviado. A "menina da capa" não é a principal responsável por nossas vendas.
Ps: Perdão! Não consegui escrever pouco. Tentarei na próxima.
08 dezembro 2008
A fórmula da circulação?
Pedro Henrique Freire
Semanas atrás peguei os dados do IVC de outubro para dar uma olhada curiosa e vi lá que com mais de 360 mil exemplares vendidos por dia, o impresso campeão de circulação no país chama-se Super Notícias, de Minas Gerais. É um jornal popular, daqueles que quase nunca são repercutidos nas tribunas do Congresso Nacional e pouco influenciam as grandes emissoras e os jornais de forte influência.
Dias depois comprei um exemplar e logo vi a fórmula que lhe fez circular tanto: preço, promoção e muita informação. As matérias são curtas. Falam muitos dos problemas dos bairros e dos crimes que chocam a cidade. Repercutem as boas novas do mundo das celebridades e fazem sempre uma cobertura quantitativa dos fatos esportivos.
O preço? 25 centavos. Mixaria. Sem dúvida, um jornal que vale muito mais do que custa. Sem falar no seguinte: se você comprá-lo 60 vezes e se der ao trabalho de recortar e guardar os selos impressos na capa, vai ganhar um aparelho de DVD. Eu, que gosto mesmo é de saber com profundidade sobre assuntos importantes, leria com certeza aquele jornal diariamente. Me rendia a ele e sua fórmula.
Ela, por sinal, não é privilégio do Super Notícias. É muito usada por milhares de jornais pelo Brasil e pelo mundo. E está sendo reproduzida há um bom tempo nas principais capitais do país (veja o Extra e O Dia, no Rio; o Agora e o Jornal da Tarde, em São Paulo).
Pois é. Falo tudo isso porque, no último mês, me debrucei para estudar esses fenômenos. Tudo porque deixei Brasília e voltei para minha cidade para editar justamente um jornal popular, o Aqui-MA. Assumi há uma semana, com um frio na barriga e a responsabilidade de colocar qualidade num diário que já vende 30 mil exemplares por dia.
Não foi difícil entender. O que está sendo mais complicado é me livrar dos vícios do jornalismo tradicional para me reinventar dentro dessa vertente. Fazer jornal popular é diferente, exige mais criatividade para títulos, um faro para coisas curiosas e muita disciplina no cumprimento do projeto gráfico estabelecido.
Basicamente, suas páginas devem ter três coisas (aprendi isso no livro "Confissões de um FdaP", de Al Neuharth, fundador do US Today): 1 - uma manchete que prenda o leitor; 2 - uma matéria que ajude o leitor; 3 - e uma foto boa de uma mulher ou alguém de alguém de uma minoria. Se conseguimos colocar isso todos os dias, as pessoas vão ler.
No Aqui-MA - que é, disparado, o jornal mais vendido do estado - inciamos na primeira semana o que batizei de "processo de bairrificação" (de bairro) do jornal. Mesmo vendendo bastante, percebemos que o conteúdo não estava bom, não interagia com os leitores, com seus bairros e funcionava mais para propagar a violência e a insegurança do que propriamente para contribuir para as milhares de pessoas que pagam os 25 centavos para lê-lo.
Estamos no meio deste processo. Aliado a isso, preparamos um mudança mais importante: o formato do Aqui-MA passará de tablóide para o berlini (que eu chamava ingenuamente de 'mini-stander'). Isso vai ocorrer na primeira semana de janeiro. Com ele, vem a mudança do projeto gráfico, que ficará mais colorido e melhor diagramado.
O essencial, porém, é que essas mudanças não atingam de maneira negativa o leitor, já acostumado ao formato atual. Ai entra uma boa campanha de marketing, com tizer´s para anunciar a boa nova e segurar a venda. Sem esquecer que o melhor marketing sempre será o conteúdo local, que faça do jornal o espelho da comunidade onde circula.
27 novembro 2008
Estão enterrando o jornalismo
Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de "crise econômica", eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.
O jornal é de São Paulo. Poderia - perfeitamente - ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse "notícias interessantes"? Em nome da verdade, retiro o que disse.
Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.
O que o jornal me dizia, nos títulos? Que o São Paulo "abre cinco pontos sobre o Grêmio". Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. "Chuvas em Santa Catarina matam 20". Que novidade! "Obama divulga nomes de cargos-chave". Que novidade! "EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup". Que novidade!
Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.
Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.
De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era "novidade" para mim: "Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase". Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.
Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pela mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?
Os autores dessas obras-primas ( primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso. É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.
Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.
Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.
Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.
Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto "derrubar" uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer: "ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto"; "ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido" e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos ? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar - e oferecer ao publico - uma história ? Haverá sempre uma saída!
A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.
Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.
Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres.
(um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei - de memória - uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nos zoológicos jornalísticos. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco....Quá-quá-quá).
Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso (zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar - por exemplo - providências estritamente "técnicas": em vez de repetir papagaiamente (**) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.
Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia,sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios.
Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia "São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio". Por que não algo como "TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO" ou "JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV"? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável - um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas.....o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.
Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança.
Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia....
Estão loucos.
Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.
Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.
(**) Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.
(*) Jornalista - texto retirado do blog www.geneton.com.br
14 novembro 2008
"Ligue para a assessoria do prefeito"
A minha última missão no trampo era completar a matéria que uma repórter frila deixou incompleta. Com o rescaldo das eleições municipais, eu deveria entrevistar um prefeito negro eleito no mês passado e reescrever partes do que a colega tinha deixado para o editor. Tarefa relativamente simples. Escolhi o prefeito que tinha o perfil mais próximo da pauta e comecei o trabalho para localizá-lo.
Comecei pelo começo, como dizem por aí. Liguei para a assessoria de imprensa do prefeito. "Manda um e-mail com as informações", foi a resposta que eu tive. Percebi na hora que queriam postergar ao máximo a análise do pedido de entrevista. Mandei o e-mail e corri por fora para conseguir o telefone do dito cujo. Liguei para o diretório estadual do partido dele e depois para o municipal. Ambos me passaram o número da prefeitura.
Foi aí que tive a idéia de conversar com algum colega que cobrisse política local na cidade do interior de São Paulo. Liguei para o maior jornal procurando por alguém da editoria. Depois de vários ramais errados, atende uma moça. Eu explico a história, e ela, com muita raiva, responde que "aqui não é a assessoria dele. É o jornal da cidade. Ligue para a assessoria do prefeito".
Eu contei mentalmente até 10 para não xingar a coleguinha. Respirei fundo e expliquei tudo novamente. "Sou repórter aqui em Brasília, do site tal. Já liguei para a assessoria do prefeito, e eles estão enrolando para dar resposta. Por isso, liguei para o jornal, na esperança que um colega que cubra política local pudesse me passar o telefone do prefeito ou dar alguma dica sobre como conseguir."
Transbordando de má vontade, ela soltou um "humpf, espera aí" e me transferiu para outro ramal. Aí atendeu outro colega, com um pouco mais de boa vontade. Disse que a assessoria do prefeito era assim mesmo, que o alcaide até atendia bem a imprensa, mas seus assessores tinham um controle rígido do que e quando ele falava. "Nós cobrimos 10 cidades aqui no jornal. Tenho o celular de nove prefeitos. Advinha qual eu não tenho", disse o colega. Depois de me dar umas dicas, agradeci e desliguei.
Essa historinha toda para comentar sobre o coleguismo na profissão. Vivemos uma época onde as redações estão cada vez mais enxutas e a cobrança não pára de crescer. Uma coisa é fazer pool - o grande Pedro já havia escrito isso por aqui, mas não achei o texto para linkar -, outra é ajudar um colega com um número de telefone e umas dicas. Tem uma grande diferença.
Apesar de não fazer, não sou contra o pool. Isso é muito comum entre setoristas, que sozinhos têm o dever de não deixar passar nada sobre um determinado assunto. Então os repórteres se reúnem e trocam figurinhas sobre o que apuraram. Chegam até a dividir a apuração, como se trabalhassem no mesmo veículo. Eu acho um pouco demais, mesmo reconhecendo que a pressão pode ser absurda.
Agora, se o colega precisar ajuda, eu não nego. Não tenho frescura em passar o telefone celular de uma fonte. Não é isso que vai fazê-la deixar de me passar informações. Tem gente que acha isso. Salvo, claro, se ela me passou a recomendação de não distribuir o número.
No ano passado, quando estava no antigo trampo, entrei na cobertura de um caso de repercussão nacional. Um golpista decide matar amante propondo um pacto de morte para ela. A vítima toma o veneno de rato, passa dias no hospital e acaba morrendo. Ele, que não tomou estricnina, foi preso logo depois da morte da ex-amante.
Vieram a Brasília repórteres de vários lugares do Brasil par a entrar na cobertura. Aí um colega do Rio, do jornal Extra, me liga na quinta à noite. Eu passo todas as dicas para ele, números de telefone e relato como vai ser minha matéria no dia seguinte. Ele chega a Brasília, me liga pela manhã e pergunta o que eu pretendia investigar. Eu digo a linha de apuração e desligo.
Chego na redação, ligo para o delegado responsável pelo caso. Ele pede para eu ligar mais no meio da tarde. Logo depois, saio para almoçar. Uma hora depois, quando voltei, o colega me liga de novo. Travamos o seguinte diálogo:
- Mário, onde você está?
- Na redação, acabei de voltar do almoço.
- Cara, então corre aqui para a delegacia. O delegado trouxe o golpista para falar com a gente!
- Sério? Eu falei com esse fdp há uma hora e ele não me disse nada disso!
- Olha, só tem imprensa nacional por aqui.
Na hora eu saquei o que o delegado queria. Inebriado pela repercussão nacional do caso, decidiu dar preferência para os veículos nacionais ou de outros estados. Corri para lá, quando cheguei, o golpista já tava falando com o Fantástico e com o Domingo Espetacular. Por sorte, nenhum deles sabia o inquérito de trás para frente como eu.
Por ser de fora, o colega não tinha motivo algum para retribuir os favores. No dia seguinte ele iria embora e nunca mais teríamos contato em uma cobertura factual. Mesmo assim, ele não deixou de retribuir. E, por causa dele, garanti uma matéria diferenciada da concorrência local, sem precisar do pool. Só na base do coleguismo.