14 outubro 2009

A escandalização da falta de notícia

Pedro Henrique Freire

A denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney, e sua família, têm fundamento. Não tivessem, o processo da Polícia Federal não teria tantas páginas. Sob censura, o Estadão teve de calar-se. Calaram-se também outros jornais. Até tinham acesso ao conteúdo sigiloso, mas não compraram a briga.

A Folha, no último domingo, comprou e voltou a carga contra a sarneyzada. E o que é notícia lá é também no Maranhão. Ai que entram em ação os reprodutores. Aqui está cheio deles. Ninguém apura nada. Todo mundo copia. Mas o histórico Jornal Pequeno (admirado e odiado por ser o 'braço armado' do antisarneísmo) vai além.

É um jornal que coloca a própria notícia como sujeito da notícia. Ou seja, além de ser reproduzida, a matéria que descreve o fato se transforma no próprio fato. Vejam o exemplo na chamada de capa desta quarta-feira:

Solidariedade ao Estadão deixa José Sarney mais encrencado

O Estado de São Paulo está sob censura prévia há mais de 70 dias. Esta arbitrariedade judicial poderia ter sido imediatamente estancada e desmoralizada se algum dos grandes jornalões brasileiros tivesse encarado os censores do Superior Tribunal de Justiça de Brasília e publicado o que faltava do relatório da Polícia Federal sobre as estripulias do clã Sarney. Os capangas do presidente do Senado – e nem o próprio – teriam a coragem de estender as sanções ao Globo e à Folha de S.Paulo. Demorou, mas aconteceu: a Folha, enfim, saiu da toca em que se abrigou desde o início de fevereiro, quando o seu dileto colaborador tornou-se o protagonista da mais aberrante coleção de escândalos da nossa história legislativa.


Entranho? No mínimo...

Para mim, são duas coisas: falta de notícia e pura ideologia perseguidora. Ocorre quando a política engole os jornais. Quando jornais desrespeitam leitores publicamente. Quando, na ânsia de gerar escândalo, se escandaliza a falta de notícia. Ou a falta de repórteres e de apreço pelo jornalismo.

Acredito no jornalismo sem causa. Ou melhor, creio no jornalismo cuja causa é próprio jornalismo. Sem aposta, confete ou meia verdade. Utopia? Tomara. Assim conseguirem persegui-lo todos os dias da vida.

Mais vale faltar uma manchete do que manter uma manchete em falta...

Humildemente...

07 outubro 2009

A vez da editoria de esportes

Por Daniel Brito

Agora vão ter de levar a editoria de esportes a sério. Com Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil, não tem como não investir na área.

Por muitos anos a editoria sempre foi uma das menos prestigiadas nos jornais e emissoras de TV. Os salários mais baixos, os menores níveis de exigência, o menor destaque, e a menor mobilização.

Até porque esporte pode ser a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. O porteiro do seu prédio, o velho louco da banca de revista, o motorista do táxi, todo mundo sabe/pode comentar alguma coisa sobre esportes/futebol. Essa popularidade que deveria ser um ponto positivo acaba se tornando um aspecto negativo para o jornalismo esportivo.

Existe aquela convenção coletiva entre os chefões das redações que jornalista de esporte é aquele cara que só sabe falar de esportes. E que só é manchete o hardnews: "Flamengo vence com show de Adriano"; "Phelps fatura seu nono ouro em Pequim"; "Ronaldo marca e salva o Corinthians".

Num típico caso de estagnação jornalística. Nos tempos em que os figurões pensam em como fazer um jornalismo diferente para não repetir o que a internet já bombou no dia anterior, os homens da capa fazem com o esporte exatamente o que condenam: repetem o que a internet já bombou no dia anterior.

E aí o trabalho do repórter, de trazer uma informação a mais, de evitar cair no erro que está ferindo mortalmente os jornais, é subaproveitado. Enquanto isso, a notícia sobre a leve queda na bolsa de Xangai ou o jornalismo declaratório e espiral da editoria de política são hiper valorizados.

Com Copa e Olimpíada a história vai mudar.

Essa mania de tentar fazer um 'jornal diferente' com uma equipe de repórteres formada só por focas (mais barata, portanto) ou gente que não é do ramo corre o risco de virar 'comida de leões'.

Um país que recebe eventos desse porte não precisa ter 'somente' atletas e estrutura no mais alto nível internacional. É preciso ter uma imprensa bem preparada. Caso contrário passaremos o vexame de ver alguns furos (para o bem e para o mal) sendo dados por repórteres estrangeiros.

Veja o caso da China e da África do Sul.

No primeiro, a imprensa é controlada, então só foram veiculadas na mídia chinesa as notícias que o governo de Hu Jintao queria que o povo soubesse. Coube aos estrangeiros denunciar que a pequena cantante da cerimônia de abertura estava dublando e que a dona da bela voz havia sido barrada porque não se encaixava nos padrões estéticos que o governo chinês gostaria de passar.

Na África, não se vê notícias de desvio de verba ou superfaturamento de obras. Volta e meia vem à tona as greves dos trabalhadores e o atraso nas obras. Bom, para mim uma coisa está ligada à outra. Mas estabeleceu-se uma regra no país de que é anti-nacionalista falar mal da Copa do Mundo. Pelos mesmos motivos do Brasil: "Vai ser bom pra o povo africano, vai trazer desenvolvimento, finalmente".

Quando a imprensa internacional desembarcar em peso na terra de Mandela, vamos ver, ler e ouvir muitas histórias que foram abafadas pela mídia local. Falo isso porque passei o mês de julho inteiro lá e vi algumas coisas. Mas não tinha onde publicar...

Agora, na condição de jornalista de esporte, é preciso também fazer um mea-culpa.

Muitas editorias de esportes são um antro de acomodados. Torcedores travestidos de chefes que teoricamente teriam experiência para fazer um jornal diário. Gente que não consegue enxergar um palmo além do que lhe é oferecido como discurso oficial. Gente que se sente mais importante do que a própria notícia. De opiniões arcaicas. Que se trancam em seu sarcófago e fazem ali a próxima edição. Com ideias de 25 anos atrás. Que fazem um jornal de acordo com suas impressões pessoais. Que vê, nos colegas de repartição, concorrentes e não parceiros dispostos a fazer uma edição melhor. Que vão morrer acreditando que ninguém nunca fez nada melhor do que ele pôde pensar algum dia...

Se esse tipo de gente ainda estiver dando as cartas atééééé 2016, então, amigo velho, sinal de que o jornalismo esportivo não vai ter dado nenhum passo à frente em sete anos.

29 setembro 2009

Direto do túnel do tempo

Por Daniel Brito

Lá se vão 10 anos desde a primeira vez que minha carteira de trabalho foi assinada como jornalista profissional. A verdade verdadeira é que eu tinha o registro de locutor entrevistador mas podia atuar como repórter e apresentador de TV.

Foi na TV Borborema, afiliada do SBT na pequenina porém heróica Campina Grande. A emissora foi fundada por Assis Chateuabriand depois de trazer a TV para o Brasil e instalar a Tupi no RJ e SP. Como paraibano, Chatô se sentiu na obrigação de atender seu estado de origem e abriu a TV Borborema. Como o estado era ainda mais pobre do que é hoje, levou uns aparelhos e distribuiu entre as autoridades locais.

Isso foi entre a década de 1950 e 1960. Minha chegada na TV se deu trinta ou quarenta anos após a inauguração. Aliás, a maneira como entrei no quadro de funcionários foi motivo de revolta da classe jornalística campinense.

Meu pai era diretor dos Diários Associados na Paraíba e eu havia decidido, sete anos antes, quando ainda morava em Brasília, que gostaria de ser jornalista. Assim como ele. Iniciei devagarzinho na emissora de rádio, da qual ele também era diretor.

Até passar no vestibular e me mudar para Campina Grande. Os jornalistas de Campina Grande tinham uma certa razão em reclamar. Afinal eu tinha 18 anos, voz fina e jeito de adolescente. A TV carecia de repórteres (carece até hoje. Mais do que isso, inclusive) e, segundo os críticos, havia gente desempregada por minha causa.

Comecei nas reportagens para esportes. Sem nenhuma orientação ou indicação de como deveria ser feito ou deixado de fazer. Apenas alguns toques de que palavra incluir no texto ou como segurar o microfone. Havia muita boa vontade em ajudar, aquela ajuda informal, mas o temor por eu ser filho do diretor impedia as pessoas de me criticarem diretamente.

Às vezes, um comentário ali, uma opiniãozinha mais ácida ali, uma breve reprimenda acolá eram suficientes para que eu assimilasse algumas coisas. Neide Nascimento, Agnásio, Batatinha, Hoberdan, Wilton, Da Silva foram grandes mestres.

Comecei fazendo matéria de futebol, naquele feijão-com-arroz básico de Treze e Campinense. Aos poucos, fui buscando outros assuntos. Por falta de estrutura, virei repórter de cidades, se é que existe essa editoria em emissoras de TV na Paraíba. Com o tempo, virei quase animador de palco em programa sobre carnaval. O meu senso do ridículo evitou que eu partisse para coisas piores...

Dez anos depois, vejo com um misto de saudade, orgulho e vergonha de tudo que passei no jornalismo em Campina Grande. Vergonha porque eu era um cara recém-saído da adolescência com a responsabilidade de falar para muita gente, porque a emissora tinha um grande alcance na região, mas eu pensava que estava fazendo um vídeo para a TV da universidade ou qualquer outra coisa menos importantes. Talvez pelo mesmo motivo eu sinta saudade, porque não sabia da responsa e era feliz com minhas invenções. É aquela história do 'Só sei que nada sei'.

Se você for hoje a Campina e perguntar aos jornalistas que já estavam na ativa entre 1999 e 2002 sobre mim, eles vão rir da minha cara ou até mesmo me ridicularizar.

Com os olhos marejados, deixei a TV Borborema na tarde de 20 de novembro de 2002.

Por mais que tenha trabalho em alguns dos maiores jornais do país, tenha publicado textos no Globo, Estadão, Correio Braziliense, Estado de Minas, Diário de Pernambuco, tenha feito reportagens para Band e SBT, ainda tem gente que acredita eu só estou nessa por que meu pai era diretor da TV Borborema sete anos atrás.

O que é uma pena porque as pessoas não reconhecem que meu pai, em vez de me dar o peixe, me ensinou a pescar. Reconheço as baboseiras que possa ter feito nesse período de 10 anos desde 13 de setembro de 1999 e peço desculpas àqueles que por ventura eu possa ter ocupado o espaço na TV Borborema dez anos atrás.

Mas quero deixar registrado aqui que um dia eu volto. Para me redimir dos meus pecados...

19 setembro 2009

Ombudsman informal

Por Léo Alves

A Folha de São Paulo mantém em seu quadro de funcionários um ombudsman. Segundo o jornal “o ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação”.

Na pequenina e heróica Paraíba nenhum jornal tem ombudsman. Pelo menos eu não conheço. Os jornais são feitos à ótica dos editores. Existem os canais de comunicação com o leitor (em que pese sejam poucos utilizados ainda) para receber as críticas e sugestões, o que em alguns casos serve para mudar uma ou outra coisa no impresso.

Se os jornais não tem um profissional específico que possa comentar a postura do veículo em determinados assuntos sob a ótica do leitor que levem à reflexão e até mesmo mudanças, os impressos de Campina Grande contam com um ombudsman informal: o radialista, ou melhor, o âncora (ou os âncoras) dos radiojornais. Eles não são funcionários do jornal, mas são profissionais do meio jornalístico que diariamente comentam pelo menos as notícias de primeira página.

Há três meses o Diário da Borborema publicou na sua coluna Binóculo o tópico ‘Desrespeito’: “Tem coisas que só existem em Campina Grande. Tudo bem que a imprensa brasileira nunca foi unida. Mas, em nossa cidade chega a ser um desrespeito o que alguns companheiros que trabalham em rádio fazem com o pessoal do meio impresso. Ninguém tem o direito de macular a imagem de um jornal ou de um profissional, utilizando-se de um microfone só porque a matéria não lhe agradou. Corrigir no ar os erros alheios também não é muito ético”.

Não sei ao que (e a quem) se refere a crítica do jornal. Mas demonstra que o pessoal do impresso perdeu a paciência com os comentários dos colegas de rádio, que segundo a notícia tem o tom pejorativo.

Diariamente escuto os jornais no rádio campinense, que em sua maioria, se baseiam na leitura dos jornais do dia e de notícias da internet para levar as informações aos ouvintes. Como não existe equipe de produção nas rádios – salvo algumas exceções – o pessoal se vale do que já está pronto para conduzir um programa de cerca de três horas.

E mesmo se apropriando das notícias produzidas pelos impressos, na maioria das vezes os âncoras fazem comentários sobre as matérias. “Essa matéria a gente já trouxe ontem aqui no programa”, comentam. Uma constatação óbvia. O rádio tem como característica a instantaneidade. Tem por obrigação antecipar as notícias do jornal.

O grande problema é que muitas vezes os comentários tentam ridicularizar e até colocar em xeque a credibilidade do jornalista que escreveu a matéria.

Quando o rádio passa a noticiar a maioria das matérias que estão nos jornais há uma inversão. O detalhe é que o pessoal lê na íntegra a matéria do jornal, quando todo jornalista sabe que a linguagem do impresso é diferente do rádio. Não existe o famoso script (existem exceções, repito). Mas essa foi a solução encontrada pelos jornalistas para manter os programas no ar. O problema está na estrutura das equipes de jornalismo das rádios. Isso é assunto para o próximo post.

12 setembro 2009

Restrições na internet

Léo Alves

Primeiro foi a Folha de São Paulo. Agora a Rede Globo também criou limites para seus profissionais em relação a blogs e ao Twitter. A liberdade de falar de assuntos que não podiam ser expostos nos dois veículos passa a ter limitações. Os dois textos abaixo foram publicados no site Comunique-se (http://www.comuniquese.com.br/):

Folha cria regras para jornalistas usarem Twitter e blogs
Izabela Vasconcelos, de São Paulo

O jornal Folha de S.Paulo anunciou em comunicado interno, que os jornalistas e colunistas do veículo devem seguir algumas regras ao usar redes sociais, como Twitter e blogs. A recomendação, assinada pela editoria executiva, é que os profissionais não assumam opiniões partidárias, sobre qualquer candidato ou campanha, e também veda a publicação de conteúdo exclusivo, acessível apenas para assinantes do jornal.

Os jornalistas que quiserem citar alguma matéria exclusiva poderão fazer referência ao material, publicando o link para o acesso do conteúdo na íntegra. “Não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha”, explica o texto.

Um dos jornalistas da Folha aguardava pela decisão. “Já sabia que iriam fazer isso. Tinha muita gente abusando. Você não pode emitir opinião de uma matéria que você cobriu”, declarou.

Outro profissional do veículo também esperava esse tipo de orientação do jornal. “Esperava que adotassem uma medida nesse sentido, principalmente pelo direito autoral. A decisão não mudou em nada meu procedimento no Twitter. Eu não faço nada no Twitter que eu não faria na Folha”, revelou o jornalista, que acredita que o conteúdo exclusivo deveria ser liberado. “Seria bem mais proveitoso, mas essa é outra questão”.

Apesar de defender as orientações do jornal, o profissional afirmou que o veículo é rigoroso em relação à imagem dos jornalistas do grupo. “Excedem no rigor, tudo tem que pedir autorização, para entrevistas, palestras, enfim...".

TV Globo restringe uso de blogs,Twitter e outras redes sociais
Da Redação

A TV Globo divulgou um comunicado interno na noite desta quinta-feira (10/09), em que restringe o uso de blogs e redes sociais pelos seus contratados. A medida atinge tanto artistas, como jornalistas e outros profissionais da emissora.

“A divulgação e ou comentários sobre temas/informações direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas à Rede Globo; ao mercado de mídia e ao nosso ambiente regulatório, ou qualquer outra informação/conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Rede Globo são vedados, independentemente da plataforma adotada, salvo expressamente autorizada pela empresa”, informa o comunicado.

A Globo também exige autorização prévia para que os contratados possam ter blogs, Twitter e outras redes sociais vinculados a outros veículos de comunicação. “A hospedagem em Portais ou outros sites, bem como a associação do nome, imagem ou voz dos contratados da Rede Globo a quaisquer veículos de comunicação que explorem as mídias sociais, ainda que o conteúdo disponibilizado seja pessoal, só poderá acontecer com prévia autorização formal da empresa”.

A decisão gerou repercussão, mas até o momento somente artistas da emissora se manifestaram. A atriz Fernanda Paes Leme reclamou.“Não existe Arte sem liberdade de expressão!!”. “Blog, twitter ajudam o público a conhecer o artista por trás do personagem... eu vou continuar por AQUI!". Jornalistas procurados pelo Comunique-se informaram que ainda não haviam recebido o comunicado.

Apesar das restrições citadas, a Central Globo de Comunicação informou que não veda qualquer plataforma para o uso pessoal, mas que as ferramentas devem se limitar a isso. “A presença individual e particular dos nossos contratados deve se restringir, se desejada, exatamente a este universo, estando totalmente desvinculada da atuação na Rede Globo, nem tampouco associados a outros veículos de comunicação. Se essa separação clara não puder ser estabelecida, o uso dessas mídias fica inviabilizado”.

A emissora carioca alega que a medida tem o objetivo proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”.

05 setembro 2009

Experiência profissional

Por Léo Alves

Um profissional está na empresa há cinco anos. Nesse tempo desenvolveu atividades em diversas áreas, mudou de função, cresceu. Outro profissional está na mesma empresa há 15 anos. Porém fazendo a mesma coisa desde o dia em que chegou. Quem tem mais experiência?

Uma das definições de experiência profissional é “a bagagem de conhecimentos sobre uma profissão que alguém acumulou durante o tempo em que exerceu a profissão escolhida”. Fica claro que o primeiro exemplo é o mais experiente.

Mas o que se observa entre os profissionais é a confusão entre experiência e tempo de serviço. Para a maioria dos veteranos, experiência é tempo de serviço. Se não houver uma constante atualização o tempo de serviço só vai contar no FGTS.

No jornalismo não é diferente. É fácil escutar profissionais criticarem os jovens (muitas vezes mais capacitados e atualizados) pelo fato de eles não estarem há muito anos no batente. “Esse fulano chegou agora e pensa que sabe de alguma coisa”, resmungam.

A resistência aumenta ainda mais quando o novato tenta inovar. “Eu já faço isso há 20 anos desse jeito. Não tem lógica você que chegou agora querer mudar”, justificam os veteranos com a prepotência de quem se sente o dono da verdade.

O fazer jornalismo mudou, está mudando e vai continuar em constante transformação. Há duas semanas assisti a uma reportagem do hoje Ministro das Comunicações, Hélio Costa, feita da década de 70. Era sobre o “menino bolha”, dos EUA. Logo em seguida vi reportagens de décadas mais recentes. Uma linha do tempo que mostra a evolução da reportagem na televisão.

É preciso entender que com as novas tecnologias o público mudou. O profissional que não acompanhar essas mudanças e tendências se torna obsoleto. E como tem gente antiquada, retrógrada e arcaica nas redações achando que a forma de fazer jornalismo é a mesma de décadas atrás.

O interessante é que muitos veteranos tentam desqualificar o trabalho dos mais jovens afirmando que alguém só se torna um bom profissional depois de anos de trabalho. As redações tem muitos jovens talentosos. Talento não tem a ver com tempo de serviço. Os anos ajudam a desenvolver o talento, o que leva naturalmente a um crescimento profissional. Talvez seja por isso que há uma renovação nas redações.

Por coincidência, antes de começar a escrever este post deu uma passeada por vários sites. Num de João Pessoa, de Anco Márcio (ancomarcio.com) encontrei um tópico do autor que dizia: “Mesmo que você esteja há muito tempo no ar, nunca pense que está fazendo tudo certo e que todo mundo está gostando. Tudo na vida tem de ser reciclado, mudado, atualizado. Se parar,dança”. É a mais pura realidade.

Em tempo: não sou nenhum novato na profissão. Estou mais para um veterano que tenta (eu disse tenta) se manter atualizado.

25 agosto 2009

Sobre TV

Jurani Clementino*

Ligo a televisão e tenho a impressão de que nada de novo aconteceu. Nem em relação às notícias, que falam de antigamente, nem tão pouco ao fato de fazer TV. Mesmo com tanta insistência temos as mesmas caras de sempre, os mesmos textos vagos, as mesmas pautas que se repetem incansavelmente.

Talvez seja porque o produtor não pensou a pauta. A culpa é sempre dele. Ou porque quem sabe o repórter não compreendeu o foco da matéria e, por conseguinte o editor teve em mãos o resultado coletivo de uma incompreensão, ou seja, algo confuso, um produto deformado desde a sua gestação.

E o resultado dessa produção mal acabada, mal feita, deixa geralmente o apresentador com cara de idiota, animador de auditório, achando que está dizendo uma grande novidade. Se bem que novidade em televisão é coisa fora de moda. Foi-se o tempo dos flagrantes fantásticos e das reportagens exclusivas. Atualmente, a internet consegue ultrapassar a TV em anos luz no que diz respeito à velocidade da divulgação dos fatos. Mesmo não sendo uma ferramenta popular, a TV nem ousa mais em tratar determinadas informações divulgadas na internet como exclusivas. Simplesmente porque elas não são. E como se não bastasse a TV vem se tornando uma reprise de si mesma. Pautas e temas se repetem constantemente. E o pior são tratadas como novidades.

As fontes oficiais (secretários, presidentes, policiais, etc) dominam o noticiário com frases decoradas, institucionalizadas e cansativas. Parece que não há nada de novo para se mostrar. Com esta festinha institucional acreditamos sempre que estamos cumprindo o nosso papel como jornalistas. A notícia deve ser um produto nobre. Por isso precisa de um tratamento cuidadoso. Deve ser valorizada e respeitada desde o início do processo de divulgação que começa na feitura da pauta – roteiro a ser seguido.

Enquanto nos limitarmos a reproduzir as falas oficiais cumpriremos brilhantemente o papel de assessor de imprensa. Sem um tratamento ideal, adequado para transformar esta informação que chega dos gabinetes numa notícia útil, humanizada para quem está em casa, legitimamos a informação e tornamos os telejornais chatos, cansativos e pedantes.

O que está acontecendo? Será que falta ao meu amigo produtor o tempo necessário para uma boa produção? E ao meu estimado repórter foi privada/castrada a capacidade de criar, ousar? Será que os editores perderam a sensibilidade?

Troco de canal em busca de respostas e dou de cara com uma produção em série. Modelos que não são referência, mesmo assim, acabam sendo reproduzidos de maneira incansável. Estou à procura de contadores de histórias na TV. Algo raro. Queria ouvir e ver histórias que envolvem gente comum, desconhecidas. Histórias bem contadas com início, meio, fim e, acima de tudo, originalidade.

* Jurani Clementino é cearense, graduado em Jornalismo, Especialista em Comunicação e educação, Professor universitário e cronista. Atualmente faz Mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Estadual da Paraíba. Durante cinco anos trabalhou como produtor/editor do Jpb 1ª edição da Tv Paraíba, afiliada da Rede Globo em Campina Grande. O autor deve voltar a escrever neste espaço.

08 julho 2009

Ser chefe

Por Leonardo Alves

Chefiar uma redação vai muito mais além do que, digamos, definir a linha editorial. O editor não se preocupa apenas com as pautas, as reportagens e outros assuntos relacionados à essência do jornalismo. O chefe precisa entender de administração para fazer a redação andar. Afinal ele vai administrar pessoas, ou melhor, jornalistas, que em sua maioria tem por característica a vaidade.

E não é só isso. Escala de trabalho, definição de viagens, administração de despesas e ser o elo entre a direção da empresa e a redação fazem parte de suas funções. Ele também é quem administra os pedidos que vem de fora e as críticas da população. É algo parecido com um “Serviço de Atendimento ao Consumidor”, seja ele interno (os donos) ou externo (a população, políticos, empresários...).

Acredito que o grande desafio de um chefe é fazer com que a equipe se envolva com o seu projeto de trabalho. Só com envolvimento é que o repórter tem motivação para buscar boas reportagens. Mas na maioria das vezes são poucos repórteres que se envolvem. Boa parte está preocupada apenas em cumprir as pautas.

Não adianta o chefe ser super capacitado se não tiver poder de gerência, se não explorar o máximo de sua equipe, se não souber fazer com que cada profissional se doe para fazer boas matérias. Um chefe é como um treinador de futebol que precisa fazer todo o time jogar em busca da vitória. O detalhe é como num time existem aqueles que acham que a equipe só funciona bem por causa dele. Acha-se a pessoa mais importante (até mais que o chefe) da redação. É o atacante que leva em consideração apenas os gols dele, esquecendo-se das defesas do goleiro. É o jornalista que acha que alguém leu ou assistiu ao (tele) jornal por causa da matéria dele.

Ao chefe, como ao treinador, cabe administrar essa guerra fria de egos, que quando não é bem conduzida causa danos irreparáveis à redação. É preciso ter pulso firme para cobrar e, ao mesmo tempo, humildade para reconhecer e elogiar todo o esforço da equipe.

Fiz todo esse grande preâmbulo para dizer que as faculdades não nos preparam para um dia ser chefe. Alguém pode até dizer que isso se aprende com o tempo. O grande problema é que todo mundo que sonha em ser chefe procura aprender o máximo sobre jornalismo. Esquece-se, aliás, não foi orientado, que a chefia exige - no mínimo - conhecimento em jornalismo, administração e gestão de pessoas. Na verdade somos preparados apenas para ser repórter.

Vez por outra tento fugir das aulas planejadas para debater com meus alunos situações do cotidiano de um jornalista, que vão desde a relação com colegas de trabalho até questões éticas. Faço isso porque gostaria muito que um dia alguém tivesse me orientado sobre questões de hierarquia, postura profissional e outros assuntos. Talvez não tivesse cometido tantos erros. Como tive que aprender na prática...

Acredito muito hoje em dia que a formação na faculdade não deve se limitar apenas aos conhecimentos específicos da área. É preciso preparar o futuro profissional para as questões de relacionamentos pessoais no trabalho, a postura e acredito até que ele tenha que ser preparador para os “não” que vai receber antes de encontrar um emprego. Muita gente desiste no primeiro “não”. Os que perseveram na maioria das vezes tem sucesso.

Precisamos saber – e isso deve ser dito na faculdade – que o profissional não deve desistir nas primeiras dificuldades. Alguém pode até dizer que todo mundo sabe disso. Mas não é bem assim. Já vi alunos desmotivados com a profissão pelo fato de ainda não terem estagiado. E é preciso fazer com que ele volte a ter motivação.

Ainda bem algumas faculdades incluem (e outras estão incluindo) no seu currículo disciplinas como gestão de pessoas e gestão de empresas jornalísticas.

19 junho 2009

O caso do diploma

Por Léo Alves

Enquanto não concluo meu post (estou tentando assimiliar o fato) sobre a decisão - equivocada - do STF sobre a eliminação do diploma para exercer a profissão de jornalismo republico a coluna do Alberto Dines, no Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/):


DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Uma decisão danosa

Por Alberto Dines

Difícil avaliar o que é mais danoso: a crítica do presidente Lula à imprensa por conta das revelações sobre o comportamento do senador José Sarney (PMDB-AP) ou a decisão do Supremo Tribunal de eliminar a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. São casos diferentes, porém igualmente prejudiciais à fluência do processo informativo. E exibem a mesma tendência para o sofisma, a ilusão da lógica.

Fiquemos com a decisão do STF. Embora irreversível, não é necessariamente a mais correta, nem a mais eficaz. A maioria do plenário seguiu o voto do presidente da Corte, Gilmar Mendes, relator do processo, que se aferrou à velha alegação de que a obrigatoriedade do diploma de jornalista fere a isonomia e a liberdade de expressão garantida pela Constituição.

Para derrubar esta argumentação basta um pequeno exercício estatístico: na quarta-feira em que a decisão foi tomada, nas edições dos três jornalões, dos 29 artigos regulares e assinados, apenas 18 eram de autoria de jornalistas profissionais, os 11 restantes eram de autoria de não-jornalistas. Esta proporção 60% a 40% é bastante razoável e revela que o sistema vigente de obrigatoriedade do diploma de jornalismo não discrimina colaboradores oriundos de outras profissões.

No seu relatório, o ministro Gilmar Mendes também tenta contestar a afirmação de que profissionais formados em jornalismo comportam-se de forma mais responsável e menos abusiva. Data vênia, o ministro-presidente da Suprema Corte está redondamente enganado: nas escolas de jornalismo os futuros profissionais são treinados por professores de ética e legislação e sabem perfeitamente até onde podem ir.

É por isso que na Europa e Estados Unidos onde não existe a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, são as empresas jornalisticas que preferem os profissionais formados em jornalismo, justamente para não correrem o risco de serem processadas e punidas com pesadas indenizações em ações por danos morais.

O STF errou tanto no caso da derrubada total da Lei de Imprensa como no caso do diploma. E foi induzido pela mesma miopia.

18 maio 2009

Quase famosos

Por Daniel Brito

É compreensível que as pessoas queiram mostrar para amigos, colegas, colegas dos colegas, parentes, ou quem quer que seja, que é um profissional produtivo e está sempre ocupado. Mas daí a transformar o Orkut em diário de trabalho, dá um tempo, né?

Estou falando dos nossos coleguinhas (talvez até um dos autores deste blog, vai saber) que recheam o orkut com fotos do ambiente de trabalho. Aquela galera que se orgulha em postar uma imagem empunhando microfone de TV, fazendo cara de sério enquanto alguém famoso (ou quase famoso) dá entrevista, ou dando uma de tiete mesmo, na cara dura, com alguém famoso (ou quase famoso).

Para mim, todas aquelas fotos de jornalista em ação no orkut são puro deslumbre e só comprovam a tese de que cada vez mais gente entra na profissão para aparecer e não para prestar um serviço.

Pode falar que é amor ao que faz, pode dizer aquela balela de 'o trabalho dignifica', mas porque será que esse mal atinge em cheio aos jornalistas?

Você, usário do orkut, já viu algum neurocirurgião postar uma foto dele na rede durante um processo cirúrgico? Ou um engenheiro postar um cáclulo de matemática inexata e se gabar de ter completado a questão? Tá, tudo bem, vamos facilitar: um nutricionista, um tabelião, um oficial de justiça, um motorista de ônibus, um arquiteto...qualquer coisa!

Mas não. Jornalista tem que propagandear seus passos:

- No dia em que o presidente Lula respondeu minha pergunta na coletiva;
- Vida de jornalista é fogo: acidente da TAM. Esse dia foi demais!;
- Eu, fazendo a passagem;
- Entrevistando Tonho da Venta, em Sucupira.

Talvez minha crítica possa soar rancorosa, principalmente porque ela é direcionada não só aos jornalistas 'aparecidos', mas ao próprio Orkut. Sim, porque no Orkut ninguém é triste, depressivo, infeliz.

Ninguém coloca uma foto lá com umas legendas profundas, tipo:

- Euzinha, no dia que fui demitida;
- Esse dia foi triste, quando descobri que minha tia avó tinha câncer no cólo do útero;
- Ai como tô horrível nesta foto;
- Odeio gente que sorri em foto;

Bom, dá para passar o resto da vida sugerindo anti-legendas para o Orkut.

Mas para mim, não adianta vir com essa idéia de que jornalista tem de mostrar seu trabalho. É, mas não no orkut.

Bueno, para não ser injusto, deixa eu citar algumas situações que não merecem a crítica deste post. Como a história do web designer que conheci. Ele colocou a foto dele em situações absurdas e postou no orkut. Um lance criativo e diferente, e até auto-crítico, porque ele colocou, propositadamente, sua imagem da maneira mais mal feita possível, para brincar com o próprio trabalho.

E tem a história do maluco que cobre política. Ele recolheu umas seis fotos em que apareceu de papagaio de pirata nos jornais com cara de monstro, olhos semi cerrados ou nitidamente perdido, e colocou no orkut. Em metade delas, não dá nem para ver que o cara tá na foto mesmo. Mas foi uma idéia legal. Sutilmente informativo.

Ou o fotógrafo que encheu seus álbuns com fotos de jornalistas trabalhando. É uma espécie de 'arte de fazer um jornal diário'. Não havia ninguém em maior destaque, eram imagens históricas em momentos importantes, como a Assembléia Constituinte de 1988, os caras-pintadas de 1992, morte de Senna, 1994, eleição de Lula, entrevista com o treinador da Seleção Brasileira e por aí seguia o álbum.

Também não condeno as fotos com companheiros de trabalho. Motorista da empresa, cinegrafista, fotógrafo...são companheiros de trabalho mas podem ser amigos, portanto, têm motivos para entrar nos sempre felizes álbuns do Orkut.

Bom, preciso confessar, também, que eu mesmo já caí nesta armadilha do deslumbre, uns três anos atrás. Era uma ocasião super especial, cobertura de um mega evento.

Mas para não ficar como o 'aparecido' da história, criei um fotoblog e ainda coloquei algumas histórias aqui no FIlhos da Pauta, que é um espaço totalmente diferente do Orkut, porque é voltado para o jornalismo e ...nao tem mais que 30 acessos únicos diários.

08 maio 2009

A mídia e as bravatas

Pedro Henrique Freire

Não gosto de políticos. Por um simples motivo: eles mentem. Faz parte da essência política, de sua desenvoltura. Mentir, fingir, teatralizar é a maneira que eles tem de sobreviver. Esqueçam outra alternativa. Não adianta tentar ser um político diferente. Se insistir nisso, for sincero demais e tentar quebrar paradigmas de sopetão, será engolido.

Exemplo recente: deputado Silvio Costa (PMN-PE). No escândalo das passagens do Senado, defendeu as viagens para suas mulheres. Tudo pelo bem do seu casamento. Fez isso abertamente. Assim como o maranhense Pedro Fernandes (PTB), que discursou na Câmara admitindo que deu passagem a quem lhe pediu.

Conheço os dois do tempo em que cobri Congresso Nacional, em Brasília. Costa sempre foi um dos nomes mais polêmicos do baixo clero. Tudo porque sempre tentou falar a verdade, admitindo aquilo que os outros deputados não teriam coragem de falar em público.

Fernandes é mais afeito a articulações. Tem paciência, com a imprensa e com os pares. Mas também defende posições firmes e polêmicas como o nepotismo (ele tinha familiares no gabinete, os considerava competentes e assíduos e, portanto, não vê mal nenhum em empregar parentes) e a flexibilização no uso das passagens.

No tititi mais recente da Câmara, a dupla resolveu falar a verdade. Não deu outra. Foi para o paredão, com direito a segundos no Jornal Nacional. A maioria dos deputados, que defende o uso indiscriminado - ou flexibilizado - de passagens como os dois ai, ficou na moita, fugindo da imprensa, evitando comentar o assunto. Mas eles estavam estufando o peito e sendo sinceros.

Confesso. Por aquilo, admirei-os porque tiveram coragem de dizer o que a maioria ali nunca teve nem nunca terá. Admirei-os não pela forma, mas pelo procedimento. Foram sinceros. Ao acompanhar a repercussão, vi logo que iriam se arrepender. Não deu outra. Costa mudou de idéia sobre levar a mulher em todo voo que pegar. E Fernandes disse que foi mal interpretado.

Pra mim, fica a pergunta: e a mídia, ajudou a moralizá-los ou a continuarem mentindo e omitindo suas opiniões?

30 abril 2009

Na onda do linfoma da Dilma

Pedro Henrique Freire

Qualquer campanha quer sensibilizar para convencer. Seja eleitoral, ambiental, comercial. Nossos políticos, sabidos do jeito que são, se utilizam por vezes de ferramentas que balançam na corda bamba do antiético para sensibilizar e, no final, ganhar votos. Uma dessas artimanhas irresponsável, porém, eficiente, é utilizar o sofrimento humano como cabo eleitoral.

Conheço um deputado que se elegeu com pouco mais de 20 anos de idade após seu pai ter sido assassinado a tiros no meio de uma cidade no interior do Maranhão. O pai, um político famoso. Ele, um rapazote que mal sabia falar (até hoje não sabe direito). Após o crime, tirou umas fotos e colocou seu número nas urnas, pedindo ajuda para fazer a justiça pelo pai morto. Resultado: foi um dos federais mais votados em 2006.

Na reeleição de 1998, a hoje (pela terceira vez) governadora do Maranhão, Roseana Sarney, mal fez campanha. Estava doente. Curava-se de um câncer (outro). Na época, não saiu às urnas, não pediu votos esbarrando ou cumprimentando eleitores. Bastou aparecer na televisão, envolta em uma boa campanha de marketing que lhe apontava como uma "guerreira", sofrida, lutando para sobreviver e para "melhorar a vida do povo maranhense". Resultado: levou no primeiro turno, de lavada.

Agora, aparece no Brasil a pré-candidata preferida do Lula, Dilma Rousseff. Está com câncer linfático. Coisa sério, mas nem tanto, se comparada ao do seu colega de república José Alencar, o vice de Lula. Como descobriu no começo, o linfoma dificilmente irá matá-la. Mas vai ajudá-la a ganhar alguns votos.

Sabida do jeito que é, tratou de divulgar a doença para sensibilizar a mídia e o eleitorado. Tudo com ajuda do presidente Lula. Está conseguindo. Sobretudo porque conta com a ingenuidade dos meios de comunicação. Podem reparar. Todos caíram nas graça do linfoma da Dilma. Todos os dias falam nisso na TV, nas rádios e jornais. E perguntam ao Lula. E perguntam aos ministros. Até o Dirceu sentiu pena da sua substituta na Casa Civil.

Deram audiência a sua doença e estão ajudando a elegê-la em 2010. Coincidência ou não, o Data Folha saiu às ruas dois dias depois do Brasil saber que a "madrinha do PAC, preferida do Lula e pré-candidata à presidência" estava com câncer.

24 abril 2009

Retroceder nunca. Render-se, jamais!

Por Daniel Brito

Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:

- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?

Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.

- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...

O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.

É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.

Tudo é motivo para desmoroná-la:

Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...

Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.

Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).

Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.

O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:

- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.

Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?

Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.

Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.

Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.

Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.

Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.

Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!

16 março 2009

Testemunhas da história

Por Léo Alves

Era dia 17 de fevereiro quase 20h30. Entro na sala 20 minutos atrasado para da aula de Técnica de Entrevista e Reportagem. A maioria dos alunos está com o fone no ouvido. Todos acompanham pelo rádio o julgamento pelo TSE dos embargos declaratórios do então governador Cássio Cunha Lima.

Também acompanhava o julgamento, mas pela tevê, motivo que me fez chegar atrasado à universidade. Era o dia do voto do ministro Arnaldo Versiani, que tinha pedido vistas no processo de cassação do governador. Naquela noite o destino político da Paraíba poderia ser decidido com a confirmação ou não da cassação do mandato de Cássio.

Por mais que me esforçasse não conseguia envolver os alunos (nem eu conseguia) com o assunto da aula. Vez por outra surgia um comentário, uma parcial sobre os votos dos ministros que acabaram por confirmar (por unanimidade) a perda do mandato do governador. No meio da votação, sem clima para a aula comentei:

- Nós estamos acompanhando um momento histórico. Independente do resultado do julgamento. Nós jornalistas somos historiadores que escrevem a história na medida em que ela vai acontecendo.

- Professor, que interessante. Nunca tinha olhado por esse ângulo. Essa frase é sua? , questionou uma aluna.

- Éééé...não sei acho que sim. Não, acho que não. Bem. O importante é termos a noção que estamos escrevendo para a história porque daqui a dez, vinte anos quando alguém for pesquisar sobre essa cassação vai se basear no que os jornais escreveram, no que nós escrevemos. Daí a nossa responsabilidade.

Fiquei confuso em responder se a frase era minha porque no fundo eu apenas resumi o que o grande Pedro já tinha abordado, mesmo que de forma menos específica, no post Sobre a Verdade.

Se olharmos para o futuro teremos uma pequena noção de que como será difícil saber se os registros dos jornais são verdadeiros. Não diria que são mentirosos. Mas é comum ver duas interpretações para a mesma notícia. E lógico que isso está relacionado a fatos políticos. Se o jornal é ligado a um grupo político ele vai trazer a notícia (de certa forma) beneficiando seu aliado. Se o jornal não é a notícia vai trazer tudo que é de ruim relacionado ao assunto.

Já imaginou como será alguém que não viveu a história saber onde (em qual jornal) está a verdade?

O trabalho do jornalista vai além de escrever notícias. Ele escreve também a história.

11 março 2009

Dinheiro na internet

Por Léo Alves

Tenho um texto pronto, mas decidi não publicá-lo agora (será o próximo) porque nos comentários do post anterior o grande Mário levantou uma questão sobre a internet, que é o fato de que ninguém (ou quase ninguém) saber ganhar dinheiro com jornalismo na rede. Quando li o texto a seguir (na internet, lógico) achei que se encaixa no tema e pode ser uma saída para fazer dinheiro na net. O texto é de Carlos Castilho, publicado no Observatório da Imprensa:

Projeto inovador testa fórmula para a sustentabilidade financeira no jornalismo online

Carlos Castilho em 1/3/2009


Uma despretensiosa experiência de financiamento de páginas noticiosas na Web começa a atrair a atenção tanto dos weblogs individuais como dos grandes jornais que publicam notícias na internet.

Trata-se do projeto
Kachingle, cuja meta é criar uma ponte entre a cultura da gratuidade, predominante entre os internautas, e a sobrevivência financeira, tanto de páginas individuais como de sites de empresas jornalisticas de grande porte.

A busca da sustenatibilidade financeira desafia as cabeças pensantes da internet porque, até agora, quase todas as experiências de pagamento de notícias online não deram certo e tiveram que ser abandonadas.

O Kachingle (uma palavra que não está nos dicionários) cria um sistema onde o usuário abre uma conta em dinheiro e vai distribuindo pagamentos pelos sites que visita conforme suas preferências e necessidades. Os pagamentos são feitos quando o usuário clica no ícone do projeto na página visitada. O valor é imediatamente abatido da conta.

A primeira vista o sistema parece ingênuo e até utópico. Mas sua criadora, Cynthia Typaldos, uma experiente desenvolvedora de softwares e iniciativas comunitárias na Web, conseguiu atrair a atenção de quase todos os executivos de comunicação numa apresentação que ela fez do projeto na
Public Media Conference, agora em fevereiro, em Atlanta, na Georgia (EUA).

O lançamento do Kachingle acontece num momento em que a discussão sobre a sustentabilidade de projetos jornalísticos na Web norte-americana tornou-se o tema de quase todos os weblogs e páginas voltadas para a cobertura da crise na imprensa dos Estados Unidos.

O modelo desenvolvido por Cynthia Typaldos baseia-se na combinação de um software relativamente simples com tendências comportamentais dos consumidores de notícias na Web. Esta é a grande incógnita do projeto, porque seu sucesso vai depender basicamente da capacidade de captar atitudes dos internautas e adequar-se a elas.

A esmagadora maioria dos usuários da Web em todo mundo segue a cultura da gratuidade, principalmente em matéria de notícias. É uma conseqüência da avalancha informativa que criou uma sobre-oferta de informações, o que reduziu o seu preço a quase zero, seguindo as leis clássicas da oferta e da procura.

Isto criou um dilema para as empresas jornalísticas e também para os weblogs individuais. As empresas já não têm mais dúvidas de que devem investir na internet porque ela é o ambiente para a circulação de dados, fatos e notícias. Mas elas não conseguiram desenvolver até agora nenhuma fórmula capaz de conciliar a avalancha informativa com sustentabilidade financeira.

A criadora do Kachingle admitiu que seu projeto visava inicialmente oferecer uma alternativa financeira para os weblogs, sem ter que obrigar os usuários e fazer dezenas de assinaturas ou passar pelo aborrecimento de pagar por cada página que chamar a sua atenção. Está má vontade ficou clara com o fracasso dos projetos de micro-pagamento feitos por jornais como o The New York Times, que abandonou, após sete meses de experiências, a cobrança para a leitura de seus cronistas especializados.

A iniciativa ganhou as manchetes dos sites especializados depois que os jornais passaram a vê-la como uma opção também para a grande imprensa online.

As pesquisas recolhidas por Cynthia Typaldos, ao longo dos seus quase 15 anos de trabalho com projetos comunitários na Web, indicam que os usuários aceitam pagar por aquilo que consideram importante desde que o custo seja razoável e que o pagamento não seja uma operação complicada.

Os internautas retribuem financeiramente as iniciativas com as quais eles se identificam, como ficou materializado nos resultados surpreendentes na coleta de fundos nas campanhas eleitorais de Howard Dean e Barack Obama, em 2004 e 2009, respectivamente.

O Kachingle é um aplicativo baseado também na teoria do crowdsourcing. O valor médio das contas de cada usuários deve ficar em torno dos cinco dólares por mês, segundo estimativa de Cynthia. O valor recebido por cada página visitada pode ser estimado em centavos, mas se levarmos em conta que a tendência é o crescimento exponencial no número de pessoas conectadas à Web no mundo inteiro, a soma dos centavos pode alcançar valores expressivos.

O pagamento é voluntário e o acesso à página não está condicionado a nenhum tipo de contribuição. Se adotarmos a lógica usual, fica difícil acreditar que as pessoas paguem por algo que podem obter de graça. Mas o comportamento dos usuários da Web não pára de gerar surpresas que contrariam todas as rotinas e valores tradicionais. O Kachingle aposta nesta perspectiva.

27 fevereiro 2009

Duas realidades

Por Daniel Brito

Os jornais dos Estados Unidos agonizam. Os brasileiros, comemoram recordes de vendas. Lá, eles debatem fórmulas de como voltar a atrair os leitores. Aqui, só se pensa em maneiras de conseguir mais dinheiro do governo.

Até o jornal mais influente do mundo, o New York Times, sofre com a crise do mercado. O Chicago Tribune está para pedir concordata. Com ele, iria o Los Angeles Times, que é do mesmo grupo. Bem mesmo, nos Estados Unidos, está o Wall Street Journal. Coincidência ou não, ele é voltado para o mercado financeiro.

O Brasil registra o boom dos jornais populares. Baratos, de leitura fácil, rápida e de conteúdo diversificado. Há alguns anos eles vendem mais que os grandes, Folha, Estado, Globo, e inspiram a criação de mais jornais neste estilo.

Um ex-editor da revista Time, nos Estados Unidos, acredita que o problema dos jornais impresso dos EUA é a internet. Ele propõe deixar de lado esse blablablá de que os impressos precisam mudar e sugere uma criação de um Inews: uma espécie de Ipod de notícias. Não o aparelho em si, mas a venda de notícias por centavos. Você entra no site do NYT e vê uma manchete sobre o Afeganistão que te interessa? Clica lá, paga X centavos pela notícia e lê.

Os leitores estão sendo cada vez mais esquecidos no processo jornalístico "verde-amarelo". O que importa hoje é faturar. Como a iniciativa privada não é suficiente para bater metas orçamentárias, o grosso da receita dos jornais vem dos cofres públicos. Mas essa verba não vem em forma de anúncios, e sim de artigos jornalísticos, reportagens assinadas e tidas como verdadeiras. Muitas vezes são verdadeiras, mas só interessam a quem está pagando. O jornal deixa de prestar um serviço ao leitor e por consequência à cidade, e passa a se transformar num balcão de negócios. Loteando e revendendo linhas do jornal para propaganda do governo.

O NYT escandalizou seu público ao estampar um anúncio na capa do jornal. Jamais o jornal havia permitido o departamento comercial "contaminar" o jornalístico em sua área mais nobre, a capa do jornal. Mas ou era assim, ou rolava demissões. Os jornalistas entenderam. Aparentemente. Já os leitores...

Assim como no Brasil, os jornais do Reino Unido e da Espanha também registraram aumento na tiragem e publicidade nos últimos anos. Diferentemente daqui, eles fazem um trabalho efetivo visando a convergência de mídias. Estão aí as versões on line do Telegraph, do El Mundo e do Guardian para não me deixar mentir. No Brasil, o máximo que se faz é repetir conteúdo do impresso ou apresentar um áudio ou um vídeo na internet (repetitivos) para dizer que está se adaptando à nova realidade.

Como se vê, o cenário jornalístico internacioal está bem polarizado.

Resta saber qual dos lados é mais cruel.

11 fevereiro 2009

Corrida pela informação

Por Léo Alves

A internet exige informação rápida. Nem que a notícia tenha poucas linhas sobre o assunto. O ideal é não levar furo.

Essa corrida desenfreada pela notícia faz com que, vez por outra, apareça uma barrigada nos portais. Quando isso acontece na maioria das vezes o editor muda a notícia para a versão correta. E só quem percebe o “erro” são os leitores que viram as duas versões.

Os portais de notícias também colocam em xeque os outros veículos. É comum o repórter (seja de tevê ou de impresso) ser questionado sobre uma informação que está num site e ele não trouxe na matéria. Na maioria das vezes acontece que ao ir ao local do fato o repórter descobre que as informações publicadas no portal são inverídicas.

Só para exemplificar. Semana passada um portal paraibano publicou que bandidos haviam roubado o Banco do Brasil de uma cidade do interior e na fuga teriam deixado cair malotes com o dinheiro. Cheguei à redação:

- Pessoal vamos checar uma informação. Acho que levamos um furo ‘brabo’. Roubaram o BB da cidade de Arara e os bandidos perderam parte do dinheiro na fuga. Vamos atrás.

Minutos depois, uma produtora traz a resposta:

- Realmente houve um roubo na cidade. Mas foi a uma casa lotérica. E roubaram somente 1200 reais.

Uma história bem diferente da publicada.

No meio da semana uma prova de fogo para todos na redação. Um jogador do time do Esporte (da cidade de Patos) havia desaparecido. O pai encontrou a camisa e o carro do atleta na margem de açude do sítio da família. Suspeita de afogamento.

A notícia que deveria ir ao ar (no caso da tevê) era sobre o desaparecimento do atleta e da presença do Corpo de Bombeiros no açude procurando o corpo.

Perto de 11h recebemos a informação do fato. Cinco minutos para o jornal (que começa às 11h10) conseguimos gravar um áudio tape. Logo em seguida começaram as ligações para saber se o corpo ainda não havia sido encontrado. Segundo eles todos os sites publicavam que sim. Teve até uma informação (por telefone) de que o corpo já estava sendo velado.

Segurei a informação de que as buscas continuavam, mas nenhuma novidade. Seguindo a norma do “confiar, desconfiando”, colegas pediram uma checagem mais apurada. E continuaram até eu dizer que se o corpo havia sido encontrado os pais ainda não sabiam, pois eles estavam ao lado da nossa repórter.

Por volta das 15h os sites já se retratavam da barrigada com a notícia de que “Bombeiros e o Departamento de Medicina desmentiam que o corpo tinha sido encontrado”.

Somente quase 24 horas depois o pai encontrou o corpo do filho boiando no açude.

Embora todas as evidências levassem para um afogamento a morte só poderia ser confirmada com o achado do corpo.

A internet tem a possibilidade de publicar uma informação e depois corrigi-la. Não é correto. Mas acontece.

O jornal é fechado à noite. No caso em questão, o pessoal teria toda a tarde para apurar a informação.

Bem diferente de tevê que não teria como corrigir uma informação errada que fosse ao ar.

Boa parte da imprensa matou o jogador antes da hora.

Já imaginou se o rapaz aparecesse vivo?

Às vezes é melhor arriscar levar um furo e dar uma informação segura que cometer uma barrigada.

Corrigir o erro sempre afeta a credibilidade.

03 fevereiro 2009

Quem aceita crítica

Por Daniel Brito

Aqueles que mais destilam suas críticas são os que menos aceitam críticas. Sim, os jornalistas são avessos a comentários contra seu próprio trabalho.

Alguma coisa neste sentido já foi dita dois posts atrás, sobre a vaidade jornalística.

Eu mesmo passei por uma situação semelhante há dois anos, aqui neste blog. Fiz um comentário sobre o vencedor do Prêmio Esso de 2006 inocente, sem segundas intenções, sem duplo sentido. Apenas um relato da conquista do prêmio, e recebi um comentário anônimo pedindo para eu me explicar melhor.

Fiquei p*to da vida e rebati o comentário. De réplica e tréplica, o post chegou a 14 comentários, quase um recorde para esse humilde e (agora) esquecido espaço. Em uma das respostas do anônimo, ele disse "Daniel, acompanho o blog há algum tempo e não fiz crítica alguma ao seu texto, apenas pedi para que sua opinião fosse um pouquinho mais aprofundada".

É difícil ver jornalistas que seguram a onda diante de críticas. Eu mesmo, nesta história do Esso, me embananei todo com as idéias e com a pressão dos anônimos. Comecei a escrever errado, a falar besteira, mesmo reforçando que estava apenas contando uma história e não julgando a conquista de ninguém.

Anyway, ainda há os que gostam de brigar. Partem para a agressão verbal, às vezes física, diante dos comentários negativos sobre seu material publicado.

Não entender e não dar ouvidos aos críticos faz parte daquela máxima jornalística cujos problemas do jornal são "os leitores e os anúncios".

Uns quatro anos atrás, mandei um email para um jornal da Paraíba reclamando que a repórter confudiu as bolas e errou informações. Era para falar sobre alhos e ela escreveu sobre bugalhos. O editor do jornal me respondeu rispidamente com as seguintes palavras:

"É incrível como as pessoas gostam de se meter em certos assuntos..."

A culpa era minha por apontar o erro.

Acontece muito com produtos recém-lançados. Há todo um planejamento de marketing, estudo de mercado e tendências do público para que aquele jornal ou programa de TV seja lançado da melhor maneira possível. Aí vem uma cartinha para o editor dizendo que o jornal é apelativo ou sei lá qualquer coisa que não fora prevista no estudo dos marqueteiros.

A redação se desespera com o comentário e nos dias seguintes toda pesquisa de campo pré-lançamento vai por água abaixo. Por quê??? Uma alma bondosa se pronunciou sobre o produto.

Até cinco, oito anos atrás, quando os blogs jornalísticos não eram tão populares, a distância do repórter para o público era infinita. Não se via, não se ouvia, não se lia nada do lado de lá, para quem interessa a notícia. Era preciso contar com a disposição do leitor de escrever uma carta, ir ao correio, mandá-la para a redação e torcer para ser publicada. Se fosse crítica, não seria compreendida.

A história está bem diferente hoje em dia. Graças à internet, o público se sente na obrigação de participar do processo. Não só criticando, mas sugerindo, cobrando, indicando, perguntando, respondendo...

Eu, como jornalista, ainda tenho dificuldades em assimilar as críticas. Mas ainda assim gostaria de contar com elas sempre.

27 janeiro 2009

A arte de fazer um jornal diário

Por Daniel Brito

Política
O _______ (presidente/governador/prefeito) assinou hoje um convênio que vai _______ (beneficiar/prejudicar) aproximadamente _____ (10/ 100/ um milhão) de moradores de ______ (João Pessoa/ Brasília/São Luiz/São Paulo) na área de _______ (saúde/educação/segurança).


Cidades
Uma carreta ______ (tombou/bateu/saiu da pista) na tarde de ontem na _______ (Marginal Pinheiros/EPTG/BR 230) e deixou o trânsito congestionado. Com a batida, _______ (1/2/3/5/9) pesssoas ______ (morreram/ficaram feridas) e _______ (1/2/3/5/9) pesssoas (morreram/ficaram feridas).


Cultura
O _______ (espetáculo/filme) entra em cartaz _______ (hoje/amanhã/depois) na cidade. Ele conta a história de _________ (um casal apaixonado/uma briga entre famílias/uma criança pobre abandonada) que luta para _______ (viver um grande amor/ manter a honra da família/para não morrer de fome). O ______ (espetáculo/filme) tem a direção de _______ (Walter Avancini/Ivan Padilha/José das Couves).


Esporte
O Estádio _________(Morumbi/Mineirão/Ilha do Retiro/Almeidão) será palco hoje do jogo entre __________(São Paulo x Palmeiras/Atlético-MG x Cruzeiro/Sport x Náutico/Botafogo-PB x Auto Esporte). A partida é válida pela ______ (1/2/3/4/5/6) rodada do campeonato estadual. Os dois técnicos tem desfalques.


Viu como é fácil fazer um jornal diário?
Basta preencher as lacunas...

25 dezembro 2008

Da vaidade jornalística

Por Daniel Brito

A maior causa de mortes entre os jornalistas é o suicídio. Quando eles se atiram do alto do próprio ego.

Superestimar a profissão e sua posição dentro dela é quase que uma questão de sobrevivência. Aparece mais quem se vende melhor... (talvez por isso a gente mantenha este blog...ou não!!!!!)

Como jornalista só anda junto, não é raro participar de um papo no qual o assunto principal são as proezas pessoais.

Nesta hora, amigo velho, tudo conta. Desde a sua pergunta feita na coletiva de imprensa cuja resposta acabou virando manchete em todos os jornais, até o caso extremo de derrubar ministro, senador, governador por intermédio de seu esforço de apuração/investigação. Já houve até quem me reclamasse que leitores de jornal não prestam atenção no nome de quem assina as matérias.

O orgulho do furo dado marca a vida do jornalista. Independentemente do tamanho. Foi furo? Vira uma longa história para repórteres mais novos ou amigos de bebedeira pós-plantão. Ou posts...

Dia desses, joguei duas iscas e pesquei dois peixes gigantescos.

Entrei no blog do repórter X e comentei, com desdém, de um furo que ele se gabava de ter publicado naquele dia. Coloquei meu nome lá e tudo mais, mas sem sobrenome e meu outro email. Sem me esconder, fui lá e tasquei:

- Olha, X, se esse 'furo' for uma barrigada, você vai se retratar no jornal.

Eu, como jornalista que sofre do mesmo mal, tinha certeza de que eu estava certo e fui lá na casa do cara provocá-lo. Ele respondeu rispidamente:

- E se eu não estiver errado, Daniel, o que você vai fazer?

Dias mais tarde, o tal do furo virou um tremendo de um track e voltei ao blog do camarada, desta vez com "possidônios" (leia-se: pseudônimos), para cobrar a história. Na primeira vez que comentei, X tentou se justificar. Na segunda, não respondeu. Na terceira, nem autorizou a publicação do comentário.

É difícil admitir que errou.

O outro peixe que peguei foi com um repórter do mesmo veículo de X. Era a primeira vez que conversávamos. Atuamos na mesma área e ele rolou a bola para eu contar a história de um único furo que eu dei na vida.

Inteligentemente (às vezes eu calculo bem meus movimentos. Às vezes) citei minha história sem auto-propaganda, mas no meio da minha explicação o concorrente soltou essa:

- Ah, sim, eu dei esse furo...

Quer dizer, a história eu publiquei primeiro. Ele, duas semanas mais tarde. Mas o repórter rival tomou para si o furo e ainda veio me dizer que era furo dele.

Eu vibrei com essa declaração. Era o argumento que faltava atualizar este blog com a tese da vaidade.

Estou para descobrir qual jornalista não sofre deste mal.